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	<title>Arquivos Não Categorizado - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos Não Categorizado - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Aspectos psicológicos da relação com a aridez em tempos de emergência climática</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Gabriela Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 10 Jun 2026 18:59:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Não Categorizado]]></category>
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					<description><![CDATA[<p> Este artigo busca analisar os elos entre os acontecimentos ligados à crise hídrica em tempos de emergência climática e a experiência tão humana e profunda de aridez e sede, aprofundando os paradigmas do combate à seca e da convivência com o Semiárido na psique individual e coletiva, à luz das reflexões da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<h2 id="h-resumo-este-artigo-busca-analisar-os-elos-entre-os-acontecimentos-ligados-a-crise-hidrica-em-tempos-de-emergencia-climatica-e-a-experiencia-tao-humana-e-profunda-de-aridez-e-sede-aprofundando-os-paradigmas-do-combate-a-seca-e-da-convivencia-com-o-semiarido-na-psique-individual-e-coletiva-a-luz-das-reflexoes-da-psicologia-analitica-de-carl-gustav-jung" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><strong>Resumo</strong>: Este artigo busca analisar os elos entre os acontecimentos ligados à crise hídrica em tempos de emergência climática e a experiência tão humana e profunda de aridez e sede, aprofundando os paradigmas do combate à seca e da convivência com o Semiárido na psique individual e coletiva, à luz das reflexões da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-a-aridez-e-um-dos-simbolos-fortes-que-atravessam-o-humano-em-varios-contextos-e-epocas-historicas-e-retorna-vivamente-hoje-diante-da-crise-climatica-em-que-a-propria-onu-declarou-este-ano-ter-o-mundo-entrado-em-uma-falencia-global-de-agua-imagens-de-uma-terra-rachada-sem-vegetacao-da-vida-ameacada-evocam-a-experiencia-da-sede-tao-desesperadora-quanto-profunda-pois-alem-da-literal-quanta-sede-se-vive-interiormente-voce-tem-sede-de-que-canta-o-titas" style="font-size:16px">A aridez é um dos símbolos fortes que atravessam o humano em vários contextos e épocas históricas e retorna vivamente hoje diante da crise climática, em que a própria ONU declarou este ano ter o mundo entrado em uma falência global de água. Imagens de uma terra rachada, sem vegetação, da vida ameaçada evocam a experiência da sede, tão desesperadora quanto profunda, pois, além da literal, quanta sede se vive interiormente. “<strong>Você tem sede de quê</strong>?”, canta o Titãs.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E tantos outros artistas da música, cinema, poesia e vários místicos ao longo da História falaram de formas diferentes da sede e da aridez ou do deserto. “Minha alma tem sede de ti; minha carne desfalece por ti, em uma terra ressequida, esgotada, sem água”, canta o salmista (Sl 63,1).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em 2009 e 2010, vivi em Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, Semiárido mineiro, trabalhando como comunicadora popular em um projeto da Articulação no Semiárido (ASA-Brasil) de captação de água de chuva para a agricultura familiar, voltado para famílias rurais que já possuíam a primeira cisterna, de água de beber. </p>



<p class="wp-block-paragraph">É impossível resumir toda a rica experiência de viver e trabalhar com famílias de vários municípios da região e participar desta articulação da sociedade civil que fazia tantas conquistas em muitos setores ao redor da água, como agroecologia, educação no campo, questões de gênero e outras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mais importante era a mudança de paradigma, do combate à seca, que tanto enriqueceu latifundiários a partir da manutenção e espetacularização da miséria, para a convivência com o Semiárido, que mostrava a possibilidade de vida digna e abundante na especificidade daquela região.</p>



<h2 id="h-hoje-como-psicoterapeuta-vejo-no-proprio-processo-e-em-tantos-que-ja-acompanhei-a-presenca-tambem-dos-dois-paradigmas" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Hoje, como <strong>psicoterapeuta</strong>, vejo no próprio processo e em tantos que já acompanhei a presença também dos dois paradigmas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A princípio, o combate a tudo o que não corresponde ao padrão dominante na consciência. Ao longo do processo, o convite — às vezes aceito — ao aprendizado da convivência entre os vários que nos habitam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diante de tudo isso, o objetivo deste artigo é aprofundar os paradigmas do combate à seca e da convivência com o Semiárido na psique individual e coletiva, à luz das reflexões da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung. Buscar-se-á perceber os elos entre os acontecimentos ligados à crise hídrica em tempos de emergência climática e as experiências de aridez, sede, provações, também com os caminhos de combate e convivência que se apresentam diante delas.</p>



<h2 id="h-do-combate-a-seca-a-convivencia-com-o-semiarido-territorial" class="wp-block-heading" style="font-size:18px"><strong>Do combate à seca à convivência com o Semiárido territorial</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">As terras áridas e semiáridas ocupam mais de um terço (41%) da superfície do planeta, presentes em todos os continentes. Sua principal característica é a baixa precipitação — chove entre 80 e 250 mm por ano —, com a forte presença dos desertos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Semiárido brasileiro, por sua vez, é o mais chuvoso do mundo, com um volume entre 200 e 800 mm anuais. Envolve cerca de 15% do território nacional, compreendendo a maior parte dos Estados do Nordeste, o Norte de Minas Gerais e Vale do Jequitinhonha e o norte do Espírito Santo. Tem dois biomas principais, o Cerrado e a Caatinga, que recebem influência e umidade de biomas vizinhos, daí sua peculiaridade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se o processo de desertização é natural e ocorre de forma lenta e gradativa, o que se discute cada vez mais é a questão da desertificação, uma das grandes ameaças nas mudanças climáticas e fruto da ação humana desordenada. Culmina com a degradação dos solos, dos recursos hídricos, da vegetação e da biodiversidade, reduzindo a qualidade de vida das populações afetadas.</p>



<h2 id="h-o-brasil-viveu-algumas-grandes-secas-ao-longo-de-sua-historia-incrivel-pensar-que-a-mais-severa-de-todas-foi-a-de-2024-sera-que-estamos-atentos-a-isso" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">O Brasil viveu algumas grandes secas ao longo de sua história (incrível pensar que a mais severa de todas foi a de 2024! Será que estamos atentos a isso?).</h2>



<p class="wp-block-paragraph">No geral, sobretudo até o final do século XX, os governos se acostumaram a fazer grandes obras, como açudes e represas, muitas vezes superfaturadas, passando pelas terras de fazendeiros, enquanto a maioria da população dependia de caminhões-pipa e cestas básicas, mantenedores da dependência social e política e geradores de votos. Muitos migravam para as grandes cidades, gerando a ocupação desordenada que até hoje faz vítimas nos desabamentos e enchentes com as chuvas fortes e concentradas.</p>



<h2 id="h-lembro-me-de-crianca-das-imagens-no-noticiario-das-secas-no-nordeste-as-filas-para-conseguir-um-balde-de-agua-os-caminhoes-paus-de-arara-levando-as-familias-dos-migrantes" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Lembro-me de criança das imagens no noticiário das secas no Nordeste, as filas para conseguir um balde de água, os caminhões paus-de-arara levando as famílias dos migrantes&#8230;</h2>



<p class="wp-block-paragraph">E, no Ensino Fundamental, muito me impressionou um livrinho com o título <em>Indústria da seca</em>! Foi a primeira vez que tive contato com este termo cunhado na década de 1960 pelo jornalista Antônio Callado, que mostrou como a seca estava longe de ser mero fenômeno climático, mas era socialmente construída e manipulada para servir aos interesses da elite regional.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No início da década de 1990, ocorreu um processo de mobilização e fortalecimento da sociedade civil, cujo marco foi a ocupação da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). Em 1993, com o objetivo de pautar a convivência com o Semiárido em contraposição à política governamental vigente na época. Em 1999, paralelamente à 3ª Conferência das Partes da Convenção de Combate à Desertificação e à Seca (COP3) da Organização das Nações Unidas (ONU), realizada no Recife (PE), organizações da sociedade civil lançaram a Declaração do Semiárido Brasileiro, marco de fundação da Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA).</p>



<h2 id="h-a-declaracao-afirma-a-viabilidade-do-semiarido-uma-regiao-com-grande-riqueza-natural-e-cultural-e-muitas-possibilidades-com-a-qual-familias-desenvolveram-maneiras-criativas-de-conviver-e-lidar" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">A Declaração afirma a viabilidade do Semiárido, uma região com grande riqueza natural e cultural e muitas possibilidades, com a qual famílias desenvolveram maneiras criativas de conviver e lidar.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A grande diversidade desse território precisa ser levada em consideração nos projetos; grandes soluções uniformes, além de onerosas e de alto risco ambiental e social, não funcionam para a maioria dispersa ao longo desse local.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As propostas da articulação, baseadas nas premissas de conservação, uso sustentável e recomposição ambiental dos recursos naturais e da quebra do monopólio de acesso à terra, água e outros meios de produção, envolvem, entre outros pontos, o fortalecimento da agricultura familiar; o uso de tecnologias e metodologias adaptadas à região e à população; à universalização do acesso à água para beber e cozinhar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como o eixo principal do meu trabalho era a compilação em boletins e programas de rádio das experiências de famílias agricultoras na convivência com o Semiárido, pude sentir o orgulho pelos bancos de sementes crioulas (nativas), as técnicas que empregavam para o manejo da água, como os canteiros econômicos, os intercâmbios de aprendizado visitando a terra uma da outra, a mudança gradativa de olhar para questões complexas como a das mulheres. Ouvi algumas histórias inclusive de retorno ao campo após migração para os grandes centros e conheci a riqueza do trabalho com o barro das artesãs e os vários corais da região.</p>



<h2 id="h-em-suma-o-combate-a-seca-esta-ligado-ao-paradigma-moderno-mecanicista-e-economicista-em-uma-visao-individualista-de-viver-melhor-cuja-busca-e-infinita-e-passa-por-cima-de-tudo-e-de-todos-pelos-proprios-interesses-trazendo-como-consequencia-ultima-a-extincao-do-planeta" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Em suma, o combate à seca está ligado ao paradigma moderno, mecanicista e economicista, em uma visão individualista de “viver melhor”, cuja busca é infinita e passa por cima de tudo e de todos pelos próprios interesses, trazendo como consequência última a extinção do planeta.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A convivência com o Semiárido representa um paradigma emergente baseado na sustentabilidade, segundo o qual a superação da insegurança alimentar não depende apenas de obras hídricas, mas de reforma estrutural, participação social, políticas públicas permanentes e mudança cultural. Sobretudo da transformação do olhar, do “viver melhor” para o “bem viver”, uma visão holística, indígena e coletiva, que busca harmonia permanente com o meio ambiente (Pacha Mama) e o bem comum, rejeitando o consumo desenfreado e o foco no indivíduo.</p>



<h2 id="h-do-combate-a-seca-a-convivencia-com-o-semi-arido-emocional" class="wp-block-heading" style="font-size:18px"><strong>Do combate à seca à convivência com o (semi)árido emocional</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Encontrar-se sedento em terra árida é uma experiência emocional profunda pela qual toda pessoa passa em momentos da vida. Difícil é assumir essa experiência, atravessá-la e aprender com ela, processo com o qual a psicoterapia contribui. Segundo Hollis (1999, p. 12), o objetivo da terapia “não é, portanto, remover o sofrimento, e sim passar através dele em direção a uma consciência ampliada capaz de sustentar a polaridade de opostos dolorosos” (grifos do autor).</p>



<h2 id="h-um-dos-principais-pares-de-opostos-e-limitacao-e-infinitude" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Um dos principais pares de opostos é limitação e infinitude.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Faz parte da angústia característica da condição humana, da porta estreita pela qual se tem que passar no dia a dia, o ter que fazer escolhas diante da infinidade de possibilidades. O que acontece é que cada vez mais recusamos ficar com a angústia, reconhecer a sede, conviver com a insatisfação, olhar simbolicamente para o vazio e a falta permanecendo tempo suficiente no atravessamento desta dor a ponto de perceber que ela se liga exatamente à sede de infinito que carregamos, que é, para Jung, critério decisivo da vida humana.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="line-height:1.3">
<p class="wp-block-paragraph"><em>Para o homem a questão decisiva é esta: você se refere ou não ao infinito? Tal é o critério de sua vida. Se sei que o ilimitado é essencial então não me deixo prender a futilidades e a coisas que não são fundamentais. [&#8230;] Quanto mais o homem acentua uma falsa posse, menos pode sentir o essencial e tanto mais insatisfatória lhe parecerá a vida (JUNG, 2016, p. 387-388).</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-o-doloroso-mas-realizador-processo-mencionado-vai-da-consciencia-da-limitacao-para-a-abertura-ao-infinito-ao-transcendente" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">O doloroso mas realizador processo mencionado vai da consciência da limitação para a abertura ao infinito, ao transcendente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Tomando consciência do que minha combinação pessoal comporta de unicidade, isto é, em definitivo, de limitação, abre-se para mim a possibilidade de conscientizar também o infinito” (Ibid., p. 388).</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta ampliação leva ao reconhecimento do que realmente importa, com o que “os desejos e atitudes se modificam. Finalmente, só valemos pelo essencial e se não acedemos a ele a vida foi desperdiçada”. (Ibid., p. 388) Para Hollis (op. cit., p. 12), trata-se de um amadurecimento psicológico e espiritual, voltado à descoberta do sentido e significado da vida, a necessidade mais profunda do ser humano moderno.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que geralmente ocorre, no entanto, são outras duas vias interligadas, oriundas da busca de segurança do ego infantil e dependente que foge para evitar a todo o custo o sofrimento, e o custo acaba sendo um sofrimento maior pela falta de sentido, pelo dispêndio de energia no combate constante aos “estados sombrios da alma”, ao fluxo e refluxo naturais da vida, na tensão constante por “nunca podermos abandonar o frenético desejo de sermos felizes e despreocupados” (Ibid., p. 14-15). Vejam aí o combate à seca!</p>



<p class="wp-block-paragraph">A primeira via é a identificação ilusória com o ilimitado, que se manifesta na busca do ter mais e poder mais, de posses e <em>status</em>, no consumismo desenfreado e ostentação, tão atuais. É a imagem do ser humano independente, autossuficiente, autodeterminado, cujo motor é “eu quero, eu posso, eu consigo”. Na segunda via, toca-se o vazio, a sede, mas não se suporta ficar um tempo aí até descobrir formas de conviver com a aridez. Foge-se buscando encher o buraco com coisas ou o tempo com afazeres.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essas vias são típicas do espírito da nossa época. Sobre ele, disse o <strong>Papa Francisco</strong> em sua Encíclica <em>Laudato Sí</em>, na qual justamente abordou o “cuidado da casa comum”:</p>



<h2 id="h-muitas-pessoas-experimentam-um-desequilibrio-profundo-que-as-impele-a-fazer-as-coisas-a-toda-a-velocidade-para-se-sentirem-ocupadas-numa-pressa-constante-que-por-sua-vez-as-leva-a-atropelar-tudo-o-que-tem-ao-seu-redor-n-225" class="wp-block-heading" style="font-size:16px"><em>“Muitas pessoas experimentam um desequilíbrio profundo, que as impele a fazer as coisas a toda a velocidade para se sentirem ocupadas, numa pressa constante que, por sua vez, as leva a atropelar tudo o que têm ao seu redor” (n. 225).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Aprofundando as consequências para o meio ambiente e os mais pobres, citou trecho de homilia de Bento XVI que conecta interno e externo: “Os desertos exteriores multiplicam-se no mundo, porque os desertos interiores se tornaram tão amplos” (n. 217).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A desertificação, processo acelerado fruto da ação humana que visa apenas extrair a qualquer custo e de qualquer jeito, ocorre, portanto, tanto externa como internamente. Cada vez que se busca responder à própria inquietação lançando-se com a avidez gerada por ela apenas para fora, para coisas e afazeres, para o ter mais e (a)parecer mais, como se viu, aumenta-se a aridez, em uma sede infinita e destruidora. Ou, quando se foge do vazio buscando preenchê-lo, gera-se mais vazio. É um caminho de combate à seca que, do mesmo jeito que as grandes e onerosas represas, também busca o grande e custoso em apenas um lugar, nos valores dominantes da consciência, gerando ainda mais seca e vazio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na visão de Jung, além do espírito da época, porém, existe o espírito da profundeza, atemporal, que se manifesta no chamado da alma, que continua a gritar em tudo isso e apesar de tudo isso, nem que tenha que encontrar brechas apenas explodindo em sintomas nos indivíduos ou catástrofes no coletivo.</p>



<h2 id="h-jung-teve-a-coragem-de-trilhar-o-caminho-de-seguir-este-chamado-bem-elucidado-no-livro-vermelho-e-a-partir-da-propria-experiencia-gestou-a-psicologia-analitica" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Jung teve a coragem de trilhar o caminho de seguir este chamado, bem elucidado no <em>Livro Vermelho</em>, e a partir da própria experiência gestou a Psicologia Analítica.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:12px">
<p class="wp-block-paragraph"><em>Minha alma leva-me ao deserto, ao deserto de meu próprio si-mesmo. Não pensava que meu si-mesmo fosse um deserto, um deserto seco e quente, poeirento e sem bebida. [&#8230;] Isto é solidão, estar consigo mesmo? Solidão só quando o si-mesmo é um deserto. [&#8230;] Minha alma, o que devo fazer aqui? Mas a minha alma falou-me e disse: “Espera”. (JUNG, 2013, p. 128)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Neste processo dinâmico de espera ativa, “o papel adequado do ego é manter um relacionamento com o Eu e o mundo no qual existe o diálogo. O ego deve permanecer aberto, o mais consciente possível e disposto a negociar” (Hollis, <em>op. cit</em>., p. 15). Ele deve aprender a jornada da convivência com o deserto, o árido, ou com o semiárido — interno e externo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Afinal, o que chamamos de “eu” é apenas uma pequena parte de uma estrutura psíquica muito maior, formada de consciência e inconsciente, com suas várias figuras que não caberia aprofundar aqui, mas que acessamos cotidianamente em experiências das quais afirmamos: “Não parecia eu!”; “eu estava fora de mim!”; “a bruxa estava solta!” etc. A meta da vida humana para a Psicologia Analítica é o processo de individuação, que leva a se ir descobrindo e tornando-se quem se é pela integração dos opostos na multiplicidade de figuras que se manifestam na psique. Figuras com as quais, quando estamos unilateralizados, normalmente combatemos como inimigas, não aprendendo a lidar com elas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para aprender o caminho da convivência, é preciso não correr para as coisas assim que se experimentar a sede, não fugir da aridez migrando para as luzes da cidade e suas promessas; mas descobrir do que se tem sede de fato e cavar exatamente na terra seca e rachada, buscando um poço mais profundo e interior.</p>



<h2 id="h-como-fez-jung-que-ensina" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Como fez Jung, que ensina:</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Não te esqueças de esperar. Não viste como tua força criadora se voltou para o mundo [&#8230;]? Se tua força criadora se voltar agora para o lugar da alma, verás como tua alma vai reverdecer e como seu campo produzirá frutos maravilhosos. Ninguém pode furtar-se ao esperar, e a maioria não conseguirá suportar esse tormento, mas se lançarão outra vez com gula sobre as coisas, pessoas e pensamentos, cujos escravos se tornarão a partir desse momento. [&#8230;] Também aquele cuja alma é um jardim precisa das coisas, pessoas e pensamentos, mas ele é seu amigo e não seu escravo e bufão. (JUNG, 2013, p. 129)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Cavar o próprio poço até o manancial supõe abrir-se ao diálogo entre os vários que nos habitam, acolhendo as imagens do inconsciente que se manifestam em sonhos, sintomas e também nas relações, justamente naquelas situações das quais afirmamos: “Não parecia eu!” Perguntar que mensagem tudo isso traz, de onde quer me tirar, aonde me leva&#8230; É como valorizar as sementes nativas, cultivá-las, fazer canteiros econômicos, acolher um saber ancestral e descobrir formas criativas de conviver com o Semiárido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se interiormente é preciso diálogo, coletivamente parece que apenas o confronto das visões não leva a lugar algum além das polarizações da atualidade. Como é difícil sair do monoteísmo da consciência, parece utópico também pensar no diálogo entre os paradigmas, na busca de alguns consensos para a construção de caminhos possíveis.</p>



<h2 id="h-certo-e-que-a-terra-nao-aguenta-mais" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Certo é que a Terra não aguenta mais!</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Não é fácil sair dos “sambas de uma nota só”, das unilateralidades, mas o chamado do Self parece apontar nesta direção. Afinal, o Self é ao mesmo tempo centro e totalidade da vida psíquica. E o processo de individuação leva não a um fechamento em si, mas à abertura e comunhão cada vez maior com todos e com o Cosmos. E isso traz a verdadeira paz, o <em>shalom</em> hebraico, que significa harmonia das relações nas várias dimensões. Concluindo com o Papa Francisco:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:12px">
<p class="wp-block-paragraph"><em>A paz interior das pessoas tem muito a ver com o cuidado da ecologia e com o bem comum, porque, autenticamente vivida, reflete-se num equilibrado estilo de vida aliado com a capacidade de admiração que leva à profundidade da vida. (FRANCISCO, 2015, n. 225)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong>Tania Pulier — Membro Analista /IJEP</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong>Lilian Wurzba — Analista Didata/IJEP</strong></p>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A BÍBLIA. Tradução ecumênica. São Paulo: Loyola; Paulinas, 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ASA – Articulação Semiárido Brasileiro. <em>Documentário Conviver</em>. Direção de Bruno Xavier, Roger Pires e Yargo Gurjão. 19 set. 2017. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=FnrHrCh4sJI. Acesso em: 26 abr. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FRANCISCO. Carta Encíclica <em>Laudato Si</em>&#8216;: sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Paulus, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HOLLIS, James. <em>Os pantanais da alma</em>: Nova vida em lugares sombrios. São Paulo: Paulus, 1999.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>O Livro Vermelho (</em>Liber Novus<em>)</em>. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______. <em>Memórias, sonhos e reflexões</em>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MAIOR seca da história do Brasil afeta 1.400 cidades no país. <em>Fantástico</em>, G1, 8 set. 2024. Disponível em: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2024/09/08/maior-seca-da-historia-do-brasil-afeta-1400-cidades-no-pais.ghtml. Acesso em: 26 abr. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NAÇÕES UNIDAS BRASIL. As terras áridas são importantes: por quê? <em>Notícia</em>, 16 ago. 2010. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/55696-terras-%C3%A1ridas-s%C3%A3o-importantes-por-que. Acesso em: 26 abr. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">UNU-INWEH. World enters “Era of Global Water Bankruptcy”: scientists formally define new post-crisis reality for billions. <em>News</em>, 20 jan. 2026. Disponível em: https://unu.edu/inweh/news/world-enters-era-of-global-water-bankruptcy. Acesso em: 26 abr. 2026.</p>



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		<title>As múltiplas faces da traição</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/as-multiplas-faces-da-traicao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 19 May 2026 18:49:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Não Categorizado]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Poucas experiências humanas são tão dilacerantes quanto a traição. Seja no campo amoroso, familiar, financeiro, profissional ou nas amizades, ela reverbera na alma com uma dor profunda e persistente. No entanto, a traição não se limita ao eixo entre o "eu" e o "outro"; ela ocorre, muitas vezes, de forma interna e silenciosa. Traímos a nós mesmos quando nos submetemos a situações onde não gostaríamos de estar, ou quando nos obrigamos a permanecer em locais e conviver com pessoas que não ressoam com nossa verdade, sacrificando nossa integridade em nome de uma falsa estabilidade.</p>
<p>Para além do moralismo, este ensaio propõe um olhar cuidadoso da complexidade psíquica que envolve este tema tão dolorido. </p>
<p>Num encontro entre Jung, Nilton Bonder e Emma Bovary, abrimos um diálogo provocativo em que a traição pode vir a se tornar um rito de passagem.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo</strong>: Poucas experiências humanas são tão dilacerantes quanto a traição. Seja no campo amoroso, familiar, financeiro, profissional ou nas amizades, ela reverbera na alma com uma dor profunda e persistente. No entanto, a traição não se limita ao eixo entre o &#8220;eu&#8221; e o &#8220;outro&#8221;; ela ocorre, muitas vezes, de forma interna e silenciosa. Traímos a nós mesmos quando nos submetemos a situações onde não gostaríamos de estar, ou quando nos obrigamos a permanecer em locais e conviver com pessoas que não ressoam com nossa verdade, sacrificando nossa integridade em nome de uma falsa estabilidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-alem-do-moralismo-este-ensaio-propoe-um-olhar-cuidadoso-da-complexidade-psiquica-que-envolve-este-tema-tao-dolorido" style="font-size:17px">Para além do moralismo, este ensaio propõe um olhar cuidadoso da complexidade psíquica que envolve este tema tão dolorido. </h2>



<p class="wp-block-paragraph">Num encontro entre Jung, Nilton Bonder e Emma Bovary, abrimos um diálogo provocativo em que a traição pode vir a se tornar um rito de passagem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Poucas experiências humanas são tão dilacerantes quanto a traição. Seja no campo amoroso, familiar, financeiro, profissional ou nas amizades, ela reverbera na alma com uma dor profunda e persistente. No entanto, a traição não se limita ao eixo entre o &#8220;eu&#8221; e o &#8220;outro&#8221;; ela ocorre, muitas vezes, de forma interna e silenciosa. Traímos a nós mesmos quando nos submetemos a situações onde não gostaríamos de estar, ou quando nos obrigamos a permanecer em locais e conviver com pessoas que não ressoam com nossa verdade, sacrificando nossa integridade em nome de uma falsa estabilidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para além da dimensão moral ou social, existe um fenômeno psíquico complexo nas traições. &nbsp;Quando a confiança se rompe e o pacto simbólico da relação se desfaz, instala-se uma crise que atravessa dimensões afetivas e existenciais. Por causa dos impactos dolorosos, a traição desencadeia perturbações psíquicas, constelações de complexos e projeções sombrias de forma literal. Afinal, para que haja traição, precisa existir a confiança e por isso, quando o pacto se quebra, a dor torna-se por vezes insuportável. Aquele que antes era amado passa a ser percebido como uma profunda decepção (por vezes como inimigo), despertando desejos de vingança, ódio, mágoas e a dificuldade de elaborar um perdão em meio ao desespero.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-arte-universal-dialoga-com-essa-potencia-dramatica" style="font-size:17px">A arte universal dialoga com essa potência dramática.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Desde os mitos gregos até os romances modernos, filmes, peças de teatro, músicas e tantas outras expressões artísticas, a traição aparece como força narrativa capaz de revelar as contradições do desejo humano. Contudo, quando observada pela lente da Psicologia Analítica, adquire uma densidade simbólica como manifestação de conteúdos inconscientes que irrompem no tecido das relações.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em seu livro <em><strong>A Alma Imoral</strong></em>, o rabino Nilton Bonder reflete sobre a natureza subversiva da traição na condição humana. Através de uma lente que funde a mística judaica à psicanálise e à biologia, Bonder desconstrói a percepção binária de bem e mal, e revela que a preservação da vida depende, paradoxalmente, da nossa capacidade de traí-la. Na tensão dialética entre o <em>corpo</em> e a <em>alma</em><strong>, </strong>o corpo é apresentado como a entidade conservadora numa espécie de “zelador dos costumes” e o reprodutor da espécie, como numa função de permanência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-alma-e-apontada-como-a-forca-da-mutacao-o-impulso-indomavel-que-busca-o-desconhecido-e-o-novo-se-o-corpo-e-o-porto-seguro-da-moralidade-a-alma-e-a-navegante-imoral-que-se-atreve-a-cruzar-mares-proibidos" style="font-size:17px">A alma é apontada como a força da mutação, o impulso indomável que busca o desconhecido e o novo. Se o corpo é o porto seguro da moralidade, a alma é a navegante imoral que se atreve a cruzar mares proibidos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse cenário, a traição é elevada ao status de necessidade existencial, ou seja, para que a cultura e a espiritualidade evoluam, o indivíduo deve ser capaz de trair o conformismo de sua família, sociedade, religião etc., para honrar o chamado da própria verdade interna.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para exemplificar a potência transformadora da traição, trago à reflexão duas passagens bíblicas. Em Gênesis 3:6, ao comer o fruto proibido e depois oferta-la ao marido, Eva “trai” as diretrizes de Deus e, juntamente com Adão, são expulsos do paraíso, inaugurando a humanidade. De forma análoga, em Mateus 26:14-50, ao trair Jesus e desencadear sua morte, Judas é um importante catalisador que impulsiona a mudança de uma Era por ser corresponsável pela morte de Cristo e possibilitar Sua posterior ressurreição.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-outro-ponto-destacado-por-bonder-e-a-diferenca-entre-a-moral-e-a-etica" style="font-size:18px">Outro ponto destacado por Bonder é a diferença entre a Moral e a Ética.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para ele, a moral pertence ao corpo social, um conjunto de regras para garantir a ordem e a segurança; a ética é o território da alma, onde o compromisso maior é com o sentido da vida. Ser fiel à própria alma exige a coragem de ser &#8220;imoral&#8221; perante as regras estabelecidas. É o que Bonder denomina de &#8220;traição sagrada&#8221;, ou seja, o rompimento necessário com o passado para que o futuro ganhe espaço para florescer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso a obediência absoluta pode ser uma forma de paralisia, pois a vida que se limita as repetições e a estabelecer-se imovelmente à zona de conforto, abdica da sua centelha divina. A verdadeira espiritualidade habita na transgressão consciente, naquela que reconhece que a fidelidade à tradição só faz sentido se permitir que a alma continue sua jornada de mutação e descoberta. Trair, sob esta ótica, deixa de ser um pecado para tornar-se o motor da evolução humana.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-que-bonder-traz-encontra-ressonancia-com-a-cosmovisao-de-jung-onde-ele-aponta-que-para-o-processo-de-individuacao-devemos-servir-ao-self-si-mesmo-numa-entrega-incondicional" style="font-size:16px">O que Bonder traz encontra ressonância com a cosmovisão de Jung, onde ele aponta que, para o Processo de Individuação, devemos servir ao Self (Si-mesmo), numa entrega incondicional.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quem não consegue ser fiel a esse chamado interior falha na tarefa mais importante da existência humana, permanecendo apenas como um fragmento da coletividade sem nunca atingir a maturidade da alma. Servir ao Si-mesmo exige deixar de ser um rascunho ressonante do coletivo para se tornar a obra final e, por isso mesmo,a individuação é um processo &#8220;imoral&#8221;, onde traímos as expectativas externas (o corpo social) para manter a fidelidade à própria alma (o Self). É o caminho de quem aceita o risco de ser único em vez de buscar a segurança de ser igual.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>Individuação significa tornar-se um ser único, na medida em que por “individualidade” entendermos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio si-mesmo. Podemos pois traduzir “individuação” como “tornar-se si-mesmo” (Verselbstung) ou “o realizar-se do si-mesmo” (Selbstverwirklichung). (JUNG, OC 7/2, §266)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-seguindo-a-diante-na-reflexao-acerca-da-traicao-para-a-psicologia-analitica-as-relacoes-amorosas-tendem-a-se-estruturar-a-partir-de-projecoes-inconscientes" style="font-size:16px">Seguindo a diante na reflexão acerca da traição, para a Psicologia Analítica, as relações amorosas tendem a se estruturar a partir de projeções inconscientes.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Jung observa que figuras arquetípicas como a anima e animus tendem a ser projetadas sobre o parceiro amoroso, produzindo intensa idealização.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De modo breve, para Jung (OC 7/2, §297), nenhum homem é inteiramente “masculino” em termos psíquicos, pois carrega em si a anima, a dimensão feminina inconsciente. Como a cultura historicamente incentivou os homens a reprimirem seus sentimentos, sensibilidades e afetos, esses conteúdos tendem a ser suprimidos e deslocados para o inconsciente, moldando a imagem interna do feminino e influenciando suas escolhas amorosas. Dessa forma, o homem tende a se sentir atraído pela <em>imago</em> feminina, projetando nela aquilo que não reconhece em si mesmo. Quando a escolha é guiada pela projeção de aspectos não integrados, essa dinâmica pode gerar relações intensas e vínculos frágeis, e o outro deixa de ser percebido como pessoa concreta e encarna uma imagem idealizada. O mesmo acontece com o animus, a contraparte masculina da consciência feminina.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não podemos esquecer que toda projeção carrega em si a semente da desilusão. À medida que o relacionamento se desenvolve, o parceiro real diverge daquela imagem concebida trazendo frustrações e conflitos, e a traição pode surgir exatamente nesse ponto crítico do processo. Quando a projeção se desloca para uma terceira pessoa (um amante, por exemplo), o indivíduo experimenta novamente o fascínio do encontro arquetípico, onde o “novo amor” aparece revestido da aura perdida do encantamento inicial. Nesse sentido, a infidelidade está além da busca por sexo ou prazer, pode ser uma tentativa inconsciente de recuperação da intensidade simbólica do Eros perdido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para a traição se realizar, precisa necessariamente haver um elo de confiança e, na alteridade com o outro, as identificações são muitas mas as diferenças também se fazem presente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quando-conteudos-internos-nao-integrados-emergem-o-outro-se-torna-um-espelho-refletor-de-nossas-proprias-imperfeicoes" style="font-size:18px">Quando conteúdos internos não integrados emergem, o outro se torna um espelho refletor de nossas próprias imperfeições.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para Jung, a sombra é um conjunto de conteúdos psíquicos que o ego rejeita, recalca, nega ou não reconhece como pertencentes a nós. É nosso lado obscuro, que está em conflito com os aspectos morais da consciência, que se manifestam de forma indireta ou impulsiva (JUNG, OC 9/2, §14).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A traição, nesse contexto, pode aparecer como atuação desses elementos reprimidos pois, paradoxalmente, aquilo que o ego tenta excluir frequentemente retorna de forma intensificada projetada no outro. Assim, a traição pode revelar conflitos que permaneciam ocultos na dinâmica da relação e pode vir, por exemplo, em forma de quebras de acordos (amorosos ou não), golpes financeiros, rasteiras no trabalho, apropriações intelectuais, sabotagens, revelações de segredos, mentiras e manipulações, expondo a face crua de uma convivência que se mantinha através de pactos sombrios inconscientes e expectativas não ditas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-literatura-sempre-explorou-a-traicao-para-revelar-a-complexidade-da-alma-humana-e-personagens-marcados-pela-infidelidade-frequentemente-encarnam-conflitos-entre-desejo-convencao-social-complexos-sombras-e-auto-traicao" style="font-size:16px">A literatura sempre explorou a traição para revelar a complexidade da alma humana, e personagens marcados pela infidelidade frequentemente encarnam conflitos entre desejo, convenção social, complexos, sombras e auto traição.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Flaubert nos convida a refletir este processo em Madame Bovary (2014). A personagem principal Emma Bovary, encarna uma forma particularmente sofisticada da traição, aquela que brota de uma cisão interna entre a vida vivida e a vida imaginada. Sua infidelidade está além do campo moral, onde expressa um movimento psíquico de busca por uma intensidade de vida que a realidade não sustenta.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-numa-analise-livre-e-hermeneutica-arrisco-a-dizer-que-emma-bovary-esta-arquetipicamente-identificada-com-o-puer-aeternus-ou-seja-uma-puella-aquela-que-anseia-pelo-extase-pelo-extraordinario-a-promessa-de-uma-vida-mais-dinamica-divertida-aventureira-e-arrebatadora" style="font-size:16px">Numa análise livre e hermenêutica, arrisco a dizer que Emma Bovary está arquetipicamente identificada com o <em>puer aeternus</em>, ou seja, uma <em>puella</em>, aquela que anseia pelo êxtase, pelo extraordinário, a promessa de uma vida mais dinâmica, divertida, aventureira e arrebatadora.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Emma é casada com Charles, um pacato médico reconhecido por sua estabilidade e simplicidade. Pelos olhos do coletivo, Emma fez um ótimo casamento, tem um bom marido, uma vida confortável e tranquila. Mas há nela uma recusa silenciosa da banalidade do cotidiano. O casamento com Charles torna-se um espaço árido e anti-erótico, incapaz de dar vazão as suas fantasias. Impossibilitada de se separar devido ao tabu do Espírito da Época, Emma trai a si mesma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De modo sombrio e alimentado por narrativas românticas, seu ego inflaciona e se distancia da realidade, passando a habitar um campo imaginal onde o desejo encontra o reflexo de suas próprias projeções. Cada amante surge como imagem simbólica da excitação, novidade e promessa de completude. Ao viver o romance e lidar com as diferenças, a realidade se impõe, a projeção colapsa, e o vazio retorna com ainda mais força.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esvaziada de si mesma, distante da alma e tomada pela sombra, sua psique traidora revela uma dinâmica de insaciabilidade. Ela procura no outro o que não acha em si mesma, e o desejo se orienta para a manutenção de um falso estado interno de encantamento, numa dificuldade de metabolizar a frustração. Ela tenta preencher seu vazio existencial com a fantasia de um falso Eros (do amor carnal) e não pela <em>coniunctio</em> (união) da alma. Emma se move entre picos de exaltação e quedas abruptas, numa oscilação que denuncia a ausência de enraizamento psíquico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Podemos também reconhecer nela a atuação de um animus não integrado que a captura em discursos idealizados e a projeta em busca de realização no objeto externo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-energia-erotica-que-poderia-se-configurar-como-via-de-transformacao-simbolica-torna-se-literalizada-na-repeticao-de-relacoes-que-tentam-preencher-um-vazio-existencial" style="font-size:16px">A energia erótica, que poderia se configurar como via de transformação simbólica, torna-se literalizada na repetição de relações que tentam preencher um vazio existencial.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Emma parece buscar uma experiência de alma que dê sentido à existência, mas se afasta de si mesma ao projetar essa busca exclusivamente no mundo exterior. Nesse sentido, sua auto traição pode ser lida como uma tentativa fracassada de viver e realizar o desejo de uma vida mais viva, mas que se perde por não encontrar mediação simbólica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar de seu potencial dolorido e por vezes destrutivo, a traição também pode desencadear processos de reflexão e transformação. A ruptura da confiança gera uma quebra das idealizações e obriga os envolvidos a confrontar conteúdos que permaneciam inconscientes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso, apesar de todo o sofrimento gerado e do abalo sísmico que a quebra de confiança provoca, o grande desafio é analisar simbolicamente o papel da traição, e o que ela tem para revelar sobre nosso processo. A traição atua como um “divisor de águas” que rompe com as identificações infantis e as projeções idealizadas, forçando o indivíduo a retirar o véu da ilusão que lançava sobre o outro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-simbolicamente-devemos-perguntar-o-que-em-mim-morreu-e-o-que-agora-tem-a-oportunidade-de-renascer-em-que-aspecto-me-auto-trai-para-que-estabeleci-elos-de-lealdade-a-partir-de-idealizacao-do-outro" style="font-size:17px">Simbolicamente devemos perguntar: o que em mim morreu e o que agora tem a oportunidade de renascer? Em que aspecto me auto traí? Para que estabeleci elos de lealdade a partir de idealização do outro?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar de toda dor, ao transcendermos o julgamento moralista de &#8216;certo&#8217; ou &#8216;errado&#8217;, a traição pode vir a se tornar um rito de passagem, uma espécie de &#8216;traição sagrada&#8217;, como propõe Nilton Bonder, e sermos impulsionados em direção a fidelidade ao Self.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez, se Emma Bovary tivesse tido a coragem para escolher a separação e atravessar as dores que dela adviriam, a morte de suas ilusões se instauraria, abrindo caminho para um renascimento em maior consonância com a verdade de sua alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/daniela/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/daniela/">Me. Daniela Euzebio – Analista Didata em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:17px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">FLAUBERT, Gustave. <em>Madame Bovary</em>. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GUARNIERI, Milena Neri. <em>Um estudo sobre a traição amorosa e a resiliência na perspectiva da psicologia analítica</em>. São Paulo: PUC-SP, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2016 (OC 7/2).</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Aion &#8211; Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 2013 (OC 9/2).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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		<title>O Banquete da Híbris e a Sombra dos &#8220;Homens de Bem&#8221;: Epstein, Jung e a Negação do Amor</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-banquete-da-hibris-e-a-sombra-dos-homens-de-bem-epstein-jung-e-a-negacao-do-amor/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Feb 2026 17:59:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ética]]></category>
		<category><![CDATA[Não Categorizado]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[poder]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=12011</guid>

					<description><![CDATA[<p>Os arquivos de Epstein não revelam apenas crimes, mas uma ferida psíquica coletiva que confirma a profecia de C.G. Jung: onde impera o poder, o amor desaparece. Mergulhe nesta análise corajosa sobre como a hipocrisia da elite e a monetarização do sagrado transformaram "cidadãos de bem" em reféns de suas próprias sombras. Descubra a conexão oculta entre as tentações do deserto e os escândalos contemporâneos, e entenda por que a queda dos poderosos é, psicologicamente, inevitável.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">A abertura dos arquivos do caso Jeffrey Epstein não é apenas um evento forense ou um escândalo midiático; é, sob a ótica da psicologia analítica, a irrupção purulenta de uma ferida psíquica coletiva. O que vemos exposto nas listas de voos e nos depoimentos não é apenas a perversão de um indivíduo ou de um grupo isolado, mas a confirmação trágica de um axioma que Carl Gustav Jung repetiu à exaustão e que a nossa cultura insiste em ignorar: &#8220;Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro&#8221;. Neste caso, fica evidente a sombra do poder anulando o amor como tema recorrente na sociedade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vivemos tempos em que a sombra do poder se alastrou de tal forma que eclipsou a capacidade humana de relacionar-se, transformando o &#8220;outro&#8221; — seja ele uma criança, uma mulher, um fiel ou um eleitor — em mero objeto de consumo. A revelação dos nomes ligados a Epstein é o sintoma agudo de uma doença crônica: a monetarização da existência e, pior, a monetarização do sagrado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao observarmos a galeria de figuras que frequentavam a ilha de Epstein — príncipes, ex-presidentes, cientistas renomados, bilionários —, notamos um padrão que transcende a mera criminalidade. Estamos diante da <em>híbris</em> (a desmedida) de uma elite que, embriagada pela onipotência, acreditou ter comprado o direito de suspender a ética. E, ironicamente, é essa mesma elite que, em palanques e púlpitos, prega a moralidade, os &#8220;bons costumes&#8221; e a teologia da prosperidade, sequestrando a cosmovisão de Jesus Cristo para justificar exatamente aquilo que Ele rejeitou no deserto.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">Estou mais do que convencido de que o caminho da vida só continua onde está o fluxo natural. Mas nenhuma energia é produzida onde não houver tensão entre contrários; por isso, é preciso encontrar o oposto da atitude consciente. É interessante verificar como essa compensação dos opostos também teve sua função na história da teoria da neurose: a teoria de Freud representa Eros; a de Adler, o poder. Pela lógica, o contrário do amor é o ódio; o contrário de Eros, Phobos (o medo). Mas, psicologicamente, é a vontade de poder. Onde impera o amor, não existe vontade de poder; e onde o poder tem precedência, aí falta o amor. Um é a sombra do outro. Quem se encontra do ponto de vista de Eros procura o contrário, que o compensa, na vontade de poder. Mas quem põe a tônica no poder, compensa-o com Eros. Visto do ponto de vista unilateral da atitude consciente, a sombra é uma parte inferior da personalidade. Por isso, é reprimida, devido a uma intensa resistência. Mas o que é reprimido tem que se tornar consciente para que se produza a tensão entre os contrários, sem o que a continuação do movimento é impossível. A consciência está em cima, digamos assim, e a sombra embaixo, e como o que está em cima sempre tende para baixo, e o quente para o frio, assim todo consciente procura, talvez sem perceber, o seu oposto inconsciente, sem o qual está condenado à estagnação, à obstrução ou à petrificação. É no oposto que se acende a chama da vida. (C. G. Jung &#8211; CW 7/1 §78)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-deserto-esquecido-e-as-tentacoes-modernas"><strong>O Deserto Esquecido e as Tentações Modernas</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para compreendermos a profundidade do abismo moral revelado pelos arquivos Epstein, precisamos revisitar a simbologia do deserto. Na narrativa bíblica, Jesus é levado ao deserto para ser tentado pelo Diabo, capacitando-se para cumprir seu propósito, o calvário, exercitando e fazendo tanto a kenosis quanto a Nekia, respectivamente o esvaziamento e a descida às profundezas. Ali, em sua fragilidade humana, Ele confronta as três grandes pulsões que, se não integradas, destroem a alma: o Prazer (transformar pedras em pães para saciar a fome física e os desejos da carne/corpo), a Fama/Vaidade (atirar-se do templo para que os anjos o salvem espetacularmente ou fazer milgres) e o Poder/Riqueza Material (curvar-se ao mal para ganhar todos os reinos do mundo).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cristo recusa as três ofertas. Ele escolhe o caminho da individuação, da integridade do Ser, em detrimento da inflação do Ego. No entanto, a nossa cultura contemporânea, especialmente aquela moldada pelo ethos do sucesso a qualquer custo, fez a escolha oposta. O que vemos hoje, na epidemia de religiões da teologia do poder e nos discursos de influenciadores digitais e coaches messiânicos, é a aceitação entusiástica da proposta do Diabo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O &#8220;sucesso&#8221; tornou-se o novo sacramento. A riqueza material é vista não como um recurso, mas como um sinal de eleição divina ou de superioridade biológica. Nesse cenário, o prazer e a fama são mercadorias que se compram. Quando o sagrado é monetarizado, o divino é expulso e o templo se torna um mercado. E num mercado, tudo tem preço, inclusive a inocência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A sociedade que aplaude o acúmulo desenfreado de capital e que mede o valor de um ser humano pelo seu engajamento nas redes sociais criou o terreno fértil para que figuras como Epstein prosperassem. Ele não era uma anomalia; ele era um fornecedor de serviços para uma demanda reprimida e sombria. Ele oferecia a concretização da fantasia de onipotência: o acesso irrestrito a corpos, a anulação das leis e a suspensão da realidade. Para o homem que escolheu o Poder em detrimento do Amor, o prazer nunca é relacional; é sempre predatório. É a tentativa desesperada de preencher, com a intensidade da sensação, o vazio deixado pela morte do afeto.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-mascara-do-cidadao-de-bem-e-o-fenomeno-wasp"><strong>A Máscara do &#8220;Cidadão de Bem&#8221; e o Fenômeno WASP</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A análise torna-se ainda mais cortante quando observamos o perfil predominante nos documentos revelados: o arquétipo do homem branco, anglo-saxão e protestante (WASP &#8211; <em>White, Anglo-Saxon, Protestant</em>), ou seus equivalentes culturais em outras geografias. Historicamente, essa figura representa o pilar da ordem, da lei e da moral ocidental. São os homens que constroem impérios, que legislam sobre o corpo alheio e que se autodenominam &#8220;cidadãos de bem&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung nos ensinou que quanto mais luminosa e rígida é a <em>Persona</em> (a máscara social que usamos para nos adaptarmos ao mundo), mais escura e densa é a <em>Sombra</em> (tudo aquilo que rejeitamos, reprimimos e escondemos). O &#8220;falso moralista&#8221; não é apenas um hipócrita consciente; muitas vezes, ele é uma vítima de sua própria cisão psíquica. Ele precisa manter uma aparência de retidão imaculada publicamente — a família perfeita, a filantropia, a frequência aos cultos —, o que exige uma repressão brutal de seus instintos e fragilidades.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa energia reprimida não desaparece. Ela se acumula no inconsciente, ganhando autonomia e força, até se transformar em algo monstruoso. O conservadorismo rígido, que julga e condena o comportamento alheio com ferocidade, é frequentemente o mecanismo de defesa de quem luta contra seus próprios demônios inconfessáveis.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os arquivos de Epstein são o esgoto a céu aberto dessa psique cindida. Eles mostram onde os &#8220;homens de bem&#8221; iam para despir suas personas pesadas. Longe dos olhos do público, na ilha privada, a sombra assumia o controle. A justificativa interna para tal comportamento é, invariavelmente, uma distorção cognitiva típica da <em>híbris</em>: &#8220;Eu sou especial. Eu faço tanto pelo mundo, gero tanta riqueza, carrego tanto poder, que mereço essa recompensa. As leis dos homens comuns não se aplicam a mim&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa dissociação permite que o mesmo indivíduo que financia campanhas contra os direitos humanos ou que prega a santidade da família tradicional participe de orgias com menores de idade. Não há, na mente deles, contradição, pois o Ego inflado pelo poder perdeu a conexão com o <em>Self</em> — o centro regulador da psique. Eles se tornaram deuses de seus próprios pequenos universos, e deuses, na mitologia grega, frequentemente estupravam e destruíam por capricho.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-hibris-o-self-e-a-inevitavel-enantiodromia"><strong>A Híbris, o Self e a Inevitável Enantiodromia</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A tragédia grega e a psicologia analítica concordam em um ponto fundamental: a <em>híbris</em> (o orgulho desmedido que desafia os deuses) é sempre seguida pela <em>nêmesis</em> (a retribuição divina). Em termos psicológicos, quando a atitude consciente se torna unilateral demais — focada excessivamente no poder, na razão instrumental e na negação da sombra —, o inconsciente reage para restaurar o equilíbrio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung chamou esse movimento pendular de <em>enantiodromia</em>: a tendência de todas as coisas se transformarem em seu oposto. A busca obsessiva pelo controle total (poder) leva, invariavelmente, à perda total de controle (o escândalo, a prisão, a ruína). A busca pela fama imaculada leva à infâmia eterna. A busca pelo prazer sem limites leva ao sofrimento atroz e ao vazio existencial.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que estamos testemunhando com a exposição desses arquivos é a ação do <em>Self</em>. O <em>Self</em>, na psicologia junguiana, é a totalidade da psique, a imagem de Deus dentro de nós. Ele busca a integridade, não a perfeição moralista. Quando o indivíduo ou a cultura se desviam radicalmente de sua verdade interior, o <em>Self</em> orquestra uma crise. Ele força o confronto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda bem que existe o <em>Self</em>. Sem essa força reguladora, a humanidade se perderia em seus delírios de grandeza. O <em>Self</em> leva essas pessoas ao confronto consigo mesmas, gerando sintomas de adoecimento psíquico, pânico, depressão e, finalmente, revelações catastróficas. Para o ego inflado, a exposição pública é uma catástrofe, uma morte social. Mas, simbolicamente, é a única chance de salvação. É o momento em que a máscara cai e o indivíduo é forçado a olhar para a sua própria feiura.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa dinâmica não se restringe aos frequentadores da ilha de Epstein. Ela se reproduz recorrentemente com lideranças religiosas que caem em desgraça sexual ou financeira, com políticos que são pegos em esquemas de corrupção grotescos, e com influenciadores que, vendendo uma vida de felicidade plástica, sucumbem ao suicídio ou ao vício. É a natureza cobrando o preço da artificialidade. É a alma gritando que não pode ser vendida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-retorno-ao-humano"><strong>O Retorno ao Humano</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A lição dos arquivos Epstein é dura, mas necessária. Ela nos obriga a confrontar a ilusão de que o poder e o dinheiro conferem dignidade ou imunidade moral. Pelo contrário, o poder sem amor é, como disse Jung, demoníaco. Ele fragmenta, isola e destrói.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A cosmovisão de Cristo, tão deturpada pela teologia da prosperidade, propunha o oposto: o poder do serviço, a riqueza do espírito e a fama de ser conhecido por Deus, não pelos homens. Jesus venceu o deserto não porque era imune à tentação, mas porque sabia quem era. Ele não precisava transformar pedras em pães porque não era definido pela sua fome. Ele não precisava se jogar do templo porque não precisava de aplausos para validar sua existência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto nossa cultura insistir na idolatria aos bezerros de ouro do sucesso financeiro e da visibilidade midiática, seguiremos produzindo Epsteins e alimentando a sombra de nossos líderes. A cura para essa patologia social não reside apenas no rigor da lei, mas em uma profunda reorientação de valores. É urgente questionarmos a salubridade de um sistema onde indivíduos acumulam fortunas inesgotáveis em uma única existência, enquanto a miséria se alastra — um cenário onde o 1% mais rico detém quase metade da riqueza global. Incapazes de dar um destino humano a esse acúmulo, essa energia estagnada busca refúgio na perversão, tornando palpáveis as distopias que antes víamos apenas na ficção, como em &#8216;O Conto da Aia&#8217; ou &#8216;Round 6&#8217;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Precisamos resgatar o Eros — o princípio de conexão, de relacionamento e de amor. Precisamos entender que a verdadeira riqueza é a capacidade de olhar para o outro e ver um semelhante, não um objeto. Precisamos de menos &#8220;cidadãos de bem&#8221; e de mais seres humanos conscientes de suas sombras, capazes de integrar suas fragilidades em vez de projetá-las no mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A enantiodromia já começou. O pêndulo está voltando. Que a queda dos falsos deuses nos sirva de alerta: o sagrado não está à venda, e o preço que se paga por tentar comprá-lo é, invariavelmente, a própria alma.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph">Referências Bibliográficas e Sugestões de Leitura:</p>



<ol start="1" class="wp-block-list">
<li>Jung, C. G. (2013). <em>Aion: Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo</em> (Vol. 9/2). Petrópolis: Vozes. (Para a discussão sobre o Self e a Sombra).</li>



<li>Jung, C. G. (2012). <em>Psicologia do Inconsciente</em> (Vol. 7/1). Petrópolis: Vozes. (Sobre a relação entre Poder e Amor).</li>



<li>Bíblia de Jerusalém. (2002). São Paulo: Paulus. (Evangelhos de Mateus 4:1-11 e Lucas 4:1-13 &#8211; As Tentações no Deserto).</li>



<li>Hillman, J. (1993). <em>O Código do Ser</em>. Rio de Janeiro: Objetiva. (Sobre a vocação e o desvio do caráter).</li>



<li>Guggenbühl-Craig, A. (2004). O Abuso do Poder na Psicoterapia e na Medicina, Serviço Social, Sacerdócio e Magistério. São Paulo: Paulus. (Análise fundamental sobre a sombra nas profissões de cuidado e liderança).</li>



<li>Zweig, C., &amp; Abrams, J. (Eds.). (1994). <em>Ao Encontro da Sombra: O Potencial Oculto do Lado Escuro da Natureza Humana</em>. São Paulo: Cultrix.</li>
</ol>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="O Banquete da Híbris e a Sombra dos “Homens de Bem”: Epstein, Jung e a Negação do Amor" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/BPKUZ22SYDs?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>
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			</item>
		<item>
		<title>Obesidade Simbólica</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/obesidade-simbolica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Renata Pastorello]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 11 Sep 2025 21:09:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Não Categorizado]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Nesse artigo trago uma reflexão através da ótica da psicologia analítica sobre a dinâmica de consumo de conteúdos atual e como isso resulta em uma obesidade das relações e informações. Essa obesidade traz aspectos nocivos para nosso autodesenvolvimento: acentuam complexos unilaterais; dificulta a capacidade reflexiva e amplificadora e muitos conteúdos são desprovidos de sentido, [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5"><strong>Resumo: Nesse artigo trago uma reflexão através da ótica da psicologia analítica sobre a dinâmica de consumo de conteúdos atual e como isso resulta em uma obesidade das relações e informações. Essa obesidade traz aspectos nocivos para nosso autodesenvolvimento: acentuam complexos unilaterais; dificulta a capacidade reflexiva e amplificadora e muitos conteúdos são desprovidos de sentido, aumentando nossa fome de alma.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5"><strong>Palavras-Chave: Complexo; autodesenvolvimento, autoconhecimento, informação e conscientização</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Eu tenho andado muito reflexiva sobre o papel das redes sociais, da internet, na minha vida de maneira abrangente, tanto profissionalmente como pessoalmente falando: no que essa ferramenta pode me ajudar? Onde estão os riscos dela? O que de fato traz nutrição, alimentando ciclos virtuosos? Por esse motivo venho nesse breve artigo falar um pouco sobre o fenômeno da obesidade da informação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-facilitar-o-acesso-aumentar-as-conexoes-que-tudo-seja-simples-e-fluido-esse-e-um-dos-espiritos-da-epoca" style="font-size:20px">Facilitar o acesso, aumentar as conexões. Que tudo seja simples e fluído, esse é um dos espíritos da época.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">O acesso e a produção de conteúdo oferecidos digitalmente tiveram uma popularização exponencial nos últimos anos. E por isso a internet, através das mídias sociais, é um grande propulsor de visibilidade e de crescimento, principalmente se falarmos de crescimento rápido contendo muito sucesso monetário. Entretanto, toda simplicidade também contém suas regras e custos, então para ter um grande alcance de pessoas, temos que estar muito dispostos a seguir o processo que essa dinâmica pede.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-que-dinamica-e-essa-qual-e-esse-processo" style="font-size:20px">Que dinâmica é essa? Qual é esse processo?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">As mídias sociais (as plataformas hospedeiras desses conteúdos digitais) possuem uma tecnologia inteligente, os algoritmos, que analisam os dados dos conteúdos ofertados versus seus potenciais expectadores, alimentando de inteligência mercantil essas plataformas. Ou seja, os algoritmos, distribuem esses materiais de forma tendenciosa: favorecem os indivíduos que produzem conteúdos que engajem a audiência. O objetivo dos algoritmos é manter o expectador o maior número de tempo possível dentro de uma plataforma. E aqui, quando me refiro a tendencioso gostaria de enaltecer o aspecto literal da palavra que atende a uma tendência sem julgamento se é bom ou ruim.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-aqui-faco-meu-primeiro-recorte-o-quanto-os-algoritmos-se-assemelham-ao-mecanismo-dos-nossos-complexos-inconscientes" style="font-size:20px">Aqui faço meu primeiro recorte: o quanto os algoritmos se assemelham ao mecanismo dos nossos complexos inconscientes.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Segundo a psicologia junguiana, os complexos são conjuntos associativos que podem ser sentidos de forma acentuada e que se organizam em torno de um núcleo arquetípico, concentrando poderosa energia psíquica, e com certa autonomia se transformando em uma pequena personalidade. Tendo energia psíquica suficiente pode expressar sua autonomia frente à consciência e atuar na vida do indivíduo de forma a reviver os padrões, as tendências desse complexo</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Quando se quer dizer ou fazer alguma coisa e, desgraçadamente, um complexo intervém na intenção inicial, acaba-se dizendo ou fazendo a coisa totalmente oposta ao que se queria de início. Há subitamente uma interrupção, e a melhor das intenções acaba sendo perturbada, como se tivéssemos sofrido a interferência de um ser humano ou de uma circunstância exterior. Sob essas condições somos mesmo forçados a falar da tendência dos complexos a agirem como se fossem movidos por uma parcela de vontade própria.&nbsp;</p><cite> (JUNG, 2019a, p. 149)&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-algoritmo-trabalha-para-sempre-nos-trazer-conteudos-que-estejam-alinhados-ao-nosso-perfil-de-consumo-e-de-pesquisa-trabalhando-por-analogia-e-semelhanca-ampliando-e-engordando-cada-vez-mais-a-forca-de-associacao-e-o-impacto-para-gerar-em-nos-interesse-e-potencial-mercado-consumidor" style="font-size:20px">O algoritmo trabalha para sempre nos trazer conteúdos que estejam alinhados ao nosso perfil de consumo e de pesquisa, trabalhando por analogia e semelhança, ampliando e “engordando” cada vez mais a força de associação e o impacto para gerar em nós interesse e potencial mercado consumidor.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">E assim são também os<strong> complexos</strong>, trabalhando no mesmo sistema de analogia e semelhança, ele direciona a energia psíquica do indivíduo a vivenciar situações externas que validem a tendência deste, como por exemplo: Um forte complexo de abandono tenderá a fazer uma pessoa a ter maior habilidade em identificar traços de abandono em diversas circunstâncias, incluindo uma maior aderência à pessoas que a façam reviver situações de abandono.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-segundo-recorte-que-proponho-e-sobre-a-qualidade-dos-conteudos-ofertados" style="font-size:20px">O segundo recorte que proponho, é sobre a qualidade dos conteúdos ofertados.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Como temos um grande número de conteúdo disponível, os produtores precisam cada vez mais chamar a atenção dos internautas em pouco tempo, se não eles “perdem” esse expectador para outro conteúdo que o atraia mais, sendo assim a informação deve ser passada de forma rápida, simples, assertiva (afirmativa, cheia de certezas) fidelizando os usuários. Não é de hoje, que nós seres humanos, trazemos os traços de infantilismo e de confiança no mundo externo apenas, como esclarece <strong>Jung</strong>:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>E é assim que vemos qualquer problema que nos obriga a uma consciência maior e nos afasta mais ainda do paraíso de nossa infantilidade inconsciente. (&#8230;) Queremos que nossa vida seja simples, segura e tranquila, e por isto os problemas são tabu. Queremos certezas e não dúvidas; queremos resultados e não experimentos, sem entretanto nos darmos conta de que as certezas só podem surgir através da dúvida, e os resultados através do experimento.</p><cite>(JUNG, 2019b, p.751).</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Ficando claro que a simplicidade única e exclusivamente nos garante em um estado psíquico primitivo, atrofiado e infantil.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-o-terceiro-e-ultimo-recorte-que-proponho-e-em-termos-da-qualidade-desses-conteudos" style="font-size:20px">E o terceiro e último recorte que proponho é em termos da qualidade desses conteúdos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Assim como no campo da alimentação corporal, percebo um fenômeno similar na internet que se chama obesidade da quantidade de relações, de interações e de informações que chegam até nós: Obesidade da informação, um problema do nosso século.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5"><strong>Analisando de forma simbólica</strong>: A maioria dos conteúdos produzidos na internet, são para mim, similares aos alimentos ultra processados que encontramos no supermercado. Tal qual os conteúdos digitais, os alimentos ultra processados são desenvolvidos para serem muito “gostosinhos”, (aquele paladar que agrada muito no ato do consumo). São fáceis de achar (supermercados), simples de consumir (já vem pronto em embalagens práticas) e possuem alguma substância que preenche o estômago (certeza de barriga cheia). Entretanto, eles também são extremamente <strong>vazios de nutrientes, de fibras, de qualidade nutricional</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5"><strong>E assim eu vejo muitos desses conteúdos digitais</strong>: Estão cada vez mais vorazes, mais simplistas, mais reducionistas e acabam ocupando o buraco que a gente tem dessa fome de trocar que é um dos aspectos primordiais da nossa espécie, mas que não nutre. E esse vazio só vai aumentando, pois a fome continua, e ele vai aumentando tanto ao ponto de corroer a nossa própria alma.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-quer-que-seja-de-qualquer-modo-e-uma-sorte-que-o-ser-humano-traga-dentro-de-si-seu-regulamento-social-como-uma-necessidade-inata-jung-2019c-p-655" style="font-size:20px">“Como quer que seja, de qualquer modo é uma sorte que o ser humano traga dentro de si seu regulamento social, como uma necessidade inata.” (JUNG, 2019c, p.655)</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">A troca, o olho no olho (mesmo que seja virtualmente) &#8211; essa coisa de estar em um jogo de frescobol: onde eu jogo a bola, mas eu também recebo a bola &#8211; é muito importante para o nosso desenvolvimento psíquico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-a-internet-e-uma-via-onde-a-gente-espelha-aquilo-que-faz-sentido-pra-gente-e-essa-e-outra-faceta-que-necessitamos-de-ampliacao-reflexiva" style="font-size:20px">E a internet é uma via onde a gente espelha aquilo que faz sentido pra gente &#8211; e essa é outra faceta que necessitamos de ampliação reflexiva.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Os conteúdos midiáticos tendem a ser um espelhamento do que faz sentido para quem o está criando. Contudo, devido à necessidade de síntese, esses conteúdos acabam trazendo tudo de uma maneira muito pequena e unilateral. Isso promove uma rápida absorção para a audiência de conteúdos vazios de nutrientes, porém cheios de receitas perigosas de auto desnutrição. Então não adianta a gente consumir esses conteúdos se a gente não souber e não tiver condições de fazer uma digestão interna. Ver o que realmente faz sentido pra gente e ir atrás de aprofundar para encontrar material rico e saudável para a nossa alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Pois de salgadinho e biscoito recheado o mercado, seja ele físico e literal ou ele simbólico, do que estamos consumindo de forma relacional, está cheio. Agora de arroz com feijão e uma salada cheia de verduras e legumes, apesar de ser disso que precisamos, é muito mais difícil encontrar.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Obesidade Simbólica" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/WZKfo4UPimQ?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/renata-pastorello/">Renata Pastorello &#8211; Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/ajaxsalvador/">Ajax Salvador &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">REFERÊNCIAS:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<em>A Vida simbólica</em>. Rio de Janeiro: Vozes, 2019a</p>



<p class="wp-block-paragraph">________.&nbsp;<em>A Natureza da psique</em>. Rio de Janeiro: Vozes, 2019b</p>



<p class="wp-block-paragraph">________.&nbsp;<em>Freud e a Psicanálise</em>. Rio de Janeiro: Vozes, 2019c</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Limitações Pessoais e Individuação</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/limitacoes-pessoais-e-individuacao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Patricia Cordeiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 26 Mar 2025 14:47:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Não Categorizado]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nesse artigo busco explorar a complexa relação entre nossos limites internos, o confronto com o saber e o impacto da comparação com os outros, refletindo sobre como essas experiências podem desencadear sentimentos de angústia e insuficiência. Olhar para esses aspectos pode nos alertar para o perigo da inflação do ego e a importância de reconhecer [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:0px;line-height:1.4"><em>Nesse artigo busco explorar a complexa relação entre nossos limites internos, o confronto com o saber e o impacto da comparação com os outros, refletindo sobre como essas experiências podem desencadear sentimentos de angústia e insuficiência. Olhar para esses aspectos pode nos alertar para o perigo da inflação do ego e a importância de reconhecer nossas limitações como parte essencial do processo de individuação. Ao aceitar tanto nossas fraquezas quanto nossas potencialidades, podemos nos libertar do peso das expectativas coletivas e encontrar uma realização mais autêntica e alinhada com nosso Si-mesmo.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-vezes-somos-atravessados-por-afetos-que-levamos-um-tempo-para-que-possamos-compreende-los-e-e-sobre-isso-que-se-trata-esse-artigo" style="font-size:20px">Por vezes somos atravessados por afetos que levamos um tempo para que possamos compreendê-los e é sobre isso que se trata esse artigo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:0px;line-height:1.4">A dificuldade para a compreensão das nossas limitações pode se tornar um grande obstáculo para vivermos nossas vidas com mais leveza. A angústia que se apresenta ao nos confrontarmos com o conhecimento, com o saber, com o infinito universo de conteúdo dos quais podemos nos apropriar pode facilmente nos levar a uma sensação de incapacidade. E esse sentimento pode contribuir para a erupção de um sabotador interno capaz de nos aprisionar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:0px;line-height:1.4">Comparar-se aos outros é algo natural e por vezes nessa comparação podemos almejar que aquilo que o outro é ou conquistou também possa ser por nós alcançado, bastando apenas empenho e dedicação para obter resultados semelhantes. No entanto, quando esses objetivos não são atingidos, é comum interpretarmos isso como uma falha pessoal, o que pode nos fazer sentir diminuídos e ver a nós mesmos como nossos próprios sabotadores.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:0px;line-height:1.4">Acredito que essa seja uma característica da psique, visto que temos uma tendência a nos identificarmos e nos dissolvermos na psique coletiva, conforme Jung afirma na obra o <em>Eu e o Inconscie</em>nte (2014, §235):</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Do mesmo modo que o indivíduo não é apenas um ser singular e separado, mas também um ser social, a psique humana também não é algo de isolado e totalmente individual, mas também um fenômeno coletivo. E assim como certas funções sociais ou instintos se opõem aos interesses dos indivíduos particulares, do mesmo modo a psique humana é dotada de certas funções ou tendências que, devido à sua natureza coletiva, se opõem às necessidades individuais.</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-porem-aqui-temos-o-grande-risco-da-inflacao-do-ego-que-pode-levar-a-uma-patologica-vontade-de-poder" style="font-size:20px">Porém, aqui temos o grande risco da inflação do ego que pode levar a uma patológica vontade de poder.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:0px;line-height:1.4">Isso, porque a psique coletiva compreende as partes inferiores das funções psíquicas que abrigam todas as virtudes e os vícios da humanidade e todas as outras coisas; ela é herdada e funciona automaticamente. Já o consciente e o inconsciente pessoais constituem as partes superiores, adquiridas e desenvolvidas. E o indivíduo que incorpora inconscientemente e a priori a psique coletiva, como se essa fosse parte da psique pessoal, tenderá a estender de modo ilegítimo os limites de sua personalidade (JUNG, 2014, §235).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-destaca-que-se-cometemos-o-erro-de-incluir-a-psique-coletiva-no-inventario-das-funcoes-psiquicas-pessoais-ocorrera-inevitavelmente-uma-dissolucao-da-personalidade-em-seus-pares-antagonicos" style="font-size:19px">Jung destaca que se cometemos o erro de incluir a psique coletiva no inventário das funções psíquicas pessoais, ocorrerá inevitavelmente uma dissolução da personalidade em seus pares antagônicos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:0px;line-height:1.4">A intenção é podermos assimilar o inconsciente, reconhecendo que somos parte da psique coletiva, mas há uma tarefa atrelada ao desenvolvimento da personalidade que é também nos diferenciarmos dela, caso contrário isso equivaleria a uma “perda da alma”. Isso se explicaria pelo fato de uma realização pessoal importante ser negligenciada, entretanto, para isso precisamos reconhecer a natureza irreconciliável dos opostos, aceitar o que há de bom e de mal em nós, assim como o que podemos alcançar e o que de fato não podemos alcançar (JUNG, 2014, §237-240).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:0px;line-height:1.4">Pensar em ter outra pessoa como referência para aquilo que almejamos pode ser algo motivador, como uma inspiração mas, por outro lado também corremos o risco de perdermos nossa autenticidade, cabendo aqui uma fala de Jung ele onde fala sobre nossa tendência à “macaquice” ao citar que “o homem possui uma faculdade muito valiosa para os propósitos coletivos, mas extremamente nociva para a individuação: sua tendência à imitação”, mas nos ajuda a refletir ao concluir dizendo que “para descobrirmos o que é autenticamente individual em nós mesmos, torna se necessária uma profunda reflexão; a primeira coisa a descobrirmos é quão difícil se mostra a descoberta da própria individualidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:0px;line-height:1.4">Além do reconhecimento desse aspecto irreconciliável dos opostos, talvez seja importante também pensar que a não aceitação de nossas limitações pode nos cegar para enxergarmos os aspectos divinos em nós, aqueles que buscam realizar-se através de nós e dos quais podemos e devemos usufruir.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-a-cegueira-para-esses-aspectos-pode-nos-fazer-mergulhar-em-um-grande-abismo-havendo-inclusive-o-risco-da-hybris-que-se-caracteriza-por-uma-identificacao-com-o-padrao-arquetipico-que-leva-inflacao-do-ego-que-assume-uma-posicao-de-superioridade-e-sem-conexao-com-o-self" style="font-size:19px">E a cegueira para esses aspectos pode nos fazer mergulhar em um grande abismo, havendo inclusive o risco da <em>hybris</em>, que se caracteriza por uma identificação com o padrão arquetípico que leva inflação do ego, que assume uma posição de superioridade e sem conexão com o Self.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:0px;line-height:1.4">Apenas aceitando nossas limitações é que poderemos cumprir nosso destino, não por nos tornarmos resignados frente a nossas limitações, mas potencializados pelos poderes divinos que nos foram atribuídos e aos quais devemos reconhecer e nos colocar a serviço, para que possamos ajudá-los a se realizar em todas as suas potencialidades.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:0px;line-height:1.4">A inflação do ego é que pode nos levar a acreditar que tudo podemos, tudo alcançaremos, que podemos dar conta de tudo, sem olhar para nossas limitações até que aparece algo em nossas vidas que nos surpreende, mostrando nossas limitações sejam doenças, demissões, traições, situações diversas que nos mostram que não somos só poder e glória, somos também fraqueza e miséria. Eis os opostos ai!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:0px;line-height:1.4">Só poderemos deixar nosso nome escrito na pedra como assim buscava Gilgamesh quando vivermos nossa própria vida, alinhada ao Si-mesmo, reconhecendo que as potências que vejo no outro, podem existir em nós, porém, com nossas próprias roupagens e que fazendo uso delas é que poderemos ampliar pouco a pouco nossos limites.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:0px;line-height:1.4">O conceito de individuação pode contribuir para uma melhor compreensão desse aspecto, visto que na busca de tornar-se um ser único, buscamos nossa singularidade mais íntima. Jung coloca a tradução de “individuação” como “tornar-se si-mesmo” (Verselbstung) ou “o realizar-se do si-mesmo” (Selbstverwirklichung) (2014, §266).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-busca-de-um-ideal-coletivo-desvinculado-do-nosso-si-mesmo-pode-nos-levar-a-grandes-sofrimentos" style="font-size:20px">A busca de um ideal coletivo desvinculado do nosso Si-mesmo pode nos levar a grandes sofrimentos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:0px;line-height:1.4">Já a individuação, que significa a realização melhor e mais completa das qualidades coletivas do ser humano e que implica no não esquecimento das peculiaridades individuais é que de fato será fator determinante de um melhor rendimento social. A individuação é um processo de desenvolvimento psicológico que deve facultar a realização das qualidades individuais dadas, é um processo no qual o homem se torna o Ser único que de fato é. (JUNG, 2014, §267)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:0px;line-height:1.4">Nos permitimos nos iludir pelo mundo, pela sociedade, pelo entorno, por uma inflação do ego, pelo fato de sucumbirmos e acreditarmos que precisamos de mais e mais e que a vida nos exige mais e mais. Assim, a sensação de falta, insuficiência, incompletude permeia nossa existência trazendo angústia. E como lidar com tais sensações?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:0px;line-height:1.4">A comparação vem de nós mesmos e é reforçada pela imagem que temos do outro, se nos permitirmos mergulhar nesse abismo, como profissionais corremos o risco de nos afogarmos envolvidos em textos, artigos, livros, vídeos, filmes, relatos de experiências nunca é o bastante, sempre falta.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:0px;line-height:1.4">Lidar com o algoz que habita em cada um de nós é angustiante, especialmente quando o enxergamos refletido em nossos pares. O devaneio da completude poderia ser compreendido como uma <em>hybris</em>? Os deuses não se ofenderiam com nossa prepotência de poder e de saber?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:0px;line-height:1.4">A meta da individuação implica em despojar o Si-mesmo dos invólucros falsos da persona, assim como do poder sugestivo das imagens primordiais (JUNG, §269, 2014), sendo importante que o indivíduo aprenda a distinguir entre o que parece ser para si mesmo e o que é para os outros (JUNG, 2014, §310).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-podemos-pensar-que-a-busca-por-aquilo-que-percebemos-como-nossa-incompletude-pode-nos-impedir-de-enxergar-a-divindade-que-ja-nos-habita-e-que-poderia-nos-levar-ao-encontro-de-nossa-completude-o-processo-de-individuacao" style="font-size:19px">Podemos pensar que a busca por aquilo que percebemos como “nossa incompletude” pode nos impedir de enxergar a divindade que já nos habita, e que poderia nos levar ao encontro de nossa completude, o processo de individuação.</h2>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Limitações Pessoais e Individuação" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/8cpIFvV1q3Q?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/patricia-cordeiro/">Patricia Cordeiro &#8211; Membro Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/ajaxsalvador/">Ajax Salvador &#8211; Membro Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencia" style="font-size:19px">Referência:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:0px;line-height:1.4">JUNG, C.G. <em>O Eu e o Inconsciente</em>. 27.ed. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>Canais IJEP:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Saiba mais sobre nossos Cursos, Congressos e Pós-graduações</strong>&nbsp;com inscrições abertas: Psicologia Analítica, Psicossomática, Arteterapia e Expressões Criativas, matrículas abertas –&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/">www.ijep.com.br</a></p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="533" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/03/image-4-1024x533.png" alt="" class="wp-image-10321" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/03/image-4-1024x533.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/03/image-4-300x156.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/03/image-4-768x400.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/03/image-4-150x78.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/03/image-4-450x234.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/03/image-4-1200x624.png 1200w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/03/image-4.png 1536w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Diagnóstico: destino ou símbolo?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/diagnostico-destino-ou-simbolo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luciana Gimenes Branco]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 07 Mar 2025 15:54:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Não Categorizado]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: O aumento do número de diagnósticos psiquiátricos e o consequente tratamento especializado não deveria resultar em melhores índices de saúde mental no mundo? Os diagnósticos não deveriam servir de caminho para a cura e libertação? Para que têm servido tantos diagnósticos? E ainda, para quem? Neste artigo, a analista em formação Luciana Branco costura [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: O aumento do número de diagnósticos psiquiátricos e o consequente tratamento especializado não deveria resultar em melhores índices de saúde mental no mundo? Os diagnósticos não deveriam servir de caminho para a cura e libertação? Para que têm servido tantos diagnósticos? E ainda, para quem? Neste artigo, a analista em formação Luciana Branco costura aspectos da cosmovisão de Carl Gustav Jung com músicas de <strong>Arnaldo Antunes</strong>, livro de Emmanuel Carrère e a forma de se pensar doença da medicina ocidental.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>“Peste bubônica, câncer, pneumonia<br>Raiva, rubéola, tuberculose, anemia<br>Rancor, cisticercose, caxumba, difteria<br>Encefalite, faringite, gripe, leucemia<br><strong>O pulso ainda pulsa</strong>”</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-eu-tinha-doze-anos-quando-em-1989-os-titas-lancaram-esses-versos-que-como-bom-simbolo-ganham-cada-vez-mais-significado-em-minha-vida" style="font-size:19px">Eu tinha doze anos quando, em 1989, os Titãs lançaram esses versos que, como bom símbolo, ganham cada vez mais significado em minha vida.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Se quando menina, ouvia com espanto a brincadeira cantada com doenças (e, ainda, com as doenças misturadas com sentimentos), agora na meia idade e alimentada pela cosmovisão de Carl Gustav Jung, “<strong>O pulso</strong>” me maravilha por escutá-la como um <strong>convite à vida</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Com menos poesia, mas com provável paixão semelhante, pouco mais de um século antes da canção, em 1893, o médico e estatístico francês <strong>Jacques Bertillon</strong>, também listou doenças e, com a lista, criou a &#8220;Classificação Internacional das Causas de Morte&#8221;, que continha aproximadamente 161 categorias. Mais tarde, em 1948, tal classificação tornou-se responsabilidade da Organização Mundial da Saúde e foi rebatizada em CID – Classificação Internacional de Doenças.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Tal lista é atualizada regularmente. A mais recente é a CID-11, lançada oficialmente em 2019, e que contém 55 mil códigos únicos, abrangendo condições médicas, doenças, síndromes, lesões, causas externas, e outros aspectos relacionados à saúde, embora o nome da classificação indique: são listadas como doenças.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-cada-uma-das-10-revisoes-da-cid-tornou-a-classificacao-mais-abrangente-e-detalhada-acompanhando-os-avancos-do-conhecimento-da-medicina-ocidental" style="font-size:19px">Cada uma das 10 revisões da CID tornou a classificação mais abrangente e detalhada, acompanhando os avanços do conhecimento da medicina ocidental.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O desenvolvimento da ciência amplia a diferenciação das doenças e categoriza as condições humanas, com o nobre objetivo de entender globalmente o que faz as pessoas adoecerem e morrerem, a fim de evitar sofrimento e salvar vidas. &#8220;A CID é um produto do qual a OMS realmente se orgulha&#8221;, disse Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da instituição em canal oficial.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:22px"><strong>Consciência</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A visão integrativa junguiana, obviamente, valoriza o desenvolvimento da consciência e os frutos deste desenvolvimento, como a ciência e os feitos civilizatórios. Não descarta, porém, o mal que este bem pode causar, quando experimentado de forma unilateralizada, ou seja, sem as nuances da dúvida.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“A natureza determinada e dirigida da consciência é uma aquisição extremamente importante que custou à humanidade os mais pesados sacrifícios, mas que, por seu lado, prestou o mais alto serviço à humanidade. Sem ela a ciência, a técnica e a civilização seriam simplesmente impossíveis, porque todas elas pressupõem persistência, regularidade e intencionalidade fidedignas do processo psíquico.” </p><cite>JUNG, OC 8/2 §135</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O pensador, no entanto, ao longo de toda Obra Completa, não hesita em convidar o leitor à reflexão sobre como a consciência, vivida de forma unilateralizada &#8211; quando aspectos simbólicos e intuitivos da experiência humana são desvalorizados &#8211; pode acarretar em cisão e consequente adoecimento psíquico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-ao-crescimento-da-consciencia-que-devemos-a-existencia-dos-problemas-eles-sao-o-presente-de-grego-da-civilizacao-oc-8-2-750" style="font-size:19px">“<strong>É ao crescimento da consciência que devemos a existência dos problemas; eles são o presente de grego da civilização</strong>.” (OC 8/2 §750)</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em pouco mais de um século, a visão materialista da medicina ocidental ampliou a capacidade de tratamento das doenças. Isso é fato e merece ser celebrado. Porém, simultaneamente, como face da mesma moeda, o ser humano passou a ser olhado de forma fragmentada, como se as partes não compusessem o todo, mas fossem engrenagens mecânicas que precisam funcionar separadamente. Os potenciais “defeitos” em cada estrutura ganharam, ao longo das últimas décadas de forma acelerada, nomes científicos e drogas aprovadas cientificamente que podem restaurá-los para que voltem (os órgãos e as pessoas) a operar o mais rapidamente possível, na melhor potência produtiva em um sistema que não pode parar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Com isso, pelo olhar junguiano, perde-se a possibilidade de <strong>simbolizar</strong> a doença. De dialogar com os sintomas que são expressões do inconsciente desejoso de se manifestar. Desta forma, exclusivamente materialista, a intrínseca condição humana de altos e baixos é patologizada, criando-se a ideia de que existe uma forma única e “correta” de se existir saudavelmente. E, ainda, que a única vida que vale ser vivida é a que está de acordo com essas convenções.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-um-cid-pra-chamar-de-meu" style="font-size:22px"><strong>UM CID pra chamar de meu</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No mesmo ano em que a neurótica “O Pulso” era lançada no Brasil, o termo “<strong>neurose</strong>” foi abolido do CID-10.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A justificativa para tal fato foi a ambiguidade conceitual, já que o termo “neurose” era considerado vago e abrangente, referindo-se a uma ampla gama de transtornos psicológicos e sem critérios diagnósticos claros.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O desenvolvimento da psiquiatria contemporânea também é fator determinante da suspensão do termo e os transtornos anteriormente agrupados em “neurose” foram redistribuídos em categorias mais específicas como, <strong>Transtornos de ansiedade, Transtorno obsessivo-compulsivo, Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), Fobias específicas, Transtorno somatoforme,</strong> entre outros. Todos sintomas tratáveis, por essa mesma perspectiva, de forma medicamentosa.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-jung-a-causa-da-neurose-e-a-discrepancia-entre-a-atitude-consciente-e-a-tendencia-inconsciente" style="font-size:20px">Para Jung, a causa da neurose é a discrepância entre a atitude consciente e a tendência inconsciente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Pouco mais de 50 anos antes da suspensão do termo “neurose” no CID, na conferência <em>Princípios básicos da prática da psicoterapia</em>, realizada na Associação de Medicina de Zurique, em 1935 e transcrita em <em>A prática da psicoterapia</em> (OC 16/1), Jung afirma:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“As neuroses ainda são consideradas, erroneamente, como doenças sem gravidade, principalmente por não serem tangíveis nem corporais. As neuroses não matam &#8211; como se numa doença física sempre existisse a ameaça de um fim letal. No entanto, o que se esquece por completo &#8211; e nisso diferem da doença física &#8211; é que elas podem ser extremamente deletérias em suas consequências psíquicas e sociais, muitas vezes piores que as psicoses que, como tais, geralmente levam o doente ao isolamento social, tornando-o, portanto, inofensivo.” (OC 16/1§ 37) </p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>E o psiquiatra segue:</strong></p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“Infelizmente, as Faculdades de Medicina têm dado pouca importância ao fato de ser grande o número das neuroses existentes e enorme a incidência das implicações psíquicas em doenças orgânicas, que são justamente a causa da sobrecarga do médico que clínica, ainda que não o perceba. O currículo das faculdades não o prepara para enfrentar esse seríssimo problema, e muitas vezes o médico nem chega a ter a menor oportunidade de receber alguma orientação nessa área que, na prática, é tão importante.” (OC 16/1 § 38)</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tempo-e-cura" style="font-size:22px"><strong>Tempo e cura</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">É fato que permanecer diante de sintomas sem um diagnóstico que justifique o mal estar, seja ele físico ou psíquico, é angustiante. Então, na pressa por respostas, a tristeza, que por vezes demora a passar, é chamada de depressão. A falta de interesse num cotidiano desinteressante, batizada de angústia. O estresse em longas jornadas de trabalho sem significado, seguidas por horas de vida gastas no trânsito das grandes cidades vira <em>burnout</em>. A falta de tesão dentro de um relacionamento tóxico é queda hormonal. O vazio. A inveja. A raiva. A solidão.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A não-medicalização precoce exige mudança de comportamento e custa tempo do indivíduo, o mesmo tempo dedicado exaustivamente a manter o sistema em funcionamento. A tal da jornada 6&#215;1.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Se enxergados como símbolos, os sintomas podem, antes do silêncio ocasionado pela medicalização, servir de oráculo para uma vida que pede para ser modificada rumo à realização do arquétipo do si-mesmo. Sem diagnósticos que determinem um destino único, inevitável e doloroso (bipolar, maníaco-depressivo, <em>borderline</em>, TDAH&#8230;), o ser humano é convidado à auto responsabilidade de agir em prol da própria integração dos sintomas e compreensão dos significados desses símbolos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No espetacular livro “Ioga”, de Emmanuel Carrère, a personagem Erica o questiona sobre o que fazer com uma sombra insistente que ela enxerga a sua esquerda, ligeiramente nas costas: “<strong>A Sombra, Emmanuel&#8230; O que eu faço com ela? Você não consegue imaginar como é terrível, essa Sombra que está o tempo todo aqui e que eu não vejo. É tão terrível</strong>&#8230;&#8221;.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-o-autor-autobiografico-segue" style="font-size:19px">E o autor, autobiográfico, segue:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“Escuto Erica, entendo muito bem o que ela está dizendo, terrivelmente bem. A minha Sombra é uma linda marina de Raoul Dufy (NA: referindo-se a um quadro que via no hospital psiquiátrico onde esteve internado), e ela é tão terrível quanto a de Erica. Todo mundo deve ter a sua, ela apenas fica um pouco mais sensatamente atrás das costas da maioria das pessoas, enquanto que a outros, como Erica e eu, ela ameaça mais de perto: ‘A família lamentável e magnífica dos neuróticos’, dizia Proust, e ele dizia também que nós somos o sal da terra, nós, os neuróticos, os melancólicos, os bipolares, nós que passamos nossas vidas nos debatendo contra esses ‘cães negros’ de que fala um outro grande deprimido, Winston Churchill.” (Ioga, p. 204)</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Se ousássemos viver sem diagnósticos precoces, mais distantes de classificações assépticas, sem tratar os sintomas como batatas quentes das quais precisamos urgentemente nos livrar, se fizéssemos dos sintomas símbolos com possibilidades de significados distintos, talvez destinos com mais inteireza pudessem ser construídos. <strong>Talvez a cura, como a integração de opostos complementares, pudesse ser vislumbrada</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ainda-na-mesma-conferencia-principios-basicos-da-pratica-da-psicoterapia-jung-afirma-que-cura-significa-transformacao" style="font-size:19px">Ainda na mesma conferência <em>Princípios básicos da prática da psicoterapia</em>, Jung afirma que cura significa transformação.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“…o médico deve deixar aberto o caminho individual da cura, e neste caso o processo terapêutico não acarretará nenhuma transformação da personalidade, mas será um processo, chamado de individuação. Isto significa que o paciente se torna aquilo que de fato ele é. Na pior das hipóteses poderá chegar a aceitar a sua neurose, porque entendeu o sentido da sua doença. Vários doentes me confessaram que aprenderam a ver com gratidão os seus sintomas neuróticos, pois estes, como um barômetro, sempre lhes mostraram quando e onde se tinham desviado do seu caminho individual, ou quando e onde coisas importantes tinham ficado inconscientes.” (OC 16/1 § 11)</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Quando tratado como apenas um caso entre bilhões a ser catalogado, o indivíduo perde a oportunidade de existir singularmente, realizando e dando significado único à própria existência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Afinal, embora encantador, maravilhoso, miraculoso, prazeroso, perfeito, quando literalizado, “O corpo ainda é pouco”, sugere <strong>Arnaldo Antunes </strong>que em outra canção, “Socorro”, dá a letra para tempos de hiper patologização:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p><em>“Socorro<br>Alguma alma mesmo que penada<br>Me empreste suas penas<br>Já não sinto amor, nem dor<br>Já não sinto nada</em><br><em>Socorro, alguém me dê um coração<br>Que esse já não bate nem apanha<br>Por favor!<br>Uma emoção pequena, qualquer coisa!</em><br><em>Qualquer coisa que se sinta<br>Tem tantos sentimentos<br>Deve ter algum que sirva”</em></p></blockquote></figure>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📝Artigo novo: &quot;Diagnóstico: destino ou símbolo?&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/NyXL725AaWg?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/luciana-branco/">Luciana Branco &#8211; Analista em Formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:19px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">ANTUNES, Arnaldo. <em>O Pulso</em>. São Paulo: Warner Music Brasil,1989.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">_______<em>O Pulso</em>. São Paulo: Warner Music Brasil,1994.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">JUNG, C.G.<em> A Natureza da psique.</em> 10ª edição. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">______ <em>A prática da psicoterapia.</em> 16ª edição. Petrópolis: Editora Vozes, 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">CARREÈRE, Emmanuel. Ioga. São Paulo: Editora Alfaguara, 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:24px"><strong>Canais IJEP:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Saiba mais sobre nossos Cursos, Congressos e Pós-graduações</strong>&nbsp;com inscrições abertas: Psicologia Analítica, Psicossomática, Arteterapia e Expressões Criativas, matrículas abertas –&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/">www.ijep.com.br</a></p>



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		<title>Mosaico como recurso de Ressignificação no Processo Terapêutico</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/mosaico-como-recurso-de-ressignificacao-no-processo-terapeutico/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Beatriz Proença Whitaker de Assumpção]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 10 Feb 2025 22:02:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Não Categorizado]]></category>
		<category><![CDATA[Setting Terapeutico]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[kintsugi]]></category>
		<category><![CDATA[mosaico]]></category>
		<category><![CDATA[processo terapeutico]]></category>
		<category><![CDATA[setting terapeutico]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>RESUMO: Esse artigo, de motivação pessoal, aborda a expressão criativa de se fazer um mosaico, no processo terapêutico, como uma oportunidade de se trabalhar os complexos e reintegrá-los à totalidade psíquica, facilitando a reorganização do mundo interno do indivíduo. INTRODUÇÃO Tenho em casa um jogador mirim de futebol, que sonha muito em um dia ser [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>RESUMO</strong>: Esse artigo, de motivação pessoal, aborda a expressão criativa de se fazer um mosaico, no processo terapêutico, como uma oportunidade de se trabalhar os complexos e reintegrá-los à totalidade psíquica, facilitando a reorganização do mundo interno do indivíduo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-introducao" style="font-size:18px">INTRODUÇÃO</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Tenho em casa um jogador mirim de futebol, que sonha muito em um dia ser jogador profissional. Seu corpo, mesmo que ele se esforce, não consegue parar de chutar a bola o tempo todo, da hora que sai da cama, até a hora do boa noite. Pouco tempo atrás, ele acertou a bola em uma prateleira muito alta, onde eu acreditava que meus objetos favoritos estariam protegidos do seu talento futebolístico. Me equivoquei, pois um vaso, que tinha um valor emocional muito significativo para mim, despencou lá de cima e, sendo de cerâmica, partiu-se em diversos pedaços e muitos farelos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Por saber do meu apreço pelo vaso, meu filho chorava e me abraçava, completamente decepcionado consigo mesmo. Logo que comecei a varrer os cacos, ele me pediu pra que não os jogasse fora, pois ele daria um jeito de colar. Apesar de estar totalmente descrente da eficácia de sua ideia, resolvi guardar os pedaços, para que houvesse uma chance dele se retratar, ainda que apenas em tentativa. Na mesma noite do ocorrido, quando meu marido chegou em casa, ao saber do “caso” do vaso partido, ele me contou que no dia seguinte filmaria uma cena de vaso se quebrando, com a presença no set de filmagem de um restaurador, que usaria uma técnica japonesa para colar os pedaços. Pôde então ser concretizado o desejo muito sincero de uma criança arrependida de sua “boa” pontaria.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-tecnica-citada-e-chamada-de-kintsugi-que-significa-emendar-com-ouro" style="font-size:19px">A técnica citada é chamada de <strong>Kintsugi</strong>, que significa “emendar com ouro”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A técnica consiste em misturar cola com pó de ouro, prata ou platina para recuperar cerâmicas e porcelanas. Surgiu no Japão, no século XV, quando o xogum (mais alto título militar concedido pelo imperador) Ashikaga Yoshimasa enviou à China uma cerâmica quebrada para ser restaurada. Não satisfeito com o resultado, que utilizou grampos metálicos para juntar os pedaços, o xogum pediu para que artesãos japoneses desenvolvessem outra maneira de consertar a peça. Esses artesãos, ao invés de tentarem disfarçar as emendas entre os pedaços partidos, usaram ouro para colá-los e, assim, evidenciar as falhas. <strong>Com isso, os defeitos e imperfeições não foram mais escondidos, mas valorizados, trazendo uma nova beleza para a peça</strong>. Assim, a técnica Kintsugi permitiu que o objeto ganhasse novo uso após seu dano ou ruptura (Cf. HATANAKA, 2023, sp).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-gracas-ao-kintsugi-meu-filho-teve-a-possibilidade-de-reparar-algo-muito-importante-dentro-de-si" style="font-size:19px">Graças ao Kintsugi, meu filho teve a possibilidade de reparar algo muito importante dentro de si. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Ele teve a chance de fazer algo novo surgir dos cacos e me presenteou com um objeto novo, diferente do antigo, mas com um significado muito mais importante para mim.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa situação me fez pensar no uso do mosaico como recurso, dentro de um <em>setting</em> de arteterapia, de possibilidade de ressignificação de uma dor ou até mesmo de conteúdos psíquicos rompidos de nossos clientes. Antes de entrarmos nessa reflexão, vamos conhecer um pouco da sua história como expressão artística.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-uma-breve-historia-do-mosaico" style="font-size:18px">UMA BREVE HISTÓRIA DO MOSAICO</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A palavra mosaico, de origem grega, significa “paciência digna das musas”. “Paciência porque requer concentração e muita atenção para executá-lo, e digna das musas por se tratar de um trabalho de uma beleza rara e magnífica” (MEDEIROS; BRANCO, 2012, p. 39). O mosaico é considerado, assim como a pintura e a escultura, uma das primeiras manifestações culturais do ser humano. Pesquisas indicam que a técnica tem origem nas civilizações antigas, como Egito e Mesopotâmia. Segundo historiadores, o primeiro mosaico produzido data de 3.500 a.C, na antiga cidade de Ur, sendo composto por dois painéis realizados em mármore, arenito vermelho e conchas, que eram carregados em procissões.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>“A obra retrata a guerra e a paz, com cenas do cotidiano de uma sociedade que utilizava veículos de transporte e de combate com características bem rudimentares.” </p><cite>(MEDEIROS; BRANCO, 2012, p. 40)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No Egito, os mosaicos eram usados para ornamentar as paredes e colunas dos templos com pedras preciosas e vidro. Já na Grécia, os mosaicos eram usados para pavimentar os pisos, retratando cenas com motivos mitológicos e recriando situações de lutas e caças de animais. Quando os romanos conquistaram a Grécia, assimilaram diversas formas de arte, incluindo o mosaico. Neste período, começou a ser usado em basílicas onde eram reproduzidas cenas bíblicas. O mosaico passou então a ser um elemento de difusão do Cristianismo, adquirindo um caráter majestoso de riqueza e poder (Cf. MEDEIROS; BRANCO, 2012, p. 40-43).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Bem mais tarde, no começo do século XX, o arquiteto catalão Antonio Gaudí, utilizou-se do mosaico para conciliar arquitetura e decoração, rompendo com a sua estrutura plana. A técnica chegou no Brasil, sendo utilizada em várias construções espalhadas pelo país, principalmente como revestimento externo. As primeiras cidades a adotarem a técnica, que foi trazida pelos franceses e italianos, foram São Paulo e Rio de Janeiro. Nesta ultima cidade, “as calçadas também ganharam graça e beleza com a iniciativa do prefeito Pereira Passos, quando, em 1905, pavimentou a Avenida Central &#8211; hoje Avenida Rio Branco” (MEDEIROS; BRANCO, 2012, p.43).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-uso-do-mosaico-na-arteterapia" style="font-size:18px">USO DO MOSAICO NA ARTETERAPIA</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim como o vaso despedaçado e depois restaurado, o mosaico permite que peças inteiras de azulejos sejam quebradas para, então, criar e transformar seus múltiplos cacos em uma nova peça, uma nova unidade.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>“A produção da peça depende de cada caco encaixado adequadamente na composição da imagem. Um caco que se encaixa em uma determinada parte não cabe na outra.” </p><cite>(MARQUES, 2024, p. 9)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-do-mesmo-modo-que-o-mosaico-tambem-somos-feitos-de-pedacos-de-diversos-fragmentos-psiquicos-que-nos-compoe" style="font-size:18px">Do mesmo modo que o mosaico, também somos feitos de pedaços; de diversos fragmentos psíquicos que nos compõe.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Apesar de nos reconhecermos como uma unidade, o inconsciente é habitado por inúmeros <strong>complexos</strong>, isto é, imagens de situações psíquicas de forte carga emocional, que geralmente são incompatíveis com a atitude da consciência. Como explica Jung, “<strong>esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de <em>autonomia</em></strong>” (2013, p. 43).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Os complexos são como pedaços que foram arrancados da psique por um choque emocional ou moral, no embate com o mundo exterior</strong>. Por nascerem dessa incompatibilidade com a atitude da consciência, os complexos são reprimidos e se tornam inconscientes. Eles são, então, sentidos em nós como personagens internos autônomos, ou externos (quando projetados), e que têm influência na nossa maneira de pensar, de agir e de sentir. Esse processo de cisão entre consciência e conteúdos do inconsciente tem efeito no indivíduo como uma sensação de perda, “e quando um complexo perdido se torna, de novo, consciente, por exemplo, através do tratamento psicoterapêutico, o indivíduo sente que houve um aumento de força” (JUNG, 2013, p.265).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Verena Kast (2013, p.42), em <em><strong>A dinâmica dos símbolos</strong></em>, identifica no trabalho terapêutico com os complexos, uma chance de desenvolvimento do indivíduo. A autora explica que os complexos podem ter tanto caráter inibidor, quanto promotor. Para ela, ao trabalhar os complexos em um processo analítico, identificando-os e conscientizando-se de sua dinâmica, sempre há a chance de liberar a energia contida nele para que haja sua integração à consciência e, assim, favorecendo o desenvolvimento do indivíduo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Há complexos que inibem, outros que promovem. Esse é um lado da realidade. O outro é que, em todo complexo, ainda que inicialmente se trate de um complexo inibidor sempre será também, se nos envolvermos com ele, um tema de desenvolvimento, um estimulo para o desenvolvimento. (KAST, 2013, p. 72)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quando-trabalhamos-os-complexos-na-clinica-atraves-da-fantasia-sonhos-e-expressoes-artisticas-ativamos-a-formacao-de-simbolos" style="font-size:18px">Quando trabalhamos os complexos na clínica, através da fantasia, sonhos e expressões artísticas, ativamos a formação de símbolos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Os símbolos têm uma função de mediar a relação conflituosa entre a consciência e o inconsciente. Ao simbolizarmos, conseguimos lidar criativamente com a vida, com os conflitos, e, acima de tudo, transformamos as forças inibidoras dos complexos em forças promotoras de desenvolvimento.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>“Os complexos se tornam visíveis nos símbolos, por meio de fantasias. Pois onde há emoções, também há imagens. Os complexos se fantasiam, por assim dizer, nos símbolos.” </p><cite>(KAST, 2013, p. 48)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A função simbólica do fazer artístico confere uma manifestação visível ao afeto do complexo. Jung percebeu a importância do uso de técnicas expressivas como meio de acesso ao inconsciente. </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Como descreve Lígia Diniz (2018, p.35), em <em><strong>Arte: a linguagem da alma</strong></em>, “<strong>a Arteterapia, sob a ótica junguiana, parte do princípio que a vida psíquica tem uma tendência inata à organização e que o processo terapêutico por meio da arte poderá dinamizar esta tendência</strong>”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Segundo Diniz (2018, p.35), o símbolo, trazido pela expressão artística, tem a capacidade de tocar o afeto, de compreender, refazer e reparar estruturas. Embora seu sentido oculto nunca seja totalmente esgotado, o símbolo traz a chance de trabalharmos o mundo interno do cliente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-pratica-da-arteterapia-facilita-a-decifracao-do-mundo-interno-o-conflito-com-as-imagens-e-a-energia-psiquica-que-ai-se-configuram" style="font-size:18px">A prática da Arteterapia facilita a decifração do mundo interno, o conflito com as imagens e a energia psíquica que aí se configuram.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A compreensão destas formas simbólicas possibilita o confronto com o inconsciente e a tomada de consciência de seus conteúdos, pois o mundo das emoções e o mundo das coisas concretas não estão separados por fronteiras intransponíveis. Ambos permeiam-se no dia a dia, o que é particularmente manifesto nas obras de artes plásticas e literárias, e a Arteterapia pode aperfeiçoar estes intercâmbios. (DINIZ, 2018, p.33)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-conclusao" style="font-size:18px">CONCLUSÃO</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Trabalhar com mosaico no processo terapêutico é propor para o indivíduo que ele revisite seus fragmentos, os complexos, assim como sua memória e experiências, e possa reorganizá-los em uma nova versão. Através dos símbolos que surgem do inconsciente, o mosaico, como recurso terapêutico, traz uma possibilidade de reintegração dos aspectos que estavam cindidos à totalidade psíquica. A expressão do inconsciente através da arte permite que a carga emocional da imagem simbólica seja despotencializada, facilitando essa reorganização do mundo interno.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>O indivíduo pode ressignificar então seus conflitos, juntando os cacos, reorganizando e colando</strong>. Desse modo, um novo sentido para a experiência vivida surge, assim como aconteceu com meu filho e o vaso restaurado.</p>



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<iframe title="Artigo novo: Mosaico como recurso de Ressignificação no Processo Terapêutico" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/lgpLdFT0k3Q?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Beatriz Assumpção &#8211; Analista em formação IJEP</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/liaromano/">Lia Romano &#8211; Analista Didata IJEP</a> </strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">REFERÊNCIAS:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">DINIZ, Lígia. <em>Arte: linguagem da alma</em>. Arteterapia e psicologia junguiana. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">HATANAKA, Paulo (2023). <em>Kintsugi</em>: <em>aceitar e valorizar as imperfeições</em>. <a href="https://www.japanhousesp.com.br/artigo/kintsugi/">https://www.japanhousesp.com.br/artigo/kintsugi/</a> Acesso em: 18 nov. 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">JUNG, Carl Gustav. <em>A natureza da psique</em>. 10ed. Petrópolis: Vozes, 2013</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">KAST, Verena. <em>A dinâmica dos símbolos</em>. Fundamentos da psicoterapia junguiana. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">MARQUES, Gilmara. <em>O mosaico e a expressão da totalidade da alma</em>. Curso de Arteterapia e expressões criativas, IJEP. São Paulo, 2024. Apostila de aula.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">MEDEIROS, Adriana; BRANCO, Sonia. <em>Conto de fada</em>. Vivências e técnicas em arteterapia. 2ed. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2012.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



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		<item>
		<title>De Coré à Perséfone: O voo da borboleta</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/de-core-a-persefone-o-voo-da-borboleta/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Renata Pastorello]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 20 Jan 2025 12:51:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Não Categorizado]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Hoje escolhi falar de uma Deusa da mitologia grega que, por meio do seu mito, traz aspectos importantes do processo de transformação da psique feminina. Muitos de nós conhecemos Perséfone através do mito de Deméter, a Deusa da maternidade, da fertilidade e da nutrição, entretanto o mito de Deméter-Perséfone vai além do ensinamento de criar [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Hoje escolhi falar de uma Deusa da mitologia grega que, por meio do seu mito, traz aspectos importantes do processo de transformação da psique feminina. Muitos de nós conhecemos Perséfone através do mito de Deméter, a Deusa da maternidade, da fertilidade e da nutrição, entretanto o mito de Deméter-Perséfone vai além do ensinamento de criar os filhos para o mundo, ele nos traz a reflexão sobre o processo de metamorfose da consciência onde predominam os atributos do feminino (Aqui não estou me restringindo apenas à mulher e sim ao arquétipo).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Coré, que em grego significa virgem, vivia com sua mãe na superfície da Terra onde absolutamente tudo de “bom” era lhe provido e era protegida de qualquer tipo de “perigo”. Coré vivia em uma eterna primavera, onde a predominância desta estação é um clima agradável e ameno. Porém essa situação se modifica quando um dia, Hades irrompe do subterrâneo, vê Coré e se apaixona perdidamente por ela, raptando Coré da superfície e levando-a até o mundo inferior. Bom existe um desenrolar do mito até que se descobre que Coré está com Hades no seu reino e não mais se chama Coré e sim Perséfone, esposa de <strong>Hades</strong>, o Deus do Submundo, agora a desprotegida e imatura Coré é a Rainha das profundezas, é uma Deusa profunda, uma Deusa de Poder, Deusa responsável por cortar o vínculo da alma com o corpo humano (BRANDAO, 1986).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-antes-de-entrar-nos-significados-simbolicos-do-mito-em-si-e-importante-trazer-para-este-artigo-o-conceito-de-anima-e-animus-desenvolvido-por-jung" style="font-size:18px">Antes de entrar nos significados simbólicos do mito em si é importante trazer para este artigo o conceito de Anima e Animus desenvolvido por Jung.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Animus e Anima são arquétipos, que segundo Jung (1991b) constituem uma função psicológica importante: a de serem os condutores da alma na jornada de autoconhecimento que requer o atravessamento da sombra, sendo funções psíquicas que intermediam consciente e inconsciente. </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Como vou falar sobre a consciência Feminina, aprofundarei aqui o conceito de Animus: Como a teoria Junguiana se baseia na polaridade, onde o UNO é a integração de opostos, então se em uma pessoa os aspectos femininos predominam na consciência, no seu inconsciente existe necessariamente uma imagem de uma forma masculina: Animus, uma divindade inconsciente onde há uma consciência feminina. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-se-a-consciencia-feminina-tem-em-sua-luz-todo-o-lado-eros-aflorado-sentimental-e-criativo-em-seu-inconsciente-vive-o-animus-que-traz-toda-racionalidade-o-pragmatismo-a-luta-e-a-direcao" style="font-size:18px">Se a consciência Feminina, tem em sua luz todo o lado Eros aflorado, (sentimental e criativo), em seu inconsciente vive o Animus que traz toda racionalidade, o pragmatismo, a luta e a direção. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Através do Animus, o feminino consciente, atravessa as sombras, tendo que lidar com aspectos de pouco conhecimento de seu ego, trazendo o ímpeto, a determinação e a realização para a personalidade consciente feminina.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>“A psicologia da mulher se baseia no princípio do Eros, que une e separa, ao passo que o homem, desde sempre, encontra no Logos seu princípio supremo. O conceito Eros, em linguagem moderna, poderia ser expresso como relação psíquica, e o do Logos como interesse objetivo”. (JUNG, 2012c, p.134)</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Entendendo o significado do mito, Coré representa a menina indecisa, que não desagrada, que põe nas mãos externas (Deméter) as rédeas de seu destino e assim nessa dinâmica ela pode seguir pelo resto de sua vida. Entretanto se Coré se permitir atravessar o inconsciente (mundos inferiores) com seu Animus (Hades), ela vira a senhora, a rainha do mundo oculto, do inconsciente, virando a poderosa Perséfone: Deusa dotada de beleza estonteante, conhecimentos profundos e uma conexão com o mundo interior tão poderosa, que aos olhos racionais seriam entendidos como algo mágico, místico: o nosso sagrado. Tal qual lagarta que para poder voar e se reproduzir, Coré precisa entrar no casulo (inconsciente) para sofrer uma metamorfose (a etimologia vem da palavra grega metamórphōsis, que significa transformação, segundo dicionário Michaelis), sem a morte da lagarta, não há o voo da borboleta.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-uma-consciencia-feminina-sem-a-integracao-com-seu-animus-funciona-tal-qual-core-insegura-se-cobra-demais-pois-agradar-e-colocar-o-poder-de-decisao-de-protecao-e-de-nutricao-na-mao-dos-outros-e-sinonimo-da-sua-vida" style="font-size:18px">Uma consciência feminina sem a integração com seu Animus funciona tal qual Coré: insegura, se cobra demais, pois agradar e colocar o poder de decisão, de proteção e de nutrição na mão dos outros é sinônimo da sua vida.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ela acredita que a vida deve ser perfeita e morre de medo de errar e acaba vivendo essa manifestação do Animus como uma grande crítica àquilo que a consciência realiza. Ou seja, sem o casamento de Coré com Hades (diálogo do consciente com inconsciente), a Coré fica refém do rapto, possessão desse Animus, esta crítica excessiva. Porém se Coré se permite descer ao mundo escuro, passar pelas sombras mais aterrorizantes de sua própria inconsciência perceberá o quão poderosa é, que a maior proteção e realização não está no externo, na superfície (que no mito é simbolizado por sua Mãe), mas sim na conexão com o profundo, dentro dela.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>“Seja-me dado aqui dizer apenas que entendo o mundo inferior como o reino das almas. Efetivamente, para os gregos de Homero, a psique só era encontrada no Hades. O mundo inferior não a vida – era o lugar da psique” (BERRY, 1980, p. 88).</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Tal dinâmica é tão poderosa arquetipicamente falando, que muitos livros/filmes com este enredo acabam se tornando histórias de grande sucesso de vendas, como por exemplo: 50 tons de cinza e a saga infantojuvenil o Crepúsculo. Em ambas as histórias existe um homem poderoso e sombrio (Hades) que transforma a vida da garota simples e medíocre (Coré) em uma mulher especial e poderosa (Perséfone). Mas o importante é<em> </em>trabalhar aqui é o símbolo disso tudo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essas histórias simbolizam o movimento interno que a consciência feminina deve vivenciar para chegar aos aspectos poderosos, numinosos<em> </em>e transformadores. Sabemos que muitas vezes as histórias, mitos, símbolos, são lidos pela consciência de forma literal, não fazendo o trabalho psicológico que é o diálogo consciente com o mundo inconsciente e muitas vezes nessa literalidade, as mulheres projetam fora, o que deveriam vivenciar em sua psique.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-vamos-falar-de-outro-conceito-junguiano-importantissimo-projecao" style="font-size:18px">Vamos falar de outro conceito Junguiano importantíssimo: Projeção</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando não conseguimos fazer esse diálogo internamente, nossa pisque espelha fora o que precisamos trabalhar dentro. Falando em exemplos práticos quando a consciência, primordialmente, feminina não faz o diálogo com seu masculino poderoso e sombrio, não realiza o diálogo necessário, ou seja, o aprofundamento, criando raízes para seguir seus caminho singular, o que acontece? Ela se liga afetivamente à essa imagem externa: Um amor, um professor, um chefe etc. E quando eu digo afetivamente, não é uma relação amorosa e/ou sexual.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-realmente-ficar-tomada-de-afetos-por-aquela-figura-fazendo-com-que-esses-tomem-autonomia-versus-o-ego-nada-ha-de-espantoso-no-fato-de-o-inconsciente-aparecer-projetado-ou-simbolizado-pois-de-outra-forma-ele-nem-seria-percebido-jung-2018-p-125" style="font-size:18px">É realmente ficar tomada de afetos por aquela figura. Fazendo com que esses tomem autonomia versus o ego: “nada há de espantoso no fato de o inconsciente aparecer projetado ou simbolizado, pois de outra forma ele nem seria percebido” (JUNG, 2018, p.125).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Por isso a projeção acaba sendo um dos nossos primeiros contatos conscientes com o que há em nossa psique, eu mesma em minha adolescência passei por uma experiência projetiva, porém extremamente curativa, conforme relato a seguir.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-minha-infancia-e-adolescencia-era-uma-tipica-representacao-da-deusa-core-muito-sensivel-ao-mundo-real-extremamente-dependente-dos-meus-pais-e-insegura-fazia-tudo-para-agradar-com-o-intuito-de-ser-aceita-e-amada" style="font-size:18px">Em minha infância e adolescência era uma típica representação da Deusa Coré: Muito sensível ao mundo real, extremamente dependente dos meus pais e insegura, fazia tudo para agradar com o intuito de ser aceita e amada.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Provavelmente não sairia dessa dinâmica se não tivesse me apaixonado na adolescência por um jovem tipicamente “transgressor” aos olhos dos meus pais: o garoto já havia repetido de ano algumas vezes, cursava supletivo a noite (não por dificuldades econômicas dos pais e sim pelas inúmeras vezes que ele havia repetido o ano escolar), skatista e “descolado”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Eu era a melhor aluna do meu ano, nunca havia colocado um cigarro da boca e estava sonhando em entrar na USP, era da escola para casa e de casa para a escola, vivia em minha superfície pueril tal qual Coré.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Não seria possível tomar as rédeas da minha própria vida se não descesse aos meus infernos e foi através dessa paixão. Ou seja, a partir de uma projeção externa do meu animus que enfrentei as expectativas externas, me aprofundando em mim mesma. E, “raptada” dos domínios de meus pais, me alicercei no material desconfortável, dolorido porém nutridor que é meu interior para seguir o meu caminho singular.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O rapto, minha confrontação para sair da superfície e mergulhar em mim foi condição primordial para a morte da menina e o nascimento da mulher. Como exposto por Patrícia Berry no livro organizado por James Hillman, Encarando os Deuses: “Além disso, essa perda é apoiada pela maior e mais velha mãe da Terra, Gaia (que cultiva a flor sedutora para Hades) – como se a natureza no nível de Gaia entendesse a violação como necessária” (BERRY, 1980, p.88). Porém, essa descida, esse aprofundamento, esse empoderamento, esse casamento entre a consciência Feminina e o Animus só acontecerá quando houver a integração interna</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Coré simboliza potência fértil, poderosa geradora de vida</strong>: A semente. Que só irá germinar e crescer se for introjetada na solo, dentro da superfície, no profundo. Somente após esse processo de aprofundamento é que a mulher terá raízes fortes, seguras e encontrará os nutrientes necessários para sustentar seus frutos na superfície.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📝Artigo novo: &quot;De Coré à Perséfone: O voo da Borboleta&quot; 🦋" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/fne9K9VtBRw?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/renata-pastorello/">Renata Fraccini Pastorello</a> </strong>&#8211; Membro Analista em Formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/ajaxsalvador/">Ajax Salvador</a> &#8211; Membro Analista Didata IJEP</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-bibliografia">Bibliografia:</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/metamorfose">https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/metamorfose</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">BRANDAO, Junito. <em>Mitologia Grega </em>Volume 1, Petrópolis: Vozes,1986</p>



<p class="wp-block-paragraph">BERRY, Patrícia. O Rapto de Deméter/Perséfone e a Neurose. In: HILLMAN, James Encarando os Deuses. São Paulo: Cultrix,1980. Cap. 4,</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl. G.<em> Tipos Psicológicos</em> Volume VI, Petrópolis: Vozes,1991</p>



<p class="wp-block-paragraph">________<em>Civilização em Transição</em>. 5.ed. Petrópolis: Vozes, 2012</p>



<p class="wp-block-paragraph">________<em>Mysterium Coniunctionis Volume 1</em>. 6ed. Petrópolis: Vozes, 2018</p>
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			</item>
		<item>
		<title>CLIQUE DOS COMPLEXOS: A fotografia nos revela</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/clique-dos-complexos-a-fotografia-nos-revela/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniela Aimar Euzebio]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 07 Nov 2024 11:50:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Não Categorizado]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=9629</guid>

					<description><![CDATA[<p>Com o advento da fotografia, a humanidade ganhou uma ferramenta poderosa para capturar e eternizar momentos, ampliando nossa capacidade de registrar o tempo vivido e preservar a memória. A fotografia não é apenas uma reprodução visual de um instante, mas uma representação simbólica que transcende o tempo, transformando momentos fugazes em eternidades visuais. Entre as [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Com o advento da fotografia, a humanidade ganhou uma ferramenta poderosa para capturar e eternizar momentos, ampliando nossa capacidade de registrar o tempo vivido e preservar a memória. A fotografia não é apenas uma reprodução visual de um instante, mas uma representação simbólica que transcende o tempo, transformando momentos fugazes em eternidades visuais. Entre as diversas formas de registro, a fotografia se destaca como guardiã dos momentos que desejamos manter vivos, oferecendo-nos um elo tangível com nosso passado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essas imagens funcionam como janelas para nossas lembranças, permitindo que o observador atento faça uma leitura que conecta o passado com o presente, ao mesmo tempo em que abre espaço para o enigma e a subjetividade. Ao congelar um determinado momento no tempo, a foto oferece não apenas um recorte do que foi, mas também um convite à interpretação e à reflexão sobre a nossa existência e sobre os mistérios que cercaram as relações humanas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-isso-uma-foto-pode-revelar-muito-mais-do-que-a-imagem-do-que-foi-capturada" style="font-size:16px">Por isso, uma foto pode revelar muito mais do que a imagem do que foi capturada.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Simbolicamente, a fotografia é a imortalização de um momento passado. Como arte, ela é um registro da memória e conta uma história que liga o passado com os olhos de quem a vê, ou seja, é uma espécie de elo entre o inconsciente e a consciência.  Jung (OC 7/1, §103) diz que o inconsciente pessoal “contém lembranças perdidas, reprimidas (propositalmente esquecidas), evocações dolorosas, percepções que, por assim dizer, não ultrapassaram o limiar da consciência (subliminais)”.  Ao se observar atentamente uma foto, pode ser desnudada alguma circunstância, uma cena até então não percebida, ser revelada alguma imagem simbólica acerca de uma situação oculta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na atualidade, atravessamos um Espírito da Época marcado pelas <em>selfies.</em> Importante lembrar que, para Jung, “Espírito da Época&#8221; (ou Zeitgeist em alemão) se refere ao conjunto de ideias, valores, crenças, atitudes e comportamentos que predominam em uma determinada época ou cultura. É uma espécie de &#8220;clima psicológico&#8221; que influencia a maneira como as pessoas pensam, sentem e se comportam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Numa ampliação simbólica, por traz de repetições obsessivas pela busca da imagem ideal, a <em>selfie</em> pode simbolizar uma expressão de intensa busca pela autoafirmação em uma sociedade marcada pela superficialidade e pela fluidez das relações e identidades.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-num-periodo-em-que-zygmunt-bauman-2021-denominou-de-modernidade-liquida-onde-tudo-e-transitorio-e-as-certezas-sao-fugazes-a-selfie-emerge-como-uma-tentativa-de-solidificar-um-senso-de-identidade-que-e-paradoxalmente-pessoal-e-publico-oferecendo-um-meio-imediato-de-autoafirmacao-uma-forma-de-dizer-eu-existo-para-si-mesmo-e-para-os-outros" style="font-size:16px"><strong>Num período em que Zygmunt Bauman (2021) denominou de ‘modernidade líquida’, onde tudo é transitório e as certezas são fugazes, a <em>selfie</em> emerge como uma tentativa de solidificar um senso de identidade que é paradoxalmente pessoal e público, oferecendo um meio imediato de autoafirmação, uma forma de dizer &#8220;eu existo&#8221; para si mesmo e para os outros.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Cada imagem postada nas redes sociais é um pedido de validação, uma busca por curtidas e comentários que reforçam a identidade apresentada. Essa necessidade de reconhecimento externo pode estar intrinsecamente ligada à dinâmica da sociedade líquida, onde o ego busca constante legitimação, tornando-se uma moeda de troca simbólica em um mercado de autoimagem e aprovação social. Porém, essa prática também revela um <strong>aspecto sombrio</strong>: a baixa autoestima que, muitas vezes, impulsiona o desejo incessante de criar e compartilhar essas imagens. Essa <em>selfie</em> aponta para uma persona cuidadosamente construída ao projetar uma imagem idealizada, distanciando-se da verdadeira identidade do indivíduo. Essa construção de uma persona baseada na aparência e na aceitação social pode levar a um ciclo vicioso, onde a autoestima se torna cada vez mais dependente das reações dos outros, aprofundando o vazio interno.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-importante-lembrar-que-a-psicologia-analitica-entende-por-eu-ou-ego-o-fator-ao-qual-todos-os-conteudos-conscientes-se-relacionam-jung-oc-9-2-1" style="font-size:16px">Importante lembrar que a Psicologia Analítica entende por eu ou ego o fator “ao qual todos os conteúdos conscientes se relacionam” (JUNG, OC 9/2, § 1).</h2>



<p class="wp-block-paragraph">“É este fator que constitui como que o centro do campo da consciência, e dado que este campo inclui também a personalidade empírica, o eu é o sujeito de todos os atos conscientes da pessoa” (JUNG, OC 9/2, § 1). Se o ego é o centro da consciência, a persona é “uma máscara da psique coletiva, (&#8230;) representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade, acerca daquilo que ‘alguém parece ser’” (JUNG, OC 7/2, § 246). É a relação ao qual a consciência se relaciona com o mundo externo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A prática da <em>selfie</em>, quando vista sob uma perspectiva simbólica, revela a complexa relação entre o indivíduo e a sociedade contemporânea. Ela representa uma busca incessante por validação em um mundo onde as certezas são efêmeras e as identidades são plastificadas. A <em>selfie</em>, como um símbolo, desafia-nos a refletir sobre o equilíbrio entre a autoafirmação saudável e a dependência da aprovação externa, sobre a diferença entre o eu e a persona que mostramos ao mundo, e sobre como navegamos as águas instáveis da sociedade líquida sem perder nosso senso de autenticidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">Quantas selfies são tiradas para eleger uma boa foto e publicarmos nas redes? Simbolicamente, quais são as descartabilidades de autoimagem que não suportamos para ter a fantasia do ideal? Os <strong>complexos</strong> ficam constelados ao não produzirmos a melhor imagem de nós mesmos para gerar a aprovação do coletivo. Jung (OC 8/2, §198) diz que a expressão “está constelado indica que o indivíduo adotou uma atitude preparatória e de expectativa, com base na qual reagirá de forma inteiramente definida”, ou seja, “a constelação é um processo automático que ninguém pode deter por própria vontade. Esses conteúdos constelados são determinados <strong>complexos</strong> que possuem energia específica própria”.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>O que é, portanto, cientificamente falando, um “complexo afetivo”? É a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência. Esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de autonomia, vale dizer: está sujeita ao controle das disposições da consciência até um certo limite e, por isto, comporta-se, na esfera do consciente, como um corpus alienum (corpo estranho), animado de vida própria. Com algum esforço de vontade, pode-se, em geral, reprimir o complexo, mas é impossível negar sua existência, e na primeira ocasião favorável ele volta à tona com toda a sua força original.</p><cite><strong>JUNG, OC 8/2, § 201</strong></cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-entre-tantos-outros-um-importante-aspecto-que-as-fotografias-podem-revelar-sao-as-dinamicas-e-os-complexos-familiares" style="font-size:17px">Entre tantos outros, um importante aspecto que as fotografias podem revelar são as dinâmicas e os complexos familiares.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ao observar uma fotografia familiar, podemos perceber a manifestação desses complexos de maneira sutil, por vezes importante. Cada indivíduo na foto é visto não apenas em sua singularidade, mas também como um nó em uma intricada rede de relações e expectativas que foram moldadas por gerações, refletindo padrões inconscientes transmitidos ao longo do tempo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A disposição dos membros na imagem, suas expressões faciais e corporais, os olhares trocados (ou a ausência deles), e até a escolha de quem está ou não presente na foto, podem nos fornecer pistas valiosas sobre as dinâmicas familiares subjacentes. Por exemplo, a proximidade física entre dois membros pode indicar uma relação de dependência emocional ou uma aliança inconsciente, enquanto a distância entre outros pode sugerir conflitos não resolvidos ou afastamentos emocionais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A ausência de uma figura-chave na fotografia, como a de um pai ou uma mãe, pode apontar para a internalização de um complexo paterno ou materno, onde a figura ausente exerce influência por vezes inconsciente sobre os membros da família presentes. As expressões faciais também podem revelar muito: um sorriso forçado ou uma expressão neutra pode indicar tensões subjacentes ou papéis familiares assumidos por obrigação, enquanto um semblante relaxado pode sugerir uma aceitação do papel desempenhado dentro da estrutura familiar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esses-complexos-como-o-materno-paterno-ou-fraterno-nao-sao-apenas-influencias-individuais-mas-tambem-representam-forcas-arquetipicas-que-moldam-a-psique-coletiva-da-familia" style="font-size:16px"><strong>Esses complexos, como o materno, paterno ou fraterno, não são apenas influências individuais, mas também representam forças arquetípicas que moldam a psique coletiva da família</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">A fotografia, ao congelar esses momentos no tempo, nos oferece um vislumbre das forças inconscientes que moldam as relações e as identidades dentro do grupo familiar, revelando padrões que podem ser tanto fonte de conexão e apoio quanto de conflito e tensão. Assim, cada detalhe capturado na imagem, desde a postura de um membro até a sombra de uma expressão, contribui para um mosaico simbólico que reflete a complexidade da vida psíquica familiar, revelando as camadas profundas de interação e influência que, muitas vezes, permanecem ocultas na vida cotidiana.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-outro-aspecto-importante-que-podemos-analisar-com-as-fotografias-sao-as-etapas-da-vida-humana-que-podem-servir-como-registros-simbolicos-e-profundamente-reveladores" style="font-size:16px">Outro aspecto importante que podemos analisar com as fotografias são as <strong>etapas da vida humana</strong>, que podem servir como registros simbólicos e profundamente reveladores.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">No primeiro setênio, as imagens captam não apenas a aparência física da criança em seus primeiros anos de vida, mas também podem revelar aspectos mais sutis e invisíveis de sua jornada de crescimento na dinâmica familiar. A postura corporal, o brilho nos olhos, a expressão facial, o gesto das mãos — todos esses elementos podem ser interpretados como reflexos da interação da criança com seu ambiente e das influências emocionais, espirituais e energéticas que ela está absorvendo durante esse período formativo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fotografias que capturam a interação íntima da criança com seus pais, ou cuidadores, oferecem uma janela para as dinâmicas emocionais e a transferência de valores e comportamentos que ocorrem nessa fase inicial de vida. A maneira como se relaciona com os adultos na imagem — seja se aninhando em seus braços, buscando seu olhar ou imitando seus gestos — pode indicar o nível de segurança, confiança e amor que ela sente, elementos essenciais para o desenvolvimento saudável de seu corpo físico, seu senso de eu e sua capacidade de se conectar com o mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essas interações captadas na fotografia podem revelar a base emocional que a criança está construindo, que servirá de alicerce para sua vida futura, influenciando sua capacidade de formar relacionamentos, enfrentar desafios e desenvolver uma identidade sólida.  Cada imagem se torna um mapa simbólico do processo de crescimento, refletindo tanto a influência dos cuidados amorosos quanto a presença das forças espirituais que guiam a criança em sua jornada durante esses anos fundamentais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-outro-lado-a-fotografia-tambem-pode-apreender-de-maneira-sutil-as-dinamicas-ocultas-da-sombra-familiar" style="font-size:16px">Por outro lado, a fotografia também pode apreender, de maneira sutil, as dinâmicas ocultas da sombra familiar.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Durante os primeiros anos de vida, a criança é especialmente sensível às energias emocionais e psicológicas ao seu redor, absorvendo não apenas o que é explicitamente dito ou feito, mas também o que é oculto, reprimido ou não verbalizado. A sombra familiar, os medos, traumas, expectativas não atendidas e desejos inconscientes, pode se manifestar de diversas formas nas imagens capturadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Importante ressaltar que, para a Psicologia Analítica, <strong>sombra </strong>são “aqueles elementos, sentimentos, emoções, ideias e crenças com os quais não podemos nos identificar, que são reprimidos devido a educação, cultura ou sistema de valores” (GUGGENBÜHL-CRAIG, 1998, p. 89). Ela pode ser individual ou coletiva: a primeira quando nós, pessoalmente, que reprimimos um conteúdo psíquico particular, e a última quando uma cultura ou subcultura inteira efetua essa repressão (GUGGENBÜHL-CRAIG, 1998, p. 89).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-fotografias-podem-revelar-sinais-da-sombra-familiar-nas-expressoes-faciais-posturas-corporais-e-demais-interacoes" style="font-size:16px"><strong>As fotografias podem revelar sinais da sombra familiar nas expressões faciais, posturas corporais e demais interações</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Por exemplo, alguém que aparece retraído, com um olhar distante ou uma postura corporal fechada, pode estar expressando inconscientemente tensões ou conflitos emocionais não resolvidos presentes no ambiente familiar. Essas imagens podem indicar que a pessoa internaliza ansiedades, inseguranças ou frustrações que, embora não sejam verbalizadas, são sentidas e absorvidas por ela. A ausência de certos membros da família, ou a presença frequente de expressões de desconforto ou constrangimento, pode sugerir que a sombra atua em formas de exclusão, favoritismo ou projeção de expectativas. Um dos filhos pode ser colocado num papel inconsciente, como o de &#8220;salvador&#8221;, &#8220;bode expiatório&#8221; ou &#8220;filho favorito&#8221;, “culpado pela separação dos pais”, refletindo dinâmicas de poder e de aceitação que moldam sua identidade em formação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A sombra captada nas fotografias pode também se manifestar nas interações entre os membros da família. Uma imagem onde alguém parece buscar atenção ou aprovação de um familiar pode indicar uma dinâmica de sombra onde o amor é condicional, baseado em desempenho ou conformidade com certas expectativas inconscientes. Essa busca incessante por validação pode apontar para uma insegurança emocional internalizada, fruto de um ambiente onde as necessidades emocionais são negligenciadas ou reprimidas. De outro modo, algumas fotos podem mostrar, por exemplo, crianças em situações que assumam papeis excessivamente responsáveis, talvez cuidando de irmãos menores ou desempenhando tarefas que não são adequadas à sua idade, podem sugerir que a sombra da família inclui uma projeção de responsabilidades adultas na criança. Isso pode ocorrer em famílias onde os adultos, consciente ou inconscientemente, esperam que a criança compense suas próprias falhas ou lacunas emocionais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-fotografias-quando-reunidas-em-albuns-de-memorias-tambem-tem-um-papel-simbolico-profundo-na-forma-como-lidamos-com-o-luto-e-a-perda" style="font-size:16px"><strong>As fotografias, quando reunidas em álbuns de memórias, também têm um papel simbólico profundo na forma como lidamos com o luto e a perda</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Elas não apenas capturam momentos de vida e expressões visíveis, mas carregam o peso emocional e as histórias invisíveis que, muitas vezes, ajudam a manter viva a conexão com aqueles que se foram. Nesse sentido, podem ser vistas como pontes entre o passado e o presente, funcionando como símbolos de continuidade, capazes de oferecer consolo em momentos de dor e saudade. No contexto do luto, a foto pode atuar como um símbolo arquetípico, permitindo que a pessoa reviva e reinterprete experiências vividas com quem partiu. Ela não apenas congela o momento, mas também abre uma janela para que a pessoa possa se reconectar emocionalmente com a memória e a sensação da presença ausente. Isso é especialmente importante quando as palavras falham em expressar o impacto emocional da perda.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao folhear um álbum de fotografias, o enlutado pode rememorar a ausência. Cada imagem traz à tona um fragmento do passado que, aos poucos, ajuda a reconstruir o sentido da vida após a perda. A fotografia permite que a memória seja reorganizada, e a pessoa possa se lembrar não apenas da morte, mas, sobretudo, da vida que foi vivida junto àquele que partiu. Esse processo de recuperação das lembranças pode ser terapêutico, pois oferece uma maneira de processar as emoções e reconstruir a narrativa pessoal sem que a dor da ausência seja paralisante.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A vastidão das imagens capturadas pela fotografia é incomensurável, e o universo simbólico que ela evoca é muito rico</strong>. Este texto propõe um breve recorte dentro desse campo inesgotável, com o intuito de estabelecer um diálogo simbólico entre as imagens e os complexos no inconsciente, revelando as conexões sutis que essas representações visuais podem despertar em nossos afetos mais profundos. Ao explorar o poder simbólico da fotografia, buscamos compreender como ela pode se tornar uma ponte para acessar dimensões ocultas da psique, resgatando memórias, emoções e experiências que, muitas vezes, nos escapam.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;CLIQUE DOS COMPLEXOS: A fotografia nos revela&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/v_m3T3U_9v0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/daniela/"><strong>Daniela Euzebio &#8211; Analista Didata  em formação IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/"><strong>E. Simone Magaldi &#8211; Membro Didata IJEP</strong></a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:17px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Liquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">GUGGENBÜHL-CRAIG, Adolf – Eros de muletas – reflexões sobre amoralidade e psicopatia. Curitiba – Corsária, 1998.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">JUNG, Carl Gustav. A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 2014 (Obras completas v. 8/2).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">JUNG, Carl Gustav. Aion &#8211; Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 2013 (Obras completas v. 9/2).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">JUNG, Carl Gustav. O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2016 (Obras completas v. 7/2).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">JUNG, Carl Gustav. Psicologia do Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2016 (Obras completas v. 7/1).</p>
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		<title>A Dúvida está Morta e os Anéis do Poder</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-duvida-esta-morta-e-o-aneis-do-poder/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 16 Oct 2024 16:11:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Não Categorizado]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A deusa Dúvida está morta. Dúvida foi a deusa da hesitação, ela esteve presente quando encontrávamos bifurcações em nosso caminho; aparecia quando parávamos um pouco para refletir sobre uma frase de determinado autor; ou então, quando tentávamos entender as palavras do outro que incomodaram um pouco. Sua morte não foi bonita, foi um assassínio. Primeiro, [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>A deusa Dúvida está morta</strong>. Dúvida foi a deusa da hesitação, ela esteve presente quando encontrávamos bifurcações em nosso caminho; aparecia quando parávamos um pouco para refletir sobre uma frase de determinado autor; ou então, quando tentávamos entender as palavras do outro que incomodaram um pouco.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sua morte não foi bonita, foi um assassínio. Primeiro, seu assassino a elegeu como algo ruim. Adjetivou-a de passiva, entrópica, covarde. Evidentemente, contagiados com seu líder e sem permitir que a Dúvida surgisse no coração, o ser humano aceitou, evidentemente, sem hesitar, que a Dúvida é má.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Foi assassinada a sangue frio. Guilhotinada, assim como os esclarecidos fizeram no passado. No segundo em que a cabeça da deusa Dúvida rolou, sendo separada de seu corpo pela mão de seu carrasco, o povo gritou, comemorou e se extasiou, gozando de um poder jamais visto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O sangue da deusa escorreu pela guilhotina, manchando o solo da praça pública. Uma mancha que jamais se apagará, mas que ninguém liga, pois não há mais ninguém para hesitar no mundo. A partir daí, a multidão, eufórica, se dispersou, carregando consigo a “não-dúvida”. Voltaram, então, para os seus trabalhos, estudos e suas redes sociais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-morte-da-duvida-fez-aquele-vazio-imenso-desaparecer-podia-se-ouvir-entre-os-cantos-da-cidade-podemos-ser-felizes-de-novo" style="font-size:17px">A morte da Dúvida fez aquele vazio imenso desaparecer. Podia-se ouvir entre os cantos da cidade: “podemos ser felizes de novo!”</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O mundo também mudou a partir desse assassinato. As encruzilhadas, antes repletas de possibilidades, tornaram-se caminhos únicos e estreitos. Fraqueza e covardia, sinais estereotipados da Dúvida, não existiram mais. Agora, sim, é possível subir a montanha sem se preocupar com a integridade física! A incerteza, que antes impulsionava a busca por conhecimento, foi vista como inimiga vencida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sem a deusa, o ser humano adentrou seu cotidiano extremamente feliz. No entanto, via-se no olhar de todos uma extrema dissociação cognitiva, um olhar único, direcionado e um sorriso estonteante. Quem olha de fora, poderia até considerar que a face exprimia um ar macabro. Essa felicidade é igual ao Anel de Gollum, uma obsessão que consome, que isola e que, no fim, destrói. Essa alegria revela a perda da alma. A deusa, outrora que conduzia para a alma, ou talvez até ela mesma fosse a alma, se foi; deixando para trás uma humanidade à deriva, agarrada a um simulacro de felicidade que a cega para a verdadeira miséria de sua condição.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não é possível mais se perguntar: “esse anel me serve ou eu sirvo a esse anel?”. O assassinato da deusa Dúvida é o crime perfeito, pois ninguém mais duvida se foi destrutiva ou criativa a sua morte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O carrasco da Dúvida não foi a Certeza, afinal a Certeza nunca desceu ao nosso planeta terreno com suas asas douradas. Foi outra: a deusa Reatividade. Tomando o poder, a Reatividade se vascularizou no coração de cada ser humano. Trouxe anéis de poder que ninguém hesitou em colocar. Afinal, é necessário usá-lo na mínima possibilidade de ressureição da Dúvida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-assim-o-mundo-seguiu" style="font-size:17px">E assim o mundo seguiu.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nas redes sociais, o ser humano e seu anel transformaram diálogos em fuzilamentos – ninguém mais lê e fica com a deusa Dúvida para refletir. Agora é diferente, o indivíduo lê para atacar, reagir e fazer a manutenção da sua certeza medíocre (lembremos, que a Certeza não está aqui), nada é absorvido ou comunicado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos relacionamentos interpessoais, a empatia e a compreensão foram minadas, surgiu, então, a intolerância. O ser humano acaba por ficar pulando de relacionamento em relacionamento, de amizade em amizade, de time em time, afirmando que o parceiro é um narcisista, sem saber e aprofundar o que o termo “narcisista” quer dizer. Evidentemente, aqui não estou falando de casos extremos de violência. Estou me referindo ao comum.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No âmbito profissional, a Dúvida levou consigo a criatividade e a reflexão. A Reatividade elevou a produtividade e a eficiência. Agora, existe somente um caminho para crescer, evoluir e ter sucesso. O caminho do <em>status</em> é único, portanto, tornou-se comum aquele “puxar o tapete” para não deixar ninguém no caminho. Tem pessoas no meio do caminho, no meio do caminho tem pessoas. Pessoas são pedras a serem retiradas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As universidades também não escaparam, nem mesmo o mundo junguiano. Antes espaço de construção do conhecimento e desenvolvimento do pensamento crítico, todos sucumbiram à tirania da Reatividade. Aqueles que se dizem intelectuais destes lugares, possuídos pela Reatividade, são os piores, pois eles promovem uma pseudo-dúvida – uma forma de manipular os outros para levá-los exatamente para as suas certezas medíocres e fazer a manutenção de sua vaidade acadêmica. A simbolização deixou de ser simbolização quando a Dúvida foi retirada de cena. Simbolizar agora é a grande fuga para o analista despejar sua interpretação projetiva sobre o cliente, fazendo de novo a manutenção de sua vaidade intelectual.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ainda-nesse-topico-a-busca-por-respostas-prontas-e-solucoes-imediatas-substituiu-a-investigacao-paciente-e-o-questionamento-constante" style="font-size:17px">Ainda, nesse tópico, a busca por respostas prontas e soluções imediatas substituiu a investigação paciente e o questionamento constante.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Tanto para se resolver uma patologia biológica quanto para interpretar um sonho ou uma mandala.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:17px"><blockquote><p>Cada um de nós espontaneamente evita encarar seus problemas, enquanto possível; não se deve mencioná-los, ou melhor ainda, nega-se sua existência. Queremos que nossa vida seja simples, segura e tranquila, e por isto os problemas são tabu. Queremos certezas e não dúvidas; queremos resultados e não experimentos, sem entretanto, nos darmos conta de que as certezas só podem surgir através da dúvida, e os resultados através do experimento. Assim, a negação artificial dos problemas não gera a convicção; pelo contrário, para obtermos certeza e claridade, precisamos de uma consciência mais ampla e superior. </p><cite>Jung, OC 8/2, § 751</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Contudo, a Reatividade chega antes da consciência. O médico não olha mais nos olhos, o psicoterapeuta quer reagir, de antemão, à expressão da alma para confirmar sua superioridade, fazendo a alma fugir. Todos estão apaixonados pelos seus anéis do poder, dados pela deusa Reatividade.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:17px"><blockquote><p>A situação fica difícil, quando a natureza do paciente se rebela contra uma solução coletiva. Neste caso, coloca-se para o terapeuta a questão de saber se ele está disposto a quebrar suas convicções ao confrontar-se com a verdade do paciente. Se quiser prosseguir com o tratamento, deverá impreterivelmente, e sem nenhum preconceito, sair com o paciente à procura das ideias filosófico-religiosas correspondentes aos seus estados emocionais. Estes apresentam-se em forma de arquétipos, recém-brotados do mesmo solo materno em que, outrora, se formaram, sem exceção, todos os sistemas filosófico-religiosos. Mas se o terapeuta não estiver disposto a questionar suas próprias convicções, no interesse do paciente, é lícito pôr em dúvida a firmeza de sua atitude básica. É possível que não possa ceder por razões de segurança própria que, quando ameaçada, o faz enrijecer. Aliás, a capacidade de elasticidade psíquica tem limites que divergem de indivíduo para indivíduo e de coletividade para coletividade, e às vezes são tão estreitos, que uma certa rigidez significa o real limite dessa capacidade. <em>Ultra posse nemo obligatur </em>(Ninguém é obrigado além do que ele é capaz de fazer). </p><cite>Jung, OC 16/1 §184</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">O que não contavam é que a Dúvida, assim como São Denis, consegue levantar-se e caminhar mesmo sem a cabeça no lugar. Os ditos loucos nos ensinaram isso. Uma centelha, mesmo que fraca, ainda brilha em meio a essa escuridão abismal. Essa centelha, pode ser lida por Jung, mas não somente ele. Mas, aqui iremos com ele.</p>



<p class="wp-block-paragraph">C. G. Jung entendia que a dúvida é uma força propulsora e necessária. A dúvida é o melhor caminho a se tomar diante do pleonasmo das certezas absolutas e da rigidez, nos mais variados âmbitos da vida. A psicologia junguiana defende o duvidar: dos pais, da sociedade, da política, dos movimentos, da profissão, da própria psicologia junguiana. Afinal, quando Jung afirma que a Consciência possui pés vacilantes, talvez ele não queira criticar, mas apontar que a Consciência deva realmente possuir pés vacilantes. Consciência e dúvida são irmãs gêmeas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">C. G. Jung não viajava para conhecer outras culturas. Visitava povos de distintas culturas exatamente para questionar sua própria cosmovisão cristã, europeia, caucasiana. Essa atitude aberta ao questionamento, segundo ele, é fundamental para romper com as amarras do ego e estabelecer uma relação o Self.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-duvida-e-paciencia-nao-podem-ser-separadas-por-isso-e-necessario-abordar-essa-segunda" style="font-size:17px">Dúvida e paciência não podem ser separadas, por isso, é necessário abordar essa segunda.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Jung também enfatizava a importância da paciência no processo de individuação. Ele reconhecia que a jornada de autoconhecimento era longa e desafiadora, repleta de obstáculos e retrocessos. A paciência, nesse contexto, era vista como uma virtude essencial para lidar com as frustrações, os conflitos e as incertezas que surgem ao longo do caminho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É necessário ainda esclarecer os adjetivos pejorativos que foram imputados na Dúvida. Para Jung, Dúvida não significa passividade ou resignação, mas sim uma atitude ativa, de confiança no Self e de aceitação dos próprios limites. Hesitar é ter o dom da paciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Patientĭa,</em> uma soma entre <em>pathos</em> e <em>sciencia. Pathos</em> é a raiz latina das palavras “paixão” e “sofrimento”, no sentido de “viver na pele”, “passar por algo”. A Paixão de Cristo é um grande exemplo disso. Já,<em> Sciencia</em> pode ser entendida como uma consciência de algo.&nbsp; Portanto, &#8220;Paciência&#8221; é a tomada de consciência daquilo que atravessa o indivíduo; daquilo que ele está passando; ou daquilo que ele sente na pele. E isso demanda de tempo, isto é, da não-reatividade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim como o alquimista, metafórica e pacientemente, transforma o chumbo em ouro, o indivíduo, com paciência, hesitação e dúvida, transforma suas experiências e conflitos em crescimento e amadurecimento. <em><strong>Qui patientiam non habet manum ab opere suspendat</strong>,</em> traduzindo: “quem não tiver paciência, retire a mão da obra”.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:17px"><blockquote><p>Quem não suporta a dúvida não suporta a Si mesmo. Esta pessoa é indecisa, não cresce e por isso também não vive. A dúvida é sinal do mais forte e do mais fraco. O forte tem a dúvida, mas a dúvida possui fraco. Por isso o mais fraco está próximo do mais forte e quando pode dizer para sua dúvida &#8220;Eu te possuo&#8221; então ele é o mais forte. Mas ninguém pode dizer sim a sua dúvida, ele suporta então o caos aberto. Pelo fato de haver tantos abaixo de nós que podem dizer tudo, repara como vivem. O que um diz pode significar muito ou bem pouco. Pesquisa por isso sua vida. Meu discurso não é claro nem escuro, pois é o discurso de alguém em crescimento. </p><cite>Jung, <em>Liber Novus</em>, p. 319</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">A Dúvida brilha trepidantemente no mesmo lugar onde um dia a Alquimia brilhou com a ascensão do Cristianismo. Enquanto os anéis do poder dominarem nossos políticos, intelectuais e o homem comum, poucos encontrarão o ouro da alma. Torço para nenhum dedo, com seu anel, apertar o botão da bomba atômica a mando da Reatividade antes de tomarmos consciência.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;A Dúvida está Morta e o Anéis do Poder&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/xqlPjyR8PTE?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/leostorres/">Leonardo Torres &#8211; Analista Didata em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Aproveite para nos acompanhar no YouTube:&nbsp;<a href="https://www.youtube.com/channel/UCrbwUrT0W4Tp-swBxAVwX5Q">Canal IJEP – Bem vindos(as)! (youtube.com)</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Acesse nosso site e conheça nossos Cursos e pós-Graduações com&nbsp;<strong>Matrículas Abertas</strong>:&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/">IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>*Psicossomática</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>*Psicologia Analítica</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>*Arteterapia e Expressões Criativas</em></p>



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