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	<title>Arquivos Psicopatologia - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Thu, 19 Sep 2024 18:37:40 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos Psicopatologia - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Dor, Cura e Psicologia Analítica &#8211; Reflexões sobre o Sentido</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/dor-cura-e-psicologia-analitica-reflexoes-sobre-o-sentido/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Patricia Cordeiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 20 Aug 2024 15:15:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicopatologia]]></category>
		<category><![CDATA[#dor #cura #doença #dorescronicas #psicologiajunguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O dicionário Priberam define cura como “restabelecer ou recuperar a saúde; pôr fim a uma doença”. Segundo Guggenbuhl-Craig (2022) curar, em alemão heilen, tem sua origem em uma palavra raiz que aparece em muitas línguas: provém de heilag, total completo. Curiosamente a definição de saúde, segundo a OMS é “o estado de completo bem-estar físico, [...]</p>
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<p class="wp-block-paragraph">O dicionário Priberam define cura como “<strong>restabelecer ou recuperar a saúde; pôr fim a uma doença</strong>”. Segundo <strong>Guggenbuhl-Craig</strong> (2022) curar, em alemão <em>heilen</em>, tem sua origem em uma palavra raiz que aparece em muitas línguas: provém de <em>heilag</em>, total completo. Curiosamente a definição de saúde, segundo a OMS é “o estado de <em>completo</em> bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Olhando sob esse prisma a saúde foi absorvida pela completude, pela totalidade. E, nesse caso, a totalidade como sinônimo de um não comprometimento da função e pleno desempenho mental e físico onde não há lugar para a fantasia da invalidez. E assim, nossa fantasia de saúde se tornou tão total que deixou de ser verdadeiramente saudável (GUGGENBUHL-CRAIG, 2022).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-de-acordo-com-guggenbuhl-craig-2015-2022-ha-uma-fantasia-contemporanea-de-saude-na-qual-devemos-nos-tornar-saos-e-completos-sendo-a-totalidade-entendida-no-sentido-de-perfeicao-seja-perfeito" style="font-size:18px">De acordo com Guggenbuhl-Craig (2015, 2022), há uma fantasia contemporânea de saúde, na qual devemos nos tornar sãos e completos, sendo a totalidade entendida no sentido de perfeição: &#8220;Seja perfeito&#8230;&#8221;</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O defeito mais insignificante, a menor disfunção deve ser curada, removida ou erradicada. Lutamos interminavelmente, insensatamente para manter a ilusão de totalidade ao tentar alcançar a saúde perfeita.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vitaminas, suplementos, proteínas, academias, gadgtes de atividade física, personal trainer, nutricionista, vamos a cada dia tendo mais e mais opções para que possamos alcançar a saúde perfeita. Entretanto, com essa visão uni lateralizada, esquecemos de reconhecer o aspecto simbólico dos sintomas e das doenças, cuja manifestação é uma das linguagens mais expressivas do inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em Aion, <strong>Jung</strong> (1998a, p.63, §122) traça um paralelo psicológico entre Cristo e o si-mesmo ao demonstrar como a imagem tradicional de Cristo engloba características do arquétipo do si-mesmo. Nesse paralelo ele nos recorda que há uma diferença entre perfeição e inteireza. Ele cita que se costuma ter uma imagem de Cristo como relativamente perfeita, ao passo que o arquétipo indica inteireza, mas está longe de ser perfeito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sendo o arquétipo um paradoxo e a realização do Si-mesmo implica no reconhecimento de sua supremacia, tal reconhecimento também leva a um conflito, a uma suspensão entre os opostos (o crucifixus) o que levaria a uma totalidade aproximada, a qual faltaria a perfeição.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-busca-pela-totalidade-e-legitima-e-inata-ao-homem-uma-aspiracao-tao-forte-que-chega-ao-ponto-de-transformar-se-em-paixao-que-tudo-submete-a-seu-imperio" style="font-size:17px">A busca pela totalidade é legítima e inata ao homem, uma aspiração tão forte que chega ao ponto de “transformar-se em paixão, que tudo submete a seu império”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Entretanto, nos será necessário reconhecer que o arquétipo se completa na sua inteireza, em correspondência com a sua natureza arcaica e em contraposição a qualquer aspiração consciente, o homem pode buscar a perfeição, mas em benefício de sua inteireza é obrigado a suportar a falta, a imperfeição e a incompletude. Nesse sentido, simbolicamente, a imagem de Cristo corresponderia a esse estado de coisas, como homem perfeito e crucificado (JUNG, 1998a, p.64, §123).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dessa forma, podemos concluir que o estado de totalidade, de inteireza só poderá ser alcançado quando aceitarmos a imperfeição. E Jung (1998a, p.59, §58) ressalta isso ao destacar que um pré-requisito indispensável para se chegar à totalidade é alcançar uma união superior, uma coniunctio oppositorum (unificação dos opostos), ele cita:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“&#8230;um conteúdo só pode ser integrado quando seu duplo aspecto se tornar consciente e o conteúdo tiver sido apreendido no plano intelectual, mas em correspondência com seu valor afetivo. É muito difícil, porém, combinar intelecto e sentimento, pois os dois, <em>per definitionem</em>, repelem-se. Quem se identificar com um ponto de vista intelectual, poderá eventualmente confrontar-se com o sentimento sob a forma da anima, numa situação de hostilidade; inversamente, um animus intelectual brutalizará o ponto de vista do sentimento”.</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Na busca da totalidade em um ideal arquetípico de saúde e perfeição, talvez não levemos em consideração o seu oposto, o arquétipo do inválido dentro de nós mesmos</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo <strong>Guggenbuhl-Craig (2105)</strong> nossa falha em aceitar o inválido dentro de cada um de nós, nossa fantasia de que seres humanos devem ser tão saudáveis quanto aqueles deuses gregos idealizados, é que nos torna incapazes de lidar com o arquétipo do inválido. E quando ele surge em nós, o negamos, queremos eliminá-lo e assim ele se torna tirânico, exigente e exige mais e mais cuidados.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-pratica-clinica-esse-aspecto-e-fortemente-observado-em-portadores-de-dores-cronicas" style="font-size:17px">Na prática clínica esse aspecto é fortemente observado em portadores de dores crônicas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com o CID XI a dor crônica é “uma experiência sensorial e emocional desagradável associada a dano tissular real ou potencial, ou semelhante à sensação associada ao dano. A dor crônica é aquela que persiste ou é recorrente por mais de 3 meses. A dor crônica é multifatorial: fatores biológicos, psicológicos e sociais contribuem para a síndrome dolorosa”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em nossa sociedade a dor não é tolerada, é vista como negativa, um sinal de fraqueza, que prejudica o desempenho, tira a atenção para aquilo que se quer realizar, o desejo imediato é que ela seja eliminada, calada, não há espaço para dor. Mas, para algumas pessoas ela se arrasta além da fase aguda, se estende por meses, anos e lidar com as limitações que ela impõe pode ser extremamente desafiador para aqueles que por ela atravessam.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-convite-nesse-texto-e-para-que-possamos-trazer-um-outro-olhar-para-a-dor-como-algo-que-pertence-a-natureza-humana" style="font-size:19px">O convite nesse texto é para que possamos trazer um outro olhar para a dor, como algo que pertence a natureza humana.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Jung (1998b, p.2, §1) considera corpo e psique como uma das principais antinomias e cita que “a psique depende do corpo e o corpo depende da psique” e completa citando “que um juízo objetivo não poderá decidir-se pela preponderância da tese sobre a antítese”, ou seja, a contradição entre quaisquer princípios está sempre presente, de forma que quando se tem premente um padrão coletivo no qual a dor e o sofrimento não deveriam existir, cabe-nos dar espaço a eles.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Byung-Chul Han em seu livro Sociedade Paliativa (2021) cita que a tolerância à dor atualmente é mínima em uma sociedade que busca uma anestesia permanente. O autor reflete que ao calarmos a dor, calamos a crítica, calamos relações sociais doentias, calamos a reflexão, calamos a verdade, calamos a alma que se expressa através da dor.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-contexto-talvez-seja-valido-considerar-que-esse-calar-da-alma-seja-justificado-para-garantir-a-alta-performance-e-o-desempenho" style="font-size:18px">Nesse contexto talvez seja válido considerar que esse calar da alma, seja justificado para garantir a alta performance e o desempenho.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Han</strong> (2021) fala sobre a experiência da dor ser percebida como um mal sem sentido, que deve ser combatido com analgésicos e sendo compreendida como uma mera aflição corporal, tem seu aspecto simbólico excluído. Ele cita:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>“<strong>a dor se coisificou, hoje, em uma aflição puramente corporal. A ausência de sentido da dor aponta, para o fato de que a nossa vida, reduzida a um processo biológico, é ela mesma esvaziada de sentido</strong>&#8230;”</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Acho interessante fazer um paralelo com a narrativa de Han onde ele cita que “se sofre cada vez mais com cada vez menos”, visto que nos casos de dor crônica em função de um estado de hiper vigilância e sensibilização do sistema nervoso central responsável pela memória de dor, as sensações dolorosas existem mesmo na ausência de doença ou estímulos nociceptivos. Como o autor ainda cita a dor não é nenhuma grandeza objetivamente constatável, mas uma sensação subjetiva. Talvez a ausência de sentido da dor faça com que ela seja percebida como insuportável. E a ausência de sentido dói e a dor é como um grito do corpo por atenção pela falta de sentido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung destaca o papel do inconsciente como responsável por provocar ou prolongar doenças físicas, ao afirmar que um funcionamento inadequado da psique pode causar tremendos prejuízos ao corpo, da mesma forma que, inversamente, um sofrimento corporal consegue afetar a alma, visto que só artificialmente é que se pode separar a psicologia da biologia, uma vez que a alma humana vive unida ao corpo, numa unidade indissolúvel.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-alma-e-corpo-sao-animados-por-uma-mesma-vida-sendo-rara-a-doenca-do-corpo-que-nao-seja-de-origem-psiquica-e-que-nao-tenha-implicacoes-na-alma-jung-2013a-232-jung-2013b-194" style="font-size:18px">Alma e corpo são animados por uma mesma vida, sendo “<strong>rara a doença do corpo que não seja de origem psíquica e que não tenha implicações na alma</strong>”. (JUNG, 2013a, §232; JUNG, 2013b, §194).</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Guggenbuhl-Craig (2022) em seu artigo cita que “Arquetipicamente nosso corpo, através do qual nossa psique se manifesta, é um organismo defeituoso, impreciso, sempre vivenciado como parcialmente funcionando e parcialmente não funcionando, sofremos continuamente de uma permanente imperfeição limitadora. É uma verdade de nossa condição existencial que somos parcialmente defeituosos sem reparo. Segundo o autor esta é uma vivência básica da vida que deveria definir nossa ideia de saúde.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se, por um lado, devemos compreender a totalidade e a perfeição abarcando a incompletude e a imperfeição, isso poderá nos aproximar da numinosidade dos arquétipos e permitir que possamos compreender e aceitar os sintomas, imperfeições e doenças que nos apresentam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por outro lado, ao compreender os sintomas como expressões simbólicas do inconsciente e a dor como uma dessas expressões, talvez a dor crônica e persistente possa ser compreendida como uma desunião consigo mesmo. Como sendo essa uma condição neurótica por excelência, que se torna insuportável para o indivíduo. Entretanto como “<strong>Só aquilo que somos realmente tem o poder de curar-nos</strong>”, se não há como negligenciar a psique e negarmos a influência do inconsciente em nossas vidas, não há possibilidade de cura ou de melhoria no mundo que não comece pelo próprio indivíduo (JUNG, 2014, § 258 e §373).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-atualmente-quando-se-fala-nas-abordagens-da-dor-cronica-e-persistente-fala-se-em-manejo-e-nao-em-cura" style="font-size:21px"><strong>Atualmente quando se fala nas abordagens da dor crônica e persistente, fala-se em manejo e não em cura</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ou seja, fala-se em abordagens para alívio da dor, mas especialmente em melhora da funcionalidade e da qualidade de vida. &nbsp;A partir disso, talvez possamos buscar em paralelo também qual seria o chamado da dor crônica e persistente, a aceitar esse arquétipo e tirar dele um para quê, um aprendizado e uma nova experiência de viver.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Refletir por que é tão difícil vivenciar uma experiência sensorial e emocional desagradável que pode ou não estar associada a dano? A recusa e a impossibilidade de viver com limitações e deficiências, fala o que sobre mim? Seria possível apesar da presença da dor crônica e persistente, se chegar à realização completa de si-mesmo, ou de seu Self, e a completude alcançada através da incompletude? Qual seria o embate na consciência que se apresenta em cada história para tornar tão difícil a aceitação dessa oposição?</p>



<p class="wp-block-paragraph">O percurso é laborioso, mas tudo quanto começa, começa pequeno. E a meta do desenvolvimento e maturação da personalidade está ao alcance de todos. Um processo de análise poderá contribuir para que em cada indivíduo desabroche a vida na maior amplitude possível. Pois o sentido da vida só se cumpre no indivíduo vivendo plenamente a sua existência e o chamado da alma. (JUNG, 1998b, p.104, §229).</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/patricia-cordeiro/">Patrícia Cordeiro &#8211; Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Membro Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<ul class="wp-block-list">
<li>Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2024, <a href="https://dicionario.priberam.org/curam">https://dicionario.priberam.org/curam</a>.</li>



<li>GUGGENBUHL-CRAIG, Adolf. <em>O arquétipo do inválido e os limites da cura</em>.<strong>&nbsp;Junguiana</strong>,&nbsp; São Paulo ,&nbsp; v. 40,&nbsp;n. 2,&nbsp;p. 55-64,&nbsp; dez.&nbsp; 2022 . &nbsp; Disponível em &lt;http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0103-08252022000200003&amp;lng=pt&amp;nrm=iso&gt;. Acesso em&nbsp; 18&nbsp; jun.&nbsp; 2024.</li>



<li>GUGGENBUHL-CRAIG, Adolf. <em>O arquétipo do inválido e a clínica psicológica</em>. Disponível em &lt;https://unusmunduspsicologia.blogspot.com/2015/02/o-arquetipo-do-invalido-e-clinica.html&gt;. Acesso em 18 jun. 2024</li>



<li>HAN, BYUNG-CHUL. <em>Sociedade paliativa: a dor hoje</em>. 1. ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2021</li>



<li>JUNG, C.G. <em>AION. Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo</em>. 5ª ed. Petrópolis: Vozes, 1998a</li>



<li>______. <em>A Prática da Psicoterapia</em>. 6ed. Petrópolis: Vozes, 1998b</li>



<li>______. G. <em>A Natureza da Psique</em>. Edição Digital. Petrópolis: Vozes, 2013a</li>



<li>______. G. Psicologia do Inconsciente. Edição Digital. Petrópolis: Vozes, 2013b</li>



<li>______. <em>O Eu e o Inconsciente</em>. Edição Digital. Petrópolis: Vozes, 2014.</li>
</ul>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Aproveite para nos acompanhar no YouTube:&nbsp;<a href="https://www.youtube.com/channel/UCrbwUrT0W4Tp-swBxAVwX5Q">Canal IJEP – Bem vindos(as)! (youtube.com)</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Acesse nosso site e conheça nossos Cursos e pós-Graduações com&nbsp;<strong>Matrículas Abertas</strong>:&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/">IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>*Psicossomática</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>*Psicologia Analítica</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>*Arteterapia e Expressões Criativas</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Conheça nossos&nbsp;<a href="https://www.institutojunguiano.com.br/congressosjunguianos">Congressos Junguianos</a>&nbsp;e Combos Promocionais:</p>



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			</item>
		<item>
		<title>Transtorno de ansiedade por doença, a busca por cuidado como caminho para o amadurecimento</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/transtorno-de-ansiedade-por-doenca-a-busca-por-cuidado-como-caminho-para-o-amadurecimento/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Mauro Angelo Soave Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 29 Nov 2022 13:58:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diagnóstico Psicológico]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
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		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Psiquiatria]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[hipocondria]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[psicossomatica]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=6834</guid>

					<description><![CDATA[<p>O presente artigo busca explorar possíveis chamados do transtorno de ansiedade por doença, ou como é mais conhecido, a hipocondria. Esse transtorno tem como principal característica a crença de que se padece de uma doença grave, mesmo quando essa possibilidade é descartada por exames médicos. Qual seria a busca de um ego que acredita que há algo de mal em si, mas não é identificável? Quais as possíveis correlações com outros transtornos como a ansiedade, a depressão e o pânico? Com base na teoria junguiana fazemos um olhar e uma reflexão sobre esse tema.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/transtorno-de-ansiedade-por-doenca-a-busca-por-cuidado-como-caminho-para-o-amadurecimento/">Transtorno de ansiedade por doença, a busca por cuidado como caminho para o amadurecimento</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Começa assim: uma dor, um incômodo, uma disfuncionalidade, por menor que seja. Ela se mantém por um período, desaparece, retorna, desaparece. Pode ser também um ruído, um aperto, uma fisgada, uma pontada. “Há algo acontecendo&#8230;” diz uma voz interior. Uma sensação desconfortável percorre o corpo. O tempo passa, a sensação continua. “Talvez seja o momento de fazer uma visita ao médico&#8230;” diz uma voz interior. No médico, uma descrição detalhada de quando começou, onde pega mais, quanto tempo durou e a intensidade que oscilou. Exames, exames, exames. Um colesterol um pouco alterado, uma pré-diabetes, nada fora do esperado para alguém levemente sedentário e que gosta de uns doces.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ufa!&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Parece estar tudo bem&#8230;” diz uma voz interior. “Mas&#8230;” a mesma voz aponta para a continuidade do sintoma, ou talvez alguma outra sensação que tenha passado desapercebida. A sensação desconfortável percorre o corpo. Uma nova consulta médica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que descrevo acima é um possível roteiro de uma crise de ansiedade por doença. Poderíamos substituir a consulta médica por uma automedicação, ou ainda, a evitação de qualquer contato que possa trazer um (não) diagnóstico. Quem convive com isso ou com alguém próximo acometido por isso sabe muito bem o que é.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O transtorno de ansiedade por doença era previamente chamado de hipocondria, sendo hipo do grego&nbsp;<em>hypo</em>&nbsp;e condria derivada do&nbsp;<em>chondros.&nbsp;</em>A origem da palavra é referência ao hipocôndrio, uma cartilagem abaixo do abdome, onde se acreditava ficar as vísceras do humor, dessa forma a hipocondria também era uma denominação para melancolia. Mais tarde, pelo estigma jocoso que a palavra ganhou, passou a se chamar transtorno de ansiedade por doença.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse transtorno é caracterizado pela presença de uma preocupação constante com o adoecimento grave e a morte. Pessoas acometidas tendem a interpretar pequenas dores e sinais do corpo como sintoma de um mal letal, incapacitante e oculto. Por mais que pessoas próximas e exames médicos apontem que não há nada de errado, do ponto de vista orgânico ou físico, a pessoa não se livra dessa crença e preocupação, podendo visitar vários médicos de diferentes especialidades na esperança de que alguém descubra finalmente o mal terrível que se oculta em seu corpo. Não raro, duvidam dos médicos e se sentem incompreendidos e injustiçados por estes e por seus próximos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro sintoma observado, curiosamente oposto, pode ser a evitação da área médica. Ou seja, há uma escolha do hipocondríaco de não saber que mal ele acredita que lhe aflige. Prefere a bênção da ignorância mesmo que muitas vezes não haja nada a descobrir de fato. Esse quadro pode levar inclusive à automedicação, que representa um risco real para a saúde. Também comum é a busca na internet por sintomas, que por sua vez, gera ansiedade e pode piorar o quadro, pois sintomas genéricos que podem significar algo grave são um prato cheio para quem é atravessado por esse transtorno. Essa prática ganhou até nome: Cybercondria.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os dados apontam que o transtorno de ansiedade por doença muitas vezes é um acompanhante de outros transtornos ansiosos e/ou depressivos (DIB, VALENÇA e NARDI, 2006). Dessa forma, podemos pensar que uma pessoa ansiosa, em constante estágio de vigilância tende a interpretar uma dor, um sinal na pele ou qualquer outra mudança no corpo como ameaça grave. Não raro, pode levar seu portador em casos mais extremos a um ataque de pânico.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A cultura contemporânea idealiza e idolatra um corpo perfeito, sem dores, incômodos e com todos os indicadores dentro dos padrões mais restritos. Além disso, o materialismo e o desejo egóico pelo concreto e tangível faz com que se desvalorizem os sintomas psíquicos. Essa combinação pode gerar um quadro de hipervigilância com o corpo e descuido com a mente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Jung (1985) a alma humana vive unida ao corpo, numa unidade indissolúvel, por isto só artificialmente é que se pode separar a psicologia dos pressupostos básicos da biologia. Ou seja, um ferimento ou moléstia corpórea podem trazer sofrimento psíquico e o sofrimento psíquico pode se manifestar no corpo. Complexos e sentimentos são capazes de mudar a organização das células e os componentes químicos do corpo enquanto a atividade física e medicamentos são capazes de mudar o humor e controlar pensamentos intrusivos. Corpo e alma adoecem juntos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com O’Sullivan, 2016:&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O corpo tem inúmeras formas de expressar emoção. O enrubescimento ocorre quando os vasos sanguíneos da cabeça e do pescoço se dilatam e se tornam repletos de sangue. Trata-se de uma mudança física instantânea que é vista na superfície, mas que reflete um sentimento de constrangimento ou de felicidade não expresso. Quando acontece, é impossível controla-lo. Esse ponto é importante. Os rubores denunciam um sentimento e, mesmo quando aumentam o constrangimento de alguém, não é possível contê-los.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O materialismo faz com que tudo que não seja tangível seja ignorado, dessa forma os transtornos e sintomas mentais muitas vezes são minimizados e até ridicularizados. O sofrimento psíquico não encontra, muitas vezes, acolhida e persiste até o momento em que se manifesta como somatização ou algum sintoma mais grave. No transtorno de ansiedade por doença pode ser esse o caso. Como não há maneira de se mostrar ou quando isso é feito, é ignorado, uma doença física é mais plausível, dessa forma, a pessoa afetada está em busca de descobrir o que há de errado com ela. Qualquer coisa é melhor do que a humilhação de um distúrbio psicológico. A sociedade é muito crítica com relação a doenças psicológicas, e os pacientes sabem disso (O’Sullivan, 2016).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vale um parênteses aqui de que ainda estamos em uma pandemia e obviamente devemos ficar atentos aos sintomas que se manifestam e não ignorar a busca por ajuda médica. E vale dizer que a pandemia aumentou os níveis de sofrimento psíquico e da ansiedade por doença, sendo que agora, o mal da vez poderia ser a própria Covid-19, que tem sintomas muito parecidos com outras doenças menos perigosas. A pandemia foi um gatilho, pois diante de uma doença nova, contagiosa, “invisível” e muitas vezes silenciosa, a ansiedade por doença era até esperada. Aliás, essas são palavras-gatilho: invisível, silenciosa e poderia ser evitada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Voltando ao tema, o transtorno da ansiedade por doença se caracteriza então por uma hipervigilância do corpo, que se transforma no medo de estar padecendo de algo grave sem que se saiba. A origem desse transtorno não é clara, mas as hipóteses são de que pode ser um traço genético, colateralidade de outros transtornos mentais como a depressão e a ansiedade e uma estratégia infantil de busca a atenção dos mais próximos, afinal, uma doença é algo que mobiliza aqueles que nos amam em cuidado. Há uma doença, um sofrimento, mas não há nada de errado.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">É importante diferenciar o transtorno de ansiedade por doença da Síndrome de Munchausen, em que o paciente simula ou causa em si próprio ou em outros (por procuração) doenças para que tenha a atenção. No caso da ansiedade por doença, não há esse passo a mais, ficando apenas nessa especulação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Novamente citando O’Sullivan (2016):</p>



<p class="wp-block-paragraph">A maioria de nós tem consciência de que o estresse aumenta a pressão arterial e nos torna mais vulneráveis a úlceras estomacais. No entanto, quantos sabem da frequência com que nossas emoções podem produzir deficiência grave onde não existe nenhum tipo de doença física? Os transtornos psicossomáticos são sintomas físicos que mascaram o sofrimento emocional. A própria natureza da apresentação física dos sintomas esconde o sofrimento na sua raiz; logo, é natural que os afetados pensem automaticamente em uma doença clínica para explicar seu sofrimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Faço esse paralelo entre a hipocondria e a somatização, mas são questões diferentes. O hipocondríaco não apresenta danos, lesões ou algo orgânico que justifique suas suspeitas, apenas sente que seu corpo está sob uma forte ameaça, necessitando de atenção e cuidado constante, sente que há algo de errado, mas não sabe o que é.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O hipocondríaco olha seu corpo sob uma lente da perfeição, ou seja, qualquer desconforto, por menor que seja, pode ser uma falha mortal. O hipocondríaco está sob a influência de um complexo. Um complexo ativo nos coloca por algum tempo num estado de não-liberdade, de pensamentos obsessivos e ações compulsivas [&#8230;]os complexos não são totalmente de natureza mórbida, mas manifestações vitais próprias da psique, seja esta diferenciada ou primitiva (JUNG, 2002).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O complexo no hipocondríaco não permite que ele veja seu sofrimento mental. Podem ser vários: depressão, ansiedade, pânico entre outros. O corpo então convida ao cuidado consigo mesmo, chamando essa mãe para gestar um ego mais adulto. Na consciência o hipocondríaco aparece como alguém preocupado com a saúde, prevenido e sempre alerta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vale lembrar que a “hipocondria” em níveis saudáveis é até bem-vinda. Ela nos orienta para que prestemos atenção em nosso corpo, em nós mesmos caso haja algo errado e, aí sim, buscar uma ajuda médica. Esse movimento de autocuidado, quando extremado, leva ao sofrimento pelo transtorno de ansiedade por doença. Um medo de enfiar o pé na lama do mundo, de ralar o joelho, ou ainda, ver isso como um grande risco à vida. É na intensidade do distúrbio emocional que consiste o valor, isto é, a energia que o paciente deveria ter a seu dispor, para sanar o seu estado de adaptação reduzida. Nada conseguimos, reprimindo este estado de depressão ou depreciando-o racionalmente (JUNG, 2002).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem está na sombra do hipocondríaco? Alguém que não se preocupa com a saúde, um descuidado capaz de deixar passar uma doença grave, uma pessoa que não se responsabiliza pelo seu corpo, um para-suicida. Uma pessoa que precisa de muito cuidado, mas não consegue pedir isso de maneira assertiva, ou ainda, não se sente capaz de cuidar de si, precisa da atenção de alguém, uma mãe arquetípica projetada nos profissionais de saúde, mas que precisa ser encontrado dentro de si. Ninguém sabe melhor do que o psicoterapeuta que a mitologização dos pais se prolonga muito tempo através da idade adulta, e só é abandonada após uma grande resistência (JUNG, 2000).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A criança divina que se choca com sua mortalidade, o sofrer existencial se torna algo de errado. “Tem algo de errado pelo fato de eu estar sentindo isso&#8230;” E então vem para esse ego a ameaça da morte, aciona-se assim esse complexo, que eu chamaria inicialmente de materno, despertando a busca pelo cuidado, porém olhando somente para o físico, levando o hipocondríaco a buscar os médicos enquanto poderia se beneficiar apenas de uma busca ao psiquiatra ou à terapia. A libido regride ao estado infantil e busca uma mãe externa. Talvez inconscientemente a sensação de desamparo, que causa angústia e sofrimento mentais, se manifestem na hipervigilância e não no sintoma e esse ego sai em busca de alguém que diga que tudo vai ficar bem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mal sabe o hipocondríaco que precisa encontrar isso em si mesmo, quando a libido se move e ele percebe que a mãe que busca nos médicos na verdade é a mãe simbólica, que permitirá que, com essa dor, renasça uma nova pessoa. O transtorno de ansiedade por doença pode ser um chamado à transformação simbólica, um chamado ao encontro dessa mãe e dessa mortalidade, da queda do herói à condição de guerreiro. Precisa também buscar em si o pai, que o ensina a enfrentar o mundo, suportar a dor e ver o sofrimento, psíquico e físico, como partes da vida e do viver, e não simplesmente como ameaça.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na hipocondria o ego vê a dor de viver como uma ameaça à própria vida. Há uma unilateralidade a respeito da vida como evitação da morte. Viver então passa a ser um evitar, prevenir e cuidar. Não há entrega à morte e dessa forma deixa-se de viver. Novamente, temos sim que nos atentar aos sinais, sintomas e chamados do nosso corpo, no entanto, quando estamos o tempo todo vigilantes, vendo a doença como uma falha, estaremos sempre negando os convites da vida real em busca da perfeição. Viver dói.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mauro Angelo Soave Junior – Membro analista em formação</p>



<p class="wp-block-paragraph">E. Simone Magaldi – Analista didata</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Transtorno de ansiedade por doença, a busca por cuidado como caminho para o amadurecimento" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/wGDi68Lm0zg?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Referências bibliográficas</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo – Petrópolis, RJ : Vozes, 2000.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. A Natureza da Psique /- Petrópolis, RJ : Vozes, 1985.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O’SULLIVAN, Suzanne. Isso é coisa da sua cabeça: histórias verdadeiras sobre doenças imaginárias. 1. Ed. – Rio de Janeiro : Best Seller, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WIKIPEDIA: Hipocondria, disponível em:&nbsp;&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Hipocondria#:~:text=A%20hipocondria%2C%20do%20grego%20hypo,padece%20de%20uma%20doen%C3%A7a%20grave">https://pt.wikipedia.org/wiki/Hipocondria#:~:text=A%20hipocondria%2C%20do%20grego%20hypo,padece%20de%20uma%20doen%C3%A7a%20grave</a>, acesso em novembro de 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Transtorno de Ansiedade por Doença por Joel E. Dimsdale , MD, University of California, San Diego Manual MSD, Versão Saúde para Família, disponível em&nbsp;<a href="https://www.msdmanuals.com/pt-br/casa/dist%C3%BArbios-de-sa%C3%BAde-mental/transtornos-de-sintomas-som%C3%A1ticos-e-transtornos-relacionados/transtorno-de-ansiedade-por-doen%C3%A7a?query=Transtorno%20de%20ansiedade%20de%20doen%C3%A7a">https://www.msdmanuals.com/pt-br/casa/dist%C3%Barbios-de-as%C3%Bade-mental/transtornos-de-sintomas-som%C3%A1ticos-e-transtornos-relacionados/transtorno-de-ansiedade-por-doen%C3%A7a?query=Transtorno%20de%20ansiedade%20de%20doen%C3%A7a</a>&nbsp;, acesso em novembro de 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">DIB, M., VALENÇA, A. M, NARDI, A. E.&nbsp;Transtorno de pânico e hipocondria. Relato de caso. J. bras. Psiquiatr. 55 (1). 2006.&nbsp;&nbsp;Disponível em&nbsp;<a href="https://doi/">https://doi</a>.org/10.1590/S0047-20852006000100013 , acesso em novembro de 2022.</p>
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		<title>Endometriose, um feminino em conflito</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/endometriose-um-feminino-em-conflito/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Michella Paula Cechinel Reis]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 16 Nov 2022 12:54:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diagnóstico Psicológico]]></category>
		<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicopatologia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[psicossomática]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">O feminino está profundamente atrelado ao ciclo corporal que permite a geração da vida. Hoje consigo relacionar melhor as fases que o corpo de uma mulher passa com o conto da mulher esqueleto, que menciona que somos vida-morte-vida. Durante sua fase reprodutiva, as mulheres passam por esse ciclo de forma incessante, com uma cadeia de hormônios estimulando a ovulação, aumentando o endométrio para receber o possível concepto, e quando chega ao pico máximo hormonal, tudo desaba, levando à descamação uterina e à menstruação. E o ciclo se inicia novamente, entrelaçando vida e morte no seu caminho.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O sangue jorra das mulheres todos os meses, e desde os tempos remotos, era considerado tabu ou período em que a mulher está impura. Muitas mulheres relatam que o menstruar é um grande alívio de toda essa pressão interna demandando a vida. E após a eliminação de todo esse processo preparatório, um novo ciclo recomeça, abrindo a possibilidade para que uma nova vida seja gerada.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A endometriose é uma doença crônica, inflamatória, com a implantação de tecido endometrial na cavidade abdominal ou em outros locais, de forma mais rara, como cérebro, membros superiores/inferiores. Dados mostram que 6 a 10% das mulheres são portadoras de endometriose no mundo (NACUL &amp; SPRITZER, 2010). É um extravasamento ou explosão de tecido uterino para fora dele, gritando para ser visto, mesmo que seja pela dor. Ou seja, a mulher portadora de endometriose faz o ciclo reprodutivo no útero e fora dele, um sangramento dentro do corpo, símbolo de uma ferida maior, que não pode ser vista. Uma ferida de alma.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entre os sintomas da endometriose está o fluxo menstrual intenso, cólicas, dor e inflamação uterina e abdominal. Representa um feminino que sofre com algo que deveria ser mais natural e cíclico.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pensando em símbolos do feminino relacionado ao sangue, o dragão é um ser mítico, devorador, cospe fogo, adora acumular riquezas para seu prazer, um animal vaidoso e muito orgulhoso. Nas lendas e contos, o sangue do dragão possui poderes mágicos, capaz de restaurar a vida, ou seja, relaciona-se à fertilidade. Como qualquer arquétipo, o arquétipo do feminino está repleto de dualidades. A questão é: as mulheres com o feminino ferido são capazes de lidar com isso? Ou estão tão unilateralizadas num processo de negação ou conflito com esse feminino?&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O corpo não é o veículo que leva a minha cabeça até o carro, mas matéria-prima através da qual ele pode vir a conhecer e valorizar suas próprias e profundas emoções, intuições e sabedoria instintiva (Qualls-Corbett, 1990). Jung corrobora essa ideia integrativa entre corpo e psique, base para a psicossomática, que estuda exatamente essa relação entre a mente e o corpo, numa visão mais holística do ser humano.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung (2014) nos fala sobre os complexos, especialmente, o complexo materno negativo, que pode ser relacionado à negação da mãe, uma oposição seja pela intelectualidade, racionalidade, opiniões, trabalho, ou negando tudo que aquela mãe representa, incluindo o corpo e o feminino. Não obstante, o que negamos é o que nos mobiliza, pois temos aí afetos que nos dominam e nos possuem. Relacionando aos casos de endometriose, esse útero que se expande além de suas fronteiras, mostra que, ao negar o feminino e não elaborar as questões ou afetos relacionados, ocorre exatamente o movimento oposto. O complexo toma essa mulher de assalto em sua forma de se relacionar com o mundo interno e externo, inclusive com seu corpo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">É muito comum observarmos mulheres com endometriose com um animus acentuado, mais agressivas, muitas vezes ocupando cargos de liderança ou mais masculinos, que exigem um nível maior de racionalidade. Harding (1985) menciona que na atualidade exige-se da mulher uma postura mais masculina, principalmente no mundo dos negócios, afetando não somente a vida profissional, mas a personalidade, causando mudanças profundas na relação consigo mesma e com os outros.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A possessão de uma mulher pelo seu animus produz resultados funestos, segundo Emma Jung (2020), pois quando o feminino é forçado pelo animus a ficar nas sombras, surgem facilmente depressões, insatisfação geral, perda da sensação de vida, pois metade de sua personalidade está em dissonância. Os sintomas da endometriose não ficam restritos ao corpo físico. Em geral, as mulheres portadoras dessa doença são acometidas pelo quadro relatado por Emma.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse extravasamento uterino está clamando por atenção e cuidado. Se a mãe biológica não exerceu boa influência ou exemplo de feminino, a tarefa analítica será fortalecer a auto-maternagem, o cuidado com o corpo, e o encontro da feminilidade, auxiliando a reduzir a toxicidade, seja física ou psíquica.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muitas mulheres com endometriose, ao contrário, relatam não ter problemas com o materno, e que o complexo que atua negativamente é o paterno. Pais abusivos, alcoólatras, agressivos, ausentes ou mesmo superprotetores podem influenciar a constelação desse complexo paterno desfavorável. Pais que não cumprem com sua missão de auxiliar a filha a ir para o mundo, a ter segurança para enfrentar os desafios da vida, a dar senso de justiça e responsabilidade, também podem afetar a cosmovisão dessas mulheres e sua relação com si mesma e com seu corpo. Afinal, o primeiro modelo masculino para uma mulher é seu pai.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Neumann (2006, pág. 189), o ventre é a sede do inconsciente, dos afetos, que sobem de lá de baixo e obscurecem ou excluem a cabeça. Isso significa que se os elementos criativos do inconsciente, os quais empenham-se rumo à luz, não estabelecerem seu próprio reino luminoso do espírito e da consciência, eles continuarão a ser porções dependentes do inconsciente e nele permanecerão. Ou seja, a falta de consciência do complexo atuante, leva essa mulher a ser tomada pelo inconsciente, e com o tempo, o corpo também pode apresentar sintomas.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um dos sintomas mais frequentes e significativo para as mulheres com essa condição é a dor. A endometriose é uma das principais causas de hospitalização de mulheres em países industrializados. No Brasil, tivemos 71.818 internações por endometriose no período de 2009 a 2013. Todavia, não é somente sua epidemiologia que a torna impactante, mas seu caráter progressivo, que pode levar a tratamentos cirúrgicos (perda do útero, tubas, ovários, intestino etc.). Dependendo do local e da gravidade da doença, essa dor pode chegar a ser incapacitante (SÃO BENTO &amp; MOREIRA, 2018).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A dor sentida por essas mulheres, seja física ou na alma, é muitas vezes tratada com negligência, sendo comum ser visto como frescura. O manejo da dor física muitas vezes leva a utilização de muitas medicações anti-inflamatórias, anestésicas e inibidoras da menstruação. Quem não ouviu falar dos Dispositivos Intrauterinos usados atualmente para inibir a menstruação, muito utilizados nos casos sintomáticos de endometriose? São mulheres que sofrem muitas intervenções médicas na tentativa de inibição ou suspensão do problema. Contudo, poucos são os médicos que percebem a necessidade de um acompanhamento psicoterápico, e que as questões ali postas por essas mulheres vão além do corpo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro sintoma importante é a possibilidade de infertilidade decorrente da endometriose. Não se esperaria menos de um feminino tão combatente. O útero, em geral, fica inflamado e reativo à possibilidade de implantação de um concepto, negando a vida, com foco na dor e no sangramento. A infertilidade joga a mulher num conto bem conhecido, nesse caso, da patinha feia. A mulher infértil se torna aquela que é desajeitada, desajustada diante das outras, com sentimentos e criatividade congelados. Mas no fim da jornada, a patinha pode se encontrar, aprendendo a se amar, se conectando a sua beleza interior e irradiando luz.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estés (2014, pág. 244) se refere ao corpo como um planeta, uma terra por si só. E como qualquer paisagem, ele pode ser retalhado em lotes, esgotado e alijado de seu poder. Os quadris de uma mulher são estabilizadores para o corpo acima e abaixo dele, são portais, lugar para as crianças se esconderem. Mulheres portadoras de endometriose precisam ser lembradas de que o corpo sente, que precisa de um vínculo adequado com o prazer, com o coração e com a alma. Esse corpo tem alegria? Ele dança, ginga, rebola, se movimenta?&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tudo o que o feminino representa já foi considerado fraqueza pelos homens, influenciando a relação das mulheres com elas mesmas. Por que será que o feminino assusta tanto? Ele nos convida a mergulhar em águas profundas, a nos conectarmos com o mundo além das aparências, a termos sensibilidade diante das emoções, a sermos criativos e capazes de nos adaptar e mudar quando necessário. É esse convite que faço as mulheres de forma geral e para aquelas portadoras de endometriose: deixem fluir e não se aprisionem mais. Sejam calor e frio ao mesmo tempo, alegrias e lágrimas, e, acima de tudo, permitam-se amar a si mesmas e ao mundo. Essa conexão é que nos torna belas e verdadeiras.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Elaborado por:&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Michella Paula Cechinel Reis – membro analista em formação e Ercília Simone Magaldi, membro analista didata&nbsp;</p>



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</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Referências:&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">ESTÉS, C.P. Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. 1 ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 11 ed. Petrópolis/RJ: Vozes, 2014.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, E. Animus e anima: uma introdução à psicologia analítica sobre os arquétipos do masculino e feminino inconscientes. 2 ed. São Paulo: Ed. Pensamento e Cultrix, 2020.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">HARDING, M.E. Os mistérios da mulher antiga e contemporânea: uma interpretação psicológica do princípio feminino, tal como é retratado nos mitos, nas histórias e nos sonhos. São Paulo: Ed. Paulinas, 1985.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">NACUL, A.P.; SPRITZER, P.M. Aspectos atuais do diagnóstico e tratamento da endometriose. Disponível em:&nbsp;<a href="https://www.scielo.br/j/rbgo/a/8CN65yYx6sNVhjTbNQMrB5K/?lang=pt">https://www.scielo.br/j/rbgo/a/8CN65yYx6sNVhjTbNQMrB5K/?lang=pt</a>). Acessado em: 07/11/2022.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">NEUMANN, E. A grande mãe: um estudo fenomenológico da constituição feminina do inconsciente. 5 ed. São Paulo: Cultrix, 2006.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">QUALLS-CORBETT, N. A prostituta sagrada: a face eterna do feminino. São Paulo: Paulus, 1990.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">SÃO BENTO, P.A.S.; MOREIRA, M.C.N. Quando os olhos não veem o que as mulheres sentem: a dor nas narrativas de mulheres com endometriose. Disponível em:&nbsp;<a href="https://doi.org/10.1590/S0103-73312018280309">https://doi.org/10.1590/S0103-73312018280309</a>. Acessado em: 07/11/2022.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Resenha: O presente artigo fala sobre um feminino que se expande para além de suas fronteiras, gerando dor, infertilidade, angústias e sentimento de desconexão. A endometriose acomete de 6 a 10% das mulheres em todo o mundo e merece ser olhada para além do corpo, uma ferida do feminino, uma ferida de alma.&nbsp;</p>
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		<title>Psicossomática e a dinâmica do adoecer – Afetos, emoções e complexos</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/psicossomatica-e-a-dinamica-do-adoecer-afetos-emocoes-e-complexos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 Jul 2022 19:32:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicopatologia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[Dinâmica do adoecer]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[psicossomática]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=5482</guid>

					<description><![CDATA[<p>A Psicossomática de espectro junguiano, nos permite afirmar que todos os sintomas de adoecimento possuem etiologia ideogênica, e que eles podem ser expressos no corpo, na mente ou nos relacionamentos. </p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">A <a href="https://www.ijep.com.br/cursos/show/psicologia-junguiana" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Psicologia Analítica</a> nos ensina que o inconsciente coletivo contém toda a herança espiritual da evolução da humanidade, e não podemos separar o corpo da alma, porque psique e a matéria são fenômenos interrelacionados e não reduzíveis um ao outro. Assim como o instrumento musical não faz a música, a matéria cerebral não faz a psique, e a resultante desta união é a consciência e sua melhor produção, capaz de integrar e transcender a dicotomia matéria e espírito, são os símbolos, elementos fundantes na construção evolutiva do ser humano, registrados na cultura. Por isso, <strong>Psicossomática</strong> não pode ser apenas um adjetivo para designar alguns tipos de sintomas, mas realidade substantiva da existência humana.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A <strong>Psicossomática</strong> de espectro <strong>junguiano</strong>, nos permite afirmar que todos os sintomas de adoecimento possuem etiologia ideogênica, psicoafetiva, e que eles podem ser expressos no corpo, na mente ou nos relacionamentos. As ideias estão na base das representações mentais, transitando e incluindo tanto as dimensões concretas e materiais quanto as abstratas e quiméricas, incluindo o universo imaginal. Iludidamente, acreditamos que temos ideias, mas são elas que nos têm e, na maior parte das vezes, são produções inconscientes, atreladas a complexos e arquétipos. Elas interpenetram todas nossas instâncias, consciente ou inconscientemente, afetando e desencadeando emoções que, por sua vez, produzem mais afetos, podendo eclodir na forma de um núcleo ideoafetivo vicioso. Quanto mais intenso o afeto, maior a emoção desencadeada e, consequentemente, mais afetação que, por sua vez, desencadeia mais emoções. Por isso, muitas vezes, na obra junguiana, afetos e emoções podem virar sinônimos, que interferem no complexo do Ego.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando essa situação viciosa acontece, junguianamente, dizemos que constelou um complexo e, neste caso, tanto as funções da consciência, com suas propriedades de julgar, diferenciar e discernir por meio do pensamento, sentimento, sensações e intuições, quanto a estrutura neurocerebral, que regula nossa homeostase corporal e as propriocepções, ficam alteradas, podendo produzir delusões. Se o afeto ativar um núcleo ideoafetivo significativo, a energia psíquica flui para ele, o complexo do ego perde espaço para o complexo ativado, que pode funcionar como uma personalidade autônoma, aflorando imagens arquetípicas e ideias carregadas de emoção da sua rede associativa do complexo, retroalimentando, tautologicamente, a circularidade entre emoções e afetos.Sinteticamente, o&nbsp;complexo é uma espécie de afeto associado a imagens que personificam temáticas universais, alimentadas e ampliadas pelas experiencias pessoais. Quando ativado é capaz de desencadear alterações físicas, bioquímicas, hormonais e mentais, desencadeando emoções produtoras de mais afetos, retroalimentando o complexo ao atrair mais energia psíquica para ele, que tem em seu núcleo os arquétipos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando um profissional de saúde pretende diagnosticar um sintoma, levando em consideração que diagnose significa atravessar para conhecer e depois discernir, é necessário, além da anamnese, que é o resgate da memória afetiva emocional e biopatológica do doente, visitar todos seus lados, com profundidade, levando em consideração suas idiossincrasias e particularidades, perante toda diversidade e pluralidade existencial, diferenciando-o do genérico, inclusive das famigeradas tabelas de padrões e normas estatísticas e do reducionismo causal baseado em evidências do nefasto positivismo que contaminou seguimentos da ciência. Desta forma, é um ato de violência para a integridade do ser essa medicina que examina o sintoma separado do todo, como se fosse possível fazer um campo cirúrgico que isole a Alma, as angústias, os ressentimentos, as mágoas, os medos, as ansiedades, os traumas, as culpas, e todos os conflitos neuróticos advindos dos embates entre o ego e a sombra, a persona e seus contrapontos sexuais – anima/us, e as infindáveis demandas adaptativas e teleológicas que nos atravessam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A vida não é um problema, mas um mistério! Os problemas surgem para que possamos evoluir, com a ampliação da consciência e aquisição do autoconhecimento, quando conseguimos decifrar os enigmas de forma simbólica imaginal, evitando dividir o incognoscível, para não ficarmos diabolizados ao ficarmos cindidos e divididos, como aconteceu com Édipo, ao solucionar literalmente o problema proposto pela Esfinge. Isso vale quando somos visitados pelas doenças que servem para que possamos encontrar nosso curador interno, em busca da integração da doença com a saúde e não sua eliminação. Porém, esse processo de cura só vai acontecer quando houver prontidão e essa ninguém sabe quando vai acontecer. Compreendendo que&nbsp;<strong>Cura</strong>, do grego επούλωση, quer dizer&nbsp;cicatrização, fechamento da ferida, do latim cūra significa primor cuidado, diligência, vigilância para preservar a integridade, a inteireza. Na química se refere ao processo de endurecimento de material&nbsp;até alcançar consistência. Por isso, estar curado significa estar integro e consistente.&nbsp;Como afirma Jung:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“&#8230; O segredo do mistério criador, assim como o do livre-arbítrio, é um problema transcendente e não compete à psicologia respondê-lo. Ela pode apenas descrevê-lo. Do mesmo modo, o homem criador também constitui um enigma, cuja solução pode ser proposta de várias maneiras, mas sempre em vão</em>” [CW 15 §155].</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao encararmos os sintomas, sejam eles quais forem, como expressões simbólicas, evitamos o padrão esteriotipante e patologizante que objetiva, com suas tabelas de classificação das doenças, estabelecer procedimentos invasivos, por serem de fora para dentro, com suas prescrições quimiátricas e ou cirúrgicas, sem levar em consideração a dimensão a anímica e espiritual do doente, por não aceitarem a Psique com a mesma ou até maior importância do que o corpo. Jung, nesta carta de reposta a um interlocutor nos dá uma boa justificativa para a resistência de tantos profissionais de saúde não conseguirem aceitar a&nbsp;<strong>Psicossomática</strong>&nbsp;como fator determinante para o sucesso da cura ou do fracasso terapêutico:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Não tenho a mínima ideia do que seja “psique” em si; quando quero refletir e falar sobre ela, devo falar de minhas abstrações, conceitos, pontos de vista e imagens, sabendo perfeitamente que se trata de nossas ilusões específicas. É isso que eu chamo de “<em>non-concretisation</em>” [&#8230;] A ciência é a arte de criar ilusões adequadas que o louco aceita ou recusa; mas o sábio alegra-se com sua beleza ou com sua riqueza ou com sua riqueza de sentido, sem estar cego para o fato de que são véus e cortinas que escondem a escuridão abissal do desconhecido. [&#8230;] Coisas reais são efeitos de algo desconhecido. O mesmo vale para anima, ego, etc. Além do mais não existem coisas reais que não sejam relativamente reais. Não temos ideia da realidade absoluta, pois “realidade” é sempre algo “observado.” &nbsp;[Cartas Vol. I pg. 73]</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não existem doenças, mas pessoas doentes com seus conteúdos e aspectos de mais característicos de sua personalidade, e as formulações teóricas apenas podem considerar traços coletivos, mais comuns a muitos indivíduos. Porém, isso é o menos importante na doença, por negar o indivíduo, suas peculiaridades e seus valores. Da mesma forma, Jung nos ensina que:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“[&#8230;]toda tese psicológica ou toda a verdade referente à psique deve ser imediatamente invertida a fim de que possa ser formulada de acordo com a verdade. Por exemplo: alguém é neurótico porque reprime ou porque não reprime; porque tem a mente repleta de fantasias sexuais infantis ou porque não tem nada disso; porque apresenta inadaptação infantil ao ambiente ou há exagero de adaptação (isto é, exclusivamente) ao ambiente; porque vive segundo o princípio do prazer ou porque não o segue; porque é exageradamente inconsciente ou porque é excessivamente consciente; porque é egocêntrico ou porque age muito pouco em função de si próprio etc. Essas antinomias, que podemos aumentar à vontade, mostram claramente como a teorização, neste campo, é tarefa difícil e ingrata. [CW17 §203].</p>



<p class="wp-block-paragraph">Todos os sintomas são produtos do inconsciente e fazem parte deles até as opiniões e convicções defendidas pelo doente, principalmente quando estas colidem com seu Ethos. Para o compreendermos é necessário que o profissional de saúde estimule que o doente questione os porquês e, principalmente, os para quês eles se fazem presentes na sua vida, contextualizando, escutando seus sonhos e fantasias, identificando os complexos dominantes e a história do doente, incluindo sua transgeracionalidade, com as reinvindicações ancestrais.  Com relação aos sintomas de adoecimento das crianças, devemos fazer uma profunda anamnese em seus pais e cuidadores, porque, na maior parte das vezes, a neurose está neles e as crianças funcionam apenas como uma espécie de antena parabólica que capta e recebe a dinâmica psíquica e todos os conflitos deles. Por isso, para que a criança seja saudável e feliz ela precisa estar num ambiente igualmente saudável e feliz, conforme cita Jung;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A criança tem uma psicologia singular. Assim como o seu corpo, durante a vida embrionária, é uma parte do corpo materno, também sua mente, por muitos anos, constitui parte da atmosfera psíquica dos pais. Este fato esclarece de pronto por que muitas das neuroses infantis são muito mais sintomas das condições psíquicas reinantes entre os pais do que propriamente doença genuína da criança. Apenas em parte a criança tem psicologia própria; em relação à maior parte ainda depende da vida psíquica dos pais. Tal dependência é normal, e perturbá-la se torna prejudicial ao crescimento natural da mente infantil” [CW 17 §143].</p>



<h3 class="wp-block-heading">Psicossomática  afirma que todos sintomas de adoecimento possuem etiologia psicoafetiva, expressos no corpo, na mente ou nos relacionamentos</h3>



<p class="wp-block-paragraph">Os sintomas, assim como os sonhos, os fenômenos de sincronicidade e as produções criativas, têm função compensatória. Eles podem ser indicativos de que o indivíduo não está em sintonia com o Self, por ter desviado de seu caminho natural, tornando-se vítima de suas próprias ambições ou de seus propósitos ridículos, por não estar contemplando o sentido e o significado da sua vida. Caso não seja dada importância a esses avisos, a fenda, entre o eu e o inconsciente, irá ficando cada vez mais larga e ele nela cairá, indo até o fundo do poço.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Acredito que a maioria dos profissionais de saúde desvalorizam essas afirmações, por medo de terem que encarar sua Psique. A consequência disso é que eles perderem suas almas. Deve ser por isso que, nestas profissões estão os maiores índices de suicídio, comportamentos de risco, uso abusivo de substâncias psicoativas, lícitas ou ilícitas, e muitos transtornos psiquiátricos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“[&#8230;] tudo o que a psicoterapia tem em comum com a sintomatologia clinicamente detectável, isto é, com as constatações da medicina, sem ser irrelevante, é apenas secundário, na medida em que o quadro clínico da doença é um quadro provisório. O que é verdadeiro e essencial, no entanto, é o quadro psicológico, que só pode ser descoberto no decorrer do tratamento, por trás do véu dos sintomas patológicos. As ideias tiradas da esfera da medicina não bastam para aproximar-nos da essência das coisas psíquicas. Mas, apesar de que a psicoterapia – como parte da arte de curar, e por diversas razões de peso – nunca deveria escapar das mãos do médico, e, por isso mesmo, deveria ser ensinada nas Faculdades de Medicina, ela é obrigada a buscar subsídios importantes nas outras áreas da ciência. Aliás, isso já foi feito por outras disciplinas, dentro da medicina, há muito tempo. Mas, ao passo que a medicina geral pode restringir-se aos subsídios fornecidos pelas ciências naturais, a psicoterapia precisa também da ajuda das ciências humanas.” [CW 16/1 §210]</p>



<p class="wp-block-paragraph">No parágrafo acima Jung faz crítica a essa medicina reducionista e positivista, baseada em evidências, ao afirmar que o reconhecimento da alma humana jamais deveria ter deixado de ser ensinado nas faculdades de medicina, porque os sintomas são transitórios, mas a essência do doente não é. Da mesma forma, o conhecimento da&nbsp;<strong>Psicossomática</strong>, como realidade universal presente na existência humana, também deveria ser obrigatório na grade curricular. Para que os médicos, apesar das suas necessárias especializações, poderiam compreender a outra alma humana que está na sua frente pedindo ajuda, assim como poderia interagir, numa parceria proativa, virtuosos e complementar, com os analistas, ao reconhecerem que os sintomas são janelas de oportunidade para o autoconhecimento e para a cura, compreendendo-os também na sua dimensão metafórica, simbólica e pedagógica evolutiva, por terem, simultaneamente, causas, sentidos e significados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No que tange a responsabilidade do analista junguiano, diante de um sintoma de adoecimento, ele precisa estimular a pessoa, que está com sintomas de adoecimento físico, a procurar profissionais da saúde, inclusive especialistas, mas somente aqueles que &nbsp;ainda estão humanizados, que reconhecem que a força resultante da integração das dimensões biológica, psicológica, familiar, social, laboral, amorosa e espiritual contribuíram para a eclosão da doença. Aquele que vê apenas o sintoma, sem a compreensão&nbsp;<strong>Psicossomática</strong>, ávido por diagnóstico e imediata supressão da queixa, desprezando o ser integral, com seus complexos, os aspectos criativos, poéticos e sombrios, nem deveria ser chamado de profissional de saúde, porque vive apenas em função da doença! Aliás, esse tipo de &#8220;profissional&#8221; brevemente será substituído por robôs de inteligência artificial, que farão isso infinitamente melhor, por serem materialistas, binários, ordinários, objetivos, redutivos causais e estatísticos, por não terem alma, poesia e amor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">11/09/2020</p>



<p class="wp-block-paragraph">Paz e Bem, graças ao reconhecimento e aceitação consciente da Guerra e do Mal que habitam em nós!</p>



<p class="wp-block-paragraph">WALDEMAR MAGALDI FILHO. Psicólogo, especialista em Psicologia Junguiana, <strong>Psicossomática</strong>, Arteterapia e Homeopatia. Mestre e doutor em Ciências da Religião. Autor do livro: &#8220;Dinheiro, Saúde e Sagrado&#8221;, Ed. Eleva Cultural, coordenador dos cursos de especialização em Psicologia Junguiana,<a href="https://www.ijep.com.br/cursos/show/psicossomatica" target="_blank" rel="noreferrer noopener"> <strong>Psicossomática</strong></a>, Arteterapia e Expressões Criativas do IJEP &#8211; oferecidos em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.</p>



<h4 class="wp-block-heading" id="h-waldemar-magaldi-11-09-2020"><strong><em>Waldemar Magaldi &#8211; 11/09/2020</em></strong></h4>



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		<title>CORONAVÍRUS – REFLEXÕES PROVOCATIVAS E METAFÓRICAS</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/coronavirus-reflexoes-provocativas-e-metaforicas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 16 Jul 2022 23:00:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicopatologia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
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		<category><![CDATA[Covid-19]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nesta narrativa exponho temas contraditórios, ambíguos, efêmeros e incertos, e espero que o leitor não os receba como verdades absolutas. Minha intenção é refletirmos quanto que o bom humor e o amor são os melhores instrumentos para que o sistema imunológico fique saudável e eficiente contra os vírus reais, ou ideológicos e políticos, enquanto o medo, a raiva e o egoísmo são destrutivos. </p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Este texto, assim como as demais produções que faço, tem a intenção de socializar intuições, sentimentos, pensamentos e sensações que afloram na minha consciência, à medida que vou sendo afetado pela pluralidade e multiplicidade de estímulos internos e externos, associados aos meus estudos e experiencia clínica e da vida. Nessa dinâmica, algumas ideias que saem deste vaso alquímico me atravessam, e sei que elas não são exclusivamente minhas, porque nada pode ser só nosso. Na condição de analista junguiano, continuamente promovo o confronto antinômico, que equivale ao reconhecimento da polaridade e do contra ponto opositivo daquilo que imaginamos ser a realidade. Atuo continuamente alinhado com a lei dos opostos e valendo-me da ampliação analítica, metafórica e simbólica. Esse método, dialético e hermenêutico, visa estimular a crítica reflexiva e a ampliação da consciência, para que as pessoas possam se libertar das fixações nas imagos parentais, que são as influências trasngeracionais, e adquiram autonomia intelectual, espiritual, econômica, social, familiar, amorosa e profissional.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A meta é diminuir a autonomia da neurose e dos complexos, por meio do confronto do eu com o inconsciente, para que nenhuma forma de partidarismo cego, unilateralidades fundamentalistas, conservadorismos retrógrados e nefastos, egoísmo, medos, ressentimentos, raiva, ódio, fanatismos e obsessão pelo poder, permaneçam dominando o indivíduo, devido sua ignorância ou, caso ele saiba que existe nele o mundo sombrio e os complexos, hipocrisia. Desta forma, os artigos postados no site do IJEP não podem ser compreendidos de forma literal. Quem faz isso, principalmente quando se autoproclama analista junguiano, está sendo leviano e mal-intencionado. Porque, deveria saber que nosso objetivo, assim como foi o do Jung, é possibilitar narrativas analíticas, ampliando simbolicamente os temas, para que possam surgir insights e, consequentemente, a energia psíquica que estava represada possa voltar a fluir para a totalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesta narrativa exponho temas contraditórios, ambíguos, efêmeros e incertos, e espero que o leitor não os receba como verdades absolutas. Minha intenção é refletirmos quanto que o bom humor e o amor são os melhores instrumentos para que o sistema imunológico fique saudável e eficiente contra os vírus reais, ou ideológicos e políticos, enquanto o medo, a raiva e o egoísmo são destrutivos. Também pretendo analisar, simbólica e metaforicamente, os possíveis benefícios evolutivos desta pandemia, que está fazendo com que as pessoas se distanciem corporalmente, mas se aproximem animicamente. Mas, para isso, precisam superar os mecanismos de defesa que produzem padrões reativos, muito bem descritos por Klüber-Ross, que percorrem atitudes de negação, revolta, barganha e depressão, até que um salto de consciência possa proporcionar a aceitação, para que aconteça a superação da crise.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em contato com infectologistas e cientistas políticos ficou evidente que estamos vivenciando tempos sombrios, e o maior responsável, aparentemente, é a virulência de coisas ínfimas, desprezíveis e até insignificantes, que vão penetrando sorrateiramente nos corações, mentes e corpos, com forte potencial de contágio e capazes de produzirem estragos irreparáveis. Tanto as ideias unilaterais e absolutistas quanto os vírus agem de forma igual. No primeiro momento parecem insignificantes, até acreditamos que não passam de arroubos emocionais, de um indivíduo autêntico e transparente com suas emoções, ou que é uma simples gripezinha. Em ambos os casos, dos vírus psíquicos ou proteicos, os mecanismos de negação possibilitam acreditarmos que, se complicar, tomamos atitudes legais para afastarmos o mal, ou usaremos remédios e exterminamos o inimigo biológico. Só que isso não funcionou nem com a febre espanhola, que começou no USA e matou 100 milhões de pessoas há cem anos, e nem com o nazismo, que matou 85 milhões há 80 anos. Ambas “pestes” começaram devagar e sorrateiramente, invadindo corpos, mentes e corações, até tornaram-se tragédias de grandes proporções.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Recentemente li esta frase proferida pelo secretário de saúde dos USA, tentando sensibilizar políticos irresponsáveis para o risco do COVID-19: “Tudo o que dissermos antes de uma pandemia vai parecer alarmista. Tudo o que fizermos depois vai parecer insuficiente.” Essa afirmação exige reflexão, humildade e, acima de tudo, cooperação entre toda humanidade, com trocas de informações, tecnologias, solidariedade e desapego material. Pena que a afirmação de Hegel de que “a história nos ensina que a história não nos ensina nada” é verdadeira e, mais uma vez, estamos as voltas com lideranças que pensam exclusivamente no capital, tratando os seres humanos como bens de produção, potencializando as consequências nefastas deste contínuo abuso que gera desequilíbrio ambiental e social, possibilitando o surgimento e a proliferação exponencial desta peste que nos atinge agora e, apesar de alguns idiotas “pregarem” o contrário, exige que a humanidade fique reclusa e isolada em seus lares.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para que esta situação de isolamento seja superada sabemos que será necessário que mais de 70% da população seja contaminada, curada e, consequentemente, imunizada ao novo coronavírus. Isso se esse vírus não se comportar como a maioria dos nossos políticos, que sofrem mutações ideológicas e comportamentais. Óbvio que ninguém quer ser contaminado. Mas, se não for contaminado não adquirirá imunidade e ficará refém do vírus. Porém, como fomos “educados” para competir, ganhar, acumular, obter vantagens e benefícios, torcemos para que os outros sejam contaminados e, se tiverem sorte, curados, nos livrando desse mal. Também sabemos que essa contaminação, para não sobrecarregar o sistema saúde de alta complexidade, que no Brasil e em grande parte do mundo é insuficiente e incapaz de atender muitas pessoas simultaneamente, a contaminação com o COVID-19 precisa ser diluída nestes próximos 90 dias. Com isso, também fica meio que implícito que até meados de julho/20 ficaremos nesta operação de distanciamento social.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Parece que um possível ganho secundário desta crise é que estão surgindo atitudes de alteridade, do calor amoroso da aproximação das almas, apesar do afastamento dos corpos e, acima de tudo, para o resgate da capacidade do amor altruísta e a luta revolucionária, que começou com o advento de Jesus Cristo, para que todos os humanos, independente de credo, etnias, cor, gênero, orientação sexual ou condição sócio econômica, seja tratado amorosamente, com igualdade, liberdade e fraternidade, transcendendo as diferenças e servindo a alma. Isso é o que&nbsp;Carl&nbsp;Jung&nbsp;chama de estar consciente e atuante no processo de individuação. Mas, para que essa ampliação simbólica aconteça, as pessoas necessitam compreender que aprender palavras podem deixá-las possuídas por conceitos! Quanto menos profundidade e compreensão da complexidade dos fatos e da vida, mais defesa intelectual, conceitos e definições unilaterais. Infelizmente, essa atitude só serve para afastar as pessoas de si mesmas e, consequentemente, de suas almas, aprisionadas em suas personas conceituais, deixando-as dependentes das instituições produtoras dos conceitos e projetando seus aspectos sombrios num outro qualquer!</p>



<p class="wp-block-paragraph">A pandemia é global e não importa onde começou, porque sua capacidade de contágio e disseminação em todos os cantos do planeta servem para compreendermos que não existem muros para conter a força da natureza. Acredito que a direção retrógrada que algumas lideranças está tomando, segregando e instalando muros, apostando neste neoliberalismo que, sabidamente, produz mais sectarismos, exclusão, desigualdade, preconceitos, obsessão pela riqueza material, prazeres efêmeros, egoístas e individualistas, valorizando apenas a racionalidade apolínea, com o advento desta peste, vai ter de ser reconsiderada. Afinal das contas, essa é a função secundária das crises, possibilitar um salto evolutivo na humanidade. Por isso, o prefixo “cri” significa ruptura e mudança. Não é por acaso que está nas palavras Cristo, criança, criatividade e crime.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A humanidade experimentou inúmeras vezes, tanto individualmente quanto como coletividade, que a consciência individual significa separação e inimizade. No indivíduo, o tempo de dissociação é tempo de doença, o mesmo acontecendo na vida dos povos. Não podemos negar que a nossa época é um tempo de dissociação e doença. As condições políticas e sociais, a fragmentação religiosa e filosófica, a arte e psicologia modernas, tudo dá a entender a mesma coisa&#8230;A palavra crise também é expressão médica que sempre designa um clímax perigoso da doença&#8230;Com a tomada da consciência, o germe da doença da dissociação plantou-se no espírito da humanidade, sendo o maior bem e o maior mal ao nosso tempo.”&nbsp;&nbsp; JUNG, C. G.&nbsp;<em>Civilização em Transição</em>&nbsp;§ 290.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estudos da psicossomática, na abordagem da psicologia analítica, nos ensina que os sintomas, assim como os sonhos, os eventos de sincronicidade e as produções criativas são manifestações que possibilitam compensação da relação do eu com o inconsciente, ampliação da consciência, autoconhecimento, aprendizado e até antevisão do que está por vir. Por isso sempre afirmo que os sintomas são expressões simbólicas que, de forma violenta, violam e revelam os conflitos do amor próprio. Essas são as razões que nos faz ampliar simbolicamente o sintoma, questionando quando aconteceu, onde aconteceu, que órgão ou sistema está prejudicando, o que você passou a fazer e ou deixou de fazer depois do seu advento, entre outas perguntas que servem para ampliar a consciência e, quem sabe, permitir que a energia psíquica que estava represada volte a circular. Devemos fazer isso tanto com os sintomas individuais quanto com os coletivos, como as “pestes” biológicas ou psíquicas que humanidade vivenciou. Historicamente, sabemos que grandes crises coletivas produziram grandes evoluções. Nos últimos dois séculos tivemos, psiquiatricamente, a histeria que possibilitou o início da inclusão da mulher, a esquizofrenia a relatividade e a depressão o retorno do sagrado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Agora, no início da década de 2010, a primeira peste que começou assolar a humanidade é a do conservadorismo retrógrado e nefasto, disfarçada de neoliberalismo capitalista, gerando mais exclusão, desigualdade e desumanidade. Ela acometeu muitas pessoas por não possuírem imunidade para ilusão de poder, segurança e certeza absolutista do discurso unilateralista, nacionalista e materialista do fascismo. Óbvio que muitos simpatizantes deste sistema são oprimidos que, iludidamente, se sentem numa condição melhor na escala social e agora sonham em serem opressores, como nosso saudoso Paulo Freire ensinou, deixando evidente o surgimento dos capitães do mato, na época da escravidão e, infelizmente, alguns permanecem ativos e até galgam poder, sem terem consciência de que estão a serviço, única e exclusivamente, das minorias dominantes da “casa grande”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste momento, surge o segundo golpe na humanidade contemporânea, o Corona Vírus. Como tenho formação homeopática, acredito que o semelhante é que cura o semelhante e, quem sabe, com essa pandemia, a humanidade consiga restaurar sua imunologia emocional, abrindo mão da ilusão do poder, recuperando nosso bem maior que é o amor, único caminho para restaurar nosso sistema imunológico, para aprendermos a nos defender tanto dos fascistas quanto do COVID-19 e, obviamente, nos&nbsp;livrar da nossa&nbsp;&nbsp;virulência territorialista, sectária, excludente&nbsp;e gananciosa.&nbsp;Porque, nada acontece ao acaso, o Self tem primazia sobre o Ego e, óbvio que tudo ainda de forma incipiente e, infelizmente, unilateral e muitas vezes fanáticas, o benefício da crise ainda está inviabilizado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ampliando simbolicamente esta pandemia, temos algumas provocações importantes: Por que será que ela é mais fatal para 70% dos homens acima dos 60 anos e as crianças raramente complicam, mas são transmissores em potencial? Por que o vírus ataca, preponderantemente os pulmões e esses, psicossomaticamente, junto com a pele, são responsáveis pela manutenção da vida devido sua função de trocar: dar, receber, retribuir? Será&nbsp;que o medo ou a dificuldade de trocar, de forma harmoniosa e igualitária, está produzindo este sintoma? Por que será que o vírus tem uma camada de gordura e justamente isso é sua vulnerabilidade, destruindo-o com sabão, enquanto 30% da humanidade não tem nenhuma camada gorda para sua proteção, porque estão abaixo da linha de pobreza?&nbsp;Não é interessante que a forma deste vírus é esférica, como os corpos celestes, numa época retrógrada onde alguns até consideram a Terra ser plana? O nome dado ao vírus representa coroa, qual reino ele representa? Sua primeira manifestação foi na cidade que vai implantar primeiramente a tecnologia 5G, será que isso é puro acaso? Existe puro acaso? Por que estamos tendo que temer coisas ínfimas e toda tecnologia atômica de destruição em massa não serve para nada? Porque temos que, ritualisticamente, fazer contínuas ablusões, com a lavagem das mãos? O que temos que, alquimicamente, aprender com a solucio? Por que depois do confinamento, o número de pedido de divórcios na China surpreendeu e agora, no Brasil, durante a quarentena, a violência contra a mulher aumentou? Por que não ligamos para a praga de gafanhotos que está, neste momento, arrasando o continente africano e o novo corona vírus nos interessou muito antes de chegar aqui? Será que temos que voltar para a caverna e reaprender com Platão? Qual é a divindade, parafraseando Jung, que está por trás desta manifestação de Pã?</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Os deuses tornaram-se doenças. Não procuramos mais os Deuses no Olimpo, nem nos antigos cultos, templos ou estátuas do passado, nem mesmo em seus dramas e narrativas míticas. Em vez disso, os Deuses aparecem em nossas desordens, particulares é claro, mas também públicas.”&nbsp; JUNG, C.G. in HILLMAN, J. Cidade e Alma, pg. 66.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Parece que esta pandemia está possibilitando questionarmos o patriarcado que, infelizmente, estava retroagindo para os padrões das regras abraâmicas do antigo testamento. Precisamos repensar que mundo vamos deixar para nossas crianças, que viraram risco de vida para os homens que estão no poder. Acredito que também precisamos repensar as religiões e compreendermos que Deus está dentro de nós e não precisamos de nenhum intermediário para nos aproximar dele. Óbvio que a relação comunitária é importante, mas não da forma que alguns grupos religiosos estão atuando, totalmente voltados para a riqueza material e cobrança de serviços de despachante da relação do fiel com o sagrado. Precisamos deixar a ilusão de vencer o outro e acreditar que iremos vencer juntos, esse é um dos ganhos que essa crise pode estar dando.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As sete leis da tábua e esmeraldas, estão amplamente validadas neste cenário de crise! O Princípio de Mentalismo, da Correspondência, da Vibração, da Causa e Efeito, da Polaridade, do Ritmo e do Gênero para que aconteça a Transmutação Mental. O salto de consciência tão necessário para nos salvarmos do planeta e aprendermos amarmos uns aos outros. A crise é uma espécie de enantiodromia, onde o pêndulo está possibilitando refletirmos que de nada adianta o suntuoso e ostensivo arsenal bélico das grandes potencias, com suas ogivas nucleares, misseis, caças, submarinos e a infinidade de equipamentos, armas e investimentos que, com apenas 30% do montante gasto, resolveria o problema mundial da fome, da falta de saneamento, de educação e saúde, promovendo inclusão, igualdade, fraternidade e, consequentemente, liberdade. Essa mudança geopolítica exigiria, cada vez menos, armas de defesa territorial, e possibilitaria mais ciência cooperativa e global para nos proteger das coisas microscópicas e de nós mesmos!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Acredito que depois desta tempestade, vamos sair da forma que nos vemos, e que vemos o mundo, para vermos ambos de forma diferente &#8211; nós e o mundo, de modo mais plural e diverso, longe da normose do consumo, da competição e do egoísmo, repensando o patriarcado, para que o dinamismo da alteridade venha à tona. Porque, quando superarmos o dinamismo patriarcal, ingressaremos na prática da alteridade, onde a hierarquia será entrelaçada. Assim poderemos compreender que em todas as relações existirão assimetrias, porque, numa mesma relação, em determinados aspectos você pode ser superior e, em outros, inferior, independentemente de gênero. Bem diferente do machismo patológico, onde a superioridade do masculino, diante do feminino, tem que ser absoluta!&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A pandemia também está revelando que existem bens e serviços que devem ficar por conta do Estado, como saúde, educação e segurança, e que aquilo que chamávamos de normalidade é que era o problema. Por isso, a acumulação ilimitada, a competição, o individualismo, a indiferença com a miséria de milhões de excluídos, a fantasia do Estado mínimo e a exaltação do lema de Wallstreet: “greed is good” &#8211; a cobiça é boa, não tem o menor sentido. Vamos aprender, a duras penas, que existe uma interdependência de todos com todos e que pertencemos a Gaia e que, se não cuidarmos dela, coisas piores virão. Aliás, sem educação de qualidade, ampliação de consciência, autoconhecimento e crítica reflexiva, a Bíblia vira instrumento do diabo ou destes líderes manipuladores, que só querem explorar e tirar dinheiro do povo! Assim como, conhecimentos filosóficos podem virar instrumentos de manipulação nazista, fascista, imperialista ou comunista. A humanidade necessita de mais Jesus nos corações e mentes e menos memes dos falsos profetas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“O homem perdeu o temor de Deus e pensa que tudo pode ser julgado de acordo com medidas humanas. Esta hybris, que corresponde a uma estreiteza de consciência, é o caminho mais curto para o asilo de loucos&#8230; Abandonamos, no entanto, apenas os espectros verbais, não os fatos psíquicos responsáveis pelo nascimento dos deuses. Ainda estamos tão possuídos pelos conteúdos psíquicos autônomos, como se estes fossem deuses. Atualmente eles são chamados: fobias, obsessões, e assim por diante; numa palavra, sintomas neuróticos. Os deuses tornaram-se doenças. Zeus não governa mais o Olimpo, mas o plexo solar e produz espécimes curiosos que visitam o consultório médico; também perturba os miolos dos políticos e jornalistas, que desencadeiam pelo mundo verdadeiras epidemias psíquicas.” JUNG. C. G. e WILHELM. R. O Segredo da Flor de Ouro pg. 50.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Levar a sério a realidade da alma por meio da relação com o mundo dos espíritos e das imagens, que expressam infinitamente mais do que a linguagem falada ou escrita, é o maior desafio da humanidade neste momento onde as tecnologias da informação e da computação estão prestes em introduzir, na realidade cotidiana, a inteligência artificial e a robótica. É do confronto dialético da consciência com o inconsciente que surgem possibilidades integrativas apontando, tanto para o autoconhecimento quanto para o reconhecimento da alma, para que o homem total possa emergir. A soma dos avanços tecnológicos eletromagnéticos, químicos e biológicos, desarmonizando o meio ambiente e a vida como um todo, podem produzir aberrações bacterianas, virais e fúngicas que associadas a 8 bilhões de seres vivos irão exaurir os recursos naturais, poluindo e contribuindo para o aquecimento do planeta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa crise evidencia a falta de políticos com ideologias sérias, éticas e, preferencialmente, democráticos e parlamentaristas, para evitar&nbsp;que um inepto e demente se instale de forma absolutista ou imperialista no poder. Porque, sabemos que o poder afugenta o amor e inebria, direita ou esquerda! A necessidade de instrumentos para evitar que o fascínio pelo poder, pela fama e pelo prazer, neste caso de ver a morte do outro, desvirtuem os valores éticos e ideológicos dos políticos &#8211; não&nbsp;podemos&nbsp;esquecer das&nbsp;três tentações de Cristo. Por isso, essa&nbsp;peste antropogênica é um incomodo ao negacionistas, que desqualificam e até querem destruir a ciência, porque estão abduzidos por convicções extremistas, somadas com avareza, egoísmo e ignorância. Assim como é incomodo para as grandes fortunas, protegidas em seus&nbsp;bunkers&nbsp;assépticos e com seus respiradores garantidos, estimulando que a massa trabalhadora, apesar do contágio e risco fatal, trabalhe, enquanto eles contabilizam mortes e lucros. Para resolvermos esse impasse entre saúde e economia basta pegarmos 10% da fortuna de 20% das maiores riquezas e esse paradoxo se resolve. Além disso, como todos estamos no mesmo barco, quem sabe uma nova ordem econômica venha acontecer, onde a igualdade, com distribuição de conhecimento, saúde, segurança e renda seja praticada de fato.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Educação afetiva emocional é cada vez mais importante e necessária para a saúde do indivíduo e da sociedade. Não adianta nada saber das coisas sem saber de si mesmo, agindo reativamente aos afetos, constantemente possuído por complexos em busca da sobrevivência ou manutenção da vida, na maioria das vezes, sem significado, sentido ou entusiasmo. Como não existe nada absoluto, nem o mal, o novo coronavírus surge neste momento que a humanidade está tensionada de um lado, pela dinâmica dos fundamentalismos e fanatismos religiosos e, do outro lado, pela dinâmica econômica do capitalismo neoliberal valorizando apenas a matéria. Neste caso, como terceiro elemento, destrutivo/criativo, surge esta manifestação virulenta, podendo despertar a consciência de Cristo do amor altruísta, ou gerar mais destruição de todos contra todos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cristo, o Self Cósmico, pode ter possibilitado essa manifestação trágica, como crise criativa para que a dicotomia unilateral entre as religiões, que desejam manter a humanidade regredida numa condição mágica e paradisíaca, antes da tomada de consciência da queda do paraíso, da nostálgica experiência da confiança primordial. E o materialismo, cumulativo e rentista, que quer transformar a humanidade em bens de produção, como máquinas e autômatos para possibilitar apenas lucros e acúmulo para manter os dominantes no poder, como sempre aconteceu, desde as épocas onde a maioria dos Estados eram religiosos. O mais surpreendente, é que ambas dinâmicas se juntaram, mesmo neste momento que imaginamos que a maioria dos Estados é laica. Provavelmente porque os dominantes sabem que, evolutivamente, o ciclo da alteridade, que é o da revolução Aquariana, anunciado por Cristo há 2 mil anos, está se aproximando.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enfim, acredito e desejo que esta crise sirva para revermos a economia global, a exclusão, a desigualdade, os muros, as armas bélicas, a competição, a ganância, as ditaduras, o imperialismo, o negacionismo, o populismo, o fascismo, o nazismo, o fanatismo, as unilateralidades e todos os resquícios retrógrados deste patriarcado hierarquizante e androcêntrico, que agora amedrontado e agonizando, para que o dinamismo da alteridade se instale e impere na humanidade, despertando cooperação, amorosidade, liberdade, igualdade, fraternidade e altruísmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">29 de março de 2020</p>



<p class="wp-block-paragraph">Paz e Bem, graças ao reconhecimento e aceitação consciente da Guerra e do Mal que habitam em nós!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Recentemente fiz dois vídeos que abordam esse tema. Eles estão publicados no Canal do YouTube do IJEP, nestes links:<br><br>Quarentena, depressão e solitude solidária:&nbsp;<a href="https://youtu.be/0U20Q5GcK5s">https://youtu.be/0U20Q5GcK5s</a></p>



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<iframe title="Quarentena, Depressão e Solitude Solidária - Dr. Waldemar Magaldi Filho" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/0U20Q5GcK5s?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph">Coronavírus e sua função evolutiva:&nbsp;<a href="https://youtu.be/sJ2CW6l2-ME">https://youtu.be/sJ2CW6l2-ME&nbsp;</a></p>



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<p class="wp-block-paragraph">IJEP Live #1 &#8211; Coronavírus &#8211; Reflexões&nbsp;Provocativas e Metafóricas:&nbsp;<a href="https://youtu.be/Zu9Vde9rE80">https://youtu.be/Zu9Vde9rE80</a></p>



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<iframe title="IJEP Live #1 - Coronavírus - Reflexões Provocativas e Metafóricas" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/Zu9Vde9rE80?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph"><strong>WALDEMAR MAGALDI FILHO</strong>. Psicólogo, especialista em Psicologia Junguiana, Psicossomática, Arteterapia e Homeopatia. Mestre e doutor em Ciências da Religião. Autor do livro: &#8220;Dinheiro, Saúde e Sagrado&#8221;, Ed. Eleva Cultural, coordenador dos cursos de especialização em Psicologia Junguiana, Psicossomática, Arteterapia e Expressões Criativas do IJEP &#8211; Instituto junguiano de Ensino e Pesquisa (www.ijep.com.br), oferecidos em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.</p>
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		<title>Dependência química e alcoolismo</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/dependencia-quimica-e-alcoolismo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 Jul 2022 21:02:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Dependência Química]]></category>
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		<category><![CDATA[DAC]]></category>
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		<category><![CDATA[vícios]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>DAC é a doença que produz uma variedade enorme de sintomas que vão desde a adicção de substâncias psicoativas, lícitas ou ilícitas, usadas como drogas, passando por distúrbios alimentares, como anorexia, bulimia, hiperfagia ou ortorexia, e comportamentais, com oneomaia, que é compulsão pelas compras, vigorexia, da busca de vigor, vicio em jogos, indivíduos workaholic, parafilias sexuais, entre outras manias compulsórias que interditam a liberdade dos doentes (atualmente já existem mais de cem classificações psiquiátricas, mas todas possuem o mesmo núcleo, que é a ferida do amor próprio). </p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Vivemos numa sociedade onde, infelizmente, lazer e prazer estão associados ao consumo. Por isso, não podemos restringir o problema das&nbsp;<strong>DAC</strong>&nbsp;–&nbsp;<strong>Dependências, Abusos e Compulsões</strong>, apenas a fatores psicopatológicos ou biológicos, porque as questões políticas, econômicas e culturais da nossa atual sociedade de consumo também contribuem para essa epidemia onde 5% da população mundial já é usuária de drogas e é previsto que em 2100, de acordo com as atuais estatísticas, mais da metade da população mundial estará dependente de algum tipo de substância psicoativa ou atividades comportamentais que produzem dependência das substancias endógenas, aquelas que são produzidas pelo próprio organismo, por conta dos vícios em games, redes sociais, pornografia e outras práticas do universo virtual, associadas a 1 bilhão de mortes que serão causadas pelo tabagismo ativo ou passivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>DAC</strong>&nbsp;é a doença que produz uma variedade enorme de sintomas que vão desde a adicção de substâncias psicoativas, lícitas ou ilícitas, usadas como drogas, passando por distúrbios alimentares, como anorexia, bulimia, hiperfagia ou ortorexia, e comportamentais, com oneomaia, que é compulsão pelas compras, vigorexia, da busca de vigor, vicio em jogos, indivíduos&nbsp;<em>workaholic</em>, parafilias sexuais, entre outras manias compulsórias que interditam a liberdade dos doentes (atualmente já existem mais de cem classificações psiquiátricas, mas todas possuem o mesmo núcleo, que é a ferida do amor próprio). A&nbsp;<strong>Dependência</strong>, acontece quando a liberdade do Ego se apresenta bastante limitada. O&nbsp;<strong>Abuso</strong>&nbsp;é a repetição exacerbada de uma experiência considerada saudável ou normal produzindo sofrimento ao Ser. A&nbsp;<strong>Compulsão</strong>, por sua vez, já inclui o conflito psíquico, quando o Ego é dominado pelos complexos mantendo o doente escravizado pelo objeto ou comportamento, que outrora pode ter sido de prazer, mas agora torna-se imperativo para não gerar o desprazer da sua abstinência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Do uso social ao problemático, o álcool é a droga mais consumida no mundo. Segundo dados de 2004, da Organização Mundial de Saúde (OMS), aproximadamente 2 bilhões de pessoas consomem bebidas alcoólicas. O uso indevido de álcool é um dos principais fatores que contribuem para a diminuição da saúde mundial, sendo responsável por 3,2% de todas as mortes e por 4% de todos os anos perdidos de vida útil. Por outro lado, o sucesso no tratamento da&nbsp;<strong>DAC</strong>&nbsp;é muito pequeno. Menos de 20% das pessoas que ingressam num programa transdisciplinar conseguem a abstinência, geralmente depois de passarem, no mínimo, por duas recaídas. Por isso, associo os transtornos de&nbsp;<strong>DAC</strong>&nbsp;a questões psicossomáticas, por terem sua etiologia no construto psicoafetivo do dependente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É importante deixarmos claro que psicossomática não é um adjetivo de uma queixa ou de um sintoma qualquer, sejam eles físicos, psíquicos, sociais, ambientais, entre outros. Em nossos cursos, ministrados pelo IJEP, insistimos muito que a nossa condição de vida é psicossomática e, nesta premissa, não podemos limitar nossos estudos exclusivamente na busca reducionista das causas das doenças. Precisamos ir além das causas, buscamos o sentido, ou seja, para onde aquele sintoma pode estar apontando, que caminho de evolução pode haver nele? Consequentemente, ao invés de procurarmos uma explicação generalista e reducionista sobre as causas dos sintomas e das doenças, tentamos compreender sua manifestação na totalidade de cada ser, no processo evolucional e individual.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O alcoolismo, assim como todas as adições e dependências, é simultaneamente um sintoma individual e social, registrado histórica e antropologicamente há milênios. A grande pergunta é: Por que a humanidade busca experiências com substâncias psicoativas que produzem estado alterado de consciência? É uma busca de alívio, saídas, encontros ou desencontros com o si mesmo? As experiências de picos e de vales, produzidas por qualquer adição, nos deixam perplexos e nos remete para hipotetizarmos uma série de causas, mas na raiz de qualquer justificativa, o que temos como resultante é a falta de sentido e de significado existencial do doente, devido a inexistência de um propósito de vida que vai além da biosobrevivência, dos prazeres imediatos, da ilusão do sucesso, da fama ou da riqueza material. Ou seja, existem muitos fatores que influenciam uma adição. É um absurdo buscarmos uma causa única, porque a doença é multifatorial incluindo as predisposições genéticas, ancestrais, sociais, familiares, espirituais e vivenciais e todas, em alguma intensidade, contribuem para que aconteça a&nbsp;<strong>DAC</strong>. Por isso, a ajuda ao doente exige atitudes compreensivas, confortantes, acolhedoras e, simultânea e paradoxalmente, energicamente assertivas, limitantes e restritivas, abandonando qualquer tentativa de encontrar a culpa do doente ou os culpados que contribuíram para a doença.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aliás, sempre digo aos codependentes, que é o entorno relacional do doente que, na maioria das vezes, por não reconhecerem que podem estar dependentes da dependência do seu ente querido, ou seja, dependem da dependência do dependente, que eles não devem continuar acreditando, iludidamente, que podem ser culpados, que podem controlar ou até curar seu dependente. Porque, desta forma, e nesta dinâmica, acabam mais atrapalhando do que ajudando, contribuindo ainda mais para as contínuas recaídas do tratamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A busca de estado alterado de consciência, que é gratificante, por produzir, transitoriamente, alívio e prazer, está diretamente ligada com falta de sentido existencial. Muitas vezes ouvi alguns jovens dizerem que usavam drogas para ficarem “descolados” deixarem de ser “caretas”, se sentirem pertencentes, mais criativos, alegres, confiantes, entre outras justificativas para defender seu vício, obviamente negado como tal, porque ainda se julgam livres, sem reconhecer sua dependência da substância e do estado alterado de consciência que ela produz. Sendo que, na medida que o consumo vai ficando mais frequente, o organismo vai adquirindo resistência e tolerância, exigindo cada vez mais quantidade e frequência.&nbsp; Até que eles acabam deslocados do processo adaptativo e evolutivo sócio, econômico, profissional, relacional e familiar, tornando-se dependentes e alienados, cada vez mais distantes de si mesmos, agravados pelas complicações físicas. Ou seja, o indivíduo perdeu a referência da sua essência e, consequentemente, da sua vocação e seu chamado. Neste caso surge o mau destino e todos os eventos desastrosos e trágicos, pela inconsciência da sua trajetória existencial, ficando à mercê do catastrófico. C. G. Jung nos alerta para a necessidade da relação do Eu com o inconsciente e para o risco desta falta de autoconhecimento:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“[&#8230;] as pretensões do inconsciente se impõem categoricamente ao consciente e causam nefasta dissensão que se exterioriza sobretudo no seguinte: as pessoas já não sabem o que realmente querem e não encontram prazer em nada, ou querem demais de uma vez só e têm prazer demais, mas em coisas impossíveis. A repressão das pretensões infantis e primitivas, necessária por motivos culturais, leva facilmente a neuroses ou ao abuso de drogas narcóticas como álcool, morfina, cocaína etc. Em casos mais sérios ainda, o desfecho da dissensão pode ser o suicídio.” (CW6 &#8211; §639)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os profissionais de saúde, por convenção, estabelecem que a dependência química implica na necessidade psíquica do indivíduo frente a adição, e o vício é o estágio mais avançado da dependência química, onde o organismo já não consegue funcionar adequadamente sem a presença da substância de adição. Mas, tanto o dependente químico quanto o viciado são indivíduos doentes que necessitam de tratamento. Ninguém está nessa por vontade própria, com lucidez e consciência plena.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A ideia de cura é muito complexa e de grande ambiguidade. Por exemplo, em função do meu conhecimento em homeopatia e psicologia junguiana, acredito que é possível morrer curado. Mas, filosofia aparte, é inconcebível acreditar que apenas uma droga poderia curar a dependência de outra droga. Nossa experiência aponta para um tratamento transdisciplinar, preferencialmente o menos invasivo possível, que propicie autoconhecimento para que o doente possa descer nas profundezas do seu ser e, como Fausto de Goethe, resgatar sua alma. Por isso, não são raros os casos em que a experiencia metafórica de “fundo de poço” são determinantes na conquista da abstinência e sobriedade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O caminho de tratamento das&nbsp;<strong>DAC</strong>&nbsp;começa pela desintoxicação, depois exige o reconhecimento da dependência e o desejo de abstinência, levando em consideração a síndrome da dependência, abordando a família, fazendo a conscientização do risco das recaídas, o ressignificar dos velhos hábitos, o reconhecimento das situações de risco para recaída e a produção de estratégias de abstinência de curto prazo, porque a “batalha” é diária e, na maioria dos casos, pelo resto da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As adições são doenças com características de comorbidade e codependêcia, desta forma nada que aja isoladamente pode ser eficaz. A cura depende de muitas intervenções nos aspectos pessoais, psíquicos, físicos, sociais, familiares e até espirituais. Porém, sem o real compromisso do dependente quase nada se pode fazer. Toda intervenção arbitrária e truculenta acaba gerando mais problemas e danos do que cura. Paciência e amor são as ferramentas essenciais para o sucesso do tratamento. Mesmo assim, teremos que encarar potencias muito significativas para que a transformação do ser aconteça. Mudanças sempre desencadeiam mecanismos de defesa e, nestes casos, teremos que enfrentar as reações biológicas, onde cada célula deseja manter o indivíduo no seu padrão viciante, além das resistências neuro cerebrais, psicoafetivas, familiares e sócio culturais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque o cérebro, assim como nossas estruturas somáticas, tende a padrões viciantes, por isso é tão difícil mudança de hábitos, como a rotina alimentar para aqueles que desejam perder peso. Nosso cérebro consome de 20 a 25% da glicose e do oxigênio do organismo, apesar de representar, na média, apenas 2% do peso corporal, nesta perspectiva, a massa cerebral consome, proporcionalmente, de 60% a 80% a mais do que a corporal. Ele é uma máquina voraz, constantemente ligada para garantir a manutenção da vida biológica, produzindo rotinas e padrões repetitivos e automáticos, para a manutenção da vida, associando-as com os mecanismos de prazer e recompensas, produzindo dopaminas, serotoninas, endorfinas e outras substâncias. Desta forma, quando o sistema de recompensas é ativado entramos em modo automático de repetição e, em muitos casos, de compulsão, dificultando, cada vez mais, a capacidade de crítica reflexiva, tirando a autonomia da consciência. E esse mesmo mecanismo acontece, de forma ainda mais efetiva, com as substâncias psicoativas, como álcool outras drogas de abuso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É preciso muito diálogo, muita sinceridade e muita disponibilidade para enfrentarmos um mundo tão desigual e sem perspectivas. Os vínculos estão sendo substituídos por eficácia e pelo acúmulo de bens. Os valores afetivos estão ficando em segundo plano. Nossos jovens estão perdidos e completamente diluídos frente a tantas demandas. Precisamos dar possibilidades criativas, sentimento de pertença e autoestima mais elevada aos jovens. Estamos assistindo uma crescente falta de entusiasmo para a vida. O grande desafio que temos para o futuro da humanidade é o engajamento entusiástico dos jovens para com as questões sociais e ecológicas. Sem isso teremos uma sociedade individualista, buscando um prazer hedônico e sem sentido. A dessacralização e o desencantamento do mundo, provocado pelo utilitarismo materialista e racional devem ser repensadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Encerro esse artigo lembrando que em 1996, a Unesco (Organização da Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), divulgou um estudo mundial sobre a educação, desembocando nesses quatro pilares:&nbsp;<strong>Aprender a ser</strong>;&nbsp;<strong>Aprender a conviver</strong>;&nbsp;<strong>Aprender a aprender</strong>; e&nbsp;<strong>Aprender a fazer</strong>; Observe que tudo começa pelo autoconhecimento, porque só assim que poderemos alcançar um sistema político democrático, de governança e não predatório,&nbsp; por ser sustentável e humanista, que poderá contribuir para um cenário onde a diferença entre os mais ricos e a população não seja tão desigual e desumana e que o consumo e a riqueza material deixem de ser sinônimos de prazer e sucesso.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>WALDEMAR MAGALDI FILHO</em>&nbsp;&#8211; Psicólogo, Especialista em Psicologia Junguiana, Psicossomática e Homeopatia. Mestre e Doutor em Ciências da Religião. Autor do livro: “Dinheiro, Saúde e Sagrado”, Analista didata do IJEP – Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa – e coordenador dos cursos de pós-graduação em Psicologia Junguiana; Psicossomática e Arteterapia e Expressões Criativas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Email:&nbsp;wmagaldi@ijep.com.br</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Waldemar Magaldi &#8211; 19/02/2021</em></strong></h4>
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		<title>A arte da cura, apesar da medicalização da vida e negação dos ritmos.</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-arte-da-cura-apesar-da-medicalizacao-da-vida-e-negacao-dos-ritmos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 11 Jul 2022 18:58:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ansiedade]]></category>
		<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicopatologia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Psiquiatria]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[Medicalização]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Tempos de tragédia, conflito, incertezas e medo nos fazem ficar paralisados. Principalmente quando perdemos a ilusão de que tínhamos controle e poder e que para qualquer problema sempre encontraríamos um remédio para resolver. Essa arrogância nos fez provocar muita desarmonia psíquica, social e ambiental e perdermos a conexão com o sagrado que habita nosso íntimo. Agora precisamos de cura, que significa integridade e amor.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-arte-da-cura-apesar-da-medicalizacao-da-vida-e-negacao-dos-ritmos/">A arte da cura, apesar da medicalização da vida e negação dos ritmos.</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Somos gerados e gestados de forma natural, em sintonia com a mãe natureza e no ritmo da dimensão lunar, como toda expressão de vida do planeta. Porém, o processo de socialização acaba tornando-nos “normais” e, em função da nossa disfuncionalidade sociocultural e econômica, que está exageradamente patriarcal e solar, na realidade ficamos normóticos, muito propensos para negar, e até destruir, nossa natureza interna e, consequentemente, a externa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesta sociedade competitiva, consumista e cumulativa, Gaia é desrespeitada, abusada e reprimida. Mas, como a natureza não pode ser controlada, começam a surgir os pruridos, as “coceiras” existenciais, por conta da desconexão com a finalidade existencial, que a homeopatia chama de Psora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Gaia, a mãe terra, deseja e necessita trocar livremente. Dar, receber e retribuir, de forma harmoniosa e circumambular, em sintonia com o Sol e com a Lua, no ritmo eterno da espiral tridimensional e evolutiva do <em>Unus Mundus</em>. Infelizmente, o antropoceno está, como fez Urano no passado, interditando esta dança cósmica do planeta Terra, conspurcando a pericorese divina.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Parece que estamos reproduzindo, arquetipicamente, relatos históricos da mitologia greco-romana, presente em nosso inconsciente coletivo, quando Urano, criado por Gaia com o propósito de estabelecer com ela uma união saudável, criativa e harmoniosa, assume o poder e aprisiona toda criação no ventre dela, nas suas entranhas, para continuar eternamente no controle e no poder.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Depois de algum tempo, Gaia surpreendeu Urano com o surgimento de seu filho Cronos já adulto, também conhecido por Saturno, que castrou seu pai com sua foice, libertando toda criação do ventre da sua mãe Gaia. Porém, como o poder patriarcal é inebriante, assumindo o lugar do pai, ele passa a devorar seus filhos para evitar futuros competidores. E assim a história segue, passando por Zeus até chegarmos nos tempos modernos, em que ainda sofremos com os reflexos de Saturno nas atitudes e ideologias presentes nas camadas dominantes e materialmente mais ricas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta realidade gera muita desigualdade, exclusão e desconforto existencial. Mantendo a maioria das pessoas alienadas de si mesmas, atuando preponderantemente na manutenção da vida, em busca de biosobrevivência, matando para não morrer, comendo para não ser comida, muitas vezes literalmente. Mesmo assim, neste estado reptiliano que transforma a maioria dos seres humanos em bem de produção, o Self tenta contribuir para que alguma possibilidade criativa venha à tona, para resgatar a humanidade e a restabelecer a conexão com alma, o universo inconsciente que aspira realização, como Carl Jung nos ensinou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os meios mais usuais, naturais e espontâneos que o Self utiliza para essa religação são os sonhos, as ocorrências de sincronicidade, as produções criativas que nos atravessam, e quando nada disso funciona, começam surgir os sintomas, com mal-estar, desconfortos e outros transtornos de humor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Caso esses pequenos desconfortos não sejam suficientes para que o indivíduo, aquele é indivisível – apesar de ser múltiplo, complexo, único, criativo e plural – encontre sua integralidade e reconecte-se ao&nbsp;Self&nbsp;e a Grande Mãe, os desconfortos vão se agravando, individual e coletivamente, até surgirem as tragédias, os desastres, os sintomas de adoecimento, que chamamos de intercorrências psicossomáticas, e as neuroses como meios para tentar restaurar,&nbsp;enantiodromicamente, os ritmos negados, para que o processo de individuação possa ser acionado e vivenciado conscientemente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A hipertrofia do patriarcado produz o monoteísmo da razão, a egolatria, o egoísmo, a rigidez hierárquica, o&nbsp;territorialismo&nbsp;exagerado, a competição desenfreada e desumanizada. Retornamos, arquetipicamente, na dimensão do Saturno devorador, e dos excessos das divindades greco-romanas&nbsp;Héstia, Ares e Hermes, respectivamente fazendo-nos defensores amedrontados e obcecados daquilo que imaginamos ser nossa propriedade territorial, lutadores parciais e violentos,&nbsp;crédulos consumidores de bugigangas e informações rasas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa realidade estimula a unilateralidade. Porém, na teoria da psicologia junguiana sabemos que a Psique é bipolar por excelência e quanto mais rejeitamos isso, tentando manter apenas um no inconsciente, abrindo mão do modo simbólico, em detrimento do diabólico, compensatoriamente, o Self irá se encarregar de fazer o contraponto opositivo, de forma tranquila, por meio de expressões criativas ou sonhos, ou de forma violenta, por meio de sintomas, como já foi dito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Todas as dinâmicas individuais, familiares e culturais, expressas na consciência, possuem seus contrapontos opositivos no inconsciente. Desta forma, quando um lado fica muito potencializado, o outro também fica provocando projeções ou identificações sombrias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesta situação atípica que estamos vivenciando, os polos podem ficar mais exacerbados, os complexos mais ativados e até autônomos, e a sombra potencializada, projetada no entorno relacional ou assumida no próprio indivíduo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No âmbito familiar tudo isso fica mais exagerado ainda, porque o núcleo familiar, devido as questões trasngeracionais, somadas com as expectativas depositadas multilateralmente, irá sintonizar todos os membros em complexos e sombra, presentes no inconsciente familiar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estudando a dinâmica do Self familiar, fica evidente que todos os membros, consciente ou inconscientemente, sabem onde fica o “botão” do pânico dos demais parentes. Desta forma, se o grupo familiar conseguir estabelecer, respeitosamente, a prática do diálogo, com transparência e socialização das emoções, conscientes da necessidade de criar meios de equidade entre todos, surgirão transformações surpreendentemente saudáveis, deixando todos mais predisponentes a seus processos de individuação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na individuação, que é uma meta utópica, chegamos na consciência unitiva da não dualidade. Neste caso, acaba a dimensão opositiva entre Ego e Sombra, Persona e Anima/us, Instintos e Arquétipos. Mas, quem é ou foi individuado? Apenas na condição de ataraxia e aponia, que é a condição da morte dos deuses gregos, que saberemos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Egoicamente deveríamos saber que não somos nada e, quando a experiência deste estado de não ser e de nada saber afloram, podemos vislumbrar reflexos do Tudo e do Todo. Apenas alguns fragmentos da pluralidade e diversidade do Self já possibilitam que aquilo que chamamos de Eu reconheça sua finitude diante da infinitude de Deus, ou Self.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como somos adestrados exageradamente para o dinamismo patriarcal, tendemos a ficar literais, materialistas, hierárquicos, competitivos, cumulativos, consumistas, rasos, superficiais, negando e fugindo desesperadamente do mundo interior, assumindo cada vez mais atribulações, compromissos e ocupações, ficando insones, compulsivos e obsessivos, até recebermos o diagnóstico de depressão, quando não surgem doenças auto imunes e outras psicossomatizações ainda mais graves.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Depressão deveria ser compreendida como uma oportunidade para descermos no “poço” para resgatar a relação com a nossa Psique ou alma. É o momento em que a energia psíquica deixa de fluir na dinâmica de progressão e adaptação ao mundo externo, voltando-se para as demandas do mundo interno, o âmbito do inconsciente, deixando de ficar direcionada exclusivamente para frente, para fora e para cima, passando para a direção regressiva, que equivale a ir para trás, para dentro e para baixo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A regressão da energia psíquica serve para que o ego possa reconhecer, servir e contemplar o Self, que tem equivalência à <em>Imago Dei</em> em nós, podendo ressacralizar nossa existência. Infelizmente, a regressão da energia psíquica, que é natural, rítmica e muitas vezes necessária para compensar unilateralidades e monotemáticas do ego, que tendem para a inflação e o monoteísmo da consciência, foi transformada em patologia e é amplamente medicalizada, para ser negada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A depressão virou um grande guarda-chuva abarcando outros movimentos da energia psíquica, com suas respectivas emoções, num senso comum que acabou com a diferenciação dela entre angústia, tristeza, melancolia, ansiedade ou medo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa narrativa reducionista e patologizante dos movimentos rítmicos da energia psíquica nega e desrespeita os mais variados ritmos, que nos atravessam consciente ou inconscientemente. Ritmos que deveriam ser aceitos como as estações do ano, onde na primavera e verão tudo fica mais colorido, quente, alegre, florido e expansivo, enquanto no outono e inverno mais cinza, frio, triste, incubado e introspectivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A mais provável razão para esse reducionismo patológico dos ritmos, movimentos e direções da energia psíquica, que são naturais e necessários, é a falta de sentido e significado existencial onde o ego sucumbe aos condicionamentos, códigos de conduta sociais ou adaptações a traumas ou micro traumas, mantendo-se aprisionado na sua miserabilidade egoísta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Este estado de negação e distanciamento do si mesmo faz com que seja negada tanto a multiplicidade psíquica, quanto a diversidade e pluralidade humana, produzindo ressentimentos ou culpas pelo passado, medo e ansiedade pelo futuro, e dificuldade de reconhecer a infelicidade comum em nós mesmos e na maioria das pessoas, que fogem da experiencia de estar presentes no presente, por conta do estado neurótico da normose materialista, competitiva e cumulativa, deixando de vivenciar o aqui e o agora como uma eterna oportunidade de aprendizado e expansão da consciência. O eterno presente do presente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A indiferenciação e a psicopatologização das emoções humanas ou estados de espírito, geralmente reduzidas na vala comum da depressão, impediu que as variações de humor, que são naturais e podem servir para anunciar as demandas do Self e nossas reações frente aos diferentes afetos que nos acometem estimulou, ainda mais, a medicalização da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A angústia, é o aperto pela falta de sentido existencial. Pode ser mais uma excelente oportunidade para o a percepção e o questionamento do mal-estar e a busca de um propósito existencial, acabou associada a depressão. A tristeza, que serve para digerirmos perdas de algo ou o fracasso, um luto a ser vivenciado, o nojo necessário para lidarmos com a efemeridade da vida, que consome vida para não ser consumida por outra vida, também virou depressão e é medicalizada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A melancolia, que também virou depressão, é a nigredo que serve para propiciar a percepção da sombra, apesar do medo do negrume da noite escura da alma, pode apresentar e anunciar a numinosidade do Eros, e nos ensinar amar estar amando de forma altruísta universal e incondicional.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A ansiedade expressa a falta de paciência, a falta e o vazio, o descontentamento pela inexistência de conteúdo, o descontentamento. Por fim, medo, que é um instrumento necessário para preservar a vida, quando fica ausente, transforma-se em loucura, e quando fica exagerado, impede a vida, mas quando suficiente e saudável pode nos proporcionar a coragem, que é a ação do coração para criarmos, transgredirmos a normose e seguirmos adiante a serviço do Self. Por isso, Jung sempre aponta para a arte, como instrumento de transcendência e ressignificação da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Cruel, obscena, egoísta, imoral, indômita, eternamente selvagem, a arte é a superioridade humana – acima dos preceitos que se combatem, acima das religiões que passam, acima da ciência que se corrige; embriaga como a orgia e como o êxtase.&#8221; (Raul Pompeia – O Ateneu)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para que as expressões criativas aflorem, a alma precisa de tempo, a anergia psíquica precisa fazer seu caminho regressivo, para que o Ego possa resgatar a criança divina, a representante da função transcendente, que pode propiciar a união mística da transmutação simbólico do chumbo em ouro, na metáfora alquímica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para isso, precisamos nos libertar das dívidas contraídas pela persona dominante, renunciar à ilusão do poder e reconhecer nossa vulnerabilidade e compreender que o mal é uma realidade presente, que precisa ser vigiado constantemente, e que a cura é a verdadeira arte. E aceitarmos que a felicidade depende de vivenciarmos e aceitarmos integralmente e conscientemente o sofrimento do nosso existir, com alegrias e tristezas, amarguras e doçuras, beldades e fealdades, ganhos e perdas, atrações e repulsões, prazeres e dores, nascimentos e mortes! Porque só encontramos a verdadeira luz depois do reconhecimento da sombra e de fazermos a união simbólica das partes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Waldemar Magaldi Filho &#8211; Psicólogo, especialista em Psicologia Junguiana, Psicossomática, Arteterapia e Homeopatia. Mestre e doutor em Ciências da Religião. Autor do livro: &#8220;Dinheiro, Saúde e Sagrado&#8221;, Ed. Eleva Cultural, coordenador dos cursos de especialização em Psicologia Junguiana, Psicossomática, Arteterapia e Expressões Criativas do IJEP &#8211; Instituto junguiano de Ensino e Pesquisa (www.ijep.com.br), oferecidos em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.</p>
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		<title>Mulheres na jornada da Alma: da TPM ao encarceramento feminino</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/mulheres-na-jornada-da-alma-da-tpm-ao-encarceramento-feminino/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Natalhe Vieni]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jul 2022 18:53:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Não Categorizado]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicopatologia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[matriarcado]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[tensão menstrual]]></category>
		<category><![CDATA[tmp]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quando descobrimos que somos mulher? É possível que nossas almas, aquela que carrega em si um ser completo, justamente na parte do feminino, que pode e deve estar inteira para que possa fazer a integração com o masculino, esteja na verdade ferida? É certo que a histórias de todas as mulheres é marcada por variados tipos de abuso, mas você já parou para pensar qual o impacto disso na sua vida? O que pensar de tantos problemas no ciclo menstrual ou no aparelho reprodutor feminino? Vamos juntos ampliar um pouco este assunto e caminhar para a cura da psique coletiva feminina que busca a cada dia se tornar inteira novamente!</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Quando descobrimos que somos mulher? Está certo que o ¨ser mulher¨ é uma construção social, pois todas as identidades de gênero assim o são, fácil constatar isso quando observamos este papel social no decorrer dos anos, por exemplo, se você identificar o que era recomendado, aceitável e recriminado na época de sua mãe verá que o espírito de nossa época interfere muito em quem somos e como somos, ele fala de forma clara e até imperativa dentro de nós. Como afirma Jung:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“<em>Não se deve brincar com o espírito da época, porque ele é uma religião, ou melhor ainda, é uma crença ou um credo cuja irracionalidade nada deixa a desejar, e que, ainda por cima, possui a desagradável qualidade de querer que o considerem o critério supremo de toda a verdade e tem a pretensão de ser o detentor único da racionalidade.” (CW 8\2 </em>§652)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mesmo as mulheres que no decorrer da história perceberam e se rebelaram contra as limitações e desvantagem desse modelo imposto a elas, foram combatidas, na maioria das vezes, de forma violenta e isso não se deve somente a disputa por poder, mas também pelo espírito da época que fala com e através de nós.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Mas no caso das mulheres, desde que o patriarcado se estabeleceu o papel da mulher ficou restrito a servidão, ao encarceramento e a repressão, principalmente de sua alma, suas vontades, e sua sexualidade. Na manutenção desta situação, muito da alma feminina foi extirpado, como se não tivesse importância, devendo mesmo ser relegado a um lugar de absoluto esquecimento lado a lado com o mal, no sentido que era tido como tal, exemplo esse muito pertinente: a intuição feminina, naquela época e ainda hoje, é tida como algo místico, provindo certamente da sombra, ou quem sabe até do obscurantismo, e portanto, deve ser ignorado, reprimido e rechaçado, tanto que muitas mulheres ao perceberem esta voz que fala em alguns momentos, a interpretam como sendo qualquer coisa, que não algo bom, embora possa vir a ser uma parte delas que pode &#8211; e deve &#8211; ser levada em consideração, não como uma servidão absoluta, mas vista como pertencente ao feminino, algo que acessa o inconsciente coletivo e emerge de lá com uma sabedoria muitas vezes tão grande que até nos surpreende. Sempre que estamos em desavença com nossa própria alma, ela nos manda essa palavra amiga, no sentido de nos conectar ao nosso <em>Daimon, </em>que segundo Jung é o nosso sentido de vida, o nosso objetivo maior, Jung diz que quando estamos fora dele vivemos a verdadeira tragédia, porque uma vida sem sentido é uma vida vazia, uma ampliação possível para este acontecimento é a incidência muito grande de mulheres que após a menopausa, após a saída dos filhos de casa ou até a morte do parceiro, entram em depressão, esta nada mais é em primeira instância ( uma das possíveis ampliações, não a única!) que um chamado da energia psíquica para dentro e para trás, obrigando o indivíduo a se recolher em si mesmo e repensar, sempre no sentido teleológico de buscar ou retomar o seu mito do significado, por isso que em episódios depressivos algumas frases são sempre persistentes em nossas mentes: “ O que estou fazendo da minha vida? Estou onde queria estar? Quem sou eu?”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isto tem uma explicação social, uma vez que há muito o papel da mulher ficou restrito em crescer, se casar, cuidar dos filhos e dos outros membros da família. Mas&#8230; e depois?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando se cessam estas obrigações, o que sobra?</p>



<p class="wp-block-paragraph">E se esta mulher conhecedora do seu papel social- e obediente- faz disso o seu objetivo fim de vida, sem nunca pensar que vive para os outros, para o mundo, para a mãe que habita dentro de si, sem nunca se atentar para os outros papéis que precisa desempenhar, tal como mulher, profissional, amiga, amante, entre outros?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Antes de ampliarmos mais ainda este assunto, vamos entender o que é patriarcado, já que nos parece que é de lá que se origina este modelo social imposto a todo feminino.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“<em>O patriarcado é o domínio social ou uma estrutura de poder social centralizada no homem ou no masculino. É baseada na própria ideia de paters, figura do pai. E relaciona instâncias públicas e privadas da vida social. É uma estrutura bastante comum na sociedade humana, mas é contestada por diferentes grupos sociais em vários momentos da história, devido à pouca ou nenhuma ação que impõe às mulheres. O patriarcado associa a biologia à cultura, no sentido de diferenciar os papeis sociais baseados em papeis sexuais. Em geral, cargos de maior importância cultural são destinados a homens, enquanto cargos de importância familiar são relegados às mulheres.” (NETO,2017)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Patriarcado significa, literalmente, &#8220;a regra do pai&#8221;, e vem do&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADngua_grega">grego</a>&nbsp;πατριάρχης (<em>patriarkhēs</em>), &#8220;pai de uma raça&#8221; ou “chefe de uma raça”,&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Patriarca">patriarca</a>. Historicamente veio sendo usado para nomear um sistema autocrático, seja a nível político ou na vida de cada indivíduo, experenciado no modelo em que o homem é o chefe da família, ou seja, o poder é exercido sempre por homens adultos. Na leitura contemporânea do termo, sua etiologia e seus usos, ele é ampliado ao sistema social, que é construído e reconstruído todos os dias em nossas psiques. Com o aparecimento do movimento feminista, há uma corrente ideológica que tenta realizar a modificação do pensamento de nossa época, na busca tanto por direitos mais igualitários ou papéis sociais definidos por uma equidade amorosa, acreditamos que toda repressão está no campo do poder, enquanto na medida que caminhamos mais no sentido de um equilíbrio salutar me parece que caminhamos também no sentido do amor. É verdade também que o homem -leia-se aqui homem, mulher e não binários- busca sua alma e o seu sentido de vida, esta busca por si só o leva ao seu mundo interior, no entanto, esta busca pela alma e pelo <em>daimon</em> só é possível se acompanhada de amor em todas as suas expressões. Um indivíduo que não se ama, também não é capaz de amar ao próximo nem de respeitá-lo. Desse modo podemos dizer que a luta pela equidade, pelo feminino, é de todos nós. Nós mulheres que estamos, mesmo agora, na contemporaneidade ainda presas dentro de nós, ainda encarcerando-nos e ajudando a encarcerar a outrem, seja outras amigas, conhecidas, e até nossas próprias filhas. Fazemos também um trabalho incrível, todos nós, de encarcerar inclusive a mulher presa dentro de todos os homens, chamada por Jung de anima. Este contraponto sexual presente na psique dos homens sofre igual ou até maior repressão, uma vez que “o homem precisa ser homem”, é o que diz o senso comum, então para onde vai aquela parte sua que tem a delicadeza, a sensibilidade, o cuidado, a amorosidade, e tantas outras qualidades? E a intuição? Há&#8230; isso é coisa de mulher, já diziam as pessoas dessa e de outras épocas, sempre com entonação de desdém, como se o fato de os homens acessarem a intuição e toda e qualquer manifestação de sua anima fosse um demérito, quando na verdade é uma qualidade de um ego estruturante e de uma alma rica de valor, que acessa e usa toda sua potencialidade, como nos ensina a teoria analítica de Carl Jung, se contemos dentro de nós o todo, por que aceitamos a imposição mundana de sermos tão pequenos?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando reprimimos os homens desta forma, estamos na verdade rechaçando o feminino e ele mais uma vez é violado, negligenciado e ferido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nós, analistas, nos deparamos com a repressão dentro de nós, a repressão do mundo via inconsciente coletivo e a repressão que também sofrem nossos clientes, todas as vezes que atendemos uma mulher vemos uma ou outra história de sofrimento, de abusos de todo tipo, da banalização de seus desejos, vontades e a perda da identidade deste feminino que grita por socorro. Grita dentro de nós e dentro de cada cliente que chega ao setting terapêutico. Vemos essa história se repetir diariamente em nossos consultórios, mas é verdade também que muitas vezes observamos que todas as mulheres que se descobrem presas neste papel imposto as mulheres começam um caminho de volta , no sentido de sua inteireza, de descobrir sua totalidade e qual o seu chamado de alma, e quando faz isso vemos que esta mulher faz questão de libertar outras mulheres, ela quer falar de sua jornada, auxiliar e até mesmo “ acordar” outras mulheres, é o processo do amor, que nos preenche e nos contamina a todos , buscando o verdadeiro “ bom viver”, o viver com sentido e significado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As queixas mais frequentes que observamos na clínica são as alterações de ciclo, que nos remetem a desconexão que todos nós sofremos em decorrência do mundo conectado ao exagero a tecnologia, e neste processo podemos perceber que conforme a vida digital aumenta a vida real diminui, ocasionando uma desconexão cada vez mais profunda entre psique e soma, vemos indivíduos que desconhecem as sensações, o corpo, os prazeres e em última instância seus próprios sentimentos, podemos observar isso aos montes, em maior ou menor intensidade, o próprio ritmo de vida imposto na contemporaneidade, falamos aqui da era da produtividade e do resultado – muitas vezes a qualquer custo- esta que está muito mais situada no ter, no ostentar do que no sentir ou em ser. Autores como Beyung-Chul Han, chamam de a era ¨instagramável¨, onde as coisas (e as pessoas) só tem valor se gerarem likes, a vida deve ser livre de cantos e dores, tudo isso causa a falta de ritmo, este último que é necessário a vida, se observarmos a própria natureza requer um certo ritmo. Em vários pontos de sua obra Jung destaca a importância do ritmo, em <em>Estudos Experimentais</em>, ele fala que o ritmo imposto nos testes também podia alterar a manifestação dos complexos (§109), já em <em>Símbolos da Transformação</em> (§564) ele discorre que o ritmo está presente de modo instintivo nos seres, iniciando lá na fase infantil e chegando a vida sexual, mas que não se detém nestas funções, e nem se deriva nelas, que o seu papel e importância é tão abrangente na vida de todos nós impactando inclusive nossas emoções, falamos sobre este assunto para refletirmos sobre o corpo e a vida da mulher que é regida por um ciclo muito peculiar, enquanto que a fisiologia do homem faz um aumento progressivo hormonal que se estabiliza na adolescência, se mantém por toda a vida adulta e decai na velhice de forma muito lenta, o corpo da mulher passa mensalmente por alterações hormonais severas, muitas vezes de forma abrupta, e há que se conhecer este fato, como devemos compreender profundamente o ciclo individual, para só assim começar a ter uma ideia do que é ser mulher. Esse movimento de vida, que nasce e morre simbolicamente todos os meses no corpo das mulheres é orquestrado pelo cérebro, através da glândula hipófise, envolve também todo o aparelho reprodutor feminino, compreendido por útero, vagina, ovários , trompas e mamas, os hormônios participantes são estrogênio, progesterona e testosterona, falamos disso para esclarecer todo este processo, porque, por exemplo, nas primeiras semanas do ciclo, quando o estrogênio está subindo , preparando o útero para uma possível fecundação, a mulher está alegre, disposta, ativa, produtiva, sedutora, está no mundo, como se fosse dominada pela extroversão, o lema nesta época talvez fosse “ só se for agora!”&#8230;.. já nas últimas semanas o hormônio que comanda é a progesterona, esse que deveria ser utilizado para manter a gestação, então nesta fase é como se a mulher fosse enviada para a introversão, onde tudo é muito difícil, o corpo pesado, inchado, disposição zero e produtividade nenhuma, dessa forma ela se localiza no lugar mais sombrio de sua existência, talvez a frase mais pertinente para descrever seria: “comendo o pão que o diabo amassou”. E entre essas duas fases que aqui estão redundantes e talvez exageradas, para facilitar a compreensão do caro leitor, existem muitas nuances, mas queremos demonstrar que num ciclo que pode variar de 21 a 35 dias a mulher percorre o numinoso e desce até os infernos, se fosse um processo calmo, lento e com toda a compreensão e conhecimento sobre si e o seu corpo, poderíamos até utilizar este ciclo para autoconhecimento e para praticar a aceitação de toda a sua totalidade, mas o que pensar de algo que é desconhecido para a maioria das mulheres, mas que acontece com elas o tempo todo? &nbsp;Alguns países dão direito ao descanso neste período da mulher por entenderem que algumas de nós ficam incapazes para a produtividade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vemos na contemporaneidade que muitas mulheres acreditam que tomar um anticoncepcional que simplesmente corta sua menstruação é um benefício imenso, não estamos aqui defendendo ou recriminado este ato, mas ampliando, no sentido que desconsiderar uma parte minha, qualquer que seja ela, é perder uma das várias partes que me pertencem, em uma primeira ampliação podemos observar que os problemas provenientes de distúrbios menstruais, ou qualquer alteração neste ciclo natural, provém tanto da dor de ser mulher, do feminino ferido que muitas vezes nos chega de forma transgeracional, ou até da negação deste complexo. Quem de nós mulheres nunca teve o seguinte pensamento: “que saco, mais uma vez esta menstruação a me atrapalhar?&#8230;” Acontece que esta e tantas outras coisas que temos, fazem parte daquilo que somos&#8230;.&nbsp; Outro ponto a se pensar é que o uso do anticoncepcional (e não somos contra, de forma alguma) pode nos prender a uma destas fases, e tomara que seja no estrogênio! Não que a polarização seja boa, o melhor seria o equilíbrio hormonal, mas certamente ficar presa com um excesso de progesterona em mim certamente me fará alimentar mais ainda essa raiva por “ser mulher”, e toda a teoria de Jung fala da necessidade de integração, pela ampliação, pelo “descobrir o ser que verdadeiramente somos”!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas o que dói na mulher ferida? Falamos aqui na dor de não ter seus desejos atendidos, de não ser plena e detentora de suas vontades, ou talvez em não poder demonstrar ou vive-las, pois de tudo que nos foi tirado o direito de escolha e o fato de sempre ter que lutar, até por coisas banais e ordinárias como o direito de decidir o que fazer com seus corpos lhe foi usurpado, somos constantemente violadas, a forma como devemos viver, ser, nos comportar é dita constantemente, e o pior de tudo é que toda esta repressão e os vários abusos que encontramos no decorrer de nossas vidas geram um mal em forma de um complexo negativo, pois este abusador não está mais fora de mim e sim passa a fazer parte da minha sombra, não precisamos mais que alguém nos cobre, nos negligencie ou nos silencie, as próprias mulheres têm nos recônditos de sua psique o abusador interior, o barba azul, que já faz este trabalho brilhantemente, por isso que muitas vezes ao dizer um simples não, nos sentimos extremamente culpadas, por não servir. O servir em si não é o problema, o próprio Jung o coloca como um importante campo da vida de todos os indivíduos a ser contemplado de alguma forma para que alcancemos a plenitude, o problema é quando ele vem acompanhado de dor, de sofrimento e nos fere, é aquele “sim” que vem com o gosto amargo, que por fora, na superfície, na persona ele é bom e belo, mas no fundo de nosso coração sabemos que não é verdadeiro. Afinal, quem não cuida de si não pode cuidar de ninguém como diria Jung, mas um ser que desde sempre têm como obrigação somente servir, não sei se dá tempo de “se servir”, &nbsp;de alma, de amor, de cuidados, para então, depois, servir ao próximo. Jung disse nas <em>Cartas, vol. II</em> que “<em>ninguém leva outrem aonde nunca foi</em>”, ali ele se referia a importância do terapeuta cuidar de si, e principalmente de sua alma, seja com atitudes, comportamentos e principalmente sua própria terapia, acreditamos que esta máxima cabe perfeitamente a todos os femininos que estão feridos, seja o feminino de toda e qualquer mulher, o feminino presente em cada homem ou o feminino exposto no mundo, pois até as imagens do feminino estão machucadas, há que continuarmos a luta, para que um dia quem sabe o inconsciente coletivo traga avanços para a tão sonhada alteridade, onde feminino e masculino possam fazer a integração de seu contraponto sexual: Anima ou Animus, gerando assim um novo estilo de compreensão e de vida!</p>



<p class="wp-block-paragraph">A TPM, sofre profunda influência deste ciclo, que a priori é natural, no entanto, como o coletivo está machucado, ele se tornou difícil e pesado para todas as mulheres, talvez pela dor impressa em nossa psique, que acessamos via inconsciente coletivo, seja pela dor de ser mulher e não poder nos recolher neste período, afinal, precisamos sempre continuar bem dispostas e produzindo, acontece que a vida, o corpo, pede um recolhimento, talvez nesta época a alma chama toda mulher para que se recolha, repense, talvez a própria energia psíquica influenciada por este movimento se volte para dentro, e ao tentar atender a demanda do mundo geramos um movimento antinatural, que se reflete e amplia na dor física, espiritual e emocional, que chamamos de TPM, tensão pré menstrual. Outra possibilidade que nos ocorre é que esta época, aliada aos hormônios que nos tornam mais suscetíveis a tal, nos coloquem cara a cara com a nossa sombra, talvez a sensibilidade às sensações inibam de alguma forma o controle exercido pela persona, comandado pelo ego, e a mulher seja tomada pelos seus conteúdos sombrios, e o problema nem está aí, mas como a grande maioria de nós vive em total desconhecimento de nossa sombra, quando ela nos toma, assim à revelia, sempre vem da forma mais desordenada e mais desagradável possível, afinal ela faz um movimento enantiodrômico, vai sempre aparecer com a mesma intensidade que foi reprimida, ou seja, quanto mais tentamos esconder, mais ela aparece violentamente, sempre contando que a portadora integre este conteúdo, e quem sabe caminhe mais alguns passos no seu processo de individuação, acontece que como o mundo é patriarcal, ele coloca essa sombra, no lugar do mal, então a mulher muitas vezes é chamada de louca, descontrolada, histérica, ou até mesmo fraca&#8230;. mas será que isso que ela mostrou, seja lá o que for, não existe em todo e cada um de nós?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nenhuma característica é de um indivíduo só, afinal tudo está em todos, e todos nós acessamos esse todo no inconsciente coletivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outra possível ampliação é que a suscetibilidade causada pelas alterações hormonais nos coloquem em contato mais íntimo, ou até favoreça a possessão dos complexos, principalmente os que estão negativos, e\ou o complexo da mulher ferida, ou o complexo materno negativo&#8230; pode até ser que o complexo mulher (talvez de todas as mulheres) esteja preenchido com afetos muito dolorosos, que são “ativados” nesta época do mês e nos possuam de forma extremamente dolorosa. Por isso sempre devemos repensar nossas dores, elas podem e devem se tornar um portal, podem ser um norte teleológico da mulher que eu quero, posso e devo ser!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Precisamos compreender que o problema não é a mulher ser isso ou aquilo, o que nos machuca a todas é a repressão de tudo aquilo que queremos e podemos ser, cada um deve encontrar dentro de si o amor, o cuidado, o aconchego, o autorrespeito, ou resumidamente, a mãe interior, a Perséfone (filha) precisa dar espaço para que surja a Deméter (mãe), que por sua vez precisa, um dia, se transformar na Hécate (velha sábia). Nos remetemos aqui a mitologia grega para contar um pouco do que deveria ser a vida de todo feminino, ela nasce pura, ingênua, e de certa forma incapaz, dependente de alguém para viver e se realizar, essa é a Perséfone, ela cede o lugar a sua mãe, Deméter, essa dá frutos, pois mostra que está ligada de forma mais profunda e fecunda com seu próprio feminino, então ela é capaz de produzir, mesmo que através da criatividade, ela traz de si para alimentar o mundo, e depois ela cede lugar pra uma mulher sábia, plena que viveu muito do que quis e do que podia, e agora se dedica muito mais ao servir, a ensinar outras pessoas a fazer um caminho que ela mesma já percorreu, ela não se dedica mais a produzir, mas estimula que outros o façam, essa é a Hécate. Acontece que a maioria das mulheres nunca sai da fase Perséfone, seja porque não consegue, ou porque o mundo não deixa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Perfeita a fala de Waldemar Magaldi em <em>Fundamentos da Psicologia Analítica</em>:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“<em>O Self não dá o que o Ego deseja, mas o que ele precisa para a evolução da alma, que aspira, teleologicamente, que você passe a servir, cuidar e amar, incondicionalmente, toda expressão de vida. Esse é o sentido do processo de individuação proposto por C. G. Jung&#8221;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto desejamos que todas reflitam o porquê de o self nos colocar nesta posição de repressão, o que em mim precisa disso e para que isso me serve. E que todo feminino possa encontrar dentro de si a mãe interior, para fazer antes de tudo esse servir, cuidar e amar a si mesma, e que o Barba Azul interior seja usado a favor e não contra o feminino.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por fim e não menos importante, devemos nos lembrar que nem todas as mulheres têm acesso a terapia, ou quaisquer outro tipo de processo para o autodesenvolvimento, por isso que acreditamos piamente que a cada mulher que desperta está apta a ajudar o despertar de outras, tal como o conto da mulher selvagem, que por mais que ainda não está completa ela segue pelo mundo a procura de pedaços de si e de outras, é uma busca incessante, um resgate a todos os pedaços feridos da alma coletiva do feminino, para que um dia ele seja inteiro novamente!</p>



<p class="wp-block-paragraph">E você já pensou sobre o seu próprio ritmo, já observou seu corpo hoje, o que ele te conta?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se você que nos lê agora têm uma TPM exacerbada, problemas de qualquer tipo no sistema reprodutor feminino, que tal conversar com seu complexo, com seu órgão e perguntar o que dói, para que dói?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já parou para pensar onde estão as feridas do seu feminino, seja você uma mulher, um homem ou não binário?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Boas ampliações a todxs!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Natalhe Vieni – Analista em Formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Simone Magaldi – Membro Didata do IJEP</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Mulheres na jornada da Alma: da TPM ao encarceramento feminino | Natalhe Vieni" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/IRBKyw25m4c?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Referências</p>



<p class="wp-block-paragraph">Brandão, Junito de Souza. <strong>Mitologia Grega.</strong> volumes I, II, III. 1ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes,2009.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>A Natureza da Psique. </strong>10ª ed. CW 8\2. Petrópolis, RJ: Vozes,2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>Cartas</strong>. Volumes I, II, III. 1ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes,2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MAGALDI, Waldemar (org.) <strong>Fundamentos de Psicologia Analítica</strong>. 1ª ed. São Paulo: Eleva Cultural,2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NETTO, Letícia Rodrigues Ferreira<strong>. Patriarcado</strong>. Brasil Escola, disponível em: <a href="https://www.infoescola.com/sociedade/patriarcalismo/">https://www.infoescola.com/sociedade/patriarcalismo/</a> acesso dia 28\06\2022.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/mulheres-na-jornada-da-alma-da-tpm-ao-encarceramento-feminino/">Mulheres na jornada da Alma: da TPM ao encarceramento feminino</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Considerações sobre o processo de psicodiagnóstico infantil na clínica junguiana</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/consideracoes-sobre-o-processo-de-psicodiagnostico-infantil-na-clinica-junguiana/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gilmara Alves]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Jun 2022 14:50:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[Diagnóstico Psicológico]]></category>
		<category><![CDATA[Psicopatologia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[diagnóstico infantil]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia da criança]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=4229</guid>

					<description><![CDATA[<p>“Tudo aquilo que quisermos mudar nas crianças, devemos primeiro examinar se não é algo que é melhor mudar em nós mesmos.” C. G. Jung, fundador da psicologia analítica. Ao receber uma criança no consultório, esta nos chega com uma queixa específica e narrada por seus pais ou cuidadores. Pode ser algum medo, questões de cunho comportamental, dificuldades de aprendizagem, [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<blockquote class="wp-block-quote has-text-align-right is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>“Tudo aquilo que quisermos mudar nas crianças, devemos primeiro examinar se não é algo que é melhor mudar em nós mesmos.” C. G. Jung, fundador da psicologia analítica. </p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Ao receber uma criança no consultório, esta nos chega com uma queixa específica e narrada por seus pais ou cuidadores. Pode ser algum medo, questões de cunho comportamental, dificuldades de aprendizagem, questões de relacionamento e interatividade social, entre outras. Os pais narram as dificuldades destes pequenos de acordo com o que veem e percebem em seus filhos. Às vezes são queixas pautadas nas narrativas escolares proveniente das observações de professores e coordenadores pedagógicos, como também, podem estar orientados por outros profissionais da área de saúde. Às vezes, os pais podem associar estas condições&nbsp;às suas próprias dificuldades e estilos pessoais, mas raramente passa disto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, em nosso papel como analistas, como compreender se aquela queixa é de fato o que aflige a criança, ou se ela mascara ou disfarça algum tipo de questão mais profunda? O quanto este comportamento ou dificuldade apresentado pelos pequenos não são apenas sintomas de questões mais complexas e inacessíveis para seus pais? Diferente do cliente adulto, a criança, que está em processo de desenvolvimento de personalidade e de estrutura de ego, não tem um discurso analítico, racional e fluente para explicar aquilo que vive e que está sentindo. Por este motivo, é&nbsp;importante que se faça uma investigação cuidadosa e detalhada sobre a vida desta criança, para que se possa desenvolver um processo terapêutico que seja efetivo para o atendimento de suas reais questões. É aqui que entra o processo de psicodiagnóstico, que deve preceder ao processo terapêutico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O processo de psicodiagnóstico tem, de acordo com KRUG, (2016), a seguinte definição:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Compreendemos que o psicodiagnóstico&nbsp;é um procedimento científico de investigação e intervenção clínica, limitado no tempo, que emprega técnicas e/ou testes com o propósito de avaliar uma ou mais características psicológicas, visando um diagnóstico psicológico (descritivo e ou dinâmico), construído a luz de uma orientação teórica que subsidia a compreensão da situação avaliada gerando uma ou mais indicações terapêuticas e encaminhamentos. (KRUG, 2016, pag.18)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta definição está em acordo com o que também diz outra teórica da&nbsp;área, OCAMPO (1995), quando afirma que o processo de psicodiagnóstico deve observar e respeitar um tempo limite, onde as partes &#8211; analista e cliente &#8211; objetivam “conseguir uma descrição e compreensão, o mais profundo e completa possível, da personalidade total do paciente ou do grupo familiar”&nbsp;(OCAMPO, 1995, pag 17). A autora completa a visão, dizendo que o processo “abrange os aspectos passados, presentes e futuros desta personalidade, utilizando para alcançar tais objetivos certas técnicas.”&nbsp;(OCAMPO, 1995, pag 17).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A partir desses pontos, entende-se que o processo de psicodiagnóstico&nbsp;é uma etapa inicial que pode ter grande valia para o trabalho terapêutico com a criança, pois é por meio dele que o analista poderá aprofundar e detalhar quais são as questões que envolvem a criança – a estrutura e ambiente familiar, escolar, social; seu mundo interno de fantasias e de projeções. O psicodiagnóstico&nbsp;é uma construção inicial do caso, que deve ser realizado com muita qualidade e com critérios sérios e éticos. Não se deve utilizar esta etapa do processo para taxar e reduzir a percepção acerca das questões, mas pelo contrário para ampliar e abrir possibilidades de acompanhamento e orientações.&nbsp;&nbsp;A criança, segundo JUNG (1991), “tem uma psique extremamente influenciável e dependente, que se movimenta por completo no âmbito nebuloso da psique dos pais, do qual só relativamente tarde consegue libertar-se.” (JUNG, 1991 §99)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em sua obra&nbsp;<em>O desenvolvimento da personalidade</em>, Jung&nbsp;é&nbsp;bastante crítico e reticente ao falar do trabalho psicológico com crianças. Ele pontua que essa atividade é muito difícil e que deve ser realizada com muita cautela por parte do analista, pois como a criança é uma personalidade em formação, e como dito anteriormente &#8211; extremamente influenciável, se for orientada de modo indevido, pode-se intervir de forma inadequada no processo de aquisição de consciência, que&nbsp;é, segundo Jung a tarefa da infância. “Precisamos lidar com algo de imprevisível, pois não sabemos como e em que sentido se desenvolverá a personalidade em formação”. (JUNG, 1991, §292). O conhecimento, a simplicidade e abertura do analista, como também seu próprio trabalho de autodesenvolvimento é considerado por Jung como crucial para o trabalho com crianças. Isto posto, é importante destacar que Jung deixou escritos importantes sobre a personalidade infantil em desenvolvimento, mas não se aprofundou sobre o tratamento em particular da criança. Autores como Mario Jacoby, Michael Fordham e Erich Neumann, ampliaram o legado de Jung e a visão da psicologia analítica para o tratamento clínico deste público.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">FODHAM (2001), corrobora com a visão de Jung a respeito da complexidade e da seriedade necessárias para o trabalho com crianças, e destaca em sua obra&nbsp;<em>A criança como indiví</em><em>duo</em>&nbsp;a seguinte colocação:</p>



<p class="wp-block-paragraph">[&#8230;] a análise junguiana infantil é uma técnica que exige treinamento especial. A perícia que o analista infantil deve atingir centra-se em: dar início à terapia, já que isso requer a elaboração de um diagnóstico da família, utilizar técnicas lúdicas e estar permanentemente atento às ocasiões em que os pais precisarem de ajuda (FORDHAM 2001, pag. 144).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O princípio básico deixado por Jung e desenvolvido por seus sucessores neste tema, postula que a psicologia infantil deve ser compreendida à luz da psicologia familiar e dos complexos materno e paterno. Para Jung:&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>A criança tem uma psicologia singular. Assim como o seu corpo, durante a vida embrionária, é uma parte do corpo materno, também sua mente, por muitos anos, constitui parte da atmosfera psíquica dos pais. Este fato esclarece de pronto porque muitas das neuroses infantis são muito mais sintomas das condições psíquicas reinantes entre os pais do que propriamente doença genuína da criança. Apenas em parte a criança tem psicologia própria; em relação à maior parte ainda depende da vida psíquica dos pais. (JUNG, 1991, §143).</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">A forma e a proporção em que os complexos se constelam no inconsciente das crianças, devem surgir durante o processo psicodiagnóstico e servirá para nortear grande parte do trabalho a ser desenvolvido com a criança, bem como com os pais. Em acordo com a visão de Jung, JACOBY (2010) afirma que:</p>



<p class="wp-block-paragraph">As disposições e necessidades arquetípicas no indivíduo estão interligadas com o meio de um modo intrincado que apresenta uma influência poderosa, marcante, especialmente na primeira infância. Nesse encontro entre a disposição natural da criança e a reação do ambiente, nós achamos a origem de muitos complexos psíquicos, especialmente quando a criança responde aos vários modos de seus pais se sintonizarem com ele. (JACOBY, 2010, pag. 142).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda sobre a natureza dos complexos e a importância de se considerar sua presença e manifestação nos diagnósticos, JUNG (1987) afirma:&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em psicoterapia, o reconhecimento da doença depende [&#8230;] muito menos do quadro clínico da enfermidade do que dos complexos nela contidos. O diagnóstico psicológico visa ao diagnóstico dos complexos e, por conseguinte, à formulação de fatos que seriam antes camuflados do que mostrados pelo quadro clínico da doença. (JUNG, 1987 §198).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao estruturar um processo de psicodiagnóstico infantil, embasado na psicologia analítica,&nbsp;é importante que dentro deste processo, todas as etapas (apresentadas a seguir) tenham como ideia central esta imagem da criança, como ser em formação, ligada inconscientemente aos seus pais e sob efeito da autonomia dos complexos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">De modo geral o processo de psicodiagnóstico abrange, as seguintes etapas:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Entrevista de anamnese com os pais</strong><strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta entrevista pode se desenvolver em dois ou três encontros e tem como objetivo principal detalhar de forma mais específica possível a história de vida da criança. Isto engloba compreender seu ambiente familiar, desde um olhar sobre a infância de seus pais, a relação conjugal de ambos, condições sob a qual a criança foi concebida. Expectativas atendidas ou frustradas com a chegada da criança na família, histórias de abortos, outros filhos, relações parentais dos pais com seus genitores. JUNG (1991) afirma que “A causa recalcada do sofrimento, além da neurose [&#8230;] irradia-se de modo misterioso pelo ambiente e afeta também os filhos, caso existam. Deste modo são transmitidos muitas vezes por várias gerações” (JUNG, 1991, § 154).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Uso de teste psicol</strong><strong>ógicos</strong><strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Os testes psicológicos são uma ferramenta de bastante valor neste processo. Cabe aqui destacar que eles são parte do processo e tem como objetivo ajudar o profissional a conhecer e ampliar a sua visão sobre os pontos que estes tetes se propõe a averiguar.&nbsp;<strong>Os testes nã</strong><strong>o det</strong><strong>êm a verdade sobre a condiçã</strong><strong>o psicol</strong><strong>ógica da crianç</strong><strong>a.</strong>&nbsp;Toda criança vive sobre um determinado ambiente e contexto e estes dados devem ser levados em consideração na análise a ser realizada. Eles podem ajudar a reforçar determinadas percepções como também a descartar hipóteses.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">É importante destacar que os testes psicológicos são ferramentas de uso exclusivo do psicólogo, mas analistas junguianos e arte terapeutas podem e devem se valer dos conhecimentos das expressões e das representações simbólicas que são produzidas pelas crianças nos seus desenhos, pinturas e histórias. As cores, as formas e mesmo a atitude da criança ao desenhar contém muito sobre seu psiquismo. O processo de simbolização de conteúdos inconscientes&nbsp;é muito presente na expressão infantil. As imagens podem trazer representações de conteúdos arquetípicos, sombrios e dos complexos. Segundo RABELLO (2016), no livro&nbsp;<em>O desenho infantil</em>, ao criar, a criança estabelece uma dialética com a sua produção e ela “transforma a sua imaginação em formas gráficas e deixa registrado o que está sentindo, o que pensa, ou o que desejaria que acontecesse. (RABELLO, 2016, pag. 22). Ainda sobre o uso dos desenhos, FURTH (2004) afirma que “os complexos são descobertos a partir da análise de imagens do inconsciente, expressas nos desenhos, bem como nos sonhos.”&nbsp;(FURTH, 2004, pag. 33)</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Hora l</strong><strong>ú</strong><strong>dica</strong><strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta etapa consiste em uma ou duas sessões lúdicas com a criança. Nestas interações o analista precisa estabelecer uma relação com a criança e adotar uma postura de facilitador e observador atento na forma de expressão de seu cliente. Neste momento, o analista poderá se utilizar de recursos diversos para esta interação. A espontaneidade e a criatividade precisam estar presentes de modo genuíno. O brincar tem uma linguagem própria, sendo que neste fazer lúdico, a criança expressa e comunica a sua forma de estar no mundo. Segundo FORDHAM (2001):</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;[&#8230;] a brincadeira é um veículo para a comunicação significativa, um elemento que se revela especialmente útil ao analista. Em vez de falar, a criança irá brincar, exprimindo seus amores e ódios, medos e esperanças,&nbsp;às vezes de forma transparente, mas, em geral, de modo indireto. (FORDHAM, 2001, pag. 26).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Olhar multidisciplinar</strong><strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">O analista poderá contar ainda com relatos e com materiais de outros processos diagnósticos aos quais a criança já tenha sido submetida e que são conduzidos por outros profissionais, como pediatra, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, psiquiatra, professores e pedagogos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Todas estas etapas devem, ao final, serem consolidadas em uma visão global e sistêmica acerca da vida e da dinâmica da criança. Nada deve ser simplesmente descartado. Este conjunto de observações e dados coletados com e sobre a criança, constituem um material muito precioso para o analista junguiano. São recortes, expressões e manifestações genuínas da dinâmica inconsciente da criança, bem como de aspectos de seu drama familiar. Portanto, a análise deste material deve ser muito cuidadosa, para que o analista possa, ao concluir o psicodiagnóstico, estruturar uma devolutiva para os pais de modo que, nesta reunião, estes possam receber as orientações de forma clara sobre a conduta e continuidade do processo com a criança. Vale destacar ainda que, há uma grande chance de, com todo o processo realizado, de surgirem questões que não foram apontadas pelos pais no início do processo, pois segundo o próprio C. Jung (1991)&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>[&#8230;] tanto os pais como os filhos estão inconscientes a respeito do que está acontecendo. Como são contagiantes os complexos dos pais, deduz-se dos efeitos que suas singularidades produzem nos filhos. Mesmo que os pais façam esforços constantes e eficientes para se dominarem, de modo que um adulto nem sequer perceba o mínimo vestígio de um complexo adulto, os filhos, contudo, de qualquer maneira serão afetados por ele. (JUNG, 1991, §106)</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Por esta razão&nbsp;é necessário que se trabalhe de forma respeitosa, honesta e transparente, tendo como premissa o processo de desenvolvimento da criança bem como seu bem-estar físico e emocional. Caso haja a necessidade de orientação de terapia para seus pais, visto que a consciência e o ego da criança se encontram em formação e ainda sob forte influência dos complexos familiares, esta orientação precisa ser realizada.</p>



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<iframe title="Considerações sobre o processo de psicodiagnóstico infantil na clínica junguiana | Gilmara Alves" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/5LVFWzrVLKw?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências Bibliográficas</strong><strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">FORDHAM, Michael.&nbsp;<strong>A criança como indiví</strong><strong>duo</strong>. 1ª ed. São Paulo: Cultrix, 2001.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FURTH, Gregg M.&nbsp;<strong>O mundo secreto dos desenhos – uma abordagem junguiana da cura pela arte.</strong>Coleção Amor e Psique 1ª ed. São Paulo: Paulus, 2004.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HUTZ, Claudio Simon; BANDEIRA, Denise H.; TRENTINI, Clarissa M. &amp; KRUG, Jefferson Silva (organizadores).&nbsp;<strong>Psicodiagn</strong><strong>ó</strong><strong>stico</strong>. Porto Alegre. Artmed, 2016</p>



<p class="wp-block-paragraph">JACOBY, Mario.&nbsp;<strong>Psicoterapia junguiana e a pesquisa contemporânea com crianças.&nbsp;</strong>Coleção Amor e Psique. São Paulo: Paulus, 2010.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<strong>O desenvolvimento da personalidade</strong>. [1972] 5ª&nbsp;ed. Vol. XVII. Petrópolis: Vozes, 1991</p>



<p class="wp-block-paragraph">___________.&nbsp;<strong>A prá</strong><strong>tica da psicoterapia</strong>. [1971] 3ª&nbsp;ed. Vol. XVI/1. Petrópolis: Vozes, 1987</p>



<p class="wp-block-paragraph">OCAMPO, Maria Luísa S. de. &amp; colaboradores.&nbsp;<strong>O processo psicodiagnóstico e as técnicas projetivas.</strong>&nbsp;8ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1995</p>



<p class="wp-block-paragraph">RABELLO, Nancy.&nbsp;<strong>O desenho infantil. Entenda como a criança se comunica por meio de traços e cores</strong>. 3ª ed. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2019</p>
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		<title>Paixão e Poder</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/paixao-e-poder/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Rafael Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 08 Jun 2022 22:07:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicopatologia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[eros]]></category>
		<category><![CDATA[paixão]]></category>
		<category><![CDATA[poder]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">É clássica a frase de Jung, mencionada no volume 7/1 da obra, na qual ele antagoniza&nbsp;<strong>amor</strong>&nbsp;e&nbsp;<strong>poder</strong>:&nbsp;<em>“Pela lógica, o contrário do&nbsp;<strong>amor</strong>&nbsp;é o ódio; o contrário de Eros, Phobos (o medo). Mas, psicologicamente, é a vontade de&nbsp;<strong>poder</strong>. Onde impera o&nbsp;<strong>amor</strong>, não existe vontade de&nbsp;<strong>poder</strong>; e onde o&nbsp;<strong>poder</strong>&nbsp;tem precedência, aí falta o&nbsp;<strong>amor</strong>. Um é a sombra do outro”&nbsp;</em>(JUNG, OC 7/1, §78). Desde então, esta frase ainda ressoa um tanto quanto estranha, já que o antagonismo&nbsp;<strong>amor</strong>-ódio ainda é tido como o naturalmente “correto”, segundo o senso-comum.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A verdade é que esta afirmação de Jung é extremamente complexa, e para compreendê-la precisamos fazer um passeio por alguns&nbsp;<strong>fundamentos da psicologia analítica</strong>. Primeiramente, o que em geral categorizamos unicamente como “<strong>amor</strong>”, pode ser divido em quatro tipos de amores:&nbsp;&nbsp;porneia (emocional e egoísta), eros (relacional), philia (fraternal) e ágape (caridoso, altruísta) – vide palestra do VII Congresso Junguiano do IJEP, sobre Eros e Porneia, entre Waldemar Magaldi, Leonardo Torres e eu. Logo, quando Jung antagoniza&nbsp;<strong>amor</strong>&nbsp;e&nbsp;<strong>poder</strong>, é quase que um antagonismo entre porneia e ágape, isto é, entre egoísmo e altruísmo. O egoísmo é autoerótico, desejoso de si, e encontra a sua realização na fantasia de&nbsp;<strong>poder</strong>, enquanto altruísmo é fazer pelo outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para aumentar a confusão, apesar dessas distintas classificações de&nbsp;<strong>amor</strong>, até antagônicas entre si, popularmente há uma grande confusão também entre o&nbsp;<strong>amor</strong>&nbsp;e a&nbsp;<strong>paixão</strong>&nbsp;romântica. Não raro, uma pessoa em estado de apaixonamento imagina-se assim porque “sente muito&nbsp;<strong>amor</strong>&nbsp;pela outra pessoa”. Psicologicamente isto não é verdade, pois a&nbsp;<strong>paixão</strong>&nbsp;é um sentimento autoerótico, muito mais próximo ao&nbsp;<strong>amor</strong>&nbsp;porneia, egoísta, do que ao&nbsp;<strong>amor</strong>&nbsp;ágape, altruísta, voltado ao outro. Em outras palavras, o apaixonamento é um desejo por si mesmo, porém, projetado em alguém – veremos adiante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nunca é demais lembrar que&nbsp;<strong>paixão</strong>&nbsp;vem do grego&nbsp;<em>páthos [πάθοσ],</em>&nbsp;afecção / doença, e do latim&nbsp;<em>passio&nbsp;</em>(sofrimento passivo). A “<strong>paixão</strong>&nbsp;de Cristo” é essencialmente o sofrimento de Cristo (em inglês, a palavra grega&nbsp;<em>páthos&nbsp;</em>também<em>&nbsp;</em>é tida como a fonte da palavra inglesa&nbsp;<em>path</em>, que significa caminho). A&nbsp;<strong>paixão</strong>&nbsp;também é uma força arquetípica, sendo narrada em diversos mitos e contos, por exemplo, as análises psicológicas feitas em&nbsp;<em>We&nbsp;</em>de Johnson (1987) e em&nbsp;<em>Eros e Psiquê&nbsp;</em>de Neumann (2017) – além de clássicos da literatura, tais como&nbsp;<em>Romeu e Julieta</em>&nbsp;de Shakespeare,&nbsp;<strong><em>Amor</em></strong><em>&nbsp;de Perdição</em>&nbsp;de Camilo Castelo Branco, e muitos outros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por alguma razão, não muito clara, ao longo da história a ideia de&nbsp;<strong>paixão</strong>&nbsp;foi “glamourizada” como uma coisa boa, como se fosse um “excesso de&nbsp;<strong>amor</strong>”, ou um “excesso de um sentimento bom”, chegando até a ocupar a lista de valores corporativos: “precisamos ter&nbsp;<strong>paixão</strong>&nbsp;pela nossa empresa”. Do ponto de vista daquilo que a&nbsp;<strong>paixão</strong>&nbsp;desperta, é inegável que ela traga emoções muito boas de sentir, especialmente quando é correspondida, entretanto, ela é um aspecto mais iniciático da experiência do&nbsp;<strong>amor</strong>, que evoca a evolução para os outros amores – algo nem sempre alcançado. Para entender melhor a dinâmica psíquica da&nbsp;<strong>paixão</strong>, saindo da leitura senso-comum do fenômeno, precisamos buscar alguns conceitos de&nbsp;<strong>Carl Gustav Jung, fundador da psicologia analítica</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma das descobertas mais relevantes de Jung foram os complexos tonais afetivos, chamados simplesmente complexos. Estes são as estruturas básicas do inconsciente pessoal e são essencialmente agrupamentos de afetos que possuem correspondência entre si, com núcleo arquetípico, portanto, universais e presentes em todos nós. Por serem, a priori, inconscientes, os complexos não necessariamente correspondem às fantasias e vontades do ego, que também é um complexo, mas é dominante, e ocupa o centro da consciência (JUNG, OC 3; OC 8/2; OC 9/2). Muitas vezes um dos complexos do inconsciente pessoal atrai energia psíquica suficiente para romper o limite da consciência e incomodar os desígnios do ego (JUNG, OC 3; OC 8/1). Quando isto acontece, dizemos que há um complexo constelado:&nbsp;<em>“Este termo exprime o fato de que a situação exterior desencadeia um processo psíquico que consiste na aglutinação e na atualização de determinados conteúdos. A expressão “está constelado” indica que o indivíduo adotou uma atitude preparatória e de expectativa, com base na qual reagirá de forma inteiramente definida. A constelação é um processo automático que ninguém pode deter por vontade própria. Esses conteúdos constelados são determinados complexos que possuem energia específica própria”&nbsp;</em>(JUNG, OC 8/2, §198).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com o complexo constelado o ego entra em embate com dinâmicas diferentes das suas dominantes, e esta luta será sentida na consciência por meio dos sintomas, afetos, sentimentos e até comportamentos “anormais” – diferentes dos padrões dominantes. O complexo tem vontades e sentidos próprios, e não possui compromisso com moralidade, com os códigos de conduta, ou com a persona que ocupam a consciência. Dito isto, em termos psíquicos, a&nbsp;<strong>paixão</strong>, sentimento tão glamourizado, nada mais é do que um complexo constelado. Em outras palavras, o estado de apaixonamento, que é repleto de afetos, intensidades, estranhamentos, euforias, é basicamente a emersão de um complexo do inconsciente para a consciência. Contudo, sem reconhecer conscientemente que a&nbsp;<strong>paixão</strong>&nbsp;é um sintoma do complexo constelado, justamente pelo fato de no seu&nbsp;<em>mix&nbsp;</em>de emoções existirem algumas que transmitem sentimentos muito positivos, o apaixonado fica num estado de encantamento, entorpecido pela sua própria imagem projetada no outro. Diz Jung:&nbsp;<em>“o apaixonado é possuído pelo seu complexo: todo o seu interesse volta-se para o complexo e as coisas que lhe dizem respeito [&#8230;]. O que não diz respeito ao complexo é excluído e os demais interesses desaparecem no nada; surge uma atrofia temporária e um esvaziamento da personalidade</em>&nbsp;(JUNG, OC 3, §102).</p>



<p class="wp-block-paragraph">No processo de apaixonamento, como o indivíduo está possuído por um profundo &#8220;compromisso” com o complexo, ele é incapaz de relativizar, de ponderar, de refletir, pois apenas a lógica do complexo é o que vale. Diversas vezes, quando observamos um familiar ou amigo apaixonado, dizemos que “esta pessoa está diferente”. E está mesmo, pois o dominante vigente na consciência é algo alternante entre complexo e ego, e não apenas o ego conhecido de outrora. Apesar dessa chuva de emoções, Robert Johnson (1987), no seu clássico livro&nbsp;<em>We</em>, desconstrói a ilusão ao dizer que o ruim da&nbsp;<strong>paixão</strong>&nbsp;é que ela acaba. Isso significa que tudo que foi projetado pelo complexo e que levou o sujeito ao estado de apaixonamento, tende a cair, e é nesse momento que é preciso lidar com o outro de maneira autêntica, olhando para ele tal como é, destituído da “embalagem” projetada pelo complexo. É também neste momento que muitos relacionamentos acabam, pois dirá o senso-comum que “o&nbsp;<strong>amor</strong>&nbsp;acabou”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No belo artigo&nbsp;<em>Medo de amar&nbsp;</em>do Prof. Dr. Waldemar Magaldi Filho, ele menciona um conto de autoria desconhecida, no qual um sábio diz à um jovem que:&nbsp;<em>“amar é uma decisão, não um sentimento ou um desejo.&nbsp;Amar é dedicação, é atitude.&nbsp; Amar é um verbo e o fruto dessa ação é o próprio&nbsp;<strong>amor</strong></em>” (MAGALDI FILHO, 2019).&nbsp;Isso significa que&nbsp;<strong>amor</strong>&nbsp;e&nbsp;<strong>paixão</strong>&nbsp;não são as mesmas coisas. Enquanto o primeiro é uma opção, uma escolha, o segundo é um fenômeno autônomo da psique, impetuoso. Contudo, raramente optamos por amar genuinamente, pois preferimos o entorpecimento da&nbsp;<strong>paixão</strong>, assim como Tristão que se apaixonada por Isolda quando toma uma poção envenenada (JONHSON, 1987), ou como Eros que se apaixona por Psiquê ao se ferir com a própria flecha, provando do próprio veneno (NEUMANN, 2017). Também não nos esqueçamos que a origem das palavras&nbsp;<em>veneno</em>&nbsp;ou&nbsp;<em>envenenamento</em>&nbsp;provém de Vênus, a deusa romana do&nbsp;<strong>amor</strong>, e a Afrodite da mitologia grega (tida como mãe de Eros em algumas narrativas). Daí a proximidade entre estar apaixonado e estar, metaforicamente,&nbsp;<em>envenenado</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É curioso notar o valor da recompensa emocional na&nbsp;<strong>paixão</strong>: mesmo que boa parte da experiência do apaixonamento seja ruim, às vezes muito violenta, literalmente, um simples gesto positivo da pessoa que é objeto da projeção é suficientemente forte para despertar a frase, na maioria das vezes ingênua, que diz “agora é diferente, ele/ela mudou”. Diferentemente disso, o que ocorre é que o outro não possui compromisso irrestrito com o conteúdo do complexo projetado que recebe, e naturalmente demonstrará, ao longo do tempo do relacionamento, que de fato é uma pessoa diferente daquela idealizada pelo universo da&nbsp;<strong>paixão</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando algum gesto de um dos apaixonados corresponde à expectativa do conteúdo projetivo que recebe, o outro vê como positivo, como uma recompensa; já quando ele demonstra as diferenças de sua personalidade versus a projeção que recebe, poderá ouvir que “surpreendente mudou, pois não era assim antes”. Não é que ele “não era assim antes”. Na verdade, durante o apaixonamento, a cegueira da&nbsp;<strong>paixão</strong>nos impede de olharmos para as pessoas tais como elas são, positiva e negativamente, portanto, à medida que a projeção cai, a percepção da consciência é de que a pessoa mudou, mas isso não é exatamente uma verdade absoluta, pois o que mudou foi o conteúdo projetado, muitas vezes invertido com&nbsp;<strong>paixão</strong>, tornando-se ódio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por ser essencialmente uma relação autoerótica (porneia), a&nbsp;<strong>paixão</strong>&nbsp;é também um exercício inconsciente de&nbsp;<strong>poder</strong>. Queremos que o objeto de devoção aja tal e qual os desejos do complexo. Queremos fazer do outro uma cópia de nós mesmos. Queremos possuir o outro, como um produto que pode ser comprado:&nbsp;<em>“Nas relações interpessoais, a maioria dos problemas enfrentados são problemas de porneia, vale dizer, de não aceitação da alteridade: o outro é minha propriedade, minha vida, minha metade, minha posse&#8230;”</em>&nbsp;(VIVERET, 2013, p. 39).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O problema é que esse padrão não se apresenta exclusivamente nos relacionamentos românticos; ele se repetirá em muitas outras áreas da vida, em que, tomados por uma&nbsp;<strong>paixão</strong>, almejaremos buscar “tudo para nós”, “do nosso jeito”. Vamos querer que nossos chefes no trabalho “ajam de tal e tal forma”, que nossos pais “sejam desta e daquela maneira” e que nossos amigos “se comportem segundo este modelo”. Exercemos nossa porneia, egoísmo, desejo autoerótico de&nbsp;<strong>poder</strong>, deliberadamente, seja nos relacionamentos humanos, seja na obsessão pelo dinheiro (que na atualidade se reflete em maior&nbsp;<strong>poder</strong>), seja na obsessão pela “persona perfeita” (haja visto a enxurrada de procedimentos estéticos buscados pelas pessoas, e que poucas vezes se refletem em mudanças interiores), seja no exercício do&nbsp;<strong>poder</strong>&nbsp;em si (líderes empresariais, religiosos e políticos, que agem apenas a favor de si ou para manter seu séquito). Todos que estão em porneia, em relacionamentos autoeróticos, “envenenados” pelo&nbsp;<strong>poder</strong>, desconsideram o outro e, consequentemente, o arquétipo da totalidade, que é o Self [si-mesmo], a&nbsp;<em>imago Dei</em>&nbsp;em nós.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Voltando ao início de nosso texto, quando Jung afirma que o&nbsp;<strong>amor</strong>&nbsp;faz oposição ao&nbsp;<strong>poder</strong>, é dizer o mesmo que o excesso de si mesmo [ego] sem hífen, é a negação do si-mesmo [Self], com hífen. Neste sentido, o ódio, faz oposição ao desejo, ainda que no ódio haja o desejo de destruição do odiado; é uma projeção sombria da vontade de “possuir” um alguém que por qualquer razão não corresponde às fantasias projetivas da&nbsp;<strong>paixão</strong>, de ser dominado, de ser subjugado ao&nbsp;<strong>poder</strong>&nbsp;autoerótico do outro, passando, portanto, a “merecer” o ódio, ou a destruição.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O estado de apaixonamento é natural do processo de amadurecimento do ego e, naturalmente, a maioria de nós estará exposto a ele em algum(uns) momento(s) na vida – especialmente na juventude, mas não apenas –, pois como toda constelação de complexos, a&nbsp;<strong>paixão</strong>&nbsp;não é uma escolha, é um acontecimento: são os complexos que nos tem e não nós que os temos. Também lembremos que se apaixonar é gostoso (e às vezes sofrível), e precisamos viver de alguma forma esta experiência. Por outro lado, precisamos ampliar a consciência e saber que a&nbsp;<strong>paixão</strong>&nbsp;anda lado a lado com o&nbsp;<strong>poder</strong>, e que o fato dela aparecer em nossa vida é justamente para nos dar a chance de reconhecer conscientemente o desejo de&nbsp;<strong>poder</strong>&nbsp;que nos habita, para criarmos novos sentidos e significados para as nossas relações, construindo e optando por outras formas de&nbsp;<strong>amor</strong>, mais horizontais e altruístas, mas sem o abandono de si, e sem desconsiderar o Self. No fim, o caminhar deveria ser no sentido da Harmonia, que na mitologia grega era a filha de Afrodite (deusa do&nbsp;<strong>amor</strong>) com Ares (deus da guerra, que também evoca a ideia de&nbsp;<strong>poder</strong>&nbsp;ou soberania).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se&nbsp;<strong>poder</strong>&nbsp;e&nbsp;<strong>amor</strong>&nbsp;são opostos, significa que um não existe sem o outro, e por isso relembremos da frase de Jesus quando tentado pelo diabo no deserto:&nbsp;<em>“Tornou o diabo a levá-lo para um monte muito alto. E mostrou-lhe todos os reinos do mundo com o seu esplendor e disse-lhe ‘Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares’. Aí Jesus lhe disse: ‘Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás e a Ele só prestarás culto’</em>&nbsp;(Mt, 4, 8-10). Dito de outra forma, e lendo esta passagem simbolicamente, Jesus não nega o convite do diabo de possuir todos os reinos, de exercer seu “<strong>poder</strong>”, mas também não aceita, pois é como se ele dissesse “que eu use este desejo por&nbsp;<strong>poder</strong>&nbsp;que você insufla em mim, como caminho para eu doar&nbsp;<strong>amor</strong>”.</p>



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<iframe title="Paixão e Poder | Rafael Rodrigues" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/OlnuUik5UrI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Rafael Rodrigues de Souza – Analista Didata em formação</p>



<p class="wp-block-paragraph">Analista Didata – Waldemar Magaldi Filho</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referência</strong>s:</p>



<p class="wp-block-paragraph">JOHNSON, Robert.&nbsp;<em>We: a chave da psicologia do amor romântico</em>. São Paulo: Mercuryo, 1987.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<em>Psicogênese das doenças mentais [OC 3]</em>. 6ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<em>Psicologia do inconsciente [OC 7/1]</em>. 24. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<em>A energia psíquica [OC 8/1]</em>. 8ª ed. Corrigida. Petrópolis: Vozes, 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<em>A natureza da psique [OC 8/2]</em>. 10ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<em>Aion – estudo sobre o simbolismo do si-mesmo [OC 9/2]</em>. 10ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NEUMANN, Erich.&nbsp;<em>Eros e Psiquê: amor, alma e individuação no desenvolvimento do feminino</em>. 2ª ed. São Paulo: Cultrix, 2017.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MAGALDI FILHO, Waldemar.&nbsp;<em>Medo de amar</em>. IJEP, set. 2019. Disponível em:&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/artigos/show/medo-de-amar">https://www.ijep.com.br/artigos/show/medo-de-amar</a>. Acesso em: 03/06/2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">VIVERET, Patrick.&nbsp;<em>O que faremos com a nossa vida?</em>&nbsp;<em>In</em>: MORIN, Edgar; VIVERET, Patrick (Orgs.)&nbsp;Como viver em tempo de crise? [recurso eletrônico]. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013. p. 18-41</p>
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