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	<title>Arquivos expressões simbólicas - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos expressões simbólicas - Blog IJEP</title>
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		<title>A Elegância da Alma: A Integração do Ser no Processo de Individuação</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Claci Maria Strieder]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 20 Mar 2026 18:50:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Na obra de Carl Gustav Jung, a elegância não se configura como um conceito técnico, estético ou como um arquétipo específico. Ainda assim, o tema encontra-se de forma implícita e transversal em seus escritos, podendo ser compreendido como expressão da totalidade e da harmonia psíquica, intimamente relacionada ao processo de individuação. Nesse sentido, a elegância articula-se com conceitos fundamentais da psicologia analítica, tais como individuação, persona, sombra, e Self, bem como com o funcionamento dos tipos e funções psicológicas. Este ensaio propõe-se a ampliar a reflexão sobre a elegância no pensar, no sentir e no agir, tal como se manifesta na vida cotidiana, estabelecendo conexões com a teoria junguiana.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: Na obra de Carl Gustav Jung, a elegância não se configura como um conceito técnico, estético ou como um arquétipo específico. Ainda assim, o tema encontra-se de forma implícita e transversal em seus escritos, podendo ser compreendido como expressão da totalidade e da harmonia psíquica, intimamente relacionada ao processo de individuação. Nesse sentido, a elegância articula-se com conceitos fundamentais da psicologia analítica, tais como individuação, persona, sombra, e Self, bem como com o funcionamento dos tipos e funções psicológicas. Este ensaio propõe-se a ampliar a reflexão sobre a elegância no pensar, no sentir e no agir, tal como se manifesta na vida cotidiana, estabelecendo conexões com a teoria junguiana.</p>



<p style="font-size:18px">Segundo o <em>Dicionário Aurélio</em> (Cfe. FERREIRA, 2010, p. 737), a palavra <strong>elegância</strong> deriva do latim <em>eligere</em> e refere-se à capacidade de realizar escolhas criteriosas que se expressam em harmonia e proporção, seja na aparência, no vestuário, no comportamento ou na linguagem. Tal compreensão encontra ressonância em provérbios e expressões do senso comum — como “menos é mais”, “quem é, não precisa parecer” ou “elegância é quando o interior é tão belo quanto o exterior” — amplamente difundidos pela cultura popular e vivenciados no âmbito do inconsciente pessoal e coletivo.</p>



<p style="font-size:18px">A elegância no pensar costuma ser associada à clareza, à sabedoria e à suspensão de julgamentos precipitados. No âmbito do sentir, manifesta-se por meio de qualidades como empatia, respeito, gratidão, serenidade e alteridade. Já a elegância no agir relaciona-se ao bom senso, à gentileza, à coerência, ao compromisso e à pontualidade. Tais atributos são reconhecidos, no senso comum, como fundamentais para a construção de relações sociais harmoniosas e podem ser compreendidos, à luz da psicologia analítica, como expressões de um psiquismo em processo de integração.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-conceito-de-elegancia-transcende-a-mera-aparencia-sendo-explorado-em-diversas-obras-literarias-e-cientificas-que-destacam-a-harmonia-interna-e-o-mundo-exterior" style="font-size:18px">O conceito de elegância transcende a mera aparência, sendo explorado em diversas obras literárias e científicas que destacam a harmonia interna e o mundo exterior.</h2>



<p style="font-size:18px">No romance <em>A Elegância do Ouriço</em>, de Muriel Barbery, a narrativa situa a elegância em um prédio parisiense, onde a crise adolescente e a melancolia madura se entrelaçam. A obra amplia a discussão sobre a harmonia entre o interior e o exterior — abrangendo justiça, beleza, arte e amor — e reflete sobre o tempo e a eternidade: &#8220;Afinal, sempre temos a ilusão de que controlamos o que acontece; nada nos parece definitivo&#8221; (BARBERY, 2008, p. 348).</p>



<p style="font-size:18px">De modo complementar, a obra&nbsp;<em>A Força da Elegância</em>&nbsp;(Cfe. GONTIJO, 2025) une neurociência e a elegância que vem de dentro. O livro transcende a etiqueta tradicional, valorizando a coerência entre o discurso e a ação, a comunicação não verbal e a inteligência emocional. Na psicologia, Joseph C. Zinker, em&nbsp;<em>A Busca da Elegância em Psicoterapia</em>, evidenciou a criatividade como um atributo humano fundamental. O autor defendeu que a relação terapêutica deve ser um encontro criativo:&nbsp;&#8220;Todo encontro terapêutico é potencialmente um trabalho de arte&#8221;&nbsp;(ZINKER, 2001, p. 306).</p>



<p style="font-size:18px">A e<strong>xpressão criativa</strong> é uma possibilidade de trabalho na psicologia analítica, onde a criatividade é considerada um dos cinco instintos naturais do indivíduo, assim como a fome, a sexualidade, a atividade e a reflexão (Cf. JUNG, 2013b, § 246). Jung a via como possibilidade de voltar-se para dentro, reconectar-se com o sagrado e promover o encontro com o Si-mesmo (Selbst), o arquétipo da totalidade e da realização.</p>



<p style="font-size:18px">Ainda que a palavra elegância não figure no vocabulário técnico de Jung, sua psicologia analítica oferece o suporte ideal para redefini-la como uma expressão da&nbsp;harmonia interior. Se a individuação é o processo de &#8220;tornar-se um consigo mesmo&#8221; (JUNG, 2013c, § 227), a elegância pode ser vista como o resultado estético e ético dessa integração. Ela surge quando o indivíduo alinha seu interior com sua expressão externa, despojando-se das exigências rígidas da persona para dar lugar ao seu ser autêntico (Cfe. JUNG, 2015, § 267).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-entanto-essa-elegancia-do-ser-exige-o-reconhecimento-da-sombra" style="font-size:18px">No entanto, essa elegância do ser exige o reconhecimento da sombra.</h2>



<p style="font-size:18px">Longe de ser um adereço superficial, o autoconhecimento demanda o resgate de partes ocultas da psique, um ato que, embora enfrente considerável resistência (Cfe. JUNG, 2013a, § 14), é o que confere profundidade ao indivíduo. Finalmente, ao orbitar o Self<em>,</em> o indivíduo compreende que a verdadeira distinção não reside na falta de defeitos. Nas palavras de Jung: &#8220;Não há luz sem sombra, nem totalidade anímica sem imperfeição&#8221; (JUNG, 2012, § 208). A elegância, sob este prisma, é a beleza da completude: uma essência que não busca a perfeição, mas a coragem de ser inteiro.</p>



<p style="font-size:18px">A inter-relação entre a tríade <strong>pensar, sentir e agir </strong>oferece uma via fundamental para a compreensão do funcionamento humano. Embora exploradas aqui separadamente para fins didáticos, é imperativo lembrar que o ser humano é um ser integral; nada na psique opera de forma isolada ou reduzida a classificações estáticas.</p>



<p style="font-size:18px">Nesse contexto, a&nbsp;elegância no pensar&nbsp;manifesta-se através da consciência e da clareza, exigindo o esforço da compreensão em detrimento da fixação em preconceitos. Tal tarefa não é simples, pois o desconhecido frequentemente nos conduz a caminhos sombrios. Como observou Jung, existe uma resistência inerente ao esforço intelectual:&nbsp;<em>&#8220;</em>Pensar é difícil, por isso a maioria é quem decide&#8221;&nbsp;(JUNG, 2013e, § 653). Quando o julgamento precipitado ocupa o lugar da empatia, perde-se a oportunidade de validar a perspectiva do outro. Afinal, a apreensão da realidade não é exclusividade da razão:&nbsp;&#8220;Não pretendemos conhecer o mundo apenas com o intelecto; ele pode ser compreendido tão bem igualmente pelo sentimento&#8221;&nbsp;(JUNG, 2013d, § 929).</p>



<p style="font-size:18px">Essa harmonia entre o pensar, sentir e agir encontra ressonância na&nbsp;mitologia, que povoa o imaginário com arquétipos da elegância em suas múltiplas facetas. Figuras como Afrodite, Atena e as Graças (Aglaia, Eufrosina e Talia) personificam a harmonia entre beleza, sabedoria e encanto. No universo masculino, Apolo surge como a personificação da ordem e da harmonia clássica, enquanto Hermes, com sua diplomacia e eloquência, representa a sofisticação da agilidade mental. Mesmo o mito de Narciso serve de alerta, ilustrando a elegância que se perde na vaidade estéril da aparência física. Esses exemplos arquetípicos reiteram que a verdadeira elegância reside além da perfeição estética.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-complementar-essa-elegancia-que-transcende-a-imagem-e-corroborada-pela-filosofia-e-pela-literatura-manifestando-se-atraves-da-etica-da-simplicidade-e-da-sabedoria-no-agir" style="font-size:18px">Para complementar, essa elegância que transcende a imagem é corroborada pela filosofia e pela literatura, manifestando-se através da ética, da simplicidade e da sabedoria no agir.</h2>



<p style="font-size:18px">Machado de Assis, em <em>Contos Fluminenses</em>, já distinguia com precisão o elegante do apenas enfeitado, oferecendo uma reflexão perene sobre a transitoriedade do externo: &#8220;a beleza passara, como um dia brilhante; restavam os ossos, que não emagrecem nunca<em>&#8220;</em>. No mesmo sentido, a escrita de Clarice Lispector, especialmente em <em>Um Sopro de Vida</em>, mergulha na busca pela identidade profunda. Através da personagem Ângela Pralini, Clarice ampliou o debate sobre uma beleza que nasce da investigação do ser, sugerindo que a elegância mais refinada é aquela que emana da fidelidade à própria essência.</p>



<p style="font-size:18px">A&nbsp;elegância no sentir, por sua vez, compreende a coragem de reconhecer tanto luzes quanto sombras. Olhar para dentro implica perceber que a totalidade humana não é composta apenas de qualidades; o que reprimimos — traumas, medos, impulsos ou talentos ocultos — constitui a nossa sombra. A máxima &#8220;conhecer a própria escuridão é o melhor método para lidar com as trevas das outras pessoas&#8221; resume com precisão as discussões de Jung sobre a projeção (Cfe. JUNG, 1987, p. 83-107). Em&nbsp;<em>Aion</em>, Jung (Cfe. JUNG, 2013a, § 17) amplia o impacto desse fenômeno:&nbsp;&#8220;A consequência da projeção é um isolamento em relação ao mundo exterior, pois ao invés de uma relação real o que existe é uma relação ilusória&#8221;.</p>



<p style="font-size:18px">Nesse sentido, a reprovação rígida de si mesmo ou do próximo cria um obstáculo intransponível à mudança. A elegância emocional reside na aceitação assertiva das falhas como prelúdio para a transformação:&nbsp;&#8220;Não se pode mudar aquilo que anteriormente não se aceitou. A condenação moral não liberta, ela oprime&#8221;&nbsp;(JUNG, 2012a, § 519). Assim, a verdadeira elegância não consiste em perder-se no outro ou em julgamentos, mas em estabelecer uma harmonia interna por meio do processo de individuação.</p>



<p style="font-size:18px">Essa complexidade do sentir e as diferentes formas de compreender o mundo manifestam-se também através da&nbsp;arte. Pela música, a elegância ganha contornos variados: em&nbsp;<em>&#8220;Garota de Ipanema&#8221;</em>, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, ela transparece na admiração silenciosa e na distância melancólica diante de uma beleza inalcançável. Obras como&nbsp;<em>&#8220;Linda Demais&#8221;</em>, do Roupa Nova, ou&nbsp;<em>&#8220;Coisa Mais Linda&#8221;</em>, de Caetano Veloso, celebram a estética e a presença feminina sob o olhar do encantamento.</p>



<p style="font-size:18px">Em contrapartida, a canção&nbsp;<em>&#8220;Dor Elegante&#8221;</em>, de Itamar Assumpção e Paulo Leminski (popularizada por Chico César), oferece uma das mais profundas definições desse conceito: a elegância ao lidar com o sofrimento. Ao descrever que&nbsp;&#8220;um homem com uma dor / é muito mais elegante&#8221;, a letra sugere que a postura ética diante da vulnerabilidade confere dignidade ao indivíduo. Explorar a elegância através da música, mesmo em composições de décadas passadas, permite-nos compreender o espírito da época (<em>Zeitgeist</em>) e observar como a busca pela harmonia e pela essência se reconfigura continuamente na alma humana.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-fim-a-elegancia-no-agir-e-marcada-pela-coerencia-etica-onde-a-pratica-e-o-discurso-se-fundem-em-atitudes-de-humildade-e-humanidade-despojadas-de-mascaras-sociais-excessivas" style="font-size:18px">Por fim, a elegância no agir é marcada pela coerência ética, onde a prática e o discurso se fundem em atitudes de humildade e humanidade, despojadas de máscaras sociais excessivas.</h2>



<p style="font-size:18px">Jung sintetizou essa postura ao afirmar que &#8220;<em>O encontro entre duas personalidades é como a mistura de duas substâncias químicas: se houver uma reação, ambas se transformam</em>” (JUNG, 2013c, §163). Assim, fica evidente que conceitos pré-concebidos podem obscurecer a relação humana.</p>



<p style="font-size:18px">No campo das relações, essa elegância manifesta-se no que Rubem Alves denominou escutatória — a arte de ouvir profundamente, que se sobrepõe à vaidade da oratória:&nbsp;&#8220;Amamos não a pessoa que fala bonito, mas a pessoa que escuta bonito<em>&#8220;</em>&nbsp;(ALVES, 2014, p. 21). Essa escuta exige o silêncio da alma, como sugerido por Alberto Caeiro e parafraseado por Alves (1999, p. 65), sendo o fundamento para um diálogo assertivo que renuncia ao desejo de controlar o outro.</p>



<p style="font-size:18px">No plano <strong>espiritual</strong>, a elegância transcende o comportamento social para tornar-se uma postura interior de respeito e dedicação. Longe da ostentação física ou religiosa, essa dignidade reflete-se na valorização da beleza interior, ecoando preceitos bíblicos que a centralizam em um espírito calmo e gentil (1 Pedro 3:3-4).</p>



<p style="font-size:18px">Embora essas dimensões da elegância — pensar, sentir e agir — se entrelacem teoricamente, na prática elas frequentemente colidem com os padrões sociais, gerando angústia e dificultando a integração do ser. Para compreender essa dinâmica, Jung propôs em sua obra&nbsp;<em>Tipos Psicológicos</em>&nbsp;as atitudes (extroversão e introversão) e as funções orientadoras (pensamento, sentimento, sensação e intuição). No Capítulo 10 de sua obra (JUNG, 2013d, § 621-740), ele detalha como essas funções operam na consciência e no inconsciente. A elegância psíquica, portanto, não reside em uma classificação estática, mas no esforço de integrar a função principal às funções auxiliares e, sobretudo, à função inferior, promovendo o entendimento da psique em sua totalidade.</p>



<p style="font-size:18px">Na Psicologia Analítica, uma forma privilegiada de observar a manifestação dessas virtudes é por meio dos<strong> <em>Contos de Fadas</em></strong>. Nessas narrativas, a nobreza de caráter e a elegância de alma são personificadas em figuras como <em>Cinderela</em>, que mantém sua dignidade e doçura mesmo sob opressão. Da mesma forma, o conto <em>A Bela e a Fera </em>reforça que a verdadeira sofisticação reside na generosidade e na capacidade de enxergar além das aparências, reafirmando que a elegância é, em última análise, uma conquista da alma em seu processo de transformação. Percebe-se que a elegância é um conceito em constante ampliação, que se recusa a ser aprisionado por um padrão único ou superficial. Ela sugere um refinamento que exige múltiplos cuidados, começando pelo reconhecimento de que o aspecto físico — o nosso corpo — é, em última instância, o templo da nossa alma.</p>



<p style="font-size:18px">No entanto, a manifestação mais elevada da elegância reside na&nbsp;simplicidade, uma virtude que Jung considerava um dos maiores desafios do espírito humano. No Volume 13 das <em>Obras Completas</em>, ao comentar sobre&nbsp;<em>O Segredo da Flor de Ouro</em>, Jung observa a tendência da consciência em interferir nos processos naturais da psique:&nbsp;&#8220;Seria bastante simples, se ao menos a simplicidade não fosse a mais difícil de todas as coisas&#8221;&nbsp;(JUNG, 2011, § 20). Essa disciplina da simplicidade é necessária para que a elegância não se torne um artifício do ego, mas um crescimento orgânico da totalidade.</p>



<p style="font-size:18px">A verdadeira elegância, portanto, afasta-se do desejo de controle e da ostentação de poder, que são frequentemente as sombras de uma alma fragmentada. Como nos recorda Jung: &#8220;Onde impera o amor, não existe vontade de poder; e onde o poder tem precedência, aí falta o amor. Um é a sombra do outro&#8221; (JUNG, 2020, § 78<strong>).</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-ultima-analise-a-elegancia-e-o-resultado-de-um-processo-de-individuacao-o-autoconhecimento-e-a-possibilidade-de-conectar-com-a-verdadeira-essencia-e-de-assumir-o-protagonismo-da-propria-vida" style="font-size:18px"><strong>Em última análise, a elegância é o resultado de um processo de individuação. O autoconhecimento é a possibilidade de conectar com a verdadeira essência e de assumir o protagonismo da própria vida.</strong></h2>



<p style="font-size:18px">Assim, ser elegante é o ato de permitir que a própria essência floresça sem as correções excessivas da persona social. É a arte de deixar crescer em harmonia os processos psíquicos, integrando sombra e luz em uma existência que se manifesta com a naturalidade de quem encontrou o próprio Self, simbolizada pela beleza natural, crescimento a partir das profundezas e serenidade da <em>vitória-régia, </em>conforme ilustrado na fotografia 1. A elegância, em sua forma mais pura, é o brilho externo de uma alma que aprendeu a amar a própria verdade.</p>



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<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/clacistrieder/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/clacistrieder/">Claci Maria Strieder – Membro Analista IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi Filho – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-fontes-de-consulta" style="font-size:18px">Fontes de Consulta:</h2>



<p>ALVES, R.&nbsp;<em>O amor que acende a lua.</em> 13. ed. Campinas, SP: Papirus, 1999.&nbsp;</p>



<p>________ &nbsp; <em>Ostra feliz não faz pérola. </em>2. Ed. São Paulo: Planeta, 2014.</p>



<p>ASSIS, M.&nbsp;<strong>Contos fluminenses</strong>. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012.</p>



<p>BARBERY, M. <em>A elegância do ouriço</em>. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.</p>



<p>FERREIRA, A. B. H.&nbsp;<em>Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa.</em> 5. ed. Curitiba: Positivo, 2010.</p>



<p>GONTIJO, C.&nbsp;<em>A força da elegância: O que a neurociência revela sobre a excelência no comportamento humano</em><em>.</em> Belo Horizonte, Reflexão, 2025.</p>



<p>JUNG, C. G. <em>Aion </em>– estudo sobre o simbolismo do si-mesmo. 10. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013a.</p>



<p><em>__________ A natureza da psique</em>. 10. ed. Petrópolis: Vozes: 2013b.</p>



<p><em>__________ A Prática da psicoterapia</em>. 16. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013c.</p>



<p>__________ <em>Escritos diversos. 3 ed. </em>Petrópolis, RJ: Vozes, 2012a.</p>



<p>__________&nbsp;<em>Estudos alquímicos</em>. Petrópolis: Vozes, 2011, § 20.</p>



<p>__________ <em>Memórias, sonhos e reflexões</em> (Reunidas e editadas por Aniela Jaffé). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.</p>



<p>__________ <em>O Eu e o inconsciente</em>. 27. ed. Petrópolis: RJ: Vozes, 2015.</p>



<p>__________&nbsp;<em>Psicologia do inconsciente.</em> Petrópolis, RJ: Vozes, 2020.</p>



<p>__________ <em>Psicologia e alquimia</em>. 6 ed.&nbsp; Petrópolis, RJ: Vozes, 2012b.</p>



<p><em>__________ Tipos psicológicos.</em> 7. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013d.</p>



<p>__________ <em>Um mito moderno sobre coisas vistas no céu</em>. 6 ed.&nbsp; Petrópolis, RJ, Vozes: 2013e.</p>



<p>LISPECTOR, C.&nbsp;<strong>Um sopro de vida</strong>. Rio de Janeiro: Rocco, 2020 (Edição Comemorativa).&nbsp;</p>



<p>STRIEDER, C.M.&nbsp;<em>Vitória-régia.</em> Cáceres-MT, 2017. Fotografia produzida pela autora.&nbsp;</p>



<p>VELOSO, C. <em>Coisa mais linda</em>. Álbum Uns, Polygram, 1983.<strong></strong></p>



<p>ZINKER, J. C. <em>A busca da elegância em psicoterapia:</em> uma abordagem gestáltica com casais, famílias e sistemas íntimos. São Paulo: Summus, 2001.</p>



<p>&#8212;</p>



<p><em>Fotografia – Vitória-régia &#8211; Fonte: a autora.</em></p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p></p>
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		<title>Do jeito que a vida quer, é, desse jeito!</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/do-jeito-que-a-vida-quer-e-desse-jeito/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Natalhe Vieni]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 12 Nov 2025 15:50:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Ninguém sabe a mágoa que trago no peitoQuem me vê sorrir desse jeitoNem sequer sabe da minha solidãoÉ que meu samba me ajuda na vidaMinha dor vai passando esquecidaVou vivendo essa vida do jeito que ela me levarVamos falar de mulher, a morena e dinheiroDo batuque do surdo e até do pandeiroMas não fale da [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-pullquote is-style-solid-bg has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-f9ad04c8afa12fcf694e0e9bba725d46" style="font-size:19px"><blockquote><p><em>“Ninguém sabe a mágoa que trago no peito<br>Quem me vê sorrir desse jeito<br>Nem sequer sabe da minha solidão</em><br><em>É que meu samba me ajuda na vida<br>Minha dor vai passando esquecida<br>Vou vivendo essa vida do jeito que ela me levar</em><br><em>Vamos falar de mulher, a morena e dinheiro<br>Do batuque do surdo e até do pandeiro<br>Mas não fale da vida<br>Que você não sabe o que eu já passei</em><br><em>Aumente esse samba que o verso não para<br>Batuque mais forte e a tristeza se cala<br>Que eu levo essa vida do jeito que ela me levar</em><br><em>É do jeito que a vida quer<br>É desse jeito”</em></p><cite><em>Benito di Paula</em></cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-preambulo" style="font-size:20px"><em><strong>Preâmbulo</strong></em></h2>



<p style="font-size:19px"><em>Percebi que algumas canções a gente não &#8220;ouve&#8221;; a gente incorpora. O samba empurra o corpo pra frente, mesmo quando a alma quer ficar.</em></p>



<p style="font-size:19px"><em><strong>Em &#8220;do jeito que a vida quer&#8221;&nbsp;eu escuto um chamado antigo: tornar-se quem se é, não pelo controle, mas pela entrega lúcida</strong>. No batuque, a memória do corpo aparece: lembranças guardadas na pele, histórias que o Brasil tentou esquecer, afetos que pedem reconhecimento. É rito. É travessia.</em></p>



<p style="font-size:19px"><em>Penso na encruzilhada como esse lugar simbólico onde destino e escolha se encaram. Ali, a vida pede posição: qual caminho eu sustento? o do medo repetido, ou o da consciência que abre passagem? Individuar é aceitar que toda luz carrega sombra, e que a sombra, quando acolhida, vira potência criadora. É trabalho de alma e, sim, dá dor. Mas é dor que organiza, como quem afina um tambor antes da roda começar. Também é educação do sensível: aprender com o mundo, com o outro, com a própria história.</em></p>



<p style="font-size:19px"><em>A psique não nasce no vazio; ela dança no coletivo, no terreiro da cultura. Quando o corpo lembra, o país aparece dentro da gente: nossas veias abertas, nossa fome de justiça, nossas resistências miúdas que salvam o dia. e, pouco a pouco, a vida vai ensinando um compasso possível: menos perfeição, mais presença; menos culpa, mais cuidado; menos pressa, mais escuta. Se esse tema te atravessa, vem comigo nessa roda. Lê com calma, respira entre os parágrafos, deixa o samba trabalhar em você. Porque às vezes é isso: a alma aprende a caminhar&#8230; do jeito que a vida quer.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-cancoes-que-nao-se-ouvem-com-os-ouvidos-mas-com-o-corpo" style="font-size:21px"><strong>Há canções que não se ouvem com os ouvidos, mas com o corpo.</strong></h2>



<p style="font-size:19px">O samba de <strong>Benito di Paula</strong>, em <em>“<strong>Do jeito que a vida quer</strong>”</em>, é uma dessas. Ele pulsa na alma coletiva, atravessa a história do Brasil e ressoa no inconsciente como um chamado à entrega, àquilo que Jung chamaria de Processo de Individuação, o processo de se tornar quem se é, mesmo diante das feridas e da sombra.</p>



<p style="font-size:19px">Mas esse chamado não ecoa apenas no indivíduo isolado: ele vibra nas camadas mais profundas da psique coletiva, onde a dor pessoal encontra a dor do mundo. É ali que o ritmo se torna ritual e o corpo se faz memória, corpo que dança, mas também carrega.</p>



<p style="font-size:19px">Carrega as marcas do que o país tentou esquecer: o lamento dos navios negreiros, o silêncio das senzalas, o grito das favelas, a solidão dos exílios internos. O samba é, então, mais que música, é um corpo simbólico onde o sofrimento coletivo ganha forma e respiração.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-1959-440-dizia-que-o-inconsciente-coletivo-e-um-solo-comum-uma-base-psiquica-universal-onde-se-enraizam-os-simbolos-e-as-experiencias-humanas" style="font-size:19px"><strong>Jung </strong>(1959, §440) dizia que o inconsciente coletivo é um solo comum, uma base psíquica universal onde se enraízam os símbolos e as experiências humanas.</h2>



<p style="font-size:19px">Nesse solo, a <strong>sombra coletiva</strong> do Brasil se move: feita de desigualdades, culpas coloniais e dores transgeracionais que atravessam séculos. Quando Benito canta, ele não fala só de si, ele canta o sofrimento do outro, o de todos.</p>



<p style="font-size:19px">E, ao fazê-lo, realiza um ato de Individuação que é também comunitário: transforma o lamento em gesto de comunhão, o trauma em criação. Ouvir essa canção é se perceber parte desse grande corpo vivo, onde a dor é compartilhada e, por isso mesmo, humanizadora.&nbsp; Porque há dores que só se suportam quando dançadas juntas.<br>E há canções que nos lembram que o caminho da consciência não é solitário, é coral.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-sombra-coletiva-guarda-o-sofrimento-de-um-povo-a-sombra-pessoal-o-que-cada-um-faz-com-esse-sofrimento-entre-uma-e-outra-o-samba-se-torna-ponte-o-gesto-de-transformar-o-que-herdamos-em-criacao-propria" style="font-size:19px">A sombra coletiva guarda o sofrimento de um povo; a sombra pessoal, o que cada um faz com esse sofrimento. Entre uma e outra, o samba se torna ponte, o gesto de transformar o que herdamos em criação própria.</h2>



<p style="font-size:19px">Benito canta o que muitos não ousam dizer: a mágoa no peito, a solidão disfarçada de sorriso. E nesse gesto de cantar a dor, a música transforma em rito. O samba, aqui, é mais que música, é alquimia. É o corpo se movendo em direção ao Self, o Eu maior, que sabe que a vida, em sua sabedoria arquetípica, sempre nos leva aonde precisamos estar, mesmo quando resistimos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quem-me-ve-sorrir-desse-jeito-nem-sequer-sabe-a-minha-solidao" style="font-size:21px">“<strong><em>Quem me vê sorrir desse jeito / nem sequer sabe a minha solidão</em></strong>”.</h2>



<p style="font-size:19px">Esses versos expõem o que <strong>Jung</strong> (1954, §70) descreve como o <strong>conflito entre Persona e Sombra</strong>: a face que mostramos ao mundo e aquilo que escondemos até de nós mesmos. A Persona, socialmente aceita, sorri, enquanto a Sombra, reprimida, chora. Mas é justamente quando o sujeito dá voz à sombra — como Benito o faz — que inicia um movimento de cura simbólica.</p>



<p style="font-size:19px">A música, portanto, torna-se um canal entre inconsciente e consciência, um modo de expressar o indizível, de revelar a verdade escondida sob as máscaras. O silêncio entre dois batuques é também parte da música. É nele que a alma respira, e que o som se transforma em escuta.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-cancao-devolve-dignidade-a-dor-e-como-lembra-neumann-1995-p-84-o-processo-criativo-e-a-tentativa-da-psique-de-se-tornar-consciente-de-si-mesma" style="font-size:19px">A canção devolve dignidade à dor. E, como lembra Neumann (1995, p. 84), “<strong><em>o processo criativo é a tentativa da psique de se tornar consciente de si mesma</em></strong>”.</h2>



<p style="font-size:19px">Assim, cada verso é uma confissão, mas também uma oferenda: transformar sofrimento em arte é uma das formas mais antigas de religar-se ao sagrado. O samba, enquanto expressão da alma brasileira, nasce do entre-lugar: da dor e da festa, da escravidão e da liberdade, do corpo ferido que ainda assim dança.</p>



<p style="font-size:19px">Em “<strong><em>A Alma Brasileira</em></strong>”, <strong>Walter Boechat</strong> (2001), encontramos a noção de que o brasileiro se constrói na dialética entre o sofrimento e a criatividade, entre o trauma histórico e a potência simbólica de reexistir. Em “<strong><em>Desvelando a Alma Brasileira</em></strong>” Humbertho Oliveira, (2007), amplia-se essa visão, mostrando como o inconsciente coletivo nacional carrega as marcas de um povo que, ao transformar dor em ritmo, também cria um modo singular de Individuação coletiva.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>O samba, portanto, é uma psicologia em movimento, um modo de elaborar os complexos coloniais, as feridas da exclusão e as ambiguidades do amor</strong>. Ele cumpre o papel simbólico de ritualizar o sofrimento, devolvendo sentido à experiência humana. Como diria Jung (1964, §120), “<strong><em>o sofrimento precisa ser assumido; só o sofrimento assumido tem poder de transformação</em></strong>”. O batuque é, nesse sentido, uma forma de assumir o sofrimento dançando.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-do-jeito-qu-e-a-vida-quer-essa-frase-e-entrega-e-sabedoria-ancestral" style="font-size:21px">“<em>É do jeito qu</em>e a vida quer.” Essa frase é entrega e sabedoria ancestral.</h2>



<p style="font-size:19px">Em “<em><strong>As veias abertas da América Latina</strong></em>”, <strong>Eduardo Galeano</strong> (1971, p. 11) fala de uma terra sangrada, mas viva, de um continente que aprendeu a sobreviver e cantar, mesmo sob a dor. Viver &#8216;do jeito que a vida quer&#8217; é reconhecer que o destino não é punição, mas processo. É o diálogo entre o consciente e o inconsciente, entre a vontade pessoal e o movimento arquetípico que conduz a existência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-1958-828-dizia-que-o-destino-e-muitas-vezes-a-expressao-exterior-do-inconsciente" style="font-size:19px"><strong>Jung</strong> (1958, §828) dizia que o destino é, muitas vezes, a expressão exterior do inconsciente.</h2>



<p style="font-size:19px">Assim, quando Benito canta a entrega à vida, ele também nos convida à Individuação: confiar no ritmo que não controlamos, mas que, misteriosamente, sempre nos ensina algo sobre nós mesmos.</p>



<p style="font-size:19px">Talvez viver seja isso: aprender a ouvir o próprio samba interno. A música de Benito é um espelho do inconsciente coletivo latino-americano, um chamado à autenticidade num tempo em que tantos ainda vivem sob máscaras. Escutar &#8216;Do jeito que a vida quer&#8217; é lembrar que a vida não exige perfeição, exige presença. É permitir que a dor dance conosco, até que o riso e o pranto se tornem uma coisa só.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-ha-tambem-um-silencio-que-e-so-nosso-aquele-que-fica-depois-do-samba-quando-o-batuque-cessa-e-restamos-a-sos-com-o-que-nao-dissemos" style="font-size:19px">Mas há também um silêncio que é só nosso, aquele que fica depois do samba, quando o batuque cessa e restamos a sós com o que não dissemos.</h2>



<p style="font-size:19px">Talvez seja ali que se revele a parte mais difícil de viver “do jeito que a vida quer”: o encontro com a própria verdade. Entre o que mostramos e o que sentimos existe um intervalo, e nesse intervalo habita a persona, a máscara que criamos para sermos aceitos, para sermos amados, para caber no olhar do outro.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>Jung (1954, §70) dizia que a persona é necessária à vida social, mas perigosa quando esquecemos que ela é apenas uma parte de nós</strong>. Quando nos identificamos demais com ela, perdemos o contato com a alma viva que pulsa por baixo. Sorrimos, mas o sorriso pesa. Vivemos cercados, mas raramente somos vistos. E as pessoas, presas em seus próprios espelhos, nos julgam a partir do reflexo que projetam, não da presença que somos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quantas-vezes-o-outro-acredita-nos-conhecer-quando-na-verdade-so-conhece-o-papel-que-desempenhamos-diante-dele" style="font-size:21px"><strong>Quantas vezes o outro acredita nos conhecer, quando na verdade só conhece o papel que desempenhamos diante dele?</strong></h2>



<p style="font-size:19px">É nesse desencontro que nasce a solidão profunda, não a solidão de estar só, mas a de não ser verdadeiramente percebido. E é também nesse ponto que o sofrimento se torna convite: o de retirar, aos poucos, as máscaras que nos impedem de sermos acolhidos. Porque o acolhimento só é possível quando há verdade, e a verdade, quando vem, costuma vir com lágrimas e muito, muito sofrimento, talvez por isso a escondemos tanto!</p>



<p style="font-size:19px">Benito canta com esse tipo de verdade: aquela que não busca aplauso, mas compreensão. Ao se mostrar ferido, ele nos ensina que vulnerabilidade não é fraqueza, é gesto de inteireza. Talvez a vida queira justamente isso: que deixemos de parecer fortes para, enfim, sermos humanos. Que aceitemos o olhar do outro não como espelho, mas como testemunha, alguém que vê e não julga, que escuta o que o corpo ainda não conseguiu dizer.</p>



<p style="font-size:19px">E é nesse momento, quando o samba silencia e resta apenas o coração batendo no mesmo compasso do mundo, que entendemos o que Benito sussurra por entre os versos: a vida quer verdade, não performance; presença, não perfeição.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-o-mundo-raramente-entende-o-que-e-verdade-vivemos-em-uma-epoca-em-que-ate-o-afeto-precisa-justificar-sua-utilidade" style="font-size:19px">Mas o mundo raramente entende o que é verdade. Vivemos em uma época em que até o afeto precisa justificar sua utilidade.</h2>



<p style="font-size:19px">Ser gentil virou estratégia, ser bom virou marketing, e até o sofrimento precisa se explicar para ser tolerado. A alma, cansada de ter que provar valor, se recolhe. E o sujeito, pressionado a ser produtivo, a ser “positivo”, acaba perdendo o direito de simplesmente ser. Essa exigência de utilidade é a sombra da modernidade racional, que perdeu a escuta do símbolo e o valor do inútil, aquilo que simplesmente é.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>Jung</strong> (1934, §134) advertia que “<strong><em>quanto mais o indivíduo se identifica com o papel social, mais se afasta do Self</em></strong>”. E esse afastamento dói, porque o mundo aplaude o desempenho, mas ignora o cansaço. Queremos ser compreendidos, mas somos constantemente interpretados; queremos ser acolhidos, mas somos medidos pelo quanto servimos. A necessidade de ser útil é uma das feridas mais sutis da modernidade, um amor condicionado, uma forma de sobrevivência travestida de virtude.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quantas-vezes-o-amor-que-recebemos-vem-atrelado-a-funcao-que-exercemos-quantas-vezes-somos-lembrados-apenas-quando-fazemos-algo-que-os-outros-precisam" style="font-size:19px"><strong>Quantas vezes o amor que recebemos vem atrelado à função que exercemos? Quantas vezes somos lembrados apenas quando fazemos algo que os outros precisam?</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Essa incompreensão cotidiana, esse não ser visto pelo que se é, mas pelo que se oferece, fere silenciosamente o coração humano. A psique, nesse estado, adoece de invisibilidade. E, como diria <strong>Neumann</strong> (1995, p. 102), “<em>a perda da alma começa quando deixamos de sentir que temos um valor intrínseco</em>”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-talvez-a-grande-cura-nao-esteja-em-sermos-uteis-mas-em-sermos-inteiros-mesmo-quando-a-inteireza-nos-torna-desconfortaveis-aos-olhos-do-mundo" style="font-size:19px">Talvez a grande cura não esteja em sermos úteis, mas em sermos inteiros, mesmo quando a inteireza nos torna desconfortáveis aos olhos do mundo.</h2>



<p style="font-size:19px">Benito, ao cantar sua solidão, recusa o papel de herói feliz e produtivo: ele devolve dignidade à vulnerabilidade. O samba, nesse sentido, é um ato de resistência contra a indiferença, um lembrete de que a alma não veio ao mundo para funcionar, mas para sentir.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-momentos-em-que-o-abandono-e-uma-iniciacao-quando-ninguem-nos-entende-o-que-talvez-esteja-nascendo-e-a-escuta-da-alma" style="font-size:19px"><strong>Há momentos em que o abandono é uma iniciação. Quando ninguém nos entende, o que talvez esteja nascendo é a escuta da alma</strong>.</h2>



<p style="font-size:19px">Jung (1959, §446) dizia que o Self não surge na comodidade, mas no colapso das certezas. A incompreensão, então, é a sombra que prepara o encontro com o divino interior, um modo da vida dizer: “pare de representar e comece a existir”.</p>



<p style="font-size:19px">Podemos dar um passo além da crítica ao mundo e conduzir nossa consciência para dentro, descobrir que, por trás da dor de não ser compreendido, há um chamado do Self. Quando a persona se rompe, não é apenas sofrimento: é um início de renascimento psíquico. A solidão e o sentimento de inutilidade, vistos pelo olhar junguiano, são símbolos de uma travessia, o ego perdendo o controle para que o Self possa emergir.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-linguagem-de-jung-esse-gesto-de-acolher-o-sentir-e-o-retorno-da-anima-o-principio-feminino-da-alma-que-quando-silenciado-empobrece-o-mundo-interno" style="font-size:19px">Na linguagem de Jung, esse gesto de acolher o sentir é o retorno da anima, o princípio feminino da alma que, quando silenciado, empobrece o mundo interno.</h2>



<p style="font-size:19px">Podemos ainda refletir que vivemos em uma cultura que idolatra a razão e despreza o sentir. Acolher-se é um gesto feminino no sentido mais sagrado da palavra: é permitir que o amor volte a ter voz. Quando negamos o sentir, negamos a própria alma.</p>



<p style="font-size:19px">Por isso a música é tão essencial, ela pode devolver à psique o direito de chorar, de tremer, de ser atravessada. É o corpo relembrando à mente que viver é verbo que se conjuga com o coração. A ferida da não-escuta é também a ferida do princípio feminino, do sentir, do cuidado, da amorosidade que a sociedade patriarcal rejeita.</p>



<p style="font-size:19px">Há um instante em que todos chegamos à encruzilhada, o ponto onde o caminho já não pode ser apenas racional. Ali, somos convidados a entregar o controle e ouvir o que a vida quer de nós. O samba nasce dessa escuta: do passo que se arrisca, do compasso que aceita o improviso. Viver, afinal, é isso: dançar entre o que se escolhe e o que é escolhido.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-talvez-o-segredo-esteja-justamente-ai-no-consentimento-amoroso-diante-do-destino-e-voce-tem-vivido-do-jeito-que-a-vida-quer-ou-ainda-tenta-conduzir-o-ritmo" style="font-size:19px"><strong><em>E talvez o segredo esteja justamente aí, no consentimento amoroso diante do destino. </em></strong><strong>E você, tem vivido do jeito que a vida quer, ou ainda tenta conduzir o ritmo?</strong></h2>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: Do jeito que a vida quer, é, desse jeito!" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/IgSoLZm3ELU?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/natalhe/">Ms. Natalhe Vieni &#8211; Analista Didata em formação IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi &#8211; Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>REFERÊNCIAS</strong>:</h2>



<p style="font-size:15px">BENITO DI PAULA. <em>Do jeito que a vida quer</em>. In: <strong>Benito Di Paula</strong>. Rio de Janeiro: Copacabana Discos, 1974. Faixa 5.</p>



<p style="font-size:15px">FREIRE, Paulo. <em>Pedagogia do oprimido</em>. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2020.</p>



<p style="font-size:15px">GALEANO, Eduardo. <em>As veias abertas da América Latina</em>. Porto Alegre: L&amp;PM, 2013.</p>



<p style="font-size:15px">JUNG, Carl Gustav. <em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em>. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p style="font-size:15px">JUNG, Carl Gustav. <em>O desenvolvimento da personalidade</em>. Petrópolis: Vozes, 2011.</p>



<p style="font-size:15px">JUNG, Carl Gustav. <em>Memórias, sonhos, reflexões</em>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.</p>



<p style="font-size:15px">NEUMANN, Erich. <em>A grande mãe: um estudo fenomenológico da constituição feminina do inconsciente</em>. São Paulo: Cultrix, 2008.</p>



<p style="font-size:15px">PIAGET, Jean. <em>A formação do símbolo na criança: imitação, jogo e sonho, imagem e representação</em>. Rio de Janeiro: Zahar, 1990.</p>



<p style="font-size:15px">BOECHAT, Walter (Org.). A alma brasileira: luzes e sombra. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p style="font-size:15px">OLIVEIRA, Humbertho (Org.). Desvelando a alma brasileira: psicologia junguiana e raízes culturais. Petrópolis: Vozes, 2018</p>



<p style="font-size:15px">PRANDI, Reginaldo. <em>Mitologia dos orixás</em>. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.</p>



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