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DIANA E MERCÚRIO: o Tao e a Árvore Filosofal

Proponho nesse texto uma aproximação entre os princípios taoistas do Yin e Yang, assim como de suas relações e mutações, com as imagens de Diana e Mercúrio, deuses da mitologia romana. Trago também seus correlatos no processo alquímico, o mercúrio e a prata, e como eles interagem na dança cósmica da opus alquímica que busca pela Arbor Philosophorum, ou seja, a árvore filosofal.

Resumo: Proponho nesse texto uma aproximação entre os princípios taoistas do Yin e Yang, assim como de suas relações e mutações, com as imagens de Diana e Mercúrio, deuses da mitologia romana. Trago também seus correlatos no processo alquímico, o mercúrio e a prata, e como eles interagem na dança cósmica da opus alquímica que busca pela Arbor Philosophorum, ou seja, a árvore filosofal.

A partir do De Natura Deorum – Sobre a natureza dos deuses (1896) – de Cícero, filósofo romano que viveu durante o século I a.C., aprendemos que uma diferença fundamental, talvez uma das maiores, entre a mitologia grega e a romana, é que, no início, os deuses romanos não possuíam forma humana ou até mesmo antropomórfica. Os deuses eram, para os romanos, presenças naturais, manifestações sem forma definida, mas de atuação direta no mundo. Eles eram considerados numina, energias divinas que influenciavam diretamente o mundo e a vida de todos os seres. Somente mais tarde, a partir do contato com outras religiões e mitologias, principalmente a grega, é que essas energias ganharam representações antropomórficas e humanas.

Do ponto de vista psicológico, isso pode auxiliar a compreender como as imagens arquetípicas, as quais, muitas vezes costumamos chamar de deuses, são, na verdade, também representações dos arquétipos; metáforas que surgem como tentativa de explicação consciente da manifestação numinosa dos conteúdos do inconsciente coletivo. Porém, fundamentalmente, só percebemos o resultado da manifestação dos arquétipos.

Os deuses, como os enxergamos, descrevemos, desenhamos ou narramos, já são substituições das energias numinosas do inconsciente coletivo.

Como afirma C. G. Jung:

“Como diz a própria definição, os arquétipos são fatores e temas que agruparam os elementos psíquicos em determinadas imagens (que denominamos arquetípicas), mas de um modo que só pode ser conhecido pelos seus efeitos. Os arquétipos são anteriores à consciência e, provavelmente, são eles que formam as dominantes estruturais da psique em geral, assemelhando-se ao sistema axial dos cristais que existe em potência na água-mãe, mas não diretamente perceptível pela observação. Como condições a priori, os arquétipos representam o caso psíquico especial do ‘pattern of behaviour’ (esquema de comportamento), familiar aos biólogos e que confere ao ser vivente a sua natureza específica”

(Jung, Carl Gustav, 2011a, p. §222,  Nota 2).

Para esse artigo, escolhi ampliar alguns aspectos projetados na imagem da deusa conhecida na mitologia romana como Diana. Podemos encontrar algumas correspondências e paralelos na mitologia grega com a imagem de Ártemis. Porém, veremos como Diana carrega algumas características que coincidem com a figura de Ártemis, ao mesmo tempo em que difere em muitas outras. Não é meu objetivo fazer uma comparação entre as duas, portanto, deixo isso a cargo do leitor, caso acredite ser necessário. Me concentro aqui em ampliar alguns aspectos simbólicos da imagem de Diana, principalmente na sua relação com a alquimia.

Encontramos assim, em escritos alquímicos, que Diana era um dos nomes dados à prata. A mistura de mercúrio numa solução de nitrato de prata dá origem a uma formação que lembra uma árvore, um amálgama de prata cristalizada (foto do lado esquerdo apresentada no início do artigo) que cresce no formato de uma espécie de arbusto metálico. Essa formação ficou conhecida pelos alquimistas como arbor philosophorum ou Arbor Diana: a árvore de Diana. Podemos considerá-la, historicamente, como uma precursora do lapis philosophorum (Conniff, 2014). Esse fato já mostra a importância de Diana – ou da prata – nos processos de transformação a partir de sua união com Mercúrio. Mas, antes de falarmos mais sobre essa imagem da coniunctio, vamos conhecer um pouco melhor a deusa.

Diana era filha de Júpiter e Latona. O pai era o deus do dia, do céu, do sol e do trovão. A mãe era a deusa do anoitecer e da maternidade. Da união dos dois nasceu também Febo, que pode ser comparado a Apolo na mitologia grega. Febo era também um deus da luz, assim como da música e da poesia. Era considerado o mais belo dos deuses no panteão romano. Febo parece ter seguido ao pai, enquanto Diana à mãe.

Aqui, os princípios masculino e feminino, Yang e Yin, parecem ser caracterizados de formas cada vez mais definidas e unilaterais com o passar das gerações.

Isso reflete o próprio movimento de estruturação da consciência ao longo do desenvolvimento evolutivo, com sua capacidade de distinguir, separar e classificar que aumenta com o passar do tempo. Essas características da consciência são necessárias para que seja possível trabalhar na opus alquímica que, idealmente, leva à (re)união dos opostos. São elas também que permitem a identificação unilateral do ego, seja ela normal e harmoniosa ou exagerada e patológica, com as diversas manifestações psíquicas. Lembremos que a unilateralidade só é um problema quando excessiva.

Nas palavras de Jung:

“A contraposição é inócua, enquanto não contiver um valor energético maior. Mas se a tensão dos opostos aumenta, em consequência de uma unilateralidade demasiado grande, a tendência oposta irrompe na consciência, e isto quase sempre precisamente no momento em que é mais importante manter a direção consciente (Jung, Carl Gustav, 2011c, §138).”

Porém, como veremos ao longo desse texto, a ideia de uma representação categórica e unilateral de Diana como constituída exclusivamente de princípios femininos não se sustenta quando ampliamos a imagem com profundidade. Diana era, então, a deusa da noite e da caça. Mais do que isso, podemos dizer que ela é uma imagem desses elementos e traz, em seu núcleo arquetípico, a própria noite e a caça enquanto princípios apriorísticos. Ou seja, conteúdos do inconsciente coletivo que se manifestam de maneira autônoma na construção da realidade. Sua arma é o arco e a flecha e, ampliando essa imagem, podemos dizer que essa ferramenta serve à própria criação de consciência: acertar o alvo no centro é uma bela imagem para metaforizar esse processo.

Cícero confirma que Diana era a deusa da Lua e, além disso, que ela tinha a capacidade de transformar a escuridão da noite em luz do dia. Diana faz surgir a manhã, faz nascer da sombra a luz da consciência matutina. Jung afirma: “Esta concepção é válida para todas as propriedades geralmente usadas na alquimia, cada coisa traz em si o seu oposto” (Jung, Carl Gustav, 2011b, §114).

Para ampliar essa noção, podemos traçar paralelos com o pensamento taoísta. Seguindo a ordem natural das mutações, o velho Yin, que carrega dentro de si a semente do seu oposto complementar, a partir do crescimento deste,torna-se Yang. O movimento oposto ocorre do outro lado, o velho Yang também se transforma, a partir da expansão do jovem Yin, no seu oposto complementar. Porém, para que não percamos a visão paradoxal da imagem, é necessário lembrar que, enquanto os jovens Yang e Yin expandem, os velhos Yang e Yin retraem.

É um movimento sempre duplo (na verdade quádruplo) que, na maioria das vezes é enxergado e descrito parcialmente.

Acreditar que Yang é sempre expansão e que Yin é sempre retração é um equívoco. O melhor seria, na minha visão, enxergar as duas forças como princípios e não como categorias. O jovem Yin expande, o velho Ying retrai; O jovem Yang expande, o velho Yang retrai. Mas, o mais importante aqui, é compreender que a mutação se manifesta de maneira supraordenada e, no processo, o feminino torna-se masculino, assim como, ao mesmo tempo durante todo o movimento, o masculino torna-se feminino. Marie-Louise von Franz traz uma imagem cristã dessa dança cósmica dos opostos na sua análise de Aurora Consurgens:

“A ideia da transformação da substância feminina em substância masculina lembra a teoria de Teodoreto de Ciro, segundo a qual a Igreja lua, que representa uma ‘assembléia de almas perfeitamente iniciadas nos mistérios’, se torna, ela mesma, em sua glorificação final, o sol, imagem de Cristo, cuja luz provoca a admiração dos homens” (Von Franz in: Jung, 2019, §211).

Agora podemos olhar para a segunda figura trazida no início do artigo:

A imagem traz a árvore filosofal cercada por vários símbolos da opus. Ampliar a imagem inteira é um trabalho que ultrapassa o limite desse pequeno ensaio. Vamos nos concentrar, portanto, nas duas personagens principais da nossa discussão.

Do lado esquerdo encontramos Mercúrio, sob ele, aparecendo de uma caverna, podemos ver um dragão. Do lado direito está Diana, empunhando seu arco e flecha enquanto monta uma baleia. Ambos são símbolos do inconsciente que se manifesta através de representações andrógenas. Mercúrio carrega características femininas, o temperamento de Diana parece ilustrar, muitas vezes, atitudes masculinas. Porém, em sua essência, Mercúrio é o portador da luz da consciência solar, aquele que a reflete diretamente e constantemente; mas, não podemos esquecer de que essa luz é doada pelo próprio inconsciente.

Afirma Jung:

Como o astro noturno se eleva saindo do mar noturno, assim a consciência se forma a partir do inconsciente, tanto de maneira ontogenética como filogenética, e cada noite retorna ela novamente ao estado primordial de sua natureza. Esta duplicidade da existência psíquica é tanto modelo como imagem original para a simbólica do Sol e da Luna (Jung, Carl Gustav, 2011b, §114).

Somente a partir do nascimento da consciência é que surge a possibilidade de qualquer reflexão sobre a existência do inconsciente. No momento da diferenciação da consciência, o inconsciente torna-se a Grande Mãe. O 1 torna-se 2; esse é o início do axioma de Maria Profetisa que continua: o 2 torna-se 3, e do 3º surge 1 como 4. Por isso, podemos dizer que Mercúrio marca o início da opus; é a partir da capacidade humana de conhecimento, doada pelo próprio inconsciente mas, distribuída por ele, que se torna possível reconhecer a existência do seu oposto, Diana.

Confirmamos isso com as palavras de Jung:

E, pois, designado de maneira adequada como duplex, como activus e passivus. Sua parte “ascendente”, que se mostra ativa, é chamada de sol com muito acerto; e somente por meio dessa parte é que se percebe a outra parte, que é a passiva. Esta última recebeu, pois, o nome de Luna, porque ela toma do Sol a luz que tem. Mercurius corresponde, como se pode comprovar, ao νοῦς (nous) cósmico dos antigos filósofos. Dele se deriva a mens humana, a vida acordada da alma, que se denomina consciência. Esta parte reclama inexoravelmente a parte oposta que lhe corresponde, a qual é algo de psíquico escuro, latente, não manifesto, isto é, o inconsciente, cuja existência somente pode ser conhecida pela luz da consciência.

(VOL> 14/1, §114)

Jung descreve no trecho acima a Lua (Luna) como sendo a contraparte feminina de Mercúrio. Diana pode ser compreendida então como essa “parte oposta que lhe corresponde”, mas que só pode ser conhecida e integrada a partir da manifestação de Mercúrio. Porém, primordialmente, os dois são um.

Podemos encontrar essa ideia mais uma vez com as reflexões de Marie Louise von Franz:

“Uma formulação análoga à da Aurora – que é talvez a fonte desta passagem – se encontra num trecho do tratado Kosinus ad Sarratantam, onde a ‘umidade lunar’ (humiditas lunaris) personificada, que é uma imagem paralela à nossa imagem de mulher, declara: ‘Quem me deslocar, a mim que contenho a matéria da lua e de mercúrio, de seu lugar {de loco swo), isto é, do corpo do mineral, ou melhor, quem me sublimar […] e ligar-me (a mim umidade lunar) a meu amado, que é a gordura solar, nos regenerará numa vida graças à qual não haverá mais morte.”

(Von Franz in: Jung, 2019, §269)

A autora mostra, a partir do texto alquímico, que é união da umidade da Lua, ou seja, uma solução, que precisa ser unida à gordura solar, uma imagem que lembra a consistência do mercúrio líquido, que resultará na união dos opostos e na vida eterna, ou seja, no objetivo dos alquimistas: o Lapis Philosophorum. Essa imagem remete diretamente ao que descrevi no início do texto, quando discuti a Arbor Diana comoum amálgama de prata cristalizada.

Caminhando para o final dessa reflexão, vamos olhar para mais uma afirmação de Jung:

“Não são o homem e a mulher que estão unidos, e sim, o masculino e o feminino a partir de uma forma sútil, psíquica. É o modo como os antigos praticavam a psicologia. Expressavam-se a partir das substâncias” (Jung, C. G., 2011, p. 239).

Essa frase de Jung é importante para estabelecermos uma diferenciação fundamental para a compreensão do fenômeno da coniunctio. Embora, talvez devido à uma unilateralidade exagerada da consciência e da identificação patológica com o mundo literal, acabamos confundindo essas concepções, homem não é sinônimo de masculino, assim como mulher não é sinônimo de feminino. Se fosse assim, não seria possível através da opus alquímica fazer a união dessas energias opostas e complementares num individuum. Mas, talvez de uma maneira mais facilmente compreensível, podemos dizer que se essas energias não se misturassem em cada ser humano, seria impossível falar de mulheres masculinas e homens femininos. Embora aqui também se apresente a temática de animus e anima, esse assunto merece aprofundamento em outra oportunidade.

Precisamos, assim como, supostamente, fazemos com as concepções de Yin e Yang, compreender o feminino e o masculino como princípios. Como Jung faz no seu comentário do texto chinês O segredo da flor de ouro (2017), estamos falando aqui de Eros e Logos; resumidamente, o princípio feminino da união e o masculino da separação. A coniunctio que resulta de uma relação de oposição e complementariedade entre esses dois elementos possibilita a criação de consciência (Edinger, 1984). Desse encontro surge a Arbor Philosophorum, a árvore que pode significar o próprio processo de individuação. Aqui falamos da anima mundi, o feminino maior, representante do Eros primordial que une os opostos que foram separados por Logos, como sendo a grande guia do ser humano nesse processo.

Afirma Marie-Louise Von Franz:

“(…) a anima é a força que atua, “reunindo os opostos na unidade”. Ela realiza todos os milagres e sua inversão. Ela é o opus em sua totalidade, toda a ciência e, na medida em que ela e seu esposo são apenas um, ela é o começo e o fim, o alfa (a) e o ômega (cj), qualificativos que lhe conferem de novo a dignidade divina.”

(Von Franz in: Jung, 2019, §555).

Mercúrio e Diana são dois, mas são um. Yin é e não é Yang, Yang é e não é Yin. Isto é o Tao, o caminho que existe e inexiste, a própria arbor philosophorum.

José Luiz Balestrini Junior – Analista Didata em Formação

Waldemar Magaldi – Analista Didata Responsável

Referências:

Imagens: Esquerda: Uso livre sob Licença de Documentação Livre GNU; disponível em https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Arbre_de_Diane_(détail_bas)_23.jpg?uselang=pt. Direita: Imagem  de uso livre de textos alquímicos que datam de mais de 100 anos atrás.

CICERO, Marcus Tullius. De natura deorum.  E. Loescher, 1896.

CONNIFF, Richard. Alchemy may not have been the pseudoscience we all thought it was. Smithsonian Magazine, 2014.

EDINGER, Edward F. A criação da consciência: o mito de Jung para o homem moderno. In: A criação da consciência: o mito de Jung para o homem moderno, 1984. p. 120-120.

JUNG, C. G. Seminários sobre sonhos de crianças. Vozes, 2011.

JUNG, Carl Gustav. Interpretação psicológica do dogma da trindade.  Editora Vozes Limitada, 2011a. 8532641083.

JUNG, Carl Gustav. Mysterium Coniunctionis 14/1: Os componentes da Coniunctio; Paradoxa; As personificações dos opostos.  Editora Vozes Limitada, 2011b. 8532641261.

JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique.  Editora Vozes Limitada, 2011c. 8532641342.

JUNG, Carl Gustav; WILHELM, Richard. O segredo da flor de ouro: um livro de vida chinês.  Editora Vozes Limitada, 2017. 8532655556.

JUNG, CG. Mysterium Coniunctionis Vol. 14/3.  Editora Vozes, 2019. 8532662331.

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