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	<title>Arquivos Criança - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Wed, 20 May 2026 19:51:31 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos Criança - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Será que é tudo Culpa dos Pais?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sera-que-e-tudo-culpa-dos-pais/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 20 May 2026 12:42:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[análise junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[complexos parentais]]></category>
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		<category><![CDATA[desenvolvimento da personalidade]]></category>
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		<category><![CDATA[maternidade e paternidade]]></category>
		<category><![CDATA[pais e filhos]]></category>
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		<category><![CDATA[setting analítico]]></category>
		<category><![CDATA[setting terapeutico]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A pergunta “é tudo culpa dos pais?” frequentemente emerge diante do sofrimento psíquico infantil, sustentando uma visão causal e moralizante. A Psicologia Analítica propõe um deslocamento dessa lógica, enfatizando que a influência parental se dá sobretudo em nível inconsciente. Leia o artigo aqui.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/sera-que-e-tudo-culpa-dos-pais/">Será que é tudo Culpa dos Pais?</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>Um olhar junguiano sobre a culpabilidade dos pais na personalidade dos filhos</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo</strong>: A pergunta “<strong>é tudo culpa dos pais</strong>?” frequentemente emerge diante do sofrimento psíquico infantil, sustentando uma visão causal e moralizante. A Psicologia Analítica propõe um deslocamento dessa lógica, enfatizando que a influência parental se dá sobretudo em nível inconsciente. A criança, em estado de participação mística, encontra-se imersa no campo psíquico dos pais, sendo profundamente afetada por seus conflitos não elaborados, afetos reprimidos e vidas não vividas. A compreensão de que o inconsciente dos pais atua como um solo invisível na constituição da psique infantil, desloca a noção de culpa para a de responsabilidade psíquica. Ainda assim, a criança não é determinada exclusivamente por esse campo, sendo também atravessada pelo inconsciente coletivo e pelo seu próprio processo de individuação</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-pergunta-sera-que-e-tudo-culpa-dos-pais-emerge-com-frequencia-tanto-na-clinica-quanto-no-discurso-cultural-contemporaneo" style="font-size:18px"><strong>A pergunta: “Será que é tudo culpa dos pais?” emerge com frequência tanto na clínica quanto no discurso cultural contemporâneo.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Diante do sofrimento psíquico, é comum buscar causas objetivas e responsáveis diretos (e externos). Muito frequentemente, procura-se culpabilizar os pais por todo sofrimento psíquico dos filhos, muitas vezes não levando em conta as dinâmicas inconscientes &#8211; pessoais e coletivas &#8211; que nos tomam a todos de assalto. Essa busca constante por um culpado, no entanto, tende a simplificar a imensa complexidade da alma humana.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-psicologia-analitica-oferece-uma-perspectiva-distinta-dessa-logica-reducionista-causal-e-moralista-deslocando-a-nocao-de-culpa-para-uma-compreensao-simbolica-e-relacional-do-desenvolvimento-psiquico" style="font-size:16px">A Psicologia Analítica oferece uma perspectiva distinta dessa lógica reducionista, causal e moralista, deslocando a noção de culpa para uma compreensão simbólica e relacional do desenvolvimento psíquico.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Jung reconhece a profunda influência dos pais na constituição da psique infantil, mas recusa a ideia de uma determinação mecânica ou de uma culpabilização consciente; até porque ninguém nasce como uma tábula rasa. Para ele, a criança não é afetada apenas pelos comportamentos explícitos dos pais, mas sobretudo pelo estado inconsciente de suas almas. Assim, a questão central deixa de ser a culpa e passa a ser a responsabilidade psíquica. Afinal, <strong>o inconsciente parental atua como um terreno invisível, onde a semente da psique infantil irá, inevitavelmente, germinar</strong>.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:18px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:1.4"><em>Também não está resolvido o assunto se os pais apenas procuram viver de acordo com os valores morais geralmente aceitos, porque o cumprimento de costumes e leis pode servir&nbsp; igualmente para encobrir uma mentira de tal modo sutil que, por isso mesmo, escape à percepção de outras pessoas. (JUNG, 2013, p. 49)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-obra-o-desenvolvimento-da-personalidade-jung-afirma-que-a-crianca-vive-inicialmente-em-um-estado-de-profunda-indiferenciacao-em-relacao-ao-mundo-dos-pais" style="font-size:17px">Na obra “<strong>O Desenvolvimento da Personalidade</strong>”<em>,</em> Jung afirma que a criança vive inicialmente em um estado de profunda indiferenciação em relação ao mundo dos pais.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ele descreve essa condição como uma&nbsp; participação mística, na qual a criança não se percebe como um eu separado. Nesse contexto, os conteúdos inconscientes dos pais, seus conflitos não elaborados, medos, expectativas e frustrações, exercem influência direta sobre a psique infantil. Jung enfatiza que a criança é particularmente sensível não ao que os pais dizem, mas ao que eles são. Nas palavras do autor:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px;line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph"><em>O exemplo é o melhor dos mestres! Isto se verifica aqui como uma verdade, que já a muito é conhecida e que ao mesmo tempo é inexorável. Neste sentido o que importa não são palavras boas e sábias, mas tão somente o agir e a vida real dos pais. (JUNG, 2013, p. 49)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Essa ideia desloca nossa reflexão do campo moral para o campo simbólico e inconsciente, indicando que o sofrimento infantil muitas vezes expressa aquilo que não foi simbolizado ou integrado pelos adultos responsáveis. As crianças, com sua sensibilidade aguçada, ou em termos junguianos, ainda imersas no inconsciente dos pais, frequentemente atuam como &#8220;antenas&#8221; emocionais, absorvendo as tensões não ditas do sistema familiar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-outras-palavras-as-dinamicas-inconscientes-dos-pais-deveriam-receber-uma-maior-atencao-em-favor-da-qualidade-de-vida-dos-filhos-e-ate-certo-ponto-para-lhes-garantir-a-liberdade-de-viverem-suas-proprias-vidas" style="font-size:16px">Em outras palavras, as dinâmicas inconscientes dos pais deveriam receber uma maior atenção em favor da qualidade de vida dos filhos, e até certo ponto, para lhes garantir a “liberdade” de viverem suas próprias vidas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com Jung (2013, p. 52, § 87), via de regra,&nbsp; o fator que atua psiquicamente de um modo mais intenso sobre a criança é a vida que os pais ou antepassados não viveram. Isso nos mostra que nossos sonhos engavetados e frustrações não elaboradas podem se tornar literalmente o “peso nos ombros” da geração seguinte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung é cuidadoso ao falar de culpa moral dos pais. Em seus textos sobre educação e psicoterapia, ele ressalta que muitos adultos carregam complexos não elaborados que inevitavelmente se manifestam na relação com os filhos, sem que haja nenhuma intenção consciente. Em vez de falar de culpa, Jung traz o conceito de responsabilidade psíquica, que não implica acusação, mas o reconhecimento das limitações e dificuldades dos próprios cuidadores.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-assumir-essa-responsabilidade-exige-profunda-coragem-para-olhar-para-dentro-e-acolher-as-proprias-imperfeicoes" style="font-size:17px">Assumir essa responsabilidade exige profunda coragem para olhar para dentro e acolher as próprias imperfeições.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px;line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>Não é importante que os pais nunca cometam erros, isso seria impossível para seres humanos, mas que os reconheçam como erros. Não é a vida que deve ser detida, mas a nossa inconsciência; primeiramente a do educador, isto é, a própria, pois cada um é educador do seu próximo tanto para o bem quanto para o mal. (JUNG, 2013, p. 90, § 155)</em><em></em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nos-que-somos-pais-sentimos-na-pele-a-dificuldade-e-a-bencao-que-e-a-criacao-de-filhos" style="font-size:17px">Nós, que somos pais, sentimos na pele a dificuldade e a bênção que é a criação de filhos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Entendemos, no amor e na dor, que um filho é completamente diferente do outro, e que a mesma educação não traz os mesmos resultados para ambos. Na minha experiência como mãe, tenho duas filhas com uma diferença de seis anos entre elas. Entre os dois nascimentos, vivenciei duas gestações perdidas, episódios de dor que naturalmente deixaram suas marcas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A primeira nasceu com um temperamento completamente diferente da segunda. Claro que as experiências e a visão de mundo delas dependeram de mim: tanto das minhas próprias vivências em diferentes momentos das gestações quanto durante os primeiros anos de suas vidas. A primeira teve sete meses de atenção minha exclusivamente dedicados a ela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A segunda, infelizmente, foi privada dessa atenção exclusiva, uma vez que, aos seus 40 dias de vida, precisei voltar ao trabalho; e, embora minha casa fosse ao lado do trabalho, não pude dar a ela a mesma presença. Mesmo tentando dar a ambas a mesma educação, eu já não era a mesma pessoa seis anos após a primeira gestação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-sentido-fica-evidente-que-todas-as-experiencias-vividas-por-nos-e-pelos-filhos-parecem-determinar-sensibilidades-futuras" style="font-size:16px">Nesse sentido, fica evidente que todas as experiências vividas por nós e pelos filhos parecem determinar sensibilidades futuras.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para mim, se fortalece o conceito de inconsciente coletivo e pessoal quando, independentemente do mesmo estímulo, cada um reage a seu modo. Somado a toda essa revisão do contexto da maternagem se encontram também todas as minhas quinas, curvas e pontos cegos da minha própria personalidade e dos conflitos conscientes e inconscientes que estavam em curso. <strong>Não somos mesmo tábula rasa</strong>; e aqui trago também minha percepção da espiritualidade manifestada em cada um de forma única e autônoma, confirmando que somos singulares e temos, cada um, um <em>dharma </em>a ser cumprido. Essa dimensão espiritual dialoga com o processo de individuação, no qual a alma busca seu propósito e sua totalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Voltando para Jung, ele reconhece a força das influências parentais, mas não considera o indivíduo condenado a elas. Cada um tem seu universo único e trilha seu caminho de evolução de forma independente. O&nbsp; processo de individuação pode representar a possibilidade de diferenciação da psique em relação às imagos parentais e aos complexos herdados. O desenvolvimento da consciência e a percepção de nossa luz e sombra permite uma relação mais honesta com os conteúdos inconscientes. Assim a Psicologia Analítica não busca apontar culpados, mas favorecer a integração simbólica das experiências vividas, possibilitando que o indivíduo assuma sua própria trajetória psíquica. Talvez aqui a pergunta “Será que é tudo culpa dos pais?” se transforme em outra: <strong>O que pode ser conscientizado, elaborado e transformado</strong>?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-capacidade-de-tomar-consciencia-de-nossas-sombras-e-o-primeiro-passo-para-alcancar-a-tao-almejada-evolucao" style="font-size:17px">A capacidade de tomar consciência de nossas sombras é o primeiro passo para alcançar a tão almejada evolução.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Também devemos nos lembrar que a individuação não é um processo linear. Somos apenas humanos e cometeremos erros ao longo do caminho. A escada é infinita e eventualmente daremos passos para trás. Autossabotagem, percursos equivocados, tudo parte do processo evolutivo da nossa longa jornada rumo à individuação. Reconhecer essas falhas, sem autojulgamento destrutivo, é essencial para continuarmos avançando.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-luz-da-psicologia-analitica-a-relacao-entre-pais-e-filhos-revela-se-complexa-simbolica-e-bastante-inconsciente" style="font-size:17px">À luz da Psicologia Analítica, a relação entre pais e filhos revela-se complexa, simbólica e bastante inconsciente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Jung reconhece a profunda influência dos pais no desenvolvimento psíquico dos filhos, mas não abraça explicações simplistas baseadas na culpa. A criança não sofre apenas por falhas objetivas, mas também por aquilo que circula silenciosamente no campo familiar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dessa forma a contribuição junguiana permite uma abordagem não acusatória, na qual pais e filhos são compreendidos como participantes de um processo relacional mais amplo. Nesse sentido, à medida que vamos caminhando rumo a nós mesmos, o processo de individuação traz como possibilidade atravessar e transformar essas heranças, além de proporcionar uma compreensão do outro de maneira mais inteira e respeitosa. Desta maneira, abre-se espaço para uma relação mais consciente e mais empática, que compreende as influências das dimensões inconscientes e o destino psíquico que nos cabe e que cabe ao outro, tomando para nós o que é nosso e devolvendo ao outro o que a ele pertence.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Conduzir a educação dos filhos é, afinal, conduzir o nosso próprio caminho. Percebo que muito mais do que ensinamos aprendemos com eles. Talvez eles não tenham vindo apenas aprender conosco, mas sim nos ensinar a caminhar com mais leveza e finalmente fluir como o rio. Costumo usar a seguinte metáfora na clínica: deite de costas sobre as águas do rio e se deixe flutuar, ele sabe o caminho e inevitavelmente chega lá. Nadar contra a correnteza com certeza não é uma boa ideia!</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/andreia-guiotti-di-gregorio/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/andreia-guiotti-di-gregorio/">Andreia Guiotti di Gregório &#8211; Membro Analista em Formação do IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi &#8211; Membro Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencia-bibliografica" style="font-size:17px"><strong>Referência bibliográfica</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <em>O desenvolvimento da personalidade</em>. 14. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/sera-que-e-tudo-culpa-dos-pais/">Será que é tudo Culpa dos Pais?</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Uma abordagem analítica da dermatite atópica no bebê</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/uma-abordagem-analitica-da-dermatite-atopica-no-bebe/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Selma Canoas]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 20 Oct 2021 20:46:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[bebê]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicossomática]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Toda vez que um pediatra recebe em seu consultório um bebê com dermatite atópica sabe que tem à sua frente um caso desafiador, pois não&#160;é apenas a criança quem sofre, e sim toda a família. Dependendo da gravidade, este bebê pode se apresentar irritado, ter o sono interrompido pelo prurido, estar incomodado com as roupas, [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Toda vez que um pediatra recebe em seu consultório um <strong>bebê com dermatite atópica</strong> sabe que tem à sua frente um caso desafiador, pois não&nbsp;é apenas a criança quem sofre, e sim toda a família. Dependendo da gravidade, este bebê pode se apresentar irritado, ter o sono interrompido pelo prurido, estar incomodado com as roupas, estar choroso e descontente. O dia a dia de toda a família muitas vezes também&nbsp;é afetado pela condição do bebê. O tratamento com pomadas, anti-histamínicos, corticoides e às vezes até imunossupressores embora sejam eficazes, são de resposta lenta, e muitas vezes não o suficiente para aplacar todo este sofrimento. <strong>Neste momento ampliar o olhar para além das questões de pele do bebê é&nbsp;extremamente necessário para o bom andamento clínico e psicológico de todos os envolvidos.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">A <strong>dermatite atópica</strong>&nbsp;é uma doença inflamatória de pele, de caráter crônico e recidivante, que normalmente se inicia antes dos cinco anos, podendo mesmo iniciar-se numa idade tão precoce como em bebezinhos de dois ou três meses . Sua causa é multifatorial, existindo uma inter-relação entre fatores genéticos, imunitários, ambientais, farmacológicos e <a href="https://blog.sudamar.com.br/psicossomatica/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">psicossomáticos</a>. A característica principal é a pele seca com prurido, que levam a ferimentos pelo ato de se coçar. As erupções cutâneas podem se espalhar pelo rosto, couro cabeludo, pescoço, braços, pernas e atingir grandes superfícies do corpo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sabemos que a <strong>pele é o manto de revestimento que recobre o organismo</strong> e separa o meio externo do meio interno, e é&nbsp;composta três camadas: a epiderme é a camada mais externa; a derme é&nbsp;a camada intermediária; e a hipoderme que é a camada mais profunda, também&nbsp;é conhecida como tecido subcutâneo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Durante a embriogênese humana, na terceira semana após a fecundação do óvulo pelo espermatozoide se dá&nbsp;a fase de gastrulação. Nesta fase acontece a diferenciação das três camadas germinativas que são as precursoras de todos os tecidos do embrião humano: ectoderme, mesoderme e endoderme. <strong>Epiderme e sistema nervoso central e periférico se original do mesmo folheto germinativo: a ectoderme.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Na pele temos a presença de células de defesa e de fibras nervosas do sistema sensorial e sistema nervoso autônomo, estabelecendo-se aqui uma comunicação bidirecional entre sistema imune e sistema nervoso. As evidências apontam hoje para o fato de que existe uma <strong>rede neuro-imuno-cutânea-endócrina que faz a ligação entre mente e pele</strong>, devido à existência de uma complexa relação entre nervos, células cutâneas, células imunitárias, secreções de neurotransmissores, neuropeptídios, neuro-hormônios e citocinas que se dão na pele.(AZAMBUJA, 2000)&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Montagu (1988) considera a pele como a porção exposta do sistema nervoso, ou o sistema nervoso como a parte escondida da pele. É&nbsp;um&nbsp;órgão altamente sensível&nbsp;às emoções, sem que estas sejam necessariamente conscientes. Segundo este autor, a pele é o maior órgão de comunicação visível do ser humano e, especialmente no bebê,&nbsp;é o maior órgão de percepção. Ela é o meio pelo qual o mundo externo é percebido, e através dela expressam-se os sentimentos. Sua cor, textura, umidade, secura, e cada um de seus demais aspectos refletem nosso estado de ser psicológico e também fisiológico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Este autor estudou o efeito da experiência tátil mediada pela pele sobre o desenvolvimento humano, e <strong>constatou que a estimulação cutânea em recém-nascidos exerce uma influência altamente benéfica sobre seu sistema imunológico</strong>. O toque, o contato físico carinhoso, a proximidade pele a pele da mãe com a criança são de fundamental importância para o desenvolvimento físico e emocional desta. Também destaca que a resposta que a mãe vai dirigir ao seu filho recém-nascido depende em grande medida de suas experiências quando bebê e criança e, em menor medida, da aprendizagem e maturação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sptiz (1972) estudou particularmente a dermatite atópica e observou que na sua etiologia, além da predisposição genética da criança, existe um <a href="https://blog.sudamar.com.br/complexo-materno-negativo-um-caminho-para-o-inconsciente/">fator psicológico representado pela&nbsp;<em>relação mãe-filho</em>.</a> Em seus estudos, Spitz percebeu que estas mães evitavam tocar seus filhos e entregavam com facilidade suas crianças para outros cuidadores para que fossem melhor cuidados, e chamou esta atitude de hostilidade inconsciente disfarçada de angústia, numa <a href="https://blog.sudamar.com.br/educar-criancas-um-desafio-que-envolve-diferentes-olhares/">mãe com personalidade infantil</a>. Ressalta que as experiências táteis do lactente são as mais importantes para o processo do desenvolvimento do bebê principalmente neste período pré-verbal e, no entanto, estas mães transmitiam sinais ambíguos e incoerentes aos seus filhos. <strong>Estas atitudes das mães eram menos dependentes de sua relação consciente com a criança e mais do clima variável de seu inconsciente</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Mas qual a dinâmica inconsciente envolvida neste relacionamento?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para Neumann (1995) o ser humano apresenta um diferencial em relação aos outros mamíferos: o fato de nascer bastante incompleto e necessitar continuar seu desenvolvimento tanto físico quanto psíquico no ambiente extra-uterino.&nbsp; e coloca o primeiro ano de vida da criança como fazendo parte do que chamou de fase pós uterina ou pós natal do desenvolvimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neumann (1995) utiliza a imagem mitológica do <strong>uroborus para descrever esse período pré egóico</strong>, onde a serpente circular que engole a própria cauda representaria o útero que protege o germe do ego em seu centro, enquanto não exista na criança uma personalidade delimitada o suficiente para permitir o confronto com o meio ambiente. Esta realidade uterina se mantém após o nascimento para ir se desfazendo aos poucos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesta fase pré egóica, a criança vive em uma relação primal de extrema importância com sua mãe, onde a criança ainda está contida nesta, embora seu corpo já tenha nascido. Neste período a experiência polarizada do mundo com sua dicotomia sujeito-objeto ainda não existe, o que existe é uma unidade primária mãe-filho. Aqui, a criança vive mergulhada “[&#8230;] <em>num fluído-mãe psíquico, no qual tudo se encontra ainda em suspensão, dele não se tendo cristalizado os pares de opostos, ego e Self, sujeito e objeto, indivíduo e mundo</em>”. (NEUMANN, 1995, p. 15).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como a criança ainda não tem desenvolvida a sua consciência, não existe um “eu” claramente diferenciado do resto das coisas, ela vive nesta&nbsp;<em>participation mystique&nbsp;</em>com o que a cerca. <strong>Até aqui a criança não diferencia o seu corpo do corpo da mãe</strong>, portanto sua <a href="https://blog.sudamar.com.br/contagio-psiquico-e-a-atmosfera-familiar/">experiência de mundo é a experiência da mãe, cuja realidade emocional determina sua a existência</a>. Neste período a mãe não apenas desempenha o papel de Self para a criança, mas, na realidade, ela é este Self. O Self, a princípio encarnado na mãe aos poucos vai se deslocando para o mundo interno da criança, e este processo faz parte da experiência formativa do <a href="https://blog.sudamar.com.br/tag/para-restabelecer-o-eixo-ego-self/">eixo ego-self</a> (NEUMANN, 1995).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo Neumann (1995) “<em>a base indispensável para o desenvolvimento do ego da criança é a figura da Grande Mãe arquetípica, que proporciona não apenas prazer, mas compensação, segurança e proteção</em>” (NEUMANN, 1995, p. 34). Aqui, a experiência fundamental é de proteção, onde mesmo situações desagradáveis, nas primeiras situações de polarização, serão compensadas pela mãe, e integradas.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porém, o arquétipo da Grande Mãe é vida e morte, portanto ambivalente, com dois polos opostos e pode se apresentar na forma da <a href="https://blog.sudamar.com.br/complexo-materno-relacao-transferencial-e-o-puer-puela-aeternus/">Mãe Boa e da Mãe Terrível.</a> A Mãe Boa é a benevolente. A Mãe terrível, ao contrario da Mãe Boa, é aquela que possibilita a manifestação da negligência e do abandono, ou da proteção em demasia que tolhe a individualidade (NEUMANN, 2003, apud FREITAS; SCARABEL; DUQUE, 2012). <strong>Esta base arquetípica será o fundamento para a formação do complexo materno.&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Ora, o complexo materno constitui um elemento nuclear que pode ser constelado quando a mulher se torna mãe, e esta provavelmente agirá de acordo com sua experiência prévia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A polaridade do arquétipo da Mãe Terrível, tendo construído um&nbsp; complexo negativo, pode vir a se manifestar, carregada de energia de forma a gerar uma mãe indisponível a seu filho, repetindo a dinâmica que se deu em seu desenvolvimento. (FREITAS; SCARABEL; DUQUE, 2012).&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isto nos leva a pensar que esta indisponibilidade materna pode ser determinante em todo e qualquer adoecer do bebê, mas particularmente na dermatite atópica por se traduzir em atitudes que determinam o aparecimento desta.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo Jung “<em>os sintomas físicos nada mais são do que retratos simbólicos do complexo patogênicos</em>” (JUNG, 2012, p. 361).&nbsp; Nos experimentos com associação de palavras Jung observa uma coincidência muito grande no padrão de respostas entre membros de uma mesma família, e com isto infere-se como os conteúdos e atitudes inconscientes dos pais influenciam seus filhos (JUNG, 2012). Na criança isto se torna da maior importância, pois esta se encontra tão ligada à atitude inconsciente dos pais a ponto de a maioria das perturbações nervosas da infância se originarem na atmosférica psíquica perturbada destes (JUNG, 2013).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto justifica-se pensar que o surgimento da <strong>dermatite atópica num bebê em tão tenra idade é influenciado pelos conteúdos psíquicos de sua mãe na medida em que este bebê</strong>, por se encontrar mergulhado neste inconsciente materno, participa da constelação deste complexo materno negativo de sua mãe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Seria de fundamental importância que o pediatra ampliasse sua compreensão desta dinâmica para que exista um real e verdadeiro acolhimento desta família em sofrimento, <a href="https://blog.sudamar.com.br/a-arte-da-cura-apesar-da-medicalizacao-da-vida-e-negacao-dos-ritmos/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">com uma abordagem não apenas clínica e medicamentosa</a>, mas com uma escuta para o que não está sendo dito, para o que está ainda longe da luz da consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Selma de Fátima Silva Canôas, analista em formação pelo IJEP.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Maria Cristina Mariante Guarnieri, analista didata responsável</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">AZAMBUJA, Roberto Doglia. Dermatologia integrativa: a pele em novo contexto.&nbsp;<strong>An bras Dermatol</strong>, Rio de Janeiro, v. 75, n. 4, p. 393-420, jul./ago. 2000. Disponível em: &lt;<a href="http://bases.bireme.br/cgi-bin/wxislind.exe/iah/online/?IsisScript=iah/iah.xis&amp;src=google&amp;base=LILACS&amp;lang=p&amp;nextAction=lnk&amp;exprSearch=346256&amp;indexSearch=ID">http://bases.bireme.br/cgi-bin/wxislind.exe/iah/online/?IsisScript=iah/iah.xis&amp;src=google&amp;base=LILACS&amp;lang=p&amp;nextAction=lnk&amp;exprSearch=346256&amp;indexSearch=ID</a>&gt;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CASTRO, Ana Paula B. Moschione. Dermatite atópica na infância.&nbsp;<strong>RBM</strong>, [S.l.], v. 69, n. especial pediatria, p. [S.I.], set. 2012. Disponível em: &lt;<a href="http://www.moreirajr.com.br/revistas.asp?fase=r003&amp;id_materia=5129">http://www.moreirajr.com.br/revistas.asp?fase=r003&amp;id_materia=5129</a>&gt;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FREITAS, Laura Villares; SCARABEL, Camila Alessandra; DUQUE, Barbara Harumi. As implicações da depressão pós-parto na psique do bebê: considerações da psicologia analítica.&nbsp;<strong>Psicol. Argumen.</strong>, Curitiba, v. 30, n. 60, p. 253-263, jun. 2012. Disponível em: &lt;<a href="http://www2.pucpr.br/reol/pb/index.php/pa?dd1=5972&amp;dd99=view&amp;dd98=pb">http://www2.pucpr.br/reol/pb/index.php/pa?dd1=5972&amp;dd99=view&amp;dd98=pb</a>&gt;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<strong>Estudos experimentais</strong>. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<strong>O desenvolvimento da personalidade</strong>. 14. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MONTAGU, Ashley.&nbsp;<strong>Tocar: o significado humano da pele</strong>. 10. ed. São Paulo: Summus, 1988.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NEUMANN, Erich.&nbsp;<strong>A Criança</strong>. 10. ed. São Paulo: Cultrix, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SPITZ, René A..&nbsp;<strong>El primer año de vida del niño.&nbsp;</strong>3. ed. Madrid: Aguilar, 1972.</p>



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<iframe title="UMA ABORDAGEM ANALÍTICA DA DERMATITE ATÓPICA NO BEBÊ" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/cuBtLKGUKIQ?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
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<h4 class="wp-block-heading" id="h-selma-de-fatima-silva-canoas"><strong><em>Selma de Fátima Silva Canôas</em></strong></h4>
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		<title>Adolescência: percurso entre a criança amada e o adulto reconhecido</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/adolescencia-percurso-entre-a-crianca-amada-e-o-adulto-reconhecido/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Claci Maria Strieder]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Dec 2019 19:25:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[Maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[educação]]></category>
		<category><![CDATA[pedagogia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Vivemos em uma sociedade que passa por constantes mudanças. Pessoas e coisas são cada vez mais descartáveis, aspectos que refletem nas vivências, provocando mudanças de comportamentos. Pais, psicoterapeutas, educadores e todos os envolvidos nas áreas voltadas ao ser humano, ficam perplexos diante do aumento dos índices de suicídio, do uso de entorpecentes, das doenças psicossomáticas [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Vivemos em uma sociedade que passa por constantes mudanças. Pessoas e coisas são cada vez mais descartáveis, aspectos que refletem nas vivências, provocando mudanças de comportamentos. Pais, psicoterapeutas, educadores e todos os envolvidos nas áreas voltadas ao ser humano, ficam perplexos diante do aumento dos índices de suicídio, do uso de entorpecentes, das doenças psicossomáticas e da ingestão de remédios pelos adolescentes. Surgem questões importantes: O que leva um indivíduo a se drogar para viver? &nbsp;&nbsp;Para que tirar a vida? Será um vazio existencial que precisa ser preenchido? Ou quem sabe a ilusão de acabar com o sofrimento? Não basta justificarmos com os porquês, precisamos ir além e compreendermos o sentido dessa triste realidade. Com esse olhar, convido-os para ampliarmos algumas questões, que envolvem o período cíclico da vida, denominado adolescência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A palavra adolescência vem do latim adolescere, que significa crescer. A sua definição varia conforme a cultura em que se vive. Historicamente, o termo adolescência é recente. Ariès nos trouxe essa constatação: “Só se saía da infância ao se sair da dependência” (1981, p.42). Assim, era considerado adulto quem não dependia mais dos seus pais. Da mesma forma, Papalia, Olds &amp; Feldman, 2006 descrevem essa dinâmica e afirmam que no Séc. XX as crianças ocidentais entravam no mundo adulto quando amadureciam fisicamente ou quando definiam a sua vocação. Geralmente saíam de casa cedo, optando pelo casamento e gerando filhos. Hoje a puberdade começa mais cedo e a escolha da profissão tende a ocorrer mais tarde.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em termos gerais, existe uma concordância que a&nbsp;adolescência é a&nbsp;fase&nbsp;que marca a transição entre a infância e a vida adulta, que envolve grandes mudanças físicas, cognitivas e psicossociais e dura em torno de 10 anos, iniciando depois dos 10 anos e terminando em torno dos 20 anos.&nbsp;Na sua fase inicial ocorrem várias alterações físicas. Durante o período, continuam ocorrendo as mudanças físicas, acompanhadas de mudanças interiores, que envolvem a aversão ao controle dos pais e a entrada com maior importância dos amigos, resultando em muitos conflitos familiares. Para alguns, são considerados os anos mais difíceis. Na fase final, ocorre a crise da identidade, com o planejamento da vida e a inclusão de maior responsabilidade, culpabilidade definida por lei. Ou seja, a partir deste momento o indivíduo responde legalmente por seus atos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Vindo ao encontro, para Jung a personalidade do ser humano é desenvolvida aos poucos:&nbsp;“A personalidade já existe em germe na criança, mas só se desenvolverá aos poucos por meio da vida e no decurso da vida. Sem determinação, inteireza e maturidade não há personalidade”&nbsp;(2013, p. 182).&nbsp;Legião Urbana, com a música “Tempo Perdido”, amplia a realidade que permeia os adolescentes. Por um lado, tudo muito intenso e rápido, em contrapartida uma sensação que eles têm todo o tempo do mundo:&nbsp;<strong>“</strong><strong>Mas tenho muito tempo, temos todo o tempo do mundo (…)&nbsp;Somos tão jovens”.&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Entre tantas&nbsp;características que marcam a adolescência, podemos citar as mudanças hormonais e glandulares, que influenciam no crescimento do corpo, e as alterações emocionais, que aparecem em forma de raiva, mágoa, tristeza, perda e medo. Nesta fase eles se preocupam com a aparência, pensam de forma abstrata, fazem generalizações, descobrem novas realidades, tornando-se imediatistas e imprevisíveis. É um período em que os amigos tomam grande espaço, participando de grupos e tribos. Questionamentos sobre a vida aparecem e as principais inquietações giram em torno da identidade, testando o mundo e expondo-se a riscos.&nbsp;Para Jung, a adolescência é marcada por transformações:&nbsp;<em>&#8220;</em>O nascimento psíquico e, com ele, a diferenciação consciente em relação aos pais só ocorrem na puberdade, com a irrupção da sexualidade. A mudança fisiológica é acompanhada também de uma revolução espiritual”&nbsp;(2013, p. 347).</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Neste sentido, cito mais uma vez a Legião Urbana, que retrata muito bem questões voltadas ao período, com a música “Pais e Filhos”, ouvida e cantada por muitos de nós:&nbsp;<em>&#8220;</em>Sou uma gota d&#8217;água. Sou um grão de areia. Você me diz que seus pais não lhe entendem. Mas você não entende seus pais. Você culpa seus pais por tudo. E isso é absurdo. São crianças como você. O que você vai ser quando você crescer?”</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A Constituição Brasileira, no artigo 227, assegura a proteção integral à criança e ao adolescente. Igualmente, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA, 1990), é um importante instrumento de defesa dos direitos e deveres de crianças e adolescentes, que estão vivendo um período de intenso desenvolvimento físico, psicológico, moral e social. Sabemos que muitos órgãos se envolvem com seriedade para garantir esses direitos e deveres, porém em termos gerais ainda existe muito para fazer.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Nos consultórios de psicoterapia aparecem diferentes sintomas para serem ressignificados. Um deles é a ausência e/ou a omissão dos pais, muitas vezes compensadas com presentes e outras facilidades. De forma similar, algumas escolas particulares, com alto nível de exigência teórica e pouco olhar para outras dimensões, contribuem para a formação de sintomas. Os adolescentes se sentem desestimulados e incapazes, afetando a sua autoestima e abrindo&nbsp;espaço para doenças psicossomáticas.&nbsp; Para alguns, escolher uma profissão no final do Ensino Médio é angustiante. Igualmente, passarem no vestibular, perceberem que fizeram uma escolha errada e abandonarem o curso em seguida.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Deparamo-nos com realidades preocupantes e cada vez mais presentes: adolescentes que tiram suas vidas diante de frustrações. Como não vivenciaram as pequenas frustrações, sentem-se incapazes de lidar&nbsp;com as dores da alma e escolhem morrer. Hillman, em seu livro Suicídio e Alma, auxilia-nos na compreensão da vida e da morte. De fato, diante da possibilidade de suicídio, precisam morrer muitas coisas para o ser humano não se matar. Renato Russo expressou essa realidade com sua voz encantadora:&nbsp;<em>&#8220;</em>Estátuas e cofres. E paredes pintadas. Ninguém sabe o que aconteceu. Ela se jogou da janela do quinto andar. Nada é fácil de entender”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">As relações tornaram-se virtuais e a liquidez dos relacionamentos modernos tornaram as pessoas e os objetos descartáveis, realidade que pode ser comparada com a crise de identidade dos adolescentes na busca de um caminho para trilharem com segurança. Lipovetsky (2005), afirma que a sociedade de consumo foi construída sobre as aparências, com o uso desenfreado de bens não duráveis. &nbsp;De forma idêntica, Bauman (2004), nos mostra que a liquidez dos relacionamentos modernos envolve as relações virtuais, que aparentam facilidade e transparência, em detrimento da autenticidade que parece pesada e lenta demais. Para buscar respostas diante das incertezas da vida, podemos digitar uma palavra no Google e aparecem várias possibilidades. As informações disponíveis na internet nem sempre são aplicáveis na vida prática e geralmente causam mais inquietações diante da padronização estabelecida. A angústia continua porque o mundo virtual não conhece nosso campo relacional, não percebe as expressões do nosso corpo que retratam um mal estar na alma e não consegue promover o que mais precisamos: alguém que, de uma forma diferenciada, estabeleça conosco um vínculo de confiança, que nos ouça e que nos dê uma oportunidade de dar voz ao que sentimos. Escutar e dar voz, papel que o psicoterapeuta promove com sabedoria!&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Questões que envolvem a sexualidade também fazem parte das demandas nos consultórios. A iniciação da vida sexual, movida por ansiedade e preocupações, exige esclarecimentos e orientações sobre a existência ou não de disfunções. Troca constante de parceiros, experimentação do prazer com meninos e meninas, em busca da resposta para sua identificação sexual também aparecem como demandas. Depressão, suicídio, ansiedade, distúrbios alimentares e drogas. Símbolos de beleza, insatisfação com o físico, anorexia nervosa e a bulimia nervosa. Uso de objetos cortantes e bebidas alcóolicas. Mundo virtual substituindo relações reais. É o adolescente gritando por ajuda, tão bem interpretado pela Legião Urbana:&nbsp;“Quero colo, vou fugir de casa (&#8230;). Só vou voltar depois das três”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">No decorrer dos anos, diferentes autores de diferentes áreas se empenharam nos estudos sobre a adolescência. Edinger (1972), contribui com os conceitos psicológicos de Jung, que nos permite entender o adolescente, principalmente na sua diferenciação em relação aos pais, momento em que os arquétipos do pai e da mãe perdem a predominância. Assim, ocorre a entrada do herói, na interação com o grupo do mesmo sexo, buscando uma identidade própria. Da mesma forma, os arquétipos da anima na psique do menino e do animus na menina, possibilitando o relacionamento e atração pelo sexo, oposto ou até igual à identificação sexual do ego.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para maior compreensão, Erik Erikson propõe a Teoria Psicossocial, envolvendo 8 estágios do desenvolvimento humano, descrevendo a fase dos 12 aos 18 anos como de identidade x confusão. De acordo com Aberastury e Knobel (1983) algumas características são comuns nos adolescentes. Entre elas podemos identificar a busca de si mesmo e da identidade, a tendência grupal, a necessidade de intelectualizar e fantasiar, as crises religiosas, a vivência do tempo, a sexualidade, a atitude social reivindicatória, as condutas contraditórias, a separação progressiva dos pais e as constantes flutuações do humor. Tânia Zagury, educadora e filósofa, contribui com algumas reflexões (2004, p. 45). Para ela, o maior perigo para um jovem não são as drogas: é não crer no futuro e na sociedade em que vive. A falta de esperança pode levar à depressão, ao individualismo, ao consumismo, ao suicídio, à marginalidade e às drogas. Neste processo, é fundamental a integridade dos adultos e atitudes coerentes com seus discursos, que servem de exemplos para eles, que poderão fazer algumas bobagens, mas nada que fira a ética e os valores que aprenderam. Mais importante que satisfazer desejos é ensinar princípios éticos. Adolescentes querem amor, aceitação e respeito. Querem ser ouvidos, protegidos e valorizados!&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo as ideias de Calligares, a nossa sociedade incentiva a cultura da autonomia e da independência. É transmitido a ambição de não repetir a vida dos que o geravam, mas de se destacar, porém precisa seguir as regras sociais e não provocar a violência e a desordem. Sair da adolescência significa ser um adulto desejável e invejável, reconhecido pelas relações amorosas/sexuais e o poder, no campo produtivo, financeiro e social. Por outro lado, ele nos deixa indagações:&nbsp;“Por que se tornar adulto se os adultos querem virar adolescentes? (&#8230;) O dever dos jovens é envelhecer. Suma sabedoria. Mas o que acontece quando a aspiração dos adultos é manifestamente a de rejuvenescer?”&nbsp;(2.000, p.74).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, por sua vez, contribui significativamente e nos alerta sobre aspectos importantes na formação da personalidade:&nbsp;“Os filhos são estimulados&nbsp;para aquelas realizações que os pais jamais conseguiram; a eles são impostas as ambições que os pais nunca realizaram. Tais métodos e ideais produzem monstruosidades na educação (&#8230;) Ninguém pode educar para personalidade se não tiver personalidade”&nbsp;(2013, p. 182).</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Alguns estudiosos se arriscam, sugerindo alternativas em relação ao que pode auxiliar na educação dos adolescentes. Entre as sugestões apontadas aparece o pertencimento aos grupos de esporte, de música ou religiosos, mas o essencial é que eles se sintam importantes e que saibam que são bons em alguma coisa. A família, independente de como é constituída, tem um papel fundamental, envolvendo-os para realizarem juntos algumas coisas, como passeios, viagens, refeições, entre outros. Vale lembrar que o diálogo, envolvendo uma comunicação assertiva, é uma das melhores opções para resolução de conflitos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Diante de tantos problemas, a saída criativa é olhar para a angústia, simbolicamente conversar com ela, perceber qual aspecto da vida está gritando por mudanças e permitir que elas ocorram. Olhar para as dores e não encará-las como fim, mas percebê-las como oportunidades, como portas que se abrem para novos sentidos e significados. Entorpecentes e remédios muitas vezes têm a função de&nbsp;“bengalas”, que auxiliam a caminhada, suavizando as dores psíquicas, porém não promovendo a cura da alma. E mais uma vez trago a contribuição de Jung que traduz com sabedoria as reflexões sobre a adolescência:&nbsp;“Somente o outono revela o que a primavera produziu, e somente a tarde manifesta o que a manhã iniciou”&nbsp;(2013, p. 183). Ele complementa:&nbsp;“Somente será possível que alguém se decida por seu próprio caminho, se esse caminho for considerado o melhor”&nbsp;(2013, p. 185). E a caminhada não precisa ser dolorida.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Culmino minhas ampliações com mais um trecho da música Pais e Filhos, cantada com a voz marcante de Renato Russo, que permite compreendermos o amor como essência na adolescência e em todas as fases da vida:&nbsp;“É preciso amar as pessoas. Como se não houvesse amanhã. Por que se você parar pra pensar. Na verdade não há”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Claci Maria Strieder, Pedagoga, Psicóloga, Especialista em Psicossomática e Psicologia Junguiana, Analista em formação pelo IJEP.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Brasília/DF &#8211;  Contato: (61) 99951.0003 &#8211; <a href="mailto:clacims@gmail.com" target="_blank" rel="noreferrer noopener">clacims@gmail.com</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Leituras de apoio:</p>



<p class="wp-block-paragraph">ABERASTURY, A. KNOBEL, M. Adolescência normal: um enfoque psicanalítico. 3ª edição. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">ARIÉS, P.&nbsp;<em>História social da criança e da família</em>. 2ª edição. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CALLIGARES, Contardo. A adolescência. São Paulo: Publifolha, 2000.</p>



<p class="wp-block-paragraph">EDINGER, E. Ego e arquétipo: Uma síntese fascinante dos conceitos psicológicos fundamentais de Jung. Cultrix, São Paulo: 1972.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">ERIKSON, E. H. O ciclo de vida completo. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HILLMAN J.&nbsp; Suicídio e alma. Petrópolis: Vozes; 1993.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. 10ª edição. Petrópolis. Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">________________O desenvolvimento da personalidade. 14ª edição. Petrópolis. Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">LIPOVETSKY, Gilles. O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas. São Paulo: Companhia de Letras, 2005.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PAPALIA, D. E., OLDS, S. W., &amp; FELDMAN, R. D. (2006). Desenvolvimento humano (8ª ed.). Porto Alegre: Artmed.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">ZAGURY, Tania. Os direitos dos pais: construindo cidadãos em tempos de crise. 6ª edição. Record, Rio de Janeiro, 2004.</p>



<h4 class="wp-block-heading" id="h-claci-maria-strieder"><strong><em>Claci Maria Strieder</em></strong></h4>
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			</item>
		<item>
		<title>Educar crianças: um desafio que envolve diferentes olhares</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/educar-criancas-um-desafio-que-envolve-diferentes-olhares/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Claci Maria Strieder]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 25 Jul 2019 19:33:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[Maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[Sociabilidade]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[educação]]></category>
		<category><![CDATA[Educar Crianças]]></category>
		<category><![CDATA[Paternidade]]></category>
		<category><![CDATA[pedagogia]]></category>
		<category><![CDATA[Psique infantil]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=5819</guid>

					<description><![CDATA[<p>Pais, professores, psicólogos e tantos outros profissionais, desafiados a serem competentes, envolvem-se na mesma questão: como educar? Não existe uma receita pronta que possa gerar resultados eficientes em todas as realidades. O ser humano é complexo e na perspectiva junguiana, somos seres humanos únicos, integrais e compreendidos pelas dimensões física, emocional, mental, espiritual e social. [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Pais, professores, psicólogos e tantos outros profissionais, desafiados a serem competentes, envolvem-se na mesma questão: como educar? Não existe uma receita pronta que possa gerar resultados eficientes em todas as realidades. O ser humano é complexo e na perspectiva junguiana, somos seres humanos únicos, integrais e compreendidos pelas dimensões física, emocional, mental, espiritual e social. Em outras palavras, o que funciona bem com um indivíduo, pode não ter eficácia com outro e também envolve outra questão importante, a de educar o educador. Segundo Jung, &#8220;todo nosso problema educacional tem orientação falha: vê apenas a criança que deve ser educada, e deixa de considerar a carência de educação no educador que educa&#8221; (2013, p. 180). Com isso, Jung nos deixou a possibilidade de refletirmos sobre o adulto que traz dentro de si uma criança oculta, que precisa de cuidado permanente. A família e a escola podem contribuir para a formação emocional dos indivíduos!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Precisamos de espaços que educam e ambientes acolhedores que incentivem o desenvolvimento de todas as dimensões, que permitam a promoção do autoconhecimento, da escuta ativa, do incentivo ao espírito de descoberta, de escolhas responsáveis, de cidadania, de consciência ambiental e social, entre outros. E para ser protagonista, a criança precisa ser valorizada e incentivada a expressar pensamentos, sentimentos e necessidades. Assim sendo, poderá participar dos diferentes contextos de forma ativa, e não apenas seguir regras prontas. O grande dilema é como fazer para que isso aconteça.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desde cedo, participei de estudos e vivências, que possibilitaram maior compreensão dos aspectos relacionados ao educar crianças. Há muitos anos atuo na Educação Infantil e como professora, tendo exercido diferentes funções na área da Educação, percebi ao longo dos anos as mudanças significativas que ocorreram na sociedade, resultando em mudanças de padrões, comportamentos e atitudes, nas famílias e nas escolas, primeiras classes sociais que a criança faz parte. Da mesma forma, participei ativamente da educação dos meus filhos e aprofundei meus estudos no campo da Psicologia, caminhada longa, com acertos e erros, que me permitem fazer algumas reflexões. &nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste sentido, percebo que um dos problemas na educação das crianças gira em torno de dois pólos opostos: ausência ou excesso de proteção, que na psicologia analítica junguiana, podemos denominar de processo de enantiodromia. Para tanto, é necessário buscar saídas criativas e estabelecer a harmonia entre os dois pólos, pois a ausência pode gerar a sensação de abandono. Em contrapartida, excesso de proteção pode gerar insegurança. Duas emoções que podem gerar conflitos internos e quando mobilizadas e vivenciadas com intensidade, resultam em doenças nas diferentes dimensões, sendo muito comum serem diagnosticadas e medicadas como TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade), o TOD (Transtorno Opositivo Desafiador) e outros quadros descritos no DSM V.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os remédios estão cada vez mais presentes na vida das crianças, algumas vezes necessários, mas por outro lado, aparecem no contexto como forma de amenizar sintomas, que muitas vezes se confundem com a ausência de limites e de compensações.&nbsp; No consultório, é comum ouvir as queixas de pais e lidar com as demandas que envolvem o medo de errar e não saber lidar com as diferentes situações na educação dos filhos. E a pergunta clássica que aparece é: &#8220;onde foi que errei?&#8221; Culpas, medos, dificuldades&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vindo ao encontro e para ampliar, podemos citar Jung, que em 1931, fez comentários sobre as consequências patogênicas da vida não vivida dos pais sobre seus filhos: &#8220;Via de regra, o fator que atua psiquicamente de um modo mais intenso sobre a criança é a vida que os pais não viveram. Essa afirmação poderia parecer algo sumária e superficial, sem a seguinte restrição: esta parte da vida a que nos referimos seria aquela que os pais poderiam ter vivido&#8221; (2015, p.121). Percebe-se que no dia a dia muitos pais são permissivos, algumas vezes em excesso, por não quererem que os filhos passem pelas mesmas situações e dificuldades que viveram na infância e também para que eles tenham melhores oportunidades de realizarem seus sonhos. &nbsp;As intenções são as melhores possíveis, porém nem sempre assertivas, pois como já mencionei, é o excesso e a falta que podem causar problemas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na psicologia, muitos autores descrevem as etapas que envolvem o desenvolvimento do ser humano.&nbsp; Jung considerou isso uma tarefa por demais de exigente, que envolve a vida psíquica desde o berço até a sepultura, razão pela qual preferiu se ater apenas em certos problemas. Tal complexidade é geradora de conflitos, como podemos perceber em sua fala: &#8220;Queremos que nossa vida seja simples, segura e tranquila, e por isto os problemas são tabus. Queremos certezas e não dúvidas; queremos resultados e não experimentos, sem entretanto nos darmos conta de que as certezas só podem surgir através da dúvida, e os resultados através do experimento. Assim, a negação artificial dos problemas não gera a convicção; pelo contrário, para obtermos a certeza e claridade, precisamos de uma consciência mais ampla e superior&#8230; Sem consciência, não existem problemas&#8221; (2013, p. 343 &#8211; 345). A partir da afirmação de Jung, podemos concluir que um problema é uma oportunidade de dar um novo sentido e significado para os conflitos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por um lado, temos consciência que a criança precisa vivenciar limites. Em contrapartida, contribuir para formar limites é um dilema. Envolve dizer sim e não. E qual é a medida? &nbsp;Envolve também o cansaço, o medo de errar, o medo de perder o amor da criança e formas de compensar a ausência. No consultório, deparamo-nos com exemplos típicos de queixas que envolvem cansaço: &#8220;Passo o dia fora trabalhando, quando chego em casa estou cansado, não tenho mais paciência de lidar com meu filho&#8230;&#8221; De forma similar, o medo de perder o amor do filho aparece no contexto: &#8220;Meu filho fica sem a minha presença grande parte do dia&#8230; Vou brigar com ele no pouco tempo em que em que estamos juntos?&#8221; Muito comuns também são os casos de filhos que dormem na mesma cama dos pais desde bebês. Apesar de controvérsias sobre este aspecto, é necessário lembrar que o casal existiu antes do filho e que um espaço seguro para o filho descansar irá contribuir para o desenvolvimento da sua autonomia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Conflitos internos que se transformam em práticas permissivas, podem resultar em indivíduos sem limites, com dificuldades de interagirem com os demais. Neste sentido, dizer não é tão importante quanto dizer sim, nas ocasiões e na medida certa. E uma regra básica é priorizar qualidade de convivência. Estar inteiro com o filho em pouco tempo de convivência é mais precioso que estar com ele dia inteiro e não lhe dar a devida atenção. Vindo ao encontro, trago uma mensagem postada em rede social eletrônica sobre a modernidade, que me despertou uma reflexão e em resumo dizia: &#8220;Pagamos caro para os outros cuidarem dos nossos filhos e cada vez mais passeamos com nossos cachorros&#8221;. Não se trata de crítica aos cuidados com os animais, que também merecem&nbsp;&nbsp; nossa atenção, carinho e respeito. Trata-se de refletirmos sobre a terceirização dos cuidados para quem nos damos a vida ou escolhemos educar, talvez pela insegurança, falta de paciência e medo de errar.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pertencer à uma família, envolve práticas que compreendem direitos e deveres. Muitas vezes, privamos nossos filhos de uma participação ativa e dinâmica desde cedo, com pequenos afazeres domésticos, graduados de acordo com a idade, que fazem parte do crescimento e envolvem o despertar do sentimento de pertencimento e de responsabilidade. É importante estabelecer combinados e fazer a criança compreender &#8220;para que&#8221; precisam ser cumpridos e lembrar que ela aprende mais com exemplos do que com palavras. São práticas que se aprendem na família e que se ampliam na escola. A escola, por sua vez, contribui para expandir o mundo social da criança, promovendo o conhecimento e o desenvolvimento de habilidades. Neste contexto, algumas vezes aparecem conflitos na resolução de problemas: pais culpam a escola e a escola culpa os pais. O que fazer? Novamente estamos diante de dois pólos opostos. A melhor opção é a família e a escola falarem a mesma linguagem. Tirar a autoridade de uma das instituições é possibilidade de gerar insegurança na criança.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tanto no meio familiar, quanto no ambiente da escola, é necessário desenvolver o ser humano para lidar com as frustrações, que fazem parte da vida e são importantes para a saúde psíquica. Ajudar o indivíduo a lidar com pequenas frustrações o prepara para lidar com as maiores que surgirão pela vida afora. Hoje, cada vez mais estamos inseridos num mundo individualista, com estilos predominantes e quando ocorrem cisões, os sintomas aparecem em forma de doenças e são medicadas. Muitas vezes, não percebemos o sintoma como oportunidade de ressignificar padrões que nos adoecem. Da mesma forma, o saber esperar, tão importante na estruturação do ser humano, perde-se no imediatismo estimulado pela nossa sociedade. Pessoas e coisas são cada vez mais descartáveis!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outra forma de contribuir significativamente para a formação integral da criança é proporcionar para ela vivências de comunicação assertiva. O diálogo, que é a forma ideal de resolução de muitos conflitos, envolve vários aspectos. Para que ele ocorra com assertividade, é necessário que se escolha um ambiente adequado, que se reconheça e valorize primeiro os aspectos positivos da criança, que se efetive olhando em seus olhos, com uso de voz moderada, com o objetivo de encontrar saídas criativas para os padrões extremos. Isso é respeito e amor!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Deparamo-nos com as mudanças de estilos e de valores, cada vez mais acelerados, incentivados pela mídia e diferentes meios virtuais. &nbsp;Vivências reais são substituídas por relações virtuais. É comum observarmos crianças de todas as idades manuseando celulares. É a forma que alguns pais encontram para ocuparem seus filhos, por acreditarem que mentes ocupadas e fascinadas com aparelhos eletrônicos não dão trabalho. Dar um celular é mais fácil que proporcionar a vivência de limites! &nbsp;Como consequência, crianças com mentes cada vez mais aceleradas, com dificuldade de centrar atenção no cotidiano e em relacionamentos reais. Vale lembrar que no mundo da tecnologia, utilizam-se todas as técnicas avançadas para despertar e prender a atenção do indivíduo, mas não podemos esquecer que a medida do seu uso somos nós que escolhemos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A tecnologia surgiu e tomou uma dimensão grande em nossas vidas. Tem seu lado importante, útil e necessário, porém não pode tomar todo o espaço das relações reais, principalmente dos valores que são passados no espaço sagrado da família, independente da forma que esse espaço é constituído. As consequências refletem nas escolas. Como estas mesmas crianças vão ter estímulos para as aulas expositivas? É necessário lembrar que grande parte das escolas não está equipada com aparelhos de tecnologia atualizados e muitos professores não têm a formação específica para trabalhar com o mundo digital. Não podemos entrar num processo de enantiodromia, ficarmos presos no pólo oposto e afirmar que a tecnologia é a grande culpada de não darmos conta da educação das crianças. A saída criativa é o limite para encontrar a harmonia: nem ausência, nem excesso. E além do mais, dar orientações para seu uso adequado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao caminharmos na história e entrando um pouco mais no contexto escolar, verificamos que os&nbsp;Direitos da Criança&nbsp;foram assegurados na Constituição de 1988, no Estatuto da Criança e do Adolescente e no Marco Legal 13.257, de 2016, específico para crianças de 0-6 anos, assegurando o cuidado integral, um olhar holístico e coletivo, sugerindo o envolvimento de diferentes abordagens e áreas. De forma similar, em 1998, surgiu o Referencial Curricular Nacional, com um novo olhar para a educação: guia de reflexão de cunho educacional sobre objetivos, conteúdos e orientações didáticas para os profissionais da área, respeitando estilos pedagógicos e a diversidade cultural brasileira. Foi um marco que produziu a possibilidade de cada Estado e o Distrito Federal organizarem seus currículos, favorecendo o desenvolvimento das capacidades física, afetiva, cognitiva, ética, estética, de relação interpessoal e inserção social, com orientações para entender a instituição familiar com diferentes modelos em mutação, sujeita a determinações culturais e históricas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na mesma época, surgiu o Relatório da Unesco (1999), em que Jacques Debors contribuiu significamente com os&nbsp;Quatro Pilares da Educação, que ao meu ver, envolvem a base da estruturação da educação das crianças: aprender a aprender, aprender a fazer, aprender a ser e aprender a conviver.&nbsp;Aprender a aprender, para se beneficiar das oportunidades oferecidas;&nbsp;aprender a fazer&nbsp;para estar apto a enfrentar situações de mudança e agir sobre o meio;&nbsp;aprender a ser&nbsp;para desenvolver a personalidade e responsabilidade pessoal eaprender a viver junto&nbsp;para desenvolver a compreensão do outro e a percepção da interdependência. Ao mesmo tempo, podemos estabelecer uma conexão simbólica entre os quatro pilares e as funções psicológicas de Jung: pensamento, sensação, intuição e sentimento. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje, as propostas curriculares estão centradas nos&nbsp;eixos&nbsp;cuidar, educar, brincar e interagir, que se complementam, permeados pelos&nbsp;eixos transversais&nbsp;diversidade, cidadania, sustentabilidade e educação em direitos humanos. São propostas que incluem a singularidade e a diversidade, que ao mesmo tempo envolvem um conjunto de olhares. Para tanto, não existem receitas prontas, mas podemos ampliar a sua compreensão citando a metáfora da montagem de um quebra-cabeça, atividade que as crianças muito apreciam, que para formar o todo é necessário utilizar e encaixar todas as peças. Cada peça representa simbolicamente o olhar das diferentes áreas, que ao serem unidas, alcançam de modo eficaz o resultado almejado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para finalizar, vale lembrar que as necessidades emocionais básicas do ser humano, desde que é gerado e até a sua morte, são o amor e o reconhecimento, que podem ser expressados pelo acolhimento, pela escuta, por olhares e ações diferenciadas e de diversas áreas para o alcance de uma educação integral da criança, consolidada na educação emocional. O limite harmonioso se estabelece na expressão do amor e do reconhecimento!</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Claci Maria Strieder, Pedagoga, Psicóloga, Especialista em Psicossomática e Psicologia Junguiana, Analista em formação pelo Ijep.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;Brasília/DF &#8211;&nbsp; Contato: (61) 99951.0003 &#8211;&nbsp;<a href="mailto:clacims@gmail.com">clacims@gmail.com</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Leituras de apoio:</p>



<p class="wp-block-paragraph">DELORS, J. (org.). Educação um tesouro a descobrir &#8211; Relatório para a Unesco da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI. Editora Cortez, 7ª edição, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">DISTRITO FEDERAL. Currículo em Movimento da Educação Básica: Educação Infantil.&nbsp; 2ª Edição. Brasília: SEEDF, 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. A natureza da psique. Petrópolis. Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________O desenvolvimento da personalidade. Petrópolis. Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________O livro vermelho &#8211; Liber Novus: edição sem ilustrações. 2ª &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Reimpressão. Petrópolis, RJ: Vozes, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil/Ministério da Educação e do Desporto, Secretaria de Educação Fundamental &#8211; Brasília: MEC/SEF, 1998.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Claci Maria Strieder&nbsp;</em></strong></h4>
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		<title>A Criança com Câncer, Seus Pais e Espiritualidade</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-crianca-com-cancer-seus-pais-e-espiritualidade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Rita Macieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 19 Mar 2019 19:27:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[Câncer]]></category>
		<category><![CDATA[pais e filhos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#160;“A espiritualidade não pode ser esquecida, pois é ela que nos faz humanos” Viktor Frankl Atualmente falamos muito em oferecer tratamento integral para os pacientes. Para isto é necessário também um olhar mais atento ao papel que a família desempenha como agente de cuidados quando um de seus membros adoece. Mais importante ainda, se o [...]</p>
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<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;“A espiritualidade não pode ser esquecida, pois é ela que nos faz humanos”</em></p>
<cite>Viktor Frankl</cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Atualmente falamos muito em oferecer tratamento integral para os pacientes. Para isto é necessário também um olhar mais atento ao papel que a família desempenha como agente de cuidados quando um de seus membros adoece. Mais importante ainda, se o paciente que adoece é uma criança. Desta forma, pensamos sempre em uma unidade de cuidados paciente/família.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Durante a gestação o psiquismo da criança está imerso no psiquismo materno, formando um vinculo que se atenua ao longo da vida, mas que não cessa de existir. Mesmo quando o filho atinge a fase adulta e se encontra a milhares de quilômetros de distância esta ligação se mantém.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando uma criança adoece de câncer, sua vida passa por rápida e intensa transformação, assim como o cotidiano familiar. De um momento para o outro, ela se vê atirada em um hospital, onde é cercada por pessoas estranhas em um ambiente desconhecido, no qual será submetida a uma série de exames e procedimentos invasivos e dolorosos. Independentemente de sua idade e de sua capacidade de compreensão cognitiva da realidade que a rodeia, ela de algum modo se dá conta de que algo grave e temível está acontecendo consigo (Menezes et. al. 2007).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Abalada pela sensação de perda iminente, impotente e vulnerável, a família acompanha a criança na travessia de situações desconhecidas, difíceis e dolorosas. No desejo de oferecer apoio e poupar a criança de um excesso de sofrimento, os familiares experimentam, eles próprios, sentimentos de desamparo, que comprometem seu bem-estar físico, emocional e espiritual.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Auxiliar os pais no comportamento de enfrentamento adequado pode ter efeitos positivos no ajustamento e sobrevida da criança com câncer. Contrariamente, enfrentamento inadequado por parte dos pais está associado à piora dos sintomas de estresse na criança, tais como aumento da ansiedade, perda de esperança, insegurança e aumento da dor. Um programa de auxílio deve levar em consideração as características culturais e as variáveis religiosas da família (Suzuki &amp; Kato, 2003)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Integrar espiritualidade e religiosidade à área da saúde física e mental tem inspirado muitas pesquisas que atestam os benefícios desta integração. Pacientes e familiares, ameaçados na sua existência, precisam encontrar no profissional de saúde que os assiste, a possibilidade de recuperar sua saúde física, psicológica, emocional e também a saúde existencial, lembrando que a espiritualidade faz parte da existência humana.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As manifestações de religiosidade e de espiritualidade de crianças com câncer&nbsp;&nbsp;e de seus familiares, no decorrer do tratamento, que aparecem permeadas por situações de crise originadas pelos sofrimentos que a doença impõe, pela instabilidade da vida que pode ficar &#8220;por um fio&#8221; ou se acabar, pela apreensão e medos de diferentes ordens, dentre os quais o medo da morte, é uma realidade no hospital (Valle, 2006).&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para a autora acima, a possibilidade de morte de um filho ameaça a função da paternidade&#8230; Significa uma perda de parte de si mesmo. E é em Deus e na religião, freqüentemente, que os pais se refugiam, que eles buscam apoio para conseguir uma compreensão para o que está acontecendo e para conseguir dar continuidade à sua vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muitos estudos demonstram associação positiva entre espiritualidade e religiosidade, sendo que a maioria desses aponta para melhores indicadores de saúde mental e adaptação ao estresse em pessoas que praticam atividades ditas religiosas (Moreira-Almeida; Lotufo Neto e Koenig, 2006). Desta forma, atender aos aspectos da espiritualidade se torna cada vez mais necessário na prática de assistência à saúde, o que justifica sua integração no trato com pacientes e familiares.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De fato, crenças espirituais costumam ser uma fonte importante de conforto e apoio para muitos pacientes com câncer e suas famílias, mas elas podem desempenhar um papel particularmente grande quando o paciente é uma criança. Os pais que enfrentam uma doença grave e possível morte de um filho, e as próprias crianças tentando encontrar um sentido para a doença, para o sofrimento e a morte, muitas vezes voltam seu olhar para além do mundo material na busca de conforto e explicações. Pais de crianças e de adolescentes com câncer podem encontrar na espiritualidade o apoio fundamental necessário ao processo de&nbsp;enfrentamento.&nbsp;&nbsp;A espiritualidade imprime significado ao adoecimento e auxilia na identificação de forças para enfrentar as dificuldades advindas do sofrimento e da morte, qualquer que seja a religião da família.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Interessante pesquisa qualitativa foi feita no Brasil, com o objetivo de se conhecer a relação entre as experiências de nove famílias de diferentes religiões, que vivenciaram a experiência de ter uma criança gravemente doente e sua religião, doença e histórias de vida (Bousso, Serafim e Misk, 2010). Como resultado observou-se que as narrativas evidenciaram a busca pelas famílias, qualquer que fosse sua religião, por atribuir significados às experiências vivenciadas, a partir de suas crenças religiosas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Para Peres et al (2007),&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cada vez mais a ciência se curva diante da grandeza e da importância da espiritualidade na dimensão do ser humano. Ser humano é buscar significado em tudo que está em nós e em nossa volta, pois somos seres inacabados por natureza e estamos sempre em busca de nos completar. A transcendência de nossa existência torna-se a essência de nossa vida à medida que esta se aproxima do seu fim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Embora a literatura nos sugira que a busca de significado e propósito de uma doença costuma ser freqüente, ainda nos é difícil avaliar sobre em que medida a doença infantil provoca angustia existencial dos pais ou sobre como estes podem encontrar sentido nesta experiência. E será em sua espiritualidade que muitos se encontrarão forças para resistirem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Podem os médicos colaborar com os pais de crianças com câncer em suas buscas de sentido e significado? As pesquisas mostram que para muitos médicos que cuidam de pacientes terminais uma preocupação cada vez mais importante é o bem-estar espiritual e o senso de significado e propósito na vida daqueles sob seus cuidados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os médicos e todos da equipe de saúde podem ser capazes de auxiliarem a formulação da paz de espírito e senso de controle, ao darem aos pais informações médicas de alta qualidade, incluindo informações acerca dos prognósticos, mas também suportando ouvir e facilitando aos pais manterem-se confiantes em suas crenças. As crenças podem ter um efeito profundo em suas vidas e escolhas para o cuidado (Mack et al. 2009).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Peres et. al.(2007), a psicoterapia baseada na linha integrativa transpessoal ou com enfoque existencial também pode ser uma ferramenta eficaz no auxílio ao paciente e/ou sua família que procura resolver aspectos relacionados ao significado e ao propósito da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Mestre Rita de Cassia Macieira</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Professora do IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referencias:&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Bousso, RS., Serafim TS., Misk MD. Histórias de vida de familiares de crianças com doenças graves: relação entre religião, doença e morte.&nbsp;Rev. Latino-Am. Enfermagem 18(2):[07 telas]mar-abr 2010</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mack, JW.; Wolfe, J.; Cook, EF.; Grier, HE.; Cleary PD.; Weeks, JC.. Peace of Mind and Sense of Purpose as Core Existential Issues Among Parents of Children With Cancer.&nbsp;Arch Pediatr Adolesc Med. 2009;163(6):519-524. DOI: 10.1001/archpediatrics.2009.57</p>



<p class="wp-block-paragraph">Menezes CNB; Passareli PM; Drude FS; Santos MA; Valle ERM. Câncer infantil: organização familiar e doença. Rev. Mal-Estar Subj. v.7 n.1 mar. 2007</p>



<p class="wp-block-paragraph">Moreira-Almeida, A.; Lotufo Neto, F.; Koenig, H.G. &#8211; Religiousness and mental health: a review.&nbsp;<em>Rev Bras Psiquiatr&nbsp;</em>28(3):242-250, 2006</p>



<p class="wp-block-paragraph">Peres, MFP.; Arantes, ACLQ; Lessa, PS; Caous, CA. A importância da integração da espiritualidade e da religiosidade no manejo da dor e dos cuidados paliativos. Rev. psiquiatr. clín. vol.34&nbsp;&nbsp;suppl.1 São Paulo&nbsp;&nbsp;2007 doi: 10.1590/S0101-60832007000700011&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Suzuki LK, Kato PM.&nbsp;Psychosocial support for patients in pediatric oncology: the influences os parents, schools, peers and technology.&nbsp;J Ped Onc Nurs, 2003; 20(4):159-174</p>



<p class="wp-block-paragraph">Valle ERM. O câncer na criança e as manifestações da espiritualidade. Boletim III(2) Soc Bras Psico-Oncologia, 2005. Disponível em&nbsp;<a href="http://www.virtuotech.com.br/download/webanexoslink/sbpo-105/edicoes/III-002.htm">http:///www.virtuotech.com.br/download/webanexoslink/sbpo-105/edicoes/III-002.htm</a></p>
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