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	<title>Arquivos cuidador - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos cuidador - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Envelhecimento populacional X cultura infantilista: os impasses para o cuidado dos idosos (parte I)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Tania Pulier Garrido]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Nov 2026 13:43:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A população envelhece e as famílias diminuem: se apenas as estatísticas já apontam para uma equação que não fecha, que dirá a complexidade do contexto cultural, que não permite a vivência de “aldeias de cuidado”. Longe de querer dar respostas ou oferecer soluções, o objetivo desta reflexão, que será apresentada em dois artigos, é abordar várias nuances que envolvem a exaustão do cuidador (em geral cuidadora) de pais idosos, mostrando sua relação com a cultura atual e diversos complexos afetivos aí envolvidos, no olhar da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.</p>
<p>Neste primeiro artigo, o tema será desenvolvido em um diálogo entre a visão do sociólogo Zygmunt Bauman sobre a atualidade e o que chamaremos de “tradução arquetípica” deste contexto a partir da Psicologia Analítica.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/envelhecimento-populacional-x-cultura-infantilista-os-impasses-para-o-cuidado-dos-idosos-parte-i/">Envelhecimento populacional X cultura infantilista: os impasses para o cuidado dos idosos (parte I)</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong>Resumo:</strong> A população envelhece e as famílias diminuem: se apenas as estatísticas já apontam para uma equação que não fecha, que dirá a complexidade do contexto cultural, que não permite a vivência de “aldeias de cuidado”. Longe de querer dar respostas ou oferecer soluções, o objetivo desta reflexão, que será apresentada em dois artigos, é abordar várias nuances que envolvem a exaustão do cuidador (em geral cuidadora) de pais idosos, mostrando sua relação com a cultura atual e diversos complexos afetivos aí envolvidos, no olhar da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong>Neste primeiro artigo</strong>, o tema será desenvolvido em um diálogo entre a visão do sociólogo Zygmunt Bauman sobre a atualidade e o que chamaremos de “tradução arquetípica” deste contexto a partir da Psicologia Analítica.</p>



<h2 id="h-cada-um-por-si-e-a-solidao-do-cuidado-necessitado-ou-exercido" class="wp-block-heading" style="font-size:20px"><strong>Cada um por si&#8230; e a solidão do cuidado necessitado ou exercido</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do IBGE, divulgada em abril de 2026, afirma a tendência ao envelhecimento da população. A parcela das pessoas de 60 anos ou mais representava 16,6% da população em 2025, frente à estimativa de 11,3% em 2012. Enquanto esse grupo aumenta, aquele formado por pessoas com menos de 30 anos de idade diminui, passando de 49,9% em 2012 para 41,4% em 2025 (cf. IBGE, 2026).</p>



<h2 id="h-a-longevidade-registra-um-grande-crescimento-em-1940-a-expectativa-de-vida-era-de-45-5-anos-em-1970-57-6-anos-em-2000-pode-se-ver-um-salto-alcancando-71-1-anos-em-2024-a-expectativa-de-vida-chegou-a-76-6-anos-cf-ibge-2025" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">A longevidade registra um grande crescimento: em 1940, a expectativa de vida era de 45,5 anos; em 1970, 57,6 anos; em 2000 pode-se ver um salto, alcançando 71,1 anos. Em 2024, a expectativa de vida chegou a 76,6 anos (cf. IBGE, 2025).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Esse cenário mostra a urgência da mudança na organização social para dar conta de quadro nunca visto na História. Os debates eleitorais abordam questões ligadas às políticas públicas voltadas a essa população e à Previdência Social. Algumas empresas reestruturam-se, e negócios surgem focados no novo público. A Medicina e as pesquisas em saúde precisam responder a quadros inéditos cada vez mais frequentes. E, na vida cotidiana, as famílias enfrentam os desafios do cuidado dos idosos, que normalmente recai sobre poucas pessoas, muitas vezes uma só.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Tradição oral que chegou até nós atribui à sabedoria coletiva de várias culturas africanas o ensinamento de que “é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”. Acho que em todas as idades é preciso uma aldeia para a vivência do cuidado. Mas como cuidar em uma sociedade individualista, na qual praticamente não há coletivo, não há comunidade, não há aldeia? Tanto se fala de rede de apoio, porque brilha a sua ausência!</p>



<h2 id="h-a-pesquisa-brasil-no-espelho-aponta-os-brasileiros-como-individualistas-e-descrentes-de-solucoes-coletivas-apesar-da-imensa-desigualdade-social" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">A pesquisa <em>Brasil no espelho</em> aponta os brasileiros como individualistas e descrentes de soluções coletivas, apesar da imensa desigualdade social.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong>E entre os mais pobres é maior ainda a percepção de só poder contar consigo mesmos</strong>. “É como se o brasileiro acreditasse que luta sozinho, sem apoio, contra tudo e contra todos” (NUNES, 2025, p. 73-74). Mesmo considerando estar este dado no contexto da aprovação de políticas públicas que amparem os mais necessitados, a visão de não ter com quem contar é um marco cultural, sobretudo quando ela predomina entre muitos dos que moram nas chamadas “comunidades”, de quem se imaginaria poder esperar maior coletividade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Outros dados da mesma pesquisa mostram o acúmulo de trabalhos e o excesso de cansaço. Somando tudo isso, vê-se que é ínfima ou inexistente a possibilidade de se esperar uma rede de apoio para cuidar de quem já saiu da cadeia produtiva. Onde está a aldeia no mundo do “cada um por si”?</p>



<h2 id="h-esse-isolamento-faz-nos-repensar-que-estamos-adoecendo-sozinhos-o-cuidador-familiar-do-idoso-mais-ainda-mas-a-mae-do-bebe-tambem-e-normalmente-a-sobrecarga-vai-para-a-mulher-identificada-pelo-tradicionalismo-para-o-papel-do-cuidado" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Esse isolamento faz-nos repensar que estamos adoecendo sozinhos. O cuidador familiar do idoso, mais ainda, mas a mãe do bebê também. E, normalmente, a sobrecarga vai para a mulher, identificada pelo tradicionalismo para o papel do cuidado.</h2>



<h2 id="h-definhamento-dos-lacos-e-responsabilidade-individual-na-sociedade-de-consumo" class="wp-block-heading" style="font-size:20px"><strong>Definhamento dos laços e responsabilidade individual na sociedade de consumo</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Em <em>Modernidade líquida</em> (2001), o sociólogo polonês Zygmunt Bauman denunciou “o enfraquecimento e decomposição dos laços humanos, das comunidades e das parcerias” (p. 204) na sociedade atual. Para ele, trata-se de uma precariedade que treina as pessoas para a “descartabilidade” de tudo, inclusive dos humanos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Em reação “à acelerada ‘liquefação’ da vida moderna” (<em>ibid</em>., p. 212), surge um comunitarismo. Ligado inexoravelmente, porém, à individualização, ele acaba, na visão de Bauman, sendo mais a busca de um lar, um porto seguro e, por consequência, uma identidade que separa “os de dentro” e “os de fora” do que uma verdadeira fraternidade inclusiva, tornando-se um paradoxo. Para ser de fato solidário seria necessário um processo parecido com esta expressão usada pelo sociólogo: “que os músculos e mentes dos indivíduos sejam exercitados e expandidos” (<em>ibid</em>., p. 212). Como imaginar isso, porém, no torpor das telas, do excesso de informações e apelos do consumo, da pressa e do cansaço?</p>



<h2 id="h-em-vida-para-o-consumo-2008-bauman-usa-o-termo-relacao-pura-referindo-se-a-relacao-que-mais-adequa-os-vinculos-humanos-as-regras-do-mercado-de-bens-na-sociedade-do-consumo" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Em <em>Vida para o consumo</em> (2008), Bauman usa o termo “relação pura” referindo-se à relação que mais adequa os vínculos humanos às regras do mercado de bens na sociedade do consumo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Esta relação, “centralizada na utilidade e na satisfação é, evidentemente” — afirma o sociólogo — “o exato oposto de amizade, devoção, solidariedade e amor” — as relações que alicerçam o convívio humano na mutualidade “Eu-Você”. Para ele, “sua ‘pureza’ é avaliada, em última instância, pela ausência de ingredientes eticamente carregados.” Dessa forma, elas “livram os atores da responsabilidade que o amor, para o bem ou para o mal, promete e luta para construir e preservar.” Isso exigiria um esforço gigante, que não faz parte da “relação pura”, pautada em outros valores, “entre os quais não figura a responsabilidade pelo outro, fundamental em termos éticos” (p. 32-33).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Bauman cita o filósofo judeu Levinás quando este trata do desafio ético a que os seres humanos estão expostos pelo face-a-face com o Rosto do Outro e seu apelo silencioso, responsabilidade tão grande por todos os outros — em sua essência incondicional e ilimitada — que a regulação normativa social tendia a definir, e dessa forma limitar, para tornar praticável.</p>



<h2 id="h-essa-traducao-da-demanda-silenciosa-em-algumas-prescricoes-deveres-e-obrigacoes-nao-existe-mais-na-sociedade-de-consumidores" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Essa “tradução” da demanda silenciosa em algumas prescrições, deveres e obrigações não existe mais na sociedade de consumidores.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>Agora cabe aos indivíduos estabelecer os limites de sua responsabilidade por outros seres humanos e traçar a linha que divide o plausível do implausível nas intervenções morais — assim como decidir até onde estão prontos para ir ao sacrificarem seu próprio bem-estar para cumprir as responsabilidades morais de outros. Uma vez transferida aos indivíduos, essa tarefa se torna esmagadora [&#8230;]. Enfrentar uma tarefa tão assustadora lança os atores num estado de permanente e incurável incerteza; com muita frequência, leva a uma auto-reprovação [sic] angustiante e humilhante (</em><em>ibid.,</em> <em>p. 118).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Se a filosofia levinasiana ensinou a ver a responsabilidade como habilidade responsorial ou resposta hábil ao Rosto do Outro, agora, cada vez mais, para Bauman, ela passa a estar autocentrada — “‘escolhas responsáveis’ são, no geral, os gestos que atendem aos nossos interesses e satisfazem os desejos do eu” (<em>ibid</em>., p. 119), tornando o Outro uma “vítima colateral do salto para a versão consumista da liberdade” (<em>ibid.</em>, p. 120).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">A própria relação com o tempo e seu significado mudaram. Ele tornou-se pontuado, uma multiplicidade de instantes sem continuidade, feito de rupturas e do agora imediato. Se a busca por desabilitar o passado e a possibilidade de o fazer começando do zero uma e outra vez — novos começos no trabalho, relações e até no próprio corpo — é uma das características da sociedade de consumidores, como pensar o cuidado dos idosos, pessoas que vêm de outro tempo, mensageiras do passado? Causa no mínimo incômodo e estranheza, talvez mais um motivo para muitos não os quererem ver ou conviver com eles, ou o fazerem pontualmente, sobrando a continuidade para o familiar que se dispõe a este cuidado. Cuidado que, pertencendo ele ao mesmo contexto, muito lhe supõe.</p>



<h2 id="h-o-reino-do-puer-aeternus" class="wp-block-heading" style="font-size:20px"><strong>O reino do <em>puer aeternus</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">As características da sociedade consumista apresentadas por Bauman — como imediatismo, tempo pontuado e descontínuo, busca de satisfação dos desejos — são típicas de um infantilismo, já que falamos de adultos e não de crianças. Eles se tornam <em>puer aeternus</em>, sobre os quais muito discorreu Von Franz.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">A imagem arquetípica da criança, para Jung, aparece como filho e criança, sempre ligado à mãe e sem criar raízes próprias (cf. 2013, §392). É típico de alguém assim a dependência e a busca de ser cuidado. Como poderá assumir a responsabilidade pelo cuidado do outro? Tal indivíduo, instintivo e inconsciente, vive na ilusão, sempre atrás de aventuras, novidades, mudanças, quando de fato recua constantemente diante da realidade, não conseguindo assumir a separação necessária da mãe por medo da vida. “O medo do mundo e dos homens causa um recuo maior, num círculo vicioso, o que leva ao infantilismo e à volta ‘para dentro da mãe’.” (<em>Ibid.</em>, §456)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Esse comportamento infantil não parece mais adequado à idade adulta. No entanto, em uma realidade com características infantis e infantilistas, ele nada de braçadas, totalmente adaptado, como se o mundo lhe devesse e tudo precisasse girar à sua volta, em função do seu prazer e vontade; como um jovem deus (cf. <em>ibid</em>., §392). Tão distante do colocar-se a serviço, atitude própria do amadurecimento e do cuidado.</p>



<h2 id="h-para-von-franz-cf-2016-p-9-o-adulto-identificado-com-o-puer-aeternus-sente-se-especial-e-nao-se-vincula" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Para Von Franz (cf. 2016, p. 9), o adulto identificado com o <em>puer aeternus</em> sente-se especial e não se vincula.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Geralmente é impaciente, imediatista, não gosta do processo e evita tudo o que significa peso ou esforço, rotina ou monotonia. Se for obrigado a permanecer neste tipo de tarefa, torna-se cínico ou irônico, pois só vê tédio. Exibe vitalidade e criatividade, mas costuma desperdiçá-la por não concretizar. Não se entrega totalmente à vida para não passar por situações desagradáveis, mas, com isso, não vive plenamente, está sempre no transitório e no provisório, como que de passagem. É individualista e tem dificuldades com a coletividade e suas regras.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Se uma cuidadora familiar quer contar com a ajuda do irmão ou irmã <em>puer</em>, passará “por maus lençóis” e acabará por desistir. Se aparece, é para visita rápida. Se, com insistência, consegue-se que assuma algum turno do cuidado, gerará tal insegurança sobre o cumprimento ou não do que foi assumido, e o risco do esquecimento ou qualquer imprevisto de última hora, que não se poderá relaxar.</p>



<h2 id="h-o-puer-e-o-senex-em-um-cenario-de-perda-da-alma" class="wp-block-heading" style="font-size:20px"><strong>O <em>puer</em> e o <em>senex</em> em um cenário de perda da alma</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">A questão do <em>puer aerternus</em> é abordada por Hillman como a quebra da polaridade e a fixação em um dos polos do arquétipo <em>puer-et-senex</em>. O <em>puer-et-senex</em>, ou seja, essa dualidade de arquétipos, dá ao ego “significação de espírito”, quando o <em>puer</em> se manifesta como força criativa, e o <em>senex</em>, como sabedoria, na figura do Velho Sábio. “O puer inspira o brotar das coisas; o senex governa a colheita” (1998, p. 24). A polarização faz sobressair a negatividade de cada arquétipo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">O <em>senex</em> tem como imagens Cronos, Saturno e o Velho Rei. “É pai de tudo e a tudo consome” (<em>ibid</em>., p. 25). Tem como características ordem, estrutura, frieza, dureza, provisão, ganância. Sexualidade lasciva, queixas e solidão tornam-se presentes quando o aspecto jovem não encontra espaço de se manifestar. Quando perde a sua criança, não chega ao Velho Sábio, enrijecendo-se no conservador, pesado, castrador, fixado no passado, “sabe-tudo” e avesso à mudança.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Escutar e aprender não são o forte nem do <em>puer</em> nem do <em>senex</em>. Além disso, para Hillman, tanto o apenas-<em>puer</em> como o apenas-<em>senex</em> têm como características a ausência do feminino. Este é capaz de trazer “a sabedoria do inconsciente, dos instintos, da vida e do relacionamento” (NEUMANN, 1979, p. 74), unindo os dois aspectos polarizados do arquétipo na integração e totalidade da alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Hillman trata da relação psíquica quando fala de alma, em sua ligação com o <em>puer</em> e o <em>senex</em>; já é <em>anima</em> internalizada, que abre espaço a um feminino mais amplo e múltiplo que apenas a imagem da mãe. É uma ponte entre consciente e inconsciente, o que representa, para Jung, a <em>anima</em> como função e não personificação (cf. 2015, §339).</p>



<h2 id="h-para-jung-porem-vivemos-em-um-contexto-de-perda-da-alma" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Para Jung, porém, vivemos em um contexto de perda da alma.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">O racionalismo exacerbado e cientificismo que levou ao domínio orgulhoso da natureza prendeu-nos no domínio da consciência que é apenas uma pequena parte do que nós somos e, nela, do ego como se fosse o único senhor. Perdemos o contato com o inconsciente, distanciamo-nos do sagrado e seus valores. Pouca atenção se dá ao essencial e, com isso, nos desumanizamos e perdemos sentido e significado. “O sentido de nossa vida não se esgota em nossas atividades comerciais, nem os anseios da alma humana são saciados pela conta bancária, mesmo que nunca tenhamos ouvido falar de outra coisa” (2011, §604).</p>



<h2 id="h-como-pensar-o-cuidado-de-uma-pessoa-idosa-no-ambito-familiar-no-contexto-infantilizante-da-sociedade-de-consumo-que-forca-ao-excesso-a-perda-de-lacos-e-a-pressa-nessa-complexidade-dos-sujeitos-que-a-reflexao-da-psicologia-analitica-nos-leva-a-enxergar" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Como pensar o cuidado de uma pessoa idosa no âmbito familiar no contexto infantilizante da sociedade de consumo, que força ao excesso, à perda de laços e à pressa nessa complexidade dos sujeitos que a reflexão da Psicologia Analítica nos leva a enxergar?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Filhos de nossa época, vemos — com maior ou menor clareza — os conflitos que as tendências culturais nos trazem: por um lado temos o idoso que tende a apresentar aspectos do apenas-<em>senex</em>, em um endurecimento e teimosia difíceis de lidar; por outro, figuras propensas a manifestar o apenas-<em>puer</em>, sobre as quais se lança a sorte de a quem caberá o cuidado. Aquela que o assume, livre ou forçosamente, é obrigada a amadurecer no processo, que se torna tanto mais pesado quanto mais contracultural ele é. Como ela está internamente? Quem se preparou para tal entrega?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Como dito no início, este artigo pretendeu levantar a complexidade do tema, e não oferecer respostas ou soluções. Nesta primeira parte da reflexão, de fato, chegou-se a um impasse. Para Jung, porém, além do espírito da época, existe o espírito das profundezas, atemporal, que segue invocando para uma transformação a partir do caminho de desenvolvimento da personalidade e da (re)descoberta da alma. É o que se verá no próximo artigo — “A exaustão do cuidador de pais idosos e o chamado através dos impasses”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/tania-pulier/">Tania Pulier — Membro Analista /IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/lilian/">Lilian Wurzba — Analista Didata/IJEP</a><br></strong></p>



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<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">BAUMAN, Zygmunt. <em>Modernidade líquida</em>. Tradução de Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">___. <em>Vida para o consumo</em>. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">BELLO, Luiz. Expectativa de vida chega a 76,6 anos em 2024. <em>Agência IBGE Notícias</em>, 28 set. 2025. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/45275-expectativa-de-vida-chega-a-76-6-anos-em-2024. Acesso em: 4 set. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">HILLMAN, James. O livro do <em>puer</em>: ensaios sobre o Arquétipo do <em>Puer Aeternus</em>. São Paulo: Paulus, 1999.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">IBGE (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua). <em>Características gerais dos domicílios e dos moradores 2025</em>. Rio de Janeiro: IBGE, 2026. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?view=detalhes&amp;id=2102274. Acesso em: 4 set. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">JUNG, Carl Gustav. <em>A vida simbólica</em>. 5.ed. Petrópolis: Vozes, 2011. OC 18/1.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">___. <em>O eu e o inconsciente</em>. 27.ed. Petrópolis: Vozes, 2015. OC 7/2.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">___. <em>Símbolos da transformação</em>. 9.ed. Petrópolis: Vozes, 2013. OC 5.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">NEUMANN, Erich. A lua e a consciência matriarcal. <em>In</em>: Hillman <em>et al</em>. <em>Pais e mães</em>. São Paulo: Símbolo, 1979.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">NUNES, Felipe. <em>Brasil no espelho</em>: um guia para entender o Brasil e os brasileiros. Rio de Janeiro: Globo, 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">VON FRANZ, Marie-Louise. <em>Puer aeternus</em>: a luta do adulto contra o paraíso da infância. São Paulo: Paulus, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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