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	<title>Arquivos crono - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos crono - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>O Contemporâneo e o Moderno: Cronos e Kairós</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-contemporaneo-e-o-moderno-cronos-e-kairos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 26 Mar 2022 18:29:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Felicidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#8220;O mundo em que penetramos ao nascer, é brutal e cruel &#8211; ao mesmo tempo é de uma beleza divina. É uma questão de temperamento acreditar no predomínio do que faz sentido ou do que não faz sentido. Se este último dominasse de maneira absoluta, o aspecto sensato da vida desapareceria cada vez mais, em [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><em>&#8220;O</em> <em>mundo em que penetramos ao nascer, é brutal e cruel &#8211; ao mesmo tempo é de uma beleza divina. É uma questão de temperamento acreditar no predomínio do que faz sentido ou do que não faz sentido. Se este último dominasse de maneira absoluta, o aspecto sensato da vida desapareceria cada vez mais, em função da evolução. Mas não é, ou não me parece ser o caso. Como em toda questão de metafísica, ambos são provavelmente verdadeiros: a vida é sentido e não-sentido, ou possui sentido e não-sentido.Tenho a ansiosa esperança que o sentido prevalecerá e ganhará a batalha&#8221;. </em></p><cite><strong>C. G. Jung &#8211; Memórias, Sonhos e Reflexões</strong></cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Cronos e Kairos</strong> são dois seres mitológicos advindos da cultura greco-romana. <strong>Cronos</strong> refere-se ao tempo de <strong>Saturno</strong> que é cronológico, quantitativo, lógico e sequencial, o tempo que se mede, o tempo que nos resta para a morte, o &#8220;tempo dos homens&#8221; &#8211; que pode ser dividido em anos, meses, semanas, dias, horas, etc. <strong>Kairós</strong> representa o tempo de <strong>Urano</strong>, um momento indeterminado onde algo especial acontece, é a experiência do momento oportuno, teleologicamente, é usado para descrever a forma qualitativa do tempo, o &#8220;tempo de Deus&#8221; &#8211; que não pode ser medido e, por isso mesmo, supera o medo da morte, representado pela expressão latina: Carpe Diem.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><strong>Cronos</strong></strong>, na mitologia, castrou seu pai <strong>Urano</strong>, estabelecendo logos aos Caos, assumindo o poder e o trono de seu pai, passando a devorar seus filhos, para evitar futuros oponentes. Por isso, essa perspectiva do tempo é devoradora. Ele também é associado à  figura das três Parcas ou Moiras, as &#8220;Fiandeiras do Destino&#8221;, filhas de Nyx, deusa da noite: Clotho é a tecelã, responsável por tecer o destino com seu fuso mágico, Lachesis é a medidora, distribui e avalia o fio da vida e Atropos, a que corta e dá fim à vida. Ele é cíclico e representa as estações e o tempo rítmico do Sol, entre dormir e acordar, nascer e morrer.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Kairós</strong>, por sua vez, nos dá a capacidade artística de compreender a qualidade do tempo. O tempo certo de cada coisa, que nos possibilita transformar o presente num agradável&nbsp;presente! É simultaneamente o tempo de ter tempo, perder tempo e se entregar ao tempo, com paz e fé. O tempo do encantamento, do&nbsp;Once Upon a Time&nbsp;&#8211; o era uma vez dos contos de fadas. É o tempo do agora, indo além da ilusão do tempo do relógio, com peso, cheiro, cor, sabor e som únicos, que nos faz&nbsp;re-cor-dar&nbsp;&#8211; lembrar para sempre, gravando na memória do coração, decorando, aquela experiência que pode representar toda a existência em apenas um&nbsp;atmo&nbsp;de tempo. Em função da existência do tempo de&nbsp;Kairós&nbsp;nenhum experimento é passível de ser repetido nas mesmas condições, porque cada momento é único. Abalando toda base da ciência mecanicista causal, por ser impossível controlar todas variáveis, por conta do princípio da incerteza e pela influência dos observadores, impossibilitando reproduzir o passado!</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Carl Gustav Jung&nbsp;</strong>(1875-1961), uma das mais vigorosas expressões da ciência psicológica, trabalhou muito mais a serviço do tempo de&nbsp;Kairós,&nbsp;sempre comprometido com a ampliação da consciência do homem contemporâneo, que é menos abrangente que o homem moderno, por&nbsp;não saber reconhecer e integrar seus aspectos primitivos e ancestrais, presentes na sombra individual e coletiva. Desta forma, passamos a perceber que o homem contemporâneo, sem o engajamento com a modernidade, torna-se um ser individualista, consumista, alienando de si mesmo, tornando-se anestesiado, apesar de normoticamente adaptado a essa sociedade doente e cada vez mais dependente de substâncias psicoativas, lícitas ou ilícitas, e de uma infinidade de produtos supérfluos e descartáveis, num crescente desencantamento do mundo e dessacralização da vida!</p>



<p class="wp-block-paragraph">O homem contemporâneo, preso exclusivamente no tempo de <strong><strong>Cronos</strong></strong>, fica oscilando entre as mágoas ou culpas do passado e a ansiedade ou medo do futuro, cada vez mais angustiado com a celeridade do tempo e o sentimento de falta de tempo. Devido sua incapacidade de tirar proveito saudável e pedagógico do passado ou de fazer planejamento com significado e sentido para sua evolução existencial, perde-se de si mesmo. Essa condição acaba, de forma defensiva e reativa à depressão, fazendo-o buscar apenas o consumo e o acúmulo material, negando a dimensão espiritual e, consequentemente, a paz. Isso faz com que ele confunda amor com desejo, transformando toda sua vida numa rotina de conquistas materiais e efêmeras. Uma outra metáfora para representar o contemporâneo e o moderno está na metáfora que <strong>Jung</strong> usa no Livro Vermelho (Liber Novus), fazendo a diferenciação entre o espírito da época e o espírito da profundeza:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><em>&#8220;O espírito dessa época disse-me em voz baixa: ‘Este sentido supremo, esta imagem de Deus, esta interfusão do quente e do frio, isto és somente tu. Mas o espírito da profundeza falou-me: ‘Tu és uma imagem do mundo infinito, todos os últimos mistérios do vir a ser e do cessar de ser moram em ti. Se não possuísses tudo isso, como poderias conhecer?&#8221;</em></p><cite><strong>Carl Gustav Jung, Liber Novus</strong></cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto o homem contemporâneo é um conceito cronológico que representa a totalidade dos indivíduos viventes, ligados ao espírito da época, o homem moderno é aquele que se diferencia da massa, por ter profunda consciência do presente, integrando-a ao espírito das profundezas, para que seu chamado teleológico e seus conteúdos imanentes, advindos do inconsciente coletivo, possam se expressar, egoicamente, no seu engajamento ao processo de individuação, visando sua transcendência. Óbvio que, diante das &#8220;tentações&#8221; do prazer sensorial, em todos os sentidos, da sexualidade, da vaidade e da riqueza, onde a ilusão do poder e do controle, promete ao homem contemporâneo muita alegria e sucesso, fica cada vez mais difícil, abrir mão desta promessa espetacular, ainda que vazia e líquida, para entranhar-se nos mistérios do amor, enfrentando a sombra, colocando em risco a persona do puritano realizado, até encontrar o sangue do dragão, o estado alquímico da rubedo, para contribuir na realização da alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste sentido, a prática das terapias, com abordagens junguianas, <strong>tem objetivo de despertar o ser moderno e a percepção do tempo de&nbsp;Kairós, no homem contemporâneo.</strong> Alinhando-o com o presente, consciente e consequente da sua trajetória temporal, do passado rumo ao futuro, com sentido e significado existencial, comprometido com a história e com a cultura, numa atitude de amor, valorizando o pleno exercício da liberdade, devido a prática da alteridade, e da consciência de si mesmo, apesar das contínuas e presentes interferências do Estado, do mercado e muitas instituições religiosas que, equivocadamente, podem tentar afastá-lo, simultaneamente e reciprocamente, destas conquistas! Para que a Paz e o Bem estejam com ele e sejam praticados por ele, todo tempo, na dinâmica do: <strong>Servir para Ser</strong>! Conscientemente engajado no processo de individuação que, em última instância, é a consecução teleológica presente na imanência do nosso Self, de acordo com esta citação de Jung, no livro Símbolos da Transformação &#8211; §99.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><em>&#8220;Como o inconsciente impôs aos homens em última análise um destino espiritual em sentido mais amplo e em grau cada vez maior, foi desta experiência que resultou o conceito de que a figura de Deus é um espírito e este deseja o espírito. Isto não é invenção nem do cristianismo nem dos filósofos, mas uma experiência humana primitiva que também o ateu confirma. (Neste caso trata-se apenas daquilo de que se fala, não de sua aceitação ou negação.) A outra definição de Deus por isto diz: &#8220;Deus é Espírito&#8221;. A imagem pneumática de Deus acentuou-se de forma especial no Logos, conferindo ao &#8220;amor&#8221; que provém de Deus um caráter especial, isto é, o da abstração, como o encontramos no conceito do amor cristão.&#8221;</em></p><cite>Carl Gustav Jung, Símbolos da Transformação</cite></blockquote>



<p class="has-text-align-right wp-block-paragraph"><strong>Autor: Waldemar Magaldi</strong></p>
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