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	<title>Arquivos doramas e psicologia - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos doramas e psicologia - Blog IJEP</title>
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		<title>Doramas e a expressão das emoções</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/doramas-e-a-expressao-das-emocoes/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Natalhe Vieni]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 19 Oct 2021 20:36:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filmes e Séries]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[doramas e psicologia]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">Com o absoluto sucesso do filme Parasita, o cinema asiático chamou atenção do mundo. Com um incrível roteiro original, ele arrecadou o Oscar de Melhor Filme de 2020 e despertou os olhares para as produções da Coreia do Sul.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">As séries de TV produzidas na Coreia do Sul, os K-dramas (ou doramas coreanos), ocupam cada vez mais espaço em plataformas como a Netflix.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">No Brasil os&nbsp;<em>doramas</em>&nbsp;caíram no gosto popular ganhando um número cada vez crescente de seguidores e fãs dessas produções.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Doramas são filmes e séries chamados de “television drama” que, na pronúncia japonesa, sairia como “terebí dorama”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Basicamente doramas são narrativas colocadas em ação. O formato pode variar entre comédia, romance, fantasias, suspense etc. São chamados de “dramas” não por serem tristes, mas por dramatizarem as situações cotidianas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um número crescente de pessoas se apaixonam por essas narrativas, pois elas trazem reflexões profundas: contam histórias de superações; abordam as dificuldades e conflitos familiares; evidenciam complexos maternos/paternos; evidenciam aspectos da sombra coletiva daquela cultura; os personagens resgatam a importância do senso de pertencimento do grupo social; a importância da comida para a demonstração de afeto; as demonstração de cuidado e amor.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos doramas o amor é um assunto à parte. Muito diferente da intensidade dos romances a que estamos acostumados, onde beijos vigorosos e sexo ardente são explícitos, nos doramas o amor é expresso de forma profunda e delicada.&nbsp;Quando um personagem coloca um pedaço de comida no prato do outro têm-se uma grande demonstração de intimidade e ternura, por exemplo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O amor é declarado pela troca de olhares, o roçar das mãos, um sorriso tímido, ao oferecer um cachecol para proteger o outro do frio.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O romance é bonito e leve, onde explícito é apenas o cuidado com o ser amado.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os doramas nos captam&#8230;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A leveza, a beleza, a poética e a profundidade que os assuntos são abordados nos causam encantamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, como a arte evidencia o Espírito da Época e das Profundezas, vivemos num período de realidade muito densa, brigas intermináveis, confusões políticas, esfacelamento econômico, onde a dureza da vida nos obriga a sermos demasiadamente sérios e nos roubam a beleza e a&nbsp;<em>poiesis</em>&nbsp;que gostaríamos de ter.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Ao nos submetermos a todo este peso, assistir um dorama é uma forma de captarmos a leveza e o amor que nos escapa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mesmo os temas como raiva, a disfuncionalidade familiar, o amor não correspondido, o desejo de poder, e tantos outros assuntos sombrios e arquetípicos são expressos de forma sutil e menos densa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A fotografia e a poética nos faz suspirar, onde desejamos viver a vida de uma forma diferente da nossa própria realidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez seja por isso que os doramas nos captam: inconscientemente temos uma projeção compensatória da nossa vida não vivida. Lembrando que, para Jung, a compensação é a “equilibração funcional, como autorregulação do aparelho psíquico” (OC 6, p.437, §774). &nbsp;Ou seja, as dificuldades vividas, a falta de romance e amor nesses tempos áridos, a solidão e tristeza são compensadas pela beleza e poética que os doramas nos trazem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É importante ressaltar que os doramas não ocultam a dureza, as mazelas e dificuldades, mas elas se apresentam de modo singular e muitas vezes opostos ao nosso olhar ocidental. Além disso, vemos a enorme diferença cultural entre Ocidente e Oriente de temas importantes como honra, ancestralidade, patriotismo etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na série Pousando no Amor (Netflix) esses contrastes são evidenciados: os pares românticos pertencem a “mundos diferentes”. O capitão Ri é um militar de família tradicional na Coreia do Norte e a Se-ri é uma rica empresária da Coreia do Sul. A série mostra a abissal diferença cultural, econômica e de valores que ambas as Coreias possuem. Mas os temas arquetípicos como amor, amizade, lealdade, sombra pessoal e social também compõem a narrativa e estão presentes em ambos os lados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Alguns doramas trazem temas arquetípicos muito difíceis de lidar, como por exemplo os complexos familiares.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Herdeiros (Netflix), fala sobre um grupo de estudantes da alta elite coreana, que são preparados para assumir os impérios empresariais de suas famílias. Mas a vida pessoal desses estudantes são um desastre.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O protagonista Kim Tan é um rapaz bonito e rico que foi exilado aos Estados Unidos por seu irmão mais velho sob o pretexto de estudar. Apesar da fortuna, sua família é altamente disfuncional. Por ser filho do pai milionário com sua amante, o pai e o irmão o rejeitam; sua mãe biológica é uma mulher fútil e consumista; sua madrasta controladora e possessiva. Seu ex-melhor amigo Young-do é um rapaz maldoso, que pratica bulling de forma bastante perversa. Em contrapartida, ele foi abandonado pela mãe quando muito jovem, deixado aos cuidados de um pai impiedosamente rigoroso e fisicamente abusivo em relação a ele.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por serem temas arquetípicos, identificamos em nossas vidas tais dificuldades familiares. Quem de nós nunca sentiu na pele tais sombras familiares, que nos fazem sentir sozinhos, mal compreendidos e rejeitados?</p>



<p class="wp-block-paragraph">O belíssimo Saimdang – Memória das cores (Netflix) fala de uma mulher muito à frente de seu tempo. Pintora e poetisa talentosa, Shin Saimdang viveu no início do século 16, na era Joseon (Coreia).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O filme fala de um amor que transcende o tempo. Além disso, traz a força da beleza e toda dificuldade do feminino: o cuidado com os filhos; a dedicação à família; o acolhimento aos rejeitados; o protagonismo da mulher na sociedade; o amor que transcende o tempo; a espiritualidade; a crueldade que a mulher sofre numa sociedade patriarcal; a honra etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em Saimdang o amor é declarado em pinceladas&#8230; O intenso erotismo entre os personagens é expresso através da arte, nas pinturas, nas cores.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao assistirmos Saimdang refletimos como nos distanciamos de nós mesmos. De forma profunda e poética, ele nos faz pensar sobre nossa realidade imediatista, onde esquecemos que somos seres eternos vivendo uma temporariedade terrena. Ele nos remete a alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung diz lindamente que “a alma é o ponto de partida de todas as experiências humanas, e todos os conhecimentos que adquirimos acabam por levar a ela. A alma é o começo e o fim de qualquer conhecimento.” (OC 8/2, p.61, §261)</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, falando em alma, o espetacular Navillera (Netflix) nos faz refletir sobre o significado da vida. O protagonista Shim Deok-chul é um senhor de 70 anos aposentado, que dedicou a vida toda a trabalhar como carteiro e a criar os filhos. Mas, ao se deparar com a morte do melhor amigo, percebe que não realizou o grande sonho de sua vida: ser bailarino.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao tomar a decisão de dançar, transforma profundamente não apenas sua vida, mas de todas as pessoas do seu entorno.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele não se deixa abalar por sua limitação física, se intimidar pelo sentimento de ridículo, se abater devido a censura familiar: ele luta para viver seu grande sonho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta série nos faz refletir como deixamos de viver nossos sonhos em função de exigências sociais e familiares. Renegamos nossa felicidade ao renunciar àquilo que amamos. Varremos nosso desejo ao inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung nos lembra no livro Os arquétipos e o inconsciente coletivo:&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“(&#8230;) se é que compreendemos algo acerca do inconsciente, sabemos que ele não pode ser engolido. Sabemos também que não se trata simplesmente de reprimi-lo, uma vez que tivemos a experiência que o inconsciente é vida, a qual se volta contra nós se for reprimida, como ocorre nas neuroses&#8221;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">(JUNG, OC 9/1, p287-288, § 521.)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Quantas neuroses, quantos sintomas não causamos em nós por reprimirmos nossos sonhos, nossos desejos? Ao buscarmos nos enquadrar nas exigências sociais, nos identificamos demasiadamente com a persona, nos distanciando do significado da nossa alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Distantes do Self, nos perdemos e nos afastamos cada vez mais do nosso caminho de individuação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os doramas trazem poesia e beleza até mesmo em assuntos tabu, como por exemplo a morte e autismo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na lindíssima série A caminho do céu (Netflix) o personagem principal Geu Ru é portador da síndrome de Asperger. Ele e seu pai são “limpadores de trauma”, ou seja, cuidam da limpeza e dos pertences das pessoas após morrerem. E vão muito além: separam os objetos que são mais sagrados e importantes das pessoas mortas e entregam para aqueles que foram importantes na vida do falecido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De uma forma respeitosa e reverente ao falecido, antes de iniciarem os trabalhos, apresentam-se, dizem o dia e a hora da morte da pessoa e pedem licença para começar a limpeza.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A série nos ensina a desestigmatizar e naturalizar os processos do fim da vida. E que, ao tratar com respeito a morte, tendemos a respeitar a vida, a valorizar o presente e as relações, pois são os cultivos das relações que nos honram no momento de nossa partida, deixando marcas profundas nas histórias de quem amamos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pensar em morte é pensar em vida. Viver a plenitude e cumprir a jornada da nossa alma requer passarmos pelos vales das sombras.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A caminho do céu” nos mostra a adaptação de quem fica quando a morte se apresenta, a sombra dos erros cometidos, o preço que pagamos por causa da falta de comunicação, a sombra pessoal que nos engole, a fragilidade, o profundo respeito a quem se foi, o processo de luto. E que todas essas dores fazem parte da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro dorama que trata do autismo, ou TEA, transtorno do espectro autista, é “Tudo bem não ser normal”, a sensibilidade deste drama é impressionante: complexo materno, complexo paterno, inadaptação social, psicopatia&#8230;e, o pano de fundo é um hospital psiquiátrico que nos arrebata, nos episódios finais, ao mostrar os traumas que levaram os indivíduos a internação psiquiátrica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos faz refletir que nos conhecer é enxergar a escuridão que nos habita, encarar as dores da alma, a falibilidade do ser. Esta ampliação da consciência nos coloca nos eixos e reajusta o caminho da jornada da vida. Pois, individuar-se não significa sermos perfeitos, mas indivíduos completos com sua luz e escuridão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Doramas chineses, baseados em lendas e mitos, são de um visual e beleza impressionantes.&nbsp; Temos: “Ice Fantasy”, “Eternal Love”, “Ashes Love” e tantos outros, mostram com muita delicadeza a luta dos contrários, o bem e o mal; o poder e o amor. Antagonismos existentes em cada um de nós. São dramas mais longos cujos cenários são puro encantamento. Histórias que se destinam a todas as idades. Uma releitura que faz emergir os conteúdos dos mitos e lendas chineses que não pertencem só aos asiáticos mas a todos nós, uma vez que não temos um inconsciente coletivo, é ele que nos tem, como diz Jung: Nesta camada do Inconsciente Coletivo somos todos um.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Este artigo tem a intenção de te convidar a pensar que os doramas explicitam de forma compensatória e projetiva aquilo que nos falta: romance, delicadeza, poesia, relações, superações, luto, amor&#8230; E que ao nos encantarmos por um dorama, temos a chance de perceber nossos desejos e/ou nossa vida não vivida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É permitir-se ao afago do encantamento e a captura da beleza.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Daniela Euzebio – Membro analista em formação do IJEP SP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Natalhe Costa – Membro analista em formação do IJEP SP</p>



<p class="wp-block-paragraph">E. Simone Magaldi – Membro didata do IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<strong>A Natureza da Psique.</strong>&nbsp;Petrópolis: Vozes, 1986 (Obras completas de C.G.Jung, v. 8/2).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<strong>Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo</strong>. Petrópolis: Vozes, 2016 (Obras completas de C.G.Jung, v. 9/1).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<strong>Tipos psicológicos.</strong>&nbsp;Petrópolis: Vozes, 2013 (Obras completas de C.G.Jung, v. 6).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Imagem: Rafaela Garcia</p>



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<h4 class="wp-block-heading" id="h-daniela-euzebio-e-natalhe-costa"><strong><em>Daniela Euzébio e Natalhe Costa</em></strong></h4>
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