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	<title>Arquivos bode expiatório - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos bode expiatório - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Violência contra pessoas LGBTQIA+: uma sombra materializada</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/violencia-contra-pessoas-lgbtqia-uma-sombra-materializada/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Mauro Angelo Soave Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Feb 2026 21:24:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Gênero]]></category>
		<category><![CDATA[LGBTQIA+]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[agressão]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: O presente ensaio busca uma reflexão sobre como a sombra pode se materializar em violências, usando como foco a população LGBTQIA+. O ensaio passeia pelos conceitos de sombra, projeção e complexo de bode expiatório, além do conceito das minorias psicológicas. Pessoas LGBTQIA+ têm 280% mais chances de sofrer algum tipo de agressão ou abuso [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: O presente ensaio busca uma reflexão sobre como a sombra pode se materializar em violências, usando como foco a população LGBTQIA+. O ensaio passeia pelos conceitos de sombra, projeção e complexo de bode expiatório, além do conceito das minorias psicológicas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-pessoas-lgbtqia-tem-280-mais-chances-de-sofrer-algum-tipo-de-agressao-ou-abuso-durante-a-vida-couter-apud-souza-et-al-2022" style="font-size:19px">Pessoas LGBTQIA+ têm 280% mais chances de sofrer algum tipo de agressão ou abuso durante a vida (COUTER apud SOUZA et al, 2022).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essas pessoas também apresentam uma tendência maior a quadros depressivos, ideações suicidas e abuso de substâncias. Enquanto por muito tempo se atribuiu esse quadro ao caráter e à individualidade, hoje é possível observar que o preconceito e a discriminação que sofrem na verdade causam, durante o decurso de uma vida, feridas que muitas vezes não cicatrizam. Isso porque recebem a projeção de sombra coletiva, que se materializa na violência implícita e explícita sofrida por essa parte da população.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Até hoje perdura uma crença &#8211; que permeia desde mentes individuais, e alguns segmentos da sociedade como a religião e até a ciência &#8211; de que a existência humana no campo afetivo-sexual só pode se dar de forma heterossexual e binária. Apesar de, historicamente, a humanidade apresentar grande diversidade em formas de ser e amar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-registros-historicos-e-mitos-mostram-que-a-homossexualidade-e-a-transexualidade-por-exemplo-existem-desde-que-a-humanidade-surgiu" style="font-size:19px">Registros históricos e mitos mostram que a homossexualidade e a transexualidade, por exemplo, existem desde que a humanidade surgiu.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Povos indígenas das Américas, da Ásia e da Oceania apresentavam classes de gênero além do masculino e feminino. Inclusive, alguns tendo uma espécie de terceiro gênero ou denominações específicas para pessoas homossexuais ou transgênero como os Dois-Espíritos na América do Norte, Mahu na Indonésia e Hijra na Índia (ROUGHGARDEN, 2004). Além da conhecida história da homossexualidade na Grécia antiga, chamada de pederastia, que consistia numa espécie de relação tutor-aluno.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O todo-poderoso Zeus, por exemplo, teve em Ganimedes um amante, levando-o para o Olimpo. Em outro momento ele e Hera utilizam o pobre profeta Tirésias como instrumento de disputa entre masculino e feminino. Outra figura mitológica que troca de gênero é Caeneus, uma mulher que ao ser violentada por Poseidon pede para se tornar um homem invencível/inviolável (BRANDÃO, 1987).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-muito-do-preconceito-contra-pessoas-lgbtqia-se-da-por-serem-pessoas-que-nao-vivem-de-acordo-com-a-norma-ou-com-o-que-se-considerou-por-muito-tempo-a-normalidade" style="font-size:19px">Muito do preconceito contra pessoas LGBTQIA+ se dá por serem pessoas que não vivem de acordo com a norma ou com o que se considerou por muito tempo a normalidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essas pessoas, por destoarem do que se espera de uma pessoa seja no aspecto afetivo-sexual ou na identidade, sofrem com as projeções de sombra e com a manifestação da síndrome do bode expiatório.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A definição das normas de gênero ganha força no século XVIII com as críticas ao comportamento e a tentativa de criação de uma fronteira rígida entre o que é ser homem e mulher e entre o que é exclusivamente masculino e feminino. Desde então, passa-se a acreditar que certas atividades, vestimentas e costumes são exclusivos do homem ou da mulher, tornando aqueles que não se encaixam no padrão algo a ser corrigido ou eliminado. Isso sendo reforçado dioturnamente pela religião cristã quando falamos de civilização ocidental.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Associa-se então a pessoa que não se encaixa como problemática e essa camada da população passa a receber todo tipo de projeção coletiva, tornando-se o bode expiatório, principalmente em momentos de tensão e instabilidade. De alguma forma atribui-se ao desviado da norma a causa de catástrofes, como punição dos deuses. Isso pois, se entendia que era uma escolha da pessoa e uma afronta a Deus, mesmo que, sabemos hoje, ninguém escolhe ser LGBTQIA+, nasce-se assim.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-kurt-lewin-denominou-as-parcelas-da-populacao-mais-vulneraveis-aos-dissabores-coletivos-de-minorias-psicologicas" style="font-size:19px"><strong>Kurt Lewin</strong> denominou as parcelas da população mais vulneráveis aos dissabores coletivos de minorias psicológicas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Segundo Lewin, as características de uma minoria psicológica são a ausência de representatividade e autonomia, tendo seu destino coletivo atrelado a outro grupo, não necessariamente menos indivíduos em relação à população em geral, como é o caso das mulheres, por exemplo. Lewin cunhou sua teoria estudando os judeus durante a Primeira e a Segunda Guerra. Ele buscou entender os mecanismos psicológicos por trás da perseguição ao seu povo e as dinâmicas sociais intra e extra grupo (MAILHIOT, 2013).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Lewin também identificou que os grupos minoritários tendem a ser alvo de uma agressividade deslocada do grupo dominante ou de uma minoria privilegiada, que manobra as massas para direcionar sua violência a grupos desfavorecidos ou com poucas defesas. Apesar da atitude individual de pessoas ligadas à uma minoria ser usada muitas vezes como justificativa para o preconceito e a discriminação, a psicologia social e a teoria de Lewin apontam que na verdade a questão é coletiva, e muitas vezes não se justifica pelas razões mais comumente apresentadas como motivo de discriminação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-maioria-sempre-tem-interesse-em-barrar-a-aquisicao-de-direitos-e-privilegios-pelas-minorias" style="font-size:19px">A maioria sempre tem interesse em barrar a aquisição de direitos e privilégios pelas minorias.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Usando como exemplo os judeus que Lewin estudou, o autor aponta que em 400 anos os motivos de perseguição foram diversos, desde a religião no passado até a um preconceito baseado em teorias racistas com o advento do nazismo. Ele também aponta que é uma ilusão dos minoritários acreditarem que se forem bem-sucedidos serão aceitos pela maioria, na verdade, em momentos de crise serão os primeiros a serem perseguidos. Pode-se observar esse fenômeno também em relação às mulheres, que foram queimadas por anos em fogueiras, numa clara perseguição.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O fenômeno do <strong>bode expiatório</strong> consiste em identificar pessoas ou grupos como causadores do mal ou de delitos, responsabilizá-los por isso e expulsá-los da vida comunitária, negar direitos e às vezes até a própria humanidade, a fim de proporcionar ao restante da comunidade um sentimento de inculpabilidade e reconciliação com padrões coletivos. Proporciona aos membros da comunidade a sensação de segurança e de perfeição, uma certa identificação com o padrão divino e com o que é “correto”, tudo o que não se encaixa nesse padrão é taxado como demoníaco, no entanto, apenas atua como forma de negação da sombra, uma das maneiras mais conhecidas de se livrar da culpa, é criando bodes expiatórios (KAST, 2022; PERERA, 1991).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A população <strong>LGBTQIA+</strong> não é diferente. Assim como dito acima, pessoas assim existem desde sempre, porém, a relação da maioria para com elas é que se transforma. &nbsp;O que era punido por ser pecado, passa a ser crime e depois doença.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-jung-nbsp" style="font-size:19px"><strong>Para Jung: &nbsp;</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>Sentimo-nos satisfeitos porque a pessoa perversa cometeu o crime por nós. Este é o sentido profundo de Cristo, enquanto redentor, ter sido crucificado entre dois ladrões; eles também, à sua maneira, eram redentores da humanidade, eram os bodes expiatórios (JUNG, 2015a, §210).</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tudo-que-e-mau-e-inferior-que-nao-queremos-reconhecer-em-nos-mesmos-atribuimos-aos-outros-jung-2013b" style="font-size:19px">Tudo que é mau e inferior, que não queremos reconhecer em nós mesmos, atribuímos aos outros (JUNG, 2013b)</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A negação da sombra na situação do bode expiatório é um desafio, pois o sacrifício ou a exclusão de tal figura representa a tentativa de controle do homem perante a natureza e as intempéries divinas, ao mesmo tempo que o adverte da sua impotência e desamparo. Para Jung (2016, §44) “<em>Preferem inventar o mundo heroico, além do bem e do mal, e cortam o nó górdio em vez de desatá-lo</em>”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-atualidade-essa-realidade-tem-entre-tropecos-avancado-na-maioria-dos-paises-do-mundo" style="font-size:19px">Na atualidade essa realidade tem, entre tropeços, avançado na maioria dos países do mundo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A OMS (Organização Mundial da Saúde), APA (Associação Americana de Psiquiatria), CFP (Conselho Federal de Psicologia) e CFM (Conselho Federal de Medicina) deixaram de categorizar a homossexualidade e a transexualidade como doenças, abrindo espaço para a inclusão e a aquisição de direitos, trazendo visibilidade à população. No entanto, não faltam violências reais e simbólicas contra esse grupo, como as malfadadas terapias de conversão praticadas por igrejas e estabelecimentos de saúde.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ainda paira na sociedade e, infelizmente parece estar em ascensão, a crença de que a não normatividade é a causa das mais diversas mazelas sociais e econômicas, com base em moralismos vazios e fazendo com que indivíduos se sintam à vontade para bradar impropérios dos mais absurdos contra a população LGBTQIA+ sem qualquer consequência. Esses discursos validam e dão coragem para ação a indivíduos praticarem violências, assassinatos, discriminações e outras agressões contra essa população, acreditando estarem em seu direito de maioria.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Além dos ataques aos indivíduos por meio de violências e até assassinatos, coletivamente há uma inércia legislativa na consolidação dos direitos, no entanto, para revogá-los há uma certa celeridade. Sugiro uma pesquisa sobre iniciativas legislativas em revogar o direito à constituição familiar entre pessoas do mesmo gênero, afirmação de gênero entre outros. Observe, por exemplo, as iniciativas do presidente <strong>Donald Trump</strong> para a finalização dos programas de diversidade e inclusão.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Por anos e anos foram negados os mais diversos acessos às pessoas por discriminação de gênero e sexualidade e, quando esse quadro começa a mudar na primeira crise os direitos são revogados. Isso não se aplica somente à população LGBTQIA+, mas a todas as minorias psicológicas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-se-pode-esquecer-o-inconsciente-de-uma-pessoa-ou-grupo-se-projeta-sobre-outra-s-pessoa-s-isto-e-aquilo-que-alguem-nao-ve-em-si-mesmo-passa-a-censurar-no-outro" style="font-size:19px">Não se pode esquecer: o inconsciente de uma pessoa (ou grupo) se <strong>projeta</strong> sobre outra(s) pessoa(s), isto é, aquilo que alguém não vê em si mesmo, passa a censurar no outro.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Este princípio tem uma validade geral tão impressionante que seria bom se todos, antes de criticar os outros, se sentassem e ponderassem cuidadosamente se a carapuça que querem enfiar na cabeça do outro não é aquela que se ajusta perfeitamente a eles (Cf. JUNG, 2013b).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-ultimo-gostaria-de-trazer-a-musica-geni-e-o-zepelim-de-chico-buarque-para-essa-conversa" style="font-size:19px"><strong>Por último, gostaria de trazer a música Geni e o Zepelim de Chico Buarque para essa conversa</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Na sua genialidade, Chico traduz a dinâmica do bode expiatório na figura da sofrida Geni. Não sabemos ao certo quem é Geni, apenas que é uma marginalizada pela sociedade. Geni está sempre entre os excluídos e sofre diariamente agressões da sociedade em que está inserida, até o momento de crise em que é apresentada ao sacrifício, e, na vã esperança de talvez ser posteriormente aceita, aceita se sacrificar para salvar àqueles que sempre a condenaram. O destino de Geni nunca está, nem esteve em suas mãos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A partir do momento em que a maioria se vê de joelhos diante de um algoz e seu destino depende daquela que tanto desprezaram, imploram por sua misericórdia. Geni, com sua inclinação de acolher os excluídos acaba cedendo aos apelos e, mais uma vez, sofre as mais diversas violências, como sacrifício. No entanto, ao retornar, volta a ser discriminada e agredida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-pessoas-lgbtqia-causam-medo-pois-confrontam-pessoas-com-a-liberdade-individual-apresentada-pelo-self-de-maneira-simbolica" style="font-size:19px">As pessoas LGBTQIA+ causam medo, pois confrontam pessoas com a liberdade individual, apresentada pelo Self de maneira simbólica.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">De alguma forma questionam o monoteísmo do ego, que se sente desafiado quando a diversidade questiona suas certezas e descobertas, baseadas nos valores dominantes das maiorias psicológicas e das minorias privilegiadas. Cada assassinato, suicídio ou agressão a uma pessoa LGBTQIA+ é uma tentativa de negação da diversidade humana no agressor.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">As minorias privilegiadas jamais renunciarão a seus privilégios em detrimento dos direitos de qualquer outro grupo, e, infelizmente, manipulam a massa mantendo-a na inconsciência de seu lugar enquanto atacam as minorias indefesas. Massa essa que tem as mãos sujas de sangue, como executora indireta de um crime.</p>



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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/maurosoave/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/maurosoave/">Me. Mauro Angelo Soave Junior – Analista Didata em formação</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-bibliografia-e-referencias" style="font-size:19px"><strong>Bibliografia e Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega v. III. Petrópolis: Vozes, 1987.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GRUPO GAY DA BAHIA.<em> Mortes violentas de LGBT no Brasil em 2024. </em>Acesso em 01 dez de 2025.Disponível em:&nbsp;<a href="https://grupogaydabahia.com.br/mortes-violentas-de-lgbt-no-brasil-2024/">https://grupogaydabahia.com.br/mortes-violentas-de-lgbt-no-brasil-2024/</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, Carl G. <em>A prática da psicoterapia</em>/ O.C. 16/1<em>. </em>Petropólis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Civilização em Transição/ </em>O. C. 10/3<em>. </em>Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>______ </strong><em>A vida simbólica: escritos diversos/ </em>O.C 18/1<em>. </em>Petrópolis: Vozes, 2015a</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>______ </strong><em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo </em>O.C 9/1<em>. </em>Petrópolis: Vozes, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">KAST, Verena. Abandonar o papel de vítima: viva a sua própria vida. Petrópolis: Vozes, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MAIHIOT, G. B. <em>Dinâmica e gênese dos grupos:</em>&nbsp; Atualidade das descobertas de Kurt Lewin. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PERERA, Sylvia Brinton. O complexo de bode expiatório, Rumo a uma Mitologia da Sombra e da Culpa. São Paulo: Cultrix, 1991.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ROUGHGARDEN, Joan. <em>Evolução do Gênero e da Sexualidade</em>. Tradução: Maria Edna Tenório Nunes. Londrina: Editora Planta, 2004.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SOAVE JUNIOR. M. A. A<em> arteterapia como ferramenta para o enfrentamento dos efeitos do estresse de minoria em pessoas LGBTQIA+</em>. Monografia de Formação de Membro Analista do IJEP. Brasília, 2024. Disponível em <a href="https://www.ijep.com.br/biblioteca-ijep/a-arteterapia-como-ferramenta-para-o-enfrentamento-dos-efeitos-do-estresse-de-minoria-em-pessoas-lgbtqia">https://www.ijep.com.br/biblioteca-ijep/a-arteterapia-como-ferramenta-para-o-enfrentamento-dos-efeitos-do-estresse-de-minoria-em-pessoas-lgbtqia</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">SOUZA et al. Desfechos negativos em saúde mental de minorias de sexo e de gênero: uma análise comportamental a partir da teoria do estresse de minorias. <em>Revista Perspectivas</em>. Ed. Especial: Estresse de Minorias pp.069-085. 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa &#8211; IJEP</strong>: Matrículas abertas &#8211; <a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><a href="http://www.ijep.com.br"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="819" height="1024" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-1-819x1024.png" alt="" class="wp-image-11969" style="aspect-ratio:0.7998077385243931;width:485px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-1-819x1024.png 819w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-1-240x300.png 240w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-1-768x960.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-1-150x188.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-1-450x563.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-1.png 1080w" sizes="(max-width: 819px) 100vw, 819px" /></a></figure>
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			</item>
		<item>
		<title>A carga do bode expiatório na dinâmica do complexo familiar</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-carga-do-bode-expiatorio-na-dinamica-do-complexo-familiar/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Tania Pulier Garrido]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 11 Nov 2023 09:49:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Contos de Fada]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[bode expiatório]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
		<category><![CDATA[Simbolismo]]></category>
		<category><![CDATA[sombra coletiva]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A carga do bode expiatório na dinâmica do complexo familiar trata do complexo do bode expiatório em seu surgimento e vivência na família, a partir do conto “A princesa determinada” e dos ensinamentos de Sylvia Perera em sua obra sobre esse complexo. O objetivo é perceber as características da vivência atual e que elementos de transformação são oferecidos pelo resgate simbólico do ritual hebraico do bode expiatório, na inspiração do conto e das considerações teóricas da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-carga-do-bode-expiatorio-na-dinamica-do-complexo-familiar/">A carga do bode expiatório na dinâmica do complexo familiar</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>O presente artigo trata do complexo do bode expiatório em seu surgimento e vivência no dinamismo familiar, a partir do conto “A princesa determinada”.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Muito se usa em nossos dias a expressão “<strong>bode expiatório</strong>” para se referir às pessoas ou grupos sociais sobre os quais se joga uma carga de acusações e responsabilização. Como se fossem eles os “errados”, “feios”, “perigosos”, “estranhos”, enfim, os culpados por tudo o que se considera inaceitável no código moral e de comportamento daquele grupo. E até sobre outros males, como doenças ou calamidades. Normalmente, as ditas “minorias” recebem essas acusações.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Toma-se como base os ensinamentos de <strong>Sylvia Perera</strong> em sua obra sobre esse complexo, comparando o significado originário do ritual hebraico do bode expiatório e mesmo elementos anteriores com a forma como o complexo é vivido na atualidade, desconectados que estamos da fonte transpessoal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O objetivo é perceber as características da vivência atual e que elementos de transformação são oferecidos pelo resgate simbólico do ritual, a partir da inspiração do conto e das considerações teóricas da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, curativos para a dor de quem vive tomado por esse complexo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-que-faz-alguem-ser-tomado-pelo-complexo-do-bode-expiatorio-e-que-ele-recebe-e-aceita-a-carga">O que faz alguém ser tomado pelo complexo do bode expiatório é que ele recebe e aceita a carga. </h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Complexo, segundo Jung (2018, §201), é “a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional [&#8230;], dotada de poderosa coerência interior”, com totalidade e grau de autonomia elevado, como se fosse um corpo estranho com vida própria, incompatível com a atitude habitual da consciência.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">O indivíduo até pode ser – e neste caso busca ser – bem-sucedido e corresponder ao máximo à moral vigente, mas a constelação do complexo sempre o fará se sentir uma fraude, inadequado e indigno, e a rejeição que sofre de fato confirmará esse autodesprezo e o colocará num círculo vicioso do qual é difícil sair.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-decadente-rei-acusador-e-os-exilados"><strong>O decadente rei acusador e os exilados</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O conto “<strong>A princesa determinada</strong>” narra a estória de uma filha que se negou a concordar que a vontade do pai determinasse o seu destino e, exilada no deserto após anos na prisão, construiu a própria vida e o próprio reino, diferente, no qual outros “desencaixados” tinham lugar. Do rei era dito que: “acreditava na autoridade de tudo aquilo que lhe fora ensinado e de tudo aquilo que ele considerava correto” e que se tratava de “um homem justo, sob muitos aspectos, porém de ideias limitadas” (Perera, 2022, p. 160). Quando colocou a terceira filha na pequena cela, ao passo que ele e as outras duas, as obedientes, desfrutavam das riquezas, o povo do país pensou ter feito ela algo muito grave, pois ninguém jamais havia contestado a autoridade do rei. Este mesmo, a princípio, achava que a prisão mostrava ser a sua vontade soberana.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-entanto-com-o-passar-dos-anos-sem-que-a-princesa-voltasse-atras-considerou-que-a-presenca-dela-enfraquecia-a-sua-autoridade-e-foi-ai-que-resolveu-bani-la-para-o-deserto" style="font-size:16px">No entanto, com o passar dos anos sem que a princesa voltasse atrás, considerou que a presença dela enfraquecia a sua autoridade e foi aí que resolveu bani-la para o deserto.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Lá ela conseguiu ordenar a sua vida e descobriu que os elementos contribuíam para o todo, sem obedecer às ordens do rei. A princesa exilada casou-se com um viajante de posses e juntos construíram no deserto “uma imensa e próspera cidade em que sua sabedoria, seus recursos e sua fé eram expressos da maneira mais completa” (Perera, 2022, p. 161).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ali se harmonizaram os “estranhos” e outros banidos, todos contribuindo de forma útil, a ponto de a cidade tornar-se mais poderosa e bela que o reino do pai da princesa. Ela e o marido foram eleitos os monarcas, por escolha dos habitantes. O rei resolveu conhecer aquele lugar que adquiriu tanta fama e era habitado por “aqueles aos quais ele e seus afins haviam desprezado.” Surpreendeu-se ao erguer os olhos aos monarcas, de cujo trono se aproximou com a cabeça curvada, e escutou estas palavras murmuradas por sua filha: “<strong>Vê, meu pai, como cada homem e mulher tem seu próprio destino e sua própria escolha</strong>.” (Perera, 2022, p. 162)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-um-primeiro-olhar-a-esse-conto-leva-a-identificar-os-estranhos-banidos-ao-deserto-pelo-aspecto-dominante-e-figura-parental-como-os-bodes-expiatorios-daquele-reino" style="font-size:18px">Um primeiro olhar a esse conto leva a identificar os “estranhos”, banidos ao deserto pelo aspecto dominante e figura parental, como os bodes expiatórios daquele reino.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Afinal, este termo é usado atualmente para indicar indivíduos ou grupos tidos como os causadores de infortúnios. Indivíduos que carregam a <strong>sombra coletiva</strong>, e cuja acusação alivia os acusadores de sua responsabilidade e lhes fortalece o poder. No sacrifício hebreu do bode expiatório, que veremos adiante, existem dois bodes. Um bode sacrificado, oferecido ao Senhor, que redime e purifica. E outro bode expulso ao deserto, dedicado a Azazel (antes um deus ctônico, tornou-se o anjo decaído para os hebreus) que carrega os males e remove a culpa.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-dois-tracos-sao-entao-a-vitima-e-o-perseguidor-demoniaco-o-acusador">Os dois traços são, então, a vítima e o perseguidor demoníaco, o acusador.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">“<strong>O acusador do bode expiatório é experimentado como uma moral elevada, mas ultrassimplificada, que representa virtudes coletivas e, portanto, opõe-se à vida instintiva</strong>” (Perera, 2022, p. 27), manifestado no conto na figura do rei. Aquele que deveria ser o regente, o centro diretor de uma totalidade equilibrada, em cujo reino cada elemento contribui de forma funcional e harmônica para o conjunto, está unilateralizado. Abusando do poder e da sua própria vontade. É um rei decadente, portanto, cujo papel está deturpado. A aparente prosperidade do seu reino tem os dias contados. Isto porque o governante não é alguém de visão, mas de ideias limitadas. Que encarcera e bane o princípio feminino, representado pela princesa.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-nao-se-submeter-ela-denuncia-a-deficiencia-do-pai-e-o-enfraquece">Ao não se submeter, ela denuncia a deficiência do pai e o enfraquece.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Foi de cabeça curvada que, por fim, o rei precisou se aproximar daqueles “cuja reputação de justiça, prosperidade e compreensão ultrapassava em muito a sua” (Perera, p. 162), governantes dos desprezados e banidos por ele, com os quais foi construído “um estranho e misterioso lugar que florescera num deserto” e cujo poder e beleza sobrepunham o seu reino (Ibid., p. 161).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim como este rei, as pessoas tomadas pelo complexo do bode expiatório tornam-se limitadas, unilateralizadas e de ideias fixas. Visto que <strong>não conseguem se conectar ao Self</strong> (aquele que é ao mesmo tempo centro e totalidade psíquica), e a ele servir. Não conseguem viver o processo de ir se tornando quem realmente são. Permanecem presas ao papel coletivo e projetam neste coletivo sua direção, de modo que que não são capazes de “encontrar sua própria autoridade interior ou a integridade de sua consciência individual” (Ibid., p. 20).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto, os bodes expiatórios são, ao mesmo tempo, o rei e os exilados antes de escolherem serem regidos pela princesa (pelo feminino expulso que carrega os valores do material rejeitado). Para aprofundar um pouco mais essa questão, vamos falar do sacrifício hebreu do bode expiatório e de seus traços na atualidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-bode-expiatorio-e-a-manifestacao-atual-no-complexo"><strong>O bode expiatório e a manifestação atual no complexo</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Em várias culturas antigas havia cerimônias de reconciliação, expiação do mal e expulsão dos males (ou elementos tidos como estranhos), transferindo-os para animais, plantas ou objetos, como canal de “renovação do contato com o espírito que rege o povo” (ibid., p. 13). Na cultura hebraica, o <strong>sacrifício do bode expiatório</strong> era parte do ritual do <strong>Yom Kippur</strong>, o Dia do Perdão, ligado a um aspecto de confissão do pecado e expiação da culpa e parte das festividades do Ano Novo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O sacerdote fazia um ritual preliminar, resgatando a si mesmo e à sua família, o que o diferenciava da posição comum. Procedia, então, servindo a Deus em prol da comunidade, à distinção e oferenda dos bodes. <strong>Um deles era oferecido ao Senhor pelos pecados e sacrificado</strong>. Seu sangue purificava e sacralizava o santuário, o tabernáculo e o altar, aplacando o Deus irado e expiando Israel de suas transgressões e pecados. “<em>Representa a libido que é dedicada e liberada, por meio do sacrifício, para expiar o pecado e aplacar o Deus ultrajado</em>” (Ibid., p. 22). Os restos eram considerados impuros e cremados do lado de fora do acampamento. <strong>O outro bode</strong>, dedicado a <strong>Azazel</strong>, era retirado vivo do acampamento e mandado para o deserto. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Antes, o sumo sacerdote, com as mãos sobre a cabeça do animal, confessava e depositava nele todas as faltas e transgressões dos filhos de Israel. “<em>O errante bode exilado remove a nódoa da culpa. Enquanto portador do pecado, ele carrega os males confessados sobre sua cabeça para longe do espaço da consciência coletiva</em>” (Ibid., p. 22). <strong>Segundo Perera, é a libido ligada às necessidades instintivas ameaçadoras, aos impulsos descontrolados, sobretudo na sexualidade, agressão, cobiça e rebeldia</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sylvia-considera-que-atualmente-existe-uma-distorcao-patologica-da-estrutura-arquetipica-do-ritual-hebraico-na-psique-dos-individuos-identificados-com-o-complexo-do-bode-expiatorio-2022-p-23" style="font-size:18px">Sylvia considera que atualmente existe uma “<em>distorção patológica da estrutura arquetípica do ritual hebraico</em>” na psique dos indivíduos identificados com o complexo do bode expiatório (2022, p. 23).</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Primeiro pela “perda de conexão consciente com a matriz sagrada de onde provém o fluxo curativo e renovador”; segundo, pela “mudança radical na concepção de Azazel”. Ele, que era um deus-bode dos pastores pré-hebraicos, mesmo com o Deus único de Israel, não se tornou o opositor do Senhor, mas um estágio na repressão dessa divindade anterior, ligada também ao feminino e às <strong>religiões naturais</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os últimos patriarcas consideravam que ele levava as mulheres ao pecado (sensualidade) e os homens à guerra, relacionando-se, portanto, aos <strong>instintos eróticos e agressivos</strong>. <strong>Ao enviar os pecados a Azazel, remetia-se a libido à sua fonte transpessoal, reconhecendo que nenhum portador humano era capaz de carregá-los</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Progressivamente, Azazel passou a carregar o exagero defensivo da reação do Senhor contra o mundo do feminino e dos deuses pré-hebraicos. Foi transformado de deus em demônio, com o qual o “bom Deus” tem uma ruptura profunda. Tornou-se semelhante a Satã, o acusador do homem, que representa a Justiça divina dissociada de Sua Piedade (cf. Ibid., p. 26).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Azazel passou a ocupar, psicologicamente, o lugar do juiz arrogantemente puro, condenador e hipercrítico. Aquele que mantém o homem preso a um padrão de comportamento impossível de ser alcançado, pois as forças instintivas irrompem em sua frágil disciplina. É um padrão que não leva em conta os fatos da vida e o envolvimento do homem pela natureza (Ibid., p. 26).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nos-tempos-atuais-perdeu-se-a-conexao-com-o-transpessoal">Nos tempos atuais, perdeu-se a conexão com o transpessoal</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nos tempos atuais, perdeu-se a conexão com o transpessoal. Joga-se sobre uma pessoa o peso de um coletivo rejeitado, e ela o assume, sentindo-se forte para carregá-lo, apesar de não o ser; a libido aqui “foi simplesmente confinada, dispersada ou escondida, em vez de sacralizada” (Ibid., p. 28).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Os julgamentos morais da mãe ou do pai, que apontam para “como as coisas deveriam ser e não como elas são” (Ibid., p. 26), dão origem à rejeição do indivíduo na família, que constela o acusador, Azazel.</strong> “Os pais, ou outros, que escolhem um bode expiatório nessa forma moderna e inconsciente, são também, obviamente, vítimas do mesmo complexo” (Ibid., p. 43), assim como o rei do conto. </p>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-default" style="font-size:16px"><blockquote><p><em>“Descobrimos a nossa ‘alteridade’ em ‘outrem’, ou melhor, descobrimos outra pessoa que pensa, age, sente e deseja tudo aquilo que condenamos e desprezamos. Achamos o nosso bode expiatório e, satisfeitos, iniciamos o combate a ele”, ignorantes de que o “terrível adversário” é o “outro” que habita o próprio seio. <strong>Os que assim projetam parecem mais com o aspecto acusador, com seu modelo rígido e sua persona de boas maneiras, dependente da aprovação coletiva</strong>. Onde há uma lacuna, onde falta o verdadeiro saber, ainda hoje o espaço é preenchido com projeções. <strong>Continuamos quase certos de saber o que os outros pensam ou qual é o seu verdadeiro caráter.</strong><br><br><strong>Estamos convencidos de que certas pessoas possuem todos os defeitos que não encontramos em nós mesmos, ou de que se entregam a todos os vícios que naturalmente nunca seriam os nossos</strong>. <strong>Devemos ter o máximo cuidado para não projetar despudoradamente nossa própria sombra, pois ainda hoje nos encontramos como que inundados de ilusões projetadas</strong>. [&#8230;] Como poderá ver claramente, quem não se vê a si mesmo, nem às obscuridades que inconscientemente impregnam todas as suas ações?&#8221;(JUNG, 2020c, §140; 220b, §43)</em></p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Os indivíduos tomados pelo complexo do bode expiatório, inconscientemente, vêm em socorro dessa fragilidade dos pais e da família, da incapacidade de carregar a própria sombra, e carregam toda ela. Identificam-se tanto com a vítima como com o acusador, desqualificando atitudes do outro que não correspondem ao ideal de moral, mas sobretudo aceitando a rejeição e rejeitando-se a si mesmos como uma punição à própria existência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A consciência luta por corresponder aos imperativos coletivos e “ignora suas necessidades pessoais – exceto as necessidades de ser correto, de vencer ou de ser bem-sucedido, a fim de se encaixar; a fim de pertencer” (PERERA, 2022, p. 27). Carecem, assim, de uma identidade, vivendo mais nos papéis de adaptação assumidos, chamados por Jung de <strong>personas</strong>.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p><em>“Na verdade, o ego portador da sombra, alienado e errante, anseia de tal modo por ser aceito pelo coletivo que acaba adotando qualquer persona” (PERERA, 2022, p. 32).</em></p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-perderam-a-si-mesmos">Perderam a si mesmos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O próprio ego está enfraquecido, haja vista que sequer foi bem estruturado. Ego este que normalmente carrega a <strong>sombra familiar</strong>, coletiva e projetada, desde a sua formação na infância. Passam da vítima ao (auto)acusador o tempo todo; o tudo que assumem torna-se nada por ser abstrato, pois na verdade não vivem a responsabilidade pessoal – a sua parte. <strong>Parecem crianças, presos no estado infantil da participação mística, identificados com o inconsciente dos pais e sem conseguir distinguir o que é seu e o que é do outro</strong> (Cf. JUNG, 2020a, §83).</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p><em>“Sentem-se portadores de comportamentos e atitudes vergonhosamente perniciosos e que rompem relações – que perturbam a figura parental” (PERERA, 2022, p. 19).</em></p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Identifica-se com o que é tachado de “ruim”, “errado”, “feio”, uma vez que foi <strong>estigmatizado negativamente em seu próprio lar</strong> (mesmo nos casos em que a não adequação às normas vigentes tenha ocorrido por razões positivas).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-fardo-que-essas-pessoas-carregam-inclui-uma-ansiedade-profunda-existencial-pela-falta-de-conexao-com-o-todo-maior-e-sentimento-de-culpa">O fardo que essas pessoas carregam inclui uma <strong>ansiedade</strong> profunda, existencial, pela falta de conexão com o todo maior e <strong>sentimento de culpa</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Jung define este fardo como como a emoção experimentada quando nos desviamos da totalidade e nos afastamos do Self (centro regulador da psique, agravado pelo fato de que nos sentimos inaceitáveis para nós mesmos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O conto “A princesa determinada” não fala como viviam no deserto os expulsos do reino, apenas que ele se transformou com a chegada dela, que encontrou positividade ali. Será que eles não viam isso? Segundo Perera, os identificados com o bode expiatório vivem de tal forma presos ao seu exílio e ansiando retornar ao mesmo coletivo do qual foram banidos, que não veem valor nos elementos rejeitados (p. 133).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Seu exílio é marcado por um medo profundo de qualquer vínculo. O que é paradoxal com a intensa sede que experimentam “de ligação com o Outro, tanto em nível pessoal como em nível transpessoal, e mesmo por um apetite palpável pelo divino” (p. 36). Precisam de ajuda para se reconectar com a fonte, já que a conexão foi perdida há tantas gerações, e para viver relacionamentos autênticos e mútuos, nos quais<strong> recebam e se entreguem de verdade. Que caminho a princesa fez para conseguir isso</strong>?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-redencao-pelo-feminino"><strong>Redenção pelo feminino</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">No conto, a princesa foi presa pelo pai (o aspecto acusador do complexo do bode expiatório) porque se recusou a concordar que a vontade dele determinasse o seu destino. Existe algo em todo indivíduo que não se rende, e esse algo costuma estar ligado ao desejo, à sensibilidade, à sensualidade, enfim, ao princípio feminino. Provavelmente está preso por muito tempo, justamente porque não se rende à adaptação ao coletivo ao qual o indivíduo tomado pelo complexo se força. E, por isso mesmo, é visto por ele como rebelde e inferior, como aquilo cuja presença o enfraquece. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Contudo, é o que manteve a integridade para que não se esfacelasse totalmente, e cuja pressão pode ajudá-lo a dar um basta à sua situação, o início da transformação. A partir daí vem uma descida ao desconhecido mundo interior, representado pelo deserto, encarando a raiva, a solidão, o medo, o que supõe um sofrimento que pode se estender, mas que agora é o próprio.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-raiva-aqui-pode-ser-uma-manifestacao-do-self-que-defende-a-integridade-do-ego">A raiva aqui pode ser uma manifestação do Self, que defende a integridade do ego.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Neste deserto, a pessoa vai descobrir e encarar a si mesma, o que tem de limitações e riquezas, e com essas forças começar a construir a própria vida e a ter voz para expressar a individualidade (Cf. Ibid., p. 126). No deserto, primeiro a princesa se viu perdida numa terra inóspita, mas depois começou a encontrar ali o que precisava para viver, e até abrigo, calor e delícias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela assumiu suas necessidades e desejos, descobrindo que a satisfação não dependia do pai. Corresponde ao que Perera ensina de o ego, no processo de cura, dever “tornar-se ativo e responsável, até mesmo heroico, na busca de suprir suas carências” (2022, p. 105). <strong>Agindo com liberdade, iniciativa e responsabilidade é que pode se libertar do domínio acusador de Azazel</strong>, que se dá não imediatamente quando sai de casa, mas quando descobre um jeito de viver <strong>independente das ordens do pai</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-a-toa-o-titulo-do-conto-traz-a-principal-caracteristica-da-princesa-fundamental-para-essa-libertacao-determinada">Não à toa o título do conto traz a principal característica da princesa, fundamental para essa libertação: <strong>determinada</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Se alguém aguardava pelo resgate, ela não. Na prisão, manteve as próprias convicções e, assim, a integridade. No deserto, encontrou uma forma de viver, usou de modo criativo os recursos que tinha, valorizando-os (a gruta que servia de moradia, as nozes e frutos, o calor do Sol) e com eles ordenando a própria vida. E, após conhecer e se unir ao parceiro e viver um tempo em seu reino (a importância da integração profunda e vivenciada dos princípios feminino e masculino em si), construíram juntos um reino. Mas não sozinhos. Todo esse movimento que ela, como exilada, fez, convocou os demais. Ajudando-os a se abrirem e se conectarem, com humor e alegria, com leveza, que se contrapõe ao pesado fardo que carregavam. <strong>Quando os canais criativos se abrem é sinal de que os grilhões do complexo foram afrouxados. </strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Encontrar esses canais criativos é necessário àqueles que estão identificados com energias demoníacas, como os indivíduos portadores do estigma do bode expiatório. A forma criativa proporciona um receptáculo para acolher e dominar essas energias. (Ibid., p. 41)</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que era aquela comunidade, construída no deserto, senão uma totalidade em que cada elemento tem seu lugar e pode se harmonizar, de forma completa e útil, a uma vida multiforme, bem como pode escolher por quem ser regido? <strong>Esse contexto supõe uma abertura ao Self e suas mensagens. </strong>O que é essencial para o processo transformador do indivíduo que está tomado pelo complexo do bode expiatório.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-proprio-rei-o-pai-tao-obstinado-precisou-chegar-a-esse-lugar">O próprio rei, o pai, tão obstinado, precisou chegar a esse lugar.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Este rei, inclusive, só pode se aproximar do trono com novas atitudes: curvar a cabeça, achegar-se lentamente, erguer os olhos aos soberanos que não eram ele, reconhecer o que lhe ultrapassava e finalmente escutar palavras murmuradas pelo feminino &#8211; justo o que considerava rebelde e seu ponto fraco.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A transformação de alguém tomado pelo complexo do bode expiatório, como toda mudança profunda, não é fácil nem rápida. </strong>Todavia, esta transformação<strong> corresponde ao anseio de harmonizar e libertar a vida, ao qual o conto dá esperança</strong>. Sendo que, certamente, o acompanhamento psicoterapêutico contribui grandemente com esse processo.</p>



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<iframe title="Artigo Novo: &quot;A carga do bode expiatório na dinâmica do complexo familiar&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/IxoyXbwIjsw?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
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<p class="has-regular-font-size wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/tania-pulier/">Tania Pulier — Analista em formação/IJEP</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/lilian/">Lilian Wurzba — Analista Didata/IJEP</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>A natureza da psique</em>. Vol. 8/2. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph">___. <em>O desenvolvimento da personalidade</em>. Vol. 17. 14.ed. Petrópolis: Vozes, 2020a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">___. <em>Psicologia do inconsciente</em>. Vol. 7/1. 24.ed. Petrópolis: Vozes, 2020b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">___. <em>Psicologia e religião</em>. Vol. 11/1. 11.ed. Petrópolis: Vozes, 2020c.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PERERA, Sylvia Brinton. <em>O complexo do bode expiatório</em>: um estudo sobre a mitologia da sombra e da culpa. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2022. Edição do Kindle.</p>



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