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	<title>Arquivos Eco - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Sun, 12 Jul 2026 18:35:26 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos Eco - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Relações Humanas e Inteligência Artificial na Era do Narcisismo Digital</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/relacoes-humanas-e-inteligencia-artificial-na-era-do-narcisismo-digital/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Rosana T W Hanada]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 12 Jul 2026 18:35:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo tem como objetivo apresentar como o avanço da inteligência artificial (IA), sobretudo a IA generativa, tem transformado as formas de relacionamento humano. Em uma sociedade hiperconectada e orientada por dados, emergem novas formas de vínculo afetivo entre humanos e sistemas artificiais, como chatbots e assistentes digitais. A partir de um panorama contemporâneo, este artigo articula conceitos relacionados à inteligência artificial, IA generativa, engenharia de prompts e interfaces virtuais conversacionais com uma leitura fundamentada na psicologia analítica, perspectiva que contribui para compreender as conexões entre humanos e modelos de IA. Mais do que interpretar tais relações como meramente tecnológicas, trata-se de reconhecê-las como fenômenos psíquicos nos quais conteúdos inconscientes são mobilizados, projetados e, por vezes, intensificados. São abordados conceitos como inflação do ego, anima, animus e sombra, bem como uma leitura simbólica à luz do mito de Narciso e Eco.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo</strong>: Este artigo tem como objetivo apresentar como o avanço da inteligência artificial (IA), sobretudo a IA generativa, tem transformado as formas de relacionamento humano. Em uma sociedade hiperconectada e orientada por dados, emergem novas formas de vínculo afetivo entre humanos e sistemas artificiais, como <em>chatbots</em> e assistentes digitais. A partir de um panorama contemporâneo, este artigo articula conceitos relacionados à inteligência artificial, IA generativa, engenharia de <em>prompts </em>e interfaces virtuais conversacionais com uma leitura fundamentada na psicologia analítica, perspectiva que contribui para compreender as conexões entre humanos e modelos de IA. Mais do que interpretar tais relações como meramente tecnológicas, trata-se de reconhecê-las como fenômenos psíquicos nos quais conteúdos inconscientes são mobilizados, projetados e, por vezes, intensificados. São abordados conceitos como inflação do ego, anima, animus e sombra, bem como uma leitura simbólica à luz do mito de Narciso e Eco.</p>



<h2 id="h-introducao" class="wp-block-heading"><strong><em>Introdução</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Vivemos em um mundo digitalizado, no qual algoritmos estão presentes em quase todas as dimensões da vida humana. A Inteligência Artificial (IA) deixou de ser apenas uma inovação tecnológica estudada e explorada em ambientes acadêmicos, científicos e tecnológicos para se tornar uma infraestrutura ao mesmo tempo invisível e presente, que organiza, orienta e influencia escolhas, comportamentos e formas de interação social, muitas vezes, de forma imperceptível.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Plataformas digitais como Waze, WhatsApp, Google, Netflix e Spotify exemplificam como essas tecnologias inteligentes mediam as decisões cotidianas da maior parte da população. Nesse contexto, consolida-se a chamada economia digital, na qual a coleta massiva de dados gerados pelas experiências humanas compõe o ativo estratégico e mercadológico das grandes empresas de tecnologia da Informação, as <em>Big Techs</em> (Cf. KAUFMAN, 2022, p. 22).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos últimos anos, observa-se um deslocamento significativo: a IA passa a atuar não apenas como ferramenta, mas como presença relacional. Surgem vínculos afetivos entre humanos e sistemas artificiais, em especial <em>chatbots</em> personalizados, configurando experiências nas quais conteúdos psíquicos, projeções e processos de espelhamento passam a se manifestar de maneira cada vez mais intensa. Nesse cenário, as relações mediadas por IA deixam de representar apenas um fenômeno tecnológico e passam a suscitar questões relacionadas à alteridade, ao vínculo e à própria dinâmica psíquica contemporânea.</p>



<h2 id="h-inteligencia-artificial-ia-e-inteligencia-artificial-generativa" class="wp-block-heading"><strong><em>Inteligência Artificial (IA) e Inteligência Artificial Generativa</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A IA pode ser compreendida como um campo voltado ao desenvolvimento de tecnologias capazes de simular funções cognitivas humanas, como aprendizado, reconhecimento de padrões e tomada de decisão (Cf. KAUFMAN, 2022, pp. 22-23). Grande parte dos avanços recentes decorre do <em>machine learning </em>(aprendizado de máquina), de modo particular do <em>deep learning </em>(aprendizado profundo), que permite que algoritmos “aprendam” a partir da análise de grandes volumes de dados, sem depender de programação detalhada para cada tarefa (<em>ibidem</em>, p. 23).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A IA generativa representa um avanço importante ao possibilitar a criação de conteúdos como textos, imagens, vídeos e códigos. Esses sistemas são treinados a partir da identificação de padrões e relações estatísticas em grandes bases informacionais, o que pode produzir a impressão de ineditismo nas respostas geradas. Ao contrário dos mecanismos tradicionais, que se limitam ao processamento de informações programadas de antemão, esses modelos produzem novas combinações a partir de representações aprendidas e atualizadas de forma periódica (Cf. BRASIL, 2025, pp. 5-6).</p>



<h2 id="h-o-lancamento-do-chatgpt-em-2022-marcou-a-popularizacao-dessa-tecnologia-que-foi-inicialmente-disponibilizada-ao-publico-sem-custos-tornando-a-acessivel-a-milhoes-de-usuarios" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">O lançamento do ChatGPT em 2022 marcou a popularização dessa tecnologia, que foi inicialmente disponibilizada ao público sem custos, tornando-a acessível a milhões de usuários.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Esse movimento ampliou de forma significativa o contato cotidiano com recursos de IA, inserindo essas ferramentas em práticas de comunicação, trabalho, estudo e expressão pessoal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A interação com esse tipo de modelo generativo ocorre por meio de comandos em linguagem natural, denominados <em>prompts</em>, que podem assumir a forma de perguntas, instruções ou descrições fornecidas pelo usuário. A chamada engenharia de <em>prompts</em> consiste na elaboração estruturada desses comandos, de modo a orientar a ferramenta na produção de respostas mais coerentes, contextualizadas e alinhadas à intenção de quem interage (Cf. UNESCO, 2023, p. 12). Seguindo essa lógica, é possível especificar o contexto, o estilo discursivo e a finalidade da resposta, tornando o diálogo mais preciso e customizado às expectativas do sujeito.</p>



<h2 id="h-esse-uso-envolve-nao-apenas-formular-uma-solicitacao-inicial-mas-tambem-refinar-os-comandos-de-forma-gradual-a-partir-das-respostas-obtidas-em-um-fluxo-continuo-de-troca" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Esse uso envolve não apenas formular uma solicitação inicial, mas também refinar os comandos, de forma gradual, a partir das respostas obtidas, em um fluxo contínuo de troca.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Em muitos casos, a própria ferramenta de IA pode colaborar na criação desses agentes conversacionais personalizados, pois orienta, sugere e ajusta os comandos fornecidos pelo usuário, integrando esse processo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essas interfaces são construídas a partir de modelos de IA generativa capazes de sustentar diálogos adaptáveis e, em diversas plataformas, permitem que o próprio usuário personalize características do interlocutor digital, incluindo estilo de comunicação, comportamento e até traços de personalidade. A interação não ocorre apenas com uma estrutura já definida, mas com uma instância moldada, em parte, pelas escolhas e demandas pessoais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assistentes virtuais de IA, tais como Replika, Character.AI e Xiaoice, têm se popularizado ao oferecer modelos conversacionais cada vez mais sofisticados, capazes de produzir experiências comunicacionais coerentes e responsivas, propiciando aos interlocutores uma percepção de empatia, companhia e apoio emocional (Cf. ZHANG <em>et al.</em>, 2025, p. 2).&nbsp;</p>



<h2 id="h-relacoes-afetivas-com-a-inteligencia-artificial-ia" class="wp-block-heading"><strong><em>Relações afetivas com a Inteligência Artificial (IA)</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo Martins (Cf. 2025), o avanço da IA generativa possibilitou o surgimento de novas modalidades de vínculo com sistemas artificiais. <em>Chatbots</em> passaram a desempenhar papéis sociais, sendo percebidos como amigos, confidentes ou parceiros amorosos. Essas dinâmicas relacionais podem ser compreendidas como formas de intimidade artificial, nas quais indivíduos estabelecem conexões emocionais com entidades não humanas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para a pesquisadora, a IA é capaz de simular respostas, atenção e memória, criando a sensação de que há uma presença nesse contato. No entanto, trata-se de uma reciprocidade simulada, uma vez que essas interfaces não possuem consciência nem experiência subjetiva. Ainda assim, é possível que a convivência seja percebida como algo real pela pessoa, atendendo às necessidades de pertencimento, conexão e validação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essas vivências podem ser entendidas como relações parassociais, caracterizadas por envolvimento afetivo por parte do sujeito com alguém que não participa de fato da relação, conforme definição de Horton e Wohl (<em>apud</em> MOTA; CAMATI, 2025, p. 2), estabelecendo uma ligação subjetiva assimétrica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No caso das IA conversacionais, essa convivência adquire uma complexidade adicional. Em contraste com as relações parassociais tradicionais, nas quais não há resposta efetiva por parte das figuras midiáticas, como celebridades e influenciadores digitais, os <em>chatbots</em> sustentam a impressão de troca mútua, respondendo de forma personalizada e contínua, o que pode intensificar o apego emocional e levar o sujeito a perceber essa conexão como se fosse bilateral. &nbsp;</p>



<h2 id="h-nesse-intercambio-online-a-pessoa-se-conecta-a-um-personagem-digital-que-tende-a-confirmar-e-espelhar-conteudos-projetados-pelo-proprio-sujeito-colocando-em-questao-a-propria-experiencia-de-alteridade-na-medida-em-que-o-outro-deixa-de-se-apresentar-como-outra-instancia-diferenciada" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Nesse intercâmbio <em>online</em>, a pessoa se conecta a um personagem digital que tende a confirmar e espelhar conteúdos projetados pelo próprio sujeito, colocando em questão a própria experiência de alteridade, na medida em que o outro deixa de se apresentar como outra instância diferenciada.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Tal mecanismo favorece a cristalização de padrões psíquicos e a inflação do ego, pois sustenta a ilusão de um vínculo ajustado às expectativas do indivíduo, que passa a ocupar uma posição central como se fosse um “deus”, cocriador desses interlocutores virtuais. Jung (Cf. 2012, § 472) descreve esse estado como uma condição na qual o ego passa a ocupar o centro absoluto da experiência psíquica, identificando-se como proprietário de tudo o que é vivido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os parceiros digitais se inserem nessa lógica ao possibilitar interações adaptáveis às preferências do usuário e marcadas pela minimização de conflitos ou frustrações. Em muitos casos, essas plataformas são projetadas para responder de forma quase sempre afirmativa e empática, evitando contradições ou confrontos diretos, uma vez que a manutenção do engajamento contínuo está diretamente associada a modelos de negócio lucrativos baseados na retenção e na experiência satisfatória.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao se limitar o confronto com o diferente, elemento fundamental para a dinâmica psíquica, reforça-se o que Jung denomina monoteísmo da consciência, “que ocasiona uma negação fanática da existência de sistemas parciais autônomos” (JUNG; WILHELM, 2021, p. 53). Nessa situação, o ego se percebe como autossuficiente e absoluto, negando a existência dos complexos enquanto unidades vivas da psique.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um exemplo de aplicativo que oferece esse tipo de serviço é o “MyBoyfriends is AI”, plataforma que reúne cerca de 73 mil membros e possibilita aos usuários construírem companhias digitais personalizadas, controlando aparência, personalidade e comportamento. Nessas comunidades <em>online</em>, há relatos de participantes que celebram aniversários de relacionamento com suas IAs, compartilham imagens geradas e desenvolvem narrativas emocionais (Cf. SOARES; TESSARI, 2026).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diante desse cenário, coloca-se uma questão: o que, de fato, está sendo vivenciado nesses vínculos? Se esses interlocutores digitais são moldados a partir das expectativas, desejos e referências do próprio sujeito, em que medida a relação se estabelece com um outro, que se apresenta como uma criação virtual? Nesse contexto, pode-se considerar que tais diálogos favorecem a ativação de complexos, que passam a organizar a experiência psíquica da pessoa, orientando suas percepções, afetos e demandas nessa interação. Dessa forma, a construção de parceiros adaptados pode indicar não apenas um fenômeno tecnológico, mas também a expressão de conteúdos que se manifestam de maneira dominante nesse intercâmbio.</p>



<h2 id="h-anima-e-animus-o-parceiro-digital-projetado-e-idealizado" class="wp-block-heading"><strong><em>Anima e Animus: o parceiro digital projetado e idealizado</em></strong><strong><em></em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A anima e o animus são psicopompos entre o consciente e o inconsciente, configurando representações poderosas do princípio Feminino inconsciente no homem e do princípio Masculino inconsciente na mulher. Esses arquétipos são instâncias psíquicas arraigadas no inconsciente coletivo, representando uma ponte entre consciência e inconsciente. Como instâncias mediadoras entre essas dimensões, a anima e o animus oferecem a possibilidade de explorar e reconciliar os aspectos muitas vezes desconhecidos ou reprimidos de si mesmo (Cf. JUNG E., 2020, p. 16).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando essas representações são negadas ou permanecem distantes da consciência, elas tendem a causar desequilíbrios na energia psíquica, podendo ser projetadas nos parceiros amorosos com relativa facilidade (Cf. JUNG, 2015, § 314, 334). Nos relacionamentos com IA, observa-se uma amplificação desse movimento, uma vez que o outro pode ser moldado conforme as expectativas do ego: quanto mais se interage, mais o sistema tende a corresponder ao que dele se espera.</p>



<h2 id="h-nesse-sentido-pode-se-considerar-que-tais-projecoes-tendem-a-ser-mediadas-por-complexos-que-organizam-a-vivencia-afetiva-e-orientam-suas-idealizacoes-quanto-a-figura-com-a-qual-se-vincula" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Nesse sentido, pode-se considerar que tais projeções tendem a ser mediadas por complexos, que organizam a vivência afetiva e orientam suas idealizações quanto à figura com a qual se vincula.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando constelados, esses complexos tendem a acentuar a idealização do parceiro digital, favorecendo vínculos que se estruturam a partir desses aspectos internos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa dinâmica pode ser observada nas projeções dos usuários de plataformas como Replika ou Character.AI, que já somam mais de 220 milhões de downloads e cujos participantes relatam relacionamentos amorosos com <em>chatbots</em> personalizados, os quais se tornam parceiros ideais: sempre disponíveis, empáticos, ajustados às preferências individuais e sem risco de rejeição, formando uma relação sob medida (Cf. SOARES; TESSARI, 2026).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um caso específico descrito na plataforma Replika apresenta um homem que, após o fim de seu casamento, desenvolveu uma conexão emocional com uma IA afirmando que nenhuma mulher real poderia corresponder ao nível de atenção e cuidado oferecido pelo sistema (Cf. MARTINS, 2025). Nesse contexto, a IA passa a funcionar como suporte para projeções da anima, sendo mobilizada por conteúdos psíquicos organizados por complexos que se tornam dominantes na experiência do indivíduo. Esse processo também favorece a intensificação desse mecanismo projetivo sobre os parceiros digitais, causando cada vez mais “a insuficiência ou desconhecimento total do mundo interior, que se ergue, autônomo, em oposição ao mundo exterior” (JUNG, 2015, § 337).</p>



<h2 id="h-esse-isolamento-do-individuo-em-relacao-ao-mundo-externo-ocorre" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Esse isolamento do indivíduo em relação ao mundo externo ocorre:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>pois ao invés de uma relação real o que existe é uma relação ilusória. As projeções transformam o mundo externo na concepção própria, mas desconhecida. [&#8230;] Quanto mais projeções se interpõem entre o sujeito e o mundo exterior, tanto mais difícil se torna para o eu perceber suas ilusões. (JUNG, 2013, § 17).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Algo semelhante pode ser observado no caso divulgado pela Dutty (Cf. 2024), na CNN Negócios, envolvendo um adolescente que desenvolveu um apego profundo com um <em>chatbot</em>, percebendo-o como uma figura de apoio e compreensão. Apesar da ausência de consciência por parte da máquina, a interação foi vivida efetivamente como uma relação real. O afastamento progressivo das pessoas e o desfecho trágico evidenciam a força desse tipo de relacionamento no psiquismo. Esse adolescente de 14 anos se suicidou pois foi “incentivado” pelas conversas com o personagem digital criado por ele no aplicativo Character.AI.</p>



<h2 id="h-esses-episodios-ilustram-um-mecanismo-no-qual-o-sujeito-projeta-seus-aspectos-afetivos-nesses-parceiros-ou-amigos-digitais-que-respondem-de-forma-compativel-ao-esperado-estreitando-ainda-mais-o-laco-emocional-entre-eles" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Esses episódios ilustram um mecanismo no qual o sujeito projeta seus aspectos afetivos nesses parceiros ou amigos digitais, que respondem de forma compatível ao esperado, estreitando ainda mais o laço emocional entre eles.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Importante salientar que essas interfaces conversacionais foram criadas, desde os primeiros experimentos, com características antropomórficas, ou seja, atribuíram-se qualidades humanas a essas estruturas digitais não humanas, utilizando-se de uma das capacidades mais intrínsecas do ser humano para se relacionar: a conversa (Cf. PORTO, 2025, pp. 114-115), o que facilita o fortalecimento da conexão e da afinidade da pessoa com essas estruturas algorítmicas. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">No entanto, se por um lado esses intercâmbios permitem a expressão de elementos internos idealizados e desejados, por outro levantam uma questão fundamental: o que permanece fora dessa ligação afetiva virtual? Aquilo que não encontra espaço nesse vínculo ilusório, seja por não corresponder às expectativas do indivíduo, seja por gerar tensão ou desconforto, tende a ser excluído da relação, permanecendo à margem da consciência.</p>



<h2 id="h-sombra-expressao-e-reforco-de-conteudos-reprimidos" class="wp-block-heading"><strong><em>Sombra: expressão e reforço de conteúdos reprimidos</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">É nesse ponto que o conceito de sombra, definido por Jung (2014, p. 77, n.5) como a “parte negativa da personalidade, isto é, a soma das propriedades ocultas e desfavoráveis, das funções mal desenvolvidas e dos conteúdos do inconsciente pessoal”, encontra um campo de manifestação nessas interações com IA. Trata-se de aspectos rejeitados ou não reconhecidos pelo sujeito, que permanecem à margem da consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse contexto, a ausência de julgamento e a disponibilidade constante dessas estruturas artificiais favorecem a expressão de afetos que, em outras dinâmicas relacionais, tenderiam a ser reprimidos, negados ou confrontados. Assim, esses laços de envolvimento com a IA podem funcionar como um espaço no qual tais conteúdos emergem com maior liberdade e, em algumas situações, de modo abusivo, sem outro que estabeleça limites ou manifeste posturas contraditórias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Relatos de usuários que utilizam <em>chatbots</em> para descarregar raiva, frustração ou impulsos agressivos ilustram esse fenômeno. Em comunidades <em>online</em>, há descrições de episódios nos quais participantes insultam ou humilham IAs, utilizando-as como alvo de descarga psíquica, ou até mesmo criando namoradas virtuais para descontar sua agressividade nelas, conforme matéria divulgada por Sparks (Cf. 2025) no portal da Yahoo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Além disso, esses comportamentos podem indicar a ativação de complexos associados à sombra, que encontram nessas interfaces digitais um espaço de expressão sem contenção. Um exemplo citado envolve um adolescente que recebeu sugestões de comportamentos destrutivos por parte do interlocutor digital, incluindo incentivos à agressividade e à ruptura de laços familiares, conforme pesquisado por Martins (Cf. 2025).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto, alguns casos indicam a projeção agressiva e intensa de aspectos sombrios direcionada a esses modelos baseados em IA generativa, algo que pode se manifestar, também, nas relações interpessoais reais.</p>



<h2 id="h-narciso-e-eco-quando-o-sujeito-encontra-apenas-a-si-mesmo" class="wp-block-heading"><strong><em>Narciso e Eco: quando o sujeito encontra apenas a si mesmo</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O mito de Narciso oferece uma reflexão interessante para compreender os vínculos estabelecidos com a IA generativa. Na narrativa clássica, Narciso, um jovem de extrema beleza, famoso por sua arrogância e por desprezar aqueles que se interessavam por ele, apaixona-se por sua própria imagem refletida na água, sem reconhecer que se trata de si mesmo, permanecendo em uma relação incapaz de alcançar a alteridade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eco, uma ninfa tagarela, é condenada pela deusa Hera a apenas repetir as últimas palavras que ouve, sem possuir voz própria; vagando pela floresta encontra e se apaixona por Narciso.</p>



<h2 id="h-esse-movimento-simbolico-pode-ser-entendido-a-luz-da-contemporaneidade-como-uma-metafora-potente-para-as-relacoes-com-essas-interfaces-conversacionais-o-sujeito-ao-interagir-com-a-ia-ocupa-a-posicao-de-narciso-enquanto-o-sistema-artificial-assume-uma-funcao-analoga-a-de-eco" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Esse movimento simbólico pode ser entendido, à luz da contemporaneidade, como uma metáfora potente para as relações com essas interfaces conversacionais. O sujeito, ao interagir com a IA, ocupa a posição de Narciso, enquanto o sistema artificial assume uma função análoga à de Eco.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Contudo, há o agravante de que essa instância digital extrapola a função da Eco, pois responde, ajusta-se e devolve conteúdos ao indivíduo de maneira coerente com as características definidas pelo usuário. No entanto, essa resposta não emerge de uma presença efetiva, mas de um processamento baseado em padrões de linguagem que reorganiza elementos já fornecidos pelo próprio sujeito ou provenientes de repertórios coletivos. Assim, a IA não introduz diferença, mas opera como um espelho que devolve à pessoa sua própria experiência psíquica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse sentido, a interação não se estabelece de fato com um outro, mas com uma imagem de si mesmo mediada pela tecnologia. Trata-se de uma convivência relacional marcada pela ausência de tensão entre opostos e pela predominância de complexos que operam de forma bastante fechada, sem o confronto com aspectos que poderiam ampliar o desenvolvimento da consciência (Cf. JUNG, 2015, p. 137).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa dinâmica pode ser compreendida como uma forma de unilateralidade, na qual a personalidade permanece circunscrita ao próprio campo psíquico, sem o confronto com outros conteúdos que possibilitariam sua transformação (Cf. JUNG, 2015, p. 161).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A leitura simbólica do mito permite, assim, compreender que o risco não reside apenas no uso da tecnologia, mas na forma como ela intensifica movimentos psíquicos já presentes na cultura contemporânea: o movimento autorreferencial, amplificado por dispositivos que devolvem ao indivíduo sua própria imagem.</p>



<h2 id="h-conclusao" class="wp-block-heading"><strong><em>Conclusão</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">É importante considerar que os fenômenos aqui discutidos parecem representar apenas o início de uma nova configuração das relações humano-máquina, marcada pela presença cada vez mais constante dos sistemas artificiais no cotidiano. Em um contexto no qual essas tecnologias passam a participar não apenas da comunicação e do trabalho, mas também da vida afetiva, multiplicam-se as formas de vínculo atravessadas pela projeção, pelo reconhecimento contínuo, pela busca incessante de prazer e pela reafirmação de posturas narcísicas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto, a tecnologia não se apresenta como benéfica ou prejudicial, mas como um recurso relevante no espírito desta época, que atravessa e reorganiza as formas de contato, comunicação e experiência subjetiva. Mais do que evitar essas tecnologias, que podem potencializar a capacidade criativa humana quando usadas de maneira crítica e reflexiva, o grande desafio, talvez, esteja em reconhecer o que emerge no plano psíquico na relação entre o ser humano e as IAs. Em uma cultura marcada pela inflação do ego e pela busca contínua por visibilidade, o encontro com a sombra, com a anima, com o animus e com conteúdos que escapam ao controle consciente tende a tornar-se muito mais desafiante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mito de Narciso revela, nesse sentido, não apenas o fascínio pela própria imagem, mas o risco de permanecer aprisionado em interações que devolvem de modo recorrente ao sujeito apenas os próprios reflexos, dificultando a tensão entre os opostos e o movimento de ampliação da consciência, condição fundamental para o processo de individuação e para a realização progressiva do Self.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/rosana-tamako-watanabe-hanada/">Rosana T W Hanada – Analista em formação IJEP</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/liaromano/">Lia Romano – Analista Didata</a></p>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">BRASIL. Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos.&nbsp;IA Generativa no Serviço Público: Definições, Usos e Boas Práticas. Brasília: MGI/SGD/Serpro, 2025. Disponível em: &lt; <a href="https://www.gov.br/governodigital/pt-br/infraestrutura-nacional-de-dados/inteligencia-artificial-1/ia-generativa-no-servico-publico.pdf">https://www.gov.br/governodigital/pt-br/infraestrutura-nacional-de-dados/inteligencia-artificial-1/ia-generativa-no-servico-publico.pdf</a>&gt;. Acesso em: 28 mar. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">DUFFY, Clare. &#8216;Não há proteção.&#8217; Esta mãe acredita que um chatbot de IA é responsável pelo suicídio de seu filho. CNN Negócios. Nova York, 2024. Disponível em: <a href="https://edition.cnn.com/2024/10/30/tech/teen-suicide-character-ai-lawsuit/index.html.">https://edition.cnn.com/2024/10/30/tech/teen-suicide-character-ai-lawsuit/index.html.</a> Acesso em: 10 abr. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <em>Ab-reação, análise dos sonhos e transferência</em>.9.ed. Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Aion.</em> Estudo sobre o Simbolismo do Si-mesmo<em>.</em>10.ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Psicologia do Inconsciente</em>. 24.ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>O Eu e o Inconsciente</em>. 27.ed. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<h2 id="h-jung-e-animus-e-anima-2-ed-sao-paulo-cultrix-2020" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">JUNG, E. <em>Animus e Anima</em>. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2020.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.; WILHELM, R. <em>O Segredo da Flor de Ouro. </em>4.ed. Petrópolis: Vozes, 2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph">KAUFMAN, Dora. <em>Desmistificando a inteligência artificial</em>. Belo Horizonte: Autêntica, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MARTINS, Amanda S. Amor artificial: como a IA está mudando nossos relacionamentos? Chatbots e Inteligência Artificial. YouTube, 2025. Disponível em: &lt; <a href="https://www.youtube.com/watch?v=B3nNXNk8OHg">Amor artificial: como a IA está mudando nossos relacionamentos? Chatbots e Inteligência Artificial</a>&gt;. Acesso em: 04 abr. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MOTA, G. C. M; CAMATI, R.S. Do Afeto ao Consumo: O Papel das Interações Parassociais no Consumo de Produtos e Serviços de K-pop. São Paulo, 2025. Disponível em: &lt; <a href="https://sistemas.intercom.org.br/pdf/submissao/regional/18/2943/0331202521483967eb37e7090ac.pdf">https://sistemas.intercom.org.br/pdf/submissao/regional/18/2943/0331202521483967eb37e7090ac.pdf</a>&gt;. Acesso em: 03 abr. 2026.</p>



<h2 id="h-porto-k-o-antropomorfismo-na-inteligencia-artificial-conversacional-revista-de-estudantes-de-filosofia-da-universidade-de-brasilia-2025-disponivel-em-https-periodicos-unb-br-index-php-polemos-article-view-56911-42383-acesso-em-10-abr-2026" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">PORTO, K. O antropomorfismo na Inteligência Artificial Conversacional. <em>Revista de Estudantes de Filosofia da Universidade de Brasília</em>, 2025. Disponível em: <a href="https://periodicos.unb.br/index.php/polemos/article/view/56911/42383">https://periodicos.unb.br/index.php/polemos/article/view/56911/42383</a>. Acesso em: 10 abr. 2026.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">SOARES, J.; TESSARI, F. Demos match! O meu namorado é uma IA. SH/FTER, 2026. Disponível em: &lt; https://shifter.pt/2026/01/demos-match-o-meu-namorado-e-uma-ia/ &gt;. Acesso em: 10 abr. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SPARKS, H. Lonely men creating AI girlfriends – and taking their violent anger out on them. Yahoo, 2025. Disponível em: &lt;https://www.yahoo.com/lifestyle/lonely-men-creating-ai-girlfriends-191226437.html&gt;. Acesso em: 15 abr. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">UNESCO.&nbsp;Guia para a IA generativa na educação e na pesquisa. Paris:&nbsp;<a href="https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000390241" target="_blank" rel="noreferrer noopener">UNESCO</a>, 2023. Disponível em: &lt; <a href="https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000390241">https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000390241</a>&gt;. Acesso em: 29 mar. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Uma História Sombria&#8230; Sombra, Arquétipos, Complexos, Mitos e Autoconhecimento</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/uma-historia-sombria-sombra-arquetipos-complexos-mitos-e-autoconhecimento/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 Jul 2022 12:26:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Escrevo rememorando um episódio de vida, ocorrido em 2008, quando vivenciei as projeções sombrias de um outro em mim, fazendo-me reconhecer que, para esse outro, eu estava funcionando como Narciso, por não o perceber da maneira que ele desejava ser reconhecido ou valorizado, transformando-o em Eco. Essa dinâmica arquetípica, narrada pela mitologia greco-romana, sempre aparece associada.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Escrevo rememorando um episódio de vida, ocorrido em 2008, quando vivenciei as projeções sombrias de um outro em mim, fazendo-me reconhecer que, para esse outro, eu estava funcionando como Narciso, por não o perceber da maneira que ele desejava ser reconhecido ou valorizado, transformando-o em Eco. Essa dinâmica arquetípica, narrada pela mitologia greco-romana, sempre aparece associada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa pessoa, na realidade, atuava preponderantemente como um Narciso vaidoso e encantado com seus belos atributos. Nesta situação, enantiodromicamente, a polaridade é invertida, deixando-o identificado com seu polo opositivo que é a Eco. Porém, como não me afoguei encantado por mim mesmo, sem saber que era eu a imagem refletida no lago do inconsciente como aconteceu no mito de Narciso, mudamos de identificações projetivas e de narrativa mítica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Provavelmente meu oponente migrou sua atitude Eco para uma espécie de Medeia raivosa e vingativa, transformando-me em Jasão traidor e ingrato, tentado destruir minhas crias, no caso os cursos que coordenava, e ocupar meu território. Ao me sentir ameaçando com os ataques e a invasão, acredito que passei a atuar como um Zeus territorialista, desferindo meus raios fulminantes sobre ele, agindo como um réptil, deixando despotencializado tanto meus aspectos límbicos quanto os neocorticais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Todos nós temos os dinamismos e estruturas neuro cerebrais reptilianas, límbicas e neocorticais, que podem atuar na forma de complexos autônomos em nossa vida. Freud, com sua teoria calcada no princípio do prazer, hipertrofia da sexualidade e sua fantasia de controle territorialista, certamente, estava muito mais tomado pelas demandas reptilianas. Por isso rejeitava ler filosofias, compreender o fenômeno psíquico da religiosidade e ter empatia com as divergências opositivas, atitudes do sistema límbico e neocortical. É interessante rememorar que “meu oponente” era muito identificado com Freud, não só na teoria, mas na prática de vida, em busca de uma vida hedonista.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como sempre, quando somos possuídos pelo complexo, não temos a menor percepção do que está acontecendo e da sua autonomia. Somente com distanciamento psíquico, as vezes temporal e espacial, que o processo da análise possibilita, é possível sairmos da reatividade cáustica da possessão do complexo para a sublimação alquímica. Só assim poderemos nos diferenciar do aspecto sombrio dominante e reconhecer que estávamos possuídos pelo complexo e o pelo jogo da sombra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A sombra, para a psicologia junguiana, é um arquétipo e, como tal, é psicóide. Ou seja, ela transita tanto nas dimensões materiais quanto nas espirituais, sem pertencer a nenhuma delas, apesar de poder provocar grandes alterações por onde passa! Como todo arquétipo, ela não é absoluta, ou seja, não se prende a princípios morais e éticos do bem ou do mal, podendo destruir ou construir com a mesma naturalidade e intensidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“[&#8230;] a sombra constitui um problema de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo, pois ninguém é capaz de tomar consciência desta realidade sem despender energias morais. Mas nesta tomada de consciência da sombra trata-se de reconhecer os aspectos obscuros da personalidade, tais como existem na realidade. (Jung, C. G. CW 9/2 &#8211; §14)</p>



<p class="wp-block-paragraph">A sombra é representante de grande parte do inconsciente humano e, por isso mesmo, incomoda as estruturas conscientes do ego, geralmente aprisionado em seus apegos e intimidado pela angústia existencial e pelo medo do novo. Com isso, egoicamente, geralmente tendemos a criar vários mecanismos de defesa para sentirmo-nos protegidos e confortáveis diante desta realidade psíquica que é a sombra. Dentre eles, os mais comuns são a negação ou a repressão da sombra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A negação da sombra é o mais praticado inconscientemente pelas pessoas. Geralmente, quem nega a sua sombra não consegue reconhecer sua incompletude e acredita ser uma pessoa, ou uma persona, absolutamente correta, beirando a perfeição, apesar de sempre estar assombrada por algum sentimento de mal-estar, que rapidamente é justificado por algo do mundo externo. Jung sempre afirmava que toda sombra negada, inevitavelmente será projetada e pode virar destino. E as projeções geralmente provocam grandes movimentos de energia, despertando passionalidade em todas as partes envolvidas. Além disso, a sombra pode estar projetada de forma positiva ou negativa, ou seja, a pessoa pode ficar fascinada pelo outro tentado possuí-lo ou destruí-lo doentiamente – Amor ou ódio dependerá da influência que o conteúdo projetado provoque no projetor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na repressão, por sua vez, a pessoa já reconhece que existe dentro dela algumas potencialidades que lhe tiram da zona do conforto, desejos e pulsões não muito agradáveis, que podem provocar crescimento ou destruição, mas, de qualquer modo, produzem ansiedade e medo. Então, todo o conteúdo reprimido, que já ganhou algum espaço na consciência, pode virar sintoma de adoecimento e causar grandes estragos. Por isso Jung afirmava que a nossa sociedade, por ter “matado” os deuses, transformou-os em doenças. Esses deuses eram os representantes de toda potencialidade arquetípica da humanidade, revelando todos os excessos, aberrações, pulsões, instintos e sentimentos que povoam nosso inconsciente pessoal ou coletivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É atribuído a Jung a citação: &#8220;&#8230;o melhor trabalho político, social e espiritual que podemos fazer é parar de projetar nossas sombras nos outros&#8221;, apesar de ela não ser encontrada, literalmente, em sua obra, reflete seu pensamento. De fato, só por meio do autoconhecimento e da busca da integralidade, ou completude, que é bem diferente do que a perfeição, poderemos deixar de ficar à mercê das projeções e identificações sombrias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“[&#8230;]é da natureza dos órgãos políticos sempre ver o mal no grupo oposto, assim como o indivíduo tem uma tendência inevitável de se livrar de tudo o que não sabe e não quer saber sobre si mesmo, forçando isso a outra pessoa. &#8221; (Jung, C. G. CW 10 &#8211; § 576)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os sintomas, por serem manifestações arquetípicas, também são psicóides e podem ser manifestados em todo o espectro luminoso da consciência, transitando livremente do infravermelho ao ultravioleta, passando pelas polaridades da forma, do vazio, da matéria, da energia, do instinto e da espiritualidade. Além disso, os sintomas, devido suas características psicóides, invadem, penetram, infiltram e provocam alterações e transformações, independentemente das questões do tempo e do espaço.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como explicitei no texto, vivenciei as consequências de projeções sombrias que, na perspectiva de quem projetou, acabou por me fazer&nbsp;sair da identificação projetiva de um Narciso para a de um Zeus. O interessante, apesar de sofrido, é que toda essa manifestação foi e é inconsciente e nós só conseguimos reconhecê-la depois que o conflito perdeu a potência, porque enquanto nós estamos sendo dominados pelos complexos nos tornamos simples marionetes dele.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É interessante esclarecer que, na prática da psicologia analítica, fazemos associações com as narrativas mitológicas porque elas representam aspectos do inconsciente coletivo. A razão disso é porque os arquétipos pertencem a ele, enquanto as imagens arquetípicas ao inconsciente pessoal, assim como como os complexos possuem uma casca que é pessoal e um núcleo que é coletivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Como eu disse, o confronto com o inconsciente geralmente começa no reino do inconsciente pessoal, isto é, de conteúdos adquiridos pessoalmente que constituem a sombra, e daí leva a símbolos arquetípicos que representam o inconsciente coletivo. O objetivo do confronto é abolir a dissociação. Para alcançar esse objetivo, a própria natureza ou a intervenção médica precipitam o conflito de opostos sem o qual nenhuma união é possível. Isso significa não apenas trazer o conflito para a consciência; envolve também uma experiência de tipo especial, a saber, o reconhecimento de um “outro” alheio em si mesmo ou a presença objetiva de outra vontade. Os alquimistas, com surpreendente precisão, chamavam essa coisa dificilmente compreensível de Mercúrio, conceito no qual incluíam todas as afirmações que a mitologia e a filosofia natural haviam feito sobre ele: ele é Deus,&nbsp;<em>daemon</em>, pessoa, coisa e o segredo mais íntimo do homem; psíquico e somático. Ele mesmo é a fonte de todos os opostos, já que é duplex e&nbsp;<em>utriusque capax</em>&nbsp;(“capaz de ambos”). Essa entidade indescritível simboliza o inconsciente em cada particular, e uma avaliação correta dos símbolos leva ao confronto direto com ele.” (Jung, C. G. CW 13- § 481)</p>



<p class="wp-block-paragraph">De qualquer modo, agora, com distancia emocional e temporal, reconheço que no que diz respeito à minha relação com a pessoa que protagonizou essa história sombria, para ela, eu estava realmente agindo como um Narciso. Um indivíduo inerte e apático, encantado consigo mesmo, sem ter consciência disso, e que deixa os outros como ecos, desesperados e muitas vezes apaixonados pelo Narciso arrebatado com a sua própria imagem, sem saber que o reflexo espelhado no lago é ele mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vale ressaltar que as pessoas identificadas com a imagem arquetípica de Eco sempre irão se encantar por Narcisos, constelando-os a qualquer preço. Pois, enquanto o Narciso fica entorpecido consigo mesmo, Eco, desesperadamente, tenta chamar sua atenção, muitas vezes abandonando sua interioridade e deformando sua exterioridade, sua persona, usando e abusando de plásticas, moda, cosmética, cartas anônimas – construtivas ou destrutivas – entre outros artifícios para despertar seus Narcisos interiores, projetados em alguém do mundo externo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porém, como o psiquismo tem plasticidade, a sombra pode ser projetada de uma forma e acabar provocando reações diferentes das esperadas pelo projetor. E, neste caso específico, em que Narciso estava projetado em mim, ele não morreu afogado no seu encantamento e acabou acordando do seu torpor identificado com o arquétipo de Zeus, um deus vingativo, possessivo e dominador, que dispara seus raios na direção de qualquer pessoa que venha interferir no seu reino. Na realidade, Narciso, Eco, Medeia, Jasão, Zeus e muitos outros deuses e heróis míticos, são potencialidades arquetípicas existentes na dinâmica psíquica de qualquer ser humano, e que estão prontas para entrarem em ação, independente do conhecimento que temos delas.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa é uma das grandes descobertas de Jung, ao nos apresentar o inconsciente coletivo, para que possamos nos engajar, conscientemente, ao processo de individuação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A ignorância de si mesmo é escravidão, mesmo que o indivíduo tenha diplomas, títulos, riqueza material ou se julgue religioso, porque sua sombra, inevitavelmente, será projetada nos outros diferentes, agredindo-os e tornando-os em desiguais. Por isso estamos vendo tantas agressões nas redes de relacionamento, que deveria servir para refazer laços – <em>re-laçar</em>, assim como a religião deveria ser ligação com si mesmo, a Imago Dei em nós, para deixarmos a ilusão de perfeição em busca da completude, incluindo nossos aspectos sombrios, geralmente projetados nos outros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso, investir no autoconhecimento, para produzir a educação afetiva emocional, é cada vez mais importante e necessário para a saúde do indivíduo e da sociedade. Não adianta nada saber das coisas ou dogmas religiosos sem saber de si mesmo, agindo reativamente aos afetos, constantemente possuído por complexos em busca da sobrevivência ou manutenção da vida, na maioria das vezes, sem significado, sentido ou entusiasmo, agindo apenas com egoísmo e raiva defensivas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, para não sofrermos tanto ou sermos pegos de surpresa, como aconteceu comigo, precisamos constantemente praticar o exercício da humildade de reconhecer nossa sombra, para lidarmos melhor com a sombra alheia e, na medida do possível, tentar integrar esses conteúdos sombrios na nossa consciência, alargando-a e ampliando nossa visão de mundo. Isso é o que os junguianos chamam de processo de individuação, um caminho do autoconhecimento, grande desafio proposto pelo Self, que geralmente é representado pela imagem de Deus em nós. O seja, para conhecermos nossos transtornos e patologias psíquicas devemos encarar nossa sombra. Só quem pode se confrontar com ela é que estará capacitado para lidar e aceitar a do outro, obviamente sem correr o risco de ser abusado ou desrespeitado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A seguir coloco um trecho do livro: AO ENCONTRO DA SOMBRA (Zweig et All), que recebi da minha companheira Simone Magaldi e&nbsp;recomendamos:<br><strong>A sombra coletiva</strong><br>Hoje em dia, defrontamo-nos com o lado escuro da natureza humana toda vez que abrimos um jornal ou ouvimos o noticiário. Os efeitos mais repulsivos da sombra tornam-se visíveis na esmagadora mensagem diária dos meios de comunicação, transmitida em massa para toda a nossa moderna aldeia global eletrônica. O mundo tornou-se um palco para a sombra coletiva.<br>A sombra coletiva — a maldade humana — nos encara de praticamente todas as partes: ela salta das manchetes dos jornais; vagueia pelas nossas ruas e, sem lar, dorme no vão das portas; entoca-se nas chamativas sex-shops das nossas cidades; desvia o dinheiro do sistema de financiamento habitacional; corrompe os políticos famintos de poder e perverte o sistema judiciário; conduz exércitos invasores através de densas florestas e áridos desertos; vende armamentos a líderes ensandecidos e repassa os lucros a insurgentes reacionários; por canos ocultos, despeja a poluição em nossos rios e oceanos; com invisíveis pesticidas, envenena o nosso alimento,<br>Essas observações não constituem algum novo fundamentalismo a martelar uma versão bíblica da realidade. Nossa época fez, de todos nós, testemunhas forçadas. O mundo todo observa. Não há como evitar o assustador espectro de sombras satânicas mostrado por políticos coniventes, os colarinhos-brancos criminosos e terroristas fanáticos. Nosso anseio interior por integração — agora tornado manifesto na máquina de comunicação global — força-nos a enfrentar a conflitante hipocrisia que hoje está em toda parte.<br>Enquanto a maioria das pessoas e grupos vive o lado socialmente aceitável da vida, outras parecem viver as porções socialmente rejeitadas pela vida. Quando essas últimas tomam-se objeto de projeções grupais negativas, a sombra coletiva toma a forma de racismo, de busca de &#8220;bode expiatório&#8221; ou de criação do &#8220;inimigo&#8221;. Para os americanos anticomunistas, a U.R.S.S. era o Império do Mal. Para os muçulmanos, os Estados Unidos são o Grande Satã. Para os nazistas, os judeus são vermes bolcheviques. Para o monge asceta cristão, as bruxas têm parte com o diabo. Para os sul-africanos defensores do apartheid e os americanos da Ku Klux Klan, os negros são subumanos e não merecem ter os direitos e privilégios dos brancos.<br>O poder hipnótico e a natureza contagiosa dessas fortes emoções ficam evidentes na extensão e universalidade das perseguições raciais, das guerras religiosas e das táticas de busca de bodes expiatórios. E é assim que seres humanos tentam desumanizar outros, num esforço para assegurar que eles são superiores — e que matar o inimigo não significa matar seres humanos iguais a eles.<br>Ao longo da história, a sombra tem surgido (através da imaginação humana) como um monstro, um dragão, um Frankenstein, uma baleia branca, um extraterrestre ou um homem tão vil que não podemos nos espelhar nele — ele está tão distante de nós quanto uma górgona. Revelar o lado escuro da natureza humana tem sido, então, um dos propósitos básicos da arte e da literatura. Como disse Nietzsche: &#8220;Temos arte para que a realidade não nos mate.&#8221;<br>Usando as artes e a mídia (aí incluída a propaganda política) para criar imagens tão más ou demoníacas quanto a sombra, tentamos ganhar poder sobre ela, quebrar seu feitiço. Isso pode ajudar a explicar por que ficamos tão excitados com as violentas arengas de arautos da guerra e de fanáticos religiosos. Simultaneamente repelidos e atraídos pela violência e pelo caos do nosso mundo, transformamos na nossa mente esses outros em receptáculos do mal, em inimigos da civilização.<br>A projeção também pode ajudar a explicar a imensa popularidade dos filmes e romances de terror. Através de uma representação simbólica do lado da sombra,<br>nossos impulsos para o mal podem ser encorajados, ou talvez aliviados, na segurança do livro ou da tela.<br>As crianças, tipicamente, começam a aprender os assuntos da sombra ao ouvir contos de fada que mostram a guerra entre as forças do bem e do mal, fadas-madrinhas e terríveis demônios. As crianças, como os adultos, também sofrem simbolicamente as provações de seus heróis e heroínas e, assim, aprendem os padrões universais do destino humano.<br>Na batalha da censura que hoje se desenrola no campo da mídia e da música, aqueles que pretendem estrangular a voz da sombra talvez não compreendam sua urgente necessidade de ser ouvida. Num esforço para proteger os jovens, os censores reescrevem Chapeuzinho Vermelho e fazem com que ela não seja mais devorada pelo lobo; mas, desse modo, acabam deixando os jovens despreparados para enfrentar o mal com que irão se defrontar.<br>Como a sociedade, cada família também constrói seus próprios tabus, suas áreas proibidas. A sombra familiar contém tudo o que é rejeitado pela percepção consciente de uma família, aqueles sentimentos e ações que são considerados demasiado ameaçadores à sua auto-imagem. Numa honrada e conservadora família cristã, a ameaça talvez seja embriagar-se ou desposar alguém de outra religião; numa família liberal e atéia, talvez seja a opção pelos relacionamentos homossexuais. Na nossa sociedade, espancamento da esposa e abuso dos filhos costumavam ficar ocultos na sombra familiar, mas hoje emergem, em proporções epidêmicas, à luz do dia.<br>O lado escuro não é nenhuma conquista evolucionária recente, resultado de civilização e educação. Ele tem suas raízes numa sombra biológica, que se baseia em nossas próprias células. Nossos ancestrais animalescos, afinal de contas, sobreviveram graças às presas e às garras. A besta em nós está viva, muito viva — só que a maior parte do tempo encarcerada.<br>Muitos antropólogos e sociobiólogos acreditam que a maldade humana seja resultado do controle da nossa agressividade animal, da nossa opção pela cultura em detrimento da natureza e da perda de contato com a nossa selvageria primitiva. O médico e antropólogo Melvin Konner conta, em The Tangled Wing, que foi a um zoológico, viu uma placa que dizia &#8220;O Animal Mais Perigoso da Terra&#8221; e se descobriu olhando para um espelho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WALDEMAR MAGALDI FILHO &#8211; Psicólogo, especialista em Psicologia Junguiana, Psicossomática e Homeopatia. Mestre e doutor em Ciências da Religião. Autor do livro: “Dinheiro, Saúde e Sagrado” Ed. Eleva Cultural &#8211; Coordenador dos cursos de Pós-Graduação que titula especialistas em Psicologia Junguiana, Psicossomática e Arteterapia e Expressões Criativas e do IJEP.</p>



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<iframe title="Sombra - Psicologia Junguiana - Dr. Waldemar Magaldi Filho" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/0P4sOLT0K1Y?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
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