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	<title>Arquivos Totalitarismos - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Fri, 08 May 2026 13:53:47 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos Totalitarismos - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Racismo Religioso: uma das faces de um complexo cultural sombrio do Brasil</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/racismo-religioso-uma-das-faces-de-um-complexo-cultural-sombrio-do-brasil/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leila Montanha]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 11 Aug 2022 10:52:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Totalitarismos]]></category>
		<category><![CDATA[candomblé]]></category>
		<category><![CDATA[macumba]]></category>
		<category><![CDATA[preconceito religioso]]></category>
		<category><![CDATA[racismo]]></category>
		<category><![CDATA[racismo religioso]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo foi elaborado como uma ampliação da palestra apresentada no VII Congresso do IJEP pela professora e analista didata Santina Rodrigues, da qual participei junto aos meus colegas e membros em formação do IJEP:&#160;Erika Mendel,&#160;Isa Carvalho, Jacqueline Sá, Homero Mazzola e Tarsila De Níchile.&#160;O Congresso teve como tema os&#160;Complexos Culturais e a Sombra Contemporânea [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-black-color has-text-color">Este artigo foi elaborado como uma ampliação da palestra apresentada no VII Congresso do IJEP pela professora e analista didata Santina Rodrigues, da qual participei junto aos meus colegas e membros em formação do IJEP:&nbsp;Erika Mendel,&nbsp;Isa Carvalho, Jacqueline Sá, Homero Mazzola e Tarsila De Níchile.&nbsp;O Congresso teve como tema os&nbsp;<em>Complexos Culturais e a Sombra Contemporânea nas Artes, Ciências e Religiões</em>. O objetivo deste artigo é denunciar a violência histórica que tem sido infringida às religiões afro-brasileiras e discutir as bases psicológicas que estão por trás desta violência.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Segundo a&nbsp;Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos (ONDH), do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos (MMFDH), em 2021 foram registradas 571 denúncias de violação à liberdade de crença em nosso país, mais do que o dobro (243) das denúncias registradas em 2020. De acordo com Vilela (2022) mais da metade dos ataques foram efetuados nos espaços religiosos conhecidos como “terreiros” de Umbanda e Candomblé, religiões de matriz africana. Olhando os dados em uma série histórica mais longa, podemos ver que esta violência não é&nbsp;<a>nova</a>, mas se mostra mais intensa, possivelmente em função da polarização política observada no Brasil recentemente. A esse respeito, reportagem da revista Carta Capital (2017) mostrou que houve “uma explosão de denúncias de intolerância religiosa”, que passaram de 15 casos em 2011 para 776 em 2016, segundo dados do Disque 100 do Governo Federal.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Entretanto, podemos dizer que, mais do que intolerância religiosa, estes ataques são exemplos de uma das faces do <strong>racismo</strong> <strong>estrutural</strong> que domina a sociedade brasileira desde suas origens históricas. Não podemos minimizar estes ataques, reduzindo-os a uma luta por adeptos entre religiões. Entendo que se trata de ataques a um segmento da sociedade brasileira marcado pela exclusão social, pois atacar as religiões de raízes africanas é o mesmo que renegar o passado histórico que deu origem a tais religiões no Brasil. Isso é maior do que “apenas” um preconceito contra uma religião específica.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Um dos motivos para essa situação pode ser associado ao avanço das religiões neopentecostais e a todo o contexto político social dos últimos anos que agravaram esta situação. O crescimento político das bancadas evangélicas em nível regional e nacional, além do apoio do poder executivo a esta linha religiosa, validam muitos dos atos de perseguição às religiões afro-brasileiras. Além disso, um determinado grupo de&nbsp;<a>igrejas evangélicas</a>&nbsp;utilizam modernas técnicas empresariais, como o uso da mídia televisiva,&nbsp;<a>rádio</a>&nbsp;&nbsp;e das redes sociais, além de técnicas de marketing e treinamento de seus pastores visando à expansão e prosperidade econômica das igrejas. Mas, para além deste cenário atual, entendo que a perseguição às religiões afro-brasileiras é histórica e remonta ainda ao nosso período de escravidão, como veremos a seguir.</p>



<p class="has-black-color has-text-color"><strong>Religião como forma de resistência dos negros escravizados no Brasil.</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color">Segundo Trindade (2014, pág.48): “(&#8230;) na África, cada divindade (Orixá, Inkice, Vodun etc.) tem seus sacerdotes especializados, suas confrarias, seus conventos, seus locais de culto.” Não foi possível manter esta especialização no Brasil pois, ao serem capturados e escravizados para serem enviados ao Brasil, os africanos de diversas regiões e etnias foram misturados. Além disso, Trindade pontua que&nbsp;<a>“suas religiões, quaisquer que fossem, estavam ligadas a certas formas familiares ou de organização de clãs, a meios biogeográficos especiais, à floresta tropical ou à savana, a estruturas aldeãs e comunitárias”.&nbsp;</a>Junta-se a isso a prática dos fazendeiros no Brasil de comprar lotes de pessoas de diferentes etnias, preferencialmente que não tivessem nenhuma ligação de parentesco ou a mesma língua, com o objetivo de reduzir o risco de rebelião ou fugas. Segundo Ortiz:&nbsp;</p>



<p class="has-black-color has-text-color"><a>Apesar</a>&nbsp;dos efeitos destrutivos que o tráfico e o sistema escravagista imprimiram nos costumes africanos, a memória coletiva negra conseguiu encarnar-se no solo brasileiro. Preserva-se desta forma o culto de grande parte dos deuses africanos, ao mesmo tempo em que reinterpretam-se práticas e costumes através de danças como o lundu, das embaixadas, dos reis congos. Pouco a pouco a herança africana se transforma assim em elementos culturais afro-brasileiros (apud TRINDADE, 2014, pág. 49).</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Se a diversidade de culturas presentes nas senzalas brasileiras impossibilitou um culto específico, a crença nos Orixás se tornou um elo comum entre a maior parte das etnias. Com exceção dos negros mandingas, que eram muçulmanos, os demais acreditavam em Zambi (Deus) e nos Orixás. A forma e finalidade dos cultos também foi adaptada, pois na África tinham um caráter mais coletivo, sendo realizados em prol de toda a comunidade, para pedir abundância nas colheitas e também a fecundidade da terra e dos rebanhos. No Brasil, isso não fazia sentido, afinal, por que rezariam por aqueles que os aprisionavam e tratavam de modo tão violento? Para não chamar a atenção de seus algozes, os escravos aproximaram os Orixás dos santos católicos e os adaptavam às necessidades espirituais dos escravos. Um exemplo disso citado por Trindade é Ogum, um orixá que na África “era o patrono dos ferreiros, protetor das ferramentas agrícolas de ferro”, e que passou a ser reconhecido como o deus da guerra e da vingança, o protetor que os libertaria (TRINDADE, 2014, pág. 50).</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Sabendo que a única ligação que tinham nas senzalas era a cor da pele e o fato de estarem escravizados, os africanos buscaram fortalecer e criar laços baseados na crença dos Orixás. Assim, à noite, quando os senhores brancos dormiam, grupos de escravos iam para as matas e, muitas vezes guiados por índios, que os apresentaram a “diferentes reinos da Natureza”, davam suas “<a>obrigações</a><a href="applewebdata://F0455DEA-E500-4918-B71B-9B52065292D5#_ftn1"><sup>[1]</sup></a>” aos Orixás. Na mata, também eram realizadas novas iniciações ao culto e, para que não houvesse suspeita sobre esta práticas, o iniciado ia à igreja no dia seguinte. Essa prática se tornou um ritual utilizado até hoje, especialmente nos candomblés de Salvador, na Bahia.&nbsp;</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Se olharmos a evolução das leis que regem o tema “religião” ao longo do tempo, podemos entender como o estado brasileiro procurou conter a religiosidade advinda desta nova expressão religiosa nascida nas senzalas. Segundo Vaz (2021), a criminalização das religiões de matriz africana ocorreu antes mesmo de o Brasil possuir uma ordem jurídica própria, ainda durante a regência das Ordenações do Reino de Portugal. Durante a vigência das Ordenações Filipinas, que foram as últimas ordenações aplicadas no Brasil e que tiveram maior tempo de vigência (1603-1830), o Libro V (Dos Crimes), criminalizava a heresia, prevendo em seu título I as penas corporais, e em seu título III a feitiçaria, com a pena capital. Muitas pessoas negras escravizadas foram acusadas da prática de feitiçaria, devido a associação efetuada pelos seus “senhores”, que relacionavam seus ritos religiosos a prática da magia.&nbsp;&nbsp;(VAZ,&nbsp;<a>2022</a>&nbsp;).&nbsp;</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Já a Constituição de 1824 definiu o catolicismo como religião oficial do Império, mas garantiu a liberdade de culto de outras religiões, desde que exercido em ambiente doméstico e sem ostentação de templos (idem, 2022). O Código Criminal de 1830, por sua vez, em seu artigo 276, passou a considerar crime qualquer celebração pública, em casa ou edifício com forma exterior de templo, de cultos de outra religião que não fosse a oficial do Estado (idem,&nbsp;<a>2022</a>). A pena prevista para este tipo de crime era a de dispersão dos participantes do culto pelo Juiz de Paz, a demolição da forma exterior do templo, e multa a ser cobrada individualmente aos participantes dos cultos” (ibidem,&nbsp;<a>2022</a>).</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Houve ainda um Decreto em 1832, que buscava manter o controle sobre as pessoas negras escravizadas e suas práticas religiosas, obrigando os escravos a se converterem à religião católica. O Código Penal de 1890, por sua vez, considerava o espiritismo como crime contra saúde pública, em seu artigo 157, e o curandeirismo, no artigo 158, práticas que eram consideradas como diretamente relacionadas às religiões de matriz africana”&nbsp;<a>(VAZ, 2022).&nbsp;</a>Até que, finalmente, a Constituição Republicana de 1891 estabeleceu a separação entre Estado e Igreja e revogou grande parte das restrições aos cultos não católicos.&nbsp;</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Porém, nem esta constituição conseguiu assegurar igual liberdade de crença e de culto às religiões afro-brasileiras. Em primeiro de fevereiro de 1912, em Alagoas, uma operação paramilitar conhecida como “Quebra” ou Operação Xangô destruiu os principais terreiros da capital, bem como seus objetos sagrados. Os líderes dos terreiros foram espancados em praça pública e esta violência se estendeu para o interior do estado, resultando num fenômeno de silenciamento dos rituais afro-brasileiros, conhecido como “xangô-rezado-baixo”, que descaracterizou os rituais, que passaram a ser realizados de maneira silenciosa, sem atabaques, sem os pontos cantados, nem as palmas&nbsp;<a>(RAFAEL, 2014).</a>&nbsp;</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Continuando a analisar a evolução das leis criminais e seu impacto na repressão às religiões de matriz africanas, temos, na segunda metade do século XX, o Código Penal de 1940, ainda vigente, que criminaliza o charlatanismo em artigo 283 e o curandeirismo no artigo 284, práticas que historicamente foram associadas às religiões afro-brasileiras. Além disso, na Paraíba, a lei 3.443, de 1966, determinava que sacerdotes e sacerdotisas das religiões de matriz africana se submetessem a exame de sanidade mental com emissão de laudo psiquiátrico, e na Bahia, a lei 3.097, de 1972, impunha o cadastramento dos terreiros nas Delegacias de Jogos e Costumes, exigência que foi abolida em 15 de janeiro de 1976, por meio do Decreto-Lei nº 25.095. Nesse período, era habitual a ostensiva repressão policial aos terreiros, com interrupção de atividades religiosas, prisão de filhas e filhos de santo, e apreensão de objetos sagrados&nbsp;<a>(VAZ, 2022).</a></p>



<p class="has-black-color has-text-color">Com relação à apreensão de objetos sagrados, as religiões afro-brasileiras foram as únicas a terem seus objetos sistematicamente apreendidos ao longo da história brasileira. Entre 1891 e 1946 mais de 500 objetos de religiões de matriz africana, especificamente de Candomblé e Umbanda, foram apreendidos pela polícia do estado do Rio de Janeiro, apesar da Carta Constitucional de 1891, no Brasil República, já ter estabelecido o Estado laico e a liberdade de crença e culto&nbsp;<a>(idem, 2022).&nbsp;</a></p>



<p class="has-black-color has-text-color">Em 1938, parte dessas peças formou um acervo tombado pelo então SPHAN – Serviço do Patrimônio Histórico Artístico Nacional, em documento nomeado a partir de uma lógica racista como “Coleção<strong>&nbsp;</strong>Museu de Magia Negra”, evidenciando a intolerância religiosa. Objetos sagrados para os povos dos terreiros foram apreendidos e encaixotados nas batidas policiais, sendo que somente em setembro de 2020 os objetos sagrados afro-brasileiros foram transferidos para o Museu da República, passando a compor o acervo Sagrado Afro-Brasileiro (CRUZ e PIVA,&nbsp;<a>2020</a>).&nbsp;</p>



<p class="has-black-color has-text-color"><strong>Racismo religioso: um complexo cultural brasileiro.</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color">A teorização sobre complexos culturais aparece na teoria junguiana a partir das obras de Samuel Kimbles e Thomas Singer, dois analistas junguianos&nbsp;<a>de</a>&nbsp;São Francisco, que partiram da teoria dos complexos criada originalmente por C. G. Jung a partir dos estudos experimentais com o teste de associação de palavras, quando ainda trabalhava como psiquiatra no Hospital psiquiátrico Burghözli (JUNG, OC &#8211; vol.2<a href="applewebdata://F0455DEA-E500-4918-B71B-9B52065292D5#_ftn2"><sup>[2]</sup></a>). Esses analistas californianos agregaram o conceito de Inconsciente Cultural&nbsp;<a>(1990),&nbsp;</a>&nbsp;proposto anteriormente pelo médico e analista junguiano Henderson, que estudou e fez análise com Jung na década de 1920, para comporem a teoria dos Complexos Culturais.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Joseph Henderson, em seu artigo de 1990&nbsp;<em>The cultural&nbsp;<a>unconscious</a></em>&nbsp;<em>&nbsp;</em>traz para a psicologia analítica um novo conceito, o de Inconsciente Cultural, a partir de sua constatação de que havia um aspecto pouco explorado na teoria junguiana, que entendeu se tratar de um nível cultural da psique. O Inconsciente Cultural seria, então, uma camada intermediária entre o Inconsciente Pessoal e o Inconsciente Coletivo, teorizados inicialmente por Jung.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Para Henderson (apud CAMBRAY e CARTER (2020), o Inconsciente Cultural pode ser definido como:</p>



<p class="has-black-color has-text-color">U<a>ma área da memória histórica que fica entre o inconsciente coletivo e o padrão manifesto da cultura. Ele pode incluir essas duas modalidades, consciente e inconsciente, mas tem alguma espécie de identidade originada nos arquétipos do inconsciente coletivo que assiste na formação do mito e do ritual e que também promove o desenvolvimento dos indivíduos (HENDERSON, 1990, pág. 102 apud CAMBRAY e CARTER, 2020, pág. 263).</a></p>



<p class="has-black-color has-text-color"><a>Singer e Kimbles&nbsp;</a><a href="applewebdata://F0455DEA-E500-4918-B71B-9B52065292D5#_msocom_26">[SRdO26]</a>&nbsp;(apud CAMBRAY e CARTER, 2020), partiram da teoria dos complexos, concebida por Jung e a juntaram à teoria de Henderson sobre um Inconsciente Cultural para chegar a uma nova teorização referente aos Complexos Culturais. Segundo&nbsp;<a>Kimbles</a>&nbsp;(apud CAMBRAY e CARTER (2020):</p>



<p class="has-black-color has-text-color">U<a>m “complexo cultural” é um modo de descrever como crenças e emoções profundamente arraigadas operam na vida do grupo e dentro da psique individual, mediando o relacionamento de um indivíduo com um grupo, nação ou cultura específica (CAMBRAY e CARTER, 2020, pág. 271)</a></p>



<p class="has-black-color has-text-color">Kimbles c<a>ontinua</a><a href="applewebdata://F0455DEA-E500-4918-B71B-9B52065292D5#_msocom_30">[SRdO30]</a>&nbsp;, dizendo que “assim, o nível grupal da psique e o nível individual fazem simultaneamente sua contribuição para o senso do grupo e da experiência subjetiva individual” (apud CAMBRAY e CARTER, idem, idem).</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Para Kimbles, os complexos culturais operam autonomamente abaixo de nossa consciência. São expressões de um fenômeno em que um complexo de grupo opera dentro do inconsciente cultural:</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Os&nbsp;<a>complexos culturais funcionam por indução psíquica. Eles criam uma ressonância entre as pessoas que produz um senso de familiaridade. Negativamente, eles funcionam por meio de signos linguísticos coletivos de tipo emocional, ultrapassando o pensamento e a reflexão, prontificando indivíduos e grupos à ação. (CAMBRAY e CARTER, 2020, pag. 272).</a></p>



<p class="has-black-color has-text-color">Kimbles pontua ainda que, embora os complexos culturais possam estar “positivamente envolvidos no senso de pertencimento do indivíduo e de sua identificação com seu grupo de&nbsp;<a>referência</a>” (KIMBLES apud CAMBRAY e CARTER, 2020, pag. 272), funcionando como um “centro nucleador” para a vida do grupo, podem também atuar negativamente, com base nesse pertencimento, gerando “estereótipos e toda uma psicologia da alteridade ameaçada” (idem, idem). Kimbles continua dizendo que “todo grupo tem um volume de imagens sobre aqueles que são diferentes. Esses diferentes são geralmente patologizados ou demonizados, mas raramente idealizados.” (Idem, apud CAMBRAY e CARTER, 2020, pag. 272).</p>



<p class="has-black-color has-text-color">É justamente esta atuação negativa de um determinado complexo cultural que pode levar à perseguição da expressão religiosa de um povo e, especificamente no Brasil, das religiões afro-brasileiras. Antes de ser brasileira, esta forma de expressão religiosa era africana e foi aprisionada em estereótipos que a consideravam como inferior. Toda sua forma&nbsp;de expressão – dança, utilização de tambores e oferendas – está ligadas à cultura de um povo que foi, para utilizar a expressão de Kimbles, demonizado, relacionado a práticas de charlatanismo, feitiçaria e criminalizado desde os seus primórdios.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Reginaldo Prandi (2007), em uma conferência sobre as religiões afro-brasileiras nas ciências sociais, nos conta que Roger Bastide divide com Pierre Verger o interesse pelos orixás no Brasil e na África. Segundo seu relato, Bastide concluiu que foi o candomblé da Bahia que permitiu aos negros escravizados chegarem às interpretações “mais&nbsp;decisivas sobre a recriação no Brasil de uma África simbólica capaz de atenuar as agruras da vida do negro na sociedade branca”.&nbsp;&nbsp;Isso caracterizou “num processo em que o templo (terreiro) aparece como sucedâneo do mundo africano que tinha ficado para trás, do outro lado do Atlântico”. (PRANDI, 2007, pág. 10)</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Prandi continua. dizendo que Bastide entende o candomblé, para o negro, como uma recriação de “um mundo ao qual ele podia, com certa regularidade, se retirar da sociedade branca opressiva e dominadora, uma pequena África fora da sociedade”.&nbsp;&nbsp;O terreiro podia ser entendido como substitutivo da perdida cidade africana e da família que não pôde ser refeita no Brasil nos moldes africanos, pois que:</p>



<p class="has-black-color has-text-color"><a>O candomblé punha à disposição do negro brasileiro um mundo também negro, comunitário-familiar, justaposto ao mundo branco, de modo que o fiel pudesse passar de um mundo para o outro como se fossem dimensões ortogonais de uma mesma realidade, em que o não-religioso significava a adversidade a que o negro estava sujeito pela realidade histórica da escravidão (PRANDI, 2007, pág. 10).</a></p>



<p class="has-black-color has-text-color">A perseguição e a violência contra as religiões afro-brasileiras podem ser vistas como reflexos diretos da não-aceitação do negro na cultura brasileira, da não-permissão para expressar o seu universo simbólico e sagrado. O que revela uma interdição para esconder parte da nossa história, aquela que compõe quem somos desde nossas origens, uma conduta autoritária para tornar os filhos e filhas de terreiro invisíveis para a sociedade, a partir da repressão e/ou tentativa de extinção de seus símbolos religiosos e culturais.&nbsp;</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Prandi explica que as religiões afro-brasileiras são formadas por pequenos grupos que se congregam, nos terreiros, em torno de uma mãe ou pai-de-santo. E que embora existam “relações protocolares de parentesco iniciático entre terreiros, cada um deles é autônomo e autossuficiente”, não há “nenhuma organização institucional eficaz que os unifique ou que permita uma ordenação mínima capaz de estabelecer planos e estratégias comuns na relação da religião afrobrasileira com as outras religiões e o resto da sociedade” (PRANDI, 2007, pág.&nbsp;<a>19</a>). As federações de umbanda e candomblé poderiam fazer este papel de união dos terreiros, porém hierarquicamente não existe uma autoridade acima do pai ou da mãe-de-santo. Então, de fato, as religiões afro-brasileiras não conseguem se defender em uníssono de todas estas agressões e ficam&nbsp;fragilizadas em função da sua própria forma de constituição que não privilegia um processo de institucionalização. Esta fragilidade em relação aos ataques me leva a temer pela continuidade da sua existência, o que seria, além de muito triste, uma terrível perda para a cultura brasileira. Que Oxalá não permita que todos os aromas, sabores, música, saberes, rituais e histórias ligadas às religiões de terreiros sejam extintas. Que possamos, como brasileiros, nos tornar cada vez mais tolerantes à diversidade, admiradores e conhecedores desta parte da nossa herança cultural afro-brasileira, que nos constitui como povo, apesar de todo o preconceito e ataques sofridos ao longo de nossa formação histórica e social.</p>



<p class="has-black-color has-text-color"><strong>Referências:</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color">CAMBRAY, Joseph, CARTER, Linda (org.)&nbsp;<strong><em>Psicologia analítica – Perspectivas contemporâneas em análise junguiana</em></strong>.&nbsp;Rio de Janeiro, Editora Vozes, 2020.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">A INTOLERÂNCIA religiosa não vai calar os nossos tambores<strong>.&nbsp;Carta Capital</strong>, 09 de outubro de 2017. Disponível em&nbsp;<a href="https://www.cartacapital.com.br/diversidade/a-intolerancia-religiosa-nao-vai-calar-os-nossos-tambores%20em%2009/10/2017%20%C3%A0s%2015h:58">https://www.cartacapital.com.br/diversidade/a-intolerancia-religiosa-nao-vai-calar-os-nossos-tambores</a>. Acesso&nbsp;<a>em:&nbsp;</a>21 de março de 2022.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">CRUZ, Cintia e Dal Piva, Juliana<strong>.&nbsp;</strong>Depois de 130 anos apreendidas, peças de religiões afro-brasileiras chegam ao Museu da República.&nbsp;<strong>O Globo</strong>, 29 de setembro de 2020.&nbsp;Disponível em&nbsp;<a href="https://oglobo.globo.com/epoca/depois-de-130-anos-apreendidas-pecas-de-religioes-afro-brasileiras-chegam-ao-museu-da-republica-1-24652424.%20">https://oglobo.globo.com/epoca/depois-de-130-anos-apreendidas-pecas-de-religioes-afro-brasileiras-chegam-ao-museu-da-republica-1-24652424.&nbsp;</a>Acesso em: 01 de abril de 2022.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">LANGLOIS, Jill<strong>.&nbsp;</strong>Peças sagradas de religiões afro-brasileiras deixam guarda da polícia após 75 anos.&nbsp;<strong>Nathional Geographic Brasil</strong>, 20 de novembro de 2020.&nbsp;&nbsp;&nbsp;Di<a>sponível em</a>&nbsp;<a href="https://www.nationalgeographicbrasil.com/historia/2020/11/pecas-sagradas-de-religioes-afro-brasileiras-deixam-guarda-da-policia-apos-75-anos">https://www.nationalgeographicbrasil.com/historia/2020/11/pecas-sagradas-de-religioes-afro-brasileiras-deixam-guarda-da-policia-apos-75-anos</a>.A<a>cesso em:&nbsp;&nbsp;</a><a href="applewebdata://F0455DEA-E500-4918-B71B-9B52065292D5#_msocom_41">[SRdO41]</a>&nbsp;21/03/2022.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">ORTIZ, Renato.&nbsp;<strong>A Morte Branca do Feiticeiro Negro</strong>: Umbanda e Sociedade Brasileira.&nbsp;2ª. ed. São Paulo, Brasiliense, 1999.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">PRANDI, Reginaldo.&nbsp;<strong><em>As religiões afro-brasileiras nas ciências sociais: uma conferência, uma bibliografia.</em></strong>&nbsp;Revista Brasileira de Informação Bibliográfica em Ciências Sociais. BIB-ANPOCS, São Paulo, nº 63, 1º semestre de 2007, págs. 7-30. ISSN 151-8085.</p>



<p class="has-black-color has-text-color"><strong>RAFAEL, Ulisses Neves,</strong>&nbsp;Muito barulho por nada&nbsp;ou o “xangô rezado baixo”: uma etnografia do “Quebra de 1912” em Alagoas<strong><em>,&nbsp;</em></strong>Brasil.&nbsp;<em><strong>Etnográfica</strong></em> [Online], vol. 14 (2)&nbsp;|&nbsp;2010,&nbsp;<a>disponível em</a>&nbsp;<a href="http://journals.openedition.org/etnografica/297">http://journals.openedition.org/etnografica/297</a>. A<a>cesso em: 02/05/2022 as 15:45.</a></p>



<p class="has-black-color has-text-color">TRINDADE, Diamantino Fernandes.&nbsp;<strong><em>História da Umbanda no Brasil</em></strong>.&nbsp;São Paulo,&nbsp;<a>&nbsp;Editora do Conhecimento</a>,&nbsp;<a href="applewebdata://F0455DEA-E500-4918-B71B-9B52065292D5#_msocom_44">[SRdO44]</a>&nbsp;2014,</p>



<p class="has-black-color has-text-color">VAZ, Livia Sant´Anna. Racismo religioso no Brasil: um velho baú e suas novas vestes.&nbsp;<strong>Migalhas</strong>, 18 de janeiro de 2021.&nbsp;D<a>isponível em&nbsp;</a><a href="https://www.migalhas.com.br/coluna/olhares-interseccionais/339007/racismo-religioso-no-brasil--um-velho-bau-e-suas-novas-vestes">https://www.migalhas.com.br/coluna/olhares-interseccionais/339007/racismo-religioso-no-brasil&#8211;um-velho-bau-e-suas-novas-vestes</a>.&nbsp;Acesso em: 30/03/2022.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">VILELA, Rafael.&nbsp;Em 2021, foram feitas 571 denúncias de violação à liberdade de crença no Brasil.&nbsp;Brasil de Fato, 21 de janeiro de 2022.&nbsp;<a>Disponível em&nbsp;</a>&nbsp;<a href="https://www.brasildefato.com.br/2022/01/21/em-2021-foram-feitas-571-denuncias-de-violacao-a-liberdade-de-crenca-no-brasil">https://www.brasildefato.com.br/2022/01/21/em-2021-foram-feitas-571-denuncias-de-violacao-a-liberdade-de-crenca-no-brasil</a>. Acesso em: 26/03/2022.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Leila Cristina Montanha &#8211; Analista em Formação pelo IJEP.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Santina Rodrigues – analista didata pelo&nbsp;<a>IJEP</a>.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p><a href="applewebdata://F0455DEA-E500-4918-B71B-9B52065292D5#_ftnref1"><sup>[1]</sup></a>&nbsp;“Obrigações” são ritos efetuados pelo filho(a) de santo para fortalecer o vínculo com seu Orixá.</p>



<p><a href="applewebdata://F0455DEA-E500-4918-B71B-9B52065292D5#_ftnref2"><sup>[2]</sup></a>&nbsp;A sigla O.C. significa “Obras Completas de C.G.Jung”, publicadas no Brasil pela Editora Vozes,</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>
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		<title>MANIFESTO PÚBLICO DO IJEP PARA SALVAGUARDAR A DEMOCRACIA</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/manifesto-publico-do-ijep-para-salvaguardar-a-democracia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 Jul 2022 18:38:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[Totalitarismos]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[democracia]]></category>
		<category><![CDATA[ditadura]]></category>
		<category><![CDATA[fascismo]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=5452</guid>

					<description><![CDATA[<p>Este manifesto foi publicado antes das eleições de 2018 alertando as pessoas dos riscos em eleger um fascista. Nossa atittude estava alinhada com as de Carl Gustav Jung quando também tentou alertar a Europa, e principalmente a Alemanha, dos riscos em dar poder para Adolf Hitler, mas infelizmente nem a história em nem o empenho daqueles que tentaram alertar funcionou</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Para o corpo docente do IJEP, ensinar a Psicologia Junguiana, é ir além da informação teórica, porque inevitavelmente nossos cursos irão interferir na formação do indivíduo, aproximando as dimensões estéticas e éticas, com objetivo de expandir a consciência dos alunos, para que eles saiam da miserabilidade egoísta, advinda da condição instintiva da biosobrevivência, para aceitar a angústia de reconhecer a infelicidade comum, devido às desigualdades e a falta de verdadeira fraternidade entre os humanos. No transcorrer do curso, muitos alunos experienciam um salto, uma espécie de chamado para ir além deles mesmos, atuando como ativistas sociais, porque reconheceu o chamado para despertar o curador do outro. A partir desse momento ficará difícil manter-se omisso diante das iniquidades. Por isso, neste momento e neste dia dos professores, o IJEP, está publicando um manifesto que defende a democracia acima de tudo é os direitos humanos acima de todos. Nossa instituição não é partidária, mas ensina e estimula as pessoas, após reflexão crítica, a se posicionarem e agirem, como estamos fazendo, obviamente, respeitando os contraditórios.</p>



<p>Publicamos este manifesto com intuito de explicitar e formalizar a posição do IJEP &#8211; Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa, diante da atual realidade psicossocial, devido ao risco do agravamento da exacerbação da violência social e do agravamento quantitativo de manifestações psíquicas mórbidas, para uma significativa parcela de indivíduos, com dificuldade de simbolização, que podem sair atuando, literalmente, a violência e as discriminações estimuladas por um dos candidatos à presidência. Isso é o que a Psicologia Junguiana chama de rebaixamento de consciência, produzindo a histeria coletiva.</p>



<p>Nossa instituição é a primeira pós-graduação em Psicologia Analítica no Brasil, e também na formação de membros analistas, e nestes quase trinta anos, ensinamos nossos alunos, nos cursos de pós-graduação em Psicologia Junguiana, Psicossomática e Arteterapia e Expressões Criativas, que, acima de tudo, precisamos promover a autonomia das pessoas, por meio da ampliação de consciência, capacidade crítica e reflexiva e tomadas de atitudes alinhadas com a alma. Por isso, jamais poderíamos compactuar com o risco da tirania, violência, discriminação, desigualdades, ditadura e fascismo. Estamos nos posicionando contra qualquer liderança que estimula a violência, discrimina mulheres, homossexuais e as minorias raciais, para evitar o surgimento de mais violência contra as categorias dos diferentes, aprofundando ainda mais a exclusão social. Porque cuidamos para que a nossa tão jovem democracia não seja ameaçada.</p>



<p>Infelizmente, o exercício democrático da eleição, neste segundo turno, ficou extremamente polarizado entre a demonização e destruição de um partido, que já provou não ameaçar a democracia, apesar de ter mantido e até agravado muitas práticas inadequadas, e um outro que tem um líder que incita a violência, o autoritarismo e discriminação, mas promete limpar o &#8220;mal&#8221;. Esta situação está gerando a polaridade, onde as pessoas estão votando contra o outro, e não a favor de construtos ideológicos e políticos. Mas, na realidade, o conflito está entre a democracia e o autoritarismo, numa espécie de plebiscito sombrio, que induz o povo ao erro, por conta de uma planejada ação, que parece caótica, mas estrategicamente usa a micro capilaridade das mídias sociais para, disseminar a distopia e um mar de informações mentirosas, confundindo e, ao mesmo tempo, promovendo o desejo da disciplina.</p>



<p>O resultado disso é a produção de toda essa tensão, como uma competição entre torcidas cegas, e parece que isso está interessando ao jogo midiático do partido que assume a condição da redenção vingativa, na imagem um pai, apesar de agressivo e bruto, que vai colocar ordem e disciplina em toda bagunça. Óbvio que não existe o absolutamente desonesto e o absolutamente honesto, assim como o unicamente caótico e totalmente ordinário. Porém, devido a uma aparente operação que tem o propósito de produzir dissonância cognitiva, medo, raiva, desejo de vingança, por conta de um sentimento de traição, e muito caos informacional, a promessa idealizada de um salvador redentor, que irá disciplinar e eliminar toda sujeira e mal, está produzindo uma espécie de rebaixamento de consciência em grande parte da população, induzindo ao fascismo ditatorial e eliminando os poucos benefícios sociais já conquistados. Esta realidade é arquetípica e a evolução da humanidade tem registrado, inúmeras vezes, o surgimento deste triste fenômeno. Pena que a história nos ensina que raramente as pessoas aprendem com a história e, por isso mesmo, repetidamente, situações bizarras como essa voltam a nos atormentar.</p>



<p>A democracia é fundamentada em três pilares: 1- Criar e garantir direitos para promover a igualdade e liberdade aos cidadãos; 2- Estimular e promover a mediação dos antagonismos e contradições, porque do conflito é que brotam os caminhos para que a harmonização fraterna aconteça, incorporando, como novos direitos, as sínteses evolutivas que surgem; 3- Garantir a soberania do povo, por meio das eleições, fazendo com que os políticos eleitos, cumpram seu mandato de acordo com a proposta apresentada nas eleições, garantindo a soberania do povo.</p>



<p>Então, quando um indivíduo oligárquico &#8211; violento, hierarquizante, que incita a homofobia, a misoginia e a exclusão das minorias já tão excluídas, com discursos autoritários, claramente ditatoriais, que nos remetem aos movimentos fascistas do passado -, deseja ser presidente da nação,&nbsp; não podemos ficar passivos acreditando que ele vai varrer a corrupção, achando engraçado o modo como se expressa,&nbsp; obviamente vazio de valores e sem capacidade para gerir nosso grandioso país. Por isso ele foge dos debates.</p>



<p>Porém, o maior risco, infelizmente, é que parte significativa de cidadãos está sendo vitimado por este complexo que polariza de um lado o bode expiatório e do outro o salvador, por ódio ao PT, estão com a intenção de votar nesse representante das classes&nbsp;dominantes, acreditando que com o poder que ele vai receber acontecerá a limpeza esperada. Apesar do seu discurso populista, parece que sua intenção é de manter os privilégios das classes dominantes. Basta vermos quem são os três grupos de apoiadores econômicos dele: 1- Grandes proprietários de terras, que desejam explorar e invadir ainda mais, passando por cima das questões ambientais, extraindo mais minério, invadindo e devastando mais florestas e áreas protegidas para que a monocultura e a pecuária avancem, porque esse é o desejo do mercado; 2- Industriais, não só da indústria bélica e das áreas da segurança, para diminuir direitos trabalhistas, em sintonia a seu discurso já revelado: &#8220;vocês querem direitos ou empregos? (Sic)&#8221;; 3- Grupos religiosos, que agora estão assumindo, cada vez mais, a mídia e a política, com intuito de dominação e lavagem de dinheiro ilícito. Esses três grupos são representados pelas bancadas de parlamentares do Boi, da Bala e da Bíblia, respectivamente (BBB), que vem crescendo exponencialmente. Ampliando ainda mais a dicotomia entre a enorme massa carente,&nbsp;que está sendo manipulada por esse rolo compressor midiático, certamente com ajuda internacional, e a minoria privilegiada (grande parte da classe média, iludida, equivocadamente, se acha neste polo, mas como ainda está infeliz com sua realidade, atribui ao PT a falta de privilégios).</p>



<p>Por tudo isso, votar no Haddad é, apesar deste passado sombrio da corrupção, garantir a democracia e o estado de direito, ao invés de alargar, ainda mais, os privilégios privados. Não podemos nos esquecer que o Haddad, como ministro da educação, promoveu a inclusão acadêmica de milhares de indivíduos sem privilégios. Para evitarmos a tragédia desta figurara nefasta, que em 27 anos de mandato político nunca fez nada além de confrontar os diferentes e conviver muito bem com corruptos e corruptores, inclusive do seu partido, a classe média, que tem o desejo e a fantasia de fazer parte da minoria privilegiada, precisa compreender que com um regime ditatorial e neoliberal, que é o que representa a oposição ao Haddad neste momento, só irão acontecer mais perdas.</p>



<p>Por outro lado, independentemente dos resultados dessas eleições, estaremos absolutamente engajados para defender a democracia e a pacificação do povo brasileiro. Assim como solicitamos a todos os nossos ex-alunos, alunos e analistas filiados ao IJEP, assumirem atitudes empáticas e tolerantes, estimulando a harmonia e o respeito, mesmo no exercício da ampliação da consciência, por meio da reflexão crítica, que é a nossa verdadeira missão! Aliás, essa é a nossa prática: estimular o confronto com a sombra, por meio dos contraditórios, inclusive de gênero, reconhecer os complexos autônomos, com toda nossa multiplicidade, interna e externa, compreendendo, incluindo e aceitando todas as diferenças humanas, que reflete na diversidade do nosso povo, estimulando a prática da alteridade, que é o exercício de aprender a se ver com os olhos do outro. Só assim atingiremos o ideal da liberdade, igualdade e fraternidade, tão perseguido, desde a revolução francesa, para a extinção dos regimes autoritaristas, ditatoriais, imperialistas ou absolutistas. Encerramos lembrando que C. G. Jung deixou gravado no pórtico de sua residência: &#8220;Chamado ou não chamado, Deus está presente&#8221;. Somado a isso, acreditamos e praticamos a &#8220;Democracia acima de tudo! Direitos Humanos acima de todos&#8221;</p>



<p>IJEP &#8211; Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</p>



<p>São Paulo, 15 de outubro de 2018</p>
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		<title>JUNG DIAGNOSTICA OS DITADORES, EM THE PSYCHOLOGIST (LONDRES), EM MAIO DE 1939</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/jung-diagnostica-os-ditadores-em-the-psychologist-londres-em-maio-de-1939/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 Jul 2022 18:30:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Neste texto Jung deixa claro o quanto que toda unilateralidade, literalidade e incapacidade simbólica produz os "ismos" fazendo o povo ficar fanatizado por um fanático de plantão!</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Hitler não tem realmente uma psicologia pessoal. É um sujeito gozado. Não pode fazer promessas. Não existe ninguém para fazer uma promessa! Hitler é apenas o megafone que dá voz ao estado de espírito ou à psicologia de 80 milhões de alemães. Tem sido afirmado que ele tem o apoio irrestrito de mais de metade dos alemães. Isso é provavelmente verdade, mas é apenas uma parte da verdade, pois Hitler representa a mente inconsciente não só de todo o povo da Alemanha, mas também de outros países. Ele expressa os sentimentos inconscientes de muitos ingleses e franceses. Alguns tchecoslovacos estão frontalmente contra ele, mas, como tantos outros, podem sentir uma espécie de admiração por ele, ao mesmo tempo. Eles dizem: &#8220;Vejam o que ele está fazendo. Não é que o sujeito é mesmo diabólico!&#8221; Num certo sentido, admiram o poder de Hitler.</p>



<p>A mesma coisa acontece frequentemente quando lemos histórias policiais. Há uma parte de nós que passa a identificar-se até com os personagens que detestamos. Hitler expressa o que quer e obtém-no.</p>



<p>Hitler tem uma sensibilidade especial?</p>



<p>Decididamente que sim. É como se possuísse tentáculos nervosos que se estendem em todas as direções. Isso torna-o sensível a tudo o que a sua nação está sentindo. Hitler pertence à classe do feiticeiro, do místico, do, do vidente. Sua expressão é a de um visionário. De fato, esse é o seu elemento mais significativo. Ele não é um líder na acepção em que Mussolini é. Quando Hitler fala, não diz nada de novo aos alemães, mas simplesmente o que eles querem ouvir. Ele é, sobretudo, o espelho daquele complexo de inferioridade que é uma tão acentuada característica alemã.</p>



<p>O senhor escreveu um livro muito importante sobre tipos psicológicos. Em qual dos tipos colocaria Hitler?</p>



<p>Eu não o colocaria como homem, pois individualmente é muito desinteressante e sem importância. Ele é simplesmente um grande fenômeno. Ver Hitler e Mussolini juntos, como eu os vi, é uma experiência incrível. Mussolini enche seu uniforme, mas Hitler nem mesmo se ajusta às suas roupas! Hitler é toda máscara. Mussolini revela uma certa vitalidade. É um homem &#8211; natural, caloroso, duro e implacável. Se diz &#8220;não&#8221;, quer dizer não. Pode falar como uma pessoa real. Se lhe dissermos: &#8220;Você prometeu fazer algo e mentiu&#8221;, ele provavelmente admitirá sua mentira e é até capaz de ruborizar- se. É mais humano do que Hitler. Saberia o que tinha prometido e saberia que tinha mentido.<br>Uma outra diferença entre eles é a respeito de sua ambição pessoal. Em Hitler, a ambição ocupa um lugar muito pequeno. É provavelmente correto dizer-se que Hitler não possui ambição além da de qualquer homem comum. Mas Mussolini é mais ambicioso do que a média, embora sua ambição seja insuficiente para explicar toda a sua força. Ele acha que corresponde às necessidades nacionais da Itália. Hitler não governa a Alemanha da mesma maneira. Ele é sensível à tendência dos problemas em seu país.</p>



<p>Hitler não pode ser entendido separadamente de um exame dos fatores inconscientes que desempenham seu papel na constituição dele e, de fato, no mundo. É certo que Hitler não se entende a si mesmo; se o fizesse, não seria tão carente de senso de humor e não se levaria tanto a sério. Existem numerosas maneiras em que as forças inconscientes desempenham seu papel. O inconsciente coletivo é um fato real nas questões humanas. Seriam precisos vários volumes para explicar suas múltiplas ramificações. Todos nós participamos nele. Num certo sentido, constitui a sabedoria humana acumulada que herdamos inconscientemente; em outros sentidos, envolve as emoções humanas comuns de que todos compartilhamos.<br>É compreensível, portanto, a existência de uma força como o inconsciente coletivo de uma nação; na Alemanha, Hitler dispõe de um poder sobrenatural &#8211; o de ser sensível a esse inconsciente coletivo. É como se ele soubesse o que a nação está realmente sentindo, a qualquer momento dado.</p>



<p>Hitler sacrificou a sua individualidade, ou então não possui uma em qualquer acepção real, a essa quase completa subordinação às forças do inconsciente coletivo, e está apto a apoiar-se nessa reserva oculta. Ele mesmo falou a respeito de ser capaz de ouvir uma voz. Para ele, é como se a ouvisse, e a voz que ele ouve é a do inconsciente coletivo, especialmente o de sua própria raça. É esse fato que torna tamanho problema lidar com Hitler. Ele é virtualmente a nação. E o problema com uma nação é que não respeita sua palavra nem tem honra, pelo menos ao nível do inconsciente coletivo. Uma nação como tal, apesar de todas as pretensões dos estados totalitários, é uma força cega.<br>Você pode selecionar uma centena de homens muito inteligentes e, quando os juntar todos, eles não serão mais do que uma turba idiota. A multidão não se eleva ao nível das inteligências superiores que ela contém, mas são, pelo contrário, as qualidades que todos têm as que se tornam características dominantes da multidão como um todo.</p>



<p>Uma forma em que o inconsciente aparece ao homem é a de uma figura feminina. De um modo análogo, o inconsciente personificado apresenta-se a uma mulher sob um disfarce de homem. Um dos principais problemas é obter o tipo certo de relacionamento dessas figuras em nós próprios. Podemos ter essas figuras em todas as formas. Depois ela morrerá, embora em muitos homens, de fato, ela nunca morra como uma força. Se um homem não lograr um relacionamento correto com essa figura feminina, ele acabará possuído por ela, a qual então se converte num perturbador fator de desintegração.<br>Hitler nunca logrou uma relação saudável com essa figura feminina, a que eu chamo anima. O resultado é que está possuído por ela. Em vez de ser verdadeiramente criativo, ele é, por conseguinte, destrutivo. Eis uma das razões pela qual Hitler é perigoso: ele não possui em seu íntimo as sementes da verdadeira harmonia.</p>



<p>Dr. Jung, como é que conserva a paciência conosco e com os nossos mesquinhos problemas, quando a Europa está desabando e o senhor tem que realizar um trabalho de importância mundial?</p>



<p>Porque o problema do mundo começa com o indivíduo.</p>



<p>Quer dizer que o homem em conflito consigo mesmo faz, em última instância, guerras e revoluções?</p>



<p>Certamente. E o homem em paz consigo mesmo, que se aceita, contribui com uma soma infinitesimal para o bem do universo. Tratem de vossos conflitos privados e pessoais, e estarão reduzindo em um milionésimo de milionésimo os conflitos mundiais</p>



<p>JUNG DIAGNOSTICA OS DITADORES, em The Psychologist (Londres), em maio de 1939.</p>



<p>Transcrição da entrevista que C. G. Jung concedeu a H. R. &nbsp;Knickerbocker (1898 &#8211; 1949), correspondente estrangeiro dos jornais de Hearst, analisando Adolf Hitler e seu fascínio exercido ao povo alemão, publicada pelo psicólogo e ministro anglicano inglês, Howard L. Philp, na revista Cosmopolitan em 1939, traduzida e publicada no livro: C G Jung Entrevistas e Encontros, de William Mcguire e R F C Hull &#8211; Cultrix &#8211; SP 1982.</p>



<p>Ler está entrevista nos permite compreender porque um analista junguiano jamais poderá ficar omisso diante de um movimento fascista!</p>



<p>Peço que leiam e encaminhem, porque isso é uma questão ética e de saúde cívica!</p>



<p>Obrigado,</p>



<p>Waldemar Magaldi Filho, Analista Junguiano do IJEP &#8211; Instituto junguiano de Ensino e Pesquisa</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Waldemar Magaldi Filho &#8211; 16/06/2019</em></strong></h4>



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			</item>
		<item>
		<title>Abandono Social</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/abandono-social/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Paula Maluf]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Jun 2022 12:27:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Dependência Química]]></category>
		<category><![CDATA[Ética]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[Resiliência]]></category>
		<category><![CDATA[Sociabilidade]]></category>
		<category><![CDATA[Totalitarismos]]></category>
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		<category><![CDATA[dependência química]]></category>
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		<category><![CDATA[morador de rua]]></category>
		<category><![CDATA[pobreza]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Vivemos hoje um estado de calamidade pública. A população em situação de rua vem crescendo de forma acentuadamente drástica. Basta olhar pela janela e trilhar as calçadas. Segundo fontes SISAB de 2020, 221.869 pessoas se encontram em situação de rua, sendo 34,7% mulheres e 65,35% homens.&#160; Parece que na pandemia o número dobrou nas grandes [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Vivemos hoje um estado de calamidade pública. A população em situação de rua vem crescendo de forma acentuadamente drástica. Basta olhar pela janela e trilhar as calçadas. Segundo fontes SISAB de 2020, 221.869 pessoas se encontram em situação de rua, sendo 34,7% mulheres e 65,35% homens.&nbsp;</p>



<p><strong>Parece que na pandemia o número dobrou nas grandes cidades.</strong></p>



<p>A população vulnerável socialmente&nbsp;que vive a pobreza extrema é formada também por trabalhadores que exercem atividades informais. 70% dos moradores de rua trabalham como catadores de reciclagem, flanelinhas, em construção, limpeza e carregadores. 15,7% da população em SP são pedintes.</p>



<p>Encontramos na rua uma diversidade de pessoas e circunstâncias. A questão da saúde é um problema bastante grave também. As drogas são bastante presentes entre moradores de ruas e as patologias psiquiátricas.</p>



<p><strong>A maioria de quem mora na rua faz pelo menos uma refeição ao dia.</strong></p>



<p>Em dezembro de 2019, foi instituído um decreto (decreto n°7053) que define população em situação de rua como grupo populacional heterogêneo que possui em comum a pobreza extrema, os vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e a inexistência de moradia convencional regular, e que utiliza os logradouros públicos de as áreas degradadas como espaço de moradia e de sustento, de forma temporária ou permanente, bem como as unidades de acolhimento para pernoite temporário ou moradia provisória.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="816" height="518" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem1.jpg" alt="" class="wp-image-4100" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem1.jpg 816w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem1-300x190.webp 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem1-768x488.webp 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem1-150x95.webp 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem1-450x286.webp 450w" sizes="(max-width: 816px) 100vw, 816px" /></figure>



<p>É um tema bastante amplo pois mesmo em situação de rua encontramos situações das mais diversas pois falamos de humanos. Faltam-nos políticas públicas e iniciativas sociais privadas para adentrar a essa realidade. Que situação é essa vivida por alguém na rua que conseguiu muitas vezes se libertar dos compromissos e pressões coletivas sociais, mas abraça a dor e a ferida social da invisibilidade?</p>



<p>Ao pensarmos em rua e pobreza, pensamos em bem e mal e logo somos arremessados a uma instância rígida de nossa criação cristã, precisamos muitas vezes alimentar o mau fora de nós para sermos bons. Essa ideia acaba sendo alimentada por muitas igrejas, constelando o arquétipo do salvador e alimentando no morador em situação de rua o arquétipo do invalido nutrindo a pobreza.</p>



<p>&#8230;pois mais fácil é passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no Reino de Deus (Lucas 18: 24-25). Numa sociedade unilateralizada que carrega a literalidade&nbsp;como característica, acaba entendendo a citação acima de forma literal. Logo que nos deparamos com essa imagem de pessoas habitando ruas que se contrasta com nossas mansões, pensamos no sentido da vida e de alguma forma a representação da imagem de Deus</p>



<p>Jung afirma que, desde que “todos os opostos são de Deus”, devemos nos curvar diante desse “peso”. Os opostos são a pré-condição indestrutível e indispensável de toda vida psíquica escreveu Jung em 1955 no Mysterium Coniunctions.</p>



<p>Jung afirma também que é através da psique que podemos estabelecer que Deus age sobre nós. E a expressão da psique se dá através de nossa cosmovisão e, portanto, atitude diante do mundo. Então&#8230; o que será que acontece com a nossa sociedade, com os indivíduos que se tornam indiferentes aos que habitam as ruas? O que será que leva um indivíduo a habitar as ruas?&nbsp;</p>



<p>&nbsp;Quem são esses indivíduos que perambulam pelas noites sombrias quando a luz cai; já que diante da luz são rejeitados e expelidos às sarjetas? São expelidos à margem de nossos caminhos. Para reconhecer esses “corpos perambulantes” preciso de alma e no mundo desalmado, o olhar é pelos olhos da razão.</p>



<p>&nbsp;Sem alma não há relação entre as polaridades que constituem a natureza humana. Sem diálogo entre os lados, não há alcance ao que é divino e caímos na experiência de um aparthaid que julgamos ser natural. Separamos do mundo o imundo gerando cisão, rompimento, negação e violência social. </p>



<p><strong>Se tudo é uno, quando integro o outro em mim, me aproximo do coletivo.</strong></p>



<p>&nbsp;Pensar em mundo é vislumbrar a totalidade que envolve sistemas e contradições relacionais devido à diversidade de experiências vivas. Jung fala da busca de totalidade no processo de individuação, e a totalidade compreende as oposições e aproximação entre elas. Portanto se me distancio e nego o imundo, nego parte do meu mundo.</p>



<p>“Completude ou unidade é a condição original de existência, antes que o primeiro “pensamento” entre e comece a discriminar e diferenciar isso “daquilo”. (DONALD, pensamentos de Jung sobre Deus pg25.)</p>



<p>Da mistura de conteúdos no princípio da criação, separamos através da função de discriminar durante o processo de desenvolvimento para poder posteriormente unir de forma consciente. Mas o homem contemporâneo parece literalizar essa ideia e vivê-la fora de si.</p>



<p>A totalidade é um estado onde consciência e inconsciente trabalham juntos em harmonia, onde estas instancias estabelecem um diálogo possibilitando a integração de aspectos sombrios.</p>



<p>Esse apartado da sociedade faz parte de uma “classe” a parte, (termo usado por alguns indivíduos que vivem essa situação.)&nbsp; São invisíveis no meio de tanta gente por serem incômodos pela sua aparência suja e seu fedor. </p>



<p>Nós?! Somos limpos e polidos e assim somos aceitos e não nos misturamos e nem sequer dialogamos com esse outro lado. Esse corpo negado e rejeitado a ponto de se tornar invisível é a própria sombra que projetamos no pedinte imundo.</p>



<p>“A sombra constitui um problema de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo, pois ninguém é capaz de tomar consciência desta realidade sem dispender energias morais. Mas nesta tomada de consciência da sombra trata-se de reconhecer os aspectos obscuros da personalidade, tais como existem na realidade. Este ato é a base indispensável para qualquer tipo de autoconhecimento e, por isso, em geral, ele se defronta com considerável resistência”. (Jung &#8211; OC 9/2 § 14)</p>



<p>“Hoje em dia, defrontamo-nos com o lado escuro da natureza humana toda vez que abrimos um jornal ou ouvimos o noticiário. Os efeitos mais repulsivos da sombra tornam-se visíveis na esmagadora mensagem diária dos meios de comunicação, transmitida em massa para toda a nossa moderna aldeia global eletrônica. O mundo tornou-se um palco para a sombra coletiva.”</p>



<p>“O lado escuro não é nenhuma conquista evolucionária recente, resultado de civilização e educação. Ele tem suas raízes numa sombra biológica, que se baseia em nossas próprias células. Nossos ancestrais animalescos, afinal de contas, sobreviveram graças às presas e às garras. A besta em nós está viva, muito viva — só que a maior parte do tempo encarcerada.” (Ao encontro da sombra – Robert Bly pag. 20)</p>



<p>Essa sombra materializada nesses indivíduos não é anônima, ela têm nome e história com muitas marcas. Somos “Josés” somados a cada parte de nós que lê esse texto e reverbera essas ideias e imagens em si, pois formamos uma unidade. Essa é a totalidade.</p>



<p><strong>&nbsp;Cada um, uma história que vai além do pessoal e é coletiva também.</strong></p>



<p>&nbsp;Um corpo tem que ocupar um lugar no espaço. Qual é esse espaço que o morador em situação de rua ocupa? Esse corpo nos assusta e desperta nossos medos de fracasso já que ainda não tomamos ciência de quê fracassamos como sociedade.</p>



<p>É o medo pelo que ele nos representa. Vivemos em bolhas distantes umas das outras onde não há relação e diálogo entre elas, empobrecendo a nossa condição humana. Não comungamos de ideias e perdemos propósitos.</p>



<p>Na visão da psicologia analítica se não aproximarmos essas polaridades continuaremos tomados pelo monoteísmo da consciência e corremos o risco do aprisionamento em nossas certezas e verdades que são frutos de nossos complexos de poder que habitam as sombras e um ego rígido que nos acorrenta.&nbsp;</p>



<p>Esses indivíduos caminham lentamente pois não tem energia, enquanto nós corremos, pois temos pressa e assim não aprofundamos nosso olhar. Vivem a fome, o frio e a solidão em seus corpos enquanto nós nos fartamos a mesa e vivemos com 5.000 likes nas redes sociais.</p>



<p>Seus olhos&#8230; Um olhar perdido sem sentido, sem direção enquanto nós focados fixamente no sucesso. Esses indivíduos têm uma pisada desalinhada com os pés sujos e cascudos para dar conta da realidade árida e dura enquanto nós fazemos malabarismos em nossos saltos altos.</p>



<p>Como opção nós caminhamos muitas vezes para nos buscar e muitos deles caminham para fugir de si&#8230; A população de rua vem aumentando drasticamente, o que reflete o aumento da exclusão social fruto de valores sociais que nutrem um modelo econômico que vivemos, onde nem todos se enquadram.</p>



<p><strong>“Muito para poucos e pouco para muitos&#8230;”&nbsp;</strong></p>



<p>Esse é o corpo social que se torna fruto dos corpos individuais.</p>



<p>&nbsp;O mendigo pedinte e sem teto é a antítese da imagem e vida desejada por nós cidadãos de “sucesso” &#8230; Esse é o espírito da nossa época que eles também fazem parte. Como seria se perceber menos perfeito e mais inteiro com todas as carências e sujeiras que carregamos na alma?</p>



<p>Como é se deparar com corpos desnutridos, arcados e sujos, famintos de comida, já que estamos em corpos famintos de espiritualidade e humanidade que se expressa na materialidade do excluído? Só atingiremos a divindade quando mudarmos o olhar para com o tema da espiritualidade que se realiza de forma concreta, inclusive no corpo. Nessa desunião que vivemos, separamos o bom do mal sem condição para o diálogo e adoecemos como indivíduo e sociedade.</p>



<p><strong>“Não posso perfumar e nem performar a alma”</strong></p>



<p>&nbsp;Essa é uma das batalhas internas em tempos modernos onde a ilusão do controle é alimentada socialmente para manter a persona polida. Sendo assim a tendência é projetar e rejeitar todo o dejeto naquele que em mim não cabe em lugar nenhum.</p>



<p>&nbsp;Minha intenção é questionar e quem sabe despertar outros olhares sobre o tema invocando assim algo dessa energia ligada ao feminino, resgatando quem sabe a capacidade em acolher e se relacionar com o outro em mim para perceber o outro nele nessa aproximação.</p>



<p>Tentar entender a dinâmica desse grupo de indivíduos na tentativa de desenvolver aquilo que de forma consciente ou inconsciente “tiramos” deles em relações de uso, abuso e poder. É uma tentativa mais consciente de reparação, não para aliviar a culpa, mas sim por sentir-se parte integrante e ativa dessa sociedade com propósito de evoluir como humano.</p>



<p><strong>&nbsp;Precisamos nos aproximar para olhar de forma mais profunda.</strong></p>



<p>“Sim, uma pessoa nunca é representada por ela mesma. Uma pessoa só é alguma coisa em relação a outros indivíduos. Só obtemos dela um retrato completo quando a vemos em relação, a seu entorno, assim como não sabemos nada sobre uma planta ou um animal quando não conhecemos seu habitat”. (traumanalyse,253 sobre o amor- Jung)</p>



<p>Todos fazemos parte desse cenário, cada corpo em seu lugar e todos direta ou indiretamente pagamos o preço da fome, da miséria e da violência. Como num mosaico somos pedaços que compõem o TODO.</p>



<p>“Se você não quiser arruinar se moralmente só existe uma pergunta a fazer: Qual é a necessidade que você mesmo carrega quando se comove com a situação aflitiva de seu irmão?” (Briefi II, 395, Jung Sobre o amor) Vamos repensar caminhos e sentidos e para isso preciso parar e mergulhar nesse universo.</p>



<p>&nbsp;Sim&#8230; sofremos de fome, fome de alma e de espírito. Vivemos em corpos “sarados” lustrados por personas ajustadas, polidas e perfumadas. Isso é um problema? Não, se não negarmos seu contraponto, mas, como diz Jung:&nbsp;</p>



<p>“Reconheçamos que nada é tão difícil quanto suporta-se a si mesmo” o que também explica a projeção da sombra social. Segundo Jung “ninguém vive fora de sua pele,” e só acessamos o outro através da empatia no olhar que conectar a ferida do outro a minha. (Jung pag 373. Oc7/2)</p>



<p>A partir dessa fala entendemos nossas projeções sombrias sobre esses indivíduos, esquecendo assim de nossas faltas e também dos excessos que formam essa dinâmica polar.</p>



<p>O que não achar lugar na consciência para ser constelado, fica excluído e pode se associar aos complexos sociais dominantes, nos tornando em seguida dominados pela nossa própria dominação. Assim como a rua abraça o não acolhido, esses complexos sociais são âncora à sombra coletiva.</p>



<p>&nbsp;Olhar no olho desse outro e estabelecer diálogo é possibilitar olhar com os olhos subjetivos para o interior de si e recordar assim “quem sou” de forma mais inteira, atualizando o passado e presente em aspectos emocionais que foram rasgados, arranhados e que se tornaram feridas veladas. Olho para o outro como espelho do outro de mim&#8230;</p>



<p>Vivemos individualmente o que vivemos coletivamente e vice-versa. Entendo que precisamos desenvolver consciência mais ecológica para entender esse corpo que vive no corpo de Gaia.&nbsp;O corpo negado de Gaia é a própria negação da energia do feminino, que acaba projetado no corpo do indigente imundo, negando parte do corpo social.</p>



<p><strong>&nbsp;Que corpo é esse sofrido e não amado?</strong></p>



<p>Que relação é essa que estabelecemos com o outro onde nos esfriamos e nos distanciamos do amor em seu sentido maior, potencializando o nosso complexo de poder criando adversários fora de nós Como lidar com a pobreza social se não começamos pela nossa pobreza e vulnerabilidades de alma. O complexo negado atua em nós, nos conduzindo á trágica realidade onde geramos mais pobreza e nos anestesiamos diante dela.</p>



<p>&nbsp;<strong>“A invisibilidade só deixará de existir pela mudança no olhar.”</strong></p>



<p>Me pergunto se todas as guerras, derramamento de sangue e miséria não assaltaram a criação quando um homem procurou ser senhor de outro (&#8230;) E essa miséria não irá embora (&#8230;) quando todas as ramificações da humanidade considerarem a terra como um tesouro comum a todos.”&nbsp;(Gerrard winstannley, the new law rightteouness, 1649 – Calibã e a Bruxa pag 112)</p>



<p>Enquanto isso consideramos esse grupo de moradores em situação de rua como o metaverso da “nossa” sociedade sombria. Nos falta amorosidade e maturidade para olharmos esse assunto com pés no chão.</p>



<p><strong>Enquanto buscamos poder anulamos o poder do amor.</strong></p>



<p>“Ali onde predomina o amor não há vontade de poder, e onde há predominância do poder, não há amor. Um é a sombra do outro.&nbsp;&nbsp;Aquele que se coloca no ponto de vista do Eros tem um oposto compensador da vontade de poder. Mas aquele que enfatiza o poder tem como compensação o Eros. Vista do ângulo unilateral do posicionamento da consciência, a sombra é uma parte de menor importância da personalidade, e por isso é reprimida por uma intensa resistência. Mas aquilo que é reprimido precisa tornar-se consciente para que se crie uma tensão dos opostos, sem a qual não há possibilidade de continuidade de movimento. De certa forma, a consciência é em cima e a sombra é embaixo e como que está no alto sempre tende a descer às profundezas. O quente ao frio, assim toda a consciência, talvez até sem se perceber, busca por seu oposto inconsciente, sem o qual ela é condenada à estagnação, ao assoreamento ou à fossilização. Só nós o posto é que a vida se acende.” (Jung OC 7&nbsp;<a>§&nbsp;</a>78)</p>



<p>A vida e a psique nos impulsionam a realizar potencial. Tornar-se si mesmo nos aproximando do coletivo.&nbsp;Buscamos nosso lugar através do sentimento de pertencimento a si e ao mundo. Desenvolver a centelha divina em nós é realizar o inconsciente no sentido do servir para vir a ser. <strong>Muitos de nós nunca foi sonhado, então como pode sonhar?</strong></p>



<p><strong>Infelizmente deixamos de ser Homem de argila para sermos Homens de lata!</strong></p>



<p><strong>&nbsp;“E apesar de todas as diferenças, a unidade da humanidade haverá de se impor de modo inexorável.”(Jung Oc 10/1§ 568)</strong></p>



<p><strong>Ana Paula Maluf</strong></p>



<p><strong>Bibliografia&nbsp;</strong></p>



<p>Calibã e a Bruxa – SILVA FEDERICI – Ed. Elefante</p>



<p>Aspectos do feminino – C.G JUNG – Ed. Vozes&nbsp;</p>



<p>Pensamentos de Jung sobre Deus – DONALD R. DYER, PH.D.- Ed. Madras</p>



<p>Psicologia do inconsciente – C.G JUNG 7/1 – Ed. Vozes&nbsp;</p>



<p>A natureza da psique – C.G JUNG 8/2 – Ed. Vozes</p>



<p>Ao encontro das sombras – Connie Zweig e Jeremiah&nbsp;&nbsp;Abrams -Ed. CULTRIX</p>



<p>Presente e futuro – C.G. JUNG 10/1&nbsp;&nbsp;&#8211; Ed. Vozes</p>



<p></p>
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		<title>A política como espaço de manifestação da sombra</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-politica-como-espaco-de-manifestacao-da-sombra/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniel Gomes]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 28 Apr 2022 15:01:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Ética]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Totalitarismos]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>
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		<category><![CDATA[sombra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A política nos últimos anos se tornou o grande tema de discussões acaloradas, o Brasil encontra-se amplamente polarizado. Acusações de ambas as partes sem o menor sinal de racionalidade que possa se apresentar como uma possível integração de cada um dos lados. É neste contexto que a política no Brasil e no mundo pode se tornar um espaço ideal de manifestação das nossas sombras, de tudo aquilo que não reconhecemos em nos mesmos. Neste artigo convido a todos para uma reflexão a respeito da política como espaço de manifestação da sombra.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Nunca nos encontramos tão polarizados diante das questões políticas como nos dias de hoje, lembro bem dos meus pais e avós perguntando uns aos outros em quem votariam. Não existia um receio de se apontar para um candidato ou para outro, naquela época eu tinha a impressão de que todos buscavam fazer a coisa certa com o seu voto. Essa cena hoje em dia me causa saudades, apesar de fazer mais de 30 anos. O fato é que as coisas mudaram e de forma muito rápida, depois desta época. Quando eu já tinha idade suficiente para votar, não queria saber de política, não me interessava quem seria o governador ou presidente, ninguém era honesto o suficiente, a questão importante aqui é a projeção deste pensamento direcionada no político.&nbsp;</p>



<p>O último pleito para presidente no Brasil se tornou o grande marco da polarização que se consolidou. Uma consolidação que talvez há muito tempo já estava em curso, porém apenas de modo inconsciente. Afinal, precisamos ter em mente que qualquer mudança social que presenciamos hoje é fruto de uma movimentação inconsciente que leva anos, e que a priori se manifesta na individualidade de cada um, porém fica mais evidente em um espaço coletivo onde a liberdade e a força do ego se encolhem diante da massificação.&nbsp;<em>Quando se trata do movimento da massa e não mais do indivíduo, cessam os regulamentos humanos e os arquétipos passam a atuar.&nbsp;</em>(Jung, Vol10/2 §395s)</p>



<p>É preciso lembrar que não são apenas as mudanças que levam anos e anos para se manifestar, o que se encontra reprimido também. Quando Jung fez uma análise do que estava acontecendo na Alemanha, um pouco antes de estourar a segunda guerra, percebeu a emergência de uma figura arquetípica na imagem de Wotan, com o despertar deste deus germânico no eminente conflito que estava surgindo. Para se ter uma ideia do tempo que se leva para um conteúdo arquetípico atravessar as linhas do inconsciente coletivo, Richard Wagner intuiu a necessidade da transformação da cultura alemã, que foi de certa forma representada no ciclo de 4 óperas conhecidas como “O anel de Nibelungo”. O detalhe é que essas ideias estavam sendo desenvolvidas quase 60 anos antes da primeira guerra mundial e lá já aparece a manifestação desta potencialidade destrutiva.</p>



<p>Talvez atualmente as repressões não levem tanto tempo assim com o advento tecnológico das redes sociais, a verdadeira face daquilo que se reprime encontrou um caminho de manifestação para além dos sonhos, hoje a constelação de um complexo se manifesta ao vivo e em cores. Basta um celular conectado à internet para se presenciar a sombra de um sujeito emergir em meio a uma guerra, naquele momento o opressor (guardado a sete chaves) encontrava seu verdadeiro espaço entre os oprimidos. Um complexo não escolhe nem hora nem lugar, ele apenas constela.</p>



<p>Como Jung já demonstrou, a constelação de um complexo pode alcançar tal força que o ego perde sua autonomia, parecendo mais um passageiro de um carro desgovernado. O mundo tecnológico não é único lugar que abre espaço para essas manifestações, a política acaba se tornando um espaço para as manifestações de mesma ordem, porém no âmbito coletivo. Edward Edinger explica que a falta de um espaço que possa comportar as imagens arquetípicas acaba encontrando um caminho na política ou movimentos seculares quando:</p>



<p>[…] o valor supra pessoal projetado, que foi retirado do seu recipiente religioso, seja reprojetado em algum movimento secular ou político. Mas os propósitos seculares jamais constituem um recipiente adequado para conteúdos religiosos. Quando a energia religiosa é aplicada a um objeto secular, temos diante de nós algo que se pode descrever como adoração de ídolos – uma forma espúria e inconsciente de religião. O atual exemplo destacado de reprojeção é o conflito entre o capitalismo e comunismo. (Edinger, p.104)</p>



<p>O que Edinger está falando neste recorte pode muito bem nos ajudar a entender melhor o que estamos assistindo na política brasileira, nos últimos 4 anos em específico. O messias que um dia foi tão aguardado como o salvador do mundo me parece que foi reprojetado no Jair Messias. O que estamos assistindo hoje no meio político não pode ser estudado através da particularidade de uma única pessoa na figura do político, o que devemos fazer neste cenário é se perguntar o que o político A, B ou C trazem como representação do coletivo, porque a psicopatologia de massa tem suas raízes na psicopatologia individual. (Jung 10/2 §445). O que estamos assistindo na política é a verdadeira guerra de opostos representados pela esquerda e pela direita, mas que na realidade é entre a democracia, que pode ser de direita ou de esquerda, e padrões autoritários e ditatoriais. É no teatro do inconsciente que Edinger ampliou bem essa ideia:</p>



<p>Quando o valor do Si-mesmo é projetado por grupos opostos entre si, em ideologias políticas conflitantes, temos uma situação semelhante à da quebra da totalidade original do Si-mesmo em fragmentos antiéticos que lutam entre si. Nesse caso, as antinomias do Si-mesmo ou Deus passam a atuar na história. Ambos os lados de um conflito partidário derivam sua energia da mesma fonte, o Si-mesmo comum, mas inconscientes disso, eles estão condenados a viver o conflito trágico na própria vida. O próprio Deus é enredado nas malhas do conflito sombrio. (Edinger, pág.104)</p>



<p>A ideia dos lados opostos entre si no Brasil não é tão recente, na década de 30 existiu um movimento no Brasil chamado integralismo, a frente deste movimento estava um Plínio Salgado, que levou o movimento da extrema-direita com ideias muito similares ao que vigora nos tempos atuais. Naquele tempo Plínio queria um país voltado para o nacionalismo através do movimento conhecido como “Ação integralista brasileira” o AIB. O movimento estava em busca de recuperar valores nacionais. Não seria também a base do atual governo, uma recuperação de valores, do amor à pátria, à família tradicional com um Deus acima de todos. Nas palavras de Pedro Doria,&nbsp;<em>a história sempre ilumina aquilo que vivemos.&nbsp;</em>A história demonstra para nós que alguns movimentos similares entre si se repetem, e assim vejo também o mesmo acontecendo do inconsciente para consciência coletiva.</p>



<p>A política e os movimentos políticos/sociais acabam se tornando um grande espaço de manifestação de conteúdos sombrios que muitas vezes não são reconhecidos, como acabamos de ler acima. Tudo que age a partir do inconsciente vai aparecer projetado no outro (Jung, Vol 8/1 §99), as vezes nos reconhecemos, as vezes repudiamos como algo totalmente fora de cogitação por padrões éticos ou morais, mas não na política. Quaisquer possibilidades de censura entram em cena a bandeira da imunidade parlamentar ou qualquer outra lei que de legitimidade aos atos do indivíduo representante de uma determinada facção política, e neste caso do coletivo também, porque uma pessoa neste espaço não carrega uma ideia particular, mas sim a ideia vendida para um coletivo.</p>



<p>É preciso lembrar que o sistema psíquico está sempre em busca de autorregulação, em outras palavras, compensação. Qualquer parte da consciência que houver uma desordem encontraremos no inconsciente um movimento simbólico com a representação de ordenamento, para qualquer injustiça a justiça, para violência a paz ou uma violência mais exagerada ainda. Jung observou esse fenômeno acontecendo na Alemanha nazista, e explicou que:</p>



<p>Quando essa espécie de movimento compensatório do inconsciente não consegue ser absorvido pela consciência individual, pode gerar uma neurose ou até mesmo uma psicose, e o mesmo vale para o coletivo. É evidente que para se produzir um movimento compensatório desse tipo é preciso que algo esteja fora de ordem na atitude consciente; algo deve estar invertido ou fora de proporções, pois somente uma consciência desequilibrada pode provocar um movimento contrário no inconsciente. (Jung, Vol 10/2 §448s)</p>



<p>Como Jung deixa claro, o que vale para o individual também vale para o coletivo, o problema não resolvido na psique pessoal agregará pessoas em torno da mesma ideia, e assim nascerá o movimento de massa que poderá eleger alguém como o representante de tudo que não foi possível transformar no campo pessoal, porém sem sucesso, pois essa atitude de mudança não pode depender do campo coletivo. Não se pode esperar que o político mude a vida de uma nação sem que isso aconteça também campo pessoal e Jung entendeu bem essa questão:</p>



<p>A integração de conteúdos inconscientes consiste num ato individual de realização, compreensão e valoração moral. Trata-se de uma tarefa extremamente difícil que exige um alto grau de responsabilidade ética. Somente de poucos indivíduos pode se esperar a capacidade para tal desempenho, e esses não são absolutamente os líderes políticos, mas os líderes morais da humanidade. (Jung, Vol 10/2, §451)</p>



<p>Por isso é possível entender que hoje a política representa o espaço de manifestação de tudo que não conseguimos lidar no individual e não podemos esperar que neste espaço aconteça a salvação tão esperada, pois nele encontramos apenas a sombra. É por isso que todo processo na psicoterapia junguiana busca o fortalecimento adequado do Ego para enfrentar aquilo que não possível aceitar abertamente, até ponto que seja possível reconhecer e aprender que nem toda a sombra abrigará o mal, que dentro egoísmo também é possível encontrar o amor ao próximo. É neste espaço interno que o confronto com o si-mesmo deve acontecer, resultando na compressão de que a paz poderá voltar, mas somente quando a derrota e a vitória perderem sua importância (Jung, Vol10/2, §455). Krishnamurti também percebeu a mesma a coisa:</p>



<p>Quando cada indivíduo leva em conta o bem-estar da comunidade, então pode haver verdadeira cooperação.&nbsp;<strong>Agora não há cooperação porque vocês estão sendo meramente compelidos em uma ou outra direção, à maneira de ovelhas</strong>.&nbsp;<strong>Seus líderes os oprimem, tratando-os como instrumentos para a realização de interesses</strong>. E vocês são explorados porque seu inteiro modo de pensar, sua inteira estrutura, visa à autopreservação, às custas de todas as outras pessoas. E eu digo que pode haver autopreservação, segurança verdadeira, em termos mundiais, quando vocês, como indivíduos, destruírem tudo aquilo que mantém as pessoas separadas, lutando entre si em guerras incessantes, as quais são resultado da existência de nacionalidades e governos soberanos. Eu lhes asseguro, vocês não terão paz, vocês não terão felicidade, enquanto essas coisas existirem. Tudo isso apenas ocasiona mais e mais discórdia, mais e mais guerras, mais e mais calamidades, sofrimento e dor. Tais coisas foram criadas por indivíduos, e como indivíduos vocês precisam começar a derrubá-las, a se libertar delas, pois somente assim vocês descobrirão o êxtase da vida.&nbsp;(Krishnamurti,1934 – grifos meus).</p>



<p>Enquanto não assumirmos a responsabilidade do que acontece na política, nada poderá ser transformado.&nbsp;Porque para transformarmos o mundo externo é necessário que essa transformação aconteça, primeiramente, em nosso íntimo. Por isso Jung afirma que a política reflete a psicologia do povo! Ou seja, precisamos ser a mudança que desejamos!</p>



<p><strong>Daniel Gomes – Analista em formação IJEP</strong></p>



<p><strong>Didata responsável – Waldemar Magaldi</strong></p>



<p><strong><em>Daniel Gomes &#8211; 28/04/2022</em></strong></p>



<p>Referência Bibliografias</p>



<p>Edinger, F. Edward, 2006, São Paulo,&nbsp; Editora Cultrix</p>



<p>Jung. C. G., (2011a) Aspectos do drama contemporâneo 12/2, Petrópolis, Rio de Janeiro: Editora Vozes.</p>



<p>Doria, Pedro, (2020) Fascismo à brasileira, São Paulo, Ed. Planeta</p>



<p>Krishnamurti, Jiddu,&nbsp;Segunda palestra no Town Hall &#8211; Auckland, Nova Zelândia &#8211; 01/04/1934)</p>



<p><strong>Imagem:</strong>&nbsp;&#8220;A morte de Júlio César&#8221; &#8211; Vincenzo Camuccini</p>



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		<title>Neurose de Caráter, Ganância e Corrupção</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/neurose-de-carater-ganancia-e-corrupcao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 02 Apr 2022 12:58:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Totalitarismos]]></category>
		<category><![CDATA[atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Com o advento do dinheiro, aconteceu a monetarização da vida em todos os sentidos. No início, o dinheiro era advindo da produção excedente de uma pessoa ou família, e servia para ser trocado pela produção excedente de outros, evitando assim o transtorno das barganhas de produtos e serviços. Graças a ele a vida ficou mais [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Com o advento do dinheiro, aconteceu a monetarização da vida em todos os sentidos. No início, o dinheiro era advindo da produção excedente de uma pessoa ou família, e servia para ser trocado pela produção excedente de outros, evitando assim o transtorno das barganhas de produtos e serviços. Graças a ele a vida ficou mais prática e fácil. Porém, foi surgindo a possibilidade e o desejo de acúmulo do dinheiro, porque ele não era perecível como a maioria dos produtos trocados. </p>



<p>Com o passar dos tempos algumas pessoas, provavelmente por mérito da criatividade, dedicação e sorte, conseguiram acumular mais, e começaram a usar o serviço ou a produção de outras pessoas com intuito de ficarem com uma parcela do ganho produtivo delas. Outras pessoas foram ficando mais capacitadas e especialistas, oferendo serviços e ou produtos cada vez mais requintados e raros e, consequentemente, mais caros. Neste interim aconteceu o surgimento de grupos de indivíduos que juntaram forças e dinheiro, criando organizações de poder econômico, para tirarem mais lucros dos produtores de bens ou serviços, produzindo a menos valia dos produtores individuais, consolidando as vantagens da produção em escala. <strong>Tudo isso fomentou as diferenciações de classes sociais, econômicas, culturais, regionais e raciais, segmentando a sociedade, fortalecendo as minorias dominantes da maioria dominada, com seus subgrupos de excluídos, cada vez mais crescentes.</strong></p>



<p>Paralelamente, no atual capitalismo neoliberal, o ter dinheiro, ou patrimônio, foi deixando de estar atrelado à produção de serviços ou produtos. Com isso, as pessoas deixaram de ser, invertendo a ordem natural da vida, porque o desejo de ter, preferencialmente sem servir ou produzir, explorando quem for possível, virou o grande negócio. Nesta ótica é que surge o mercado, um ente desconhecido e extremamente poderoso, capaz de reger a vida de todos nós, porque é <strong>o mercado que define o que presta e o que não presta, o que pode e o que não pode, o que é ético e o que não é ético.</strong> Causando um grande problema, porque o mercado segue apenas a lógica do lucro, do poder e do acúmulo. Desejando que a maioria fique na lógica do consumo, da dívida e do trabalho, objetivando o enriquecimento da minoria dominante e escravizando, pelo medo da exclusão econômica, a maioria solitária e pobre, representada pela massa infeliz, com desejo de mudança, mas sem saber o quê e como mudar, por estar condicionada aos desejos materiais e a ganância, como meio de alívio para esse mal estar. Essa é a lógica da desigualdade e, com ela, a dificuldade da mobilidade social.</p>



<p>Aliado a essa dinâmica da desigualdade econômica, perversa e viciosa, temos as questões humanas divididas diante das demandas dos instintos, representada por nosso lado titânico e materialista, e as arquetípicas, representada por nosso lado dionisíaco e anímico. Esta tensão é geradora de angústia e, se não houver uma integração criativa e harmoniosa entre o material e o espiritual, acaba acontecendo a enfraquecimento dos princípios éticos, a corrosão do caráter e a predisposição à corrupção. Esta dualidade intrínseca em cada um de nós, simultaneamente nos faz tentados e tentadores, com medo generalizado em busca da segurança material, porque a segurança espiritual, que é a fé, há muito foi perdida, com a contribuição desta ciência materialista, reducionista e causal. Sem fé e com medo, resta-nos <strong>a ilusão do poder e, com ela, perdemos também a capacidade de amar, porque onde um está o outro não pode estar.</strong></p>



<p>Neste contexto é que a ganancia e a corrupção ganham espaço. O escrúpulo perde para o poder econômico, e a fé para a concretude patrimonial. Esse conflito está presente no âmago da nossa sociedade depressiva, fazendo-nos desejosos do gozo advindo dos prazeres imediatos, destroçando o amor e a ética. <strong>A verdadeira ética depende da consciência limpa, da boa noite de sono, da alegria e motivação para servir e da disposição para o exercício da alteridade, onde podemos nos ver por meio dos outros. </strong>Para isso, é preciso a capacidade de enfrentamento consciente dos episódios de mal-estar, insônia, angústia improdutiva, ansiedade, medos, culpas, ressentimentos ou depressão por meio do autoconhecimento, até compreendermos o que estamos fazendo ou deixando de fazer que esteja gerando esse mal-estar, conscientizados de que importa muito menos o que queremos da vida, do que o que a vida quer de nós! Essa é a grande pergunta! <strong>Será que estou servindo ao propósito da minha vida, disseminando a igualdade de possibilidades, a paz e o amor?</strong> Para depois que criarmos condições mínimas de igualdade podermos fomentar a liberdade, com ética e autoestima, para não corrermos o risco de voltarmos para a dinâmica do poder pelo poder.</p>



<p>Sabemos que este atual sistema econômico está comprometido, por conta da falta de sustentabilidade. Infelizmente, nosso consumo consome o planeta que está exaurido e muito populoso. Precisamos encontrar outra forma de vida, para diminuir a explosão demográfica, a desigualdade social e o individualismo egoísta, competitivo e cumulativo. Também acredito que a meritocracia é o melhor meio para contemplar quem se dedica, de forma íntegra e harmoniosa. Mas, neste momento, com tanta desigualdade, os pobres coitados que nascem sem condições mínimas de sobrevivência não tem chance de entrar no jogo do neoliberalismo. Por isso, <strong>necessitamos de um Estado que intervenha, de forma ética, consciente e não populista, na coibição dos abusos da usura, dos excessos de ganhos das minorias ricas e dominantes, impedindo, fiscalizando, punindo a ganancia, e a corrupção</strong>, que é sua parceira, fomentando a inclusão, erradicando as desigualdades, com objetivo de tirar, o mais rápido possível as pessoas da sua dependência, &#8220;desmamando-as&#8221; dos programas de qualquer tipo de ajuda social. Porque o melhor programa social é aquele em que as pessoas dependam dele o menor tempo possível!&nbsp;</p>



<p>Por isso, precisamos de muito investimento na educação para aprendermos a consumir sem consumir o planeta e continuar a gerar as desigualdades.<strong> A ideia não é tirar as conquistas que as pessoas conseguiram, com dignidade, escrúpulo e ética. </strong>O objetivo é o de dar condições para que todos possam ter conquistas com ética, mérito, trabalho e, na medida do possível, tirar daqueles que enriqueceram com corrupção, sem trabalho ou na criminalidade.&nbsp;</p>
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		<title>Tolerância</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/tolerancia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 27 Mar 2022 15:40:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[Totalitarismos]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[Consciência]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[tolerência]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A história da origem da consciência acompanha a evolução da humanidade. Por isso, diante do desconhecido, na ausência do saber científico e da pouca organização social, foram criados os mitos, acompanhados de seus respectivos ritos, para poder abrandar o medo de cada grupo de humanos. Com o surgimento das estruturas sociais os conjuntos de mitos [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>A história da origem da <strong>consciência</strong> acompanha a evolução da humanidade. Por isso, diante do desconhecido, na ausência do saber científico e da pouca organização social, foram criados os mitos, acompanhados de seus respectivos ritos, para poder abrandar o medo de cada grupo de humanos. Com o surgimento das estruturas sociais os conjuntos de mitos e ritos foram institucionalizados passando a ser a base fundante das religiões, formatando as crenças, na forma de dogmas, para aliviar a angústia diante das questões existenciais: De onde eu vim? Para onde vou? Quem sou eu? Se é que vim, vou ou sou! Com isso, a identificação religiosa passou a ser elemento de inclusão social, obviamente fomentando conflitos e competições entre os grupos fidelizados nos respectivos dogmas, continuamente em busca de afirmação e poder. <strong>Neste contexto a intolerância fica instituída, obviamente usando o nome de Deus para salvaguardar as crenças de cada grupo.</strong></p>



<p>Na visão da <strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/a-ciencia-e-a-psicologia-junguiana-2/">psicologia junguiana</a></strong>, abordagem que sigo em minha prática clínica, constatamos que toda vez que surge um clima de intolerância e de mau humor, nas várias possibilidades de vínculos e relações humanas, significa que os <a href="https://blog.sudamar.com.br/transferencia-contratransferencia-e-projecoes-na-analise-junguiana-e-na-formacao-de-membros-analistas-do-ijep/">jogos das projeções</a> começaram a dominar as pessoas envolvidas. Ou seja, aquilo que não suportamos em nós fica projetado no outro, de forma consciente ou inconsciente,<strong> numa tentativa iludida de conseguirmos extinguir ou anular estes conteúdos que são indesejados</strong>, mas que fazem parte da nossa personalidade. Com isso, necessitamos eliminar o outro, que funciona como um fiel depositário dos <strong>nossos conteúdos sombrios</strong>. Eliminar o outro, que é o diferente, pela fantasia de excluirmos, de nós mesmos, os conteúdos sombrios que nos incomodam. Por isso é que o diálogo e o encontro ficam tão difícil, no lugar de cooperação criativa surge a competição destrutiva e a intransigência, que impede o reconhecimento do verdadeiro eu.</p>



<p><strong>Aquele que acredita ser possuidor da verdade, convicto do seu saber, aprisionado em fundamentalismos científicos ou religiosos sempre fica arrogante e intolerante em aceitar outros posicionamentos, transformando o diferente em desigual, como mecanismo de defesa para preservar seus posicionamentos conceituais. Muitas vezes torna-se um moralista que tenta impor a todos os seus valores, que julga ser absolutamente certos. Para esse indivíduo, a única possibilidade é a prática da alteridade para que a tolerância possa ser estabelecida.</strong></p>



<p>Porém, a <strong>tolerância</strong> e uma das virtudes mais paradoxais que existe porque ela, por si mesma e de forma absoluta, pode contrariar sua própria essência <strong>quando é tolerante com os intolerantes</strong>. Ou seja, seu fundamento pode estimular sua antítese. Por isso, refletir a respeito da sua origem e suas consequências implicativas é uma oportunidade que, inevitavelmente, contribuirá para a nossa ampliação de consciência.</p>



<p>Sempre associo a tolerância com a filosofia cristã que ensina que: &#8220;quando alguém lhe der um tapa, ofereça a outra face&#8221;. Porém, desde cedo compreendi que essa orientação não tinha a intenção de nos deixar fracos, impotentes ou coniventes com o agressor. <strong>Porque, para oferecer a outra face precisamos reconhecê-la em nós mesmos, partindo do principio de que ninguém pode dar o que não tem, mas também <a href="https://blog.sudamar.com.br/servir-para-ser/">não poderá receber o que não pode dar</a></strong>. Ou seja, esse ensinamento faz com que reflitamos a respeito da face que estamos deixando amostra e aquela que está na sombra e não estamos mostrando, por ignorância, medo, vaidade ou arrogância. Com isso, dependendo da face oculta, o agressor estapeador poderá ficar arrependido ou, preventivamente, intimidado.</p>



<p>Outra questão é a respeito do limite da sua utilização, pois ela foi criada por conta dos conflitos teológicos, na idade média, porque, infelizmente, na história da evolução humana, em nome de Deus foram e ainda são cometidos os maiores absurdos. Daí vem à questão se devemos ser tolerantes com o terrorismo, que age em nome da santidade, como os inquisidores cristãos da idade média agiram? Com isso, questiona-se se&nbsp;a tolerância deve ter limites ou não? Saramago, premio Nobel de literatura, afirma sabiamente que: &#8220;<em>a <strong>tolerância</strong> para no limiar do crime. Não se pode ser tolerante com o criminoso. Educa-se ou pune-se</em>&#8221; Nesse sentido, não se pode ser tolerante para com a tortura, o estupro, a pedofilia, a escravidão, o narcotráfico, o terrorismo, a guerra. Neste sentido, compreendo que crime é todo ato que impede a liberdade tratando o outro sem igualdade e fraternidade e, neste caso, ao criminoso, só pode restar a perda da liberdade.</p>



<p>O exercício da alteridade é o melhor meio para a superação da rigidez e da <a href="https://blog.sudamar.com.br/intolerancia-aspectos-sombrios-da-psique/">intolerância</a> frente ao novo e ao diferente. No dinamismo da alteridade podemos começar a aprender a sair das nossas convicções para compreender as convicções do outro. É na capacidade de sair de si para poder se ver com os olhos do outro que a tolerância e o bom humor pode ser reconquistado e mantido, Nietzsche dizia que as <strong>convicções são prisões</strong>. Entretanto, sem a prática da alteridade, eu posso até me reconhecer no meu ego, apesar disso eu jamais saberia quem sou eu se não houvesse um alter-ego para saber que há um outro eu. Eu sou porque o outro existe, sem ele eu não seria.</p>



<p>Com a prática da alteridade, inevitavelmente, o respeito, que significa olhar e se deixar olhar, vai sendo presentificado, até que os sentimentos de amor e de compaixão começam a acontecer nas diversas formas de vínculos e relações humanas. <strong>Com o exercício da alteridade a construção da identidade e o confronto com o diferente começam a acontecer de forma mais simples e natural, porque passamos a entender que a evolução é um contínuo processo de construções e desconstruções, de envolvimentos e de desenvolvimentos</strong>, muitas vezes experimentados e percebidos associados a <a href="https://blog.sudamar.com.br/o-luto-e-o-silencio-da-morte/">sentimentos de perda</a>, separações e medo do novo, podendo provocar, defensivamente, tentativas de fugas a um passado mais primitivo e infantil, causadores de várias atitudes e posições regredidas. Desta forma, para que a tolerância consciente aconteça é necessário, antes de tudo, o autoconhecimento e a prática da alteridade. Porque a <strong>intolerância</strong>, acima de tudo, é fruto da baixa autoestima, do medo e dos sentimentos de inferioridade.</p>



<p class="has-text-align-right"><strong>Autor: Waldemar Magaldi</strong></p>



<p><strong>Bibliografia</strong></p>



<p>ABBAGNANO, Nicola. História da filosofia, Vols. I ao XIV, Lisboa, Presença, 1970.</p>



<p>ARENDT, Hannah. A condição humana, Rio de Janeiro, Forense Universitária, 1991.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. O homem e seus símbolos, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1964.</p>



<p>MAGALDI FILHO, Waldemar. Dinheiro, saúde e sagrado, Eleva Cultural, SP, 2010.</p>



<p>ZWEIG, Connie, e ABRAMS, Jeremiah.(org.), Ao encontro da sombra, São Paulo, Cultrix, 1994</p>
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		<title>Espiritualidade e religião: entre a proximidade transformadora e o neoconservadorismo fatal</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/espiritualidade-e-religiao-entre-a-proximidade-transformadora-e-o-neoconservadorismo-fatal-2/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Tania Pulier Garrido]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 14 Feb 2022 11:44:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Numinoso]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>
		<category><![CDATA[Totalitarismos]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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		<category><![CDATA[neoconservadorismo]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Neste artigo, trato da espiritualidade a partir do olhar da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, relacionando com as categorias de Tradição e tradições da Teologia cristã, presentes também, mesmo que sem esse nome, nas outras religiões. Diante do risco do neoconservadorismo, que muitas vezes ameaça a vida, até que ponto as religiões são salvaguarda [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Neste artigo, trato da espiritualidade a partir do olhar da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, relacionando com as categorias de Tradição e tradições da Teologia cristã, presentes também, mesmo que sem esse nome, nas outras religiões. Diante do risco do neoconservadorismo, que muitas vezes ameaça a vida, até que ponto as religiões são salvaguarda de uma espiritualidade humanizante e quando elas se afastam, tornando-se inclusive o oposto disso?</p>



<p>A espiritualidade é uma dimensão humana, reconhecida assim pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que a incluiu em 1998 em seu conceito de saúde. O ser humano busca sentido e significado e tem sede de valores supremos que o influenciem de dentro para fora e sobre os quais alicerçar a própria vida. Em sua ausência, sente-se inseguro e desamparado, algo que a pós-modernidade ou modernidade tardia vem escancarando.</p>



<p>Segundo Brigitte Dorst (2016, p. 13), “a espiritualidade [&#8230;] é uma constante antropológica em múltiplas formas de manifestação”, referindo-se a dimensões profundas da experiência de abertura e conexão à totalidade e unidade em todas as formas de religiosidade. Ela explica que o termo “espiritualidade” não era usual na época de Jung, mas as questões relativas a ela, chamada de “experiência religiosa”, ocuparam toda a vida de Jung e o conjunto completo de sua obra. “Jung sustenta uma compreensão da psique como espaço de experiência do numinoso”. (DORST, 2016, p. 16-17)</p>



<p>Para Jung (2020, §6), o numinoso “constitui uma condição do sujeito, e é independente de sua vontade. [&#8230;] a propriedade de um objeto visível, ou o influxo de uma presença invisível, que produzem uma modificação especial na consciência.” A experiência do numinoso aparece de tal forma ao espírito humano e provoca tal impacto que merece “respeitosa consideração” (§8), e a esta atitude ele chama de religião, a partir do vocábulo latino&nbsp;<em>religere</em>. “Toda confissão religiosa, por um lado, se funda originalmente na experiência do numinoso, e, por outro, na&nbsp;<em>pistis</em>, na fidelidade (lealdade), na fé e na confiança” relacionadas à mesma experiência central e fundante “e na mudança de consciência que daí resulta.” (§9)</p>



<p>Essa experiência espiritual é o cerne das religiões, que criam sistemas em torno dela e mais próximos ou afastados de sua essência, sobre o que falaremos a seguir. Por ora, é importante ressaltar como Jung associa essa experiência à produção autônoma do inconsciente a partir das imagens arquetípicas que se manifestam em todas as culturas, pois constituem a herança espiritual humana, imagens essas que também aparecem nos sonhos — de onde é possível resgatar o chamado da alma às pessoas a quem a religião já não diz nada, ou por não a terem, ou por ficarem em sua exterioridade.</p>



<p>O chamado, seja ele como vier, remete à ampliação de consciência, a partir do contato com a profundeza e integração de alguns de seus conteúdos. A esta direção aponta o processo de individuação, de tornar-se si mesmo, meta (como processo, não como ponto de chegada) de todo o desenvolvimento humano, acentuada na segunda metade da vida, na qual, por isso mesmo, a sede da alma se torna mais gritante. O mergulho interior não é fácil, pois leva a encontrar qualidades inferiores e tendências primitivas que desmancham a imagem ideal que temos de nós mesmos. Encontramos dentro aquilo que escandalizados condenamos fora. “Todo indivíduo é acompanhado por uma sombra, e quanto menos ela estiver incorporada à sua vida consciente, tanto mais escura e espessa ela se tornará” (JUNG, 2020, §131), podendo irromper e se apossar de nós, o que tantas vezes acontece. Como disse o apóstolo Paulo, fazemos o mal que não queremos, e o bem que queremos somos incapazes de fazer (cf. Rm 7,19), situações das quais popularmente dizemos: “eu estava fora de mim”.</p>



<p>É necessária uma mudança geral de atitude que, segundo Jung (2020, §136), “só pode começar com a transformação interior dos indivíduos”, que passa por “encontrar um caminho através do qual a personalidade consciente e a sombra possam conviver.” (§132) Este caminho de voltar-se a si mesmo numa aceitação e reconciliação profundas pode ser expresso como “fazer as pazes com Deus”, pois é um encontro com o&nbsp;<em>Self</em>como centro e totalidade, ao qual o eu passa a reconhecer como valor supremo e se submeter. Dê o nome que der, é um encontro com a imagem de Deus em si. Além disso, é uma trajetória ética, pois o sujeito assume as próprias responsabilidades em lugar de projetá-las nos outros. “Seja qual for a coisa que ande mal no mundo, este homem sabe que o mesmo acontece dentro dele, e se aprender a arranjar-se com a própria sombra, já terá feito alguma coisa pelo mundo.” (JUNG, 2020, §140)</p>



<p>A espiritualidade assim compreendida tem muita ligação com o que a Teologia cristã chama de Tradição, que em unidade com as Escrituras forma a fonte da fé, memória viva e vivificante da experiência primeira de encontro transformador com Cristo e a elaboração dessa experiência ao longo da História. Está voltada não só à compreensão e formulação de dogmas, mas sobretudo a manter o núcleo dessa experiência através dos tempos e ajudar cada nova geração a vivenciá-la. Cito o Cristianismo a partir de minha experiência, mas cada religião pode reconhecer sua própria Tradição, no sentido do núcleo essencial, e seu dinamismo com o passar do tempo, mantido vivo, capaz de continuar produzindo experiência e gerar impacto nos indivíduos por gerações.</p>



<p><strong>Quando as tradições se afastam do núcleo</strong></p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; As religiões podem se aproximar da espiritualidade, ajudando a manter vivo esse núcleo de experiência transformadora, a vivenciar o cerne, o essencial da fé, ou podem se distanciar dela, perdendo o dinamismo e cristalizando-se em tradições que aos poucos se afastam do sentido profundo e levam a ficar na exterioridade, tornando-se “pedra de tropeço” e impedindo elas mesmas o que deveriam promover, a interioridade, o autoconhecimento e a união humano-divina com suas consequências éticas. Para Jung (2012, §1652), “tudo o que é vivo sofre modificação. Não deveríamos contentar-nos com tradições imutáveis.”</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ele acredita que as religiões, sobretudo o Cristianismo, deixou de conversar com o espírito moderno. Caiu numa exterioridade vazia, um “verniz externo, porquanto o homem interior permaneceu intocado, alheio à transformação.” (JUNG, 1994, §12) Por um lado, a religião que não oferecia essa experiência, mas insistia em normas, dogmas e literalidades começou a parecer historinhas ingênuas aos olhos ilustrados que valorizavam a Ciência e a técnica. Por outro, essa consciência autônoma tornou-se inflada. “O homem moderno sofre de uma&nbsp;<em>hybris</em>&nbsp;da consciência, que se aproxima de um estado patológico.” (JUNG, 2020, §141) Jung chama esse processo histórico de “des-animação do mundo” e lamenta o vazio e a falta de sentido decorrentes daí.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A Igreja Católica, por sua vez, colocou-se em pé de guerra com a Modernidade, por muito tempo a condenando e reafirmando posições e posturas vindas desde o Concílio de Trento, ocorrido em meados do século XVI. Apenas no Concílio Vaticano II (1962-65) essa postura combativa foi revista, abriu-se um diálogo com a Modernidade, ecumênico e interreligioso, reforçou-se o caráter vivo e com isso dinâmico da Tradição, a Revelação como comunicação entre Deus e o ser humano, a Escritura como História da Salvação, sempre necessitada de uma hermenêutica ou interpretação, a Igreja como Povo de Deus a caminho pelas trilhas da História, devendo com isso rever constantemente as tradições e inculturar-se a partir também das tradições dos diversos povos. Nesse espírito e como recepção do Concílio, na América Latina foi desenvolvida a Teologia da Libertação, a partir do chão da vida e denunciando a opressão concreta vivida pelo povo, e reforçou-se a pastoral de base junto a este mesmo povo. Não sem exageros, claro, uma vez que a História caminha num movimento pendular. A partir da década de 1980, retomou-se o fechamento, reforçando movimentos espiritualistas que perdiam de vista o social, condenando alguns teólogos e dando força ao neoconservadorismo que hoje se revela a pleno vapor. Esse movimento veio com o neopentecostalismo, marcante também na explosão de igrejas evangélicas a partir do mesmo período; mas não apenas, uma vez que foram formados vários grupos, alguns dos quais retomam tradições como véus, determinadas vestimentas e mesmo o uso do latim. O que elas têm a ver com Jesus de Nazaré, reconhecido e transmitido pelos “com-Jesus” — chamados seguidores do Caminho — como o Cristo, é que fica difícil compreender.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; De fato, Jung, em 1952, já alertava do perigo dos “ismos”, os exageros; porém, ele, a partir da inflação da consciência na Modernidade (materialismo, psicologismo, ateísmo), e nós, nessa retomada pendular, ainda sem alma, centrada em acessórios e absolutamente excludente e desumana. Pois, enquanto nos dividimos política e religiosamente (e o que é pior, Igreja e Estado novamente de mãos dadas e alianças feitas), continuamos nos afastando da interioridade e da transformação profunda a que a autêntica experiência religiosa guardada pela bem compreendida Tradição nos conduziria. Seguimos nos matando em nome de Deus. E o pior: continuamos a projetar, a dizer que são os outros os perigosos e assassinos, inimigos da família, da moral e dos bons costumes (como outrora, no auge do Iluminismo, talvez fossem os outros os ignorantes e selvagens). “Como poderá ver claramente, quem não se vê a si mesmo, nem às obscuridades que inconscientemente impregnam todas as suas ações?” (JUNG, 2020, §140)</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O caminho proposto pela Psicologia Analítica, que&nbsp;conversa com a espiritualidade que está no cerne, núcleo das diversas religiões, é humanizador (individual e coletivamente) e pode dar resposta ao momento tão difícil que vivemos. O chamado de volta às fontes, feito pelo Concílio Vaticano II aos católicos e pessoas de boa vontade, e que cada tradição religiosa também reconhecerá quando sente a necessidade de se reaproximar da experiência primeira, vai na mesma direção. A Tradição conversa com a espiritualidade no sentido do que é essencial e valor fundamental para a humanização do humano; as tradições trazem a marca de uma época e podem contribuir ou não com isto, precisando de constante discernimento.</p>



<p>Quando a religião se torna guardiã da experiência que busca integrar consciente e elementos do inconsciente e percorrer uma trilha ética a partir da responsabilidade pela vida, ela cumpre seu papel de proximidade transformadora e, neste sentido, podemos dizer com Jung:</p>



<p>ninguém pode saber o que são as coisas derradeiras e essenciais. Por isso, devemos tomá-las tais como as sentimos. E se uma experiência desse gênero contribuir para tornar a vida mais bela, mais plena ou mais significativa para nós, como para aqueles que amamos — então poderemos dizer com toda a tranquilidade: “Foi uma graça de Deus”. (JUNG, 2020, §167)</p>



<p>Tania Pulier — analista em formação/IJEP</p>



<p>Lilian Wurzba — analista didata/IJEP</p>



<p>Referências:</p>



<p>DORST, Brigitte. Introdução. In: JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<em>Espiritualidade e transcendência</em>. Petrópolis: Vozes, 2016. p. 10-34.</p>



<p>JUNG.&nbsp;<em>Psicologia e alquimia</em>. Petrópolis: Vozes, 1994.</p>



<p>___.&nbsp;<em>A vida simbólica</em>. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2012. v. 2.</p>



<p>___.&nbsp;<em>Psicologia e religião</em>. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2020. v. 1.</p>



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		<item>
		<title>A queda como tomada de consciência</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-queda-como-tomada-de-consciencia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 07 Oct 2021 17:44:00 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Numinoso]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo tem o objetivo de investigar a simbologia da Queda e suas homologias míticas, para refletir sobre o atentado terrorista do World Trade Center, no ano de 2001; e a fuga do Afeganistão no ano de 2021. E entender se estes acontecimentos podem ser um pedido ou um chamado do Self para a tomada [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Este artigo tem o objetivo de investigar a simbologia da Queda e suas homologias míticas, para refletir sobre o atentado terrorista do World Trade Center, no ano de 2001; e a fuga do Afeganistão no ano de 2021. E entender se estes acontecimentos podem ser um pedido ou um chamado do Self para a tomada de consciência.&nbsp;</p>



<p>Os acontecimentos no Afeganistão parecem ter reverberado em grande parte do globo. Na mídia pudemos conferir com mais intensidade informações importantes que já eram disseminadas: antes e depois do domínio do Talibã; a repressão do feminino e das mulheres imposta por esse extremismo político-religioso. Mas, uma cena, em especial, chamou demasiadamente a atenção. Uma cena que há pelo menos 20 anos não se repetia. Por não ser uma cena qualquer e por mais literal e cruel que seja; nela, parece residir um pedido de simbolização, de tomada de consciência.&nbsp;</p>



<p>Essa cena, repetida pela primeira vez no World Trade Center e agora nos aviões internacionais, marcam, talvez, a síntese da megalomania humana neste século. Estamos nos referindo à imagem da Queda, que, no ano de 2001, quem estava no prédio teve que escolher morrer entre ser soterrado pelos escombros ou se jogar dos 110 andares, e, agora em 2021, em Cabul, dois indivíduos, um deles jogador da seleção de futebol de base, ao tentarem fugir do regime do Talibã agarraram-se no avião, mas ao chegar às alturas ambos não suportaram as condições de pressão, altura e temperatura e acabaram despencando em queda livre e morrer.</p>



<p>A Queda não é uma imagem recente, muito menos unicamente literal. De acordo com Joseph Campbell (1990), a Queda é de extrema importância simbólica para as religiões abraâmicas. Com suas devidas diferenças, as três religiões abraâmicas relatam o casal Adão e Eva provando do fruto proibido e sendo expulsos do Jardim do Paraíso. Essa expulsão é considerada uma Queda pelo autor, primeiro porque cria uma cisão entre criador/criatura, que traz para a criatura um reconhecimento da sua pequenez, infinitude e imperfeição; e, consequentemente, provando do fruto proibido, que apesar de poder ser entendido de maneira mais instintiva, sexual e literal, pode também ser entendido como a tomada da consciência e a consciência da consciência.</p>



<figure class="wp-block-table"><table><tbody><tr><td>&nbsp;</td></tr><tr><td>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;</td><td><img decoding="async" alt="Imagem" src="blob:https://blog.sudamar.com.br/ac74690e-3353-4d86-9eef-91d9f81b46f2"></td></tr></tbody></table></figure>



<p>Parece-nos que o ser humano, esquecendo-se da sua pequenez ou&nbsp;mergulhando nela, provou de uma outra fruta no último século: a do poder. Mas, não qualquer poder, o poder do progresso, o poder da globalização provenientes da razão e do Esclarecimento. Paulo Freire (2018) afirma que o sonho do oprimido é tornar-se opressor. Talvez não seja diferente aqui: o sonho da criatura tem sido tornar-se criador. E por isso mesmo,&nbsp; a criatura buscou incessantemente, por meio da Razão, expulsar qualquer ameaça a essa meta.&nbsp;</p>



<p>No&nbsp;&nbsp; processo&nbsp;&nbsp; mais&nbsp;&nbsp; amplo&nbsp;&nbsp; do&nbsp;&nbsp; progresso&nbsp;&nbsp; do&nbsp;&nbsp; pensamento,&nbsp;&nbsp; o&nbsp;&nbsp; Iluminismo&nbsp;&nbsp;(Esclarecimento)&nbsp; tem&nbsp; perseguido&nbsp; sempre&nbsp; o&nbsp; objetivo&nbsp; de&nbsp; livrar&nbsp; os&nbsp; homens&nbsp; do&nbsp;&nbsp;medo&nbsp;&nbsp; e&nbsp;&nbsp; investi-los&nbsp;&nbsp; na&nbsp;&nbsp; posição&nbsp;&nbsp; de&nbsp;&nbsp; senhores.&nbsp;&nbsp; Mas&nbsp;&nbsp; a&nbsp;&nbsp; terra&nbsp;&nbsp; totalmente&nbsp;&nbsp;esclarecida resplandece sob o signo de uma calamidade total. O programa do esclarecimento era o desencantamento do mundo. Sua meta era dissolver os mitos e substituir a imaginação&nbsp; pelo&nbsp;&nbsp;saber&nbsp; [racional]&nbsp;(ADORNO&nbsp; &amp;&nbsp; HORKHEIMER,&nbsp;&nbsp;1985&nbsp;, p.17).</p>



<p>Os autores são pertinentes em apontar uma meta do Esclarecimento e não um objetivo alcançado. Todo esse processo foi sim uma tentativa de dissolver os deuses e substituir a imaginação, mas o ocorrido foi uma enantiodromia, como diria Heráclito; ou um paradoxo das consequências, como diria Max Weber discorrendo sobre o desencantamento do mundo: os deuses e os mitos transmutaram-se e continuaram a habitar a psique humana.&nbsp;</p>



<p>A modernidade expôs-se, no fundo, como uma estranha melodia, um canto de barbárie outrora inaudível. O que se apresentava fiel&nbsp;à&nbsp;liberdade flertava com grilhões. A igualdade, retocada com colorações abstratas, tornou-se cativa de ditames jurídicos que serviram tão-somente para relegitimar a discriminação. A&nbsp; solidariedade traduziu-se&nbsp; em&nbsp; um&nbsp; assistencialismo&nbsp; instrumental,&nbsp; motor procedimental de perpetuação de todas as formas sistêmicas de agressão (centralizadas ou impessoais), arraigadas&nbsp; na desigualdade. Não por acaso, a razão se converteu em&nbsp; princípio&nbsp; de&nbsp; dominação:&nbsp; a&nbsp; ciência,&nbsp; em&nbsp; novo&nbsp; mito:&nbsp; a técnica e a tecnologia, em objeto de culto diário. O iluminismo se rendeu ao seu contrário: transformou-se em instrumento do poder&nbsp; conservador. O que vigorava como gloriosa bandeira objetiva, por cuja sustentação se mobilizou enorme soma de energia&nbsp; humana&nbsp; em&nbsp; diversas&nbsp;épocas e lugares, revelou-se fábula (TRIVINHO, 2001, p.47).</p>



<p>Retomando a transmutação dos deuses, vale lembrar que Jung (2013) afirma que os deuses tornaram-se doenças. Socialmente falando, não seria incorreto afirmar que a deusa Colúmbia ganhou força desde o Iluminismo, afinal ela é a representante americana do racionalismo totalitário, que implantou as ferrovias europeias na América e trouxe o &#8220;progresso e a Palavra” – o liberalismo – para os nativos americanos. Seus adeptos são os famosos e ilustres&nbsp;<em>self made men.&nbsp;</em>Estes, que por sua vez, em prol do capital, usurpam todo e qualquer recurso natural necessário para fazer crescer o patrimônio.</p>



<p>Relembrando a questão da razão, Jung (2014a) (2014b) também aponta-nos algo extremamente importante: é necessário reconhecer que a razão ou a certeza do conhecimento é diferente de possuir consciência: &#8220;o conhecimento também produz uma inflação semelhante, em princípio, mas muito mais sutil do ponto de vista psicológico.” (JUNG, 2014b, §228). Isto é, a consciência abarca a racionalidade e a irracionalidade, é integralista; ela considera e pondera; reconhece as consequências de suas decisões e atos visando a ética do Self; e, por isso mesmo, reconhece um erro feito e se transmuta a partir dele. Ter consciência é superar a binariedade de uma psique infantil, no caso, da certeza última de um conhecimento. A consciência verdadeira é a certeza da incerteza; e a incerteza da certeza. Edgar Morin (2007) afirma-nos que todo conhecimento deve estar ao ponto de sua própria destruição, caso contrário, ele tornar-se-ia um dogma.&nbsp;</p>



<p>E quando ideias, religiões, indivíduos confirmam veementemente que são possuidores da verdade última, esta manifesta-se de forma padronizada, a partir do polo destrutivo arquetípico, ultrapassando os limites humanos, “dando origem aos excessos, à&nbsp;presunção (inflação!),&nbsp;à&nbsp;compulsão,&nbsp;à ilusão ou à&nbsp;comoção, tanto no bem como no mal.” (JUNG, 2014a, §110).&nbsp;</p>



<p>Sobre a inflação, na mitologia grega temos o brilhante conceito de húbris – a desmedida –, que é ilustrada muito bem por outra Queda: a do mito de Ícaro – filho de Dédalo –, que ao contrário do pai, simboliza um &#8220;intelecto insensato&#8221;; &#8220;um psiquismo deformado e vaidoso&#8221;; &#8220;megalomaníaco&#8221;. Ícaro, ao escapar do Labirinto do Minotauro com suas asas de cera, não escuta o conselho de seu pai – &#8220;nem tanto ao céu, nem tanto ao mar&#8221; – e acaba por levantar um voo nas alturas o que faz suas asas derreterem, entrar em queda livre e morrer. Isto é, toda inflação precede uma Queda. (BRANDÃO, 1986).&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Simbolicamente, a inflação pode ser também vislumbrada por meio da Torre de Babel, que é uma metáfora do orgulho insensato humano. Isto é, a tentativa do ser humano igualar-se a deus Javeh, que ao perceber tamanho empreendimento, lança um raio sobre a torre, dispersando os construtores e confundindo sua linguagem, separando-os e dividindo-os pelo mundo. No Tarot, o décimo XVI arcano é a Torre – a revelação entre a vontade e a sorte, entre o que se quer e o que acontece. Não se pode negar também que a posição da Queda lembra a do Enforcado, o que rapidamente poderíamos sugerir que a humanidade deve buscar uma nova cosmovisão para o&nbsp;<em>modus vivendi&nbsp;</em>no planeta, se não a culpa coletiva assolará a todos. (Meditações sobre os 22 arcanos maiores do Tarô, p. 440).</p>



<p>Este &#8220;o que se quer&#8221; deve ser entendido melhor. Devemos antes perguntar: quem quer? Quem&nbsp;é este enforcado? Parece que quem queria, tanto no caso da Torre de Babel quanto para o Ocidente das luzes e globalizado é o ego. Tornamo-nos uma sociedade pautada pelo egocentrismo e pelo individualismo. Não à toa chamamos indivíduos hoje de &#8220;colaboradores&#8221; – todos trabalham juntos na empresa em prol do seu próprio individualismo. Todos querem sozinhos retornar ao Paraíso de onde caíram ou até ser o Criador de seu próprio paraíso, seja em cargos altíssimos, ilusões de poder ou na cobertura de prédios mega-altos das metrópoles.&nbsp;</p>



<p>Se toda inflação precede a Queda e toda Queda é um pedido de tomada de consciência, vale lembrar, por último, o que Jung (2012) aponta: ”não será a fome, nem terremotos, nem micróbios, nem câncer, mas o próprio homem que será o maior perigo do homem&#8221;&nbsp;(JUNG, 2012, p. 76).&nbsp;</p>



<p>Leonardo Torres – Analista Junguiano em Formação pelo IJEP-SP</p>



<p>Analista Didata: Waldemar Magaldi</p>



<p>BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia 1. Petrópolis: Vozes, 1986.&nbsp;</p>



<p>CAMPBELL, Joseph.&nbsp;<strong>O poder do mito.&nbsp;</strong>São Paulo: Palas Athena, 1990.</p>



<p>FREIRE, P.<strong>&nbsp;Pedagogia do oprimido.&nbsp;</strong>São Paulo: Paz e Terra, 2018.&nbsp;</p>



<p>JUNG, C. G., WILHELM, R.&nbsp;<strong>O segredo da flor de ouro: um livro de vida chinês.&nbsp;</strong>Petrópolis: Vozes, 2013.&nbsp;</p>



<p>JUNG, C. G.&nbsp;<strong>O eu e o inconsciente.</strong>&nbsp;Petrópolis: Vozes, 2014a.</p>



<p>JUNG, C. G.&nbsp;<strong>Psicologia do inconsciente.</strong>&nbsp;Petrópolis: Vozes, 2014b.&nbsp;</p>



<p>JUNG, C. G.&nbsp;<strong>A Vida Simbólica</strong>&nbsp;Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p>MORIN, E.&nbsp;<strong>Introdu</strong><strong>ção ao pensamento complexo</strong>. Porto Alegre: Sulina. 2007.</p>



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<iframe title="A Queda Como Tomada de Consciência" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/rEVV2TQA-00?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
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		<title>O Napoleão de Hospício brasileiro</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-napoleao-de-hospicio-brasileiro/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Aug 2021 17:59:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[contágio psíquico]]></category>
		<category><![CDATA[Pânico]]></category>
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		<category><![CDATA[política]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este trabalho tem o objetivo de refletir sobre as homologias entre o Esclarecimento e a loucura coletiva que nele eclodiu e o atual momento político-social-pandêmico brasileiro. Analisando, principalmente, a possibilidade de estarmos presenciando um contágio psíquico de delírio coletivo em maior e em menor grau.&#160; Dwyer (2018) afirma que, no ano de&#160;1840,&#160;quando ocorreu o retorno [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Este trabalho tem o objetivo de refletir sobre as homologias entre o Esclarecimento e a loucura coletiva que nele eclodiu e o atual momento político-social-pandêmico brasileiro. Analisando, principalmente, a possibilidade de estarmos presenciando um contágio psíquico de delírio coletivo em maior e em menor grau.&nbsp;</p>



<p>Dwyer (2018) afirma que, no ano de&nbsp;1840,&nbsp;quando ocorreu o retorno dos restos mortais de Napoleão à França,&nbsp;cerca de&nbsp;treze&nbsp;ou&nbsp;quatorze&nbsp;indivíduos foram admitidos no mesmo hospital psiquiátrico, em Bicêtre, afirmando ser o próprio &#8220;Napoleão&#8221;.&nbsp;Evidentemente, cada um deles considerava o outro louco. Este fenômeno, curiosamente, já ocorria antes mesmo da morte de Napoleão Bonaparte: no ano de 1818, há relatos de que pelo menos cinco indivíduos foram admitidos no hospital Charenton acreditando&nbsp;também ser&nbsp;Napoleão.&nbsp;Todos eles comportavam-se como o próprio: de sua famosa postura corporal até seu comportamento social, sendo mais imperial, orgulhoso, arrogante, abrupto, tirânico, caprichoso e colérico. A ilusão não afetou somente homens, segundo os relatos, algumas mulheres também foram afetadas. Todos eles se levavam demasiadamente&nbsp;a sério, davam ordens e exigiam lealdade.&nbsp;Em troca, tratavam os outros com desdém.&nbsp;Autores como Dwyer (2018) e Murrat (2012) discorrem que casos como estes são considerados delírios.&nbsp;</p>



<p>Estes delírios não ocorreram somente com a figura de Napoleão, mas também com outros soberanos. No ano de 1839, um homem denominado Raoul Spifame, advogado no Parlamento de Paris, foi internado no hospital psiquiátrico Bicêtre por acreditar ser o rei Henrique II, da França. Segundo Murrat (2012), os jornais da época relataram que a semelhança fisionômica com o rei era verdadeira, o que levou muitos amigos e colegas a chamarem Spifame de &#8220;vossa majestade&#8221; ou &#8220;vossa excelência&#8221;, fazendo ele acreditar piamente que era o próprio soberano. Este caso em especial possui uma peculiaridade que deve ser evidenciada, de acordo com Murrat (2012), em um certo dia, um guarda pendurou um espelho na cela de Spifame, que ao aproximar-se do espelho, reconheceu a própria imagem refletida como a do rei Henrique II e inclinou-se rápida e profundamente em reverência. Para a autora, &#8220;Raoul prova simultaneamente que não é louco, já que faz a diferença e dá a prova de que se dissocia do soberano, personagem distinto do advogado encerrado em Bicêtre&#8221; e ainda conserva seu racionalismo e cognição (MURRAT, 2012, p.170).</p>



<p>Isso fica evidente quando estudamos Hillman (2012), que vai além da psiquiatria clássica que entende delírio como uma &#8220;crença falsa&#8221;, o autor aponta que um delírio paranóico, por exemplo, é uma persuasão de sentimento, pela evidência de sentidos, surgindo até uma logicidade incorrigível. O autor ainda discorre que independente do tipo de delírio e de quão longa e tenazmente ele seja mantido, devemos lembrar aquilo que dizem todos os manuais de psiquiatria, que via de regra o comportamento, o intelecto e as emoções de pacientes que disso sofrem estão preservados, de forma que se suas premissas fossem verdadeiras, seu comportamento e seu discurso passariam quase que por normais.</p>



<p>Casos como os citados acima foram tratados isoladamente por psiquiatras, psicólogos e psicanalistas até então. Mas seria de grande valia reconhecer que tipo de fenômeno psíquico coletivo está por trás dos delirantes internados, afinal, é muito provável que o número de indivíduos que deliraram na época foi superior aos registros dos hospitais psiquiátricos. O máximo diagnosticado sobre tais episódios como um único fenômeno foi feito por François Leuret, reconhecendo-os como uma loucura coletiva de monomania de orgulho, devido às circunstâncias político-sociais da revolução francesa, da guilhotina e do Esclarecimento. Murrat (2012), em seu livro, também avança em passos largos demonstrando um imbricamento entre a política e a loucura, mas não satisfaz a perspectiva junguiana, sem a análise de reconhecer os casos como um movimento coletivo e delirante, visto que a autora não apresenta uma compreensão do fenômeno a partir do inconsciente coletivo, o que seria de grande valia. Para adicionar esta concepção, vale lembrar o que Jung (2013) aponta sobre a influencia do inconsciente coletivo na sociedade:&nbsp;</p>



<p>Via de regra, quando o inconsciente coletivo se torna verdadeiramente constelado em grandes grupos sociais, a consequência será uma quebra pública, uma epidemia mental que pode conduzir a revoluções, guerra, ou coisa semelhante. Tais movimentos são tremendamente contagiosos, eu diria inexoravelmente contagiosos, pois, quando o inconsciente coletivo é ativado, ninguém mais é a mesma pessoa (JUNG, 2013, p. 61-62, vol. 18/1).</p>



<p>No tocante, já perseguimos fenômenos semelhantes – no livro &#8220;<em>Contágio Psíquico: a loucura das massas e suas reverberações na mídia</em>&#8221; relatamos casos de indivíduos que confundiram&nbsp;<em>outrem&nbsp;</em>com o diabo e com bruxas; discorremos sobre episódios delirantes de envenenamentos, OVNIS e órgãos genitais desaparecendo; entre outros.&nbsp;</p>



<p>A afirmação do autor de que &#8220;ninguém é mais a mesma pessoa&#8221; deve ser ressaltada. Isto é, quando o movimento provém do inconsciente coletivo e de suas imagens arquetípicas, nem o rei, nem o padre, nem o filósofo, nem o carrasco, nem o cidadão são os mesmos, todos estão contagiados pelo o que emerge da coletividade. Isso leva-nos a crer que os prisioneiros de Bicêtre e Chareton são uma pequena parte do movimento coletivo ocorrido na época. Ou seja, na perspectiva junguiana, cai por terra a defesa de que casos como os supracitados são extremos e não deveriam ser comparados a líderes políticos ou uma população que aparentemente possui uma mínima lucidez. Se o próprio Spifame manteve sua lucidez, como reconhecer que a sociedade francesa da época ou até mesmo a atualidade está realmente lúcida? Hillman (2012) aponta que&nbsp;o delírio não pode ser determinado por critérios sociais, já que os próprios critérios sociais podem ser/estardelirantes.&nbsp;Para corroborar, Jung (2013b, p. 286-287) afirma que o estado de extremo de desequilíbrio mental é uma oportunidade de vislumbrar certos &#8220;fenômenos psíquicos com clareza quase exagerada&#8221;; e também, de reconhecer &#8220;fenômenos que muitas vezes são percebidos apenas de maneira obscura dentro dos limites normais. O estado anormal funciona&nbsp;às vezes como lente de aumento&#8221;.</p>



<p>Simbólica e enantiodromicamente, podemos compreender que a época das Luzes, buscando a lucidez total, fez muitos indivíduos perderem literal e metaforicamente a cabeça, transformando tudo na mais crassa barbárie.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Murrat (2012) aponta que ao passo que muitos da aristocracia eram condenados à &#8220;viúva&#8221;, outros eram trancafiados nos hospitais psiquiátricos, que cresceram de maneira vertiginosa nesta época. A autora ainda afirma que, nas execuções, os cidadãos espectadores tinham rompantes de contágios psíquicos acreditando que a cabeça separada do corpo ainda piscava os olhos. E, os estudiosos, em nome da&nbsp;ética e&nbsp;da&nbsp;moral, afirmavam veementemente que a guilhotina era a melhor maneira de executar alguém.</p>



<p>Não seria estranho depreender que toda época foi atingida pelo delírio coletivo das Luzes e das Sombras em maior ou menor grau, seja acreditando ser Napoleão, seja acreditando ser igualitário, fraternal e liberal com a guilhotina debaixo do braço. Esqueceram-se do inconsciente coletivo e de suas sombras em prol de uma lucidez delirante.</p>



<p>Outra sociedade que parece ter esquecido de sua sombra é aquela em que o &#8220;cidadão de bem&#8221; faz parte; aquela que elegeu o atual presidente brasileiro; aquela que acredita fielmente que a arma e a cloroquina vão salvar a todos na terra plana. Curiosamente, avessa a Adorno e Horkheimer, críticos do Esclarecimento, mas a favor das ideias do pseudo-filósofo Olavo de Carvalho e das Fake News. Estes vão às ruas pedir atos inconstitucionais; clamar pela morte e matar líderes da esquerda; e ainda, acreditam piamente que Deus é um apoiador desse movimento.</p>



<p>Não somente o presidente, mas parte da população parece estar delirante. Não seria incorreto afirmar que estamos vivendo uma reedição da monomania orgulhosa, ou seja, do comportamento napoleônico imperial, orgulhoso, arrogante, abrupto, tirânico, caprichoso&nbsp;e colérico. Ainda podemos somar a propagação do mal, a barbárie e o movimento genocida que deixou morrer mais de 550 mil brasileiros por COVID-19 até então.</p>



<p>Parece que o delírio coletivo é um grande viabilizador da propagação e da banalização do mal. Aqui não devemos polarizar a atual mentalidade coletiva brasileira entre delírio e mal, pois, os dois agem de mãos dadas. Acompanhar a CPI da COVID-19 revela isso. Faz-nos, a cada momento, questionar como é possível ser capaz de corroborar e intermediar possíveis tentativas de corrupção sabendo que parte da população brasileira, se não morre pela pandemia, morre pela fome? Como é possível considerar que a propina é de mais valia do que as sepulturas já cavadas no país? Como é possível colaborar com um Ministro que já proclamou que prefere o saco preto à vacina?&nbsp;</p>



<p>Não devemos também e nem queremos excluir a responsabilidade dos envolvidos com a corrupção, mas compreender que em suas perspectivas, tanto o presidente quanto seus apoiadores parecem delirar coletivamente, crendo que estão cumprindo seus trabalhos, automaticamente maléficos, assim como a guilhotina o fez.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Como defender-se deste movimento contagioso? Talvez não seja possível e já estamos delirando juntos. Mas, Edgar Morin, em entrevista, recentemente, trouxe-nos temperança:&nbsp;com frequência, é preciso ser um desviante minoritário para estar no real. Embora, aparentemente, nele não haja nenhuma perspectiva, nenhuma possibilidade, nenhuma salvação, a realidade não está paralisada para sempre, ela tem seu mistério e sua incerteza. O importante é não aceitar o fato consumado.&nbsp;</p>



<p>Leonardo Torres – Analista em Formação pelo IJEP</p>



<p>Analista ditataresponsável: Waldemar Magaldi</p>



<p><strong>REFERÊNCIAS:</strong></p>



<p>Dwyer, Philip. Napoleon: Passion, Death and Resurrection, 1815-1849. Lodres: Bloomsbury, 2018.</p>



<p>Jung, Carl Gustav. A Vida Simbólica: escritos diversos. Petrópolis: Vozes, 2013.&nbsp;</p>



<p>Jung, Carl Gustav. Tipos Psicológicos. Petrópolis, 2013b.</p>



<p>Hillman, J. Paranoia. Petrópolis: Vozes, 2012.&nbsp;</p>



<p>Morin, Edgar. Entrevista.&nbsp;<a href="http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/610964-cem-anos-de-morin-filosofo-da-complexidade">http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/610964-cem-anos-de-morin-filosofo-da-complexidade</a></p>



<p>Murrat, Laure. O Homem que se achava napoleão: por uma história política da loucura. São Paulo: Três Estrelas, 2012.&nbsp;</p>



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