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	<title>Arquivos Personalidade - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos Personalidade - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Crescer dói?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/crescer-doi/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Paula Borba dos Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Mar 2026 21:51:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Desenvolvimento da personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[cg jung]]></category>
		<category><![CDATA[crescer]]></category>
		<category><![CDATA[desenvolvimento da personalidade]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[red: crescer é uma fera]]></category>
		<category><![CDATA[self]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A partir de uma leitura simbólica do filme Red: Crescer é uma Fera, este texto busca explorar a pergunta “crescer dói?”. A animação narra a jornada de Mei, uma adolescente que se transforma em um panda vermelho sempre que suas emoções transbordam. Partindo da ideia de que o amadurecimento só se torna possível por meio das relações que estabelecemos com o outro e, sobretudo, por meio do diálogo honesto com as emoções que nos atravessam, a análise utiliza a narrativa da Pixar como pano de fundo para refletir a respeito de quanto o crescimento psíquico exige confronto, coragem e vínculos verdadeiros. Entre rituais de contenção, expectativas parentais e a busca por autenticidade, o filme se revela como uma metáfora potente sobre a força transformadora dos relacionamentos e sobre a importância de libertarmos aquilo que, por medo ou lealdade, mantemos aprisionado dentro de nós.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/crescer-doi/">Crescer dói?</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>RESUMO: </strong>A partir de uma leitura simbólica do filme <em>Red: Crescer é uma Fera</em>, este texto busca explorar a pergunta “crescer dói?”. A animação narra a jornada de Mei, uma adolescente que se transforma em um panda vermelho sempre que suas emoções transbordam. Partindo da ideia de que o amadurecimento só se torna possível por meio das relações que estabelecemos com o outro e, sobretudo, por meio do diálogo honesto com as emoções que nos atravessam, a análise utiliza a narrativa da Pixar como pano de fundo para refletir a respeito de quanto o crescimento psíquico exige confronto, coragem e vínculos verdadeiros. Entre rituais de contenção, expectativas parentais e a busca por autenticidade, o filme se revela como uma metáfora potente sobre a força transformadora dos relacionamentos e sobre a importância de libertarmos aquilo que, por medo ou lealdade, mantemos aprisionado dentro de nós.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-filme-red-crescer-e-uma-fera-2022-e-uma-animacao-da-pixar-sensivel-e-envolvente-que-conta-a-historia-de-mei-lee-uma-adolescente-de-13-anos-que-vivencia-descobertas-e-tensoes-tipicas-desta-etapa-da-vida" style="font-size:18px">O filme <em><strong>Red: Crescer é uma Fera</strong> (2022)</em> é uma animação da Pixar sensível e envolvente que conta a história de Mei Lee, uma adolescente de 13 anos que vivencia descobertas e tensões típicas desta etapa da vida.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Enquanto é surpreendida por mudanças latentes no corpo e no humor, ela também precisa lidar com sua família e com as heranças transgeracionais que compõem sua história. Mais do que uma trama sobre adolescência e seus ritos de passagem, é um convite para observarmos o poder transformador de nos relacionarmos com o outro e com as emoções que nos atravessam a partir desses encontros.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-a-partir-desse-pano-de-fundo-que-este-texto-se-propoe-a-investigar-a-pergunta-titulo-crescer-doi" style="font-size:20px">É a partir desse pano de fundo que este texto se propõe a investigar a pergunta título: crescer dói?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A narrativa apresenta Mei como a filha “perfeita”, profundamente dedicada a corresponder às expectativas dos pais, sobretudo de sua mãe, Ming, cuja postura zelosa, amorosa e controladora organiza toda a dinâmica familiar, enquanto o pai, Jin, cuida e oferece suporte de forma mais discreta. Esse vínculo, marcado por amor, orgulho e pressão, é o terreno onde nasce a tensão central: ao entrar na adolescência, Mei começa a vivenciar desejos e transformações corporais que a afastam da criança obediente que sempre foi. Entre o conforto da infância e o chamado do novo, ela experimenta o primeiro ciclo menstrual e, simultaneamente, descobre que suas emoções mais fortes a fazem transformar-se em um panda vermelho gigante.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Através do Panda Vermelho, a personagem vai nos ensinando que só podemos nos desenvolver psiquicamente dialogando com as emoções que nos compõem e que nossas relações são terrenos férteis para nossa dialética emocional. É no encontro com nossos entes queridos que podemos fazer reencontros e confrontos com as múltiplas e contraditórias partes que nos habitam.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-ensina-gugguenbul-craig-somente-mediante-ao-intercambio-emocional-com-aqueles-com-quem-vive-uma-relacao-de-amor-e-que-uma-nova-dimensao-pode-penetrar-em-seu-mundo-amortecido-guggenbuhl-craig-2004-p-138-139" style="font-size:18px">Como ensina Gugguenbül-Craig: “somente mediante ao intercâmbio emocional com aqueles com quem vive uma relação de amor é que uma nova dimensão pode penetrar em seu mundo amortecido” (GUGGENBÜHL-CRAIG, 2004, p. 138-139).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na teoria, parece simples, e até poético, imaginar essa troca emocional, mas Mei revela o quanto esse processo pode ser assustador quando temos de encarar os aspectos destrutivos e agressivos da nossa própria “fera”. Isso acontece porque relacionar-se exige intimidade com o outro e, antes de tudo, conosco mesmos. Ela evidencia o quanto é difícil aceitarmos nossas partes sombrias e indesejáveis, e como, muitas vezes, fugimos da tarefa de cuidar de nossos vínculos, evitando conversas difíceis. Assim como Mei, quantas vezes não evitamos o confronto em nome de uma suposta harmonia? Talvez por medo de ficarmos vulneráveis, de decepcionarmos quem amamos ou de sermos feridos. E, pouco a pouco, vamos nos tornando menos permeáveis e sensíveis.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É justamente nesse ponto de tensão, quando a tentativa de esconder ou conter o que é doloroso já não se sustenta, que a narrativa avança. Após um episódio marcante na escola, Mei recolhe-se ao quarto, um espaço que, simbolicamente, já não comporta seu novo tamanho nem o peso do que ela tenta esconder. É, então, que seus pais revelam a verdade: o panda é uma herança familiar transmitida de mãe para filha desde a ancestral Sun Yee, que recebeu esse poder como dádiva para proteger sua família durante a guerra. O segredo, enfim, vem à tona, junto da promessa de um ritual que poderá conter a fera na próxima lua vermelha.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-trama-o-panda-vermelho-simboliza-o-que-na-psicologia-junguiana-chamamos-de-complexos" style="font-size:18px">Na trama, o Panda Vermelho simboliza o que, na psicologia junguiana, chamamos de complexos:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"> núcleos emocionais autônomos, carregados de significados, afetos intensos e impulsos que emergem tanto da história pessoal quanto da herança coletiva. Na família Lee, esse legado aparece em explosões emocionais e comportamentos repetitivos, nos quais as mulheres são tomadas pelo panda como se perdessem momentaneamente a própria consciência, um retrato preciso de um complexo constelado. O filme, assim, evidencia a força dos complexos familiares que atravessam gerações e mostra como a família passou a realizar rituais para aprisionar esse espírito em amuletos, numa tentativa de livrar-se desse estado avassalador e impedir que as emoções comandassem suas ações.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa dinâmica soa muito próxima da nossa própria contemporaneidade, em que nos tornamos cada vez mais defendidos e impermeáveis, acreditando que negar ou conter nossas emoções impede o “estrago feito pelo panda”. E é possível compreender o tamanho desse temor, pois, segundo Jung, ao lidar com tais forças, estamos, de certo modo, lidando com a ira de Deus, que ele assim definiu:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>É um nome apropriado para todas as grandes emoções que ocorrem em meu próprio sistema psíquico e que dominam minha vontade consciente, apoderando-se do controle sobre mim mesmo. É por este nome que designo tudo o que se atravessa de forma violenta e desapiedosa, o itinerário por mim traçado; tudo o que subverte minhas concepções subjetivas, meus planos objetivos, e interfere no curso da minha vida, seja para o bem seja para o mal (JUNG,&nbsp; p. 146, 2012).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao longo da narrativa, Mei experimenta na própria pele o quanto é arriscado e trabalhoso “desafiar os deuses”, sobretudo quando isso envolve decepcionar os pais; trata-se do processo de diferenciação descrito pela psicologia analítica, em que o jovem começa a se reconhecer como alguém distinto da família e passa a buscar a própria identidade. À medida que aguarda o dia do eclipse lunar, ela aprende a se relacionar com seu Panda Vermelho, permitindo-se viver suas experiências, conquistando autenticidade e reconhecendo-se no mundo para além do olhar materno.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-movimento-descobre-que-incorporar-o-urso-tambem-traz-ganhos-torna-se-popular-na-escola-e-recebe-o-afeto-incondicional-das-amigas" style="font-size:18px">Nesse movimento, descobre que incorporar o urso também traz ganhos: torna-se popular na escola e recebe o afeto incondicional das amigas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O ponto de virada surge quando decide ir ao show de sua banda preferida, mesmo sem a aprovação dos pais, trabalhando para juntar o dinheiro necessário para os ingressos, uma metáfora clara de que toda transformação exige esforço e tem um preço. E, ao afirmar que “não é um simples show, é um portal para a vida adulta”, Mei ecoa uma imagem que Jung também propõe, ao comparar a passagem da infância para a adolescência a um verdadeiro nascimento:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>No estágio infantil da consciência, ainda não há problemas; nada depende do sujeito, porque a própria criança depende inteiramente dos pais. É como se não tivesse nascido ainda inteiramente, mas se achasse mergulhada na atmosfera dos pais. O nascimento psíquico e, com ele, a diferenciação consciente em relação aos pais só ocorrem na puberdade, com a irrupção da sexualidade. A mudança fisiológica é acompanhada também de uma revolução espiritual. Isto é, as várias manifestações corporais acentuam de tal maneira o eu, que este frequentemente se impõe desmedidamente (JUNG, 2013a, p. 346-347).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A imagem do parto como metáfora para o nascimento psíquico da adolescência é profundamente rica. Do ponto de vista do bebê, podemos imaginar o desconforto de não caber mais naquele espaço antes seguro e acolhedor, que, de repente, se torna estreito e insuficiente. Para nascer, ele precisa se lançar por um canal apertado rumo a um mundo vasto, com muita claridade e completamente desconhecido.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">As contrações que impulsionam essa passagem são dolorosas, inevitáveis e requerem esforço mútuo; tanto mãe quanto bebê dependem de se renderem ao fluxo natural da vida. E, do ponto de vista materno, o parto natural é uma experiência de dor visceral, que exige entrega absoluta e deixa marcas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-assim-o-nascimento-do-adolescente-tambem-nao-sera-indolor-pais-e-filhos-atravessam-tensoes-intensas-e-o-processo-nao-termina-no-parto" style="font-size:18px">Assim, o nascimento do adolescente também não será indolor: pais e filhos atravessam tensões intensas, e o processo não termina no parto.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Depois dele, existe o desafio de adaptação: o bebê precisa aprender novas formas de respirar e alimentar-se, enquanto a mãe enfrenta o puerpério, um período emocionalmente denso e exigente. Da mesma maneira, a entrada na adolescência inaugura um novo modo de existir, que demanda força, coragem e um reajuste honesto do vínculo entre pais e filhos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É nesse contexto simbólico que surge o segundo grande conflito da trama: Mei descobre que o show de sua boyband favorita acontecerá exatamente no dia do ritual destinado a aprisionar seu panda. Essa “coincidência” a obriga a encarar uma escolha inevitável entre lealdade à família e seu próprio rito de passagem. É impossível ter as duas coisas ao mesmo tempo. Inicialmente inclinada a seguir o ritual, ela se sensibiliza com a atitude do pai, que lhe mostra gravações em que aparece feliz com as amigas e revela que o panda de Ming, sua mãe, era muito mais destrutivo, carregando uma ferida antiga.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-reconhecer-essa-historia-e-validar-a-singularidade-da-filha-o-pai-atua-como-uma-especie-de-guia-interno-ajudando-a-a-perceber-que-pode-e-precisa-decidir-a-partir-de-si-mesma" style="font-size:18px">Ao reconhecer essa história e validar a singularidade da filha, o pai atua como uma espécie de guia interno, ajudando-a a perceber que pode, e precisa, decidir a partir de si mesma.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao crescer, os filhos inevitavelmente rompem expectativas, e isso dói nos pais. Ming expressa essa dor de forma explosiva quando Mei abandona o ritual e escolhe manter seu panda para ir ao show, surgindo como um panda colossal que simboliza sua fúria e medo. No confronto final, mãe, filha, avó e tias entram juntas em uma espécie de floresta mágica (o inconsciente familiar), onde encaram feridas herdadas e aceitam que Mei seguirá com seu panda.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse processo, Ming reconhece o peso de ter vivido para agradar a própria mãe e, ao soltar essa exigência, permite que Mei faça escolhas mais autênticas. A separação é dolorosa, mas necessária: Mei sustenta sua decisão apesar do medo, e Ming&nbsp; suporta o corte simbólico do cordão umbilical. Por fim, ao encontrar a ancestral que originou o panda, Mei pergunta se pode se arrepender, mas recebe apenas um abraço afetuoso e silencioso, um chamado para confiar em si mesma, mesmo diante do desconhecido.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-crescer-afinal-e-um-caminho-sem-retorno-uma-vez-ampliada-a-consciencia-nao-e-possivel-voltar-ao-estado-anterior" style="font-size:18px">Crescer, afinal, é um caminho sem retorno; uma vez ampliada a consciência, não é possível voltar ao estado anterior.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E é exatamente isso que vemos ao final do filme: Mei emerge mais autêntica e serena, capaz de ressignificar o panda e, com isso, romper o padrão familiar que a aprisionava. Agora, ela dialoga com suas emoções, nem se submete cegamente a elas, nem tenta eliminá-las. Sua mãe também cresce: guarda o espírito do Panda em um novo amuleto, um bichinho virtual que precisa ser cuidado e alimentado. O Panda, antes preso num pingente rígido e silencioso, passa a ter espaço para se relacionar com ela, que, por sua vez, deve sustentar esse vínculo vivo. Afinal, “<em>quando duas pessoas se encontram, suas psiques se defrontam em sua totalidade; o consciente e o inconsciente, o dito e o não dito, tudo afeta o outro</em>” (GUGGENBÜHL-CRAIG, 2004, p. 50).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-fim-com-o-longa-metragem-testemunhamos-a-forca-do-crescimento-individual-e-familiar-que-emerge-de-um-processo-amoroso-e-doloroso-de-mudanca-crescer-so-e-possivel-a-partir-das-relacoes-e-da-coragem-de-transgredir-e-doi-mas-vale-a-pena" style="font-size:18px">Por fim, com o longa-metragem, testemunhamos a força do crescimento individual e familiar que emerge de um processo amoroso e doloroso de mudança. <strong>Crescer só é possível a partir das relações e da coragem de transgredir e dói, mas vale a pena</strong>!</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É um trabalho para toda a vida, aqui ilustrado na turbulência sagrada da adolescência e no impacto que ela provoca no universo parental. Encerro refletindo se o nosso maior desafio é lançar dos amuletos que nos aprisionam ou anestesiam, das antigas formas de proteção que já não nos servem para libertar o espírito do nosso próprio Panda, portanto, o convite permanece no ar: o que ainda mantemos aprisionado em nós, acreditando ser segurança, mas que, na verdade, impede o nosso crescimento?</p>



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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/paula-borba-dos-santos/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/paula-borba-dos-santos/"><strong>Paula Borba dos Santos</strong> &#8211; <strong>Analista em formação pelo IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/mgloriagmiranda/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/mgloriagmiranda/">Glória G. de Miranda &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias-bibliograficas" style="font-size:19px"><strong>Referências bibliográficas:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">BENEDITO, Vanda. <strong>Desafios à Terapia de Casal e de Família</strong>: Olhares junguianos da clínica contemporânea. 1. ed. São Paulo, Summus Editorial, 2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GUGGENBÜHL-CRAIG, Adolf.<strong> O Abuso do Poder na Psicoterapia.</strong> 1. ed. São Paulo, Paulus, 2004.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <strong>Escritos diversos</strong>: Psicologia e Religião Ocidental e Oriental. 3. ed. Petrópolis, Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp; <strong>A natureza da Psique.&nbsp; </strong>10. ed. Petrópolis, Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.<strong>Civilização em Transição.&nbsp; </strong>6. ed. Petrópolis, Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <strong>O Desenvolvimento da Personalidade. </strong>14. ed. Petrópolis, Vozes, 2013c.</p>



<p class="wp-block-paragraph">RED: crescer é uma fera. Direção: Domee Shi. Produção: Lindsey Collins. [<em>S. l.</em>]: Pixar Animation Studios; Walt Disney Pictures, 2022. 1 filme (aprox. 100 min), son., color.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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			</item>
		<item>
		<title>A Dinâmica Familiar e a Consolidação Egóica</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-dinamica-familiar-e-a-consolidacao-egoica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Lorena Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 14 Feb 2026 00:16:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[ambiente familiar]]></category>
		<category><![CDATA[desenvolvimento da personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[desenvolvimento infantil]]></category>
		<category><![CDATA[formação do ego]]></category>
		<category><![CDATA[infância]]></category>
		<category><![CDATA[Mãe]]></category>
		<category><![CDATA[Neumann]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=12104</guid>

					<description><![CDATA[<p>Neste artigo, serão discutidos o desenvolvimento da consciência na infância, a influência do contexto familiar sobre a vida psíquica e o papel fundamental dos pais nesse percurso.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><em>Neste artigo, serão discutidos o desenvolvimento da consciência na infância, a influência do contexto familiar sobre a vida psíquica e o papel fundamental dos pais nesse percurso.</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Desde o nascimento, todo indivíduo é acolhido em um contexto previamente estabelecido, marcado por uma determinada cultura, por padrões sociais, por códigos morais e por costumes específicos de seu tempo histórico. Esse ambiente inicial também é configurado por uma constelação familiar singular, que oferece à criança sua primeira moldura de sentido e pertencimento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nos-primeiros-momentos-de-vida-a-relacao-da-crianca-com-seus-cuidadores-ocorre-em-um-estado-que-jung-descreve-como-participation-mystique" style="font-size:18px">Nos primeiros momentos de vida, a relação da criança com seus cuidadores ocorre em um estado que Jung descreve como <em>participation mystique</em>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O termo, originalmente utilizado por <strong>Lévy-Bruhl</strong> ao estudar sociedades tradicionais e originárias, refere-se a uma forma de experiência na qual não se distingue plenamente entre aquilo que pertence ao indivíduo e aquilo que pertence ao grupo ou ao mundo ao redor. Trata-se de uma vivência psíquica sem separação rígida entre sujeito e objeto, marcada por uma identidade indiferenciada e profundamente conectada ao inconsciente (JUNG, 2013a).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Partimos de uma formação como homens e como humanidade de uma fusão grupal, representada pela mescla urobórica, para só então atingirmos a individualidade promovida pelo complexo de ego. Muito embora não haja uma espécie de ‘psique objetiva de grupo’ apartada dos seus componentes, <strong>Eric Neumann</strong> (2014, p. 197) afirma que, nos grupos primevos, as diferenças individuais podiam ser percebidas e havia espaço para relativa independência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A criança, especialmente nos primeiros anos de vida, também passa por um processo de identificação inconsciente com o grupo ao qual pertence. Ela se vincula aos pais de maneira não consciente, permanecendo imersa no campo psíquico familiar e manifestando tanto as dificuldades quanto os progressos presentes nesse ambiente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-neste-artigo-serao-discutidos-o-desenvolvimento-da-consciencia-na-infancia-a-influencia-do-contexto-familiar-sobre-a-vida-psiquica-e-o-papel-fundamental-dos-pais-nesse-percurso" style="font-size:18px">Neste artigo, serão discutidos o desenvolvimento da consciência na infância, a influência do contexto familiar sobre a vida psíquica e o papel fundamental dos pais nesse percurso.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-formacao-do-ego-ocorre-de-maneira-progressiva" style="font-size:18px">A formação do ego ocorre de maneira progressiva.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Antes que a consciência se estabeleça, o indivíduo permanece no âmbito do inconsciente, e o self já está presente antes mesmo da constituição egóica. Nos primeiros anos de vida, enquanto o complexo do ego ainda não está claramente delimitado, grande parte da personalidade funciona de forma inconsciente. Nesse período, segundo Erich Neumann (1995, p. 112), o que existe é uma “consciência do self”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao chegar ao mundo, o ser humano encontra-se em um estágio pré-egóico, vivenciando aquilo que se denomina estado urobórico, representado pelo uroboros, a serpente que devora a própria cauda. Nessa fase, não há distinção de opostos na experiência psíquica; tudo é percebido como uma unidade. Neste ponto, a figura materna, materializada na mãe real, tem um peso expressivo de grande magnitude, pois mesmo após o nascimento, a criança ainda está imersa na mãe. Nesta ligação mãe e filho, há uma unidade primária entre eles.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-neumann-discute-amplamente-esse-tema-em-sua-obra-a-crianca-que-servira-como-referencia-central-para-a-exposicao-dos-estagios-de-formacao-do-ego" style="font-size:18px"><strong>Neumann</strong> discute amplamente esse tema em sua obra <em>A Criança</em>, que servirá como referência central para a exposição dos estágios de formação do ego.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">De acordo com o autor, a vivência urubórica presente no início da vida ultrapassa a noção de uma psique indiferenciada, abrangendo uma conexão total com o ambiente. Para o bebê, ainda não existe uma separação entre “interno” e “externo”; tudo é percebido como um campo único e contínuo. <strong>Sua experiência do mundo ocorre por meio do corpo e das sensações mediadas pela mãe</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Mãe e filho permanecem simbolicamente unidos mesmo após o nascimento, como se a criança ainda estivesse envolta pelo útero. Suas necessidades fisiológicas, como fome, desconforto e busca por aconchego, são experimentadas de forma imediata e encontram alívio apenas por intermédio do cuidado maternal. Cuidado este que pode estar materializado na figura propriamente da mãe, do pai ou de um cuidador que incorpore este papel materno diante da bebê. Assim sendo, estabelece-se uma identidade biopsíquica entre o corpo do bebê e o mundo que o circunda (NEUMANN, 1995, p. 12).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-uniao-primordial-constitui-o-alicerce-de-toda-a-vida-relacional" style="font-size:18px">Essa união primordial constitui o alicerce de toda a vida relacional.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na perspectiva junguiana, é nesse estágio pré-egóico que o self atua como totalidade psíquica originária, enquanto o ego ainda está em formação. A qualidade do vínculo inicial, marcado pela segurança, acolhimento e previsibilidade das respostas maternas, torna-se fundamental não só para o desenvolvimento do ego, mas também para a construção da confiança básica que sustentará os futuros laços sociais. Assim, a experiência de imersão no materno não apenas organiza as primeiras percepções corporais da criança, mas também molda a maneira como ela se abrirá ao mundo e às demais relações ao longo da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao analisar historicamente e antropologicamente diferentes culturas, Neumann estabelece uma analogia entre a organização dos agrupamentos humanos e o processo de amadurecimento da personalidade individual. Ele observa que sociedades consideradas tradicionais mantinham uma forte fusão entre o coletivo e o individual, em que predominava a inconsciência coletiva sobre a consciência pessoal. Nesses contextos, as estruturas egóicas eram incipientes ou pouco desenvolvidas, e a organização social sob influência do princípio matriarcal refletia uma vivência psíquica mergulhada no inconsciente. O ser humano, ligado profundamente ao ambiente, experienciava uma identidade simbiótica com o mundo, marcada pela <em>participation mystique</em>. De modo semelhante, a criança inicia sua vida psíquica no interior de um estado inconsciente matriarcal, do qual gradualmente se diferencia à medida que o ego emerge.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-neumann-igualmente-descreve-uma-sequencia-evolutiva-na-formacao-do-ego-que-transita-simbolicamente-do-matriarcado-ao-patriarcado" style="font-size:18px">Neumann igualmente descreve uma sequência evolutiva na formação do ego que transita simbolicamente do matriarcado ao patriarcado.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Os estágios iniciais, considerados inferiores ou primordiais, estão vinculados ao princípio materno e à relação primal com o inconsciente. Nos estágios posteriores, denominados superiores ou solares, ocorre a ascensão do princípio paterno, relacionado ao desenvolvimento da consciência, da diferenciação e à aproximação com a dimensão masculina do self. Esse movimento expressa não apenas uma mudança estrutural da personalidade, mas também um deslocamento arquetípico: da acolhida materna inconsciente para a direção e ordenação do arquétipo paterno.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quando-o-ego-comeca-a-adquirir-atividade-propria-o-que-neumann-descreve-como-o-aparecimento-do-ego-ativo-ele-passa-por-etapas-progressivas-ate-sua-consolidacao" style="font-size:18px">Quando o ego começa a adquirir atividade própria, o que Neumann descreve como o aparecimento do ego ativo, ele passa por etapas progressivas até sua consolidação.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Entre elas estão os estágios fálicos, divididos em fálico-ctônico e mágico-fálico. Nessas fases, a criança vive um senso de totalidade e uma percepção do corpo relativamente autônoma, embora ainda profundamente permeada pelo inconsciente. A vivência permanece transpessoal e unificada, pois a consciência ainda não produziu a separação entre polos opostos. Como afirma Neumann (1995, p. 112), nesse período “a criança possui uma consciência flutuante, instável e não localizada, uma consciência de Self”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-esse-carater-ainda-indiferenciado-da-experiencia-infantil-corresponde-ao-momento-em-que-o-ego-esta-em-formacao-emergindo-gradualmente-da-matriz-inconsciente-que-o-sustenta" style="font-size:18px"><strong>Esse caráter ainda indiferenciado da experiência infantil corresponde ao momento em que o ego está em formação, emergindo gradualmente da matriz inconsciente que o sustenta.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No estágio inicial, denominado fálico-ctônico, a psique incipiente opera sob a influência predominante do inconsciente coletivo e do arquétipo da Grande Mãe, refletindo uma fase essencialmente matriarcal e inconsciente. O ego em gestação permanece flutuante e guiado por processos inconscientes. A progressão deste estágio se dá de uma fase vegetativo-passiva para uma manifestação mais ativa, instintiva e animal, coincidente com o desenvolvimento da locomoção e a orientação do impulso libidinal para o exterior.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-transicao-para-o-segundo-estagio-o-magico-falico-assinala-o-inicio-da-estruturacao-da-consciencia" style="font-size:18px">A transição para o segundo estágio, o mágico-fálico, assinala o início da estruturação da consciência.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Embora o ego permaneça inserido na esfera de influência matriarcal, e o self seja experienciado de forma corporal e integrada ao inconsciente, emerge uma atividade mais delineada. Esta etapa é marcada pelo surgimento de uma posição mais ativa do ego e uma busca antropocêntrica, na qual o ego começa a se consolidar como o centro organizador da consciência, demarcando o início da diferenciação em relação ao inconsciente coletivo indiferenciado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No estágio seguinte, o mágico-guerreiro, o ego inicia sua diferenciação do inconsciente, buscando a libertação da influência da Grande Mãe arquetípica por meio de um movimento de oposição ativo. Este processo exige um distanciamento da figura da mãe pessoal, que carrega a projeção do arquétipo, em direção à esfera patriarcal, marcando uma fase crucial de separação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">As fases solares, que compreendem os quarto e quinto estágios (solar-guerreiro e solar-racional), denotam um ego com maior autonomia e assertividade (Neumann, 1995, p. 137). A evolução da consciência progride de características de um &#8220;caçador&#8221; e &#8220;guerreiro devorador&#8221;, que luta pela sua existência e diferenciação, para aspectos mais elevados e espirituais da paternidade, simbolizados pela figura do pai celestial. Esta transição entre as esferas matriarcal e patriarcal também coincide com a paulatina diferenciação das expressões do masculino e feminino na personalidade, culminando na independência clara do ego nas fases solares.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-ambiente-familiar-na-formacao-do-ego" style="font-size:18px"><strong>O ambiente familiar na formação do ego</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A construção do ego acontece de maneira progressiva e é profundamente marcada pelas experiências externas que a criança recebe desde muito cedo. A consciência, por sua vez, emerge gradualmente do inconsciente, que lhe é anterior, e se apoia em uma herança psíquica comum a toda a humanidade: os arquétipos e os instintos, que conectam o ser humano atual às gerações ancestrais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Embora cada sujeito percorra seu próprio caminho de desenvolvimento, existem padrões gerais que caracterizam esse processo como essencialmente transpessoal. Um dos movimentos centrais é o afastamento progressivo do ego em relação ao inconsciente, formando o eixo ego–self, estrutura pela qual a personalidade se organiza numa oscilação constante entre o mundo interno e o contexto externo. Neumann descreve esse movimento inicial como matriarcal, pois é conduzido pelo inconsciente, de onde surge a consciência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nos-primeiros-tempos-de-vida-antes-do-estabelecimento-do-ego-a-crianca-permanece-em-um-estado-uroborico-como-mencionado-anteriormente-marcado-por-uma-intensa-fusao-emocional-e-psiquica-com-o-ambiente-especialmente-com-a-mae-figura-que-simboliza-o-arquetipo-materno" style="font-size:18px">Nos primeiros tempos de vida, antes do estabelecimento do ego, a criança permanece em um estado urobórico, como mencionado anteriormente, marcado por uma intensa fusão emocional e psíquica com o ambiente. <strong>Especialmente com a mãe</strong>, <strong>figura que simboliza o arquétipo materno</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Posteriormente, passa-se para a etapa patriarcal, associada às identificações com a figura paterna. Para Jung, a constituição plena da individualidade só começa a ocorrer quando a criança consegue referir-se a si mesma como “eu” &#8211; algo que geralmente se dá entre os três e cinco anos de idade (JACOBY, 2010, p. 121). Nesse período inicial, sobretudo antes do ingresso na escola, o impacto da família é determinante, podendo inclusive desencadear conflitos emocionais e dificuldades psíquicas na criança.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-a-familia-e-o-primeiro-ambiente-em-que-a-crianca-observa-imita-e-aprende-modos-de-agir" style="font-size:18px">A família é o primeiro ambiente em que a criança observa, imita e aprende modos de agir. Nos primeiros anos, esse convívio intenso faz dela um verdadeiro “centro de gravidade emocional”, onde a identidade e o caráter começam a se formar sob a influência das diferentes personalidades presentes (ZWEIG; ABRAMS, 1994). Nesse estágio de forte dependência, algo natural ao desenvolvimento psíquico infantil, qualquer perturbação pode afetar seu crescimento saudável.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-ressalta-que-a-mente-da-crianca-e-extremamente-sensivel-as-influencias-do-meio-absorvendo-impressoes-profundas-dos-pais-inclusive-conteudos-nao-verbalizados-ou-inconscientes" style="font-size:18px">Jung ressalta que a mente da criança é extremamente sensível às influências do meio, absorvendo impressões profundas dos pais, inclusive conteúdos não verbalizados ou inconscientes:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Se nós, adultos, nos mostramos sensíveis a estas influências do meio ambiente, o que dizer então de uma criança cuja psique é mole e moldável como cera! O pai e a mãe gravam o sinete de sua personalidade fundo na psique da criança; e mais fundo quanto mais sensível e impressionável ela for. Tudo é retratado inconscientemente na criança, mesmo coisas das quais nunca se falou.</p><cite>(JUNG,1995, p. 496)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Por ainda viverem em participação mística com as figuras parentais, as crianças captam tanto os comportamentos visíveis, quanto o movimento psíquico interno dos pais. Assim mesmo quando os adultos tentam controlar seus complexos, sua energia inconsciente continua atuando e repercutindo na psique infantil, pois, como observa Jung, os complexos têm força contagiante e alcançam a criança mesmo sem intenção.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Com a entrada na escola, a criança passa a se afastar gradualmente da influência direta dos pais e o ambiente escolar assume um papel importante nesse processo de autonomia. Por isso, Jung (2013b) destaca que educadores deveriam ter consciência da responsabilidade que exercem na formação da personalidade infantil, investindo em autoconhecimento e amadurecimento para poderem educar de forma mais íntegra.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ainda assim o ambiente familiar continua exercendo forte impacto sobre a expressão individual da criança. Os pais transmitem condicionamentos emocionais e padrões afetivos que influenciam profundamente a formação da psique e da consciência nos primeiros anos de vida. Zweig e Abrams (1994) lembram que todos recebemos uma “herança psicológica” que inclui aspectos da sombra familiar, valores, hábitos, tensões e até problemas não resolvidos pelos próprios pais, que podem se manifestar na criança como dificuldades de socialização. Jung reforça que, nesse início, a criança tende a mergulhar no inconsciente parental, reproduzindo padrões que atravessam gerações.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-analise-do-desenvolvimento-infantil-evidencia-que-a-consolidacao-do-ego-e-um-processo-profundamente-vinculado-ao-ambiente-familiar-e-as-primeiras-relacoes-estabelecidas-pela-crianca" style="font-size:18px">A análise do desenvolvimento infantil evidencia que a consolidação do ego é um processo profundamente vinculado ao ambiente familiar e às primeiras relações estabelecidas pela criança. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-a-analise-do-desenvolvimento-infantil-evidencia-que-a-consolidacao-do-ego-e-um-processo-profundamente-vinculado-ao-ambiente-familiar-e-as-primeiras-relacoes-estabelecidas-pela-crianca" style="font-size:18px">Desde o nascimento, as vivências emocionais, os vínculos formados e a qualidade do cuidado recebido moldam a base sobre a qual a consciência se estrutura. A família, com seus padrões afetivos, valores e conteúdos conscientes e inconscientes, exerce influência determinante sobre esse percurso inicial, deixando marcas que podem favorecer o crescimento ou gerar conflitos que se prolongam ao longo da vida. Embora transitar por outro meio sociais, como o ambiente escolar, amplie o universo da criança e introduza novas referências, é no seio da família que se encontram os primeiros alicerces da personalidade que acompanharão o indivíduo em sua trajetória. Assim, compreender a dinâmica familiar e seu impacto na formação psíquica é fundamental para reconhecer como se constitui a formação egóica e como se perpetuam tendências que atravessam gerações.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: A Dinâmica Familiar e a Consolidação Egóica" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/XC0LoyJgQ8E?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/lorenaoliveira/">Lorena de Sousa Oliveira &#8211; Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/"><strong>Simone Magaldi</strong> &#8211; <strong>Analista Didata IJEP</strong></a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias-bibliograficas"><strong>Referências bibliográficas</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique, 10ª edição, Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______, A vida simbólica. Vol. 1, 6ª edição, Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______, Estudos Experimentais, 6ª edição, Petrópolis: Vozes, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______, Freud e a psicanálise, 16 ª edição, Petrópolis: Vozes, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______, O desenvolvimento da personalidade, 10ª edição, Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NEUMANN, Erich, A criança: Estrutura e dinâmica da personalidade em</p>



<p class="wp-block-paragraph">desenvolvimento desde o início de sua formação, 10ª edição, São Paulo: Editora Cultrix, 1995.31</p>



<p class="wp-block-paragraph">ZWEIG, Connie; ABRAMS, Jeremiah (orgs.). Ao encontro da sombra: o potencial oculto do lado escuro da natureza humana, São Paulo: Editora Cultrix, 1994</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Superparentalidade: de crianças superprotegidas a adultos infantilizados</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/superparentalidade-de-criancas-superprotegidas-a-adultos-infantilizados/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Clarisse Grand Court]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Jun 2025 12:44:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
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		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Não é importante que os pais nunca cometam erros – isso seria impossível para os seres humanos –, mas que os reconheçam como erros. Não é a vida que deve ser detida, mas a nossa inconsciência; primeiramente, a do educador, isto é, a própria, pois cada um é educador de seu próximo tanto para o [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-pullquote is-style-large" style="font-size:19px"><blockquote><p><em>Não é importante que os pais nunca cometam erros – isso seria impossível para os seres humanos –, mas que os reconheçam como erros. Não é a vida que deve ser detida, mas a nossa inconsciência; primeiramente, a do educador, isto é, a própria, pois cada um é educador de seu próximo tanto para o bem como para o mal. </em></p><cite>(Jung, 2021, p.90)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><em><strong>Resumo</strong>: Na tentativa de proteger excessivamente seus filhos, muitos pais acabam impedindo que eles vivenciem experiências importantes e realizem tarefas simples do dia a dia. Aborda-se como esse excesso de “cuidado” pode formar adultos inseguros, dependentes e com dificuldades para enfrentar os desafios da vida.</em> <em>A superproteção compromete o desenvolvimento da criança, passando pela adolescência até a vida adulta, resultando em indivíduos emocionalmente presos à infância e marcados pela imaturidade. <strong>Mais do que nunca, precisamos refletir sobre nossa forma de educar: estaremos verdadeiramente preparando nossas crianças para a vida ou apenas protegendo a nós mesmos</strong>?</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-criancas-que-ganham-autonomia-no-autocuidado-e-nas-tarefas-domesticas-tornam-se-adultos-mais-afetuosos-regulados-emocional-e-cognitivamente" style="font-size:19px">Crianças que ganham autonomia no autocuidado e nas tarefas domésticas tornam-se adultos mais afetuosos, regulados emocional e cognitivamente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Essa é uma questão levantada no artigo realizado pela&nbsp;<em>La Trobe University</em>:&nbsp;<em>Executive functions and household chores: Does engagement in chores predict children’s cognition?</em>&nbsp;(Funções executivas e tarefas domésticas: o envolvimento nas tarefas prevê a cognição das crianças?&nbsp;– tradução livre).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Embora a tese apresentada acima pareça óbvia para muitos leitores, temos observado uma atitude contrária por parte de muitos pais nos dias de hoje. E é sobre essa <strong>superproteção parental</strong> que proponho refletirmos ao longo deste artigo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O estudo australiano aponta que a&nbsp;<strong>superparentalidade</strong>&nbsp;tira das crianças a oportunidade de progresso por meio da realização de tarefas simples do dia a dia. O envolvimento excessivo dos pais prejudica o desenvolvimento emocional e comportamental desses indivíduos ao longo da vida, que crescem dependentes e incapazes de se autoafirmarem, tornando-se <strong>adultos infantilizados</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-observando-a-forma-como-a-sociedade-contemporanea-vivencia-a-parentalidade-entendo-que-estamos-em-crise" style="font-size:19px">Observando a forma como a sociedade contemporânea vivencia a parentalidade, entendo que estamos em crise.</h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-perdemo-nos-diante-da-ideia-do-que-e-amar-cuidar-e-ensinar" style="font-size:19px">Perdemo-nos diante da ideia do que é amar, cuidar e ensinar.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Como elaborei no meu último artigo,&nbsp;<a href="https://blog.sudamar.com.br/a-parentalidade-positiva-e-a-sua-sombra-na-contemporaneidade/"><em>“A parentalidade positiva e a sua sombra na contemporaneidade”</em></a>, penso que assumimos novas demandas impostas por uma geração que acredita na fórmula certa para a construção da <strong>família perfeita</strong>. Nela, não cabem erros, fraquezas e vulnerabilidades – nem para os pais, nem para os filhos. Vivemos a era que teme o sofrimento e a insatisfação das crianças.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A rotina pesada do dia a dia, somada às ideias equivocadas de que&nbsp;amor nunca é demais&nbsp;e de que&nbsp;frustração desregula as crianças emocionalmente, tem invertido a lógica da dinâmica familiar. Fazer pelos filhos torna-se mais importante do que permitir que eles errem e se desenvolvam no tempo deles – essa é a cartilha da <strong>superparentalidade</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-assumir-as-pequenas-tarefas-e-desafios-dos-filhos-perdemos-a-chance-de-encoraja-los-e-de-oferecer-suporte-emocional-frente-as-adversidades-e-aprendizados-da-vida" style="font-size:19px">Ao assumir as pequenas tarefas e desafios dos filhos, perdemos a chance de encorajá-los e de oferecer suporte emocional frente às adversidades e aprendizados da vida.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Criamos tanta culpa e desconexão com nossas crianças e, por outro lado, assumimos o controle de tudo – inclusive das pequenas atividades cotidianas que elas já são capazes de desenvolver sozinhas, como vestir-se, comer, amarrar os tênis, tomar banho ou preparar seu lanche. Quando o amor e o cuidado tornam-se desmedidos, sufocamos e interditamos os indivíduos em seu processo de desenvolvimento natural e necessário.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Segundo <strong>Neumann</strong>, é preciso saber diferenciar o mimar “verdadeiro” do “falso”, da mãe-bruxa que atrai a criança para sua casa de chocolate. “<strong>Mimar [&#8230;] não produz distúrbios sérios, até tornar-se necessário para a criança afrouxar os laços com a mãe, e esse processo é impedido ou prevenido pelo fato de a mãe ter mimado o filho</strong>”&nbsp;(1995, p. 54, grifos meus). Nesse caso, o mimo não saudável gerará um processo de dependência e codependência, afetando diretamente o desenvolvimento da criança. Vale ressaltar que podemos ampliar tranquilamente esse conceito, designado por Neumann à mãe, para todos que exercem a <strong>parentalidade</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O mimo que ultrapassa a primeira infância priva as crianças de se desenvolverem a partir de inibições, contradições e frustrações. Dinâmicas fundamentais para que, no futuro, esses indivíduos sejam capazes de suportar a tensão psíquica entre o consciente e o inconsciente.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“A capacidade de uma criança aceitar restrições com relativa facilidade depende de uma capacidade de se integrar, de formar um ego integral e um eixo ego-Self positivo”&nbsp;(NEUMANN, 1995, p. 57-58).</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Na perspectiva junguiana, compreendemos que o receio que os pais têm de que seus filhos se frustrem fala mais sobre eles mesmos do que sobre as crianças. É uma dinâmica psíquica sutil que reforça ainda mais a dependência emocional – a princípio natural e necessária entre filhos e pais –, mas que se torna disfuncional quando não é superada ao longo do desenvolvimento infantil.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-a-psique-da-crianca-jung-diz" style="font-size:19px">Sobre a psique da criança, <strong>Jung</strong> diz:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p><strong>A criança tem uma psicologia singular</strong>. Assim como o seu corpo, durante a vida embrionária, é uma parte do corpo materno, também sua mente, por muitos anos, constitui parte da atmosfera psíquica dos pais. Este fato esclarece de pronto porque muitas das neuroses infantis são muito mais sintomas das condições psíquicas reinantes entre os pais do que doença genuína da criança. <strong>Apenas em parte a criança tem psicologia própria; em relação à maior parte, ainda depende da vida psíquica dos pais&nbsp;</strong>(2021, p. 84).</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Para a psicologia analítica, o desenvolvimento da personalidade pressupõe a diferenciação entre a psique dos filhos e a de seus pais no caminho do adultecimento, permitindo o processo de individuação de cada um ao longo da vida.&nbsp;“[&#8230;] <strong>apegar-se demasiadamente aos pais é desnatural e doentio</strong> [&#8230;]”&nbsp;(JUNG, 2021, p. 85).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-a-individuacao-jung-afirma-que-e-um-processo-que-nunca-chega-ao-fim-mas-e-o-caminho-para-nos-tornarmos-seres-unicos-realizando-nossas-potencialidades" style="font-size:19px">Sobre a individuação, Jung afirma que é um processo que nunca chega ao fim, mas é o caminho para nos tornarmos seres únicos, realizando nossas potencialidades:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p><em>“</em>A individuação, portanto, só pode significar um processo de desenvolvimento psicológico que faculte a realização das qualidades individuais dadas; em outras palavras, é um processo mediante o qual um homem se torna o ser único que de fato é<em>”</em>&nbsp;(2020, p. 64).</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-limitarmos-nossas-criancas-em-seu-processo-de-amadurecimento-fisico-emocional-e-cognitivo-causamos-um-interdito-na-passagem-da-infancia-para-a-adolescencia-e-depois-para-a-vida-adulta" style="font-size:19px">Ao limitarmos nossas crianças em seu processo de amadurecimento físico, emocional e cognitivo, causamos um interdito na passagem da infância para a adolescência e, depois, para a vida adulta.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">“Aqueles que passam conscientemente pela transição trazem mais significado à sua vida. Os que não passam permanecem prisioneiros da infância, não importa o sucesso aparente que possam ter na vida”&nbsp;(HOLLIS, 2023, p. 9).</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-superparentalidade-tornou-se-um-sintoma-que-evidencia-o-peso-e-as-expectativas-geradas-sobre-a-criacao-dos-filhos-trazendo-impactos-negativos-para-toda-uma-geracao-da-infancia-a-adultez" style="font-size:19px">A <strong>superparentalidade</strong> tornou-se um sintoma que evidencia o peso e as expectativas geradas sobre a criação dos filhos, trazendo impactos negativos para toda uma geração – da infância à adultez.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">À medida que nos desconectamos dos instintos maternos e paternos, perdemos a capacidade de observar, respeitar e favorecer o desenvolvimento das etapas da vida humana, que acontecem a partir de experiências boas e ruins. Privar crianças e adolescentes de frustrações e tristezas não os torna mais felizes ou amorosos – pelo contrário. No entanto, oferecer suporte emocional, acolhimento e segurança durante situações difíceis favorece a formação de indivíduos mais seguros e autônomos, além de fortalecer ainda mais o vínculo familiar.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Podemos até concluir que a personalidade adulta não examinada é um agregado de atitudes, comportamentos e reflexos psíquicos ocasionados pelos traumas da infância, cujo objetivo fundamental é controlar o nível de sofrimento experimentado pela memória orgânica da infância que conduzimos dentro de nós. Podemos chamar essa memória orgânica de criança interior, e nossas várias neuroses representam estratégias inconscientemente desenvolvidas para defender essa criança. (A palavra ‘neurose’ não é usada aqui no sentido clínico, e sim como termo genérico para a divisão entre a nossa natureza e a nossa aculturação)&nbsp;(HOLLIS, 2023, p. 13).</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Ao adotarmos a <strong>superparentalidade</strong> como modelo, formamos uma geração de jovens adultos infantilizados e incapazes de fazerem por si mesmos o básico. De forma mais ampla, esse comportamento parental poda a possibilidade de desenvolvimento cognitivo e emocional. Criando indivíduos desconectados de suas emoções, sentimentos, necessidades básicas e sem condições de compreender o outro em suas vulnerabilidades e deficiências – ou seja, incapazes de praticar empatia.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-afeto-desmedido-ou-a-falta-dele-esta-inexoravelmente-ligado-ao-desenvolvimento-emocional-de-criancas-e-adolescentes-e-a-sua-capacidade-de-no-futuro-tornarem-se-adultos-emocionalmente-regulados" style="font-size:19px"><strong>O afeto desmedido – ou a falta dele – está inexoravelmente ligado ao desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes e à sua capacidade de, no futuro, tornarem-se adultos emocionalmente regulados.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A autonomia que os indivíduos terão na fase adulta é desenvolvida ainda na infância, por meio da participação em tarefas domésticas, no cuidado de suas próprias coisas e de seu corpo. Essas habilidades são fundamentais para a autorregulação na vida madura.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A presença afetiva dos pais na vida dos filhos é preponderante para o desenvolvimento psíquico da criança. No entanto, é fundamental que essa presença sofra modificações ao longo do tempo. A influência dos pais precisa diminuir para que os adolescentes conectem-se com outros pares, vivam novas relações, diferenciem-se do ambiente familiar e descubram sua identidade na vida adulta.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: &quot;Superparentalidade: de crianças superprotegidas a adultos infantilizados&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/lh4wrpvZpfo?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/clarissegrand/">Clarisse Grand Court – Analista Junguiana em Formação do IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/cristinaguarnieri/">Maria Cristina Mariante Guarnieri – Analista didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias-nbsp" style="font-size:19px"><strong>Referências:&nbsp;</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">HOLLIS, James. A passagem do Meio: da miséria ao significado da meia idade. 1 ed. São Paulo: Paulus, 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">JUNG, Carl Gustav.&nbsp; O desenvolvimento da personalidade. 13.ed. Petrópolis: Vozes, 2021b.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">_____, Carl Gustav.&nbsp; O eu e o inconsciente. 27.ed. Petrópolis: Vozes, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">NEUMANN, Erich. A Criança: Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação. 10.ed. São Paulo: Cultrix, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Obradović, Jelena. Supporting Children’s School Readiness. IN: Stanford University. <a href="https://bingschool.stanford.edu/news/supporting-childrens-school-readiness-jelena-obradovic">https://bingschool.stanford.edu/news/supporting-childrens-school-readiness-jelena-obradovic</a> . Acesso em 28 de abril de 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">TEPPER, Deana L.; HOWELL,Tiffani; BENNETT, Pauleen.(2022). Executive functions and household chores: Does engagement in chores predict children&#8217;s cognition? In: Australian Occupational Therapy Journal. <a href="https://www.researchgate.net/publication/360998732_Executive_functions_and_household_chores_Does_engagement_in_chores_predict_children's_cognition">https://www.researchgate.net/publication/360998732_Executive_functions_and_household_chores_Does_engagement_in_chores_predict_children&#8217;s_cognition</a> . Acesso em 28 de abril de 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:21px"><strong>Conheça nossos cursos, congressos e pós-graduações</strong>: <a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br </a></p>
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		<title>A perfeição como uma boa desculpa para não se viver</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-perfeicao-como-uma-boa-desculpa-para-nao-se-viver/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Wagner Borges]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 07 Jun 2025 19:58:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[imperfeito]]></category>
		<category><![CDATA[perfeição]]></category>
		<category><![CDATA[perfeito]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Nem sempre o que vemos em nós mesmos como virtude é, de fato, virtude. Neste artigo, falo sobre como a perfeição é uma ilusão paralisante, que, muitas vezes, visa justificar, com ares de nobreza, a nossa covardia em realizar as transformações que a própria natureza nos exige, quase sempre, de forma imperiosa e arquetípica. [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5"><strong>Resumo: </strong><em>Nem sempre o que vemos em nós mesmos como virtude é, de fato, virtude. Neste artigo, falo sobre como a perfeição é uma ilusão paralisante, que, muitas vezes, visa justificar, com ares de nobreza, a nossa covardia em realizar as transformações que a própria natureza nos exige, quase sempre, de forma imperiosa e arquetípica.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-mundo-esta-cheio-de-talentos-em-seus-quartos-e-de-portas-fechadas-a-espera-do-momento-propicio-para-expressarem-se-no-maximo-esplendor-de-uma-suposta-perfeicao-mas-o-que-e-perfeito-perfeito-e-o-que-nao-falha-e-o-que-nao-erra-nao-decepciona-nao-incomoda-e-o-que-nao-peca-e-tambem-e-o-que-nao-aprende-o-que-nao-transforma-nem-se-transforma-e-o-que-nao-existe" style="font-size:19px">O mundo está cheio de “talentos”, em seus quartos e de portas fechadas, à espera do momento propício para expressarem-se no máximo esplendor de uma suposta perfeição. Mas o que é perfeito? Perfeito é o que não falha, é o que não erra, não decepciona, não incomoda, é o que não peca e também é o que não aprende, o que não transforma nem se transforma… é o que não existe.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">O poeta português, <strong>Fernando Pessoa </strong>(2023, posições 542-553), com o pseudônimo Bernardo Soares, escreveu:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">“Agir é exilar-se. Toda a ação é incompleta e imperfeita. O poema que eu sonho não tem falhas senão quando tento realizá-lo[&#8230;] E eu que digo isto — por que escrevo eu este livro? Porque o reconheço imperfeito. Sonhado seria a perfeição; escrito, imperfeiçoa-se”.</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5"><strong>Sem a imperfeição não existe obra e a vida é a maior das obras de qualquer pessoa e de todo Fernando</strong>. Mesmo que os poemas sejam a manifestação que torna o poeta imortal à grande maioria dos mortais, em alguma medida, seus versos imperfeitos só puderam frutificar graças à vida imperfeita que ele se encorajou a viver.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">Não há poeta sem coragem, não há poeta sem fracasso, não há vida sem imperfeição. No fundo, todos os que aspiram à perfeição temem a vida como a própria morte; paralisam-se e, sem que saibam, deixam de viver ainda em vida, o que, como se diz no popular, é sempre pior do que morrer.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-perfeicao-e-morte" style="font-size:19px"><strong>Perfeição e morte</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">Perfeição e morte têm uma relação estreita. Pelo seu caráter irreal, a perfeição aborta a ação, e a ação é uma das provas de que somos seres animados — com alma. Por isso, não é incomum que a paralisante aspiração pelo perfeito surja em momentos de crise na vida, quando temos de morrer, em parte e simbolicamente, para renascer transformados, para renascer outros, mais apropriados à nova etapa da vida que nos chega como imperativo da natureza, como uma voz interior. Sobre esta mesma voz, Jung escreve:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">A voz interior é a voz de uma vida mais plena e de uma consciência mais ampla e abrangente. Por isso, dentro da mitologia, o nascimento de um herói ou seu renascimento simbólico costumam coincidir com o nascer do sol; é que o formar-se da personalidade equivale a um aumento da consciência. Pelo mesmo motivo, a maioria dos heróis é designada por atributos do sol, e o instante em que surge sua grande personalidade é chamado de iluminação. (JUNG, 2021, p. 197)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5"><strong>De fato, é um ato heroico se assumir imperfeito para as novas etapas de nossas vidas</strong>. Significa lançar-se numa existência desconhecida, ter coragem de deixar para trás aquele no qual nos reconhecemos. De forma mais didática, quero dizer que não é aconselhável nem saudável ir para a vida adulta com a consciência da criança nem seguir para a velhice com a cabeça do jovem. A cada uma dessas passagens, não seremos mais quem éramos, mas traremos conosco uma lembrança imprecisa e de consistência onírica de quem fôramos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-vida-quer-que-nos-transformemos-a-transformacao-e-a-unica-maneira-de-preservar-a-essencia-da-vida-de-honrar-o-carater-mitopoetico-da-alma-pois-o-que-nao-se-transforma-nao-conta-historias" style="font-size:19px">A vida quer que nos transformemos. A transformação é a única maneira de preservar a essência da vida, de honrar o caráter mitopoético da alma, pois o que não se transforma não conta histórias.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">Ao mesmo tempo, sabemos, não é fácil se transformar, não é fácil ouvir a voz interior e despir-se da ilusão de perfeição que veste aquele que cremos que somos no momento, aquele no qual nos reconhecemos, mesmo que tal querido conhecido tenha se tornado inapropriado para acompanhar-nos na nova etapa da vida que se apresenta adiante. Confundimos perfeição com roteiros padronizados concebidos a partir da consciência que temos agora. Mas o que será do amanhã, quando a consciência “de agora” não mais nos servir? Que roteiro seguir?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-voz-do-coracao" style="font-size:19px"><strong>A voz do coração</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">É impossível realizar o futuro com os olhos do passado, bem como é impossível realizar o passado com os olhos do futuro. O que temos é o presente, que se norteia pelo futuro e se identifica com o passado, um astigmatismo anímico, que nos obriga a olhar em duas direções ao mesmo tempo, sem jamais sermos capazes de realizar perfeitamente, ou ver com nitidez, nenhuma delas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">A visão desfocada é a condição do ser humano que vive, de fato, seu presente, ciente de que o passado e o futuro sempre serão imprecisos e que seguir em frente rumo ao novo ou lembrar o que se foi é sempre uma realização imperfeita. Estar presente é viver com dúvida. A dúvida não nos traz o conforto e a proteção ilusórias que sentimos quando estamos fechados no quarto da infância e adolescência. Todavia, é por meio da dúvida que podemos abrir um mundo de possibilidades e incertezas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-claro-nao-queremos-a-incerteza-so-as-possibilidades" style="font-size:19px">Mas, claro, não queremos a incerteza — só as possibilidades.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">A perfeição, assim, pode ser vista como um antídoto infantil contra a incerteza, contra a noite escura, o mar selvagem, salgado, bravio e repleto de monstros. Por isso, é preciso coragem e toda coragem é uma atitude do coração — <em>core actum</em> —, restando à razão, senhora das certezas, não o protagonismo, mas a coadjuvância.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">Seguir a tal voz interior, que talvez também possamos chamar de voz do coração, é lidar com o que julgamos ser mau — não nos outros, em nós mesmos. É lidar com o fato de não sermos, aos olhos do mundo, tão bons como gostaríamos de ser; lidar com a constatação de que não somos tão imaculados e admiráveis do ponto de vista moral; é saber-se incapaz; é perder, mas não necessariamente se perder completamente; é reconhecer-se e se amar mesmo imperfeito. A respeito, Jung escreve:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">De modo imperscrutável acontece muitas vezes que se acham misturados na voz interior o mais baixo e o mais alto, o melhor e o pior, o mais verdadeiro e o mais fictício, o que produz um abismo de confusão, ilusão e desespero[&#8230;] Naturalmente será ridículo acusarmos de maldade a voz da natureza, que é sempre boa e sempre destruidora. Se ela se nos afigura de preferência como má, isso provém principalmente daquela antiga verdade de que o bom é sempre inimigo do melhor. (JUNG, 2021, p. 198)</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-mal-como-salvacao" style="font-size:19px"><strong>O “mal” como salvação</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">O caráter “sempre” destruidor da voz interior, a que se refere Jung, está ligado à ideia de que, para que o novo nasça, algo precisa morrer. Contudo, importante destacar, essa morte nunca deve ser integral. A morte deve ser sempre parcial. É preciso jeito, cuidado e amor para morrer. Não é sem motivo que se teme sair do quarto e encarar a vida e as transformações que ela demanda. Aspectos da velha consciência precisam ser preservados para que tal morte seja uma transformação e não uma aniquilação. Se for uma aniquilação completa, não haverá <em>mitopoiesis</em>, não haverá história a contar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">Como escreveu Clarice Lispector em carta a uma amiga: “<strong>Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro</strong>.” É interessante, aqui, recorrer mais uma vez a Jung (2021 p. 198), para quem “Se o ‘eu’ sucumbir [à voz interior] apenas em parte e puder salvar-se de ser totalmente devorado, fazendo uso da autoafirmação, então poderá assimilar a voz [interior].”</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">Embora, como escreve Jung (2021 p. 198), não se possa acusar a voz interior de maldade, é comum que a consciência que experiencia o chamado a transformação a veja dessa forma. Contudo, ao ser capaz de assimilar apenas parcialmente o que ela comunica, sem se entregar por completo a ela, o ego — centro focal da consciência — encontra a oportunidade de esclarecimento e pode, enfim, compreender que “o mal era apenas uma aparência de mal, sendo na verdade o portador da salvação e da iluminação”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sempre-e-de-novo" style="font-size:19px"><strong>Sempre e de novo</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">Na mesma linha, o temido e “maléfico” imperfeito, que nos exila do ideal “benéfico” de perfeição, costuma ser uma descoberta libertadora. O homem que chega aos quarenta, consumido pelo fato de nunca ter sido o que havia, vinte anos antes, planejado para si mesmo, pode e precisa encontrar um novo sentido para o “fracasso” que foi sua juventude adulta, precisa de um novo olhar para o presente para que a imperfeição do passado seja uma iluminação e não um abismo. Se não for capaz dessa ressignificação, com que cara vai encarar o futuro, posto que, assim, jamais estará à altura dele?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">Da mesma maneira, aquele cinquentão, a que todos consideram um sucesso, rico, famoso e poderoso, dono de uma “vida perfeita”, como poderá encarar uma demissão ou a quebra inusitada de sua empresa ou, ainda, uma separação? Como uma mulher madura e bem-sucedida poderá deixar boa parte do que conquistou por não encontrar mais sentido no que sempre fez? Ela sente que há muito a realizar, mas, para alcançar o que anseia, terá de se transformar noutra. Quem ela será?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">Com o jovem aplaudido de pé pela família, quando criança e adolescente, por ser muito inteligente, drama semelhante costuma se dar. As grandes ideias, os poemas que escreve e só mostra aos mais próximos, o piano que toca e todos dizem que é fabuloso… Tudo isso colocado à prova no mundo continuará sendo “perfeito”? Estará ele pronto para não ser o “máximo”, para não ser o pequeno prodígio que sonha ser — ou que sonham por ele? “Pronto” ou não, se ficar onde está, nada mudará. E, sejamos sinceros, quem está pronto de véspera?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-perfeicao-como-desculpa-para-nao-se-viver-nao-se-revela-apenas-em-grandes-atos-da-vida-ate-porque-a-vida-se-faz-de-pequenas-acoes-faz-se-em-cada-palavra-em-cada-verso-para-so-depois-ser-um-poema-e-quica-com-mais-poemas-um-livro" style="font-size:19px">A perfeição como desculpa para não se viver não se revela apenas em grandes atos da vida, até porque a vida se faz de pequenas ações, faz-se em cada palavra, em cada verso para, só depois, ser um poema e, quiçá, com mais poemas, um livro.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5">Por isso, é na recusa da realização de tarefas simples, sob o pretexto de uma perfeição, que deixamos de viver a grandeza de nossa existência. Sem a imperfeição humana, todo o sonho é natimorto. Mas o que a <em>Anima Mundi</em> quer de nós é que sejamos capazes de ir além do ventre das idealizações. A alma quer nascer, quer realizar-se — sempre e de novo.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: A perfeição como uma boa desculpa para não se viver" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/Mi3nvVulV-s?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/wagnerhilario/">Wagner H. P. Borges — Membro Analista em Formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi — Membro Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-bibliografia"><strong>Bibliografia</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">PESSOA, Fernando. <strong>Livro do Desassossego</strong> — Composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. São Paulo: Companhia de Bolso, 2023. Livro Eletrônico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>A natureza da psique</strong>. 10ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_________. <strong>O desenvolvimento da personalidade</strong>. 14ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Psicologia da arrogância individual</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/psicologia-da-arrogancia-individual/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Rafael Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Jun 2025 15:53:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Tipos Psicológicos]]></category>
		<category><![CDATA[arrogância]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=10523</guid>

					<description><![CDATA[<p>Ao imaginar a escrita desse artigo me ocorreu de o futuro leitor pensar: “mas quem é esse sujeito arrogante querendo escrever sobre a arrogância?”. E o mais interessante é que o simples fato de eu pensar isso é um ato arrogante, pois quem disse que meu texto será suficientemente atraente para despertar o interesse da [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong><em>Ao imaginar a escrita desse artigo me ocorreu de o futuro leitor pensar: “mas quem é esse sujeito arrogante querendo escrever sobre a arrogância?”. E o mais interessante é que o simples fato de eu pensar isso é um ato arrogante, pois quem disse que meu texto será suficientemente atraente para despertar o interesse da leitura de alguém, mesmo que seja para falar mal? A arrogância! Então podemos afirmar de antemão que a arrogância está (quase) sempre presente.</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Curiosamente, o primeiro artigo de minha autoria publicado no site do IJEP, em 2017, foi sobre <a href="https://blog.sudamar.com.br/estar-na-vida-para-existir-ou-para-atuar-uma-jornada-com-vincent-van-gogh/">Van Gogh</a>, um sujeito que inspira naqueles que conhecem sua biografia uma ideia de humildade enquanto artista, quase que ignorante de sua genialidade, e meu segundo artigo foi sobre os preceitos umbandistas da <a href="https://blog.sudamar.com.br/fe-humildade-e-compreensao-para-quem-precisa/">fé, humildade e compreensão</a>. <strong>Imagino a humildade como o par oposto à arrogância, então talvez esse artigo seja complementar a estes dois primeiros</strong>. Partindo disto, parece interessante problematizar a arrogância sob a ótica da psicologia junguiana, tanto no seu aspecto luz, como em seu aspecto sombrio.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nossa-questao-e-como-o-pensamento-junguiano-pode-nos-ajudar-a-compreender-a-psicologia-da-arrogancia-no-individuo" style="font-size:19px">Nossa questão é: <strong>como o pensamento junguiano pode nos ajudar a compreender a psicologia da arrogância no indivíduo?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Primeiro, digo que uso “pensamento junguiano” porque optei por uma escrita ensaística, com base nas ideias e preceitos de Jung, mas sem a rigorosidade de fundamentação teórica, apesar de utilizá-la indiretamente o tempo todo. Segundo, esclareço que o uso do termo “psicologia” no título do artigo é no sentido estrito da palavra, ou seja, qual seria a compreensão, o “logos” psíquico, das pessoas tidas como arrogantes? É isso que tentaremos responder nos parágrafos seguintes.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Um princípio que parece negligenciado no campo junguiano é o fato de a arrogância ser típica em pessoas que têm um padrão dominante de introversão na consciência, já que, inconscientemente, defendem uma superioridade do ego, não raro inflando este ego de forma a se identificar com Self (ego = algo menor e Self = algo maior, logo, um não pode ser igual o outro; Self &gt; ego). Explica Jung em <em>Tipos Psicológicos (OC 6)</em>, não exatamente com essas palavras, que o introvertido é o sujeito que prevalentemente é o mais “cheio de si” – eu sei que isso pode causar estranhamento, devido ao conhecimento baseado no senso comum do que seria a introversão, que à reduz a uma ideia de fragilidade, vulnerabilidade, timidez ou algo assim. Por ora, digo que a introversão é mais complexa que esse reducionismo teórico, mas vamos entender arrogância da introversão. Em seguida também falaremos da arrogância da timidez em específico, que parece ser algo importante de se explorar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-aquelas-falas-tipicas-dos-introvertidos-de-que-nao-gostam-de-sair-de-casa-que-gostam-do-seu-sofa-que-nao-gostam-de-estar-com-pessoas-que-pessoas-lhe-cansam-apesar-de-serem-parcialmente-verdadeiras-sao-tambem-um-mecanismo-de-defesa" style="font-size:19px">Aquelas falas típicas dos introvertidos de que “não gostam de sair de casa”, que “gostam do seu sofá”, que “não gostam de estar com pessoas”, “que pessoas lhe cansam”, apesar de serem parcialmente verdadeiras, são também um <strong>mecanismo de defesa</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Isso que se dá porque, na verdade, o que o sujeito da introversão demonstra com esse discurso é que ele quer evitar sua exposição a relações humanas, dado que isso o mantém em sua fantasia de poder, tal como brilhantemente Adler pontuou em sua Psicologia Individual (Adler, 1967). Em outros termos, o que sugerimos é uma espécie de inversão, pois é como se o sujeito (o ego) se sentisse tão importante que não lhe caberia se expor em situações que potencialmente confrontem sua posição já estabelecida, afinal, “desocupar” essa posição, revelaria que ele também tem vulnerabilidades, algo impensável de se expor!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">No universo junguiano não é incomum escutar “<strong>não gosto de me expor, sou introvertido</strong>”. Considerando uma leitura mais autêntica de si, a pessoa deveria falar a verdade em vez de usar a introversão como defesa. Então a frase deveria ser assim “não gosto de me expor, dado que isso daria a chance de perceberem publicamente que sou uma pessoa desinteressante ou insegura, por isso prefiro me proteger, assim ninguém descobre algo sobre mim que não quero que descubram”. Outro dia testemunhei algo parecido com isso quando alguém expunha as qualidades de seu próprio livro a um potencial comprador. Uma pessoa do campo junguiano que não ia comprar o livro, e que presenciou a cena, comentou ao autor do livro “mas que autoexaltação toda é essa?”, eis que o outro retruca, num misto de ironia e seriedade, “você venderá meu livro por mim?”, prontamente ela disse com certo orgulho “nem as minhas qualidades eu exalto”, o autor retruca, “pois deveria&#8230;”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">É interessante notar que existe arrogância tanto no vendedor do próprio livro, que provavelmente estava inflando as qualidades de sua escrita – como qualquer vendedor faz com seus produtos de venda –, tanto naquela pessoa que vocifera contra a autoexaltação; se orgulhar de não proclamar as próprias virtudes como se isso fosse maior ou melhor do que quem as proclamam também contém aspectos arrogantes. São dinâmicas opostas na consciência, mas com núcleos de arrogância semelhantes. É como se a outra pessoa dissesse “olha como eu sou alguém especial, pois não preciso falar de minhas qualidades”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Na extroversão a arrogância também se faz presente, dado que o <strong>excesso de exposição</strong>, mais típica nesta tipologia, é tão unilateral e arrogante quanto à não exposição, pois aquele que requer holofotes para si o tempo todo também é aquele que quer “provar” externamente que tem muito a dizer, que suas contribuições são muito importantes, já que no íntimo, inconscientemente, não considere suas observações tão relevantes assim. É aqui que o prepotente “entrega” que, na verdade, é um impotente internamente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-outra-expressao-inconsciente-da-arrogancia-que-tem-alguma-relacao-com-a-introversao-como-introduzimos-mais-acima-e-a-timidez" style="font-size:19px">Outra expressão inconsciente da arrogância que tem alguma relação com a introversão, como introduzimos mais acima, é a timidez.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Diferenciemos constrangimento de timidez. Por exemplo, você levar um tombo em público, ter um lapso de fala numa palestra, ser desqualificado por um chefe, são situações potencialmente constrangedoras. Timidez é outra coisa, e muitas vezes é confundida com humildade. Ela se refere a uma pessoa que tem dificuldade de se expor em situações sociais que em tese não representam uma ameaça significativa, tais como, na condição de aluno, não conseguir fazer perguntas publicamente em sala de aula, na condição de terapeuta – para enviesar o texto para nosso público hegemônico – participar de supervisão em grupo, mas não conseguir levar casos ou fazer perguntas sobre os casos do colega, ter vergonha de chamar o garçom num restaurante para pedir a conta, pois “todos estão olhando” e por aí vai, pois os exemplos não cessam.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">É esperado que ao longo do desenvolvimento da personalidade crianças e adolescentes tenham situações de timidez, especialmente no momento das descobertas amorosas, mas a manutenção exacerbada disso ao longo da vida é só uma faceta da arrogância na perspectiva do inconsciente. Expliquemos. Na dinâmica inconsciente do tímido a situação é a seguinte: eu sou tão perfeito, maravilhosamente intocável, que o mundo tem que me amar, me aceitar, me acolher, me abraçar rigorosamente do jeito que eu sou, do jeito que penso, do jeito que espero que ele me receba, pois do contrário, serei refratário a ele.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Na consciência fica um discurso mais estereotipado: “não consigo fazer isso, pois todo mundo está olhando pra mim” – <strong>será que “todo mundo olhar” não é um ato arrogante</strong>? Todo mundo é muita coisa! Se pararmos para pensar, é dever da coletividade se moldar para atender aos desejos do tímido? Parece que não. Por outro lado, é dever do tímido fazer tudo que se espera dele só para atender a um ideal coletivo? Também parece que não. Retomemos a ideia mítica do <em>métron,</em> a justa medida, que evoca um bom termo entre os diferentes e os opostos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Que fique claro que essa antinomia, timidez consciente VS. arrogância inconsciente, não acontece simplesmente por vontade do sujeito, ela é fruto de um embate típico entre consciência e inconsciente. Portanto, podemos concluir que em todo tímido habita uma arrogância sombria ou inconsciente&#8230;, mas e a sombra do arrogante típico, qual é?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O que consideramos um arrogante típico é o sujeito do “beijinho no ombro”, cheio de si, que adora exaltar as próprias qualidades de forma a, inconscientemente, desqualificar o outro – para se qualificar?! Não sabemos. Não raro, não se dá ao trabalho de escutar outras pessoas, afinal suas ideias são sempre as melhores; se incomoda quando escuta elogios feitos a outras pessoas que não a ele; menospreza qualquer pessoa que julgue não estar à altura da sua envergadura social, financeira, política, intelectual, espiritual, moral, dentre outras. Na época de escrita deste artigo, no primeiro semestre de 2025, veio a público um entrevero entre uma passageira brasileira e um grupo de comissários de bordo dentro de um avião da American Airlines, de forma que a passageira vocifera no meio da discussão se direcionando aos comissários: “<strong>você não sabe com quem você está falando</strong>!”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Não somos juízes do problema em questão, dado que isto é entre ela e a companhia aérea, mas existe pergunta (ou afirmação) tipicamente humana mais arrogante do que “você sabe com quem está falando”? Sabemos sim, com uma pessoa arrogante! E para não deixar de falar, uma frase que me parece cada vez mais comum é “na minha humilde opinião tal coisa deveria ser assim”. Troquemos. O certo deveria ser “na minha pretensa humilde opinião, que eu quero que você engula goela abaixo, tal coisa deveria ser assim&#8230;”. <strong>Parece-me deveras arrogante atribuir a si a condição de humilde</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Nesses casos que descrevemos a arrogância é evidente, patente, pública, e revela que na sombra desse sujeito habita alguém que é inseguro, que tem uma constante sensação de esvaziamento de si, de ilegitimidade, de ausência de potência; exacerba suas qualidades a fim de esconder de si seu próprio desvalor. O tímido é inseguro por fora e arrogante por dentro; o arrogante sugere segurança por fora, mas é inseguro por dentro. O tímido, por vezes, exalta sua – suposta – humildade, enquanto o arrogante muitas vezes é vaidoso.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-falar-em-vaidade-ela-tambem-e-uma-das-diversas-expressoes-da-arrogancia" style="font-size:19px">Por falar em vaidade, ela também é uma das diversas expressões da arrogância.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Mas a olhemos de maneira mais abrangente. Vou usar um exemplo típico entre terapeutas já que, novamente, são os leitores predominantes deste blog. Com o advento das redes sociais muitos terapeutas passaram a utilizá-las para disseminar conhecimento e promover sua imagem via vídeos, às vezes de “dancinha” ou algo similar – não estamos discutindo a qualidade do conteúdo, só o fato em si. Tal ação, frequentemente, é repreendida por outros terapeutas dizendo que tais terapeutas só divulgam esses vídeos em função de suas vaidades. Talvez aqueles que repreendam os que gravam vídeos de “dancinha” estejam corretos sob determinados aspectos. Mas é preciso dizer que não gravar vídeo também é vaidade. É a vaidade daquele que entende que para conseguir clientes para seu consultório existem outras formas que não via vídeos. É como se a pessoa dissesse: “eu sou melhor que você, pois não cedo à vaidade de gravar vídeos para as redes sociais”, disse o vaidoso. Tudo é vaidade, tal como descreve o texto bíblico do Eclesiastes.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Por outro lado, também há o sujeito que grava vídeos e que atormenta a vida dos não fazedores de vídeos, defendendo a ideia de que eles perdem muito (não sei o que) em não usar esse recurso&#8230; Em Eclesiastes estaria “vaidade das vaidades”, mas eu diria “arrogância das arrogâncias”. Será que simplesmente não caberia deixar quem é do vídeo com o vídeo, e quem é do não vídeo sem vídeo?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Diversos outros exemplos poderiam ser mencionados aqui, tais como a arrogância do intelectual, que se pensa mais conhecedor e sábio do que outros, a do executivo empresarial, que se pensa superior às pessoas que lidera, a dos abastados financeiramente, que se sentem melhores do que aqueles que têm condições financeiras precárias etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Mas, como sempre, a recíproca é verdadeira, pois aquele que mal lê, só se informa pelo “grupo do zap” e vocifera contra os intelectuais, diz que não precisa ler um monte de livros para ser “uma pessoa melhor”. Já o funcionário “padrão” investe (gasta) um tempo enorme nos bate-papos “do café” dizendo quanto o seu chefe conduz mal seu trabalho e que só está lá “por QI”, desqualificando possíveis competências profissionais deste chefe. Na prática, ambos só retroalimentam sua própria arrogância, verbalizando para o mundo quanto sua perspectiva de vida é, em tese, maravilhosa – tipo aqueles sujeitos que dizem que “Paulo Freire é um energúmeno”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Num livro de autoria de James Redfield, não lembro se em <em><strong>A décima profecia</strong></em> ou em <em><strong>O segredo de Shambhala</strong>, </em>há uma passagem que diz que todas as pessoas pensam que a forma como elas lidam com a vida é sempre a melhor forma possível de se fazer isso. Eu diria que “todas” (assim como “todo mundo”) é muita coisa, mas ao mesmo tempo, a fala não me parece absurda.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-afinal-o-que-e-arrogancia-e-o-contrario-de-rogar" style="font-size:19px">E afinal, o que é arrogância? É o contrário de rogar.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Rogar é suplicar, pedir com humildade, implorar por algo. Logo, arrogar, é o contrário disso, ou seja, é trazer para si a responsabilidade de tudo, é a admissão de que apenas a própria existência é o suficiente, destituindo-se a necessidade do rogar e da necessidade de receber ajuda de alguém. O ponto é que apesar de o senso comum argumentar que a arrogância é algo ruim, do ponto de vista psicológico precisamos fazer contornos mais adequado e dar a César o que é de César.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A arrogância, no sentido que a conhecemos, que congrega em uma pessoa a antipatia, a deselegância e a autoexaltação, é um tanto chato mesmo. Mas existe um detalhe entre o arrogante e o rogante: a <strong>projeção</strong>. É típico que um rogante encontre sua arrogância no outro, projetada, ao passo que o arrogante encontre o seu rogar no outro, projetado. Em outras palavras, não podemos esquecer que existem pessoas que são genuinamente seguras de si, possuem convicções que encontram correspondência em situações plausíveis (experiência, conhecimento, ciência etc.), têm boa dicção, voz, postura e opiniões firmes, têm reconhecimento público em determinado tema (esporte, arte, cultura etc.), sabem expor suas ideias de maneira convincente, dentre uma série de adjetivos que poderiam colocá-las com a insígnia de arrogantes. Será?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Me recordo de uma passagem referente ao reconhecido profissional de TV José Bonifácio Sobrinho, ou Boni. Em certa entrevista ele contou que em algum momento Silvio Santos quis contratá-lo para o SBT (Boni era da Rede Globo), mas esse contrato limitaria seus poderes em relação aos que ele já tinha na Globo. Optou por ficar na Globo, alegando que sua experiência era suficientemente sólida e que conhecia muito bem os mecanismos da televisão, não cedendo aos limites que Silvio queria impor. Arrogância? Acho que não, é a experiência aliada à segurança. Gostemos ou não, a “cara” da televisão brasileira tem o “dedo” do Boni, hoje dono de sua própria televisão, a Rede Vanguarda.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Tomemos esse exemplo para outras áreas da vida. Em quantas situações investimos a nossa própria arrogância, projetada, para descrever quanto pessoa A ou B é arrogante? Ou ao contrário, quanto depositamos no outro o nosso rogar? Como saber em que momento houve um enredamento da arrogância sombria de um com a postura de segurança do outro? Naturalmente, se pensamos no processo de análise, uma pessoa que está realmente dedicada à experiência analítica, disponível para o exercício do contraditório, susceptível à reflexão genuína, potencialmente terá recursos para diferenciar o que é dela e o que é do outro. Mas se a vida da pessoa é pautada na busca pela<strong> legitimidade externa</strong>, já que intimamente se sente ilegítima, seja introvertida ou extrovertida, muito provavelmente ela se sentirá “preenchida” apenas quando vociferar contra aqueles que, em tese, atentam contra sua – insignificante? – existência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Sei que comecei este texto num tom que parecia ir para o caminho de detratar o arrogante e chego ao fim dando a entender que o estou defendendo. Se você entendeu assim, acho que não consegui fazer a devida diferenciação. O desafio, na verdade, é justamente delinear qual é a justa medida entre sustentar saudavelmente as próprias convicções e viver de maneira plena tal situação, versus exacerbar as próprias posições, sendo para fora ou para dentro, como forma de se defender e paradoxalmente atacar o mundo. Em tese, uma atitude de buscar conhecimentos genuínos, experiências saudáveis, relações com pessoas que “provocam” criativamente (e não que bajulem), são situações que potencialmente ajudam a pessoa a discernir entre a arrogância e a segurança. Por outro lado, se fôssemos listar uma porção de regras de como “não ser arrogante”, seria também arrogante. Cabe-nos buscar esse espaço criativo entre o rogar e o arrogar, dado que a unilateralidade de um coloca o outro na sombra.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-arrogancia-repousa-num-terreno-pantanoso-que-a-tudo-engole-e-nada-sustenta-seja-esta-numa-expressao-mais-obvia-evidente-ou-numa-expressao-mais-sombria-latente" style="font-size:19px">A arrogância repousa num terreno pantanoso, que a tudo engole e nada sustenta, seja esta numa expressão mais óbvia, evidente, ou numa expressão mais sombria, latente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Mas o rogar unilateral, terceiriza a responsabilidade, sem assumir que é preciso se posicionar pessoalmente diante de determinadas situações, sem atribuir a algo ou a alguém as próprias decisões. <strong>Aquele que é arrogante talvez precise de um encontro com o seu rogar interior</strong>. Aquele que é tímido ou que se identifica como alguém “humilde”, talvez precise de um encontro com o seu arrogante interior. E aquele que tem segurança e recebe as projeções sombrias do rogante e do arrogante, e que ao mesmo tempo roga e arroga, nada há a fazer, a não ser seguir, sem se distanciar da insegurança interior.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Psicologia da arrogância individual" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/MaCkigEYozc?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/rafaelrodrigues/"><strong>Rafael Rodrigues de Souza – Analista Didata em formação</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph"><a></a><a>ADLER, Alfred. A ciência da natureza humana. 6 ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1967.</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Tipos psicológicos (OC 6). 7 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/psicologia-da-arrogancia-individual/">Psicologia da arrogância individual</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A natureza psíquica e física e seus desafios: como harmonizar a rotina estressante e o sentido da vida?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/corpo-e-mente-natureza-e-autoconhecimento/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Claci Maria Strieder]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 May 2024 19:05:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=9091</guid>

					<description><![CDATA[<p>O artigo explora a conexão entre corpo e psique, destacando a importância do autoconhecimento e da harmonia com a natureza. Reflete sobre a rotina estressante, as mudanças climáticas e a necessidade de equilíbrio emocional e físico. Cita Jung e a alquimia como caminhos para conciliar mente e ambiente.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5"><strong>As rotinas entrelaçadas com atividades estressantes nos convidam para um diálogo interno. Geralmente em momentos de quietude, solidão ou solitude, podemos estabelecer uma conexão entre a natureza interna, compreendida como psique – alma, espírito, mente – traduzida por sentimentos, pensamentos e percepções e a natureza externa &#8211; o corpo físico &#8211; que permite interação e adaptação ao meio ambiente em contato com a água, o ar, a energia, o solo, a fauna, a flora e a cultura humana.</strong> <strong>Neste sentido, psique e corpo são vistos por alguns estudiosos como aspectos antagônicos, porém com as ampliações que seguem pretende-se evidenciá-los como complementaridade integrativa possibilitando a busca e o encontro do sentido de vida.&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">No período que antecede ou mesmo durante as festas do final de ano o clima é favorável para fazer uma retrospectiva do ano que está encerrando e organizar promessas de melhorias e adaptações necessárias, principalmente ao ouvir e cantar a música <em>Fim de Ano, </em>mais conhecida como <em>Adeus Ano Velho, Feliz Ano Novo, </em>composição de David Nasser e Francisco Alves, originalmente cantada por João Dias no ano de 1951: “Adeus ano velho, feliz ano novo. Que tudo se realize no ano que vai nascer {&#8230;}.&#8221;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-musica-inspira-dias-melhores-em-todos-os-sentidos-convida-para-um-olhar-diferenciado-que-de-acordo-com-jung-envolve-o-autoconhecimento" style="font-size:18px">A música inspira dias melhores em todos os sentidos, convida para um olhar diferenciado, que de acordo com Jung envolve o autoconhecimento:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p><a>“Minha experiência ensinou-me o quanto é salutar, do ponto de vista terapêutico tornar conscientes as imagens que residem por detrás das emoções.” (JUNG, 1987, p. 158).</a></p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Ao mesmo tempo que a letra da música e o pensar de Jung contemplam aspectos da psique, da mesma forma podem alargar o repensar de atitudes coletivas, influenciando o ambiente físico em que vivemos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">No calendário gregoriano o ano inicia em 1º de janeiro. Na&nbsp; astrologia o começo do ano é marcado pelo ingresso do Sol no signo de Áries, o que geralmente ocorre em&nbsp;20 de março. Independente das diferentes concepções, o verão passou, é tempo de outono e muitas promessas de mudanças ainda não fazem parte da rotina. Como cantam Sandy &amp; Júnior (2001) com <em>As Quatro Estações</em>, “No outono é sempre igual, as folhas caem no quintal {&#8230;}.”</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Analogicamente, as folhas podem representar vários aspectos do psiquismo humano.&nbsp; Antes de caírem, as folhas têm a função acolhedora de serem sombra e de melhorarem o ar do entorno relacional, depois cumprem outro papel, transformam-se em adubo para beneficiarem outros ciclos de vida. Muito parecido com os indivíduos que encontram e cumprem seu sentido de vida. Em contrapartida, outros passam seus dias, semanas, meses, anos, permanecem numa rotina estressante e não priorizam a essência da vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-falarmos-de-natureza-psiquica-vale-lembrar-o-pensar-de-jung" style="font-size:19px">Ao falarmos de <strong>natureza psíquica,</strong> vale lembrar o pensar de Jung:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-default" style="font-size:19px"><blockquote><p>“Todas as expressões possíveis e imagináveis, quaisquer que sejam, são produtos da psique” (JUNG, 1987, p. 302).</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">As rotinas estressantes revelam o excesso de energia em determinada área, em detrimento de outras.&nbsp; No plano psicológico, o excesso pode se manifestar em forma de ansiedade e depressão, diminuindo a qualidade de vida. Muitos sintomas se estabelecem pelo excesso de trabalho, pela má alimentação, pelo sedentarismo, pela alteração do ciclo de sono, entre outros. Em termos gerais, a qualidade de vida envolve o bem estar físico, mental, espiritual, psicológico e emocional. É a forma que o indivíduo escolhe para viver bem consigo, com o entorno relacional e depende de muitos fatores: saúde, da renda, da segurança, da habitação, da educação, da convivência, do lazer, etc. Ou seja, é um ser individual e plural, que necessita também da sensação de significado e de sentido.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">E nesta busca é comum colocar em primeiro plano as metas e aquisições necessárias para o alcance de padrões desejáveis que a sociedade impõe. Ao mesmo tempo, busca-se a felicidade a qualquer custo. Na ilusão de encontrá-la na saciedade alimentar, no prazer sexual, no controle e outras satisfações momentâneas, que podem ser entendidas como emoção de alegria, diferente de felicidade que é construída e envolve a missão do ser humano. Surgem questões: Além das obrigações e escolhas diárias, o que dá sentido para a vida? De que forma o sentido da vida está interligado com o ambiente em que vivemos?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-investimentos-na-saude-ambiental-sao-necessarios-e-envolvem-aspectos-da-saude-humana-voltados-aos-fatores-fisicos-quimicos-biologicos-sociais-e-psicologicos" style="font-size:19px">Investimentos na saúde ambiental são necessários e envolvem aspectos da saúde humana, voltados aos fatores físicos, químicos, biológicos, sociais e psicológicos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Entre os eventos que a natureza exalta, comparecem nos últimos tempos as mudanças climáticas, interferindo em diferentes dimensões. Cada vez mais visíveis são as alterações <strong>na natureza física</strong>, como recentemente a presença do sol e do calor aumentado em algumas regiões e o excesso de chuva e frio em outras. Observam-se evidências e mudanças climáticas significativas a partir das polaridades sol e chuva, calor e frio, que precisam de harmonização.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Clima é uma palavra bastante utilizada em diferentes contextos e, segundo o minidicionário da língua portuguesa (BUENO, 2000, p. 171), significa um conjunto de condições meteorológicas de uma dada região. Clima bom, clima ruim, clima favorável ou desfavorável, são expressões que indicam condições ambientais e, no conhecimento popular, podem ser compreendidas como conjunto de características favoráveis ou contrárias no ambiente que envolvem atitudes e sentimentos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Ditados populares expressam se o clima não está bom e as condições não estão favoráveis, como “névoa baixa, sol que racha”, que envolve um fenômeno meteorológico conhecido como cerração, em que ocorrem mudanças bruscas no clima em determinado espaço e geram necessidades, ajustes ou transformações, assim como a vida rotineira requer harmonizações.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-trabalho-e-uma-das-dimensoes-importantes-da-vida-que-envolve-grande-parte-do-dia-com-possibilidades-de-realizacao-ou-insatisfacao" style="font-size:19px">O trabalho é uma das dimensões importantes da vida, que envolve grande parte do dia, com possibilidades de realização ou insatisfação.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Um olhar importante é o da psicologia organizacional &#8211; uma das abordagens da psicologia – que iniciou em 1930 e gradativamente foi aumentando os estudos no decorrer dos anos sobre o clima organizacional, tendo como missão a compreensão das necessidades, percepções e preocupações dos colaboradores de uma empresa.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Pode-se entender como clima quente neste contexto o desconforto, os sintomas de estresse, a depressão e a ansiedade, assim como a Síndrome de Burnout, um distúrbio psíquico que comparece nas empresas em forma de exaustão física e emocional, dores musculares e outros sintomas mais. O que parece algo pontual, interfere no todo e reflete em todas as áreas da vida, inclusive no plano psicológico.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Vive-se numa contradição: ao mesmo tempo que não se valoriza a natureza com atitudes de preservação, é junto à natureza que ocorre o desligamento da rotina e o relaxamento. Isso pode ser observado nas escolhas e definições que envolvem os finais de semana, os feriados e as férias. Indivíduos refugiam-se em pousadas, clubes, chácaras, lagos, cachoeiras, rios, praias, montanhas e em muitos ambientes naturais que permitem uma conexão com a alma.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-meio-ambiente-e-essencial-no-entanto-age-se-como-se-os-elementos-que-hoje-fazem-tao-bem-fossem-eternos" style="font-size:19px">O meio ambiente é essencial, no entanto age-se como se os elementos que hoje fazem tão bem fossem eternos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">O tema preservação da natureza não desperta o interesse de todos, por interferir em diversas produções e também em aspectos financeiros, porém é necessário um olhar para o que ocorre no entorno físico e relacional.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Neste sentido, existem inúmeros aspectos para serem contemplados e ampliados, como por exemplo a poluição do ar que causa doenças respiratórias, mentais e cardiovasculares. Chuva e seca em excesso também resultam em doenças transmitidas por mosquitos, insolação, alergias, pneumonia e problemas gastrointestinais. Um exemplo típico é o surto ou a epidemia de dengue nas diferentes regiões do país.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-sociedade-culpa-o-governo-e-governo-culpa-a-sociedade" style="font-size:19px">A sociedade culpa o governo e governo culpa a sociedade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Nestes casos, há uma tendência de achar um “bode expiatório” e continuar na posição de vítima. É um processo antagônico e cômodo, mas que não gera mudanças e apresenta tendências de agravamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">É interessante observar que, segundo as previsões da Organização Meteorológica Mundial, há tendência de as temperaturas globais ultrapassarem de 1,5 °C de aquecimento nos próximos 5 anos. São alterações silenciosas de muitos anos, cujo resultado envolve atitudes do excesso decorrentes das ações humanas: a derrubada de árvores de forma desenfreada, as produções das indústrias, ocupação urbana desordenada e o excesso de lixos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Algumas providências foram tomadas como, por exemplo, em 16 de março de 2011 foi instituído o Dia Nacional de Conscientização sobre as mudanças climáticas, decretado pela Lei Nº 12.533, para promover debates, atos, mobilizações e eventos que promovam a proteção dos ecossistemas. É interessante lembrar que as atitudes externas refletem um psiquismo interno.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-desta-forma-percebe-se-movimento-e-investimento-de-energia-para-contemplar-o-lixo-fisico" style="font-size:19px">Desta forma, percebe-se movimento e investimento de energia para contemplar o lixo físico.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">E o que é feito com os lixos internos que alteram o ser humano e seu entorno relacional? Todo excesso encobre uma falta! Falta que é suprida com objetos, aquisições materiais, alimentos, sexo, redes sociais, etc. O que de fato está faltando? Há muitos anos Jung escreveu sobre os excessos:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“Qualquer que seja a forma que revele o excesso que nos entregamos, como o álcool, a morfina ou o idealismo, é nociva” (JUNG, 1987, p. 284).</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">O excesso gera consequências! Muitas vezes o apego é centrado em regras e leis exteriores, ao invés de olhar para os aspectos internos que podem ser abarcados por um processo de análise, tendo em vista a melhoria no autoconhecimento, na autoestima e na autonomia.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-pequenas-atitudes-diarias-de-todos-podem-fazer-a-diferenca" style="font-size:19px">Pequenas atitudes diárias de todos podem fazer a diferença.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Nas escolas, desde a educação infantil, ensina-se sobre a importância da natureza, da coleta seletiva, da reciclagem e do cuidado com o meio ambiente. E onde isso se perde? É necessário passar por um calor excessivo e devastações causadas pela água para produzir saídas criativas? A pandemia do Covid-19 não foi suficiente para promover mudanças significativas! A forma de proteção e sobrevivência no período se promoveu pelo afastamento de um mundo acelerado e o recolhimento nos lares.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Afastar-se do excesso e recolher-se, não só pode ser uma saída criativa, como pode promover ressignificações individuais e coletivas. É preciso olhar adiante, para o mundo que será deixado para as próximas gerações. Todos podem contribuir e para isso algumas vezes é necessário abrir mão do conforto, do mais fácil, do mais acessível, do descartável e do imediatismo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Furacões, ciclones, tempestades, ondas de calor, secas, inundações e enchentes internas prolongadas, o que elas dizem e como lidar com elas? Para responder as questões sobre a natureza física, psíquica e suas transformações, é interessante fazer conexões com a alquimia tão estudada por Jung.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Simbolicamente, o calor faz transmutar elementos que são colocados no cadinho, lugar onde os alquimistas colocavam elementos para serem transformados, que pode ser comparado com a realidade da vida, com elementos angustiantes e destrutivos, possíveis de serem ressignificados.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Para tanto, uma saída criativa é transitar entre Prometeu (introvertido) e Epimeteu (extrovertido), que evidenciam o arquétipo do renascimento, da circularidade e dos ciclos, com possibilidade de integrar os elementos internos e externos:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“Trata-se, antes, neste conflito das duas figuras, a luta entre a linha evolutiva do introvertido e extrovertido num único e mesmo indivíduo, mas que a exposição poética materializou em duas figuras autônomas em seus destinos típicos” (JUNG, 2013, §262).</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-se-trata-de-eliminar-sintomas" style="font-size:19px">Não se trata de eliminar sintomas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">É necessário integrar os conteúdos do inconsciente com a consciência. Quanto mais se compreende o funcionamento do psiquismo, mais possibilidades de adaptações e integrações com o meio ambiente, que se reverte em plenitude.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Percorrendo a obra completa de Jung, em <em>Estudos Alquímicos, </em>eletrouxe aspectos relevantes que contribuíram para o entendimento simbólico da alquimia, permeadas de experiências vivas, voltadas ao psiquismo e aos elementos da natureza:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“O elemento terra está relacionado à função sensação e é denominado de operação <em>coagulatio.</em> O elemento água está relacionado à função sentimento e é denominado de operação <em>solutio.</em> O elemento ar relaciona-se com a função pensamento e é chamado de operação <em>sublimatio.</em> Finalmente, o elemento fogo está relacionado com a função intuição e envolve a operação <em>calcionatio” </em>(STRIEDER, 2022, p. 37).</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ele-disse" style="font-size:18px">Ele disse:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>“O sábio extrai dessas imagens as inspirações mais sublimes, tudo que é pleno de sentido e valor; ele o extrai mediante um processo de destilação” (JUNG 2013, p. 222). </p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Ele apresentou as visões de Zózimo de Panópolis &#8211; alquimista e gnóstico do século III &#8211; que contribuíram para esclarecer inquietações sobre o psiquismo, abordando temas como a composição das águas, num movimento de contração e expansão, a subida de sete degraus e observação de sete castigos no salão do sofrimento. Igualmente, o altar divino no quarto degrau, com a visão de alguém vindo do oriente com espada na mão, seguido por outro com uma esfera giratória branca radiante, o meridiano do sol, incentivando-o para o sacrifício. Esses aspectos, simbolicamente em seus diferentes momentos resumem o que envolve um processo de individuação. Não há transformação sem dor!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">A experiência anímica de Zózimo vem ao encontro do campo junguiano e de acordo com a fala de Magaldi Filho, em <em>Método Junguiano e a Alquimia</em>, (vídeo no YouTube, 03 janeiro 2004), existem aspectos que envolvem o processo analítico para promover a ampliação da consciência e podem ser compreendidos simbolicamente pela alquimia.&nbsp; Nele ocorre o que denominamos de rebaixamento do nível mental no vaso alquímico, permeado por um ambiente seguro, um encontro com o inconsciente pela associação de palavras, análise de sonhos e imaginação ativa. Transformar o chumbo em ouro envolve a compreensão do simbolismo, que contribui para a transmutação e evolução. Ou seja, difere de um olhar redutivo causal e vai ao encontro do prospectivo sintético. Além do motivo da nossa angústia (por quê), existe um sentido para a dor estar presente (para quê).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-de-modo-semelhante-jung-apresentou-paracelso-como-um-fenomeno-espiritual-e-um-pioneiro-nao-so-da-medicina-quimica-mas-tambem-da-psicologia-empirica-e-da-psicologia-medica-jung-2013-p-204" style="font-size:19px">De modo semelhante, Jung apresentou Paracelso como um fenômeno espiritual e “um pioneiro não só da medicina química, mas também da psicologia empírica e da psicologia médica” (JUNG, 2013, p. 204).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Ele viveu num período em que não havia a cisão entre conhecimento e fé, representando a consciência que se amplia com análise, dissolução, síntese, consolidação e elevação. Ainda, para a compreensão de expressões espontâneas do inconsciente, Jung ampliou o conceito Mercurius da alquimia e tentou mostrar como aspectos diabólicos, neuróticos e perversos podem ser transformados, pelo conto de Grimm <em>O Espírito da Garrafa </em>(CFE. JUNG, 2013, p. 239). O espírito Mercurius nos remete à ambiguidade: “ele é deus, gênio, pessoa, coisa e o que se oculta no mais íntimo do ser humano, tanto psiquicamente como somaticamente. Ele é fonte de todos os opostos” (JUNG, 2013, p. 373). Esses opostos sombrios e numinosos estão em todos os indivíduos e podem ser integrados.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Ainda, no mesmo livro, ao ampliar questões sobre a árvore filosófica da alquimia, Jung reflete sobre o si-mesmo &#8211; origem e meta do processo de individuação &#8211; e o fenômeno do crescimento, com imagens individuais e relações históricas, que auxiliam na compreensão do uso do desenho de árvore por psicólogos (como parte do teste HTP) na realização do psicodiagnóstico, avaliando a essência e a personalidade de quem a desenhou.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">A analogia poética da árvore filosófica permite observar o fenômeno natural do crescimento da psique, peculiar nas plantas, em que a semente ou muda de planta precisa de terreno fértil e cuidados para crescer, florescer e frutificar e cumprir toso os seus ciclos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-analogicamente-a-felicidade-da-arvore-frutifera-e-dar-frutos-mesmo-que-nao-se-alimente-deles-outros-o-farao" style="font-size:19px">Analogicamente, a felicidade da árvore frutífera é dar frutos, mesmo que não se alimente deles. Outros o farão.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">De forma idêntica, a psique vai se formando e transformando aos poucos, influenciando os outros, recebendo influências, cumprindo o seu processo cíclico, como os elementos da natureza.&nbsp;É importante observar o quanto o ser humano é influenciado por um vasto campo de informações disponíveis na internet, que atravessam a sua rotina pelas redes sociais. Que bom seria se todos pudessem filtrar essas informações e não se sentissem fora do contexto por não reproduzirem esses conteúdos!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-ja-dizia" style="font-size:18px">Jung já dizia:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>Nós nos contentamos assim de adquirir certos conceitos verbais, mas passamos ao lado do seu verdadeiro conteúdo, que consiste na experiência viva e impressionante do processo feito sobre nós mesmos. (JUNG, 2013, p.374).</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Em outras palavras, Jung sugeriu um investimento no processo de individuação, trazendo os conteúdos inconscientes para a consciência, no alcance do si-mesmo (selbst).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">A confrontação com o inconsciente tem como meta fazer cessar a dissociação, que geralmente inicia pelo inconsciente pessoal, de acordo com as sombras morais e posteriormente pelo inconsciente coletivo, com as representações arquetípicas. É um processo intenso e às vezes dolorido, que envolve a compreensão intelectual e também a experiência viva, considerada por Jung a verdadeira experiência que permite o encontro com a alma. O processo de desenvolvimento pode desencadear crises e dependendo da intensidade, causar sensações de enlouquecimento. Mas Jung alertou:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p><a>“Enlouquecer não é nenhuma arte, mas extrair a sabedoria da loucura, eis a arte. A loucura é a mãe dos sábios, jamais a inteligência” (JUNG, 2013, p. 195).</a></p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-transformar-a-dor-e-sabedoria" style="font-size:20px"><a>Transformar a dor é sabedoria!</a></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Jung é um exemplo de quem buscou e encontrou o sentido de sua vida. Durante os anos em que elaborou o Livro Vermelho ele deixou de lado as responsabilidades intelectuais e as responsabilidades éticas. O espírito da época não comportava algumas das suas vivências, pois estava imerso num processo de entrega diante da necessidade, movido por angústias e conexões:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“Senti urgência de tirar conclusões concretas dos acontecimentos que o inconsciente me havia transmitido, e isto se transformou na tarefa e conteúdo da minha vida” (JUNG, 1987, p. 167).</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-quantas-vezes-se-sentiu-imerso-na-solidao" style="font-size:18px">E quantas vezes se sentiu imerso na solidão.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“A solidão não significa a ausência de pessoas em nossa volta, mas sim o fato de não podermos comunicar-lhes as coisas que julgamos importantes, ou mostrar-lhes o valor de pensamentos que lhes parecem improváveis” (JUNG, 1987, p. 307).</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Essas reflexões vêm ao encontro do contexto atual e na música de Ana Carolina, <em>As Ruas de Outono, </em>a solidão comparece em forma de abandono e ao mesmo tempo enaltece a esperança de que tudo pode mudar:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Nas ruas de outono os meus passos vão ficar.<br>E todo abandono que eu sentia vai passar.<br>As folhas pelo chão que um dia o vento vai levar.<br>Meus olhos só verão que tudo poderá mudar.<br>(ANA CAROLINA, 2006)</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-vale-lembrar-que-as-estacoes-do-ano-metaforicamente-expressam-a-realidade-psiquica" style="font-size:18px">Vale lembrar que as estações do ano, metaforicamente expressam a realidade psíquica:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>A primavera sugere época de crescer e expandir até florir. Envolve a força e renovação. O verão pode ser visto como momento de exteriorizar sentimentos, em que acontecem encontros com otimismo e leveza, guiados pela energia do sol. No outono as folhas caem, encerrando um ciclo, terminando com nostalgia e amadurecimento. Por fim, o inverno representa recolhimento e interiorização, tristeza, melancolia e depressão. (STRIEDER, 2022, p. 33).</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Existe tempo para tudo e a vida é uma expressão alquímica!Como harmonizar os elementos da natureza com a rotina estressante e o sentido da vida? É necessário promover conexões entre o mundo interno e externo, que pode resultar em necessidade de mudanças, envolvidas de angústia diante do novo. É uma experiência permeada de tensão opositiva causada pela abertura do inconsciente. Para tanto, precisa-se de total liberdade para lidar com a realidade que abrange a necessidade, o desejo, os limites e as dificuldades encontradas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Assim, associando-as à novas realidades, pode-se chegar em algo que antes nem se imaginava e as mudanças ganham autonomia e refletem positivamente no mundo interno e no campo relacional. Da mesma forma, contribuem para o despertar de um olhar coletivo, tendo em vista a integração da <strong>natureza física e psíquica</strong>, que dialogam entre si pelos quatro elementos da natureza externa &#8211; ar, água, terra e fogo – e também pela natureza interna: pensamento, sentimento, sensação e intuição.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-e-outros-estudiosos-deixaram-valiosas-contribuicoes-para-o-entendimento-da-natureza-fisica-e-psiquica" style="font-size:19px">Jung e outros estudiosos deixaram valiosas contribuições para o entendimento da <strong>natureza física e psíquica</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">A angústia diante dos problemas auxilia no processo de ressignificação. Onde há sombra, há possibilidade de tornar algo melhor. No indivíduo preso ao passado, aspectos depressivos podem comparecer. Projetado no futuro, os aspectos ansiosos tomarão conta. <strong>Sobrecarregado no momento presente, a sensação de estresse toma conta.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Torna-se necessário distribuir a energia psíquica nas seis dimensões importantes da vida (corpo, trabalho, relacionamento amoroso, relações sociais, espiritualidade e família) e harmonizar esses aspectos. Além do que é preciso fazer na rotina por escolha ou obrigação, também é necessário algo que estimule viver e envelhecer com sabedoria.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">O sentido da vida geralmente está associado à resposta sobre qual é a parcela de contribuição para deixar o mundo melhor, a missão ou meta a ser compartilhada, que é construído ao longo da vida e torna o indivíduo melhor. Não envolve coisas grandiosas, mas a necessidade de estar inteiro onde estiver inserido. E isso pode ser compreendido como a felicidade, construída aos poucos e frutífera, assim como a árvore que dá o seu melhor, confirmado pela teoria de Jung:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Assim como o corpo precisa ser nutrido, não com um alimento qualquer, mas só com aquele que lhe convém, assim a psique tem necessidade do <em>sentido</em> de sua vida; e, além disso, não de um sentido qualquer, mas de imagens e ideias que lhe correspondam naturalmente, a saber, aquelas que lhe são suscitadas pelo inconsciente. (JUNG, 2013, par. 476).</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">A saída criativa é intensificar a ampliação da consciência, que permite ver em todos os ciclos a beleza da natureza psíquica e física e encontrar nelas o sentido da vida.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Encerro as minhas ampliações com a analogia poética da árvore filosófica, que vem ao encontro da poesia de Olavo Bilac, <em>Velhas Árvores</em> (Poesias, 2003, p. 138). Apesar do tempo decorrido, ela é atual e simboliza a natureza psíquica e física com um sentido de vida, envolvendo ciclos de aprendizados. Às vezes sombra, outras vezes inspiração!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-que-possamos-renascer-crescer-e-frutificar-em-cada-estacao-no-bom-no-belo-e-no-verdadeiro" style="font-size:18px">Que possamos renascer, crescer e frutificar em cada estação, no bom, no belo e no verdadeiro!</h2>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-solid-bg" style="font-size:18px"><blockquote><p>Olha estas velhas árvores, mais belas&nbsp;<br>Do que as árvores novas, mais amigas:&nbsp;<br>Tanto mais belas quanto mais antigas,&nbsp;<br>Vencedoras da idade e das procelas…&nbsp;<br>O homem, a fera, e o inseto, à sombra delas&nbsp;<br>Vivem, livres de fomes e fadigas;&nbsp;<br>E em seus galhos abrigam-se as cantigas&nbsp;<br>E os amores das aves tagarelas.&nbsp;<br>Não choremos, amigo, a mocidade!&nbsp;<br>Envelheçamos rindo! envelheçamos&nbsp;<br>Como as árvores fortes envelhecem:&nbsp;<br>Na glória da alegria e da bondade,&nbsp;<br>Agasalhando os pássaros nos ramos,&nbsp;<br>Dando sombra e consolo aos que padecem!<br>(BILAC, 2003) &nbsp;</p></blockquote></figure>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo Novo: A natureza psíquica e física e seus desafios" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/KNmnv5WukiA?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/clacistrieder/">Claci Maria Strieder – Membro Analista</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/"><strong>Waldemar Magaldi Filho – Analista Didata&nbsp;&nbsp;</strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:19px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">BUENO, Silveira. Silveira Bueno: minidicionário da língua portuguesa. São Paulo: FTD, 2000.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">BILAC, Olavo. Velhas árvores. Volume “Poesias”. São Paulo: Editora Martin Claret, 2003.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">CAROLINA, Ana. <em>As ruas de outono. </em>Álbum&nbsp;<a href="https://www.google.com/search?sca_esv=89aebea85e99b1ba&amp;sca_upv=1&amp;sxsrf=ACQVn0-pQD4KRseWG0SEkfgCsTgrBWzHFA:1714352317703&amp;q=Ana+Carolina+Dois+Quartos&amp;si=AKbGX_qWtsfHufXsq_1jeDkJp50FstNngDxsch3EVTUjn7imcME8XUDM8ydV4Y05PCP_ZOTuI3ojJq7ibwofKW1nkW4xkVoWbbtXQYyDzsklci5IzsrcA2VXORPUA62SPmcHdsSSDtmyzAa2ad4CRb_ySGP4QULRyb-HxMjS70fPOEuOvGG8z-8sGwo5Yp9zyBqFrLDW8BwW6fyQgIi3Wl98ltH69ZdB5A%3D%3D&amp;sa=X&amp;sqi=2&amp;ved=2ahUKEwjEjqqHnOaFAxW5p5UCHaRtAXMQmxMoAHoECCQQAg">Dois Quartos</a>, Sony Music, 2006.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">DIAS, João. Adeus ano velho &#8211; Composição de David Nasser e Francisco Alves.&nbsp; São Paulo: Indústrias Elétricas e Músicais Fábrica Odeon S.A, 1951.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">JUNG, C.G. <em>Estudos</em><em> alquímicos. 4.</em> ed.Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5"><em>_________ Memórias, sonhos e reflexões</em> (Reunidas e editadas por Aniela Jaffé). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">_________ <em>Tipos psicológicos. </em>7. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">MAGALDI FILHO, Waldemar. <em>Método Junguiano e a Alquimia. V</em>ídeo no YouTube, 03 janeiro 2004.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">SANDY &amp; JÚNIOR. As quatro estações. Universal Music Publishing Group, 2001.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">STRIEDER, Claci Maria. <em>Portais da Alma</em>: a psicologia analítica e as conexões criativas e integradoras da natureza psíquica. 1. ed. Curitiba: Appris, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">SILFOS &#8211; AR (Primavera)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">SALAMANDRAS &#8211; FOGO (Verão)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">ONDINAS &#8211; ÁGUA (Outono)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">GNOMOS &#8211; TERRA (Inverno)</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Aproveite para nos acompanhar no YouTube:&nbsp;<a href="https://www.youtube.com/channel/UCrbwUrT0W4Tp-swBxAVwX5Q">Canal IJEP – Bem vindos(as)! (youtube.com)</a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Acesse nosso site e conheça nossos cursos e pós-Graduações:&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/">IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Conheça também os&nbsp;<a href="https://www.institutojunguiano.com.br/congressosjunguianos">Congressos Junguianos do IJEP</a>! Online e gravados, uma ótima maneira de estudar a Psicologia Junguiana.</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://ijep.pages.net.br/ix-congresso-ijep-arteterapia"><img decoding="async" src="blob:https://blog.sudamar.com.br/8d53811f-178d-48c2-9093-7e210d7da680" alt=""/></a></figure>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Criando intimidade com a sombra: Relação entre ego x sombra x persona</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/relacao-entre-ego-sombra-e-persona/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marcella Ferreira]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 22 Dec 2023 15:34:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[integração da sombra]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sanford]]></category>
		<category><![CDATA[whitmont]]></category>
		<category><![CDATA[zweig]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=8632</guid>

					<description><![CDATA[<p>Todos nós buscamos sempre entrar em contato com a nossa melhor versão e resistimos à ideia de que para chegarmos perto do melhor em nós teremos que inevitavelmente conhecer também a nossa pior versão. Imaginar que também somos o que não queremos, que aquilo que repudiamos no outro também pode pertencer a nós, que podemos fazer aquilo que não gostaríamos de assumir nem para nós mesmos é assustador. Mas a verdade é que nós somos imperfeitos e conhecer esse estranho que habita em nós é essencial para a busca da nossa totalidade.<br />
Faz parte do processo de desenvolvimento da personalidade a busca por pertencimento e aprovação do outro, porém, por mais que façamos manobras para nos tornar melhores, ‘limpando’ tudo que julgamos como ruim, não somos blindados do contato com a sombra.<br />
Não importa o quanto nossa persona esteja trabalhada ou o quanto adaptada ao coletivo ela esteja. O próprio meio, e não somente nossas questões pessoais, vão continuar nos proporcionando meios de contato com esses conteúdos sombrios a fim de reconhecermos o que tanto nos afeta e de qual forma podemos lidar com eles. Achamos que quanto mais ajustados à polaridade contrária da sombra, mais estaremos seguros. Contudo, acontece justamente o oposto. E é neste momento que o ‘ponto cego’ aparece.<br />
Quando mudamos a pergunta “o que eu tenho a ver com ela?” por “em qual momento eu a considerei como conflitante a mim?” conseguimos compreender o sentido desses conteúdos nos perturbar e decidimos como reagir à eles. Quando trazemos para perto da consciência, tiramos um pouco da carga afetiva desta energia autônoma e buscamos recursos para lidar com ela ou transformá-la. </p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/relacao-entre-ego-sombra-e-persona/">Criando intimidade com a sombra: Relação entre ego x sombra x persona</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Criando intimidade com a sombra. Reflexões sobre como a persona moldada para se adequar ao coletivo pode se distanciar do verdadeiro eu</em>.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="border-style:none;border-width:0px;border-radius:0px;font-size:16px;font-style:italic;font-weight:300"><blockquote><p><em>“Ah, se fosse assim tão simples! Se houvesse pessoas más em um lugar, insidiosamente cometendo más ações, e se nos bastasse separá-las do resto de nós e destruí-las. Mas a linha que divide o bem do mal atravessa o coração de todo ser humano. E quem se disporia a destruir uma parte do seu próprio coração?” Alexander Solzhenitsym</em></p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Dentro de nós, existe uma parte que não gostamos de olhar, que negamos, que contradiz o que gostaríamos de reconhecer em nós. Esta parte é chamada de <strong>sombra</strong>. Muitas vezes ela é um problema de ordem moral, pois vai contra o ego e a persona. Ou seja, vai contra o modo que conseguimos nos enxergar. Segundo Jung “nesta tomada de consciência da sombra trata-se de reconhecer os aspectos obscuros da personalidade, tais como existem na realidade. Este ato é a base indispensável para qualquer tipo de autoconhecimento” (Jung, 2012, p19).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Imaginar que também somos o que não queremos, que aquilo que repudiamos no outro também pode pertencer a nós, que podemos fazer aquilo que não gostaríamos de assumir nem para nós mesmos, é assustador. Mas a verdade é que nós somos imperfeitos e conhecer esse estranho que habita em nós é essencial para a busca da nossa totalidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sabemos-que-a-sombra-nao-e-apenas-aquilo-que-desconheco-totalmente-em-mim-mas-tambem-aquilo-que-minha-consciencia-considerou-contraria-a-atitude-ideal" style="font-size:17px">Sabemos que a sombra não é apenas aquilo que desconheço totalmente em mim, mas também, aquilo que minha consciência considerou contrária à atitude ideal.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Como o ego é de natureza unilateral, qualquer coisa que se diferencie dele – assuntos negligenciados, inaceitáveis, reprimidos &#8211; vai se acumulando no inconsciente e se torna parte de uma personalidade inferior, ou seja, uma sombra pessoal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A <strong>sombra</strong> é parte da psique inconsciente que interage com a consciência. Traz forte carga de afeto para ações e reações e que nos provoca desconfortos sempre que entramos em contato com ela. Esta sensação se dá porque lapidamos nossa personalidade e nosso modo de ver o mundo de forma que esses conteúdos fiquem reprimidos e distantes de nós. Ressaltando esta ideia, encontramos no livro ‘Ao encontro da Sombra’ um trecho que explica esta dinâmica:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>“Por ser contrária à atitude consciente que escolhemos, não permitimos que a sombra encontre expressão na nossa vida; assim ela se organiza em uma personalidade relativamente autônoma no inconsciente, onde fica protegida e oculta” (Zweig, et al., 2012, p.28).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Antes de prosseguirmos, gostaria de complementar esta parte conceitual de sombra com dois recortes feitos por <strong>Edward Whitmont</strong>, apresentados no capítulo “A evolução da sombra”:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>“O termo sombra refere-se àquela parte da personalidade que foi reprimida em benefício do ego ideal. (&#8230;) Assim como as figuras oníricas ou fantasias, a sombra representa o inconsciente pessoal. Ela é como que um composto das couraças pessoais dos nossos complexos e, portanto, o portal de acesso a todas as experiências transpessoais mais profundas.” (Zweig, et al., 2012, p.36)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Whitmont pontua a <strong>tendência arquetípica de projetarmos os conteúdos sombrios nos outros</strong>, replicando a dinâmica do bode expiatório. Como se todo o mal ou erro estivesse presente apenas no mundo exterior do outro e este deveria ser eliminado.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>“A sombra é a experiência arquetípica do ‘outro’, aquele que, por ser-nos estranho, é sempre suspeito. A sombra é o impulso arquetípico de buscar o bode expiatório, de buscar alguém para censurar e atacar a fim de nos vingarmos e nos justificarmos; ela é a experiência arquetípica do inimigo, a experiência da culpabilidade que sempre recai sobre o outro, pois estamos sob a ilusão de que conhecemos a nós mesmos e já trabalhamos adequadamente nossos próprios problemas. Em outras palavras, na medida em que é preciso que eu seja bom e justo, ele, ela ou eles tornam-se os receptáculos de todo o mal que deixo de reconhecer dentro de mim mesmo”. &nbsp;(Zweig, et al., 2012, p.39)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-incomodo-da-sombra" style="font-size:19px">O incômodo da sombra</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar de a sombra conter pontos positivos e negativos em sua essência, geralmente seus conteúdos nos incomodam. Justamente porque os achamos inadequados e prejudiciais à lapidação da nossa personalidade. Na tentativa de compreender o porquê tais assuntos nos incomodam, costumamos tomar uma certa distância. Olhando para a característica atuante no outro e, só depois disto, abrimo-nos para a possibilidade de nos questionar sobre o motivo daquilo nos afetar tanto. Dificilmente aceitamos com facilidade que aquilo pode ser também uma condição nossa.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px;font-style:italic;font-weight:300"><blockquote><p>“quando nos recusamos a enfrentar a sombra, (&#8230;) nossas projeções transformam o mundo à nossa volta num ambiente que nos mostra a nossa própria face, mesmo que não a reconhecemos como nossa”. <strong>Whitmont</strong> (Zweig, et al., 1994, p.40)</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Faz parte do processo de desenvolvimento da personalidade a busca por pertencimento e aprovação do outro</strong>. Ao mesmo tempo que vamos nos identificando como indivíduo, começamos a lapidar nossas características de forma a potencializar aquilo que nos agrada e que também agrade o outro, enquanto vamos encontrando meios de esconder ou transformar os aspectos que achamos feios e inapropriados. Desta forma, conseguimos também encontrar recursos de adaptação às diversas situações, dando vida às versões de nós mesmos de acordo com o que nos é exigido. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Este recurso de adaptação do ego para o mundo exterior é chamado de <strong>persona</strong> &#8211; a qual pode ser positiva ou negativa. <strong>É a máscara que usamos para nos relacionarmos com os outros, para confrontar o mundo e as pessoas</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-persona-e-a-primeira-parte-de-nos-que-as-outras-pessoas-veem-e-a-nossa-parte-que-queremos-que-elas-vejam-sanford-1988-p-88" style="font-size:21px">“A persona é a primeira parte de nós que as outras pessoas veem, e a nossa parte que queremos que elas vejam” <strong>(Sanford, 1988, p.88)</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Por conceito, a persona é positiva, pois nos ajuda a adequar ao coletivo. Contudo, ela pode se tornar negativa quando esta adaptação se transforma em uma mudança quase que total do que somos e como nos reconhecemos, visando uma adequação total com o coletivo mesmo que este modo não reflita a nossa própria essência. Podemos assumir que quando isso acontece, essa versão transformada se distancia de quem ela é de verdade, ou seja, do Self e da identificação egóica. O risco do indivíduo não saber mais diferenciar quem ele é da pessoa que ele quer parecer se torna cada vez mais concreto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por mais que façamos manobras para nos tornar melhores, ‘limpando’ tudo que julgamos como ruim, não somos blindados do contato com a sombra. Ela irá aparecer no nosso cotidiano, assombrando nossa persona, tirando-nos da nossa zona de conforto. Pela própria definição do termo, todo receio extremo, todo incomodo que nos afeta além do que podemos lidar faz parte da nossa sombra. Tudo o que nos impacta fortemente e não é considerado, também alimenta nossa sombra.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-persona-x-anima-animus-sombra-x-ego">Persona x Anima/Animus &#8211; Sombra x Ego</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Antes de prosseguir, é importante ressaltar que <strong>a</strong> <strong>persona não faz polaridade com a sombra</strong> (como muitos confundem conceitualmente). <strong>Persona é uma estrutura psíquica que faz oposição à anima/animus</strong>, uma vez que ambos são recursos relacionais. Enquanto a persona se relaciona com o mundo exterior, anima/animus são recursos de relação com o mundo interior. </p>



<p class="wp-block-paragraph">A <strong>sombra</strong>, por sua vez, se apresenta em <strong>oposição ao ego</strong>, conforme explicado no início deste artigo. Não vou me aprofundar nesta questão pois isso seria tema para um próximo artigo, mas essa explicação se faz necessária para entendermos o recorte feito neste texto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não importa o quanto nossa persona esteja trabalhada ou o quanto adaptada ao coletivo ela esteja. O próprio meio, e não somente nossas questões pessoais, vão continuar nos proporcionando meios de contato com esses conteúdos sombrios a fim de reconhecermos o que tanto nos afeta e de qual forma podemos lidar com eles. Porém, é nítido que quando isso acontece, buscamos a saída que parece ser mais garantida: nos blindamos desses conteúdos devolvendo para o outro a responsabilidade de transformação do conteúdo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste cenário, como proteção, buscamos recursos para fortalecer nossa <strong>persona</strong>, melhorando aquilo que achamos que contrapõem o que nos denuncia, nos sentindo superior ao que nos incomoda. Encontramos ferramentas que eliminam o que não deve vir à tona, fazemos tudo como forma de controlar a ação desses conteúdos em nossas vidas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-achamos-que-quanto-mais-ajustados-a-polaridade-contraria-da-sombra-mais-estaremos-seguros-contudo-acontece-justamente-o-oposto" style="font-size:18px">Achamos que quanto mais ajustados à polaridade contrária da sombra, mais estaremos seguros. Contudo, acontece justamente o oposto.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">E é neste momento que o ‘ponto cego’ aparece. Se tento compreender meus conteúdos sombrios e adequá-los ao manejo da persona posso, como efeito contrário, alimentá-la, pois vou ‘resolver’ essa falta fortalecendo uma conduta que irá me afastar ainda mais dela; que vai provar para mim e para os outros que aquilo não me pertence.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-lidar-com-a-sombra-nao-basta-ter-conhecimento-sobre-ela-e-preciso-se-apropriar-da-questao-e-entender-sua-real-motivacao-de-existir" style="font-size:18px">Para lidar com a sombra não basta ter conhecimento sobre ela, é preciso se apropriar da questão e entender sua real motivação de existir.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>“A integração da sombra sempre coincide a dissolução da falsa persona. A pessoa torna-se muito mais realista a respeito de si mesma; ver a verdade sobre a nossa própria natureza sempre tem efeitos muito salutares. (&#8230;) Parar de mentir para nós mesmos a respeito de nós mesmos, essa é a maior proteção que podemos ter contra o mal”. (Sanford, p. 47)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Agora que chegamos ao ponto de entender que mesmo diante de um trabalho de adaptação ao meio exterior, nossa persona não dará conta de esconder ou de se blindar diante da sombra, quero voltar um pouco no início deste artigo. Se toda sombra, antes de ser jogada ao inconsciente passa pelo filtro do ego ideal, não seria uma alternativa para lidar com esses conteúdos, voltar para nossa essência e investigar qual foi a motivação inicial do ego ter desconsiderado a integração desta característica?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-sombra-nunca-e-formada-de-modo-aleatorio" style="font-size:20px"><strong>A sombra nunca é formada de modo aleatório</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso falamos que a sombra também guarda um potencial enorme de transformação em nossas vidas. Se nós queremos nos conhecer verdadeiramente, temos que ir em busca da nossa totalidade, reconhecendo os aspectos de luz e sombra. Logo, sabendo mais sobre as nossas sombras, conseguimos entender também quais partes a consciência de cada um rejeita, quais partes ela não quer lidar e o porquê o ego decidiu que aqueles pontos deveriam ser filtrados da consciência. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não paramos para pensar que em muitos casos acabamos vivendo características unilaterais só para não deixar esta sombra ter expressão, mas ela sempre dará um jeito de se apresentar para nós – seja através do comportamento do outro, seja através daquilo que nos afeta. Entrar em contato com a sombra não é ter que transformar todos os conteúdos; algumas características serão trabalhadas, outras deverão ser apenas suportadas. Mas, a partir do momento que nós nos apropriamos do que até então desconhecemos, deixamos de ficar totalmente vulneráveis aos seus conteúdos, pois saberemos também quais são nossos limites, o que podemos fazer e, assim, criamos oportunidades de nos conhecermos dentro da nossa unicidade e inteireza.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tiramos do outro a responsabilidade de se tornar impecável dentro do nosso julgamento, permitimos que o coletivo e a nós mesmos sejam diferentes, as vezes conflitantes, mas dentro da verdade de cada um. Isto é parte da cura dos relacionamentos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tentar-entender-a-sombra-pela-persona-pode-ser-uma-manobra-falsa-que-vai-nos-colocar-apenas-como-superior-a-esses-conteudos" style="font-size:20px">Tentar entender a sombra pela persona pode ser uma manobra falsa que vai nos colocar apenas como superior a esses conteúdos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Se, depois deste primeiro reconhecimento, pararmos para investigar em qual momento da vida nosso ego ideal – parafraseando Whitmont – fantasiou que seriamos melhores se não tivéssemos tais características; se o julgamento como errado e feio veio de nós mesmos ou se nos foi ensinado pelo núcleo mais próximo, talvez, de fato, conseguiremos entender o sentido desta sombra ter se tornado sombra e reavaliar, se nas condições atuais, tais características devem ainda ser julgadas como inapropriadas por nós ou se já estamos prontos para lapidá-las ao nosso favor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando mudamos a pergunta “o que eu tenho a ver com ela?” por “em qual momento eu a considerei como conflitante a mim?” conseguimos compreender o sentido desses conteúdos nos perturbar e decidimos como reagir à eles. Enquanto a sombra é inconsciente, nossa reação vem proporcional ao desconhecido que se tornou em mim. Quando trazemos para perto da consciência, tiramos um pouco da carga afetiva desta energia autônoma e buscamos recursos para lidar com ela ou transformá-la.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, o que é nosso trabalhará ao nosso favor, mesmo que a princípio se pareça negativo. Este é o caminho para a nossa totalidade.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo Novo: Criando intimidade com a sombra: Relação entre ego x sombra x persona" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/2zUUQM5HVd0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/marcellaferreira/">Marcella Helena Ferreira &#8211; Analista em Formação IJEP</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/cristinaguarnieri/">Cristina Guarnieri &#8211; Analista Didata IJEP</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias-bibliograficas" style="font-size:18px">Referências Bibliográficas:</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>JUNG, Carl Gustav. 2012a</strong>. <em>Aion – Estudo sobre o simbolismo do si-mesmo.</em> 8°. Petrópolis: Vozes, 2012a.Vol.9/2</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>__. 2012b</strong>. <em>O Eu e o Inconsciente.</em> 24°. Petrópolis: Vozes, 2012b.Vol.7/2</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>ZWEIG, Connie e ABRAMS, Jeremiah. 1994</strong>. <em>Ao encontro da sombra</em>. 1°. São Paulo: Cultrix, 1994.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>SANFORD, John A. 1998.</strong> <em>Mal o lado sombrio da realidade</em>. 1°. São Paulo: Paulus, 1988.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Acesse nosso site e confira nossos Cursos e Pós-Graduações: <a href="https://www.ijep.com.br/">IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Conheça nossos Congressos Junguianos: <a href="https://ijep.pages.net.br/congressos-carl-jung-ijep">Congressos IJEP (pages.net.br)</a></p>
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		<item>
		<title>Um Diálogo da Alma: considerações sobre a relação Ego &#8211; Self</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/relacao-ego-self/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gilmara Alves]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 05 Dec 2023 10:41:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=8452</guid>

					<description><![CDATA[<p>Este artigo tem como proposta trazer uma reflexão sobre como se dá e qual é a importância da comunicação entre duas partes centrais da nossa estrutura psíquica: o Ego – complexo central da consciência, e o Self – o arquétipo central que representa a totalidade psíquica. Abordando como este eixo se estrutura e como ele nos acompanha durante nossa vida, em nosso caminho de desenvolvimento.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>O presente artigo propõe uma reflexão sobre como se dá e qual é a importância da comunicação entre duas partes centrais da nossa estrutura psíquica: o <strong>Ego</strong> (complexo central da <strong>consciência</strong></em>)<em> e o <strong>Self</strong> </em> <em>(arquétipo central</em>, <em>que representa a <strong>totalidade</strong> psíquica).</em> <em>Abordando como este eixo se estrutura e como ele nos acompanha durante nossa vida, em nosso caminho de desenvolvimento.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">A relação entre estas duas instâncias é primordial para que a nossa vida psíquica esteja funcionando de forma harmônica. Porém, nem sempre é isto que acontece. Intercorrências externas e internas podem ser fonte de desequilíbrio constante em nosso caminho de desenvolvimento.</p>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-default" style="font-size:17px"><blockquote><p>[&#8230;] Pensar em Deus é desobedecer a Deus,<br>Porque Deus quis que o não conhecêssemos,<br>Por isso se nos não mostrou&#8230;<br><br>Sejamos simples e calmos,<br>Como os regatos e as árvores,<br>E Deus amar-nos-á fazendo de nós<br>Belos como as árvores e os regatos,<br>E dar-nos-á verdor na sua primavera,<br>E um rio aonde ir ter quando acabemos!&#8230;</p><cite>Fernando Pessoa, O Guardador de Rebanhos, Poemas de Alberto Caeiro.</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Vamos, em primeiro lugar, lembrar o que é cada um destes conceitos dentro da psicologia analítica e qual a sua função. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ego-centro-da-consciencia">Ego &#8211; centro da consciência</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O <strong>Ego</strong>, como <strong>centro</strong> da <strong>consciência</strong>, tem como uma de suas funções discriminar&nbsp; e filtrar os conteúdos que deverão vir à luz da <strong>consciência</strong>. Quando alguma lembrança e acontecimento, ou mesmo algum conteúdo presente no inconsciente pessoal ou coletivo, ameaça vir à tona, se o <strong>Ego</strong> percebe que este conteúdo será prejudicial à <strong>consciência</strong>, podendo causar nesta um efeito negativo, este conteúdo não se relacionará com o <strong>Ego</strong> e continuará no inconsciente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-por-esta-forma-autonoma-de-atuacao-do-ego-que-jung-o-define-como-um-complexo" style="font-size:21px">É por esta forma autônoma de atuação do <strong>Ego</strong>, que Jung o define como um complexo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Várias ideias associam-se a ele, e como um complexo que é, ele atua como uma personalidade independente. Esta característica, que dá ao <strong>Ego</strong> um aspecto pessoal, relaciona-se também com o fato de que, ele pertence sempre à um indivíduo, desenvolvendo-se em cada pessoa de modo particular, conforme as vivências e as possibilidades de cada um. É o <strong>Ego</strong> que nos faz diferentes uns dos outros, e que dá coesão e identidade à nossa personalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O <strong>Ego</strong> também se relaciona com as capacidades de: memória, vontade, discriminação e escolha. Isto pode ser compreendido no que se refere às funções psíquicas (pensamento, sentimento, sensação e intuição). Quando criança, o indivíduo experimentará todas elas, mas a função que tornar-se-á superior, é aquela que melhor adaptar o indivíduo ao meio, fazendo com que ele seja aceito socialmente, sendo que, na outra polaridade ficará a função inferior, aquela que foi experimentada pelo <strong>Ego</strong> e rejeitada por ele, em função de uma não aceitação desta.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-tensao-de-opostos-experimentada-na-vivencia-e-na-diferenciacao-das-funcoes-psiquicas-e-tambem-experimentada-e-vivida-pelo-ego-em-outros-aspectos-da-vida-do-individuo" style="font-size:21px">A tensão de opostos experimentada na vivência e na diferenciação das funções psíquicas, é também experimentada e vivida pelo <strong>Ego</strong> em outros aspectos da vida do indivíduo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Esta tensão é vista no que se refere à sua atitude frente às manifestações de outras instâncias psíquicas como a anima, animus e a sombra. Por ocasião destas funções do <strong>Ego</strong>, existe uma tendência geral de comparar a <strong>consciência</strong> à psique total. Porém esta parte da nossa estrutura psíquica se forma a partir do inconsciente, que é uma outra parte, sendo ambas pertencentes a uma mesma <strong>totalidade</strong>. Esta <strong>totalidade</strong> que de alguma forma ordena todas as outras estruturas, é o <strong>Self</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-self-o-centro-a-totalidade">Self &#8211; o centro, a totalidade</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O Self é o <strong>centro</strong>, o responsável pela sustentação, estabilidade e união de todo funcionamento do sistema psíquico; e ao mesmo tempo que é <strong>centro</strong>, é também o todo &#8211;&nbsp; contém tudo o que existe na psique, regulando toda esta estrutura. O <strong>Self</strong>, portanto, como <strong>totalidade</strong> que abarca tudo o que existe no mundo psíquico, contém a persona, sombra, anima, animus e os demais arquétipos e o <strong>Ego</strong>. E sendo o <strong>Ego</strong> um elemento que se relaciona diretamente com a <strong>consciência</strong>, este nasce e se desenvolve a partir do inconsciente, e consequentemente da <strong>totalidade</strong> psíquica – do <strong>Self</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Jung</strong> identifica o arquétipo central da psique com a <em>imago dei</em>, ou melhor – a imagem de Deus, em função da dimensão e da representatividade deste arquétipo no mundo psíquico. Daí, podemos dizer que dentro desta concepção, o <strong>Ego</strong> está para o <strong>Self</strong>, assim como o homem está para Deus.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-isto-nos-leva-a-pensar-que-enquanto-o-homem-foi-feito-a-imagem-e-semelhanca-de-deus-o-ego-estrutura-se-a-imagem-e-semelhanca-do-self" style="font-size:19px">Isto nos leva à pensar que, enquanto o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus, o <strong>Ego</strong> estrutura-se à imagem e semelhança do <strong>Self</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Isto dá ao <strong>Ego</strong> uma qualidade de subordinação frente ao arquétipo central e organizador da personalidade. Esta diferenciação entre um e outro, acontece no decorrer da vida do indivíduo, desde a infância, até enquanto o sujeito viver e segundo <strong>Edinger</strong>, a relação entre o <strong>Ego</strong> e o <strong>Self</strong>, acontece em processos cíclicos, do nascimento à morte. O autor pontua ainda que <em>“&#8230; o desenvolvimento psicológico se caracteriza pela existência de dois processos simultâneos: de um lado, a progressiva separação entre o ego e o Si-mesmo; e outro o aparecimento cada vez mais claro, na <strong>consciência</strong> do <strong>eixo</strong> ego – Si-mesmo”</em> (EDINGER, 1989, p. 26)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-inflacao-alienacao-e-consciencia"><strong>Inflação, Alienação</strong> e Consciência</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Erich Neumann</strong>, em sua obra “<strong>A Criança</strong>”, nos fala do mundo redondo onde o bebê vive, a partir da vida intrauterina até quando nasce, estendendo este mundo ao corpo materno. Neste período, o Self da criança é vivenciado por meio da experiência no corpo materno. Em nenhum outro momento da vida, o sentimento do indivíduo como um ser total, será sentido de forma tão intensa como neste. A criança percebe-se como uma divindade – ela é total e indiferenciada, como o próprio <strong>Self</strong>. Porém, para que o indivíduo se desenvolva plenamente é necessário que este estado de indiferenciação inicial seja modificado. A <strong>consciência</strong>, que não existe até então, precisa surgir.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-desde-o-inicio-da-vida-a-crianca-possui-nbsp-todo-o-material-arquetipico-herdado-o-inconsciente-coletivo-assim-como-o-inconsciente-cultural-e-familiar" style="font-size:18px">Desde o início da vida a criança possui&nbsp;todo o material arquetípico herdado – o inconsciente coletivo. Assim como o inconsciente cultural e familiar.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Neste momento de sua vida, não existe ainda uma formação egóica, que a diferencie enquanto um indivíduo. Este processo se inicia somente quando a <strong>criança </strong>começa a se perceber e daí, a pronunciar a palavra “eu”. Esta distinção implica o início da possibilidade de relacionamento, conforme a seguinte afirmação de <strong>Jung</strong>:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na criança a <strong>consciência</strong> emerge das profundezas da vida psíquica inconsciente, formando no começo como que ilhas isoladas, as quais aos poucos se reúnem em um ‘continente’ para formar uma <strong>consciência</strong> coerente (&#8230;). <strong>Consciência</strong>, segundo nossa concepção, é sempre <strong>consciência</strong> do ‘eu’. Para tornar-me consciente de mim mesmo, devo poder distinguir-me dos outros. Apenas onde existe esta distinção, pode aparecer um relacionamento (JUNG, 1991, § 326).</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-uma-vez-que-o-ego-da-crianca-esta-identificado-com-a-totalidade-do-self-e-desta-totalidade-que-o-ego-tera-que-emergir-e-diferenciar-se-para-assim-formar-a-identidade-do-individuo" style="font-size:21px">Uma vez que o <strong>Ego</strong> da criança está identificado com a <strong>totalidade</strong> do <strong>Self</strong>, é desta <strong>totalidade</strong> que o <strong>Ego</strong> terá que emergir e diferenciar-se, para assim formar a identidade do indivíduo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Isto é um dado básico – para que exista uma relação, <strong>é necessário que haja primeiro uma separação e uma consequente diferenciação</strong>. O <strong>Ego</strong>, portanto, é o recurso que o <strong>Self</strong> utiliza para manifestar-se e expressar seus desejos. Tanto o Ego como o <strong>Self</strong>, precisam um do outro e é desta diferenciação que o <strong>eixo</strong> irá formar-se, tornando possível uma comunicação entre eles. Como já comentado, segundo EDINGER (1989), o <strong>Ego</strong> desenvolve-se, por meio de um processo cíclico, que se caracteriza por uma constante união e separação entre uma parte e outra, em um movimento espiral, que marca o ritmo da nossa existência. Estas contínuas idas e vindas, uniões e separações, entre o <strong>Ego</strong> e o <strong>Self</strong>, formam o <strong>eixo</strong> <strong>Ego</strong>&#8211;<strong>Self</strong>, através do qual a vida irá fluir.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-durante-este-primeiro-estagio-de-indiferenciacao-existe-uma-identificacao-completa-do-ego-com-o-self-sendo-esta-fase-considerada-por-edinger-1989" style="font-size:20px">Durante este primeiro estágio de indiferenciação, existe uma identificação completa do <strong>Ego</strong> com o <strong>Self</strong>, sendo esta fase considerada por EDINGER (1989).</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Como um estado de perfeição paradisíaca, tanto que ele compara esta etapa do desenvolvimento do <strong>Ego</strong> com a representação arquetípica do <strong>mito de Adão e Eva</strong>, onde Eva, instigada pela serpente para que comesse do fruto da árvore do bem e do mal, o fez, cometendo o pecado original e indo contra as normas estabelecidas pelo Criador. Este mito representa a <strong>criação da consciência</strong>, onde, ao experimentar o fruto proibido, eles experimentaram também o sentimento de divisão em sua personalidade. Perceberam-se nus, e ficaram com vergonha deste estado, ou seja, perderam o estado único e original paradisíaco, sendo expulsos do paraíso, assim que cometeram tal imprudência contra as leis divinas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A serpente disse à Eva que ao experimentar do fruto proibido ela ficaria tão sábia quanto Deus. Este desejo levou Eva a seguir a cometer o assim chamado pecado original: igualar-se ao criador, saber tudo sobre o bem e o mal, são sentimentos sedutores que retratam uma superioridade e ao poder. Este sentimento, em que este poder divino é desejado e vivido, caracteriza o primeiro estágio na diferenciação entre <strong>Ego</strong> e <strong>Self</strong>. É um estado chamado por Jung de <strong>inflação</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-estado-de-inflacao-o-ego-assume-um-papel-grandioso-como-se-fosse-o-proprio-self">No estado de <strong>inflação</strong>, o <strong>Ego</strong> assume um papel grandioso, como se fosse o próprio <strong>Self</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Separar-se, é muito doloroso, por isso, toda a força que o <strong>Ego</strong> tinha enquanto identificado com o <strong>Self</strong>, imagina que seja sua própria força e começa então a agir de forma onipotente, tendendo a fazer com que o indivíduo ultrapasse os limites. Com isto o Self é constantemente desafiado pelo <strong>Ego</strong>. Este movimento é importante e necessário para que o Self possa se colocar; pode-se dizer que neste momento se inicia uma relação. Afinal, após comerem o fruto proibido, ou melhor, após desafiarem Deus, Adão e Eva foram expulsos do paraíso. Ou seja, nunca mais desfrutarão de um estado paradisíaco de indiferenciação. Com esta atitude de Sua cria, Deus percebeu que eles ainda não o conheciam como entidade realmente superior, e inatingível em Sua <strong>totalidade</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-inflacao-psiquica-e-muito-comum-que-o-ego-se-identifique-com-a-persona" style="font-size:20px"><strong>Na inflação psíquica é muito comum que o Ego se identifique com a persona</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Na inflação psíquica é muito comum que o Ego se identifique com a persona, pois, a persona é o arquétipo que vai se relacionar com o <strong>Ego</strong>, dando ao indivíduo um papel social, fazendo com que ele seja bem aceito, e que consiga ser notado e percebido no meio. Sempre que falamos em desenvolvimento de <strong>Ego</strong>, temos que pensar que este acontece em relação ao meio, portanto, é por isso que a persona, como o arquétipo mais próximo da <strong>consciência</strong>, tem esta responsabilidade. Segundo <strong>JUNG</strong>:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Como seu nome revela, ela é uma simples máscara da psique coletiva, máscara que aparenta uma individualidade, procurando convencer aos outros e a si mesma que é uma individualidade, quando, na realidade, não passa de um papel, no qual fala a psique coletiva. (JUNG, 1991, § 245)</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-inflacao-pode-se-manifestar-com-varias-caras">A <strong>inflação</strong> pode se manifestar com várias caras:</h2>



<ol class="wp-block-list">
<li>quando este sente-se identificado com a divindade no seu aspecto de poder, enquanto uma autoridade reinante e absoluta, dando ao indivíduo um sentimento de onipotência (lideres onipotentes);</li>



<li>a identificação com o mártir, onde ele é bom demais, humilde demais, sofre demais, tem culpa demais esta é uma forma de <strong>inflação</strong> negativa, onde o indivíduo passa dos limites, exacerbando na sua fala e atitude, sentimentos que lembram um complexo de inferioridade, porém o <strong>Ego</strong> está inflado com a identificação exagerada neste papel, ocorre que o indivíduo vê-se nesta situação como alguém da mesma forma importante;</li>



<li>a partir de uma experiência onde há um reconhecimento de sua capacidade, o indivíduo passa a se comportar de forma arrogante, não ouvindo pessoas e nem sinais sobre sua soberba e a persona atua como se aquele fosse o papel e missão central de sua existência.</li>
</ol>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esta-inflacao-egoica-na-dinamica-psiquica-faz-com-que-o-ego-alem-de-ficar-cada-vez-mais-distanciado-dos-outros-arquetipos-forme-uma-sombra-tao-potente-quanto-sua-persona-podendo-ser-facilmente-dominado-pela-anima-ou-animus-e-por-complexos-autonomos" style="font-size:17px"><strong>Esta inflação egóica, na dinâmica psíquica, faz com que o Ego, além de ficar cada vez mais distanciado dos outros arquétipos, forme uma sombra tão potente quanto sua persona</strong>. Podendo ser facilmente dominado pela anima ou animus e por complexos autônomos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>EDINGER </strong>(1989) porém, nos lembra que o pecado original &#8211; quebrar as regras, ultrapassar limites &#8211; é necessário e faz parte do nosso processo de desenvolvimento, uma vez que sem cometê-lo, não se teria acesso aos conteúdos inconscientes, e assim, ficaríamos condenados a viver permanentemente em um estado que não proporcionaria uma vivência concreta e relacional.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em sua biografia “<strong>Memórias, Sonhos, Reflexões</strong>”, <strong>Jung </strong>nos fala o seguinte: “Se o Criador fosse consciente de si mesmo, não teria necessidade das criaturas conscientes” (JUNG, 2015, p. 334). Ou seja, o Criador se reconhece através da sua obra. Daí vemos que não só o <strong>Ego</strong>, mas o Self também precisa deste relacionamento para ter possibilidade de, por meio do <strong>Ego</strong>, se fazer conhecido e reconhecer-se, manifestando-se através dele.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O <strong>Ego</strong> quando identificado com o Self (em estado de <strong>inflação</strong>) pode ir muito além do seu limite e, consequentemente, sofrer uma rejeição. <strong>Afinal, todo pecado é punido com um castigo</strong>. Nesta condição, o <strong>Ego</strong> é facilmente tomado por complexos autônomos. E diante de alguma vivência traumática que venha ter com algum conteúdo inconsciente poderá recuar frente à uma ameaça.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-alienacao">A alienação</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Deste modo, o <strong>Ego</strong> deixa de estar ligado ao <strong>centro</strong> superior, entrando em um estado que EDINGER (1989) chamou de <strong>alienação</strong>. <strong>A alienação psíquica surge com a separação</strong>, pois, a separação é uma condição necessária para que se venha estabelecer um <strong>eixo</strong> diante da diferenciação crescente, e por vezes drástica, entre as duas instâncias. É como se a possibilidade de comunicação entre <strong>Ego</strong> e <strong>Self</strong> fosse interrompida e o <strong>Ego</strong> sente como não mais fazendo parte deste todo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O <strong>Ego</strong> neste estágio, perde toda sua força. A parte separou-se do todo, ou melhor, pode-se dizer que numa perspectiva do <strong>Ego</strong>, o todo abandonou a parte. Existe, neste estado, um aspecto positivo, que é o fato de que, o <strong>Ego</strong> alienado perde sua identificação com o Self e sua consequente <strong>inflação</strong>, mas no seu aspecto negativo, o <strong>eixo</strong> danifica-se, causando um vazio e uma falta de sentido. É nesta condição que ocorrem grandes questionamentos. Muitas pessoas, por conta disto, podem desenvolver diversas somatizações chegando até a um quadro de depressão por uma consequente regressão da libido ao inconsciente, provavelmente em busca deste sentido que ficou perdido, não se sabe bem onde.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-alienacao-com-este-vazio-que-e-despertado-no-ego-vem-mostrar-ao-individuo-a-necessidade-da-consciencia-e-portanto-da-ligacao-com-o-self" style="font-size:20px">A <strong>alienação</strong>, com este vazio que é despertado no <strong>Ego</strong>, vem mostrar ao indivíduo a necessidade da <strong>consciência</strong> e, portanto, da ligação com o Self.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Esta necessidade é comunicada ao <strong>Ego</strong> por meio de sonhos, doenças e sintomas, erros e desencontros nas decisões da vida.&nbsp; Se o indivíduo conseguir perceber estes sinais ele poderá então procurar uma reconexão com o seu <strong>centro</strong>. Estará, assim, através do confronto com estes aspectos sombrios e doentios, voltando a se aproximar do Self, mas sem a pretensão de ser este. Porém, estabelecendo com ele um <strong>eixo</strong> sadio, para que uma comunicação possa ser mantida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Podemos dizer que este homem, caso ouça e atenda este chamado, estará, através deste confronto, retirando as barreiras que a <strong>alienação</strong> criou e liberando o caminho para continuar seguindo em busca do seu desenvolvimento psíquico. A <strong>alienação</strong> seria como que uma “punição para os pecados” que, vistos sob uma ótica psicológica, são a própria <strong>inflação</strong>. Ao cometer o pecado, o indivíduo desafia a lei sagrada, aproximando-se dos deuses e causando neles o que Edinger chama de <strong>inveja</strong>, sendo por isso castigados por tal façanha.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-henderson-em-o-homem-e-seus-simbolos-faz-a-seguinte-colocacao-acerca-desta-ideia" style="font-size:17px"><strong>HENDERSON </strong>em “O Homem e seus Símbolos”, faz a seguinte colocação acerca desta ideia:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>“Por quanto tempo podem os seres humanos alcançar sucesso sem caírem vítimas de seu próprio orgulho ou, em termos mitológicos, da inveja dos deuses?”</p><cite>(HENDERSON, 1997, p. 113)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Isto porque o orgulho era algo extremamente temido pelos gregos. Eles sabiam que caso cometessem o que era por eles chamado de <em>hybris </em>(orgulho cego) tal atrevimento seria cruelmente punido pelos deuses que não admitiam a possibilidade de os mortais tentarem se igualar a eles.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A <strong>alienação</strong>, pode ser tida como a separação daquela <strong>centelha</strong> divina que possuímos. E a busca dessa centelha será a busca de <strong>sentido para a vida</strong>. Seu encontro trará uma tranquilização para a alma humana. Portanto é necessário, por parte do <strong>Ego</strong>, que este sentimento de <strong>derrota</strong> seja aceito como uma etapa importante no desenvolvimento da <strong>consciência</strong>, para que assim possa ocorrer transformação. Conforme <strong>Edinger</strong>:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>“<em>A <strong>alienação</strong> não é um beco sem saída. Podemos alimentar a esperança de que ela leve à uma <strong>consciência</strong> maior com relação às alturas e profundidades da vida</em>” (EDINGER, 1989, p. 79).</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-individuacao"><strong>Individuação</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando falamos do caminho de tomada de <strong>consciência</strong> e de sua amplificação, estamos falando do caminho da <strong>individuação</strong>. Neste caminho, passa-se pela <strong>inflação</strong> e pela <strong>alienação</strong>. Então podemos entender que a <strong>individuação</strong> se caracteriza por uma possibilidade de comunicação entre o <strong>Ego</strong> e o Self, porém sem interferências negativas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-individuacao-o-ego-passa-a-nao-ser-mais-o-centro-ele-se-subordina-ao-self-porem-isto-nao-significa-dependencia-e-nem-mais-uma-derrota-para-o-ego" style="font-size:19px"><strong>Na individuação o Ego passa a não ser mais o centro. Ele se subordina ao Self, porém isto não significa dependência e nem mais uma derrota para o Ego</strong>. </h2>



<p class="wp-block-paragraph">Neste ponto do desenvolvimento, o <strong>Ego</strong> assume seu papel no funcionamento da estrutura psíquica e o aceita naturalmente, pois, sua função é grandiosa e importante. Contudo, não é maior e nem mais importante do que o próprio <strong>centro</strong>. Conforme nos diz Jung a respeito da individuação: <em>“&#8230;nos tornamos o nosso próprio Si-mesmo”</em> (JUNG, 1991b, § 266). Não mais nos identificando com ele, mas sendo e pertencendo a ele. Sentindo isto através de um <strong>eixo</strong> equilibrado que o <strong>Ego</strong> desenvolveu para poder chegar até esta condição.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-edinger-assim-como-jung-tambem-nos-fala-da-projecao-religiosa-como-uma-forma-possivel-e-ate-certo-ponto-saudavel-para-manter-o-eixo" style="font-size:21px"><strong>Edinger</strong>, assim como Jung, também nos fala da projeção religiosa como uma forma possível e, até certo ponto, saudável para manter o <strong>eixo</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Entretanto, dentro de uma cultura ocidental, a religião não vê o <strong>Self</strong> (<em>Imago Dei) </em>como parte integrante do indivíduo, mas como algo fora dele. O que dificulta o relacionamento e causa uma dependência desfavorável ao processo de <strong>individuação</strong>:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Não me dirijo também aos <em>beati possidentes</em> (felizes donos) da fé, mas às numerosas pessoas para as quais a luz se apagou, o mistério submergiu e Deus morreu. Para a maioria não há retorno possível e nem se sabe se o retorno seria o melhor. Para compreender as coisas religiosas acho que não há, no presente, outro caminho a não ser o da psicologia; daí o meu empenho de dissolver as formas de pensar historicamente petrificadas e transformá-las em concepções da experiência imediata. (JUNG, 1995, § 148)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Vivemos hoje, creio em um panorama mundial, um estado em que se busca uma identificação divina cada vez maior (vide os avanços tecnológicos tendo em seu nome e mérito a destruição da natureza). <strong>Ao mesmo tempo, o mundo cai em uma alienação sem se aperceber disto, o que ocasiona no polo oposto tantas desavenças entre povos e pessoas.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez este estado tão grande de <strong>inflação</strong>, vivido hoje em dia, seja até mesmo uma forma de se evitar o contato com a <strong>alienação</strong> que, se não puder ser simbolizada para a busca de um sentido maior e restituição do <strong>eixo</strong> <strong>Ego</strong> &#8211; Self, pode até mesmo destruir o homem; esta já nos bate à porta. </p>



<p class="wp-block-paragraph">São em situações e condições como estas que surgem os grandes<strong> heróis sociais</strong>. O <strong>herói</strong> é um modelo de construção do <strong>Ego</strong>, e como estamos distanciados do nosso <strong>centro</strong>, projetamos esta possibilidade de realização egóica/heroica em outras pessoas. Estas figuras são eleitas como os grandes salvadores da população &#8211; que se encontra neste estado desagregado &#8211; e recebem a <strong>projeção do nosso Self coletivo</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-agora-sera-que-estas-pessoas-suportam-tamanha-carga"><strong>Agora, será que estas pessoas suportam tamanha carga?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Qualquer ato de solidariedade humana hoje em dia, é visto não mais como algo possível e natural, pertencente a alma humana, mas a pessoa que adota tal atitude, frente ao coletivo, será provavelmente um salvador e receberá esta enorme carga projetiva, sendo vítima do Self coletivo. Algo que deveria ser visto como grandioso sim, porém, pertencente e possível a todos, torna-se à partir desta vivência social destorcida, destrutivo para aquele que o realiza.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A <strong>individuação</strong> não pressupõe uma pessoa individualista, mas ao contrário, muito engajada na coletividade, porém sem diluir-se nela, e sem deixar que esta dite o seu rumo. É através desta relação do indivíduo com o coletivo, que se pode perceber o quanto de equilíbrio existe em sua personalidade, e o quanto o indivíduo funciona de acordo com os desejos do seu Self. <strong>O indivíduo que se encontra no caminho da individuação, não possui necessidade de projetar sobre os outros, seus conteúdos sombrios, pois consegue reconhecer estes em si mesmo</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-individuacao-consiste-portanto-em-reconciliar-os-opostos" style="font-size:21px">A individuação consiste, portanto, em reconciliar os opostos. </h2>



<p class="wp-block-paragraph">A individuação consiste, portanto, em reconciliar os opostos. De modo que estes opostos se complementem a partir da tensão criada neste conflito do consciente com o inconsciente. Este equilíbrio é desejado e idealizado, porém o caminho para se chegar até ele é bastante concreto, real e um exercício diário.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nessa conversa de alma entre <strong>Ego</strong> e Self, que entendo como caminho da <strong>individuação</strong>, temos contatos com símbolos de transformação e de transcendência, através dos sonhos, visões, sintomas ou da própria experiência refletida, que nos mandam mensagens de unificação da personalidade, e que são enviados para a <strong>consciência</strong>, para serem por ela amplificados.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-um-ego-sadio-e-flexivel-que-ira-cumprir-sua-funcao-lidando-adequadamente-com-as-possiveis-barreiras-no-intento-de-realizar-a-nossa-missao-de-uma-vida-com-sentido-realizando-assim-os-desejos-do-self" style="font-size:19px">É um <strong>Ego</strong> sadio e flexível que irá cumprir sua função. Lidando adequadamente com as possíveis barreiras, no intento de realizar a nossa missão de uma vida com sentido, realizando assim os desejos do Self.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Estas fases de <strong>inflação</strong> e <strong>alienação</strong>, que sob um determinado ponto de vista podem fazer com que o <strong>Ego</strong> se enfraqueça e se desorganize, são processos necessários e importantes na construção da dialética do consciente com o inconsciente. Contudo, conforme <strong>Edinger </strong>nos fala, não pode haver estagnação e cristalização em nenhuma delas, para que o desenvolvimento e a consequente ampliação da <strong>consciência</strong> possam acontecer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É imprescindível ressaltar aqui, que a separação entre Ego e Self, nunca é total, pois o eixo precisa continuar a existir; e não se dá de uma única vez, ela é progressiva e precisa ser constante e irá acontecer durante toda vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-encerrar-deixo-um-escrito-de-fernando-pessoa-que-nos-leva-de-forma-leve-e-poetica-a-uma-reflexao-sobre-este-eterno-fluxo-que-e-a-vida" style="font-size:19px">Para encerrar, deixo um escrito de <strong>Fernando Pessoa</strong> que nos leva de forma leve e poética a uma reflexão sobre este eterno fluxo que é a vida.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-center wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong>Não sei quantas almas tenho</strong><br><br>Não sei quantas almas tenho.<br>Cada momento mudei.<br>Continuamente me estranho.<br>Nunca me vi nem achei.<br>De tanto ser, só tenho alma.<br>Quem tem alma não tem calma.<br>Quem vê é só o que vê,<br>Quem sente não é quem é,<br><br>Atento ao que sou e vejo,<br>Torno-me eles e não eu.<br>Cada meu sonho ou desejo<br>É do que nasce e não meu.<br>Sou minha própria paisagem;<br>Assisto à minha passagem,<br>Diverso, móbil e só,<br>Não sei sentir-me onde estou.<br><br>Por isso, alheio, vou lendo<br>Como páginas, meu ser.<br>O que segue não prevendo,<br>O que passou a esquecer.<br>Noto à margem do que li<br>O que julguei que senti.<br>Releio e digo: &#8220;Fui eu ?&#8221;<br>Deus sabe, porque o escreveu.</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">EDINGER, EDWARD F.. <em>Ego e Arqué</em><em>tipo. <strong>Individua</strong></em><strong><em>ção</em></strong><em> e Função Religiosa da Psique</em>. 1ª ed., São Paulo, Ed. Cultrix, 1989.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G..&nbsp; <em>O Desenvolvimento da Personalidade</em>. 5ª ed., Petrópolis, Ed. Vozes, 1991a, Vol. XVII.</p>



<p class="wp-block-paragraph">________. <em>O Eu e o Inconsciente</em>. 9ª ed., Petrópolis, Ed. Vozes, 1991b, Vol. VII/2.</p>



<p class="wp-block-paragraph">________. (org.) <em>O Homem e seus Símbolos. </em>15ª impressão, Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 1997.</p>



<p class="wp-block-paragraph">________. <em>Memórias, Sonhos, Reflexões.</em>, s/ed. Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">________. Psicologia e Religião, Petrópolis, Ed. Vozes, 1.995, 5ª ed. Vol. XI/1.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NEUMANN, ERICH. <em>A Criança</em>. 1ª ed., São Paulo, Ed. Cultrix, 1991.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PESSOA, F. <em>Novas poesias inéditas</em>. 4ª ed. Lisboa. Ed. Ática, 1993.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PESSOA, F.  <em>O Guardador de Rebanhos, In Poemas de Alberto Caeiro.</em>  10ª ed. Lisboa. Ed. Ática. 1993.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo Novo: Um Diálogo da Alma: considerações sobre a relação Ego - Self" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/ZE4EJX9RqQY?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/gilmaraalves/">Gilmara Marques Fadim Alves – Analista em Formação IJEP</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/cristinaguarnieri/">Cristina Guarnieri – Analista Didata IJEP</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Acesse nosso site: <a href="https://www.ijep.com.br/">IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Conheça nossos Congressos Junguianos: <a href="https://ijep.pages.net.br/congressos-carl-jung-ijep">Congressos IJEP (pages.net.br)</a></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Aceitação Coletiva ou Essência Individual: Uma Reflexão Junguiana</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/opiniao-da-maioria-e-opiniao-propria/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leandro Scapellato]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 19 Sep 2023 12:49:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Não Categorizado]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[aceitação coletiva]]></category>
		<category><![CDATA[aceito]]></category>
		<category><![CDATA[autonomia]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[desenvolvimento pessoal]]></category>
		<category><![CDATA[essencia individual]]></category>
		<category><![CDATA[massificação]]></category>
		<category><![CDATA[opinião própria]]></category>
		<category><![CDATA[pertencimento]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia profunda]]></category>
		<category><![CDATA[relações interpessoais]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=8015</guid>

					<description><![CDATA[<p>Neste artigo, exploramos a questão da aceitação coletiva versus a preservação da essência individual, sob a perspectiva de Carl Jung. Descubra como a busca pela aprovação pode afetar nosso desenvolvimento interno e autonomia</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Dia desses me enviaram uma frase, atribuída de maneira incerta — e provavelmente errada — a Eça de Queiróz, dizendo que não deveríamos ter medo de pensar diferente dos outros. O medo, segundo o autor desconhecido, deveria ser o de pensar igual aos outros e todos estarem errados.</em> <em>Mas onde termina a opinião da maioria e começa a opinião própria?</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Acredito que o problema em pensar igual aos outros não seja exatamente a má sorte de se descobrir errado em grupo, mas sim o preço que se paga, em primeiro lugar, para ter a mesma opinião da maioria, quando a própria opinião não é alcançada com uma reflexão crítica e honesta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vejamos: já não é novidade que a maioria das pessoas não define o que é correto. A maioria das pessoas define o que é aceito. <strong>E é claro que o que é aceito frequentemente é visto, principalmente pelo homem médio, como correto.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso, no decorrer da história, vimos pessoas serem castigadas, mulheres serem queimadas, cientistas serem presos, políticos serem exilados e povos serem dizimados por ter ou parecer ter opiniões conflitantes com a opinião geral ou de quem está no poder.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma antiga inscrição no templo de Apolo, em Delfos, dizia “conhece-te a ti mesmo”, que podemos compreender basicamente como um convite para que busquemos conhecimento sobre nós mesmos e, a partir desse conhecimento, busquemos a verdade sobre o mundo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-torna-te-quem-tu-es">Torna-te quem tu és</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Nietzsche</strong>, em sua obra <em>Ecce Homo</em>, revisita o convite do poeta grego Píndaro: “<strong>Torna-te quem tu és</strong>”, afirmando estar contrapondo a inscrição do templo de Apolo. Aquela, de Delfos, colocaria o conhecer como algo da reflexão interna, do pensamento. Esta reflexão, de Píndaro, se relaciona mais com a experiência prática do indivíduo no mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Nietzsche defende a ideia de que devemos nos apropriar do que somos por meio da ação e não buscar um ideal de “eu” e tentar alcançá-lo</strong>. Prática esta que, segundo ele, envolveria moldar-se de maneira desonesta, renunciando a si mesmo para cultivar práticas consideradas “ideais”.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:20px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>&#8220;[&#8230;] o conhece-te a ti mesmo seria a fórmula para a destruição, esquecer-se, mal entender-se, empequenecer, estreitar, mediocrizar-se.&#8221; </em></p>
<cite>Nietzsche, <em>Ecce Homo</em></cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Não pretendo entrar aqui na perigosa intenção de julgar a frase do templo de Apolo, tão profundamente trabalhada pelos antigos filósofos. Muito menos pretendo acender minha arrogância a ponto de condenar uma mente tão grandiosa como a de Nietzsche, pelas provocações que teceu — e que, confesso, me agradam muito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para mim, as duas frases, de modos diversos, chegam a uma mesma ideia: <strong>é preciso ter autonomia interna perante o mundo</strong>. A partir dessa premissa, a questão que tento trazer aqui parece-me mais superficial — ou não: se o que a maioria pensa define o que é aceito — e não o que é certo —, quem molda as próprias opiniões para encaixá-las às da maioria busca, na verdade, aceitação, e não estar honestamente certo. Em suma, será que sacrificar-se — sacrificar a autonomia interna — é um preço válido para ser aceito pela maioria?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-o-que-exatamente-se-sacrifica-para-ser-aceito" style="font-size:20px">E o que exatamente se sacrifica para ser aceito?</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:20px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Sermos nós mesmos faz com que acabemos excluídos pelos outros. No entanto, fazer o que os outros querem nos exila de nós mesmos.”</em> </p>
<cite>ESTÉS, 2014</cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">O velho <strong>Jung</strong>, em sua pequena e rica obra <em>Presente e futuro</em>, nos ensina que:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:20px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Não há e não pode haver autoconhecimento baseado em pressupostos teóricos, pois o objetivo desse conhecimento é um indivíduo, ou seja, uma exceção e uma irregularidade relativas. Sendo assim, não é o universal e o regular que caracterizam o indivíduo, mas o único</em>. </p>
<cite>JUNG, 2013b</cite></blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-um-universo-massificado">Um universo massificado</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Além disso, <strong>Jung</strong> também afirma, na mesma obra, que, em um <strong>universo massificado</strong> — tomando massificação, nesta reflexão, como um processo de destruição da capacidade de reflexão crítica e consciência individual em nome da adoção de comportamentos e ideias automaticamente aceitas pela coletividade —, “O indivíduo [&#8230;] possui uma importância mínima. É uma espécie em extinção. <strong>Quem ousa afirmar o contrário sofrerá imensos embaraços em sua argumentação</strong>”. E, ainda, que “quanto maior a multidão, mais ‘indigno’ o indivíduo [&#8230;] esmagado pela sensação de sua insignificância e impotência [&#8230;].”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com base na análise acima, <strong>Jung</strong> ainda diz que o <strong>juízo individual </strong>— ou seja, a capacidade de <strong>reflexão crítica</strong> — se torna cada vez mais inseguro, fazendo com o que o indivíduo acabe por renunciar ao próprio julgamento. </p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Podemos</strong> <strong>compreender que, a partir dessa renúncia do próprio juízo, o indivíduo passar a confiar, sem refletir, no julgamento do que é definido pela maioria ou por quem está no poder formal ou no poder reconhecido pelo indivíduo — o Estado, um partido político, um clube ou uma associação, uma organização religiosa, etc</strong>.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:20px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>O homem comum, que é predominantemente o homem da massa, em princípio não toma consciência de nada nem precisa fazê-lo, porque, na sua opinião, o único que pode realmente cometer faltas é o grande anônimo, convencionalmente conhecido como “Estado” ou “Sociedade”.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>Mas aquele que tem consciência de que algo depende de sua pessoa, ou pelo menos deveria depender, sente-se responsável por sua própria constituição psíquica, e tanto mais fortemente, quanto mais claramente se dá conta de como deveria ser, para se tornar mais saudável, mais estável e mais eficiente.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>Mas a partir do momento em que se achar a caminho da assimilação do inconsciente, pode ficar certo de que não escapará a nenhuma dificuldade que é uma componente imprescindível de sua natureza. O homem da massa, pelo contrário, tem o privilégio de nunca ser culpado das grandes catástrofes políticas e sociais em que o mundo inteiro se acha mergulhado</em>.</p>
<cite>JUNG, 2013a</cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Parece óbvio que uma sociedade massificada combate exatamente a autonomia interna, a consciência e a atividade reflexiva individual que tanto buscamos na análise junguiana. Portanto, as ideias massificadas roubam do indivíduo a possibilidade de atravessar o esforço e o sofrimento necessários para que se alcance a própria essência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, sem a busca pela própria essência, ao meu ver, esse indivíduo está condenado a se desconectar do seu próprio processo de desenvolvimento, que exige uma organização interna única. E, ainda, a ser sugado de maneira violenta pela massa coletiva, para que assuma em si os moldes — ideias, ética, julgamentos — aceitos por determinada coletividade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-s-omente-aquele-que-se-encontra-tao-organizado-em-sua-individualidade-quanto-a-massa-pode-opor-lhe-resistencia-jung-2013b" style="font-size:19px">“S<strong>omente aquele que se encontra tão organizado em sua individualidade quanto a massa pode opor-lhe resistência</strong>”  &#8211; JUNG, 2013b</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Caso contrário, o indivíduo acabará por sacrificar sua própria essência para conseguir assumir a unilateralidade predominante no grupo do qual deseja sentir-se parte. Assim sendo, cito, por exemplo, do partidário que evitará refletir sobre as ideias indigestas do partido ou político que defende.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O religioso fiel reprimirá em si os impulsos humanos condenados pelo líder de sua congregação e ignorará as “falhas” desse líder, não interessa quantas provas tenha delas. O cientista baseado em evidências negará suas experiências numinosas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O <strong>analista junguiano</strong> não dará voz interna a uma crítica em relação a alguma antiga opinião de <strong>Carl Gustav Jung</strong>. Na realidade, mesmo que lhe pareça clara em si a reprovação da opinião — a mesma coisa com freudianos, lacanianos, gestaltistas, etc. E por aí vai&#8230; <strong>E, ao fazer isso, esse indivíduo também sacrificará a totalidade de si — que inclui todos os opostos e não se forma na unilateralidade</strong> — e, com isso, se afastará de sua jornada de individuação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Afinal&#8230; Ser aceito pelas pessoas realmente é algo importante, de certa maneira. Talvez sentir pertencimento seja algo necessário em algum nível. Apesar disso, na clínica podemos facilmente notar que pessoas que conseguiram ser muito aceitas pela coletividade ou por grupos específicos que acha importante não necessariamente sentem-se bem consigo mesmas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-isso-talvez-aconteca-exatamente-porque-receber-algo-do-externo-nao-modifica-o-interno" style="font-size:19px">E isso talvez aconteça exatamente porque receber algo do externo não modifica o interno.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Como o próprio Jung afirma, “<strong>a comunidade não é capaz de transformar interiormente o indivíduo</strong>” (JUNG, 2013b).</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">O externo, segundo ele, não tem condições de oferecer aquilo que o homem só pode adquirir com o próprio esforço e desenvolvimento interno. <strong>N</strong>esse contexto<strong>, por exemplo, a pessoa que é amada não será capaz de sentir amor se não amar a si mesma antes</strong>.<strong> </strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>E a pessoa aceita por um grupo provavelmente não sentirá, ou não sustentará um pertencimento se não aprender a aceitar-se como realmente é em sua totalidade</strong>. Principalmente se essa aceitação externa for construída a partir da repressão de partes importantes de si e do <strong>sacrifício da própria essência</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, digo mais, talvez, ao aprender a se aceitar em sua totalidade, mesmo contradizendo o que a massa defende, o indivíduo se torne capaz de alcançar <strong>autonomia</strong> a ponto de não se importar tanto pela não aceitação de si por algum grupo específico.</p>



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</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/leandroscapellato/">Leandro&nbsp;Scapellato: Membro Analista em Formação IJEP</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi: Analista Didata e Coordenador IJEP</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:22px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">ESTÉS, Clarissa Pinkola. <em>Mulheres que correm com os lobos</em>: mitos e histórias do arquétipo da Mulher Selvagem. 1ª ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NIETZSCHE, Friedrich. Ecce homo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>A natureza da psique</em>. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>Presente e futuro</em>. 8. ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Acesso nosso site: <a href="https://www.ijep.com.br/">https://www.ijep.com.br/</a></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Dependência química e alcoolismo</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/dependencia-quimica-e-alcoolismo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 Jul 2022 21:02:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Dependência Química]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
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		<category><![CDATA[DAC]]></category>
		<category><![CDATA[dependência química]]></category>
		<category><![CDATA[Drogadição]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[vícios]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=5270</guid>

					<description><![CDATA[<p>DAC é a doença que produz uma variedade enorme de sintomas que vão desde a adicção de substâncias psicoativas, lícitas ou ilícitas, usadas como drogas, passando por distúrbios alimentares, como anorexia, bulimia, hiperfagia ou ortorexia, e comportamentais, com oneomaia, que é compulsão pelas compras, vigorexia, da busca de vigor, vicio em jogos, indivíduos workaholic, parafilias sexuais, entre outras manias compulsórias que interditam a liberdade dos doentes (atualmente já existem mais de cem classificações psiquiátricas, mas todas possuem o mesmo núcleo, que é a ferida do amor próprio). </p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Vivemos numa sociedade onde, infelizmente, lazer e prazer estão associados ao consumo. Por isso, não podemos restringir o problema das&nbsp;<strong>DAC</strong>&nbsp;–&nbsp;<strong>Dependências, Abusos e Compulsões</strong>, apenas a fatores psicopatológicos ou biológicos, porque as questões políticas, econômicas e culturais da nossa atual sociedade de consumo também contribuem para essa epidemia onde 5% da população mundial já é usuária de drogas e é previsto que em 2100, de acordo com as atuais estatísticas, mais da metade da população mundial estará dependente de algum tipo de substância psicoativa ou atividades comportamentais que produzem dependência das substancias endógenas, aquelas que são produzidas pelo próprio organismo, por conta dos vícios em games, redes sociais, pornografia e outras práticas do universo virtual, associadas a 1 bilhão de mortes que serão causadas pelo tabagismo ativo ou passivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>DAC</strong>&nbsp;é a doença que produz uma variedade enorme de sintomas que vão desde a adicção de substâncias psicoativas, lícitas ou ilícitas, usadas como drogas, passando por distúrbios alimentares, como anorexia, bulimia, hiperfagia ou ortorexia, e comportamentais, com oneomaia, que é compulsão pelas compras, vigorexia, da busca de vigor, vicio em jogos, indivíduos&nbsp;<em>workaholic</em>, parafilias sexuais, entre outras manias compulsórias que interditam a liberdade dos doentes (atualmente já existem mais de cem classificações psiquiátricas, mas todas possuem o mesmo núcleo, que é a ferida do amor próprio). A&nbsp;<strong>Dependência</strong>, acontece quando a liberdade do Ego se apresenta bastante limitada. O&nbsp;<strong>Abuso</strong>&nbsp;é a repetição exacerbada de uma experiência considerada saudável ou normal produzindo sofrimento ao Ser. A&nbsp;<strong>Compulsão</strong>, por sua vez, já inclui o conflito psíquico, quando o Ego é dominado pelos complexos mantendo o doente escravizado pelo objeto ou comportamento, que outrora pode ter sido de prazer, mas agora torna-se imperativo para não gerar o desprazer da sua abstinência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Do uso social ao problemático, o álcool é a droga mais consumida no mundo. Segundo dados de 2004, da Organização Mundial de Saúde (OMS), aproximadamente 2 bilhões de pessoas consomem bebidas alcoólicas. O uso indevido de álcool é um dos principais fatores que contribuem para a diminuição da saúde mundial, sendo responsável por 3,2% de todas as mortes e por 4% de todos os anos perdidos de vida útil. Por outro lado, o sucesso no tratamento da&nbsp;<strong>DAC</strong>&nbsp;é muito pequeno. Menos de 20% das pessoas que ingressam num programa transdisciplinar conseguem a abstinência, geralmente depois de passarem, no mínimo, por duas recaídas. Por isso, associo os transtornos de&nbsp;<strong>DAC</strong>&nbsp;a questões psicossomáticas, por terem sua etiologia no construto psicoafetivo do dependente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É importante deixarmos claro que psicossomática não é um adjetivo de uma queixa ou de um sintoma qualquer, sejam eles físicos, psíquicos, sociais, ambientais, entre outros. Em nossos cursos, ministrados pelo IJEP, insistimos muito que a nossa condição de vida é psicossomática e, nesta premissa, não podemos limitar nossos estudos exclusivamente na busca reducionista das causas das doenças. Precisamos ir além das causas, buscamos o sentido, ou seja, para onde aquele sintoma pode estar apontando, que caminho de evolução pode haver nele? Consequentemente, ao invés de procurarmos uma explicação generalista e reducionista sobre as causas dos sintomas e das doenças, tentamos compreender sua manifestação na totalidade de cada ser, no processo evolucional e individual.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O alcoolismo, assim como todas as adições e dependências, é simultaneamente um sintoma individual e social, registrado histórica e antropologicamente há milênios. A grande pergunta é: Por que a humanidade busca experiências com substâncias psicoativas que produzem estado alterado de consciência? É uma busca de alívio, saídas, encontros ou desencontros com o si mesmo? As experiências de picos e de vales, produzidas por qualquer adição, nos deixam perplexos e nos remete para hipotetizarmos uma série de causas, mas na raiz de qualquer justificativa, o que temos como resultante é a falta de sentido e de significado existencial do doente, devido a inexistência de um propósito de vida que vai além da biosobrevivência, dos prazeres imediatos, da ilusão do sucesso, da fama ou da riqueza material. Ou seja, existem muitos fatores que influenciam uma adição. É um absurdo buscarmos uma causa única, porque a doença é multifatorial incluindo as predisposições genéticas, ancestrais, sociais, familiares, espirituais e vivenciais e todas, em alguma intensidade, contribuem para que aconteça a&nbsp;<strong>DAC</strong>. Por isso, a ajuda ao doente exige atitudes compreensivas, confortantes, acolhedoras e, simultânea e paradoxalmente, energicamente assertivas, limitantes e restritivas, abandonando qualquer tentativa de encontrar a culpa do doente ou os culpados que contribuíram para a doença.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aliás, sempre digo aos codependentes, que é o entorno relacional do doente que, na maioria das vezes, por não reconhecerem que podem estar dependentes da dependência do seu ente querido, ou seja, dependem da dependência do dependente, que eles não devem continuar acreditando, iludidamente, que podem ser culpados, que podem controlar ou até curar seu dependente. Porque, desta forma, e nesta dinâmica, acabam mais atrapalhando do que ajudando, contribuindo ainda mais para as contínuas recaídas do tratamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A busca de estado alterado de consciência, que é gratificante, por produzir, transitoriamente, alívio e prazer, está diretamente ligada com falta de sentido existencial. Muitas vezes ouvi alguns jovens dizerem que usavam drogas para ficarem “descolados” deixarem de ser “caretas”, se sentirem pertencentes, mais criativos, alegres, confiantes, entre outras justificativas para defender seu vício, obviamente negado como tal, porque ainda se julgam livres, sem reconhecer sua dependência da substância e do estado alterado de consciência que ela produz. Sendo que, na medida que o consumo vai ficando mais frequente, o organismo vai adquirindo resistência e tolerância, exigindo cada vez mais quantidade e frequência.&nbsp; Até que eles acabam deslocados do processo adaptativo e evolutivo sócio, econômico, profissional, relacional e familiar, tornando-se dependentes e alienados, cada vez mais distantes de si mesmos, agravados pelas complicações físicas. Ou seja, o indivíduo perdeu a referência da sua essência e, consequentemente, da sua vocação e seu chamado. Neste caso surge o mau destino e todos os eventos desastrosos e trágicos, pela inconsciência da sua trajetória existencial, ficando à mercê do catastrófico. C. G. Jung nos alerta para a necessidade da relação do Eu com o inconsciente e para o risco desta falta de autoconhecimento:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“[&#8230;] as pretensões do inconsciente se impõem categoricamente ao consciente e causam nefasta dissensão que se exterioriza sobretudo no seguinte: as pessoas já não sabem o que realmente querem e não encontram prazer em nada, ou querem demais de uma vez só e têm prazer demais, mas em coisas impossíveis. A repressão das pretensões infantis e primitivas, necessária por motivos culturais, leva facilmente a neuroses ou ao abuso de drogas narcóticas como álcool, morfina, cocaína etc. Em casos mais sérios ainda, o desfecho da dissensão pode ser o suicídio.” (CW6 &#8211; §639)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os profissionais de saúde, por convenção, estabelecem que a dependência química implica na necessidade psíquica do indivíduo frente a adição, e o vício é o estágio mais avançado da dependência química, onde o organismo já não consegue funcionar adequadamente sem a presença da substância de adição. Mas, tanto o dependente químico quanto o viciado são indivíduos doentes que necessitam de tratamento. Ninguém está nessa por vontade própria, com lucidez e consciência plena.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A ideia de cura é muito complexa e de grande ambiguidade. Por exemplo, em função do meu conhecimento em homeopatia e psicologia junguiana, acredito que é possível morrer curado. Mas, filosofia aparte, é inconcebível acreditar que apenas uma droga poderia curar a dependência de outra droga. Nossa experiência aponta para um tratamento transdisciplinar, preferencialmente o menos invasivo possível, que propicie autoconhecimento para que o doente possa descer nas profundezas do seu ser e, como Fausto de Goethe, resgatar sua alma. Por isso, não são raros os casos em que a experiencia metafórica de “fundo de poço” são determinantes na conquista da abstinência e sobriedade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O caminho de tratamento das&nbsp;<strong>DAC</strong>&nbsp;começa pela desintoxicação, depois exige o reconhecimento da dependência e o desejo de abstinência, levando em consideração a síndrome da dependência, abordando a família, fazendo a conscientização do risco das recaídas, o ressignificar dos velhos hábitos, o reconhecimento das situações de risco para recaída e a produção de estratégias de abstinência de curto prazo, porque a “batalha” é diária e, na maioria dos casos, pelo resto da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As adições são doenças com características de comorbidade e codependêcia, desta forma nada que aja isoladamente pode ser eficaz. A cura depende de muitas intervenções nos aspectos pessoais, psíquicos, físicos, sociais, familiares e até espirituais. Porém, sem o real compromisso do dependente quase nada se pode fazer. Toda intervenção arbitrária e truculenta acaba gerando mais problemas e danos do que cura. Paciência e amor são as ferramentas essenciais para o sucesso do tratamento. Mesmo assim, teremos que encarar potencias muito significativas para que a transformação do ser aconteça. Mudanças sempre desencadeiam mecanismos de defesa e, nestes casos, teremos que enfrentar as reações biológicas, onde cada célula deseja manter o indivíduo no seu padrão viciante, além das resistências neuro cerebrais, psicoafetivas, familiares e sócio culturais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque o cérebro, assim como nossas estruturas somáticas, tende a padrões viciantes, por isso é tão difícil mudança de hábitos, como a rotina alimentar para aqueles que desejam perder peso. Nosso cérebro consome de 20 a 25% da glicose e do oxigênio do organismo, apesar de representar, na média, apenas 2% do peso corporal, nesta perspectiva, a massa cerebral consome, proporcionalmente, de 60% a 80% a mais do que a corporal. Ele é uma máquina voraz, constantemente ligada para garantir a manutenção da vida biológica, produzindo rotinas e padrões repetitivos e automáticos, para a manutenção da vida, associando-as com os mecanismos de prazer e recompensas, produzindo dopaminas, serotoninas, endorfinas e outras substâncias. Desta forma, quando o sistema de recompensas é ativado entramos em modo automático de repetição e, em muitos casos, de compulsão, dificultando, cada vez mais, a capacidade de crítica reflexiva, tirando a autonomia da consciência. E esse mesmo mecanismo acontece, de forma ainda mais efetiva, com as substâncias psicoativas, como álcool outras drogas de abuso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É preciso muito diálogo, muita sinceridade e muita disponibilidade para enfrentarmos um mundo tão desigual e sem perspectivas. Os vínculos estão sendo substituídos por eficácia e pelo acúmulo de bens. Os valores afetivos estão ficando em segundo plano. Nossos jovens estão perdidos e completamente diluídos frente a tantas demandas. Precisamos dar possibilidades criativas, sentimento de pertença e autoestima mais elevada aos jovens. Estamos assistindo uma crescente falta de entusiasmo para a vida. O grande desafio que temos para o futuro da humanidade é o engajamento entusiástico dos jovens para com as questões sociais e ecológicas. Sem isso teremos uma sociedade individualista, buscando um prazer hedônico e sem sentido. A dessacralização e o desencantamento do mundo, provocado pelo utilitarismo materialista e racional devem ser repensadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Encerro esse artigo lembrando que em 1996, a Unesco (Organização da Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), divulgou um estudo mundial sobre a educação, desembocando nesses quatro pilares:&nbsp;<strong>Aprender a ser</strong>;&nbsp;<strong>Aprender a conviver</strong>;&nbsp;<strong>Aprender a aprender</strong>; e&nbsp;<strong>Aprender a fazer</strong>; Observe que tudo começa pelo autoconhecimento, porque só assim que poderemos alcançar um sistema político democrático, de governança e não predatório,&nbsp; por ser sustentável e humanista, que poderá contribuir para um cenário onde a diferença entre os mais ricos e a população não seja tão desigual e desumana e que o consumo e a riqueza material deixem de ser sinônimos de prazer e sucesso.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>WALDEMAR MAGALDI FILHO</em>&nbsp;&#8211; Psicólogo, Especialista em Psicologia Junguiana, Psicossomática e Homeopatia. Mestre e Doutor em Ciências da Religião. Autor do livro: “Dinheiro, Saúde e Sagrado”, Analista didata do IJEP – Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa – e coordenador dos cursos de pós-graduação em Psicologia Junguiana; Psicossomática e Arteterapia e Expressões Criativas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Email:&nbsp;wmagaldi@ijep.com.br</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Waldemar Magaldi &#8211; 19/02/2021</em></strong></h4>
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