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	<title>Arquivos Brasil - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Mon, 15 Jun 2026 16:31:19 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos Brasil - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Aspectos psicológicos da relação com a aridez em tempos de emergência climática</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/aspectos-psicologicos-da-relacao-com-a-aridez-em-tempos-de-emergencia-climatica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gabriela Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 10 Jun 2026 18:59:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p> Este artigo busca analisar os elos entre os acontecimentos ligados à crise hídrica em tempos de emergência climática e a experiência tão humana e profunda de aridez e sede, aprofundando os paradigmas do combate à seca e da convivência com o Semiárido na psique individual e coletiva, à luz das reflexões da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<h2 id="h-resumo-este-artigo-busca-analisar-os-elos-entre-os-acontecimentos-ligados-a-crise-hidrica-em-tempos-de-emergencia-climatica-e-a-experiencia-tao-humana-e-profunda-de-aridez-e-sede-aprofundando-os-paradigmas-do-combate-a-seca-e-da-convivencia-com-o-semiarido-na-psique-individual-e-coletiva-a-luz-das-reflexoes-da-psicologia-analitica-de-carl-gustav-jung" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><strong>Resumo</strong>: Este artigo busca analisar os elos entre os acontecimentos ligados à crise hídrica em tempos de emergência climática e a experiência tão humana e profunda de aridez e sede, aprofundando os paradigmas do combate à seca e da convivência com o Semiárido na psique individual e coletiva, à luz das reflexões da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-a-aridez-e-um-dos-simbolos-fortes-que-atravessam-o-humano-em-varios-contextos-e-epocas-historicas-e-retorna-vivamente-hoje-diante-da-crise-climatica-em-que-a-propria-onu-declarou-este-ano-ter-o-mundo-entrado-em-uma-falencia-global-de-agua-imagens-de-uma-terra-rachada-sem-vegetacao-da-vida-ameacada-evocam-a-experiencia-da-sede-tao-desesperadora-quanto-profunda-pois-alem-da-literal-quanta-sede-se-vive-interiormente-voce-tem-sede-de-que-canta-o-titas" style="font-size:16px">A aridez é um dos símbolos fortes que atravessam o humano em vários contextos e épocas históricas e retorna vivamente hoje diante da crise climática, em que a própria ONU declarou este ano ter o mundo entrado em uma falência global de água. Imagens de uma terra rachada, sem vegetação, da vida ameaçada evocam a experiência da sede, tão desesperadora quanto profunda, pois, além da literal, quanta sede se vive interiormente. “<strong>Você tem sede de quê</strong>?”, canta o Titãs.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E tantos outros artistas da música, cinema, poesia e vários místicos ao longo da História falaram de formas diferentes da sede e da aridez ou do deserto. “Minha alma tem sede de ti; minha carne desfalece por ti, em uma terra ressequida, esgotada, sem água”, canta o salmista (Sl 63,1).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em 2009 e 2010, vivi em Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, Semiárido mineiro, trabalhando como comunicadora popular em um projeto da Articulação no Semiárido (ASA-Brasil) de captação de água de chuva para a agricultura familiar, voltado para famílias rurais que já possuíam a primeira cisterna, de água de beber. </p>



<p class="wp-block-paragraph">É impossível resumir toda a rica experiência de viver e trabalhar com famílias de vários municípios da região e participar desta articulação da sociedade civil que fazia tantas conquistas em muitos setores ao redor da água, como agroecologia, educação no campo, questões de gênero e outras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mais importante era a mudança de paradigma, do combate à seca, que tanto enriqueceu latifundiários a partir da manutenção e espetacularização da miséria, para a convivência com o Semiárido, que mostrava a possibilidade de vida digna e abundante na especificidade daquela região.</p>



<h2 id="h-hoje-como-psicoterapeuta-vejo-no-proprio-processo-e-em-tantos-que-ja-acompanhei-a-presenca-tambem-dos-dois-paradigmas" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Hoje, como <strong>psicoterapeuta</strong>, vejo no próprio processo e em tantos que já acompanhei a presença também dos dois paradigmas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A princípio, o combate a tudo o que não corresponde ao padrão dominante na consciência. Ao longo do processo, o convite — às vezes aceito — ao aprendizado da convivência entre os vários que nos habitam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diante de tudo isso, o objetivo deste artigo é aprofundar os paradigmas do combate à seca e da convivência com o Semiárido na psique individual e coletiva, à luz das reflexões da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung. Buscar-se-á perceber os elos entre os acontecimentos ligados à crise hídrica em tempos de emergência climática e as experiências de aridez, sede, provações, também com os caminhos de combate e convivência que se apresentam diante delas.</p>



<h2 id="h-do-combate-a-seca-a-convivencia-com-o-semiarido-territorial" class="wp-block-heading" style="font-size:18px"><strong>Do combate à seca à convivência com o Semiárido territorial</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">As terras áridas e semiáridas ocupam mais de um terço (41%) da superfície do planeta, presentes em todos os continentes. Sua principal característica é a baixa precipitação — chove entre 80 e 250 mm por ano —, com a forte presença dos desertos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Semiárido brasileiro, por sua vez, é o mais chuvoso do mundo, com um volume entre 200 e 800 mm anuais. Envolve cerca de 15% do território nacional, compreendendo a maior parte dos Estados do Nordeste, o Norte de Minas Gerais e Vale do Jequitinhonha e o norte do Espírito Santo. Tem dois biomas principais, o Cerrado e a Caatinga, que recebem influência e umidade de biomas vizinhos, daí sua peculiaridade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se o processo de desertização é natural e ocorre de forma lenta e gradativa, o que se discute cada vez mais é a questão da desertificação, uma das grandes ameaças nas mudanças climáticas e fruto da ação humana desordenada. Culmina com a degradação dos solos, dos recursos hídricos, da vegetação e da biodiversidade, reduzindo a qualidade de vida das populações afetadas.</p>



<h2 id="h-o-brasil-viveu-algumas-grandes-secas-ao-longo-de-sua-historia-incrivel-pensar-que-a-mais-severa-de-todas-foi-a-de-2024-sera-que-estamos-atentos-a-isso" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">O Brasil viveu algumas grandes secas ao longo de sua história (incrível pensar que a mais severa de todas foi a de 2024! Será que estamos atentos a isso?).</h2>



<p class="wp-block-paragraph">No geral, sobretudo até o final do século XX, os governos se acostumaram a fazer grandes obras, como açudes e represas, muitas vezes superfaturadas, passando pelas terras de fazendeiros, enquanto a maioria da população dependia de caminhões-pipa e cestas básicas, mantenedores da dependência social e política e geradores de votos. Muitos migravam para as grandes cidades, gerando a ocupação desordenada que até hoje faz vítimas nos desabamentos e enchentes com as chuvas fortes e concentradas.</p>



<h2 id="h-lembro-me-de-crianca-das-imagens-no-noticiario-das-secas-no-nordeste-as-filas-para-conseguir-um-balde-de-agua-os-caminhoes-paus-de-arara-levando-as-familias-dos-migrantes" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Lembro-me de criança das imagens no noticiário das secas no Nordeste, as filas para conseguir um balde de água, os caminhões paus-de-arara levando as famílias dos migrantes&#8230;</h2>



<p class="wp-block-paragraph">E, no Ensino Fundamental, muito me impressionou um livrinho com o título <em>Indústria da seca</em>! Foi a primeira vez que tive contato com este termo cunhado na década de 1960 pelo jornalista Antônio Callado, que mostrou como a seca estava longe de ser mero fenômeno climático, mas era socialmente construída e manipulada para servir aos interesses da elite regional.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No início da década de 1990, ocorreu um processo de mobilização e fortalecimento da sociedade civil, cujo marco foi a ocupação da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). Em 1993, com o objetivo de pautar a convivência com o Semiárido em contraposição à política governamental vigente na época. Em 1999, paralelamente à 3ª Conferência das Partes da Convenção de Combate à Desertificação e à Seca (COP3) da Organização das Nações Unidas (ONU), realizada no Recife (PE), organizações da sociedade civil lançaram a Declaração do Semiárido Brasileiro, marco de fundação da Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA).</p>



<h2 id="h-a-declaracao-afirma-a-viabilidade-do-semiarido-uma-regiao-com-grande-riqueza-natural-e-cultural-e-muitas-possibilidades-com-a-qual-familias-desenvolveram-maneiras-criativas-de-conviver-e-lidar" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">A Declaração afirma a viabilidade do Semiárido, uma região com grande riqueza natural e cultural e muitas possibilidades, com a qual famílias desenvolveram maneiras criativas de conviver e lidar.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A grande diversidade desse território precisa ser levada em consideração nos projetos; grandes soluções uniformes, além de onerosas e de alto risco ambiental e social, não funcionam para a maioria dispersa ao longo desse local.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As propostas da articulação, baseadas nas premissas de conservação, uso sustentável e recomposição ambiental dos recursos naturais e da quebra do monopólio de acesso à terra, água e outros meios de produção, envolvem, entre outros pontos, o fortalecimento da agricultura familiar; o uso de tecnologias e metodologias adaptadas à região e à população; à universalização do acesso à água para beber e cozinhar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como o eixo principal do meu trabalho era a compilação em boletins e programas de rádio das experiências de famílias agricultoras na convivência com o Semiárido, pude sentir o orgulho pelos bancos de sementes crioulas (nativas), as técnicas que empregavam para o manejo da água, como os canteiros econômicos, os intercâmbios de aprendizado visitando a terra uma da outra, a mudança gradativa de olhar para questões complexas como a das mulheres. Ouvi algumas histórias inclusive de retorno ao campo após migração para os grandes centros e conheci a riqueza do trabalho com o barro das artesãs e os vários corais da região.</p>



<h2 id="h-em-suma-o-combate-a-seca-esta-ligado-ao-paradigma-moderno-mecanicista-e-economicista-em-uma-visao-individualista-de-viver-melhor-cuja-busca-e-infinita-e-passa-por-cima-de-tudo-e-de-todos-pelos-proprios-interesses-trazendo-como-consequencia-ultima-a-extincao-do-planeta" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Em suma, o combate à seca está ligado ao paradigma moderno, mecanicista e economicista, em uma visão individualista de “viver melhor”, cuja busca é infinita e passa por cima de tudo e de todos pelos próprios interesses, trazendo como consequência última a extinção do planeta.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A convivência com o Semiárido representa um paradigma emergente baseado na sustentabilidade, segundo o qual a superação da insegurança alimentar não depende apenas de obras hídricas, mas de reforma estrutural, participação social, políticas públicas permanentes e mudança cultural. Sobretudo da transformação do olhar, do “viver melhor” para o “bem viver”, uma visão holística, indígena e coletiva, que busca harmonia permanente com o meio ambiente (Pacha Mama) e o bem comum, rejeitando o consumo desenfreado e o foco no indivíduo.</p>



<h2 id="h-do-combate-a-seca-a-convivencia-com-o-semi-arido-emocional" class="wp-block-heading" style="font-size:18px"><strong>Do combate à seca à convivência com o (semi)árido emocional</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Encontrar-se sedento em terra árida é uma experiência emocional profunda pela qual toda pessoa passa em momentos da vida. Difícil é assumir essa experiência, atravessá-la e aprender com ela, processo com o qual a psicoterapia contribui. Segundo Hollis (1999, p. 12), o objetivo da terapia “não é, portanto, remover o sofrimento, e sim passar através dele em direção a uma consciência ampliada capaz de sustentar a polaridade de opostos dolorosos” (grifos do autor).</p>



<h2 id="h-um-dos-principais-pares-de-opostos-e-limitacao-e-infinitude" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Um dos principais pares de opostos é limitação e infinitude.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Faz parte da angústia característica da condição humana, da porta estreita pela qual se tem que passar no dia a dia, o ter que fazer escolhas diante da infinidade de possibilidades. O que acontece é que cada vez mais recusamos ficar com a angústia, reconhecer a sede, conviver com a insatisfação, olhar simbolicamente para o vazio e a falta permanecendo tempo suficiente no atravessamento desta dor a ponto de perceber que ela se liga exatamente à sede de infinito que carregamos, que é, para Jung, critério decisivo da vida humana.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="line-height:1.3">
<p class="wp-block-paragraph"><em>Para o homem a questão decisiva é esta: você se refere ou não ao infinito? Tal é o critério de sua vida. Se sei que o ilimitado é essencial então não me deixo prender a futilidades e a coisas que não são fundamentais. [&#8230;] Quanto mais o homem acentua uma falsa posse, menos pode sentir o essencial e tanto mais insatisfatória lhe parecerá a vida (JUNG, 2016, p. 387-388).</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-o-doloroso-mas-realizador-processo-mencionado-vai-da-consciencia-da-limitacao-para-a-abertura-ao-infinito-ao-transcendente" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">O doloroso mas realizador processo mencionado vai da consciência da limitação para a abertura ao infinito, ao transcendente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Tomando consciência do que minha combinação pessoal comporta de unicidade, isto é, em definitivo, de limitação, abre-se para mim a possibilidade de conscientizar também o infinito” (Ibid., p. 388).</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta ampliação leva ao reconhecimento do que realmente importa, com o que “os desejos e atitudes se modificam. Finalmente, só valemos pelo essencial e se não acedemos a ele a vida foi desperdiçada”. (Ibid., p. 388) Para Hollis (op. cit., p. 12), trata-se de um amadurecimento psicológico e espiritual, voltado à descoberta do sentido e significado da vida, a necessidade mais profunda do ser humano moderno.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que geralmente ocorre, no entanto, são outras duas vias interligadas, oriundas da busca de segurança do ego infantil e dependente que foge para evitar a todo o custo o sofrimento, e o custo acaba sendo um sofrimento maior pela falta de sentido, pelo dispêndio de energia no combate constante aos “estados sombrios da alma”, ao fluxo e refluxo naturais da vida, na tensão constante por “nunca podermos abandonar o frenético desejo de sermos felizes e despreocupados” (Ibid., p. 14-15). Vejam aí o combate à seca!</p>



<p class="wp-block-paragraph">A primeira via é a identificação ilusória com o ilimitado, que se manifesta na busca do ter mais e poder mais, de posses e <em>status</em>, no consumismo desenfreado e ostentação, tão atuais. É a imagem do ser humano independente, autossuficiente, autodeterminado, cujo motor é “eu quero, eu posso, eu consigo”. Na segunda via, toca-se o vazio, a sede, mas não se suporta ficar um tempo aí até descobrir formas de conviver com a aridez. Foge-se buscando encher o buraco com coisas ou o tempo com afazeres.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essas vias são típicas do espírito da nossa época. Sobre ele, disse o <strong>Papa Francisco</strong> em sua Encíclica <em>Laudato Sí</em>, na qual justamente abordou o “cuidado da casa comum”:</p>



<h2 id="h-muitas-pessoas-experimentam-um-desequilibrio-profundo-que-as-impele-a-fazer-as-coisas-a-toda-a-velocidade-para-se-sentirem-ocupadas-numa-pressa-constante-que-por-sua-vez-as-leva-a-atropelar-tudo-o-que-tem-ao-seu-redor-n-225" class="wp-block-heading" style="font-size:16px"><em>“Muitas pessoas experimentam um desequilíbrio profundo, que as impele a fazer as coisas a toda a velocidade para se sentirem ocupadas, numa pressa constante que, por sua vez, as leva a atropelar tudo o que têm ao seu redor” (n. 225).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Aprofundando as consequências para o meio ambiente e os mais pobres, citou trecho de homilia de Bento XVI que conecta interno e externo: <em>“Os desertos exteriores multiplicam-se no mundo, porque os desertos interiores se tornaram tão amplos” (n. 217).</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">A desertificação, processo acelerado fruto da ação humana que visa apenas extrair a qualquer custo e de qualquer jeito, ocorre, portanto, tanto externa como internamente. Cada vez que se busca responder à própria inquietação lançando-se com a avidez gerada por ela apenas para fora, para coisas e afazeres, para o ter mais e (a)parecer mais, como se viu, aumenta-se a aridez, em uma sede infinita e destruidora. Ou, quando se foge do vazio buscando preenchê-lo, gera-se mais vazio. É um caminho de combate à seca que, do mesmo jeito que as grandes e onerosas represas, também busca o grande e custoso em apenas um lugar, nos valores dominantes da consciência, gerando ainda mais seca e vazio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na visão de Jung, além do espírito da época, porém, existe o espírito da profundeza, atemporal, que se manifesta no chamado da alma, que continua a gritar em tudo isso e apesar de tudo isso, nem que tenha que encontrar brechas apenas explodindo em sintomas nos indivíduos ou catástrofes no coletivo.</p>



<h2 id="h-jung-teve-a-coragem-de-trilhar-o-caminho-de-seguir-este-chamado-bem-elucidado-no-livro-vermelho-e-a-partir-da-propria-experiencia-gestou-a-psicologia-analitica" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Jung teve a coragem de trilhar o caminho de seguir este chamado, bem elucidado no <em>Livro Vermelho</em>, e a partir da própria experiência gestou a Psicologia Analítica.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:12px">
<p class="wp-block-paragraph"><em>Minha alma leva-me ao deserto, ao deserto de meu próprio si-mesmo. Não pensava que meu si-mesmo fosse um deserto, um deserto seco e quente, poeirento e sem bebida. [&#8230;] Isto é solidão, estar consigo mesmo? Solidão só quando o si-mesmo é um deserto. [&#8230;] Minha alma, o que devo fazer aqui? Mas a minha alma falou-me e disse: “Espera”. (JUNG, 2013, p. 128)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Neste processo dinâmico de espera ativa, “o papel adequado do ego é manter um relacionamento com o Eu e o mundo no qual existe o diálogo. O ego deve permanecer aberto, o mais consciente possível e disposto a negociar” (Hollis, <em>op. cit</em>., p. 15). Ele deve aprender a jornada da convivência com o deserto, o árido, ou com o semiárido — interno e externo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Afinal, o que chamamos de “eu” é apenas uma pequena parte de uma estrutura psíquica muito maior, formada de consciência e inconsciente, com suas várias figuras que não caberia aprofundar aqui, mas que acessamos cotidianamente em experiências das quais afirmamos: “Não parecia eu!”; “eu estava fora de mim!”; “a bruxa estava solta!” etc. A meta da vida humana para a Psicologia Analítica é o processo de individuação, que leva a se ir descobrindo e tornando-se quem se é pela integração dos opostos na multiplicidade de figuras que se manifestam na psique. Figuras com as quais, quando estamos unilateralizados, normalmente combatemos como inimigas, não aprendendo a lidar com elas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para aprender o caminho da convivência, é preciso não correr para as coisas assim que se experimentar a sede, não fugir da aridez migrando para as luzes da cidade e suas promessas; mas descobrir do que se tem sede de fato e cavar exatamente na terra seca e rachada, buscando um poço mais profundo e interior.</p>



<h2 id="h-como-fez-jung-que-ensina" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Como fez Jung, que ensina:</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Não te esqueças de esperar. Não viste como tua força criadora se voltou para o mundo [&#8230;]? Se tua força criadora se voltar agora para o lugar da alma, verás como tua alma vai reverdecer e como seu campo produzirá frutos maravilhosos. Ninguém pode furtar-se ao esperar, e a maioria não conseguirá suportar esse tormento, mas se lançarão outra vez com gula sobre as coisas, pessoas e pensamentos, cujos escravos se tornarão a partir desse momento. [&#8230;] Também aquele cuja alma é um jardim precisa das coisas, pessoas e pensamentos, mas ele é seu amigo e não seu escravo e bufão. (JUNG, 2013, p. 129)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Cavar o próprio poço até o manancial supõe abrir-se ao diálogo entre os vários que nos habitam, acolhendo as imagens do inconsciente que se manifestam em sonhos, sintomas e também nas relações, justamente naquelas situações das quais afirmamos: “Não parecia eu!” Perguntar que mensagem tudo isso traz, de onde quer me tirar, aonde me leva&#8230; É como valorizar as sementes nativas, cultivá-las, fazer canteiros econômicos, acolher um saber ancestral e descobrir formas criativas de conviver com o Semiárido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se interiormente é preciso diálogo, coletivamente parece que apenas o confronto das visões não leva a lugar algum além das polarizações da atualidade. Como é difícil sair do monoteísmo da consciência, parece utópico também pensar no diálogo entre os paradigmas, na busca de alguns consensos para a construção de caminhos possíveis.</p>



<h2 id="h-certo-e-que-a-terra-nao-aguenta-mais" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Certo é que a Terra não aguenta mais!</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Não é fácil sair dos “sambas de uma nota só”, das unilateralidades, mas o chamado do Self parece apontar nesta direção. Afinal, o Self é ao mesmo tempo centro e totalidade da vida psíquica. E o processo de individuação leva não a um fechamento em si, mas à abertura e comunhão cada vez maior com todos e com o Cosmos. E isso traz a verdadeira paz, o <em>shalom</em> hebraico, que significa harmonia das relações nas várias dimensões. Concluindo com o Papa Francisco:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:12px">
<p class="wp-block-paragraph"><em>A paz interior das pessoas tem muito a ver com o cuidado da ecologia e com o bem comum, porque, autenticamente vivida, reflete-se num equilibrado estilo de vida aliado com a capacidade de admiração que leva à profundidade da vida. (FRANCISCO, 2015, n. 225)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/tania-pulier/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/tania-pulier/">Tania Pulier — Membro Analista /IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/lilian/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/lilian/">Lilian Wurzba — Analista Didata/IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Vídeo de apresentação:</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📃Artigo novo: &quot;Aspectos psicológicos da relação com a aridez em tempos de emergência climática&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/t133CTNRn-E?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A BÍBLIA. Tradução ecumênica. São Paulo: Loyola; Paulinas, 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ASA – Articulação Semiárido Brasileiro. <em>Documentário Conviver</em>. Direção de Bruno Xavier, Roger Pires e Yargo Gurjão. 19 set. 2017. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=FnrHrCh4sJI. Acesso em: 26 abr. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FRANCISCO. Carta Encíclica <em>Laudato Si</em>&#8216;: sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Paulus, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HOLLIS, James. <em>Os pantanais da alma</em>: Nova vida em lugares sombrios. São Paulo: Paulus, 1999.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>O Livro Vermelho (</em>Liber Novus<em>)</em>. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______. <em>Memórias, sonhos e reflexões</em>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MAIOR seca da história do Brasil afeta 1.400 cidades no país. <em>Fantástico</em>, G1, 8 set. 2024. Disponível em: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2024/09/08/maior-seca-da-historia-do-brasil-afeta-1400-cidades-no-pais.ghtml. Acesso em: 26 abr. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NAÇÕES UNIDAS BRASIL. As terras áridas são importantes: por quê? <em>Notícia</em>, 16 ago. 2010. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/55696-terras-%C3%A1ridas-s%C3%A3o-importantes-por-que. Acesso em: 26 abr. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">UNU-INWEH. World enters “Era of Global Water Bankruptcy”: scientists formally define new post-crisis reality for billions. <em>News</em>, 20 jan. 2026. Disponível em: https://unu.edu/inweh/news/world-enters-era-of-global-water-bankruptcy. Acesso em: 26 abr. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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		<title>Sobre o simbolismo da bandeira do Brasil</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sobre-o-simbolismo-da-bandeira-do-brasil/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sebastien Baudry]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 29 Jun 2022 22:46:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Bandeira do Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[Simbolismo]]></category>
		<category><![CDATA[símbolo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Eu me lembro ainda como se fosse ontem quando, pela primeira vez, em 1995, fui à Brasília ver a torre da TV, a Esplanada dos Ministérios, a Catedral e o Congresso Nacional. Catedral aliás que é bem interessante e que talvez teria chamado à atenção de Jung, já que para chegar ao seu altar, para [...]</p>
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<p class="wp-block-paragraph">Eu me lembro ainda como se fosse ontem quando, pela primeira vez, em 1995, fui à Brasília ver a torre da TV, a Esplanada dos Ministérios, a Catedral e o Congresso Nacional. Catedral aliás que é bem interessante e que talvez teria chamado à atenção de Jung, já que para chegar ao seu altar, para poder aproximar-se da luz divina, é preciso descer, e não subir uma escada, ou seja, para elevar-se é precisa primeiro dar as costas ao sol, , afundar-se, descer em direção à escuridão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E me&nbsp;lembro, especialmente, da emoção que senti ao olhar para essa <strong>Bandeira</strong> que flutuava atras, e que mesmo não sendo a do meu país me seduzia de tanta majestade e impunha respeito e esperança no futuro de uma nação, que se dizia então, ainda criança, como aprendendo a caminhar sozinha depois de anos de ditadura. Recordo-me como essa sensação me gerou conforto em relação a minha mudança de Paris para Goiânia: não era tanta loucura assim e, talvez, valesse mesmo a pena dar uma chance a este lugar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim se passaram 27 anos e, no último dia 7 de setembro, assisti na televisão à cerimônia do dia da Independência. Não consegui reconhecê-la nesse pano verde e amarelo que parecia haver perdido toda sua imponência e que se recusava a voar. Quando apareceu um voo de Urubus, de carniceiros que pareciam acompanhar o hasteamento em pano de fundo, me perguntei o quanto simbólico era aquela imagem. Esse evento me incentivou a compartilhar uma pequena reflexão sobre os símbolos e sua dinâmica, como participam de nossas vidas e em especial sobre este, que é o maior símbolo da nação, sua <strong>bandeira</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung chama atenção de que não devemos confundir sinais com símbolos e os descrevem como a melhor expressão possível de algo relativamente desconhecido: “O símbolo, no entanto, pressupõe sempre que a expressão escolhida seja a melhor designação ou fórmula possível de um fato relativamente desconhecido, mas cuja existência é conhecida ou postulada” (símbolos da transformação, 903)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Jung,&nbsp;os símbolos, ao contrário de sinais ou logomarcas, não nascem de uma reflexão consciente, de uma atividade cognitiva e racional, mas da necessidade de expressão de um fato psíquico, inconsciente do qual desconhecemos pelo menos parcialmente a existência ou seu significado.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>Todo produto psíquico que tiver sido por algum momento a melhor expressão possível de um fato até então desconhecido ou apenas relativamente conhecido pode ser considerado um símbolo se aceitarmos que a expressão pretende designar o que é apenas pressentido e não está ainda claramente consciente. (JUNG, 2018, p.906)</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Em outras palavras, significa que quando somos atraídos por um símbolo, qualquer que seja sua natureza, não nos ligamos a ele porque a imagem ou palavra tem um significado racional, mas porque permite a expressão de uma emoção, de um desejo, de uma vontade que reverbera em nós sem que muitas vezes o saibamos ou percebamos sua importância.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro ponto muito relevante para o desenvolvimento de nossa reflexão é que, de acordo com Jung, o símbolo somente permanece vivo num coletivo humano enquanto seu significado sombrio ainda não foi plenamente revelado e incorporado pela cultura, momento a partir do qual sua importância começa a definhar até um possível esquecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto um símbolo for vivo, é a melhor expressão de alguma coisa. E só é vivo enquanto cheio de significado. Mas, uma vez brotado o sentido dele, isto é, encontrada aquela expressão que fórmula melhor a coisa procurada, esperada ou pressentida do que o símbolo até então empregado, o símbolo está morto, isto é, só terá ainda significado histórico. (JUNG, 2018,&nbsp;&nbsp;p.905).</p>



<p class="wp-block-paragraph">E isso é muito interessante para quem procura compreender as dinâmicas humanas, pois ao observarmos a emergência de símbolos e sua adoção coletiva podemos perceber, na popularidade de criações artísticas, nos personagens fictícios ou reais, no crescente de aspirações religiosas e em outros movimentos e aglomerações populares em volta de um determinado discurso, o que está na sombra da sociedade, quais são as dores, as vontades e desejos ocultos num determinado momento da história. Ou seja, a emergência de um símbolo revela a sombra coletiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Algumas semanas antes do Dia da Independência houve uma votação no Congresso para avaliar a possibilidade de voltar para o voto impresso, e no mesmo momento em que este assunto está em pauta, quando a nação faz uso do seu extremamente frágil sistema democrático para rever o próprio conceito da participação do povo à vida administrativa, econômica e social do país, o chefe do Executivo coloca blindados para desfilar em frente aos ministérios e ao próprio palácio do Congresso Nacional.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ou seja, no exato momento em que o país decide refletir se mantém o recém conquistado &#8220;Progresso&#8221;, que trouxe a democracia que deu voz à população, acompanhando tendências de evolução do mundo moderno, vem a &#8220;Ordem&#8221; ameaçar calar-lhe violentamente a boca.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É nossa hipótese que o <strong>Brasil</strong> sabia, simbolicamente falando, desde sua constituição, como&nbsp;seria sua história, qual seria&nbsp;a trama da sua evolução. Tanto o sabia que a escancarou na sua <strong>bandeira</strong>, para o mundo inteiro ver, talvez com a certeza coletivamente inconsciente de que os que vivem aqui não enxergariam. Está escrito em verde sobre amarelo, &#8220;ordem e progresso&#8221;, dentro do azul do céu da cidade maravilhosa do Rio de Janeiro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas todos nós falhamos em entender. E o motivo para isso, é que nos somos humanos e somente enxergamos aquilo que estamos preparados para entender, o resto, esquecemos até amadurecer. Mas a sabedoria popular nos aponta constantemente para nosso erro, sem que percebamos. Está na boca de todos os sábios anciões e pseudo filósofos do <strong>Brasil</strong>: &#8220;vocês nunca tiveram uma guerra”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">É se há algo que as guerras ensinam, sejam elas, a Guerra de secessão norte americana, a Revolução Francesa e outras bolcheviques ou bolivarianas e talvez hoje o mais recente conflito na Ucrânia, é que não há progresso sem desordem. Para que se possa desfrutar da paz, valorizar um estado de equilíbrio e fartura, precisa ter vivido as inseguranças e as restrições da guerra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Da revolução francesa de 1789 nasceu uma nova ordem mundial, com o renascimento dos conceitos democráticos esquecidos desde a Grécia antiga, firmando o movimento literário e filosófico iniciado em 1715, “le siècle des lumières”, o Iluminismo, cuja principal meta era permitir ao povo ter acesso ao verdadeiro saber, a liberdade e à felicidade. O mundo começa a se transformar, vendo decair o poder das realezas, germinar novos conceitos político-sociais ainda em uso hoje como as noções de direita e esquerda ou o voto popular, e, especialmente, academias, artes e ciências florescem, livres do jugo das religiões. O humanismo começa mostrar sua cara e logo a escravidão será abolida. Mas, é essencial lembrarmo-nos que este parto de uma nova era da humanidade, este início de uma nova perspectiva de evolução, se deu num banho, num verdadeiro mar de sangue.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A&nbsp;busca por essas novas liberdades, igualdades e fraternidades também justificou assassinar, cortar cabeças, destruir monumentos, incendiar bairros e vilarejos. E, por mais que se possa enxergar uma até justa retribuição a séculos de submissão do povo aos abusos da nobreza e às torturas da inquisição, este episódio histórico é certamente um dos mais sombrios da história da humanidade. Ou seja, foi necessário um caos para destruir uma ordem que era por demais injustamente estabelecida. A luz somente é percebida se acesa no escuro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ordem e Progresso não são companheiros, mas um é a sombra do outro. E é justamente essa história de luz e de sombra que nos conta a <strong>bandeira</strong> <strong>do Brasil</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando cheguei, me contaram que essa <strong>bandeira</strong> &#8211; que era a uma das mais bonitas que eu já havia visto &#8211; representava o país como ele é, como cantado pelo Martinho da Vila, uma aquarela Brasileira, estampada com as cores do sol, do céu, do mar e do verde da nossa amada Amazônia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Só que a realidade é um tanto diferente, a <strong>bandeira</strong> nasceu, quando, pelo decreto de 18 de setembro de 1822, se deu ao <strong>Brasil</strong> “um escudo de armas” para diferenciá-lo do reino de Portugal. As cores foram mantidas da bandeira anterior, o verde da Casa de Bragança, o ouro da Casa de Habsburgo e o azul do Brasão de armas,&nbsp;símbolo do império. Ou seja, todas as vezes que as crianças no início do expediente escolar ou todos os torcedores antes do culto aos deuses da bola redonda cantam o hino nacional, com a mão no peito, acreditando ser uma prova de amor e deferência à sua nação, estão na verdade olhando fixamente, mas&nbsp;sem enxergar, o símbolo de que é realmente seu país: a sobra de um império militarmente imposto&nbsp;às populações autóctones, forçosamente, contra a sua vontade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A <strong>bandeira</strong>, como todo símbolo, nos mostra o que gostaríamos de ser para que possamos olhar para aquilo que realmente somos.&nbsp; Olhamos fascinados para a ela e seu leme de Ordem e Progresso e nos encantamos pelas suas cores, enquanto continuamos olhando sem ver um país tão desigual e violento, sem enxergar suas dores e caos. Parece, então, que ainda não entendemos o seu símbolo e o recado que ela precisa nos dar sobre nossa intimidade coletiva.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Olhamos e não enxergamos, e isso é muito relevante. Pois precisamos compreender para que seja possível nos entregar ao processo de um progresso que traga a verdadeira ordem. E nessa hora não faz mal querer olhar para os livros de História e lembrar que essa frase, tão importante e tão comum para todos nós, veio do lema do positivismo de Auguste Comte: “<em>O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim</em>.” <strong>Mas o “Amor” como princípio de todas as coisas foi deixado de lado. </strong>Somente foram estampados na <strong>bandeira</strong> os símbolos do poder e da ganância e, como novamente Jung ensinou, onde impera o poder, não há espaço para o amor e, portanto, não haveria lugar para ele na bandeira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Seria então por isso que o mote foi truncado? Para que nos lembremos que gostamos de gritar alto a serenata à amizade universal, mas que não conseguimos aceitar que temos, antes de tudo, sede e vontade de um poder pelo qual tomaríamos as armas? Para que recordemos que para o amor não estaríamos coletivamente preparados?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Observemos a sociedade, as ruas das nossas cidades, nossos programas de televisão, nossas estradas, matas e selvas de concretos, como tratamos as minorias e os animais para, talvez, encontrar uma resposta a esta pergunta. Olhamos para aquilo que todos nós sabemos que é a verdade nua e crua: vemos todos os dias, nas ruas e nos noticiários, a constante violência da sociedade brasileira expressa pela pobreza, sujeira e outras discriminações de minorias,&nbsp;mas preferimos viver o mito da nação amorosa, mais &#8220;cristã do mundo&#8221; e orgulhosa das suas paradas de acolhimento às diferenças. Está selado na bandeira, a realeza, o império e as armas, mas escolhemos viver o mito do Brasil “dessas nossas verdes matas e cachoeiras e cascatas de colorido sutil e deste lindo céu azul de anil.”, como disse Martinho da vila em sua&nbsp;<em>Aquarela brasileira</em>,</p>



<p class="wp-block-paragraph">Olhamos para a persona coletiva do país, nos apegamos a ela ao ponto de cantar-lhe serenatas, imortalizá-la em poemas e filmes, de sofrer por ela e chorar em estádio, mas sem nunca enxergar a sua real essência, a verdade que vive no seu inconsciente, a dinâmica das suas emoções mais profundas. Amamos a sua cara, mas não queremos sentir suas dores, tal como Cazuza cantou na sua música “Um trem para as estrelas” escrita em parceria com Gilberto Gil: &#8220;estranho o seu Cristo Rio que olha tão longe, além, com os braços sempre abertos,&nbsp;mas sem proteger ninguém&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung ensina que isso tudo se deve ao fenômeno da projeção. Quando existem em nós, questões afetivas com as quais não conseguimos lidar, muitas vezes por não termos força ou equilíbrio emocional para isso, e que esses assuntos ainda são muito amedrontadores ou dolorosos, nos apegamos à imagens que os representam. Olhamos para símbolos de todas essas vontades, todos esses desejos e dores que tem uma intensidade com a qual tememos ter que nos deparar em nossa intimidade. Ou seja, nos fascinamos por imagens de fora porque não conseguimos olhar para dentro de nós, como uma forma de não esquecer a sujeira emocional que nossa saudável necessidade de bem-estar jogou para debaixo do tapete do inconsciente. Olhamos para a Bandeira, hipnotizados pela sua aparente beleza e histórias mal contadas, para nos proteger da dor e da culpa que provocaria olhar para realidade do país.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E quando esses conteúdos sombrios, escondidos dentro da gente encontram sintonia com outros indivíduos, acontecem fenômenos de comportamento de massa como desordem de torcedores de futebol, ou loucura coletiva de &#8220;groupies&#8221; de artistas famosos, mas também como alienação à cultos religiosos ou fanatismo político. Há por traz de toda movimentação de massa, uma tendência, uma vontade arcaica individual que faz com que os que precisam se proteger da sua própria escuridão, tal insetos atraídos por uma falsa luz, se agrupam em volta de quem já botou para fora, para todos verem, suas dores, medos e desejos mais inapropriados.&nbsp;A relação aparentemente absurda de amor incondicionalmente sofrido que um grupo de adolescentes pode expressar para um artista, vem do mesmo mecanismo, atemporal e transcultural que encontramos também na relação insana da torcida com seu time do coração e nos mostra que a intensidade dessa relação afetiva é inversamente proporcional à capacidade de raciocinar a relação. Se não fosse assim, essas paixões morreriam assim que o artista encontrasse um novo par amoroso ou o time começasse a jogar mal. Mas mesmo assim, ganhando ou perdendo continuamos a amar, sem questionar o motivo deste amor, de olhos fechados. Tanto quanto olhamos para a bandeiras e juramos amor ao país do qual é o símbolo, olhamos para sua luz, sem aparentemente olhar para sua sombra, suas dores e questionar a realidade que ela esconde. Como o disse Jung, a aquisição da consciência é um evento recente na evolução da humanidade&nbsp;e &#8220;a parte de baixo&#8221; do cérebro, o límbico, que lida com instintos e afetos, muitas vezes ainda é mais poderosa que &#8220;a parte de cima&#8221;, o córtex cerebral que nos confere a habilidade da razão, e ainda nos impede de ter uma percepção clara do mundo como ele é.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando um indivíduo sente a necessidade de resolver&nbsp;dores ou dificuldades internas, um dos caminhos possíveis é o da análise, onde ele se obrigará a olhar para dentro, para poder entender o que está projetando no outro, o que faz com que se apegue a algo de forma irracional. Um dos princípios da análise é, após enxergar os mecanismos psíquicos e os fundamentos de atitudes que trazem sofrimento, procurar desconstruir crenças e destruir padrões negativos forjados por sua história pessoal, para poder reconstruir uma base de vida mais sólida, mais de acordo com uma nova perspectiva existencial e visão do mundo organizadas em volta da sua verdadeira essência.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><br>Todo trabalho de investigação começa pela observação, seja o empirismo em ciência ou a anamnese em terapia. É preciso primeiro olhar como estão as coisas para poder entendê-las, olhar para a casa para poder arrumá-la, pois&nbsp;não há como&nbsp;<s>c</s>olocar ordem onde não se enxerga a desordem. É justamente assim que acontece a psicoterapia no prisma junguiano: para que se possa evoluir e crescer é necessário tirar o poder da ilusória ordem do Ego e da consciência e dar voz à aparente desordem vital que se esconde no inconsciente. O mesmo precisa acontecer no âmbito coletivo se quisermos ter uma chance de crescimento saudável como nação.&nbsp;&nbsp;É necessário que o país entre em análise para reconstruir sua identidade ainda demasiadamente influenciada pelos seus traumas de infância, e o primeiro passo é observar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso os artistas são tão importantes para uma nação, porque, às vezes, sem o perceber, ilustram a sombra e nos oferecem um caminho. Cantou o ex-vocalista do Barão vermelho:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“São 7 horas da manhã<br>Vejo Cristo da janela<br>O sol já apagou sua luz<br>E o povo lá embaixo espera<br>Nas filas dos pontos de ônibus<br>Procurando aonde ir<br>São todos seus cicerones<br>Correm pra não desistir</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dos seus salários de fome<br>É&nbsp;a esperança que eles tem<br>Neste filme como extras<br>Todos querem se dar bem</p>



<p class="wp-block-paragraph">Num trem pras estrelas<br>Depois dos navios negreiros<br>Outras correntezas”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esses trens onde todos querem se dar bem, os ónibus lotados do Rio de Janeiro que levam os mais simples para suas jornadas de trabalho em busca à conquista senão de seus sonhos, pelo menos uma melhoria do cotidiano, nada mais são que a evolução dos navios negreiros que trouxeram seus ancestrais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É preciso olhar para o passado, ressignificar as marcas que a história cravou em nosso inconsciente cultural, para poder ver como encontrar com o presente se queremos ter uma chance de futuro. E é preciso coragem para querer enxergar no Brasil sua desordem e falta de progresso, abraçar a sombra coletiva, tanto quanto procuramos encontrar nossa escuridão individual na terapia, para poder pintar em todas as suas ruas e paredes uma aquarela brasileira com pigmentos de esperança.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se eu citei Martinho da Vila e Cazuza, quem sabe a cultura popular nos demonstre a sua força: o carnaval e Ary Barroso expõe a todos que tem ouvidos para escutar, a solução para o Brasil se encontra nos livros de história.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Abre a cortina do passado</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tira a mãe preta do cerrado</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bota o Rei Congo no congado</p>



<p class="wp-block-paragraph">Canta de novo o trovador</p>



<p class="wp-block-paragraph">A merencória à luz da Lua</p>



<p class="wp-block-paragraph">Toda canção do seu amor</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quero ver essa dona caminhando</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pelos salões arrastando</p>



<p class="wp-block-paragraph">O seu vestido rendado&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas tenho certeza de que já estamos no caminho porque, se a bandeira esconde com suas cores uma sofrida realidade, também estão cravados lá o azul do céu do rio de janeiro e suas estrelas, guias de uma navegação rumo ao futuro e, delas, não tiramos os olhos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Analista em formação:&nbsp;Sebastien Baudry</p>



<p class="wp-block-paragraph">Analista didata responsável: Maria Cristina Guarnieri.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Sobre o simbolismo da bandeira do Brasil | Sebastien Baudry" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/PH_5070vwGQ?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.&nbsp;<em>Símbolos da transformação</em>. Vozes: São Paulo, 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cazuza / Glberto Gil,&nbsp;<em>Um trem para as estrelas.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Matinho da Vila:&nbsp;<em>Aquarela Brasileira</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Ary Barroso: Aquarela do Brasil.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Coleção das leis do Brasil de 1822</em>.Decreto de 18 de setembro de 1822</p>



<p class="wp-block-paragraph">Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1887. p.56</p>
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		<title>O Napoleão de Hospício brasileiro</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-napoleao-de-hospicio-brasileiro/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Aug 2021 17:59:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[contágio psíquico]]></category>
		<category><![CDATA[Pânico]]></category>
		<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[Totalitarismos]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[delírio coletivo]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este trabalho tem o objetivo de refletir sobre as homologias entre o Esclarecimento e a loucura coletiva que nele eclodiu e o atual momento político-social-pandêmico brasileiro. Analisando, principalmente, a possibilidade de estarmos presenciando um contágio psíquico de delírio coletivo em maior e em menor grau.&#160; Dwyer (2018) afirma que, no ano de&#160;1840,&#160;quando ocorreu o retorno [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Este trabalho tem o objetivo de refletir sobre as homologias entre o Esclarecimento e a loucura coletiva que nele eclodiu e o atual momento político-social-pandêmico brasileiro. Analisando, principalmente, a possibilidade de estarmos presenciando um contágio psíquico de delírio coletivo em maior e em menor grau.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dwyer (2018) afirma que, no ano de&nbsp;1840,&nbsp;quando ocorreu o retorno dos restos mortais de Napoleão à França,&nbsp;cerca de&nbsp;treze&nbsp;ou&nbsp;quatorze&nbsp;indivíduos foram admitidos no mesmo hospital psiquiátrico, em Bicêtre, afirmando ser o próprio &#8220;Napoleão&#8221;.&nbsp;Evidentemente, cada um deles considerava o outro louco. Este fenômeno, curiosamente, já ocorria antes mesmo da morte de Napoleão Bonaparte: no ano de 1818, há relatos de que pelo menos cinco indivíduos foram admitidos no hospital Charenton acreditando&nbsp;também ser&nbsp;Napoleão.&nbsp;Todos eles comportavam-se como o próprio: de sua famosa postura corporal até seu comportamento social, sendo mais imperial, orgulhoso, arrogante, abrupto, tirânico, caprichoso e colérico. A ilusão não afetou somente homens, segundo os relatos, algumas mulheres também foram afetadas. Todos eles se levavam demasiadamente&nbsp;a sério, davam ordens e exigiam lealdade.&nbsp;Em troca, tratavam os outros com desdém.&nbsp;Autores como Dwyer (2018) e Murrat (2012) discorrem que casos como estes são considerados delírios.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estes delírios não ocorreram somente com a figura de Napoleão, mas também com outros soberanos. No ano de 1839, um homem denominado Raoul Spifame, advogado no Parlamento de Paris, foi internado no hospital psiquiátrico Bicêtre por acreditar ser o rei Henrique II, da França. Segundo Murrat (2012), os jornais da época relataram que a semelhança fisionômica com o rei era verdadeira, o que levou muitos amigos e colegas a chamarem Spifame de &#8220;vossa majestade&#8221; ou &#8220;vossa excelência&#8221;, fazendo ele acreditar piamente que era o próprio soberano. Este caso em especial possui uma peculiaridade que deve ser evidenciada, de acordo com Murrat (2012), em um certo dia, um guarda pendurou um espelho na cela de Spifame, que ao aproximar-se do espelho, reconheceu a própria imagem refletida como a do rei Henrique II e inclinou-se rápida e profundamente em reverência. Para a autora, &#8220;Raoul prova simultaneamente que não é louco, já que faz a diferença e dá a prova de que se dissocia do soberano, personagem distinto do advogado encerrado em Bicêtre&#8221; e ainda conserva seu racionalismo e cognição (MURRAT, 2012, p.170).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso fica evidente quando estudamos Hillman (2012), que vai além da psiquiatria clássica que entende delírio como uma &#8220;crença falsa&#8221;, o autor aponta que um delírio paranóico, por exemplo, é uma persuasão de sentimento, pela evidência de sentidos, surgindo até uma logicidade incorrigível. O autor ainda discorre que independente do tipo de delírio e de quão longa e tenazmente ele seja mantido, devemos lembrar aquilo que dizem todos os manuais de psiquiatria, que via de regra o comportamento, o intelecto e as emoções de pacientes que disso sofrem estão preservados, de forma que se suas premissas fossem verdadeiras, seu comportamento e seu discurso passariam quase que por normais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Casos como os citados acima foram tratados isoladamente por psiquiatras, psicólogos e psicanalistas até então. Mas seria de grande valia reconhecer que tipo de fenômeno psíquico coletivo está por trás dos delirantes internados, afinal, é muito provável que o número de indivíduos que deliraram na época foi superior aos registros dos hospitais psiquiátricos. O máximo diagnosticado sobre tais episódios como um único fenômeno foi feito por François Leuret, reconhecendo-os como uma loucura coletiva de monomania de orgulho, devido às circunstâncias político-sociais da revolução francesa, da guilhotina e do Esclarecimento. Murrat (2012), em seu livro, também avança em passos largos demonstrando um imbricamento entre a política e a loucura, mas não satisfaz a perspectiva junguiana, sem a análise de reconhecer os casos como um movimento coletivo e delirante, visto que a autora não apresenta uma compreensão do fenômeno a partir do inconsciente coletivo, o que seria de grande valia. Para adicionar esta concepção, vale lembrar o que Jung (2013) aponta sobre a influencia do inconsciente coletivo na sociedade:&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Via de regra, quando o inconsciente coletivo se torna verdadeiramente constelado em grandes grupos sociais, a consequência será uma quebra pública, uma epidemia mental que pode conduzir a revoluções, guerra, ou coisa semelhante. Tais movimentos são tremendamente contagiosos, eu diria inexoravelmente contagiosos, pois, quando o inconsciente coletivo é ativado, ninguém mais é a mesma pessoa (JUNG, 2013, p. 61-62, vol. 18/1).</p>



<p class="wp-block-paragraph">No tocante, já perseguimos fenômenos semelhantes – no livro &#8220;<em>Contágio Psíquico: a loucura das massas e suas reverberações na mídia</em>&#8221; relatamos casos de indivíduos que confundiram&nbsp;<em>outrem&nbsp;</em>com o diabo e com bruxas; discorremos sobre episódios delirantes de envenenamentos, OVNIS e órgãos genitais desaparecendo; entre outros.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A afirmação do autor de que &#8220;ninguém é mais a mesma pessoa&#8221; deve ser ressaltada. Isto é, quando o movimento provém do inconsciente coletivo e de suas imagens arquetípicas, nem o rei, nem o padre, nem o filósofo, nem o carrasco, nem o cidadão são os mesmos, todos estão contagiados pelo o que emerge da coletividade. Isso leva-nos a crer que os prisioneiros de Bicêtre e Chareton são uma pequena parte do movimento coletivo ocorrido na época. Ou seja, na perspectiva junguiana, cai por terra a defesa de que casos como os supracitados são extremos e não deveriam ser comparados a líderes políticos ou uma população que aparentemente possui uma mínima lucidez. Se o próprio Spifame manteve sua lucidez, como reconhecer que a sociedade francesa da época ou até mesmo a atualidade está realmente lúcida? Hillman (2012) aponta que&nbsp;o delírio não pode ser determinado por critérios sociais, já que os próprios critérios sociais podem ser/estardelirantes.&nbsp;Para corroborar, Jung (2013b, p. 286-287) afirma que o estado de extremo de desequilíbrio mental é uma oportunidade de vislumbrar certos &#8220;fenômenos psíquicos com clareza quase exagerada&#8221;; e também, de reconhecer &#8220;fenômenos que muitas vezes são percebidos apenas de maneira obscura dentro dos limites normais. O estado anormal funciona&nbsp;às vezes como lente de aumento&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Simbólica e enantiodromicamente, podemos compreender que a época das Luzes, buscando a lucidez total, fez muitos indivíduos perderem literal e metaforicamente a cabeça, transformando tudo na mais crassa barbárie.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Murrat (2012) aponta que ao passo que muitos da aristocracia eram condenados à &#8220;viúva&#8221;, outros eram trancafiados nos hospitais psiquiátricos, que cresceram de maneira vertiginosa nesta época. A autora ainda afirma que, nas execuções, os cidadãos espectadores tinham rompantes de contágios psíquicos acreditando que a cabeça separada do corpo ainda piscava os olhos. E, os estudiosos, em nome da&nbsp;ética e&nbsp;da&nbsp;moral, afirmavam veementemente que a guilhotina era a melhor maneira de executar alguém.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não seria estranho depreender que toda época foi atingida pelo delírio coletivo das Luzes e das Sombras em maior ou menor grau, seja acreditando ser Napoleão, seja acreditando ser igualitário, fraternal e liberal com a guilhotina debaixo do braço. Esqueceram-se do inconsciente coletivo e de suas sombras em prol de uma lucidez delirante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outra sociedade que parece ter esquecido de sua sombra é aquela em que o &#8220;cidadão de bem&#8221; faz parte; aquela que elegeu o atual presidente brasileiro; aquela que acredita fielmente que a arma e a cloroquina vão salvar a todos na terra plana. Curiosamente, avessa a Adorno e Horkheimer, críticos do Esclarecimento, mas a favor das ideias do pseudo-filósofo Olavo de Carvalho e das Fake News. Estes vão às ruas pedir atos inconstitucionais; clamar pela morte e matar líderes da esquerda; e ainda, acreditam piamente que Deus é um apoiador desse movimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não somente o presidente, mas parte da população parece estar delirante. Não seria incorreto afirmar que estamos vivendo uma reedição da monomania orgulhosa, ou seja, do comportamento napoleônico imperial, orgulhoso, arrogante, abrupto, tirânico, caprichoso&nbsp;e colérico. Ainda podemos somar a propagação do mal, a barbárie e o movimento genocida que deixou morrer mais de 550 mil brasileiros por COVID-19 até então.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Parece que o delírio coletivo é um grande viabilizador da propagação e da banalização do mal. Aqui não devemos polarizar a atual mentalidade coletiva brasileira entre delírio e mal, pois, os dois agem de mãos dadas. Acompanhar a CPI da COVID-19 revela isso. Faz-nos, a cada momento, questionar como é possível ser capaz de corroborar e intermediar possíveis tentativas de corrupção sabendo que parte da população brasileira, se não morre pela pandemia, morre pela fome? Como é possível considerar que a propina é de mais valia do que as sepulturas já cavadas no país? Como é possível colaborar com um Ministro que já proclamou que prefere o saco preto à vacina?&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não devemos também e nem queremos excluir a responsabilidade dos envolvidos com a corrupção, mas compreender que em suas perspectivas, tanto o presidente quanto seus apoiadores parecem delirar coletivamente, crendo que estão cumprindo seus trabalhos, automaticamente maléficos, assim como a guilhotina o fez.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como defender-se deste movimento contagioso? Talvez não seja possível e já estamos delirando juntos. Mas, Edgar Morin, em entrevista, recentemente, trouxe-nos temperança:&nbsp;com frequência, é preciso ser um desviante minoritário para estar no real. Embora, aparentemente, nele não haja nenhuma perspectiva, nenhuma possibilidade, nenhuma salvação, a realidade não está paralisada para sempre, ela tem seu mistério e sua incerteza. O importante é não aceitar o fato consumado.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Leonardo Torres – Analista em Formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Analista ditataresponsável: Waldemar Magaldi</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>REFERÊNCIAS:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Dwyer, Philip. Napoleon: Passion, Death and Resurrection, 1815-1849. Lodres: Bloomsbury, 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, Carl Gustav. A Vida Simbólica: escritos diversos. Petrópolis: Vozes, 2013.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, Carl Gustav. Tipos Psicológicos. Petrópolis, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hillman, J. Paranoia. Petrópolis: Vozes, 2012.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Morin, Edgar. Entrevista.&nbsp;<a href="http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/610964-cem-anos-de-morin-filosofo-da-complexidade">http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/610964-cem-anos-de-morin-filosofo-da-complexidade</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Murrat, Laure. O Homem que se achava napoleão: por uma história política da loucura. São Paulo: Três Estrelas, 2012.&nbsp;</p>



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<h4 class="wp-block-heading" id="h-leonardo-torres"><strong><em>Leonardo Torres</em></strong></h4>
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