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	<title>Arquivos educação - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Mon, 12 Oct 2026 15:52:38 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos educação - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>A Herança Invisível na Educação dos Nossos Filhos</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-heranca-invisivel-na-educacao-dos-nossos-filhos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luiza de Oliveira Burger]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 10 Sep 2026 12:39:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[Maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[Parentalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo discute a dificuldade de romper padrões familiares na parentalidade, mesmo quando existe o desejo consciente de educar os filhos de forma diferente daquela vivenciada na própria infância. As experiências emocionais não elaboradas, e até mesmo as elaboradas, podem influenciar reações automáticas e a repetição de comportamentos herdados. Utilizando o mito grego de Urano, Cronos e Zeus como metáfora da transmissão transgeracional de padrões, o texto reflete sobre os desafios de transformar a própria história familiar.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-heranca-invisivel-na-educacao-dos-nossos-filhos/">A Herança Invisível na Educação dos Nossos Filhos</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo:</strong> Este artigo discute a dificuldade de romper padrões familiares na parentalidade, mesmo quando existe o desejo consciente de educar os filhos de forma diferente daquela vivenciada na própria infância. As experiências emocionais não elaboradas, e até mesmo as elaboradas, podem influenciar reações automáticas e a repetição de comportamentos herdados. Utilizando o mito grego de Urano, Cronos e Zeus como metáfora da transmissão transgeracional de padrões, o texto reflete sobre os desafios de transformar a própria história familiar.</p>



<h2 id="h-voce-ja-se-pegou-reproduzindo-com-seus-filhos-a-mesma-dinamica-que-voce-tinha-com-os-seus-pais-mesmo-que-elas-tenham-te-trazido-algum-tipo-de-sofrimento-e-que-voce-tenha-jurado-aos-quatro-ventos-que-na-sua-vez-faria-diferente" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Você já se pegou reproduzindo com seus filhos a mesma dinâmica que você tinha com os seus pais, mesmo que elas tenham te trazido algum tipo de sofrimento e que você tenha jurado aos quatro ventos que na sua vez faria diferente?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A geração de pais das últimas décadas carrega um paradoxo: ao mesmo tempo em que deseja educar os filhos de forma diferente daquela que vivenciou, frequentemente se vê reproduzindo padrões que acreditava ter deixado para trás. Há um esforço genuíno para romper ciclos familiares, mas não é raro surgir a sensação de estar correndo atrás do próprio rabo. Quanto mais se tenta evitar determinados comportamentos, mais eles aparecem, revelando a força das marcas deixadas pela própria história.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa mesma geração de pais que tem à disposição uma gama de informações sobre educação e parentalidade, muitas vezes à um clique, tem que conviver com a angústia da distância entre a teoria e prática.</p>



<h2 id="h-mas-por-que-sera-que-isso-acontece-a-tarefa-de-romper-com-nossos-padroes-familiares-e-ardua-principalmente-quando-elas-tocam-em-nossos-complexos" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Mas por que será que isso acontece? A tarefa de romper com nossos padrões familiares é árdua, principalmente quando elas tocam em nossos complexos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Para Jung os complexos são conteúdos carregados de afeto com um ou mais núcleos arquetípicos</strong>. Ou seja, a temática dos complexos é universal, mas a forma como experimentamos esses mesmos temas em nossas vidas faz com que nossa relação com eles seja positiva ou negativa;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph"><em>Ao estudar os fenômenos da associação, indiquei que existem certos agrupamentos de elementos psíquicos em torno de conteúdos emocionais, que denominamos complexos. O conteúdo emocional, ou complexo, é constituído de um elemento nuclear e de uma grande quantidade de associações consteladas secundariamente. O elemento nuclear consta de dois componentes: em primeiro lugar, de uma condição, determinada pela experiência, portanto, de um fato vivido, causalmente vinculado ao ambiente e, em segundo lugar, de uma condição imanente de caráter individual de natureza disposicional (JUNG, 2013a, p.21).</em><em></em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">É muito comum falarmos que uma determinada situação que vivenciamos nos gerou algum gatilho emocional. Isso quer dizer que um acontecimento atual nos remeteu à uma situação antiga, mas que ainda têm o poder de nos provocar, ainda que muito tempo depois, algum tipo de desconforto.</p>



<h2 id="h-para-jung-um-complexo-afetivo-e-uma-imagem-de-uma-determinada-situacao-psiquica-de-forte-carga-emocional-e-alem-disso-incompativel-com-as-disposicoes-ou-atitude-habitual-da-consciencia-jung-2013b-p-43" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Para Jung, “um complexo afetivo é uma imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência”. (JUNG, 2013b, p.43).</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Todo esse processo ocorre de forma inconsciente e gera reações imediatas, quase que automáticas, que fogem do nosso padrão de comportamento e que temos dificuldade de justificar depois. Quando isso ocorre, dizemos que o indivíduo foi tomado pelo complexo.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph"><em>O complexo é um fator psíquico que, em termos de energia, possui um valor que supera, às vezes, os de nossas intenções conscientes&#8230; De fato, um complexo ativo nos coloca por algum tempo num estado de não liberdade, de pensamentos obsessivos e ações compulsivas para os quais, sob certas circunstâncias, o conceito jurídico de imputabilidade limitada seria o único válido. (JUNG, 2013b, p.43).</em><em></em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Para ilustrar como um complexo paterno negativo pode atuar influenciando na reprodução de padrões familiares, nesse estado de “não liberdade” das nossas própria ações e pensamentos, podemos pegar um exemplo da mitologia grega que envolve a história de três pais: Urano, Cronos e Zeus.</p>



<h2 id="h-complexo-paterno-negativo" class="wp-block-heading"><strong>Complexo paterno negativo</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo conta o mito, Urano, temendo que seus filhos fossem uma ameaça ao seu poder, mantinha-os aprisionados no ventre da mãe, Gaia. Um dia, descontente com essa situação, Gaia tenta convencer seus filhos a enfrentarem o pai. Apenas Cronos, o mais novo dos titãs, aceita. Ele ataca o pai com uma foice e o castra. Depois disso, Urano perde o poder, se afasta de Gaia e dos filhos, e Cronos passou a governar em seu lugar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cronos herda do pai&nbsp;o medo de ser destronado por um de seus filhos. Acreditando numa profecia, toda vez que sua esposa,&nbsp;Reia, dava à luz, Cronos engolia o bebê. Ele fez isso com&nbsp;Héstia,&nbsp;Deméter,&nbsp;Hera,&nbsp;Hades&nbsp;e&nbsp;Poseidon.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando nasce&nbsp;Zeus, Reia decide salvá-lo. Esconde o bebê e entrega à Cronos uma pedra enrolada em panos, que ele engole pensando ser o filho. Depois de adulto, Zeus obriga Cronos a vomitar os irmãos e lidera uma guerra contra ele, o derrotando e assumindo o poder do Olimpo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Zeus, por sua vez, engole a primeira esposa, Métis, ainda grávida, também por causa de uma profecia que dizia que seu segundo filho seria mais poderoso que ele. Métis era considerada umas das divindades mais sábias que existiam e continuou viva dentro de Zeus mesmo depois de ser engolida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Zeus ainda age movido pelo medo de perder o poder, mas o mito sugere uma mudança importante, o padrão não é apenas repetido, é parcialmente transformado. Ao engolir Métis, ele incorpora a própria sabedoria. Dela, nasce Atena, que emerge de sua cabeça, símbolo de uma consciência que começa a integrar aquilo que antes era apenas reprimido.</p>



<h2 id="h-da-mitologia-a-parentalidade" class="wp-block-heading"><strong>Da mitologia à parentalidade</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Esse mito nos mostra como é difícil mudar o que está sendo sustentado há tantas gerações. Na realidade de muitas famílias, a repetição de padrões pode aparecer na forma de violência física e psicológica, autoritarismo, abandono, controle excessivo, dificuldade em expressar afeto, e por aí vai. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">E quando esse mesmo padrão reacende nossas feridas, o desafio é ainda maior. E nessa hora não existe livro, educador, influencer, pedagogia ou educação positiva que dê conta disso. Porque a nossa história familiar impacta diretamente na forma como vamos educar nossos filhos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando lidamos com nossos filhos estamos de alguma forma dando conta da criança que fomos um dia e revivendo, em muitos momentos, experiências pelas quais passamos na nossa infância. Pensando dessa forma, os filhos podem ser um gatilho e tanto para aqueles complexos que poderiam estar adormecidos, mas que irrompem tão logo alguém coloque o dedo naquela ferida ainda aberta. Muitas vezes não reagimos ao filho que está diante de nós, mas ao filho que fomos.</p>



<h2 id="h-talvez-o-primeiro-passo-seja-a-consciencia-ter-consciencia-dos-padroes-que-repetimos-e-que-vem-das-nossas-familias-de-origem" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Talvez o primeiro passo seja a consciência. Ter consciência dos padrões que repetimos e que vêm das nossas famílias de origem.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Ter consciência dos nossos complexos é saber onde o nosso calo aperta e que não vamos apagar a nossa história, mas podemos ressignificá-la de forma que, quem sabe, percam sua potência para não passarmos os mesmos padrões adiante.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>No entanto, o que acontece em grande parte dos casos é repetirmos a mesma dinâmica de forma inconsciente</strong>. Ou que a necessidade de fazer diferente dos nossos pais e negar nosso modelo familiar de origem nos leve para outro polo, o da idealização da paternidade e da maternidade. “Eu abomino tanto a dinâmica estabelecida na minha família que vou para o caminho oposto, em vez de tentar encontrar um caminho do meio”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem teve pais autoritários, por exemplo, pode se tornar igualmente autoritário, por repetição, mas também pode se tornar excessivamente permissivo, como compensação. À primeira vista parecem opostos, mas ambos continuam organizados em torno da mesma ferida.</p>



<h2 id="h-a-abordagem-conhecida-como-educacao-positiva-talvez-tenha-nascido-dessa-vontade-de-encontrar-uma-terceira-via" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">A abordagem conhecida como “educação positiva”, talvez tenha nascido dessa vontade de encontrar uma terceira via.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ela prega a educação de crianças baseada em respeito mútuo, conexão emocional, limites firmes e desenvolvimento de habilidades socioemocionais, sem recorrer à violência física, humilhação ou punições excessivamente autoritárias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Embora práticas associadas à educação positiva tenham raízes na Psicologia Individual de <strong>Alfred Adler</strong>, no início do século XX, o conceito ganhou maior difusão a partir das décadas de 1980/1990, especialmente com os trabalhos de Jane Nelsen e o avanço das pesquisas em desenvolvimento infantil e parentalidade responsiva. E mais ainda com a chegada das redes sociais, onde é muito comum encontrar profissionais e até mesmo influencers que se dedicam a falar sobre o tema.</p>



<h2 id="h-a-educacao-positiva-seria-um-bom-caminho-se-nao-tivesse-sendo-interpretada-muitas-vezes-a-partir-dos-nossos-complexos-talvez-tomados-por-eles-estejamos-sendo-levados-a-entender-a-educacao-positiva-como-um-modelo-de-nao-frustracao-as-criancas" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><strong>A educação positiva seria um bom caminho, se não tivesse sendo interpretada muitas vezes a partir dos nossos complexos. Talvez, tomados por eles, estejamos sendo levados a entender a educação positiva como um modelo de não frustração às crianças.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O medo de que meu filho sofra como eu sofri faz com que eu evite ao máximo que ele se chateie, mesmo que isso signifique eliminar da vida dele todo e qualquer foco de sofrimento, inclusive aqueles que dizem respeito aos “nãos” que são necessários para a formação da sua personalidade. Com isso, vemos uma legião de crianças e adolescentes que não sabem lidar com suas frustrações e com a angústia de que nem tudo na vida acontece da forma como gostariam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muitos pais não estão apenas tentando educar os filhos. Estão tentando curar a própria infância, reparar a relação com seus pais, provar para si mesmos que são diferentes.&nbsp; O problema é que a criança real acaba ocupando o lugar de um projeto de reparação emocional. E que peso para essas crianças.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/luiza-de-oliveira-burger/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/luiza-de-oliveira-burger/"><strong>Luiza de Oliveira Burger – Membro Analista em formação</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/"><strong>Ana Paula Maluf – Analista Didata</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



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<iframe title="📃Artigo novo: &quot;A Herança Invisível na Educação dos Nossos Filhos&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/Ex0bLxDsLCs?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A Energia Psíquica. 14. ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ A Natureza da Psique. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega – volume I. Petrópolis: Vozes.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.ijep.com.br"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="369" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/09/banner-pos-graduacao-29.6.26-1-1024x369.png" alt="" class="wp-image-13831" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/09/banner-pos-graduacao-29.6.26-1-1024x369.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/09/banner-pos-graduacao-29.6.26-1-300x108.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/09/banner-pos-graduacao-29.6.26-1-150x54.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/09/banner-pos-graduacao-29.6.26-1-450x162.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/09/banner-pos-graduacao-29.6.26-1-1199x432.png 1199w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/09/banner-pos-graduacao-29.6.26-1.png 1280w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Será que é tudo Culpa dos Pais?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sera-que-e-tudo-culpa-dos-pais/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Andreia Guiotti di Gregorio]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 20 May 2026 12:42:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A pergunta “é tudo culpa dos pais?” frequentemente emerge diante do sofrimento psíquico infantil, sustentando uma visão causal e moralizante. A Psicologia Analítica propõe um deslocamento dessa lógica, enfatizando que a influência parental se dá sobretudo em nível inconsciente. Leia o artigo aqui.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>Um olhar junguiano sobre a culpabilidade dos pais na personalidade dos filhos</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo</strong>: A pergunta “<strong>é tudo culpa dos pais</strong>?” frequentemente emerge diante do sofrimento psíquico infantil, sustentando uma visão causal e moralizante. A Psicologia Analítica propõe um deslocamento dessa lógica, enfatizando que a influência parental se dá sobretudo em nível inconsciente. A criança, em estado de participação mística, encontra-se imersa no campo psíquico dos pais, sendo profundamente afetada por seus conflitos não elaborados, afetos reprimidos e vidas não vividas. A compreensão de que o inconsciente dos pais atua como um solo invisível na constituição da psique infantil, desloca a noção de culpa para a de responsabilidade psíquica. Ainda assim, a criança não é determinada exclusivamente por esse campo, sendo também atravessada pelo inconsciente coletivo e pelo seu próprio processo de individuação</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-pergunta-sera-que-e-tudo-culpa-dos-pais-emerge-com-frequencia-tanto-na-clinica-quanto-no-discurso-cultural-contemporaneo" style="font-size:18px"><strong>A pergunta: “Será que é tudo culpa dos pais?” emerge com frequência tanto na clínica quanto no discurso cultural contemporâneo.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Diante do sofrimento psíquico, é comum buscar causas objetivas e responsáveis diretos (e externos). Muito frequentemente, procura-se culpabilizar os pais por todo sofrimento psíquico dos filhos, muitas vezes não levando em conta as dinâmicas inconscientes &#8211; pessoais e coletivas &#8211; que nos tomam a todos de assalto. Essa busca constante por um culpado, no entanto, tende a simplificar a imensa complexidade da alma humana.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-psicologia-analitica-oferece-uma-perspectiva-distinta-dessa-logica-reducionista-causal-e-moralista-deslocando-a-nocao-de-culpa-para-uma-compreensao-simbolica-e-relacional-do-desenvolvimento-psiquico" style="font-size:16px">A Psicologia Analítica oferece uma perspectiva distinta dessa lógica reducionista, causal e moralista, deslocando a noção de culpa para uma compreensão simbólica e relacional do desenvolvimento psíquico.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Jung reconhece a profunda influência dos pais na constituição da psique infantil, mas recusa a ideia de uma determinação mecânica ou de uma culpabilização consciente; até porque ninguém nasce como uma tábula rasa. Para ele, a criança não é afetada apenas pelos comportamentos explícitos dos pais, mas sobretudo pelo estado inconsciente de suas almas. Assim, a questão central deixa de ser a culpa e passa a ser a responsabilidade psíquica. Afinal, <strong>o inconsciente parental atua como um terreno invisível, onde a semente da psique infantil irá, inevitavelmente, germinar</strong>.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:18px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:1.4"><em>Também não está resolvido o assunto se os pais apenas procuram viver de acordo com os valores morais geralmente aceitos, porque o cumprimento de costumes e leis pode servir&nbsp; igualmente para encobrir uma mentira de tal modo sutil que, por isso mesmo, escape à percepção de outras pessoas. (JUNG, 2013, p. 49)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-obra-o-desenvolvimento-da-personalidade-jung-afirma-que-a-crianca-vive-inicialmente-em-um-estado-de-profunda-indiferenciacao-em-relacao-ao-mundo-dos-pais" style="font-size:17px">Na obra “<strong>O Desenvolvimento da Personalidade</strong>”<em>,</em> Jung afirma que a criança vive inicialmente em um estado de profunda indiferenciação em relação ao mundo dos pais.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ele descreve essa condição como uma&nbsp; participação mística, na qual a criança não se percebe como um eu separado. Nesse contexto, os conteúdos inconscientes dos pais, seus conflitos não elaborados, medos, expectativas e frustrações, exercem influência direta sobre a psique infantil. Jung enfatiza que a criança é particularmente sensível não ao que os pais dizem, mas ao que eles são. Nas palavras do autor:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px;line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph"><em>O exemplo é o melhor dos mestres! Isto se verifica aqui como uma verdade, que já a muito é conhecida e que ao mesmo tempo é inexorável. Neste sentido o que importa não são palavras boas e sábias, mas tão somente o agir e a vida real dos pais. (JUNG, 2013, p. 49)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Essa ideia desloca nossa reflexão do campo moral para o campo simbólico e inconsciente, indicando que o sofrimento infantil muitas vezes expressa aquilo que não foi simbolizado ou integrado pelos adultos responsáveis. As crianças, com sua sensibilidade aguçada, ou em termos junguianos, ainda imersas no inconsciente dos pais, frequentemente atuam como &#8220;antenas&#8221; emocionais, absorvendo as tensões não ditas do sistema familiar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-outras-palavras-as-dinamicas-inconscientes-dos-pais-deveriam-receber-uma-maior-atencao-em-favor-da-qualidade-de-vida-dos-filhos-e-ate-certo-ponto-para-lhes-garantir-a-liberdade-de-viverem-suas-proprias-vidas" style="font-size:16px">Em outras palavras, as dinâmicas inconscientes dos pais deveriam receber uma maior atenção em favor da qualidade de vida dos filhos, e até certo ponto, para lhes garantir a “liberdade” de viverem suas próprias vidas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com Jung (2013, p. 52, § 87), via de regra,&nbsp; o fator que atua psiquicamente de um modo mais intenso sobre a criança é a vida que os pais ou antepassados não viveram. Isso nos mostra que nossos sonhos engavetados e frustrações não elaboradas podem se tornar literalmente o “peso nos ombros” da geração seguinte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung é cuidadoso ao falar de culpa moral dos pais. Em seus textos sobre educação e psicoterapia, ele ressalta que muitos adultos carregam complexos não elaborados que inevitavelmente se manifestam na relação com os filhos, sem que haja nenhuma intenção consciente. Em vez de falar de culpa, Jung traz o conceito de responsabilidade psíquica, que não implica acusação, mas o reconhecimento das limitações e dificuldades dos próprios cuidadores.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-assumir-essa-responsabilidade-exige-profunda-coragem-para-olhar-para-dentro-e-acolher-as-proprias-imperfeicoes" style="font-size:17px">Assumir essa responsabilidade exige profunda coragem para olhar para dentro e acolher as próprias imperfeições.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px;line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>Não é importante que os pais nunca cometam erros, isso seria impossível para seres humanos, mas que os reconheçam como erros. Não é a vida que deve ser detida, mas a nossa inconsciência; primeiramente a do educador, isto é, a própria, pois cada um é educador do seu próximo tanto para o bem quanto para o mal. (JUNG, 2013, p. 90, § 155)</em><em></em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nos-que-somos-pais-sentimos-na-pele-a-dificuldade-e-a-bencao-que-e-a-criacao-de-filhos" style="font-size:17px">Nós, que somos pais, sentimos na pele a dificuldade e a bênção que é a criação de filhos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Entendemos, no amor e na dor, que um filho é completamente diferente do outro, e que a mesma educação não traz os mesmos resultados para ambos. Na minha experiência como mãe, tenho duas filhas com uma diferença de seis anos entre elas. Entre os dois nascimentos, vivenciei duas gestações perdidas, episódios de dor que naturalmente deixaram suas marcas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A primeira nasceu com um temperamento completamente diferente da segunda. Claro que as experiências e a visão de mundo delas dependeram de mim: tanto das minhas próprias vivências em diferentes momentos das gestações quanto durante os primeiros anos de suas vidas. A primeira teve sete meses de atenção minha exclusivamente dedicados a ela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A segunda, infelizmente, foi privada dessa atenção exclusiva, uma vez que, aos seus 40 dias de vida, precisei voltar ao trabalho; e, embora minha casa fosse ao lado do trabalho, não pude dar a ela a mesma presença. Mesmo tentando dar a ambas a mesma educação, eu já não era a mesma pessoa seis anos após a primeira gestação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-sentido-fica-evidente-que-todas-as-experiencias-vividas-por-nos-e-pelos-filhos-parecem-determinar-sensibilidades-futuras" style="font-size:16px">Nesse sentido, fica evidente que todas as experiências vividas por nós e pelos filhos parecem determinar sensibilidades futuras.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para mim, se fortalece o conceito de inconsciente coletivo e pessoal quando, independentemente do mesmo estímulo, cada um reage a seu modo. Somado a toda essa revisão do contexto da maternagem se encontram também todas as minhas quinas, curvas e pontos cegos da minha própria personalidade e dos conflitos conscientes e inconscientes que estavam em curso. <strong>Não somos mesmo tábula rasa</strong>; e aqui trago também minha percepção da espiritualidade manifestada em cada um de forma única e autônoma, confirmando que somos singulares e temos, cada um, um <em>dharma </em>a ser cumprido. Essa dimensão espiritual dialoga com o processo de individuação, no qual a alma busca seu propósito e sua totalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Voltando para Jung, ele reconhece a força das influências parentais, mas não considera o indivíduo condenado a elas. Cada um tem seu universo único e trilha seu caminho de evolução de forma independente. O&nbsp; processo de individuação pode representar a possibilidade de diferenciação da psique em relação às imagos parentais e aos complexos herdados. O desenvolvimento da consciência e a percepção de nossa luz e sombra permite uma relação mais honesta com os conteúdos inconscientes. Assim a Psicologia Analítica não busca apontar culpados, mas favorecer a integração simbólica das experiências vividas, possibilitando que o indivíduo assuma sua própria trajetória psíquica. Talvez aqui a pergunta “Será que é tudo culpa dos pais?” se transforme em outra: <strong>O que pode ser conscientizado, elaborado e transformado</strong>?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-capacidade-de-tomar-consciencia-de-nossas-sombras-e-o-primeiro-passo-para-alcancar-a-tao-almejada-evolucao" style="font-size:17px">A capacidade de tomar consciência de nossas sombras é o primeiro passo para alcançar a tão almejada evolução.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Também devemos nos lembrar que a individuação não é um processo linear. Somos apenas humanos e cometeremos erros ao longo do caminho. A escada é infinita e eventualmente daremos passos para trás. Autossabotagem, percursos equivocados, tudo parte do processo evolutivo da nossa longa jornada rumo à individuação. Reconhecer essas falhas, sem autojulgamento destrutivo, é essencial para continuarmos avançando.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-luz-da-psicologia-analitica-a-relacao-entre-pais-e-filhos-revela-se-complexa-simbolica-e-bastante-inconsciente" style="font-size:17px">À luz da Psicologia Analítica, a relação entre pais e filhos revela-se complexa, simbólica e bastante inconsciente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Jung reconhece a profunda influência dos pais no desenvolvimento psíquico dos filhos, mas não abraça explicações simplistas baseadas na culpa. A criança não sofre apenas por falhas objetivas, mas também por aquilo que circula silenciosamente no campo familiar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dessa forma a contribuição junguiana permite uma abordagem não acusatória, na qual pais e filhos são compreendidos como participantes de um processo relacional mais amplo. Nesse sentido, à medida que vamos caminhando rumo a nós mesmos, o processo de individuação traz como possibilidade atravessar e transformar essas heranças, além de proporcionar uma compreensão do outro de maneira mais inteira e respeitosa. Desta maneira, abre-se espaço para uma relação mais consciente e mais empática, que compreende as influências das dimensões inconscientes e o destino psíquico que nos cabe e que cabe ao outro, tomando para nós o que é nosso e devolvendo ao outro o que a ele pertence.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Conduzir a educação dos filhos é, afinal, conduzir o nosso próprio caminho. Percebo que muito mais do que ensinamos aprendemos com eles. Talvez eles não tenham vindo apenas aprender conosco, mas sim nos ensinar a caminhar com mais leveza e finalmente fluir como o rio. Costumo usar a seguinte metáfora na clínica: deite de costas sobre as águas do rio e se deixe flutuar, ele sabe o caminho e inevitavelmente chega lá. Nadar contra a correnteza com certeza não é uma boa ideia!</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📃Artigo novo: Será que é tudo Culpa dos Pais?" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/Fq6ODC5JxKo?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/andreia-guiotti-di-gregorio/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/andreia-guiotti-di-gregorio/">Andreia Guiotti di Gregório &#8211; Membro Analista em Formação do IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi &#8211; Membro Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencia-bibliografica" style="font-size:17px"><strong>Referência bibliográfica</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <em>O desenvolvimento da personalidade</em>. 14. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>À procura do pai no parceiro amoroso</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-procura-do-pai-no-parceiro-amoroso/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Cristiane dos Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Oct 2025 19:12:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[complexo paterno]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Esse texto foi fundamentado no livro O Desenvolvimento da Personalidade, de Carl Gustav Jung e apesar de abordar um recorte feminino, a problemática é análoga à vivência masculina, ou seja, o homem procurando sua mãe na parceira amorosa. O intuito dessas linhas é convidar o leitor à reflexão de como estamos conduzindo a educação [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.6"><strong>Resumo</strong>: Esse texto foi fundamentado no livro <em>O Desenvolvimento da Personalidade,</em> de Carl Gustav Jung e apesar de abordar um recorte feminino, a problemática é análoga à vivência masculina, ou seja, o homem procurando sua mãe na parceira amorosa. O intuito dessas linhas é convidar o leitor à reflexão de como estamos conduzindo a educação de nossas crianças. Visa também a conscientização de como pequenas atitudes, que muitas vezes julgamos inofensivas, podem provocar danos profundos à psique de nossas crianças e que repercutirão durante a vida toda. É um chamado à introspecção e à análise sobre qual terreno estamos edificando as nossas relações e que tipo de herança estamos deixando para as futuras gerações. Boa leitura!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tudo-aquilo-que-quisermos-mudar-nas-criancas-devemos-primeiro-examinar-se-nao-e-algo-que-e-melhor-mudar-em-nos-mesmos-jung"><strong><em>“Tudo aquilo que quisermos mudar nas crianças, devemos primeiro examinar se não é algo que é melhor mudar em nós mesmos.” Jung</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Nos meus atendimentos comecei a perceber um padrão recorrente em algumas de minhas clientes e durante a anamnese pude perceber que elas estavam vivenciando uma dinâmica familiar herdada nos primeiros anos da vida e até durante a gestação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Traições, relacionamentos tóxicos e abusivos, agressividade, drogadicção, sensação de não serem ouvidas ou validadas, desrespeito e comportamentos que impactavam a autoestima eram questões constantemente narradas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Durante a anamnese comecei a perceber que essa vivência era muito familiar, pois, quando crianças, haviam presenciado essa estrutura emocional em seus lares e que atualmente, de forma inconsciente, estavam replicando esse padrão comportamental em suas vidas.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>A criança tem uma psicologia singular. Assim como o seu corpo, durante a vida embrionária, é uma parte do corpo materno, também sua mente, por muitos anos, constitui parte da atmosfera psíquica dos pais. </p><cite>(JUNG, 2013, p. 84)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung destaca com essa afirmação que a maneira de viver dos pais influencia profundamente na formação da personalidade da criança e que a atmosfera familiar molda e determina o direcionamento que essa pessoa dará à sua vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung (2013, p. 60) diz que durante a infância a consciência vai se formando por um agrupamento gradual de fragmentos e que esse processo dura a vida inteira, mas que a partir da puberdade, vai se tornando cada vez mais lento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">É devido à esta constatação que se diz que a primeira infância é a época propícia para incutir crenças e valores nas crianças, além de corrigir tendências nocivas que por ventura elas apresentem.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Esse é o momento em que as sementes lançadas encontram as condições mais promissoras para fecundação e crescimento.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>&#8230; o que importa não são palavras boas e sábias, mas tão somente o agir e a vida real dos pais. Também não está resolvido o assunto se os pais apenas procuram viver de acordo com os valores morais geralmente aceitos, porque o cumprimento de costumes e leis pode servir igualmente para encobrir uma mentira de tal modo sutil que, por isso mesmo, escape à percepção de outras pessoas. </p><cite>&nbsp;(JUNG, 2013, p. 49)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-nos-convoca-a-necessidade-de-uma-atitude-etica-verdadeira-e-transparente-em-nossas-relacoes" style="font-size:19px">Jung nos convoca à necessidade de uma atitude ética, verdadeira e transparente em nossas relações.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ele nos convida à inteireza, com a integração dos aspectos luminosos e sombrios de nossa personalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essa é uma questão muito complexa, pois, para se ter uma relação realmente harmoniosa, exige-se do casal, primeiramente, uma sinceridade consigo mesmo e depois com o parceiro. É essencial desnudar-se e entrar na relação de forma inteira, sem subterfúgios, manipulações ou falsas promessas.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Coisas que pairam no ar ou que a criança percebe de modo indefinido, a atmosfera abafada e cheia de temores e apreensões, tudo isso penetra lentamente na alma da criança, como se fossem vapores venenosos.</p><cite>(JUNG, 2013, p. 139)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Não adianta querer representar uma relação do tipo “<strong><em>família margarina</em></strong>”, pois o inconsciente da criança, como diz Jung: “<strong><em>constitui parte da atmosfera psíquica dos pais</em></strong>” e está à espreita, vendo e registrando tudo o que acontece, para no futuro balizar suas escolhas baseadas nessas impressões.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essas-escolhas-acontecem-de-forma-inconsciente-pois-como-o-padrao-esta-incutido-na-psique-essas-pessoas-vao-atrair-para-suas-vidas-parceiros-e-circunstancias-similares-como-se-fossem-um-ima" style="font-size:19px">Essas escolhas acontecem de forma inconsciente, pois, como o padrão está incutido na psique, essas pessoas vão atrair para suas vidas, parceiros e circunstâncias similares, como se fossem um ímã.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">&nbsp;Os amores não vivenciados, as mentiras ocultadas, as emoções veladas, os desejos reprimidos e as verdades não verbalizadas pelos pais são captadas pelo inconsciente da criança, que dependendo do grau de ligação a eles, influenciará as escolhas em sua vida, no caso dos relacionamentos amorosos, a pessoa buscará um parceiro com tendências idênticas ou diametralmente opostas.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Em regra, a vida que os pais podiam ter vivido, mas foi impedida por motivos artificiais, é herdada pelos filhos, sob uma forma oposta. Isto significa que os filhos são forçados inconscientemente a tomar um rumo na vida que compense o que os pais não realizaram na própria vida. </p><cite>(JUNG, 2013, p. 49)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-verificamos-assim-que-o-padrao-energetico-do-parceiro-escolhido-esta-estritamente-vinculado-a-energia-psiquica-do-modelo-de-pai-que-essa-mulher-teve" style="font-size:19px">Verificamos assim que o padrão energético do parceiro escolhido está estritamente vinculado à energia psíquica do modelo de pai que essa mulher teve.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Não é uma questão de azar, ou de dedo podre, ou gostar de sofrer, essa escolha é fruto de uma “<em>infecção que se dá por via indireta, fazendo com que os filhos assumam uma atitude em relação ao estado de espírito dos pais: ou reagem em defesa própria por meio de um protesto mudo, ou se tornam vítimas de uma coação interna de imitação, que os paralisa psiquicamente</em>.” (JUNG, 2013, p. 89)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-entao-os-pais-devem-ser-perfeitos-para-assegurar-uma-vida-sem-influencias-negativas-aos-seus-filhos-jung-nos-diz-que" style="font-size:19px">Então os pais devem ser perfeitos para assegurar uma vida sem influências negativas aos seus filhos? Jung nos diz que:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>O que importa não é que os pais devam ser perfeitos, a fim de não causarem danos aos filhos. Caso fossem realmente perfeitos, isto seria catastrófico para os filhos, pois neste caso não restaria a estes outra coisa senão o sentirem-se moralmente inferiores; a não ser que preferissem ultrapassar os pais, empregando os mesmos meios que eles, isto é, imitando-os. Mas este último recurso apenas adia a prestação de contas, no máximo até a terceira geração. Os problemas recalcados e os sofrimentos que foram deste modo poupados fraudulentamente na vida produzem um veneno secreto, que penetra na alma dos filhos, mesmo através das paredes mais grossas do silêncio ou do reboco mais duro aplicado sobre os sepulcros, porque passa através de tudo isso como que deslizando de maneira fraudulenta e sobreposta. </p><cite>(JUNG, 2013, p.89)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-como-saio-dessa-situacao" style="font-size:19px">“E como saio dessa situação?”</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>“É possível atrair parceiros diferentes desse padrão?</strong>”</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essas são perguntas que constantemente ouço após a identificação e conscientização dessa dinâmica, desse padrão de atração repetitivo, inicialmente totalmente inconsciente e tão desestruturante.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung (2013, p. 205) diz que esse momento de conscientização pode ser atingido através de vários caminhos, mas que eles obedecem a certas leis. Normalmente essa mudança acontece no início da segunda metade da vida, que é uma fase de fundamental importância psicológica.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>O meio da vida é um tempo de desenvolvimento máximo, quando a pessoa ainda está trabalhando e operando com toda a sua força e todo o seu querer. Mas nesse momento tem início o entardecer, e começa a segunda metade da vida&#8230;. Procura-se encontrar suas motivações verdadeiras e surgem descobertas. O indivíduo consegue conhecer sua peculiaridade por meio da consideração crítica de si próprio e de seu destino. Mas esses conhecimentos não lhe são dados de graça. Chega-se a tais conhecimentos apenas por abalos violentos. </p><cite>(JUNG, 2013, p. 205-206)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Os abalos violentos mencionados por Jung são decorrentes da mudança de paradigma que a pessoa vivencia no entardecer da vida, provenientes da constatação de que aquilo que era importante na primeira metade da vida, agora se mostra insuficiente ou inadequado e que os valores e crenças que alicerçavam sua vida, se tornaram frágeis e insustentáveis.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-aquilo-que-foi-propagado-como-garantia-de-felicidade-nao-produz-preenchimento-interno-nem-tampouco-paz-a-alma" style="font-size:19px">Aquilo que foi propagado como garantia de felicidade não produz preenchimento interno, nem tampouco, paz à alma.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essa fase desperta na pessoa um profundo desejo de tornar-se uno e indivisível.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">É nesse momento que ela percebe que passou muito tempo em sua vida, procurando por alguém que a completasse, que preenchesse o vazio existencial originado na infância, decorrente das situações em que vivenciou o abandono, o abuso, a rejeição, a violência, a inadequação, a falta de afeto e atenção, quando sua voz e vontade foram suprimidas e sua autoestima reprimida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-e-a-hora-de-virar-o-jogo-e-parar-de-projetar-no-parceiro-os-aspectos-desse-pai-ausente-fraco-castrador-devorador-manipulador-abusivo-e-violento" style="font-size:19px">Essa é a hora de virar o jogo e parar de projetar no parceiro os aspectos desse pai ausente, fraco, castrador, devorador, manipulador, abusivo e violento.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Perceber que se faz necessário a ruptura da vontade inconsciente de querer salvar nossos pais, vivendo a vida que eles não conseguiram, para sermos dignos de receber o amor, o afeto, a atenção e a validação deles.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Esse é um processo extremamente desafiador, mas, profundamente libertador.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: &quot;À procura do pai no parceiro amoroso&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/uEZSjeu6wTY?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/cristiane-santos/">Cristiane dos Santos &#8211;  Membro Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/"><strong>Dra. E. Simone Magaldi &#8211; Analista Didata</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:20px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. &nbsp;<em>O Desenvolvimento da Personalidade</em>. 14.ed. Petrópolis: Vozes, 2013</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br"><strong>www.ijep.com.br</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Adolescência: percurso entre a criança amada e o adulto reconhecido</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/adolescencia-percurso-entre-a-crianca-amada-e-o-adulto-reconhecido/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Claci Maria Strieder]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Dec 2019 19:25:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[Maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[educação]]></category>
		<category><![CDATA[pedagogia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=5801</guid>

					<description><![CDATA[<p>Vivemos em uma sociedade que passa por constantes mudanças. Pessoas e coisas são cada vez mais descartáveis, aspectos que refletem nas vivências, provocando mudanças de comportamentos. Pais, psicoterapeutas, educadores e todos os envolvidos nas áreas voltadas ao ser humano, ficam perplexos diante do aumento dos índices de suicídio, do uso de entorpecentes, das doenças psicossomáticas [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Vivemos em uma sociedade que passa por constantes mudanças. Pessoas e coisas são cada vez mais descartáveis, aspectos que refletem nas vivências, provocando mudanças de comportamentos. Pais, psicoterapeutas, educadores e todos os envolvidos nas áreas voltadas ao ser humano, ficam perplexos diante do aumento dos índices de suicídio, do uso de entorpecentes, das doenças psicossomáticas e da ingestão de remédios pelos adolescentes. Surgem questões importantes: O que leva um indivíduo a se drogar para viver? &nbsp;&nbsp;Para que tirar a vida? Será um vazio existencial que precisa ser preenchido? Ou quem sabe a ilusão de acabar com o sofrimento? Não basta justificarmos com os porquês, precisamos ir além e compreendermos o sentido dessa triste realidade. Com esse olhar, convido-os para ampliarmos algumas questões, que envolvem o período cíclico da vida, denominado adolescência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A palavra adolescência vem do latim adolescere, que significa crescer. A sua definição varia conforme a cultura em que se vive. Historicamente, o termo adolescência é recente. Ariès nos trouxe essa constatação: “Só se saía da infância ao se sair da dependência” (1981, p.42). Assim, era considerado adulto quem não dependia mais dos seus pais. Da mesma forma, Papalia, Olds &amp; Feldman, 2006 descrevem essa dinâmica e afirmam que no Séc. XX as crianças ocidentais entravam no mundo adulto quando amadureciam fisicamente ou quando definiam a sua vocação. Geralmente saíam de casa cedo, optando pelo casamento e gerando filhos. Hoje a puberdade começa mais cedo e a escolha da profissão tende a ocorrer mais tarde.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em termos gerais, existe uma concordância que a&nbsp;adolescência é a&nbsp;fase&nbsp;que marca a transição entre a infância e a vida adulta, que envolve grandes mudanças físicas, cognitivas e psicossociais e dura em torno de 10 anos, iniciando depois dos 10 anos e terminando em torno dos 20 anos.&nbsp;Na sua fase inicial ocorrem várias alterações físicas. Durante o período, continuam ocorrendo as mudanças físicas, acompanhadas de mudanças interiores, que envolvem a aversão ao controle dos pais e a entrada com maior importância dos amigos, resultando em muitos conflitos familiares. Para alguns, são considerados os anos mais difíceis. Na fase final, ocorre a crise da identidade, com o planejamento da vida e a inclusão de maior responsabilidade, culpabilidade definida por lei. Ou seja, a partir deste momento o indivíduo responde legalmente por seus atos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Vindo ao encontro, para Jung a personalidade do ser humano é desenvolvida aos poucos:&nbsp;“A personalidade já existe em germe na criança, mas só se desenvolverá aos poucos por meio da vida e no decurso da vida. Sem determinação, inteireza e maturidade não há personalidade”&nbsp;(2013, p. 182).&nbsp;Legião Urbana, com a música “Tempo Perdido”, amplia a realidade que permeia os adolescentes. Por um lado, tudo muito intenso e rápido, em contrapartida uma sensação que eles têm todo o tempo do mundo:&nbsp;<strong>“</strong><strong>Mas tenho muito tempo, temos todo o tempo do mundo (…)&nbsp;Somos tão jovens”.&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Entre tantas&nbsp;características que marcam a adolescência, podemos citar as mudanças hormonais e glandulares, que influenciam no crescimento do corpo, e as alterações emocionais, que aparecem em forma de raiva, mágoa, tristeza, perda e medo. Nesta fase eles se preocupam com a aparência, pensam de forma abstrata, fazem generalizações, descobrem novas realidades, tornando-se imediatistas e imprevisíveis. É um período em que os amigos tomam grande espaço, participando de grupos e tribos. Questionamentos sobre a vida aparecem e as principais inquietações giram em torno da identidade, testando o mundo e expondo-se a riscos.&nbsp;Para Jung, a adolescência é marcada por transformações:&nbsp;<em>&#8220;</em>O nascimento psíquico e, com ele, a diferenciação consciente em relação aos pais só ocorrem na puberdade, com a irrupção da sexualidade. A mudança fisiológica é acompanhada também de uma revolução espiritual”&nbsp;(2013, p. 347).</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Neste sentido, cito mais uma vez a Legião Urbana, que retrata muito bem questões voltadas ao período, com a música “Pais e Filhos”, ouvida e cantada por muitos de nós:&nbsp;<em>&#8220;</em>Sou uma gota d&#8217;água. Sou um grão de areia. Você me diz que seus pais não lhe entendem. Mas você não entende seus pais. Você culpa seus pais por tudo. E isso é absurdo. São crianças como você. O que você vai ser quando você crescer?”</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A Constituição Brasileira, no artigo 227, assegura a proteção integral à criança e ao adolescente. Igualmente, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA, 1990), é um importante instrumento de defesa dos direitos e deveres de crianças e adolescentes, que estão vivendo um período de intenso desenvolvimento físico, psicológico, moral e social. Sabemos que muitos órgãos se envolvem com seriedade para garantir esses direitos e deveres, porém em termos gerais ainda existe muito para fazer.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Nos consultórios de psicoterapia aparecem diferentes sintomas para serem ressignificados. Um deles é a ausência e/ou a omissão dos pais, muitas vezes compensadas com presentes e outras facilidades. De forma similar, algumas escolas particulares, com alto nível de exigência teórica e pouco olhar para outras dimensões, contribuem para a formação de sintomas. Os adolescentes se sentem desestimulados e incapazes, afetando a sua autoestima e abrindo&nbsp;espaço para doenças psicossomáticas.&nbsp; Para alguns, escolher uma profissão no final do Ensino Médio é angustiante. Igualmente, passarem no vestibular, perceberem que fizeram uma escolha errada e abandonarem o curso em seguida.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Deparamo-nos com realidades preocupantes e cada vez mais presentes: adolescentes que tiram suas vidas diante de frustrações. Como não vivenciaram as pequenas frustrações, sentem-se incapazes de lidar&nbsp;com as dores da alma e escolhem morrer. Hillman, em seu livro Suicídio e Alma, auxilia-nos na compreensão da vida e da morte. De fato, diante da possibilidade de suicídio, precisam morrer muitas coisas para o ser humano não se matar. Renato Russo expressou essa realidade com sua voz encantadora:&nbsp;<em>&#8220;</em>Estátuas e cofres. E paredes pintadas. Ninguém sabe o que aconteceu. Ela se jogou da janela do quinto andar. Nada é fácil de entender”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">As relações tornaram-se virtuais e a liquidez dos relacionamentos modernos tornaram as pessoas e os objetos descartáveis, realidade que pode ser comparada com a crise de identidade dos adolescentes na busca de um caminho para trilharem com segurança. Lipovetsky (2005), afirma que a sociedade de consumo foi construída sobre as aparências, com o uso desenfreado de bens não duráveis. &nbsp;De forma idêntica, Bauman (2004), nos mostra que a liquidez dos relacionamentos modernos envolve as relações virtuais, que aparentam facilidade e transparência, em detrimento da autenticidade que parece pesada e lenta demais. Para buscar respostas diante das incertezas da vida, podemos digitar uma palavra no Google e aparecem várias possibilidades. As informações disponíveis na internet nem sempre são aplicáveis na vida prática e geralmente causam mais inquietações diante da padronização estabelecida. A angústia continua porque o mundo virtual não conhece nosso campo relacional, não percebe as expressões do nosso corpo que retratam um mal estar na alma e não consegue promover o que mais precisamos: alguém que, de uma forma diferenciada, estabeleça conosco um vínculo de confiança, que nos ouça e que nos dê uma oportunidade de dar voz ao que sentimos. Escutar e dar voz, papel que o psicoterapeuta promove com sabedoria!&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Questões que envolvem a sexualidade também fazem parte das demandas nos consultórios. A iniciação da vida sexual, movida por ansiedade e preocupações, exige esclarecimentos e orientações sobre a existência ou não de disfunções. Troca constante de parceiros, experimentação do prazer com meninos e meninas, em busca da resposta para sua identificação sexual também aparecem como demandas. Depressão, suicídio, ansiedade, distúrbios alimentares e drogas. Símbolos de beleza, insatisfação com o físico, anorexia nervosa e a bulimia nervosa. Uso de objetos cortantes e bebidas alcóolicas. Mundo virtual substituindo relações reais. É o adolescente gritando por ajuda, tão bem interpretado pela Legião Urbana:&nbsp;“Quero colo, vou fugir de casa (&#8230;). Só vou voltar depois das três”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">No decorrer dos anos, diferentes autores de diferentes áreas se empenharam nos estudos sobre a adolescência. Edinger (1972), contribui com os conceitos psicológicos de Jung, que nos permite entender o adolescente, principalmente na sua diferenciação em relação aos pais, momento em que os arquétipos do pai e da mãe perdem a predominância. Assim, ocorre a entrada do herói, na interação com o grupo do mesmo sexo, buscando uma identidade própria. Da mesma forma, os arquétipos da anima na psique do menino e do animus na menina, possibilitando o relacionamento e atração pelo sexo, oposto ou até igual à identificação sexual do ego.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para maior compreensão, Erik Erikson propõe a Teoria Psicossocial, envolvendo 8 estágios do desenvolvimento humano, descrevendo a fase dos 12 aos 18 anos como de identidade x confusão. De acordo com Aberastury e Knobel (1983) algumas características são comuns nos adolescentes. Entre elas podemos identificar a busca de si mesmo e da identidade, a tendência grupal, a necessidade de intelectualizar e fantasiar, as crises religiosas, a vivência do tempo, a sexualidade, a atitude social reivindicatória, as condutas contraditórias, a separação progressiva dos pais e as constantes flutuações do humor. Tânia Zagury, educadora e filósofa, contribui com algumas reflexões (2004, p. 45). Para ela, o maior perigo para um jovem não são as drogas: é não crer no futuro e na sociedade em que vive. A falta de esperança pode levar à depressão, ao individualismo, ao consumismo, ao suicídio, à marginalidade e às drogas. Neste processo, é fundamental a integridade dos adultos e atitudes coerentes com seus discursos, que servem de exemplos para eles, que poderão fazer algumas bobagens, mas nada que fira a ética e os valores que aprenderam. Mais importante que satisfazer desejos é ensinar princípios éticos. Adolescentes querem amor, aceitação e respeito. Querem ser ouvidos, protegidos e valorizados!&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo as ideias de Calligares, a nossa sociedade incentiva a cultura da autonomia e da independência. É transmitido a ambição de não repetir a vida dos que o geravam, mas de se destacar, porém precisa seguir as regras sociais e não provocar a violência e a desordem. Sair da adolescência significa ser um adulto desejável e invejável, reconhecido pelas relações amorosas/sexuais e o poder, no campo produtivo, financeiro e social. Por outro lado, ele nos deixa indagações:&nbsp;“Por que se tornar adulto se os adultos querem virar adolescentes? (&#8230;) O dever dos jovens é envelhecer. Suma sabedoria. Mas o que acontece quando a aspiração dos adultos é manifestamente a de rejuvenescer?”&nbsp;(2.000, p.74).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, por sua vez, contribui significativamente e nos alerta sobre aspectos importantes na formação da personalidade:&nbsp;“Os filhos são estimulados&nbsp;para aquelas realizações que os pais jamais conseguiram; a eles são impostas as ambições que os pais nunca realizaram. Tais métodos e ideais produzem monstruosidades na educação (&#8230;) Ninguém pode educar para personalidade se não tiver personalidade”&nbsp;(2013, p. 182).</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Alguns estudiosos se arriscam, sugerindo alternativas em relação ao que pode auxiliar na educação dos adolescentes. Entre as sugestões apontadas aparece o pertencimento aos grupos de esporte, de música ou religiosos, mas o essencial é que eles se sintam importantes e que saibam que são bons em alguma coisa. A família, independente de como é constituída, tem um papel fundamental, envolvendo-os para realizarem juntos algumas coisas, como passeios, viagens, refeições, entre outros. Vale lembrar que o diálogo, envolvendo uma comunicação assertiva, é uma das melhores opções para resolução de conflitos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Diante de tantos problemas, a saída criativa é olhar para a angústia, simbolicamente conversar com ela, perceber qual aspecto da vida está gritando por mudanças e permitir que elas ocorram. Olhar para as dores e não encará-las como fim, mas percebê-las como oportunidades, como portas que se abrem para novos sentidos e significados. Entorpecentes e remédios muitas vezes têm a função de&nbsp;“bengalas”, que auxiliam a caminhada, suavizando as dores psíquicas, porém não promovendo a cura da alma. E mais uma vez trago a contribuição de Jung que traduz com sabedoria as reflexões sobre a adolescência:&nbsp;“Somente o outono revela o que a primavera produziu, e somente a tarde manifesta o que a manhã iniciou”&nbsp;(2013, p. 183). Ele complementa:&nbsp;“Somente será possível que alguém se decida por seu próprio caminho, se esse caminho for considerado o melhor”&nbsp;(2013, p. 185). E a caminhada não precisa ser dolorida.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Culmino minhas ampliações com mais um trecho da música Pais e Filhos, cantada com a voz marcante de Renato Russo, que permite compreendermos o amor como essência na adolescência e em todas as fases da vida:&nbsp;“É preciso amar as pessoas. Como se não houvesse amanhã. Por que se você parar pra pensar. Na verdade não há”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Claci Maria Strieder, Pedagoga, Psicóloga, Especialista em Psicossomática e Psicologia Junguiana, Analista em formação pelo IJEP.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Brasília/DF &#8211;  Contato: (61) 99951.0003 &#8211; <a href="mailto:clacims@gmail.com" target="_blank" rel="noreferrer noopener">clacims@gmail.com</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Leituras de apoio:</p>



<p class="wp-block-paragraph">ABERASTURY, A. KNOBEL, M. Adolescência normal: um enfoque psicanalítico. 3ª edição. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">ARIÉS, P.&nbsp;<em>História social da criança e da família</em>. 2ª edição. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CALLIGARES, Contardo. A adolescência. São Paulo: Publifolha, 2000.</p>



<p class="wp-block-paragraph">EDINGER, E. Ego e arquétipo: Uma síntese fascinante dos conceitos psicológicos fundamentais de Jung. Cultrix, São Paulo: 1972.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">ERIKSON, E. H. O ciclo de vida completo. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HILLMAN J.&nbsp; Suicídio e alma. Petrópolis: Vozes; 1993.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. 10ª edição. Petrópolis. Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">________________O desenvolvimento da personalidade. 14ª edição. Petrópolis. Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">LIPOVETSKY, Gilles. O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas. São Paulo: Companhia de Letras, 2005.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PAPALIA, D. E., OLDS, S. W., &amp; FELDMAN, R. D. (2006). Desenvolvimento humano (8ª ed.). Porto Alegre: Artmed.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">ZAGURY, Tania. Os direitos dos pais: construindo cidadãos em tempos de crise. 6ª edição. Record, Rio de Janeiro, 2004.</p>



<h4 class="wp-block-heading" id="h-claci-maria-strieder"><strong><em>Claci Maria Strieder</em></strong></h4>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/adolescencia-percurso-entre-a-crianca-amada-e-o-adulto-reconhecido/">Adolescência: percurso entre a criança amada e o adulto reconhecido</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Educar crianças: um desafio que envolve diferentes olhares</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/educar-criancas-um-desafio-que-envolve-diferentes-olhares/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Claci Maria Strieder]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 25 Jul 2019 19:33:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[Maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[Sociabilidade]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[educação]]></category>
		<category><![CDATA[Educar Crianças]]></category>
		<category><![CDATA[Paternidade]]></category>
		<category><![CDATA[pedagogia]]></category>
		<category><![CDATA[Psique infantil]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Pais, professores, psicólogos e tantos outros profissionais, desafiados a serem competentes, envolvem-se na mesma questão: como educar? Não existe uma receita pronta que possa gerar resultados eficientes em todas as realidades. O ser humano é complexo e na perspectiva junguiana, somos seres humanos únicos, integrais e compreendidos pelas dimensões física, emocional, mental, espiritual e social. [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/educar-criancas-um-desafio-que-envolve-diferentes-olhares/">Educar crianças: um desafio que envolve diferentes olhares</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Pais, professores, psicólogos e tantos outros profissionais, desafiados a serem competentes, envolvem-se na mesma questão: como educar? Não existe uma receita pronta que possa gerar resultados eficientes em todas as realidades. O ser humano é complexo e na perspectiva junguiana, somos seres humanos únicos, integrais e compreendidos pelas dimensões física, emocional, mental, espiritual e social. Em outras palavras, o que funciona bem com um indivíduo, pode não ter eficácia com outro e também envolve outra questão importante, a de educar o educador. Segundo Jung, &#8220;todo nosso problema educacional tem orientação falha: vê apenas a criança que deve ser educada, e deixa de considerar a carência de educação no educador que educa&#8221; (2013, p. 180). Com isso, Jung nos deixou a possibilidade de refletirmos sobre o adulto que traz dentro de si uma criança oculta, que precisa de cuidado permanente. A família e a escola podem contribuir para a formação emocional dos indivíduos!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Precisamos de espaços que educam e ambientes acolhedores que incentivem o desenvolvimento de todas as dimensões, que permitam a promoção do autoconhecimento, da escuta ativa, do incentivo ao espírito de descoberta, de escolhas responsáveis, de cidadania, de consciência ambiental e social, entre outros. E para ser protagonista, a criança precisa ser valorizada e incentivada a expressar pensamentos, sentimentos e necessidades. Assim sendo, poderá participar dos diferentes contextos de forma ativa, e não apenas seguir regras prontas. O grande dilema é como fazer para que isso aconteça.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desde cedo, participei de estudos e vivências, que possibilitaram maior compreensão dos aspectos relacionados ao educar crianças. Há muitos anos atuo na Educação Infantil e como professora, tendo exercido diferentes funções na área da Educação, percebi ao longo dos anos as mudanças significativas que ocorreram na sociedade, resultando em mudanças de padrões, comportamentos e atitudes, nas famílias e nas escolas, primeiras classes sociais que a criança faz parte. Da mesma forma, participei ativamente da educação dos meus filhos e aprofundei meus estudos no campo da Psicologia, caminhada longa, com acertos e erros, que me permitem fazer algumas reflexões. &nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste sentido, percebo que um dos problemas na educação das crianças gira em torno de dois pólos opostos: ausência ou excesso de proteção, que na psicologia analítica junguiana, podemos denominar de processo de enantiodromia. Para tanto, é necessário buscar saídas criativas e estabelecer a harmonia entre os dois pólos, pois a ausência pode gerar a sensação de abandono. Em contrapartida, excesso de proteção pode gerar insegurança. Duas emoções que podem gerar conflitos internos e quando mobilizadas e vivenciadas com intensidade, resultam em doenças nas diferentes dimensões, sendo muito comum serem diagnosticadas e medicadas como TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade), o TOD (Transtorno Opositivo Desafiador) e outros quadros descritos no DSM V.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os remédios estão cada vez mais presentes na vida das crianças, algumas vezes necessários, mas por outro lado, aparecem no contexto como forma de amenizar sintomas, que muitas vezes se confundem com a ausência de limites e de compensações.&nbsp; No consultório, é comum ouvir as queixas de pais e lidar com as demandas que envolvem o medo de errar e não saber lidar com as diferentes situações na educação dos filhos. E a pergunta clássica que aparece é: &#8220;onde foi que errei?&#8221; Culpas, medos, dificuldades&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vindo ao encontro e para ampliar, podemos citar Jung, que em 1931, fez comentários sobre as consequências patogênicas da vida não vivida dos pais sobre seus filhos: &#8220;Via de regra, o fator que atua psiquicamente de um modo mais intenso sobre a criança é a vida que os pais não viveram. Essa afirmação poderia parecer algo sumária e superficial, sem a seguinte restrição: esta parte da vida a que nos referimos seria aquela que os pais poderiam ter vivido&#8221; (2015, p.121). Percebe-se que no dia a dia muitos pais são permissivos, algumas vezes em excesso, por não quererem que os filhos passem pelas mesmas situações e dificuldades que viveram na infância e também para que eles tenham melhores oportunidades de realizarem seus sonhos. &nbsp;As intenções são as melhores possíveis, porém nem sempre assertivas, pois como já mencionei, é o excesso e a falta que podem causar problemas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na psicologia, muitos autores descrevem as etapas que envolvem o desenvolvimento do ser humano.&nbsp; Jung considerou isso uma tarefa por demais de exigente, que envolve a vida psíquica desde o berço até a sepultura, razão pela qual preferiu se ater apenas em certos problemas. Tal complexidade é geradora de conflitos, como podemos perceber em sua fala: &#8220;Queremos que nossa vida seja simples, segura e tranquila, e por isto os problemas são tabus. Queremos certezas e não dúvidas; queremos resultados e não experimentos, sem entretanto nos darmos conta de que as certezas só podem surgir através da dúvida, e os resultados através do experimento. Assim, a negação artificial dos problemas não gera a convicção; pelo contrário, para obtermos a certeza e claridade, precisamos de uma consciência mais ampla e superior&#8230; Sem consciência, não existem problemas&#8221; (2013, p. 343 &#8211; 345). A partir da afirmação de Jung, podemos concluir que um problema é uma oportunidade de dar um novo sentido e significado para os conflitos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por um lado, temos consciência que a criança precisa vivenciar limites. Em contrapartida, contribuir para formar limites é um dilema. Envolve dizer sim e não. E qual é a medida? &nbsp;Envolve também o cansaço, o medo de errar, o medo de perder o amor da criança e formas de compensar a ausência. No consultório, deparamo-nos com exemplos típicos de queixas que envolvem cansaço: &#8220;Passo o dia fora trabalhando, quando chego em casa estou cansado, não tenho mais paciência de lidar com meu filho&#8230;&#8221; De forma similar, o medo de perder o amor do filho aparece no contexto: &#8220;Meu filho fica sem a minha presença grande parte do dia&#8230; Vou brigar com ele no pouco tempo em que em que estamos juntos?&#8221; Muito comuns também são os casos de filhos que dormem na mesma cama dos pais desde bebês. Apesar de controvérsias sobre este aspecto, é necessário lembrar que o casal existiu antes do filho e que um espaço seguro para o filho descansar irá contribuir para o desenvolvimento da sua autonomia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Conflitos internos que se transformam em práticas permissivas, podem resultar em indivíduos sem limites, com dificuldades de interagirem com os demais. Neste sentido, dizer não é tão importante quanto dizer sim, nas ocasiões e na medida certa. E uma regra básica é priorizar qualidade de convivência. Estar inteiro com o filho em pouco tempo de convivência é mais precioso que estar com ele dia inteiro e não lhe dar a devida atenção. Vindo ao encontro, trago uma mensagem postada em rede social eletrônica sobre a modernidade, que me despertou uma reflexão e em resumo dizia: &#8220;Pagamos caro para os outros cuidarem dos nossos filhos e cada vez mais passeamos com nossos cachorros&#8221;. Não se trata de crítica aos cuidados com os animais, que também merecem&nbsp;&nbsp; nossa atenção, carinho e respeito. Trata-se de refletirmos sobre a terceirização dos cuidados para quem nos damos a vida ou escolhemos educar, talvez pela insegurança, falta de paciência e medo de errar.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pertencer à uma família, envolve práticas que compreendem direitos e deveres. Muitas vezes, privamos nossos filhos de uma participação ativa e dinâmica desde cedo, com pequenos afazeres domésticos, graduados de acordo com a idade, que fazem parte do crescimento e envolvem o despertar do sentimento de pertencimento e de responsabilidade. É importante estabelecer combinados e fazer a criança compreender &#8220;para que&#8221; precisam ser cumpridos e lembrar que ela aprende mais com exemplos do que com palavras. São práticas que se aprendem na família e que se ampliam na escola. A escola, por sua vez, contribui para expandir o mundo social da criança, promovendo o conhecimento e o desenvolvimento de habilidades. Neste contexto, algumas vezes aparecem conflitos na resolução de problemas: pais culpam a escola e a escola culpa os pais. O que fazer? Novamente estamos diante de dois pólos opostos. A melhor opção é a família e a escola falarem a mesma linguagem. Tirar a autoridade de uma das instituições é possibilidade de gerar insegurança na criança.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tanto no meio familiar, quanto no ambiente da escola, é necessário desenvolver o ser humano para lidar com as frustrações, que fazem parte da vida e são importantes para a saúde psíquica. Ajudar o indivíduo a lidar com pequenas frustrações o prepara para lidar com as maiores que surgirão pela vida afora. Hoje, cada vez mais estamos inseridos num mundo individualista, com estilos predominantes e quando ocorrem cisões, os sintomas aparecem em forma de doenças e são medicadas. Muitas vezes, não percebemos o sintoma como oportunidade de ressignificar padrões que nos adoecem. Da mesma forma, o saber esperar, tão importante na estruturação do ser humano, perde-se no imediatismo estimulado pela nossa sociedade. Pessoas e coisas são cada vez mais descartáveis!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outra forma de contribuir significativamente para a formação integral da criança é proporcionar para ela vivências de comunicação assertiva. O diálogo, que é a forma ideal de resolução de muitos conflitos, envolve vários aspectos. Para que ele ocorra com assertividade, é necessário que se escolha um ambiente adequado, que se reconheça e valorize primeiro os aspectos positivos da criança, que se efetive olhando em seus olhos, com uso de voz moderada, com o objetivo de encontrar saídas criativas para os padrões extremos. Isso é respeito e amor!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Deparamo-nos com as mudanças de estilos e de valores, cada vez mais acelerados, incentivados pela mídia e diferentes meios virtuais. &nbsp;Vivências reais são substituídas por relações virtuais. É comum observarmos crianças de todas as idades manuseando celulares. É a forma que alguns pais encontram para ocuparem seus filhos, por acreditarem que mentes ocupadas e fascinadas com aparelhos eletrônicos não dão trabalho. Dar um celular é mais fácil que proporcionar a vivência de limites! &nbsp;Como consequência, crianças com mentes cada vez mais aceleradas, com dificuldade de centrar atenção no cotidiano e em relacionamentos reais. Vale lembrar que no mundo da tecnologia, utilizam-se todas as técnicas avançadas para despertar e prender a atenção do indivíduo, mas não podemos esquecer que a medida do seu uso somos nós que escolhemos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A tecnologia surgiu e tomou uma dimensão grande em nossas vidas. Tem seu lado importante, útil e necessário, porém não pode tomar todo o espaço das relações reais, principalmente dos valores que são passados no espaço sagrado da família, independente da forma que esse espaço é constituído. As consequências refletem nas escolas. Como estas mesmas crianças vão ter estímulos para as aulas expositivas? É necessário lembrar que grande parte das escolas não está equipada com aparelhos de tecnologia atualizados e muitos professores não têm a formação específica para trabalhar com o mundo digital. Não podemos entrar num processo de enantiodromia, ficarmos presos no pólo oposto e afirmar que a tecnologia é a grande culpada de não darmos conta da educação das crianças. A saída criativa é o limite para encontrar a harmonia: nem ausência, nem excesso. E além do mais, dar orientações para seu uso adequado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao caminharmos na história e entrando um pouco mais no contexto escolar, verificamos que os&nbsp;Direitos da Criança&nbsp;foram assegurados na Constituição de 1988, no Estatuto da Criança e do Adolescente e no Marco Legal 13.257, de 2016, específico para crianças de 0-6 anos, assegurando o cuidado integral, um olhar holístico e coletivo, sugerindo o envolvimento de diferentes abordagens e áreas. De forma similar, em 1998, surgiu o Referencial Curricular Nacional, com um novo olhar para a educação: guia de reflexão de cunho educacional sobre objetivos, conteúdos e orientações didáticas para os profissionais da área, respeitando estilos pedagógicos e a diversidade cultural brasileira. Foi um marco que produziu a possibilidade de cada Estado e o Distrito Federal organizarem seus currículos, favorecendo o desenvolvimento das capacidades física, afetiva, cognitiva, ética, estética, de relação interpessoal e inserção social, com orientações para entender a instituição familiar com diferentes modelos em mutação, sujeita a determinações culturais e históricas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na mesma época, surgiu o Relatório da Unesco (1999), em que Jacques Debors contribuiu significamente com os&nbsp;Quatro Pilares da Educação, que ao meu ver, envolvem a base da estruturação da educação das crianças: aprender a aprender, aprender a fazer, aprender a ser e aprender a conviver.&nbsp;Aprender a aprender, para se beneficiar das oportunidades oferecidas;&nbsp;aprender a fazer&nbsp;para estar apto a enfrentar situações de mudança e agir sobre o meio;&nbsp;aprender a ser&nbsp;para desenvolver a personalidade e responsabilidade pessoal eaprender a viver junto&nbsp;para desenvolver a compreensão do outro e a percepção da interdependência. Ao mesmo tempo, podemos estabelecer uma conexão simbólica entre os quatro pilares e as funções psicológicas de Jung: pensamento, sensação, intuição e sentimento. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje, as propostas curriculares estão centradas nos&nbsp;eixos&nbsp;cuidar, educar, brincar e interagir, que se complementam, permeados pelos&nbsp;eixos transversais&nbsp;diversidade, cidadania, sustentabilidade e educação em direitos humanos. São propostas que incluem a singularidade e a diversidade, que ao mesmo tempo envolvem um conjunto de olhares. Para tanto, não existem receitas prontas, mas podemos ampliar a sua compreensão citando a metáfora da montagem de um quebra-cabeça, atividade que as crianças muito apreciam, que para formar o todo é necessário utilizar e encaixar todas as peças. Cada peça representa simbolicamente o olhar das diferentes áreas, que ao serem unidas, alcançam de modo eficaz o resultado almejado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para finalizar, vale lembrar que as necessidades emocionais básicas do ser humano, desde que é gerado e até a sua morte, são o amor e o reconhecimento, que podem ser expressados pelo acolhimento, pela escuta, por olhares e ações diferenciadas e de diversas áreas para o alcance de uma educação integral da criança, consolidada na educação emocional. O limite harmonioso se estabelece na expressão do amor e do reconhecimento!</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Claci Maria Strieder, Pedagoga, Psicóloga, Especialista em Psicossomática e Psicologia Junguiana, Analista em formação pelo Ijep.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;Brasília/DF &#8211;&nbsp; Contato: (61) 99951.0003 &#8211;&nbsp;<a href="mailto:clacims@gmail.com">clacims@gmail.com</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Leituras de apoio:</p>



<p class="wp-block-paragraph">DELORS, J. (org.). Educação um tesouro a descobrir &#8211; Relatório para a Unesco da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI. Editora Cortez, 7ª edição, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">DISTRITO FEDERAL. Currículo em Movimento da Educação Básica: Educação Infantil.&nbsp; 2ª Edição. Brasília: SEEDF, 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. A natureza da psique. Petrópolis. Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________O desenvolvimento da personalidade. Petrópolis. Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________O livro vermelho &#8211; Liber Novus: edição sem ilustrações. 2ª &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Reimpressão. Petrópolis, RJ: Vozes, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil/Ministério da Educação e do Desporto, Secretaria de Educação Fundamental &#8211; Brasília: MEC/SEF, 1998.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Claci Maria Strieder&nbsp;</em></strong></h4>
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		<title>Vamos refletir sobre a nossa (própria) educação?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/vamos-refletir-sobre-a-nossa-propria-educacao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[José Luiz Balestrini Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 15 Jun 2019 19:17:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[educação]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Acredito que seja algo óbvio que a situação da educação em nosso país vai de mal a pior. Essa é uma reclamação constante de praticamente todas as camadas da sociedade que, embora por motivos diferentes, acreditam que investir numa educação de qualidade é o caminho para a construção de um futuro melhor para o país. Porém, acredito que a pergunta central que devemos fazer é: o que é educação de qualidade? Lendo o&nbsp;Desenvolvimento da Personalidade&nbsp;de Jung me deparei com a seguinte passagem:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Quanto mais débil é a consciência do &#8220;eu&#8221;, tanto menos importa considerar quem propriamente foi afetado, e igualmente tanto menos está o indivíduo em condição de proteger-se contra o contágio geral. Esta proteção apenas poderia ser atenuante se alguém fosse capaz de dizer: &#8220;Tu é que estás excitado ou furioso, e não eu, pois eu não sou tu&#8221;.&#8221; (JUNG, OC, Vol. XVII p. 83)</p>



<p class="wp-block-paragraph">A afirmação de Jung é extremamente atual e aponta diretamente para um comportamento que podemos observar acontecer com certa frequência na nossa sociedade: a dificuldade do ser humano de se diferenciar da massa. Esse problema se apresenta de maneira circular. Não será possível ao indivíduo aceitar o outro, respeitar o diferente, se ele não consegue diferenciar a si mesmo. Sem saber o que é verdadeiramente seu, projeta no outro suas frustrações inconscientes. Por um lado, isso pode gerar uma identificação com uma população específica que concorda com seus pensamentos, e por outro pode causar conflitos, muitas vezes violentos, com quem pensa diferente. Cria-se assim um círculo vicioso no qual o indivíduo não sabe quem ele é de verdade e assim não consegue aceitar que o outro seja diferente. Na afirmação acima Jung estava exemplificando para explicar como a criança, ainda vivendo a&nbsp;participation mystique, ou seja, sofrendo influência direta do inconsciente do grupo de adultos onde está inserida, se sente. Mais adiante no texto ele irá dizer:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Em geral se acentua muito pouco quão importante é para a criança a vida que os pais levam, pois o que atua sobre as crianças são os fatos e não as palavras. &#8221; (JUNG, OC, Vol. XVII, p.84)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ou seja, as crianças aprendem muito mais com as atitudes dos pais do que com o que estes acham por direito impor aos filhos através das palavras. E não estamos falando aqui somente das atitudes conscientes, mas principalmente do que está velado, escondido e/ou negado no inconsciente dos pais e responsáveis pela educação dessas crianças. Jung afirma também que os professores são tão responsáveis pela verdadeira educação das crianças quanto os pais: a escola caracteriza o primeiro ambiente que substitui a casa e a família. É extremamente importante que a crianças encontrem nesse ambiente figuras que influenciem o desenvolvimento total de suas personalidades e não somente os bombardeiem com informação atrás de informação. É importante então que os professores desenvolvam, além de suas atividades docentes, a sua própria e constante educação para servir de exemplo às crianças.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Tal atitude não pode ser obtida artificialmente, mesmo com toda a boa vontade, mas somente se realiza de modo natural, à medida que o professor procura simplesmente cumprir seu dever como homem e cidadão. É preciso que ele mesmo seja uma pessoa correta e sadia; o bom exemplo é o melhor método de ensino. Por mais perfeito que seja o método, de nada adiantará se a pessoa que o executa não se encontrar acima dele em virtude do valor de sua personalidade. &#8221; (JUNG, OC,Vol. XVII, p. 107a)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muito se fala do quanto precisamos investir mais em educação, porém essa análise é baseada na maioria das vezes em números e gráficos que não representam de maneira alguma o principal problema da educação em nosso país. Estamos vivendo uma bola de neve da deseducação e a juventude está sendo atropelada e engolida por essa avalanche. O problema não está somente nos números, nos baixos salários dos professores, na falta de verba para equipamentos e no absurdo que é faltar merenda para as crianças nas escolas (ou em qualquer outro lugar, obviamente). É claro que todos esses fatores influenciam diretamente e agravam o problema em grau altíssimo. Porém, assistindo ao documentário&nbsp;Nunca me sonharam&nbsp;que fala sobre os problemas enfrentados pelos alunos da rede pública de algumas das principais cidades do país, podemos fazer uma reflexão acerca do problema que ultrapassa as questões financeiras e burocráticas. O filme, em determinado momento, mostra claramente como a falta de sonhos de um futuro melhor dos pais, responsáveis, professores, ou seja, de todos os educadores, está afetando a capacidade de sonhar dos jovens e crianças que estão sob a influência desses adultos. Sem um referencial para aprender a sonhar, será muito difícil que esses jovens construam uma realidade diferente para si mesmos e para suas futuras famílias. Como será possível aos pais, responsáveis, professores e quaisquer outros adultos envolvidos na formação dessas crianças sonharem qualquer futuro para elas se eles mesmos nunca foram sonhados por seus próprios pais e responsáveis? Como sonhar o outro se não se sabe sonhar a si mesmo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essas crianças se tornarão adultos desprovidos de capacidade de diferenciar-se do grupo, da massa. Nunca pensarão por si mesmos, apenas seguirão a correnteza sem nenhum poder de reflexão fazendo aquilo que a massa ditar. Agindo exatamente com o grupo age ou ordena.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dei destaque até agora para os alunos da rede pública, porém também é preciso pensar em como a deseducação também acontece nas escolas privadas. Por motivos e causas diferentes, essas crianças ditas privilegiadas, se tornarão indivíduos afastados da reflexão e da dúvida, sendo estas condições essenciais para o desenvolvimento de pensamento crítico. As escolas privadas se preocupam, em sua maioria, com resultados apenas. O importante para elas são os números! Os alunos irão aprender somente a produzir e a obedecer e não a fantasiar e sonhar. De maneira alguma devemos pensar que uma coisa é mais importante do que outra. O ser humano que somente fantasia terá tantos problemas de desequilíbrio psíquico quanto aquele que só produz, e a causa está exatamente no desequilíbrio das duas atitudes. Cada uma deveria ter espaço para acontecer no comportamento humano, porém a sociedade atual reforça o comportamento produtivo muito mais do que o criativo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda estamos escravos da razão, do concretismo e do materialismo e isso está enraizado no nosso sistema educacional. O capitalismo desenfreado, o desejo de consumo, a energia voltada inteiramente para o objeto produzirá seres unilateralizados que no máximo serão capazes de viver a vida não vivida dos pais, porque estes últimos pelo menos tiveram sonhos para si mesmos e os projetaram em sua prole. Essas crianças, quando adultos, esquecerão seus sonhos, trocarão suas fantasias pela estabilidade financeira, pelo comodismo e pelo modismo. Sua libido estará assim totalmente voltada para fora, para o objeto. A introversão se perde e com ela a chance do encontro com si mesmo. Se as crianças de hoje são privadas de sonhos e aspirações, o que será das próximas gerações? Não terão nem como herança o desejo inconsciente de realizar o que os pais não puderam?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vivemos hoje a cultura da informação superficial contrária a uma busca pelo aprofundamento. Apesar de todas as possibilidades de ampliação de conteúdos que o mundo virtual nos oferece, a maioria de nós se preocupa somente em compartilhar bobagens nas redes sociais, divulgar notícias sensacionalistas que normalmente não são de origens confiáveis. A educação baseada somente na informação produz indivíduos desprovidos de reflexão e espiritualidade. É preciso semear a reflexão!</p>



<p class="wp-block-paragraph">A situação atual da nossa sociedade, o comportamento reativo e as reações violentas e exageradas frente ao diferente e ao desacordo que observamos nas notícias e algumas vezes até em pessoas próximas de nós, já é resultado dessa educação que não preza pela reflexão. O adulto de hoje acredita que sua educação acaba quando ele atinge certa idade ou certo grau de escolaridade. A partir daí acha que não é preciso mais estudar, não é preciso mais pensar. Está pronto para o mercado de trabalho, está pronto para se tornar mais uma peça na engrenagem do sistema e fazer sua contribuição para no nosso&nbsp;belo&nbsp;quadro social (parafraseando Raul Seixas). Quando na verdade o caminho do autoconhecimento exige estudo constante, de si e da sociedade. Nosso sistema educacional forma então indivíduos sem poder de reflexão, afastados de si mesmos que não conseguem nem entender os seus próprios desejos. Nesse interim, uma camada muito estreita da sociedade se beneficia da ignorância generalizada do povo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;E para onde conduzem tais desejos confusos, mostram aqueles países em que os chefes de governo conseguiram usurpar os poderes paternos por meio de hábeis manipulações das esperanças infantis da massa sugestionável. Daí resulta que o empobrecimento espiritual, o aparvalhamento e a degeneração moral vêm substituir o entusiasmo anterior em estabelecer metas espirituais e morais, gerando desse modo a psicose das massas, que somente poderá terminar em catástrofe. &#8221; (JUNG, OC Vol. XVII, p.159)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sabendo que a situação da educação em nosso país já é bem ruim, e sem querer ser pessimista, acho que ainda cabe a pergunta: já estamos nessa catástrofe? Ou ainda há mais por vir?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas o principal aqui é perceber que qualquer que seja a resposta a essa pergunta, é preciso agir! Seja de forma social, familiar ou individual, é preciso investir numa educação de si e do próximo que contemple a reflexão. E respondendo à questão proposta no início do texto, educação de qualidade engloba pais, responsáveis, professores, diretores e todos aqueles que tiverem qualquer convívio com as crianças num esforço para ensinar conteúdos também, mas acima de tudo valores éticos e poder de reflexão através de suas próprias atitudes cotidianas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*A foto é reprodução de uma cena do filme&nbsp;The Wall&nbsp;de 1982 da banda Pink Floyd.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*Jose Luiz Balestrini Junior, ser humano, psicólogo, analista junguiano em formação pelo IJEP e Sifu (mestre) de Kung Fu, e-mail:&nbsp;<a href="mailto:balestrini@lungfu.com.br">balestrini@lungfu.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Atende e dá aulas na Zona Sul de São Paulo. Consultório: 11-98207-7766</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G., O desenvolvimento da personalidade (OC; Vol. XVII). Petrópolis: Vozes. (2013)</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Jose Luiz Balestrini Junior&nbsp;</em></strong></h4>
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		<title>A importância do passado na construção da psique infantil</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-importancia-do-passado-na-construcao-da-psique-infantil/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Simone Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 12 Jun 2019 21:58:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[educação]]></category>
		<category><![CDATA[Educação Infantil]]></category>
		<category><![CDATA[pedagogia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Hoje parece que vivemos um surto de TDAH &#8211; Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, ou sem hiperatividade, mas com apatia. A que vocês acham que se deve tal comportamento? Uma criança com esse transtorno vive na Lua, como se não tivesse raízes que a prendam à realidade imediata. E é verdade. Quem dá [...]</p>
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<p class="wp-block-paragraph"><br>Hoje parece que vivemos um surto de TDAH &#8211; Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, ou sem hiperatividade, mas com apatia. A que vocês acham que se deve tal comportamento?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma criança com esse transtorno vive na Lua, como se não tivesse raízes que a prendam à realidade imediata. E é verdade. Quem dá raízes é o passado: transgeracional, cultural, ideológico e afetivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao substituirmos a família, e aí a enorme importância dos avós, tios, primos, bisavós, etc., por tablets, videogames, celulares, tiramos qualquer possibilidade de enraizamento. A família, através de seu convívio, suas histórias, seus comentários sobre os membros da família, como era a vida dos pais na idade deles, seus gostos e costumes, passa para a criança o sentimento de pertença, de saber de onde vim, como viveram meus antepassados, quem sou eu. Ela se reconhece em algum lugar. Tem um contexto histórico, não é descendente dos Pokemon, não tem parentesco com Galinha Pintadinha ou Bob Esponja. Ela aprende a viver no mundo real, sem aquela movimentação excessiva e gritante dos jogos virtuais, dos desenhos com músicas em ritmo frenético que para os pequenos tira da zona de relaxamento, tão importante para o desenvolvimento tranquilo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A substituição do real pelo virtual tira a possibilidade de adequação social porque nossa realidade não tem o ritmo, o som, as cores dos jogos e desenhos. Ai, em sala de aula, frente as lições de casa, a criança fica entediada&#8230;ela quer e precisa de muitíssimo mais&#8230;até que, na adolescência, as drogas aparecem como a entrada para o mundo fantástico em que foram criadas, tão diferente do tédio do cotidiano.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nenhuma escola, por melhor que seja sua proposta pedagógica, substitui o lar&#8230;chegamos até aqui porque nos reconhecemos na história. Rudolf Steiner, Maria Montessori, Padovan entre outros, alertam para o perigo da informação precoce, sem o devido investimento na formação, o potencial do vir a ser.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se seu filho está adiantando, precocemente à frente dos colegas é muito mais motivo de preocupação do que orgulho. Ao queimar etapas do seu desenvolvimento ele está deixando de vivenciar importantes etapas evolutivas da vida, e constelando complexos, dentre eles o de dislexia. Você tem adultos muito inteligentes, mas disléxicos, que sofrem para se adequar, mesmo quando adultos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Algumas crianças possuem o transtorno, mas são apáticas, não são hiperativas, mas também não respondem ao anseio dos professores e pais. Claro! Qual a graça de se envolver nas atividades propostas?</p>



<p class="wp-block-paragraph">O pior que muitas escolas acreditam que implementando centros de T.I. os alunos ficarão mais vinculados e interessados e aí voltamos ao círculo vicioso de excessos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Todo grande educador da história percebeu a fragilidade dalma infantil, os cuidados para despertar-lhe os interesses (clássico exemplo para aprender a ler, encontramos em Emilio ou Da Educação, referência literária da pedagogia, escrito por Rousseau). Mas também nós perdemos a alma em nosso transcurso. Ficamos tecnológicos e práticos em excesso. &#8220;Ganhamos&#8221; tempo para ganhar coisas e perder gente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma tarde na cozinha com a avó ficará marcada na lembrança afetiva da criança e, no futuro, quando adulta, lembrará que foi amada, cuidada, ensinada nos &#8220;segredos&#8221; da família. Ela é pertencente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Daí poderemos ir além e pensar em depressão. Quão triste e depressivo é não ter lastro, identidade, raízes? Estar no mundo e não reconhecer meu lugar nele. Como saber para onde vou se não sei de onde vim? Só adquirimos o sentido do Mito do Significado de nossas vidas, como dizia Jung, quando me conheço. Um ego estruturante tem consciência corporal e histórica, mas será muito mais rico e autoconsciente se esta história tiver raízes transpessoais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aí o papel da tradição religiosa da família, mesmo que se mude no futuro, de vital importância para o encontro consciente dos símbolos inconscientes que permearão todos nossos sonhos durante toda a vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O inconsciente recorre a eles quando precisa estabilizar a unilateralidade da consciência, quem não os vivenciou não terá como reconhece-los. Aí ficarão latentes e não atingiram seus objetivos que é a harmonia entre consciente e inconsciente, serão substituídos por medidas mais efetivas como sintomas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pensem nisso, conversem mais com as crianças, levem-nas para a cozinha, para o jardim, façam com que participem da rotina da casa, conviver com os parentes, reverenciar os mais velhos. Conte como foi sua infância, partilhe suas brincadeiras preferidas. Certamente precisarão de menos ritalina.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dra E. Simone Magaldi, Fundadora do IJEP &#8211; Pedagoga, filósofa, especialista em Psicologia Junguiana</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mestre e doutora em Ciências da Religião</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="mailto:simonemagaldi@ijep.com.br">simonemagaldi@ijep.com.br</a></p>
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