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	<title>Arquivos contos de fada - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Mon, 16 Jun 2025 15:47:35 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos contos de fada - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>João e Maria e o retorno para casa: A União do Masculino e do Feminino</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/joao-e-maria-e-o-retorno-para-casa-a-uniao-do-masculino-e-do-feminino/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Itala Resende Carvalhal]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 16 Jun 2025 12:55:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Contos de Fada]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[contos de fada]]></category>
		<category><![CDATA[joão e maria]]></category>
		<category><![CDATA[simbologia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Este artigo, fundamentado na psicologia analítica de Carl Gustav Jung, propõe uma leitura simbólica do conto de fadas João e Maria, explorando a jornada arquetípica dos protagonistas como metáfora para a integração dos princípios masculino (animus) e feminino (anima) na psique e a sua importância para o processo de individuação. O artigo mostra que [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em><strong>Resumo</strong>: Este artigo, fundamentado na psicologia analítica de Carl Gustav Jung, propõe uma leitura simbólica do conto de fadas <strong>João e Maria</strong>, explorando a jornada arquetípica dos protagonistas como metáfora para a integração dos princípios masculino (animus) e feminino (anima) na psique e a sua importância para o processo de individuação. O artigo mostra que quando integramos essa força complementar dentro de nós, construímos um eu mais consciente e integrado, um verdadeiro retorno &#8221;para casa&#8221;.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-artigo-atraves-do-conto-joao-e-maria-faremos-uma-leitura-sobre-a-integracao-dos-principios-masculino-e-feminino-na-nossa-psique-e-a-sua-importancia-para-o-processo-de-individuacao" style="font-size:19px">Nesse artigo, através do conto João e Maria, faremos uma leitura sobre a integração dos princípios masculino e feminino na nossa psique e a sua importância para o processo de individuação.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Os contos de fadas narram histórias que nos permitem através delas acessar nosso inconsciente. Desde criança ficamos fascinados com as histórias contadas, as quais mexem com nossos sentimentos, medos, desejos e fantasias, nos deixando envolvidos com suas imagens e narrativas, aguardando o tão esperado ‘’felizes para sempre’’.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Segundo <strong>Verena Kast</strong> (2009) ‘’ <em>os contos de fadas contêm imagens arquetípicas que refletem processos profundos da psique. São metáforas para os desafios que enfrentamos na vida e nas relações</em>.&#8221;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-ouvir-ou-ler-um-conto-de-fadas-refletimos-sobre-a-vida-e-aspectos-de-nos-mesmos" style="font-size:19px">Ao ouvir ou ler um conto de fadas refletimos sobre a vida e aspectos de nós mesmos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Os contos expressam necessidades primárias do ser humano, mas também sofrimentos e medos. Dessa forma, o conto João e Maria trata da necessidade de sobrevivência, mas também da nossa ‘’fome’’ interior.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Von Franz</strong> (1981) reforça que <em>“contos de fadas são a expressão mais pura e mais simples dos processos psíquicos do inconsciente coletivo. Consequentemente, o valor deles para a investigação científica do inconsciente é sobejamente superior a qualquer outro material. Eles representam os arquétipos na sua forma mais simples, plena e concisa</em>”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">João e Maria é um conhecido conto de fadas de tradição oral que foi coletado por dois irmãos, os <strong>Grimm</strong>, ambos acadêmicos, poetas e escritores que se dedicaram ao registro de várias&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/F%C3%A1bula">fábulas</a>&nbsp;infantis e viveram na hoje conhecida Alemanha nos séculos XVIII e XIX.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-conto-joao-e-maria-sobre-a-perspectiva-que-vamos-trabalhar-nesse-artigo-trata-da-libertacao-de-dois-irmaos-que-atraves-da-sua-uniao-vencem-a-bruxa-e-acham-o-tesouro" style="font-size:19px">O conto João e Maria, sobre a perspectiva que vamos trabalhar nesse artigo trata da libertação de dois irmãos, que através da sua união vencem a bruxa e acham o tesouro.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essa narrativa dos irmãos representa o processo de individuação, mostrando a integração do masculino e feminino internos. Temos Maria como representação da <em>anima</em> e João como representação do animus ambos impulsionando o crescimento mútuo dos irmãos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>João e Maria é um conto que fala de almas famintas, onde os desafios da vida os leva para a floresta, abandonados pela madrasta e pelo pai em virtude da pobreza</strong>. A presença da madrasta, como representação de uma anima negativa, e a ausência da mãe, demonstram que há uma carência de afeto. O pai, por sua vez, simboliza um animus fraco que se deixa levar pela madrasta. Há fome de afeto e de alimento. Eles são abandonados na floresta pelo pai e pela madrasta, sentem medo e desejam voltar para casa, porque ainda que não seja um lugar bom, é um lugar conhecido. Muitas vezes ficamos em lugares e situações que não nos fazem mal, por medo de enfrentar o novo, ‘’a floresta’’.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">João e Maria são dois aspectos de uma mesma psique (<strong>anima e animus</strong>), ou seja, dois aspectos dentro de nós. <a>No início da história, se apresentam como crianças vulneráveis, abandonadas na floresta. Podemos ver esse abandono como um símbolo do afastamento do ser humano de sua totalidade psíquica.</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-denominou-esses-principios-opostos-existentes-na-psique-do-homem-e-da-mulher-respectivamente-de-anima-e-animus" style="font-size:19px"><strong>Jung</strong> denominou esses princípios opostos existentes na psique do homem e da mulher, respectivamente, de anima e animus.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Anima como sendo o princípio feminino, ou seja, o componente feminino na personalidade de um ego que se identifica com o masculino e a anima, por sua vez, o princípio masculino, ou seja, o componente masculino na personalidade de um ego que se identifica com o feminino.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Buscando a origem dois princípios masculino e feminino, vemos que na Mitologia Grega os primeiros seres eram andróginos, ou seja, concomitantemente masculinos e femininos, possuindo uma enorme força. No <em>Banquete</em>, Platão apresenta o chamado &#8220;mito do andrógino&#8221; por meio do discurso de Aristófanes. Segundo essa narrativa, originalmente, os seres humanos eram completos, compostos por duas metades: masculina e feminina. Esses seres possuíam grande força e poder, o que despertou a ira de Zeus. Para enfraquecê-los, Zeus os dividiu ao meio, criando os humanos como somos hoje, o que também contribuiu para que a humanidade se tornasse debilitada e carente, buscando sua outra metade, para recuperar a totalidade perdida no intuito de novamente estar unida em um só corpo e se tornar inteira. Mas, conforme trazido por Jung, a lembrança dessa unidade persiste no inconsciente coletivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em nossa sociedade, extremamente patriarcal e machista, aprendemos a crescer desconectados de nosso feminino e masculino internos, projetando essas qualidades em nossos parceiros e vivendo, assim, relações desequilibradas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-jung-o-principio-feminino-anima-esta-ligado-ao-eros-materno-que-e-a-funcao-da-conexao-emocao-intuicao-e-relacao-enquanto-que-o-principio-masculino-animus-corresponde-ao-logos-paterno-que-esta-associado-ao-conhecimento-e-a-razao" style="font-size:19px">Para <strong>Jung</strong>, o princípio feminino (<strong>anima</strong>) está ligado ao eros materno que é a função da conexão, emoção, intuição e relação, enquanto que o princípio masculino (animus) corresponde ao logos paterno que está associado ao conhecimento e à razão.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Anima e animus são arquétipos das representações essenciais de construção da estrutura da psique de todo homem e de toda mulher. São arquétipos que permitem a relação com o mundo interno, intermediando o inconsciente e consciente e, como mediadores do Ego e o mundo interno, são essenciais para o processo de individuação.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">“Se o encontro com a sombra é obra de aprendiz no desenvolvimento de um indivíduo, então o trabalho com a anima é a obra-prima”. (JUNG, 2002)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Emma Jung </strong>(2020), reforça ainda que anima e animus são arquétipos investidos de grande significado, pois, ‘’pertencendo por um lado à personalidade, e por outro estando enraizados no inconsciente coletivo, eles constroem uma espécie de elo ou ponte entre o pessoal e o impessoal, bem como entre o consciente e o inconsciente’’.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Anima e animus agem, assim, de forma compensatória em relação à personalidade externa, a anima trazendo características femininas no homem e o animus como aspectos masculinos na mulher que, entretanto, ‘’<em>não são determinados apenas pela respectiva estruturação no sexo oposto, sendo condicionado ainda pelas experiências que cada um traz em si do trato com indivíduos do sexo oposto no decurso de sua vida e por meio da imagem coletiva que o homem tem da mulher e a mulher tem do homem</em>’’.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">São, portanto, estruturas da nossa psique de grande relevância para o processo de individuação, intervindo na nossa vida individual como um estranho, uma outra pessoa que nos habita, às vezes se mostrando de forma positiva, mas muitas vezes também incômodo e destrutivo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-podemos-dessa-forma-analisar-a-jornada-de-joao-e-maria-como-um-caminho-para-a-maturidade-emocional-e-a-integracao-do-animus-e-da-anima" style="font-size:19px">Podemos, dessa forma, analisar a jornada de João e Maria como um caminho para a maturidade emocional e a integração do animus e da anima.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Voltando ao conto, no início da narrativa é João, representando o logos, que tomado pela razão, tranquiliza Maria e toma a iniciativa de atitudes para tentar tirá-los da floresta, enquanto Maria aparece frágil e amedrontada.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Entretanto, quando João e Maria encontram a casa de doces, João já está faminto e enfraquecido e ambos são seduzidos por sua aparência tentadora. No momento que são capturados pela bruxa, eles são separados. João, que representava a razão, está agora enfraquecido e é aprisionado. Maria se vê sozinha com a bruxa e separada do irmão e da proteção que ele representava, o que causa angústia e medo. Há a dor dessa separação, da sua outra metade, ‘’o irmão’’. Entretanto, a dor faz com que Maria amadureça e assuma uma postura ativa, conseguindo derrotar a bruxa ao empurrá-la para o forno. Aqui, a energia da anima se torna consciente e forte, equilibrando-se com a racionalidade (animus).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Esse momento simboliza a integração da anima e do animus, onde a intuição e a força emocional se unem à razão e à ação. Com isso, João e Maria saem da casa da bruxa transformados, mais maduros, e encontram o caminho de volta para casa – ou seja, alcançam a totalidade psíquica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-apos-essa-uniao-dos-dois-aspectos-da-psique-vem-o-tesouro-o-felizes-para-sempre-que-e-a-recompensa-por-terem-vencido-amadurecido-e-por-terem-se-tornados-um-ser-inteiro-nbsp-os-irmaos-entao-atravessam-um-caminho-novo-e-voltam-para-casa-transformados" style="font-size:19px">Após essa união dos dois aspectos da psique, vem o tesouro, o ‘’felizes para sempre’’ que é a recompensa por terem vencido, amadurecido e por terem se tornados um ser inteiro. &nbsp;Os irmãos então atravessam um caminho novo e voltam ‘’para casa’’ transformados.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Concluímos assim, como os contos de fadas, sob a ótica da psicologia junguiana, são mais do que histórias infantis, representando símbolos profundos da psique humana e do processo de individuação. O conto de João e Maria, além de narrar uma jornada de sobrevivência, simboliza a busca pelo equilíbrio entre esses dois aspectos, o feminino (anima) e o masculino (animus) dentro de cada um de nós.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quando-resgatamos-nossas-proprias-qualidades-perdidas-nao-buscamos-fora-e-no-outro-aquilo-que-nos-falta-e-nos-relacionamos-a-partir-da-plenitude-como-seres-inteiros" style="font-size:19px">Quando resgatamos nossas próprias qualidades perdidas, não buscamos fora e no outro aquilo que nos falta, e nos relacionamos a partir da plenitude, como seres inteiros.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">João e Maria precisaram resgatar seu feminino e masculino internos para se tornarem emocionalmente inteiros, reconhecendo que são duas personalidades que compartilham uma mesma alma. Ao enfrentarmos nossas sombras, integrando todas as nossas partes, reconhecendo a nossa dualidade, encontramos o caminho de volta para nossa totalidade psíquica e construímos relações mais saudáveis e equilibradas. Um retorno para nossa casa.</p>



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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/itala-carvalhal/">Itala Resende – Membro Analista em Formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Membro Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:17px"><strong>REFERÊNCIAS</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">BRANDÃO, J. S. Mitologia grega (Vol. 3). Petrópolis, RJ: Vozes.Harding, M. E. 1970.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">.JUNG, C. G. O eu e o inconsciente. Vol. VII/2. Petrópolis, RJ: Vozes. 2008.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">KAST, Verena, O amor nos contos de fadas: O Anseio pelo outro, Vozes, 2009.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">JUNG, Emma, Anima e Animus, Pensamento-Cultrix, 2020.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>A carga do bode expiatório na dinâmica do complexo familiar</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-carga-do-bode-expiatorio-na-dinamica-do-complexo-familiar/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Tania Pulier Garrido]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 11 Nov 2023 09:49:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Contos de Fada]]></category>
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		<category><![CDATA[sombra coletiva]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A carga do bode expiatório na dinâmica do complexo familiar trata do complexo do bode expiatório em seu surgimento e vivência na família, a partir do conto “A princesa determinada” e dos ensinamentos de Sylvia Perera em sua obra sobre esse complexo. O objetivo é perceber as características da vivência atual e que elementos de transformação são oferecidos pelo resgate simbólico do ritual hebraico do bode expiatório, na inspiração do conto e das considerações teóricas da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>O presente artigo trata do complexo do bode expiatório em seu surgimento e vivência no dinamismo familiar, a partir do conto “A princesa determinada”.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Muito se usa em nossos dias a expressão “<strong>bode expiatório</strong>” para se referir às pessoas ou grupos sociais sobre os quais se joga uma carga de acusações e responsabilização. Como se fossem eles os “errados”, “feios”, “perigosos”, “estranhos”, enfim, os culpados por tudo o que se considera inaceitável no código moral e de comportamento daquele grupo. E até sobre outros males, como doenças ou calamidades. Normalmente, as ditas “minorias” recebem essas acusações.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Toma-se como base os ensinamentos de <strong>Sylvia Perera</strong> em sua obra sobre esse complexo, comparando o significado originário do ritual hebraico do bode expiatório e mesmo elementos anteriores com a forma como o complexo é vivido na atualidade, desconectados que estamos da fonte transpessoal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O objetivo é perceber as características da vivência atual e que elementos de transformação são oferecidos pelo resgate simbólico do ritual, a partir da inspiração do conto e das considerações teóricas da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, curativos para a dor de quem vive tomado por esse complexo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-que-faz-alguem-ser-tomado-pelo-complexo-do-bode-expiatorio-e-que-ele-recebe-e-aceita-a-carga">O que faz alguém ser tomado pelo complexo do bode expiatório é que ele recebe e aceita a carga. </h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Complexo, segundo Jung (2018, §201), é “a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional [&#8230;], dotada de poderosa coerência interior”, com totalidade e grau de autonomia elevado, como se fosse um corpo estranho com vida própria, incompatível com a atitude habitual da consciência.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">O indivíduo até pode ser – e neste caso busca ser – bem-sucedido e corresponder ao máximo à moral vigente, mas a constelação do complexo sempre o fará se sentir uma fraude, inadequado e indigno, e a rejeição que sofre de fato confirmará esse autodesprezo e o colocará num círculo vicioso do qual é difícil sair.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-decadente-rei-acusador-e-os-exilados"><strong>O decadente rei acusador e os exilados</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O conto “<strong>A princesa determinada</strong>” narra a estória de uma filha que se negou a concordar que a vontade do pai determinasse o seu destino e, exilada no deserto após anos na prisão, construiu a própria vida e o próprio reino, diferente, no qual outros “desencaixados” tinham lugar. Do rei era dito que: “acreditava na autoridade de tudo aquilo que lhe fora ensinado e de tudo aquilo que ele considerava correto” e que se tratava de “um homem justo, sob muitos aspectos, porém de ideias limitadas” (Perera, 2022, p. 160). Quando colocou a terceira filha na pequena cela, ao passo que ele e as outras duas, as obedientes, desfrutavam das riquezas, o povo do país pensou ter feito ela algo muito grave, pois ninguém jamais havia contestado a autoridade do rei. Este mesmo, a princípio, achava que a prisão mostrava ser a sua vontade soberana.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-entanto-com-o-passar-dos-anos-sem-que-a-princesa-voltasse-atras-considerou-que-a-presenca-dela-enfraquecia-a-sua-autoridade-e-foi-ai-que-resolveu-bani-la-para-o-deserto" style="font-size:16px">No entanto, com o passar dos anos sem que a princesa voltasse atrás, considerou que a presença dela enfraquecia a sua autoridade e foi aí que resolveu bani-la para o deserto.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Lá ela conseguiu ordenar a sua vida e descobriu que os elementos contribuíam para o todo, sem obedecer às ordens do rei. A princesa exilada casou-se com um viajante de posses e juntos construíram no deserto “uma imensa e próspera cidade em que sua sabedoria, seus recursos e sua fé eram expressos da maneira mais completa” (Perera, 2022, p. 161).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ali se harmonizaram os “estranhos” e outros banidos, todos contribuindo de forma útil, a ponto de a cidade tornar-se mais poderosa e bela que o reino do pai da princesa. Ela e o marido foram eleitos os monarcas, por escolha dos habitantes. O rei resolveu conhecer aquele lugar que adquiriu tanta fama e era habitado por “aqueles aos quais ele e seus afins haviam desprezado.” Surpreendeu-se ao erguer os olhos aos monarcas, de cujo trono se aproximou com a cabeça curvada, e escutou estas palavras murmuradas por sua filha: “<strong>Vê, meu pai, como cada homem e mulher tem seu próprio destino e sua própria escolha</strong>.” (Perera, 2022, p. 162)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-um-primeiro-olhar-a-esse-conto-leva-a-identificar-os-estranhos-banidos-ao-deserto-pelo-aspecto-dominante-e-figura-parental-como-os-bodes-expiatorios-daquele-reino" style="font-size:18px">Um primeiro olhar a esse conto leva a identificar os “estranhos”, banidos ao deserto pelo aspecto dominante e figura parental, como os bodes expiatórios daquele reino.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Afinal, este termo é usado atualmente para indicar indivíduos ou grupos tidos como os causadores de infortúnios. Indivíduos que carregam a <strong>sombra coletiva</strong>, e cuja acusação alivia os acusadores de sua responsabilidade e lhes fortalece o poder. No sacrifício hebreu do bode expiatório, que veremos adiante, existem dois bodes. Um bode sacrificado, oferecido ao Senhor, que redime e purifica. E outro bode expulso ao deserto, dedicado a Azazel (antes um deus ctônico, tornou-se o anjo decaído para os hebreus) que carrega os males e remove a culpa.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-dois-tracos-sao-entao-a-vitima-e-o-perseguidor-demoniaco-o-acusador">Os dois traços são, então, a vítima e o perseguidor demoníaco, o acusador.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">“<strong>O acusador do bode expiatório é experimentado como uma moral elevada, mas ultrassimplificada, que representa virtudes coletivas e, portanto, opõe-se à vida instintiva</strong>” (Perera, 2022, p. 27), manifestado no conto na figura do rei. Aquele que deveria ser o regente, o centro diretor de uma totalidade equilibrada, em cujo reino cada elemento contribui de forma funcional e harmônica para o conjunto, está unilateralizado. Abusando do poder e da sua própria vontade. É um rei decadente, portanto, cujo papel está deturpado. A aparente prosperidade do seu reino tem os dias contados. Isto porque o governante não é alguém de visão, mas de ideias limitadas. Que encarcera e bane o princípio feminino, representado pela princesa.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-nao-se-submeter-ela-denuncia-a-deficiencia-do-pai-e-o-enfraquece">Ao não se submeter, ela denuncia a deficiência do pai e o enfraquece.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Foi de cabeça curvada que, por fim, o rei precisou se aproximar daqueles “cuja reputação de justiça, prosperidade e compreensão ultrapassava em muito a sua” (Perera, p. 162), governantes dos desprezados e banidos por ele, com os quais foi construído “um estranho e misterioso lugar que florescera num deserto” e cujo poder e beleza sobrepunham o seu reino (Ibid., p. 161).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim como este rei, as pessoas tomadas pelo complexo do bode expiatório tornam-se limitadas, unilateralizadas e de ideias fixas. Visto que <strong>não conseguem se conectar ao Self</strong> (aquele que é ao mesmo tempo centro e totalidade psíquica), e a ele servir. Não conseguem viver o processo de ir se tornando quem realmente são. Permanecem presas ao papel coletivo e projetam neste coletivo sua direção, de modo que que não são capazes de “encontrar sua própria autoridade interior ou a integridade de sua consciência individual” (Ibid., p. 20).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto, os bodes expiatórios são, ao mesmo tempo, o rei e os exilados antes de escolherem serem regidos pela princesa (pelo feminino expulso que carrega os valores do material rejeitado). Para aprofundar um pouco mais essa questão, vamos falar do sacrifício hebreu do bode expiatório e de seus traços na atualidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-bode-expiatorio-e-a-manifestacao-atual-no-complexo"><strong>O bode expiatório e a manifestação atual no complexo</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Em várias culturas antigas havia cerimônias de reconciliação, expiação do mal e expulsão dos males (ou elementos tidos como estranhos), transferindo-os para animais, plantas ou objetos, como canal de “renovação do contato com o espírito que rege o povo” (ibid., p. 13). Na cultura hebraica, o <strong>sacrifício do bode expiatório</strong> era parte do ritual do <strong>Yom Kippur</strong>, o Dia do Perdão, ligado a um aspecto de confissão do pecado e expiação da culpa e parte das festividades do Ano Novo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O sacerdote fazia um ritual preliminar, resgatando a si mesmo e à sua família, o que o diferenciava da posição comum. Procedia, então, servindo a Deus em prol da comunidade, à distinção e oferenda dos bodes. <strong>Um deles era oferecido ao Senhor pelos pecados e sacrificado</strong>. Seu sangue purificava e sacralizava o santuário, o tabernáculo e o altar, aplacando o Deus irado e expiando Israel de suas transgressões e pecados. “<em>Representa a libido que é dedicada e liberada, por meio do sacrifício, para expiar o pecado e aplacar o Deus ultrajado</em>” (Ibid., p. 22). Os restos eram considerados impuros e cremados do lado de fora do acampamento. <strong>O outro bode</strong>, dedicado a <strong>Azazel</strong>, era retirado vivo do acampamento e mandado para o deserto. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Antes, o sumo sacerdote, com as mãos sobre a cabeça do animal, confessava e depositava nele todas as faltas e transgressões dos filhos de Israel. “<em>O errante bode exilado remove a nódoa da culpa. Enquanto portador do pecado, ele carrega os males confessados sobre sua cabeça para longe do espaço da consciência coletiva</em>” (Ibid., p. 22). <strong>Segundo Perera, é a libido ligada às necessidades instintivas ameaçadoras, aos impulsos descontrolados, sobretudo na sexualidade, agressão, cobiça e rebeldia</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sylvia-considera-que-atualmente-existe-uma-distorcao-patologica-da-estrutura-arquetipica-do-ritual-hebraico-na-psique-dos-individuos-identificados-com-o-complexo-do-bode-expiatorio-2022-p-23" style="font-size:18px">Sylvia considera que atualmente existe uma “<em>distorção patológica da estrutura arquetípica do ritual hebraico</em>” na psique dos indivíduos identificados com o complexo do bode expiatório (2022, p. 23).</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Primeiro pela “perda de conexão consciente com a matriz sagrada de onde provém o fluxo curativo e renovador”; segundo, pela “mudança radical na concepção de Azazel”. Ele, que era um deus-bode dos pastores pré-hebraicos, mesmo com o Deus único de Israel, não se tornou o opositor do Senhor, mas um estágio na repressão dessa divindade anterior, ligada também ao feminino e às <strong>religiões naturais</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os últimos patriarcas consideravam que ele levava as mulheres ao pecado (sensualidade) e os homens à guerra, relacionando-se, portanto, aos <strong>instintos eróticos e agressivos</strong>. <strong>Ao enviar os pecados a Azazel, remetia-se a libido à sua fonte transpessoal, reconhecendo que nenhum portador humano era capaz de carregá-los</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Progressivamente, Azazel passou a carregar o exagero defensivo da reação do Senhor contra o mundo do feminino e dos deuses pré-hebraicos. Foi transformado de deus em demônio, com o qual o “bom Deus” tem uma ruptura profunda. Tornou-se semelhante a Satã, o acusador do homem, que representa a Justiça divina dissociada de Sua Piedade (cf. Ibid., p. 26).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Azazel passou a ocupar, psicologicamente, o lugar do juiz arrogantemente puro, condenador e hipercrítico. Aquele que mantém o homem preso a um padrão de comportamento impossível de ser alcançado, pois as forças instintivas irrompem em sua frágil disciplina. É um padrão que não leva em conta os fatos da vida e o envolvimento do homem pela natureza (Ibid., p. 26).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nos-tempos-atuais-perdeu-se-a-conexao-com-o-transpessoal">Nos tempos atuais, perdeu-se a conexão com o transpessoal</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nos tempos atuais, perdeu-se a conexão com o transpessoal. Joga-se sobre uma pessoa o peso de um coletivo rejeitado, e ela o assume, sentindo-se forte para carregá-lo, apesar de não o ser; a libido aqui “foi simplesmente confinada, dispersada ou escondida, em vez de sacralizada” (Ibid., p. 28).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Os julgamentos morais da mãe ou do pai, que apontam para “como as coisas deveriam ser e não como elas são” (Ibid., p. 26), dão origem à rejeição do indivíduo na família, que constela o acusador, Azazel.</strong> “Os pais, ou outros, que escolhem um bode expiatório nessa forma moderna e inconsciente, são também, obviamente, vítimas do mesmo complexo” (Ibid., p. 43), assim como o rei do conto. </p>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-default" style="font-size:16px"><blockquote><p><em>“Descobrimos a nossa ‘alteridade’ em ‘outrem’, ou melhor, descobrimos outra pessoa que pensa, age, sente e deseja tudo aquilo que condenamos e desprezamos. Achamos o nosso bode expiatório e, satisfeitos, iniciamos o combate a ele”, ignorantes de que o “terrível adversário” é o “outro” que habita o próprio seio. <strong>Os que assim projetam parecem mais com o aspecto acusador, com seu modelo rígido e sua persona de boas maneiras, dependente da aprovação coletiva</strong>. Onde há uma lacuna, onde falta o verdadeiro saber, ainda hoje o espaço é preenchido com projeções. <strong>Continuamos quase certos de saber o que os outros pensam ou qual é o seu verdadeiro caráter.</strong><br><br><strong>Estamos convencidos de que certas pessoas possuem todos os defeitos que não encontramos em nós mesmos, ou de que se entregam a todos os vícios que naturalmente nunca seriam os nossos</strong>. <strong>Devemos ter o máximo cuidado para não projetar despudoradamente nossa própria sombra, pois ainda hoje nos encontramos como que inundados de ilusões projetadas</strong>. [&#8230;] Como poderá ver claramente, quem não se vê a si mesmo, nem às obscuridades que inconscientemente impregnam todas as suas ações?&#8221;(JUNG, 2020c, §140; 220b, §43)</em></p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Os indivíduos tomados pelo complexo do bode expiatório, inconscientemente, vêm em socorro dessa fragilidade dos pais e da família, da incapacidade de carregar a própria sombra, e carregam toda ela. Identificam-se tanto com a vítima como com o acusador, desqualificando atitudes do outro que não correspondem ao ideal de moral, mas sobretudo aceitando a rejeição e rejeitando-se a si mesmos como uma punição à própria existência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A consciência luta por corresponder aos imperativos coletivos e “ignora suas necessidades pessoais – exceto as necessidades de ser correto, de vencer ou de ser bem-sucedido, a fim de se encaixar; a fim de pertencer” (PERERA, 2022, p. 27). Carecem, assim, de uma identidade, vivendo mais nos papéis de adaptação assumidos, chamados por Jung de <strong>personas</strong>.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p><em>“Na verdade, o ego portador da sombra, alienado e errante, anseia de tal modo por ser aceito pelo coletivo que acaba adotando qualquer persona” (PERERA, 2022, p. 32).</em></p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-perderam-a-si-mesmos">Perderam a si mesmos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O próprio ego está enfraquecido, haja vista que sequer foi bem estruturado. Ego este que normalmente carrega a <strong>sombra familiar</strong>, coletiva e projetada, desde a sua formação na infância. Passam da vítima ao (auto)acusador o tempo todo; o tudo que assumem torna-se nada por ser abstrato, pois na verdade não vivem a responsabilidade pessoal – a sua parte. <strong>Parecem crianças, presos no estado infantil da participação mística, identificados com o inconsciente dos pais e sem conseguir distinguir o que é seu e o que é do outro</strong> (Cf. JUNG, 2020a, §83).</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p><em>“Sentem-se portadores de comportamentos e atitudes vergonhosamente perniciosos e que rompem relações – que perturbam a figura parental” (PERERA, 2022, p. 19).</em></p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Identifica-se com o que é tachado de “ruim”, “errado”, “feio”, uma vez que foi <strong>estigmatizado negativamente em seu próprio lar</strong> (mesmo nos casos em que a não adequação às normas vigentes tenha ocorrido por razões positivas).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-fardo-que-essas-pessoas-carregam-inclui-uma-ansiedade-profunda-existencial-pela-falta-de-conexao-com-o-todo-maior-e-sentimento-de-culpa">O fardo que essas pessoas carregam inclui uma <strong>ansiedade</strong> profunda, existencial, pela falta de conexão com o todo maior e <strong>sentimento de culpa</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Jung define este fardo como como a emoção experimentada quando nos desviamos da totalidade e nos afastamos do Self (centro regulador da psique, agravado pelo fato de que nos sentimos inaceitáveis para nós mesmos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O conto “A princesa determinada” não fala como viviam no deserto os expulsos do reino, apenas que ele se transformou com a chegada dela, que encontrou positividade ali. Será que eles não viam isso? Segundo Perera, os identificados com o bode expiatório vivem de tal forma presos ao seu exílio e ansiando retornar ao mesmo coletivo do qual foram banidos, que não veem valor nos elementos rejeitados (p. 133).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Seu exílio é marcado por um medo profundo de qualquer vínculo. O que é paradoxal com a intensa sede que experimentam “de ligação com o Outro, tanto em nível pessoal como em nível transpessoal, e mesmo por um apetite palpável pelo divino” (p. 36). Precisam de ajuda para se reconectar com a fonte, já que a conexão foi perdida há tantas gerações, e para viver relacionamentos autênticos e mútuos, nos quais<strong> recebam e se entreguem de verdade. Que caminho a princesa fez para conseguir isso</strong>?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-redencao-pelo-feminino"><strong>Redenção pelo feminino</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">No conto, a princesa foi presa pelo pai (o aspecto acusador do complexo do bode expiatório) porque se recusou a concordar que a vontade dele determinasse o seu destino. Existe algo em todo indivíduo que não se rende, e esse algo costuma estar ligado ao desejo, à sensibilidade, à sensualidade, enfim, ao princípio feminino. Provavelmente está preso por muito tempo, justamente porque não se rende à adaptação ao coletivo ao qual o indivíduo tomado pelo complexo se força. E, por isso mesmo, é visto por ele como rebelde e inferior, como aquilo cuja presença o enfraquece. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Contudo, é o que manteve a integridade para que não se esfacelasse totalmente, e cuja pressão pode ajudá-lo a dar um basta à sua situação, o início da transformação. A partir daí vem uma descida ao desconhecido mundo interior, representado pelo deserto, encarando a raiva, a solidão, o medo, o que supõe um sofrimento que pode se estender, mas que agora é o próprio.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-raiva-aqui-pode-ser-uma-manifestacao-do-self-que-defende-a-integridade-do-ego">A raiva aqui pode ser uma manifestação do Self, que defende a integridade do ego.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Neste deserto, a pessoa vai descobrir e encarar a si mesma, o que tem de limitações e riquezas, e com essas forças começar a construir a própria vida e a ter voz para expressar a individualidade (Cf. Ibid., p. 126). No deserto, primeiro a princesa se viu perdida numa terra inóspita, mas depois começou a encontrar ali o que precisava para viver, e até abrigo, calor e delícias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela assumiu suas necessidades e desejos, descobrindo que a satisfação não dependia do pai. Corresponde ao que Perera ensina de o ego, no processo de cura, dever “tornar-se ativo e responsável, até mesmo heroico, na busca de suprir suas carências” (2022, p. 105). <strong>Agindo com liberdade, iniciativa e responsabilidade é que pode se libertar do domínio acusador de Azazel</strong>, que se dá não imediatamente quando sai de casa, mas quando descobre um jeito de viver <strong>independente das ordens do pai</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-a-toa-o-titulo-do-conto-traz-a-principal-caracteristica-da-princesa-fundamental-para-essa-libertacao-determinada">Não à toa o título do conto traz a principal característica da princesa, fundamental para essa libertação: <strong>determinada</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Se alguém aguardava pelo resgate, ela não. Na prisão, manteve as próprias convicções e, assim, a integridade. No deserto, encontrou uma forma de viver, usou de modo criativo os recursos que tinha, valorizando-os (a gruta que servia de moradia, as nozes e frutos, o calor do Sol) e com eles ordenando a própria vida. E, após conhecer e se unir ao parceiro e viver um tempo em seu reino (a importância da integração profunda e vivenciada dos princípios feminino e masculino em si), construíram juntos um reino. Mas não sozinhos. Todo esse movimento que ela, como exilada, fez, convocou os demais. Ajudando-os a se abrirem e se conectarem, com humor e alegria, com leveza, que se contrapõe ao pesado fardo que carregavam. <strong>Quando os canais criativos se abrem é sinal de que os grilhões do complexo foram afrouxados. </strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Encontrar esses canais criativos é necessário àqueles que estão identificados com energias demoníacas, como os indivíduos portadores do estigma do bode expiatório. A forma criativa proporciona um receptáculo para acolher e dominar essas energias. (Ibid., p. 41)</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que era aquela comunidade, construída no deserto, senão uma totalidade em que cada elemento tem seu lugar e pode se harmonizar, de forma completa e útil, a uma vida multiforme, bem como pode escolher por quem ser regido? <strong>Esse contexto supõe uma abertura ao Self e suas mensagens. </strong>O que é essencial para o processo transformador do indivíduo que está tomado pelo complexo do bode expiatório.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-proprio-rei-o-pai-tao-obstinado-precisou-chegar-a-esse-lugar">O próprio rei, o pai, tão obstinado, precisou chegar a esse lugar.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Este rei, inclusive, só pode se aproximar do trono com novas atitudes: curvar a cabeça, achegar-se lentamente, erguer os olhos aos soberanos que não eram ele, reconhecer o que lhe ultrapassava e finalmente escutar palavras murmuradas pelo feminino &#8211; justo o que considerava rebelde e seu ponto fraco.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A transformação de alguém tomado pelo complexo do bode expiatório, como toda mudança profunda, não é fácil nem rápida. </strong>Todavia, esta transformação<strong> corresponde ao anseio de harmonizar e libertar a vida, ao qual o conto dá esperança</strong>. Sendo que, certamente, o acompanhamento psicoterapêutico contribui grandemente com esse processo.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo Novo: &quot;A carga do bode expiatório na dinâmica do complexo familiar&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/IxoyXbwIjsw?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="has-regular-font-size wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/tania-pulier/">Tania Pulier — Analista em formação/IJEP</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/lilian/">Lilian Wurzba — Analista Didata/IJEP</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>A natureza da psique</em>. Vol. 8/2. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph">___. <em>O desenvolvimento da personalidade</em>. Vol. 17. 14.ed. Petrópolis: Vozes, 2020a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">___. <em>Psicologia do inconsciente</em>. Vol. 7/1. 24.ed. Petrópolis: Vozes, 2020b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">___. <em>Psicologia e religião</em>. Vol. 11/1. 11.ed. Petrópolis: Vozes, 2020c.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PERERA, Sylvia Brinton. <em>O complexo do bode expiatório</em>: um estudo sobre a mitologia da sombra e da culpa. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2022. Edição do Kindle.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Acesse nosso site: <a href="https://www.ijep.com.br/">IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Quem Conta um Conto Nutre uma Alma</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/quem-conta-um-conto-nutre-uma-alma/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 18 Jul 2022 19:22:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[contos de fada]]></category>
		<category><![CDATA[expressões criativas. Psicologia Junguiana]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=5660</guid>

					<description><![CDATA[<p>Contos de Fada são registros imateriais da humanidade, relatando "as contabilidades do destino"  da humanidade diante das várias temáticas existenciais. Os contos de Fada, assim como os mitos e as religiões são núcleos arquetípicos que nos conectam com toda a ancestralidade, ou seja, o inconsciente coletivo presente em todos nós!</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Veículo mais adequado e capaz de trazer à consciência, de um modo assimilável essas “ricas substâncias” contidas nas raízes da psique.</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Von Franz</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>(Sobre os contos de fada)</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Os contos de fada seguram em tua mão e te conduzem para um mundo de magias. As transformações íntimas, a organização emocional e o repertório daquele que cresceu lendo ou ouvindo contos de fada são nítidas. Não se trata de nenhuma mágica, mágicas são para mágicos, trata-se sim, de magia. Os contos são como os verdadeiros magos, sugerem direções, indicam escolhas, acolhem auxiliando no processo de individuação. Triste daquele que ainda não consegue se emocionar e vibrar com os contos. Com certeza esses são os que não vislumbram o conto nem em seu potencial de despertar a criatividade presente no mais profundo do inconsciente, nem como mestre guia que ensina a retomar o curso natural da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Consequentemente, o valor deles (contos de fada) para a investigação científica do inconsciente é sobejamente superior a qualquer outro material. Eles representam os arquétipos na sua forma mais simples, plena e concisa. Nesta forma pura, as imagens arquetípicas fornecem-nos as melhores pistas para compreensão dos processos que se passam na psique coletiva. Nos mitos, lendas ou qualquer outro material mitológico mais elaborado, atingimos as estruturas básicas da psique humana através de uma exposição do material cultural. Mas nos contos de fada existe um material cultural consciente muito menos específico e, consequentemente, eles espelham mais claramente as estruturas básicas da psique. (Von Franz -A interpretação dos contos de fada – pág. 9)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pessoas “atoladas” na vida <em>arroba-algumacoisa</em> ou <em>hashtag-mevejam,</em> dificilmente mostram interesse pelosfeitos de príncipes e princesas, mesmo porque, se quer acreditam que existem. Só pudera, a linguagem dos contos é a mesma do inconsciente, desconhecida e incompreensível. Com essa dificuldade a não crença estabelece-se e revela adultos com a capacidade criativa diminuída e o poder de fantasiar comprometido. A falta da criatividade, ou seja, a falta de ações criadoras (criar + atividade), de se sentir capaz de criar algo pode causar frustrações. Estas são advindas da não concretização de desejos ou expectativas egóicas. Já a fantasia e o fantasiar, tão importante quanto a criatividade, quando em escassez pode servir como gatilho disparador do desânimo. Palavra essa que traduz o que ela mesma significa, composta pelo prefixo de negação <em>des</em> e da palavra <em>ânimo</em> que vem do latim para alma, espírito pensante, indica aquele sem alma, com o espírito evadido, prostrado. Um corpo sem espírito é um corpo inerte, consequentemente uma mente não pensante, vazias de ideias, de alguém que não reflete sobre si e o mundo. A ausência dos contos de fada nas vidas dos indivíduos pode criar um embotamento psíquico, tornando-as em pessoas autômatas, identificadas ao já estabelecido, restritas ao manter tudo como está e como é, tanto na vida, quanto no meio em que vive, cumpridoras e reféns apenas de normas e da ordem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Crianças que não foram inseridas neste mundo fantástico dos contos de fada facilmente percebemos o baixo repertório de vocábulos e capacidade imaginal. Geralmente o que vemos são crianças que tem a leitura substituída por jogos em celulares que não geram nenhum tipo de frustração, uma vez que basta a criança reiniciar o jogo caso tenha “perdido” aquela partida. Sabendo que é a partir das frustrações que o amadurecimento acontece. Nos contos de fada essa mesma criança iria vivenciar a frustração de não ganhar e a experiência do medo, ambas situações tão importantes para seu desenvolvimento psíquico, emocional e espiritual enquanto indivíduo. Vivenciar cada experiência prazerosa ou não prazerosa auxilia a criança a ultrapassar as fases da vida de forma plena e satisfatória, pois sentir medo e perder dão para ela muito mais prontidão para confrontar o mundo. Crianças que não tem medo do lobo mau vão ter medo do que? No mundo onde crianças são vítimas de abusos, de sequestros e de espancamentos, ter a noção do que é mal e do que é bom é imprescindível. A permissão que os contos dão em se ter medo poderiam evitar estes sequestros, abusos e agressões, pois uma vez estes temas foram trabalhados de forma lúdica, na medida certa e de forma profunda, nos contos de fada, produziram repertório e vocábulos afiados e prontos para que possam cindir como o agressor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro problema de ordem macro são os críticos desavisados que tentam fincar suas bandeiras com dizeres que defendem a extinção dos contos de fada. As justificativas vazias, adianto, são de que crianças devem ser apresentadas a histórias científicas, a fatos da realidade e que os contos estariam cheios de imoralidades. A primeira reflexão é sobre a definição de realidade. No ponto de vista destes críticos, a realidade psíquica está descartada, o que é um grande absurdo para a arteterapia, sobretudo de abordagem junguiana. Este problema só cresce quando olhamos para o que chamam de imoralidades. O simbólico, claramente presente e absolutamente bem representado pelo beijo do príncipe na princesa adormecida, dá vida para o ser beijado, e ao mesmo tempo sentido de vida para o ser beijante. Provavelmente, críticos e críticas desta ordem são feitas por pessoas que não foram devidamente apresentadas aos contos de fada. Com esse discurso, além de não capacitar as crianças para a vida adulta, partindo da errônea suposição de que estariam poupando-as de frustrações desnecessárias, permitindo que leiam apenas fatos confortáveis, incluindo as alterações dos contos originais, estão no mínimo subestimando a inteligência emocional, psíquica e negando a existência do inconsciente nas crianças.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não é difícil de encontrarmos pessoas que tem em seu repertório apenas os contos produzidos pela Walt Disney Company. Por isso, devemos ser gratos a companhia, do contrário poderíamos nunca ter tido acesso aos contos de fada, mesmo que distorcidos de sua originalidade. Há sem dúvida a possibilidade de você ser a exceção, mas caso não seja, a chance de você nunca ter escutado ou lido um dos contos catalogados pelos Griim na sua versão canônica é muito alta. A diferença está no tratamento que a Disney deu, suavizando os acontecimentos. Isso obviamente tornou-os mais vendáveis. Naturalmente é mais confortável saber que as irmãs da Cinderela apenas não conseguiram calçar o sapato de cristal por seus pés serem grandes demais para ele do que imaginar que uma das irmãs na tentativa de se tornar princesa corta parte do próprio pé.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Você deve classificar no seu ciclo de amizades algumas pessoas como criativas. São pessoas que conseguem encontrar saídas nunca pensadas anteriormente. Especialistas apontam que são pessoas com grande repertório e poder para fantasiar. Busque em sua memória o quão criativo você era em sua infância. Se os adultos que te rodeavam nessa fase foram vítimas de uma educação deficitária, provavelmente você também foi vítima. Esses adultos passaram a não acreditaram em seu potencial criativo para abstrair dos contos os ensinamentos pertinentes e cabíveis para sua idade, limitando o universo que há dentro da criança que você foi. Com isso em vista, sugiro que você leia contos de fada ampliando o repertório e o poder de fantasiar, para fortalecer o tecido psíquico. O lobo mau não é a representação do mau ele é o mal em si. Se você nunca vivenciou o bem e o mal não aprenderá a lidar nem com o bem e nem com o mal. Olhando para os contos como espelho do seu mundo interno você encontrará uma saída criativa para cada adversidade que a vida te apresentar. Pois, sua verdade psíquica pode ser trazida do inconsciente e tratada pelas fantasias, desde que você as deixe livre de censuras para que elas possam emergir. Nesta aproximação entre os mundos interno e externo, tese &#8211; antítese e síntese, o símbolo ganha a chance de favorecer a expressão da função transcendência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos mitos e contos de fada, como no sonho, a alma fala de si mesma e os arquétipos se revelam em sua combinação natural, como “formação, transformação, eterna recriação do sentido eterno (Jung OC 9/1 &#8211; §400)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muitos pais questionam se devem ou não contar contos de fada para as crianças. As preocupações giram em torno se determinadas passagens lhes fará mal, justificando que no conto são relatados acontecimentos cruéis com cenas horrendas que poderiam perturbar a inocência da criança. Questionam a história do lobo mau se não tiraria o sono da criança. Pensando assim, muitas vezes decidem eliminar tais contos, em consequência desnutrem a alma da criança, pois nos contos estão contidos acontecimentos que têm suas raízes nas forças construtivas nutridoras da humanidade, dimensão arquetípica. Relatar os contos canônicos aos filhos, dando-lhes vida, avivam as crianças com a variedade dos acontecimentos narrados, alimentando assim ao mesmo tempo suas próprias almas de adultos. Quanto mais as privarmos destes contos de dragões e bruxas, tanto mais fraca resultará sua alma de adulto. Mais tarde, quando as asperezas e as durezas da vida golpearem, lhes faltará o valor e a firmeza aprendido através dos acontecimentos dos contos de fadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em contraponto a esse racionalismo extremado, ainda há nas crianças por excelência, e no adulto de forma velada, um quanto de mundo fantástico. Não é difícil de você perceber crianças fantasiando, mesmo porque isso faz parte natural do seu desenvolvimento cognitivo, e de encontrar adultos dirigidos por fantasias geradoras em preconceitos e superstições irracionais, cheios de tabus. Isso mostra que o homem mantem, arquetipicamente, seu primitivismo conectando-o com aquilo que é lúdico, solto, livre, fantasioso e repleto de magias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A frequente retomada de formas e imagens arcaicas de associação observadas na esquizofrenia me forneceu, pela primeira vez, a ideia de um inconsciente que não consta apenas de conteúdos originários da consciência que se perderam, mas de uma camada ainda mais profunda, dotada de caráter universal, como são os motivos míticos característicos da fantasia humana. Esses motivos não são de modo algum inventados e sim descobertos, constituindo formas típicas que aparecem, de maneira espontânea e universal, independentes da tradição nos mitos, <strong>contos de fada</strong>, fantasias, sonhos, visões e ideias delirantes. Uma investigação mais cuidadosa mostra que se trata de atitudes típicas, de modos de agir, de formas de ideias e impulsos que devem constituir o comportamento tipicamente instintivo da humanidade. O termo arquétipo por mim escolhido coincide com o conceito tão conhecido na biologia de “pattern of behaviour”. Não se trata de maneira alguma de ideias herdadas, mas de impulsos e formas instintivas herdadas, tais como observamos em todo ser vivo. (Jung OC 3 &#8211; §565)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com tudo isso em vista, finalizo: a) Ressaltando a importância em ler/ouvir contos de fada para a fortalecer a malha psíquica; b) Evidenciando a incomensurável contribuição para o desenvolvimento da psique tanto de o adultos quanto de crianças; c) Destacando a importância deste recurso como instrumento de expressão da psique em settings&nbsp; arteterapêuticos e na clínica junguiana; d) Apontando para a expressão da transcendência alcançada nos contos através dos símbolos; e) Sugerindo o conto como metáfora do processo de individuação; f) Reconhecendo nos contos de fada o poder de união de partes cindidas sendo ele o terceiro e superior elemento com caráter numinoso e,; g) “<em>o conto de fada e o mito expressam processos inconscientes e a sua narração produz sempre um revivescimento e uma recordação de seu conteúdo, operando, consequentemente, uma nova ligação entre o consciente e o inconsciente</em>”. (Jung OC 9/2 &#8211; §280).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Willian Silva &#8211; Analista Junguiano em Formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Analista didata responsável: Waldemar Magaldi</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">BONAVENTURE, Jette. O que o conto conta. São Paulo. Edições Paulinas. Ano 1992.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CHEVALIER, J. e GHEERBRANT, A. Dicionário de símbolos. 21ªed. Rio de Janeiro. Editora: José Olympio, 2007.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FRANZ, M.L Von. A individuação nos contos de fada. São Paulo. Editora Paulinas. 1985.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______. A Interpretação dos contos de fadas. Rio de Janeiro. Editora Paulinas. 1990.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GRIMM, Jacob e Wilhelm. Contos completo. Lisboa. Temas e debates-círculo de leitores. 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A Natureza da Psique. OC 8/2. Rio de Janeiro Editora: Editora Vozes. 1984.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______. Memórias, Sonhos Reflexões. Edição Brasileira de 1975. São Paulo. Editora Círculo do Livro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. OC 9/1 &#8211; 5ª Edição. Rio de Janeiro. Editora Vozes. Ano: 2009.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______. Aion, Estudo sobre o simbolismo do Si-Mesmo. OC 9/2 &#8211; 3ª Edição. Rio de Janeiro. Editora Vozes. Ano: 2010.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______. Psicogênese das Doenças Mentais. OC 3. Rio de Janeiro. Editora Vozes. Ano: 2008.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______. O Homem e seus Símbolos. 2ª Edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Ano: 1964.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SILVEIRA, Nise da. Imagens do Inconsciente. Rio de Janeiro. Editora Alhambra, Ano: 1981.</p>



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