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	<title>Arquivos corporalidade - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos corporalidade - Blog IJEP</title>
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		<title>Redescobrindo a corporalidade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Michella Paula Cechinel Reis]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 Oct 2021 21:01:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[corpo e psicologia]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">O livro infantil “Em busca da feição real”, escrito por Ko Moon-Young, autora ficcional do drama&nbsp;<strong>Tudo bem não ser normal</strong>, narra a história de três personagens e entre eles há a princesa de lata barulhenta e oca. Ela sai em viagem junto com os dois amigos em busca de sua identidade. No caminho, ela encontra um palhaço nu dançando em um campo florido cheio de espinhos. E a princesa de lata pergunta para o palhaço:&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211; “Porque você está dançando com tanto afinco, mesmo sendo machucado pelos espinhos das flores? E o palhaço respondeu: &#8211; “Achei que era o único jeito de as pessoas prestarem atenção em mim. Mas está doendo muito, e ninguém me olha”. Então, ela começa a dançar com o palhaço, pois não sentiria nada por seu corpo ser de lata. Ao final, após serem raptados por uma bruxa e ter ficado presa em um buraco, seu resgate foi feito por um dos amigos, o homem caixa, que para tirá-los de lá, teve que ter coragem de tirar aquela caixa da cabeça e encarar o mundo. Após o resgate, ao ver o amigo livre da caixa, começou a rir e o corpo de metal que a envolvia caiu no chão. Assim, ela e os amigos encontraram sua feição real, ou seja, eles passaram por um processo de maior conscientização sobre si mesmos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um outro conto muito simbólico, que remete uma ideia similar é o Mágico de Oz, onde Doroth e seus amigos precisam chegar ao mágico de Oz para encontrar as capacidades perdidas, como a de sentir, pensar ou ser corajoso. Isso é relatado no conto do Cavaleiro preso na armadura que precisa aprender a tirá-la, e assim vai, a mesma ideia perpassa diversos contos, ou seja, o uso de uma roupa metálica ou de outro material, que impede essa relação com as pessoas e o meio circundante.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que a roupa de metal fazia por essa princesa era dar uma falsa ilusão de proteção ou barreira, e consequentemente, tirava sua capacidade de sentir, seja fisicamente ou emocionalmente, presa a um complexo que a limitava. A roupa a mantinha presa nas questões inconscientes e sua relação com o mundo era artificial. Jung, nos relata que o indivíduo que depende de modo preponderante do inconsciente, e é menos propenso à escolha consciente, tem a tendência para um acentuado conservadorismo psíquico, criando uma roupa metálica ou uma inflexibilidade e dificultando as relações. Considerando a integralidade do ser humano, quando temos uma paralisia da energia psíquica, o todo sofre, a alma e o corpo, criando dificuldades nas diferentes dimensões (trabalho, família, sexualidade/relação amorosa, amizades/social, etc).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung nos apresenta a relação oposta entre corpo e a alma, mas que na verdade, essa separação é apenas para que a razão consiga compreender os dois lados da mesma realidade, uma separação conceitual, quando de fato, o corpo e a alma constituem a mesma coisa (2013-a,§619). A corporalidade e a sexualidade são aspectos da vida humana e é importante para o terapeuta ter em mente essa vivência. Isso mostra muito da relação que a pessoa consegue estabelecer com os outros e com seu próprio corpo, as influências culturais e sociais, além dos conteúdos inconscientes coletivos e individual.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">No período pré-patriarcal no ocidente, onde as culturas matrísticas predominavam na Europa, a relação das pessoas com seu corpo, sua sensualidade e sua sexualidade era algo natural, parte da vida vivida. Com a dominação desses povos pelos indoeuropeus, uma nova cultura se estabeleceu, e as relações entre homens e mulheres foi se alterando, gerando a escravização e submissão das mulheres e o sexo era visto para fins de procriação, e não pelo prazer natural da relação físico afetiva. Essas mudanças foram reforçadas com o domínio da Igreja Católica, que afastou o homem e a mulher ainda mais de seus corpos, e imbuindo uma conotação pecaminosa e suja para o sexo e sacralizou o corpo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O iluminismo e a modernidade não ajudaram nessa dissociação com o corpo, pois ressaltou a ciência e a razão como fontes de verdade, ou seja, a mente é o que importa. O corpo e a natureza podem ser dominados e subjugados por ela. Contudo, isso não se reflete na vida das pessoas. Hoje mais do que nunca percebemos o mal que estamos fazendo ao meio ambiente, aos outros animais e para a própria humanidade. As doenças de caráter imunológico ganharam muita força, e como Jung nos apresenta, não existe essa tal dissociação entre corpo, mente e espírito. Somos uma única entidade, que sofre quando uma parte de nós tenta dominar ou enfraquecer as outras.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hillman nos fala sobre o arquétipo puer-senex, a energia e impulsividade da juventude e a estabilidade e normatividade da velhice. Apesar de parecerem opostas, essas duas características são, na verdade, complementares, pois a unilateralidade de uma ou de outra nos leva nada mais, nada menos que à paralisia. Para que a energia psíquica circule, sem ficar demasiado tempo em um único aspecto, a multiplicidade é a chave.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O aspecto puer, quando ferido, sangra sem conseguir coagular, se expondo e para se proteger, a pessoa se desvincula de tudo e todos, seguindo seu caminho sem rumo e objetivo. O aspecto senex já apresenta uma ferida cicatrizada, fibrosada, ou seja, um tecido que não se regenera, mais enrijecido, e dessa forma, mostra-se mais experiente pelas vivências, contudo, preso a elas quando não consegue mais se conectar com seu oposto puer.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A sexualidade para a personalidade fixada no aspecto puer segue o mesmo caminho, compulsividade e dificuldade de estabelecer vínculos afetivos (Don juanismo), tanto para homens quanto para mulheres, ou seja, uma sexualidade sem alma. A compulsividade sexual e o pensamento mágico, inerente as mentes mais jovens, podem levar a pessoa a comportamentos de risco na busca pelo prazer, colocando-se vulnerável a abusos, violência e até mesmo à morte.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa característica da sexualidade sem vínculos afetivos do puer se assemelha muito a um comportamento narcisista sedutor, que apresenta uma insensibilidade para com o parceiro(a) sexual transformando-o em objeto sexual (ref. LOWEN, 1983). É uma sexualidade vivida sem alma e sem corpo. Como estabelecer uma relação afetiva ou sexual quando estamos presos em uma roupa metálica?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Da mesma forma, hoje notamos academias cheias de pessoas buscando um corpo perfeito ou imagem perfeita de si. Essa busca pelo corpo bonito e apresentável não significa que esse indivíduo está conectado a seu corpo. Quantas lesões não ocorrem pelos excessos?! Igual ao palhaço nu do conto, que se machuca no espinheiro para chamar a atenção e receber afeto. O vincular-se ao seu corpo também faz parte do vincular-se a sua própria alma, ou seja, estar inteiro. Jung nos fala que a separação entre corpo e alma é uma operação artificial, uma discriminação que se baseia menos na natureza das coisas do que na peculiaridade da razão que conhece. Existe uma intercomunicação entre as características corporais e psíquicas (2013-c).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung transcorre sobre o indivíduo que é infantil e ainda está ligado a imago parental ou ao ambiente da infância, reagindo perante o mundo como uma criança diante os pais, sempre exigindo amor e recompensa afetiva imediata. Esse indivíduo ainda não é capaz de viver sua própria vida e encontrar sua própria personalidade (2013-b, §431).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O aspecto puer pode ser relacionado ao complexo materno, seja pela ausência ou pelo excesso de cuidados da mãe, gerando uma eterna busca por ela ou uma dependência excessiva.&nbsp;Segundo Maturana &amp; Verden-Zoller,&nbsp;“a criança deve viver na dignidade de ser respeitada e respeitar o outro para que chegue a ser um adulto com o mesmo comportamento, vivendo como um ser com responsabilidade social, qualquer que seja o tipo de vida que lhe caiba”. E para isso acontecer, precisamos respeitar a relação materno-infantil, ou seja, a criança precisa crescer em um ambiente cercada de amor e cuidado, e não da exigência e da obediência (pág. 20).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A paralisação do indivíduo pode se revestir de mau humor, sensibilidades ridículas, desconfiança e ressentimentos, com os quais pretende justificar sua petrificação. A paralisia da energia psíquica apresenta aspectos desagradáveis. Em geral, a personalidade consciente se revolta contra a manifestação do inconsciente e combate suas reivindicações (JUNG, 2013-b, §458-459). Nesse combate, sintomas físicos podem surgir, distúrbios de comportamento, neuroses, etc.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Conger faz uma reflexão interessante sobre a sombra, ela está no corpo de nossa família, que inconscientemente nos determina de certa forma. A maneira de andar da mãe, os ombros curvos do pai, e assim vai. Devemos buscar nosso processo de individuação tanto física como psicologicamente, superando esse corpo familiar. Da mesma forma, o quanto da nossa sexualidade e de nossa relação com o corpo não sofre influência familiar, através de um encouraçamento físico ou pelos complexos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com todo esse panorama, como não haver impactos nas relações? E como um ego afinado ao complexo de puer não sofreria com toda essa dissociação? Para esconder seus sentimentos, seu desejo de amar e ser amado, o puer busca irrefreadamente, e muitas vezes de forma inconsequente, afeto, mesmo que não haja vínculo nas relações. Como no mito de Narciso, o apego a uma imagem foi o foco das atenções, não havendo amor-próprio ou relações com o outro, essa característica hedonista precisou morrer para que o novo se fizesse, e pudesse se reconhecer e começar a se relacionar.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O processo de individuação desenvolvido por Jung trata da integração entre o consciente e o inconsciente, ou seja, a superação do binômio ego-sombra. Quando trazemos a consciência nossos aspectos sombrios, nos aproximamos dos conteúdos inconscientes que nos habitam. Permitindo avanços do nível de autoconsciência. Para o indivíduo puer, se aproximar de seu contrário, ou seja, a criança divina, o senex, também precisa buscar o lado mais maduro e sensato do velho sábio, isso pode ajudá-lo a encontrar um caminho do meio. E dessa forma, possa se reconectar com o mundo e consigo mesmo, podendo estabelecer relações amorosas e uma corporalidade mais plenas. E assim como a princesa do conto deixar-se tocar e se libertar da roupa metálica.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Imagem de Nolah Reis Sifuentes</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Michella Paula Cechinel Reis Membro Analista em formação do IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">E. Simone D. Magaldi membro didata do IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências:&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">CONGER, J.P. Jung e Reich: o corpo como sombra. São Paulo: Summus, 1993.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">HILLMAN, J. 1926 –&nbsp;<em>O livro do puer: ensaios sobre o arquétipo do&nbsp;<u>Puer aeternus</u></em>. São Paulo: Paulus, 1998.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.&nbsp;<em>A natureza da psique: a dinâmica do inconsciente</em>. Tradução de Mateus Ramalho Rocha. 10 ed. Petrópolis: Ed. Vozes, 2013, §619.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">_____.&nbsp;<em>O segredo da flor de ouro: um livro de vida chinês</em>. 15 ed. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2013-a.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">_____.<em>&nbsp;Símbolos da transformação</em>. 9 ed. Petrópolis: Ed. Vozes, 2013-b.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">_____. Tipos psicológicos. 7 ed. Petrópolis: Vozes,&nbsp;§979, pág. 529, 2013-c.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">YONG, JO.&nbsp;<em>Em busca da feição real: um conto de fadas de Ko Moon-Young</em>. 1 ed. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">MATURANA, H.R.; VERDEN-ZOLLER, G.&nbsp;<em>Amar e brincar: fundamentos esquecidos do humano do patriarcado à democracia</em>. Tradução Humberto Mariotti e Lia Diskin. São Paulo: Palas Athena, 2004.&nbsp;</p>



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