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	<title>Arquivos fases da vida - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos fases da vida - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Eros na maturidade: uma perspectiva junguiana sobre o amor, o desejo e a individuação da mulher na segunda metade da vida</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Paula de Azevedo Bernardi Peñas]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 30 Oct 2026 20:50:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
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		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O que acontece com Eros quando a mulher entra na segunda metade da vida e já não está necessariamente organizada pelas mesmas expectativas, papéis e ideais que marcaram sua juventude? O presente artigo se detém a ampliar as possibilidades de compreender para onde se desloca o desejo do feminino durante o entardecer da segunda metade da vida feminina.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: O que acontece com Eros quando a mulher entra na segunda metade da vida e já não está necessariamente organizada pelas mesmas expectativas, papéis e ideais que marcaram sua juventude? O presente artigo se detém a ampliar as possibilidades de compreender para onde se desloca o desejo do feminino durante o entardecer da segunda metade da vida feminina.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A proposta do presente ensaio não se limita a discutir os aspectos eróticos compreendidos pela psicanálise, mas, antes, a de se deter ao conceito de Eros Primordial: aquele que une os opostos e promove o movimento de ligação entre os diferentes aspectos da experiência psíquica. Nessa perspectiva, o amor e o desejo não se restringem à sexualidade ou à busca de um parceiro, mas participam de um processo mais amplo de relação com o mundo, com o outro e consigo mesma.</p>



<h2 id="h-jung-compreende-que-o-eros-nao-deve-ser-reduzido-a-teoria-sexual-mas-que-constitui-um-dos-aspectos-fundamentais-da-totalidade-psiquica" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Jung compreende que o Eros não deve ser reduzido à teoria sexual, mas que constitui um dos aspectos fundamentais da totalidade psíquica.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O Eros primordial pode ser compreendido em sua relação com a energia psíquica, cuja dinâmica não se esgota na expressão sexual, mas se manifesta em diferentes formas de investimento, ligação e criação de sentido. Dessa forma, torna-se insuficiente refletir sobre o Eros feminino detendo-se exclusivamente no estudo da sexualidade.</p>



<h2 id="h-ensina-jung-que" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Ensina Jung que:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>&nbsp;“Eros não é a totalidade da natureza em nós, mas é pelo menos um dos seus aspectos principais. A teoria sexual da neurose freudiana fundamenta-se, portanto, num princípio verdadeiro e real. Comete, no entanto, o erro da unilateralidade e da exclusividade, além da imprudência de querer apreender Eros, que nunca se deixa capturar numa grosseira terminologia sexual. Neste ponto Freud é também um dos representantes de sua época materialista, que nutria a esperança de resolver todos os enigmas do mundo num tubo de ensaio. ”</em> JUNG (2013, § 33)</p>
</blockquote>



<h2 id="h-dito-isso-para-compreendermos-melhor-o-conceito-de-eros-primordial-evocamos-as-palavras-de-james-hollis" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Dito isso, para compreendermos melhor o conceito de Eros Primordial, evocamos as palavras de James Hollis:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Para os</em> <em>gregos, Eros era o mais velho dos deuses, presente em todas as expressões primordiais da força da vida, e também o mais jovem, renovando-se a cada momento. Seu nome significava desejo [&#8230;]</em></p>
</blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Em nosso tempo, com muita frequência, Eros também é reduzido ao meramente erótico. Em definição simples, eros é o desejo de ligação, união, conexão. Sem dúvida, pode-se incluir a sexualidade nesse desejo, mas eros é de riqueza e amplitude diferentes e pode ser encarado em muitas situações. Por ser um deus, o divino Eros está sempre presente, pelo menos implicitamente, quando há busca de união [&#8230;]”</em> HOLLIS (2002, p. 38/39)</p>
</blockquote>



<h2 id="h-compreender-eros-como-principio-de-ligacao-permite-ampliar-a-reflexao-sobre-a-experiencia-amorosa-da-mulher-madura" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Compreender Eros como princípio de ligação permite ampliar a reflexão sobre a experiência amorosa da mulher madura.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se, por um lado, o desejo pode manifestar-se na busca pelo encontro com outra pessoa, por outro, ele também expressa um movimento da psique em direção àquilo que ainda não foi reconhecido, desenvolvido ou integrado à consciência. O encontro amoroso pode, assim, adquirir um significado que ultrapassa a relação concreta: o outro passa a representar possibilidades internas que a própria mulher ainda não reconhece como suas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em nossa condição humana, marcada pela finitude e pela necessidade de estabelecer vínculos, podemos buscar no outro uma experiência de totalidade que, em última instância, remete à relação com o nosso próprio mundo interior. A psique procura no encontro amoroso uma promessa de completude, e o parceiro pode adquirir a aparência de alguém capaz de responder às nossas necessidades mais profundas. Nessa dinâmica, aquilo que Jung denominou <em>Self</em>, o centro e a totalidade da psique, torna-se um horizonte de referência para pensar o processo de individuação. O outro, entretanto, não pode realizar por nós essa totalidade; pode apenas participar de um caminho cujo desenvolvimento exige o reconhecimento progressivo de nossa própria realidade psíquica.</p>



<h2 id="h-no-inicio-de-muitos-relacionamentos-sobretudo-quando-ainda-estamos-fortemente-vinculados-aos-ideais-da-juventude-a-experiencia-amorosa-pode-ser-atravessada-por-projecoes-inconscientes" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">No início de muitos relacionamentos, sobretudo quando ainda estamos fortemente vinculados aos ideais da juventude, a experiência amorosa pode ser atravessada por projeções inconscientes.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Depositamos no parceiro expectativas, qualidades e possibilidades que, embora pareçam pertencer exclusivamente a ele, também dizem respeito à nossa própria interioridade. Apaixonamo-nos, em alguma medida, não apenas por quem o outro é, mas também por aquilo que nele reconhecemos sem ainda compreender que nos pertence.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Eros possui uma natureza dinâmica. A energia psíquica não permanece fixada em uma única forma de expressão, podendo deslocar-se entre diferentes objetos, relações e atividades. Cabe compreender, no entanto, que a projeção é um fenômeno inconsciente: não escolhemos deliberadamente projetar nossos conteúdos internos. Sua percepção ocorre, muitas vezes, somente depois que a realidade do outro começa a contradizer a imagem que construímos a seu respeito. É nesse momento que se inicia a possibilidade de reconhecer e recolher aquilo que, até então, parecia existir apenas fora de nós.</p>



<h2 id="h-sobre-esse-assunto-hollis-2002-p-41-ensina-de-modo-geral-so-comecamos-a-restabelecer-nosso-ponto-de-apoio-na-consciencia-quando-o-outro-nao-pega-nao-segura-nao-reflete-nossa-projecao" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Sobre esse assunto, Hollis (2002, p. 41) ensina: “De modo geral, só começamos a restabelecer nosso ponto de apoio na consciência quando o Outro não pega, não segura, não reflete nossa projeção. ”</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O que nos resta, como mulheres, então, quando as projeções recuam na maturidade? O que acontece quando nos tornamos mais conscientes de nossas limitações, quando o corpo já não responde da mesma forma e quando as imagens que sustentaram nossa identidade deixam de oferecer o mesmo sentido?</p>



<h2 id="h-na-perspectiva-da-psicologia-analitica-a-maturidade-feminina-pode-ser-compreendida-nao-como-um-declinio-de-eros-mas-como-uma-transformacao-de-sua-expressao" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Na perspectiva da Psicologia Analítica, a maturidade feminina pode ser compreendida não como um declínio de Eros, mas como uma transformação de sua expressão.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O desejo pode deslocar-se progressivamente de uma orientação predominantemente voltada ao reconhecimento externo para formas mais conscientes de relação, intimidade, criatividade e individuação. Isso não significa que a mulher madura deixe de desejar o amor, a sexualidade ou o reconhecimento do outro, mas que essas experiências podem passar a ocupar um lugar diferente em sua organização psíquica.</p>



<h2 id="h-a-pergunta-mais-pertinente-portanto-seria-quando-a-mulher-deixa-de-organizar-sua-identidade-predominantemente-em-torno-do-olhar-do-outro-o-que-acontece-com-seu-proprio-desejo" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">A pergunta mais pertinente, portanto, seria: “Quando a mulher deixa de organizar sua identidade predominantemente em torno do olhar do outro, o que acontece com seu próprio desejo? ”</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Não existe relacionamento duradouro que permaneça imune ao desgaste das projeções. Entretanto, esse processo não é simples, tampouco indolor. É necessário reconhecer que aquilo que esperávamos do outro podia expressar, em parte, um desejo de encontrar em nós mesmos algo que ainda não havíamos desenvolvido ou reconhecido. A retirada das projeções confronta-nos com a realidade de quem o outro efetivamente é e com a responsabilidade de nos relacionarmos com ele para além das imagens que construímos.</p>



<h2 id="h-hollis-descreve-esse-processo-de-maneira-particularmente-elucidativa" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Hollis descreve esse processo de maneira particularmente elucidativa:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“A vida em comum desgasta impiedosamente as projeções; somos deixados com a diversidade do Outro, que nem que quisesse poderia enfrentar a grandeza das projeções. Por conseguinte, na meia-idade, as pessoas chegam à seguinte conclusão: ‘Você não é a pessoa com quem me casei’. Na verdade, ela nunca foi. Ela sempre foi outra pessoa, um estranho que mal conhecíamos e que só conhecemos um pouco melhor agora. Como a anima e o animus foi projetado sobre esse Outro, literalmente nos apaixonamos pelas nossas partes que estão faltando. Aquela sensação acolhedora de união era tão boa e a ocasião era tão auspiciosa, que sua perda é sentida como catastrófica. ”</em> (HOLLIS, 1995, p. 65).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A experiência descrita por Hollis evidencia uma das tarefas psicológicas da maturidade: reconhecer a diferença entre o parceiro real e a imagem psíquica que depositamos nele. A perda da idealização pode ser vivida como desilusão, ressentimento ou vazio, sobretudo quando o relacionamento foi investido da expectativa de reparar antigas feridas, oferecer segurança absoluta ou conferir sentido à existência. O que se desfaz não é necessariamente o amor, mas a fantasia de que o outro poderia assumir a responsabilidade pela totalidade de nossa vida psíquica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa distinção é especialmente relevante quando pensamos a experiência feminina. Em contextos nos quais a identidade da mulher foi historicamente vinculada ao casamento, à maternidade, à aparência física ou à capacidade de atender às necessidades alheias, a retirada das projeções pode coincidir com o questionamento de papéis que, durante muito tempo, organizaram sua existência. A mulher pode perceber que investiu grande parte de sua energia psíquica na manutenção de vínculos e identidades que lhe proporcionaram pertencimento, mas que também limitaram o reconhecimento de outras dimensões de si mesma.</p>



<h2 id="h-e-nesse-ponto-que-a-discussao-sobre-eros-encontra-a-questao-do-animus" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">É nesse ponto que a discussão sobre Eros encontra a questão do <em>animus</em>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em Jung, o <em>animus</em> é um conceito relacionado à dimensão masculina inconsciente na psique da mulher, embora sua formulação histórica deva ser compreendida em diálogo crítico com as concepções de gênero de sua época. Para a reflexão aqui proposta, interessa sobretudo a possibilidade de pensar o <em>animus</em> como uma imagem psíquica associada à capacidade de posicionamento, discernimento, ação e realização no mundo. Quando determinados atributos são projetados no parceiro, a mulher pode experimentar o outro como aquele que sabe, decide, age ou oferece a direção que ela própria ainda não consegue reconhecer em si.</p>



<h2 id="h-hollis-sintetiza-essa-dimensao-ao-afirmar" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Hollis sintetiza essa dimensão ao afirmar:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“O</em> animus <em>da mulher é a sua experiência do princípio masculino, influenciado pelo pai e pela cultura, mas também misteriosamente único para ela. Ele personifica seu senso prático, suas aptidões e capacidade de concentrar suas energias e alcançar seus desejos no mundo. ”</em> (HOLLIS, 1995, p. 64).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa passagem permite compreender que o recolhimento das projeções não diz respeito apenas à desidealização do parceiro, mas também à recuperação de capacidades psíquicas que a mulher pode ter atribuído a ele. A maturidade pode convidá-la a reconhecer sua própria autoridade, sustentar suas decisões e desenvolver uma relação mais direta com aquilo que deseja realizar. O movimento de individuação passa, nesse sentido, pela possibilidade de deixar de depender exclusivamente do outro como mediador de sua ação no mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Não se trata de substituir a dependência afetiva por uma idealização da autossuficiência. A individuação não exige o abandono dos vínculos, tampouco pressupõe que a mulher deva renunciar à necessidade humana de amar e ser amada. Trata-se, antes, de transformar a qualidade desses vínculos: amar sem exigir que o outro complete aquilo que não reconhecemos em nós; desejar sem fazer do desejo alheio a medida exclusiva do nosso valor; estabelecer relações nas quais a intimidade não dependa da dissolução da própria individualidade.</p>



<h2 id="h-a-mulher-madura-pode-assim-experimentar-uma-ruptura-entre-a-identidade-que-construiu-para-responder-as-demandas-externas-e-aquilo-que-sua-psique-passa-a-solicitar-na-segunda-metade-da-vida" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">A mulher madura pode, assim, experimentar uma ruptura entre a identidade que construiu para responder às demandas externas e aquilo que sua psique passa a solicitar na segunda metade da vida.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa ruptura permite deslocar a discussão: em vez de perguntar se a mulher madura ainda é desejável, podemos perguntar o que ela própria deseja. A mudança parece sutil, mas implica uma transformação importante na posição subjetiva da mulher: ela deixa de ser considerada apenas a destinatária do desejo alheio e passa a reconhecer-se como sujeito de seu próprio desejo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nessa perspectiva, Eros não desaparece quando a mulher deixa de encontrar no olhar do outro a confirmação de sua identidade. Ele pode modificar sua direção e suas formas de expressão. O desejo de ser reconhecida pode coexistir com o desejo de conhecer a si mesma; a sexualidade pode continuar presente, mas já não precisa constituir a única medida da vitalidade; a relação amorosa pode deixar de ser concebida como promessa de completude e tornar-se um encontro entre duas individualidades em processo.</p>



<h2 id="h-o-que-antes-se-manifestava-predominantemente-como-desejo-de-uniao-pode-adquirir-outras-expressoes-intimidade-criatividade-autonomia-compromisso-com-projetos-pessoais-e-busca-de-sentido" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">O que antes se manifestava predominantemente como desejo de união pode adquirir outras expressões: intimidade, criatividade, autonomia, compromisso com projetos pessoais e busca de sentido.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A energia psíquica que antes se encontrava fortemente vinculada à adaptação externa pode passar a sustentar um movimento de interiorização. Esse deslocamento, contudo, não deve ser compreendido como uma trajetória linear, nem como uma obrigação de renunciar ao mundo exterior. Trata-se de uma possibilidade de reorganização da vida psíquica, cuja forma depende da história e das circunstâncias de cada mulher.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É nesse contexto que se torna pertinente introduzir a noção junguiana de metanoia, compreendida como uma transformação profunda da atitude psíquica, frequentemente associada às exigências da segunda metade da vida. Se, durante a juventude, grande parte da energia está orientada para a construção de uma identidade social, para a formação de vínculos e para a adaptação às exigências do mundo, a maturidade pode exigir uma revisão dessas prioridades. O que antes oferecia direção pode deixar de responder às necessidades presentes, tornando necessário um novo encontro com a própria interioridade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esse movimento não acontece sem resistência. O confronto com a realidade pode trazer à consciência o que foi negligenciado, adiado ou mantido à margem da identidade consciente. A mulher pode se deparar com a pergunta: quem sou eu quando já não me reconheço plenamente nos papéis que desempenhei? Quem sou quando o espelho devolve uma imagem que parece distante daquela que construí ao longo da vida? E, sobretudo, o que permanece vivo em mim para além das transformações do corpo, das relações e das expectativas sociais?</p>



<h2 id="h-o-envelhecimento-corporal-pode-intensificar-essas-questoes-particularmente-em-uma-cultura-que-associa-o-valor-feminino-a-juventude-e-a-aparencia" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">O envelhecimento corporal pode intensificar essas questões, particularmente em uma cultura que associa o valor feminino à juventude e à aparência.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Entretanto, é importante distinguir as mudanças concretas do corpo dos significados culturais atribuídos a elas. O corpo que envelhece não deixa de ser um corpo desejante, sensível e capaz de experimentar prazer. O que pode entrar em crise é a relação da mulher com os critérios pelos quais aprendeu a avaliar a própria desejabilidade. Quando esses critérios perdem sua força, abre-se a possibilidade de uma relação menos subordinada à validação externa e mais atenta à experiência vivida.</p>



<h2 id="h-nesse-processo-a-individuacao-nao-consiste-em-encontrar-uma-versao-definitiva-de-si-mesma-mas-em-sustentar-o-dialogo-com-aquilo-que-ainda-nao-foi-integrado-a-consciencia" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Nesse processo, a individuação não consiste em encontrar uma versão definitiva de si mesma, mas em sustentar o diálogo com aquilo que ainda não foi integrado à consciência. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A maturidade pode convocar a mulher a reconhecer desejos que foram reprimidos, capacidades que permaneceram pouco desenvolvidas e possibilidades que não encontraram lugar em sua identidade anterior. Pode também exigir o luto por escolhas irreversíveis e por imagens idealizadas de si mesma. O encontro com a própria interioridade envolve tanto a descoberta quanto a renúncia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A esse respeito, as reflexões de Jung sobre a necessidade de abandonar formas anteriores de dependência e enfrentar o medo oferecem uma contribuição importante:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“O curso natural da vida requer que o jovem sacrifique sua infância e sua dependência infantil dos pais físicos, para que não permaneça preso em corpo e alma, nos laços do incesto inconsciente.</em></p>
</blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>O medo é um desafio e uma tarefa, porque somente a coragem pode livrar-nos do medo. E se não corrermos o risco, o significado da vida será de algum modo violado, e todo o futuro condenado a uma deteriorização sem esperança, a um cinzento opaco iluminado apenas por quimeras e ilusões.”</em> (JUNG, 2016, §§ 553 e 551).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Embora a passagem se refira diretamente à superação da dependência infantil, sua reflexão sobre a necessidade de abandonar vínculos psíquicos que impedem o desenvolvimento pode contribuir para pensar os desafios da maturidade. Não se trata de equiparar a relação amorosa adulta à dependência parental, mas de reconhecer que a vida psíquica pode permanecer vinculada a formas de segurança e pertencimento que já não correspondem às exigências de seu desenvolvimento.</p>



<h2 id="h-a-coragem-requerida-pela-individuacao-nao-significa-ausencia-de-medo-mas-disposicao-para-enfrentar-a-incerteza-que-acompanha-a-transformacao" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">A coragem requerida pela individuação não significa ausência de medo, mas disposição para enfrentar a incerteza que acompanha a transformação.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para a mulher que atravessa a segunda metade da vida, esse risco pode consistir em questionar um casamento, reconstruir a vida após uma separação, reconhecer o desejo de permanecer só, retomar um projeto abandonado ou simplesmente deixar de organizar suas escolhas em função das expectativas de outras pessoas. Cada uma dessas possibilidades apresenta desafios próprios, e nenhuma delas constitui, por si só, garantia de desenvolvimento psicológico. O elemento decisivo é a possibilidade de reconhecer conscientemente as motivações que orientam a própria vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung também chama a atenção para o caráter crítico dos momentos em que uma nova adaptação psicológica se torna necessária: <em>“O irromper da neurose não é apenas uma questão de probabilidade. Por via de regra ela é extremamente crítica. É geralmente o momento em que um novo ajustamento psicológico, uma adaptação é exigida. ” (JUNG, 2014, § 563).</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A crise, nessa perspectiva, pode ser compreendida como um sinal de que a organização psíquica existente já não responde adequadamente às circunstâncias da vida. Isso não significa que todo sofrimento na maturidade deva ser interpretado como manifestação de um processo de individuação, nem que a neurose seja necessária para o desenvolvimento. Significa, antes, que determinados sintomas e conflitos podem indicar a necessidade de rever formas de adaptação que se tornaram rígidas ou insuficientes.</p>



<h2 id="h-a-pergunta-quem-e-essa-pessoa-que-me-olha-no-espelho-mas-que-eu-nao-reconheco-mais-pode-portanto-expressar-tanto-o-sofrimento-diante-das-transformacoes-quanto-a-emergencia-de-uma-possibilidade-de-mudanca" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">A pergunta “quem é essa pessoa que me olha no espelho, mas que eu não reconheço mais?” Pode, portanto, expressar tanto o sofrimento diante das transformações quanto a emergência de uma possibilidade de mudança.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando a identidade anterior já não consegue organizar a experiência, torna-se necessário construir novas referências de sentido. A tarefa não consiste em recuperar a mulher que se foi, nem em negar as transformações ocorridas, mas em reconhecer a continuidade de uma existência que também precisa encontrar novas formas de expressão.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A individuação, nesse sentido, não representa um afastamento definitivo do outro, mas uma transformação da relação com ele. O amor pode continuar a ser uma experiência central, desde que não seja convocado a substituir o encontro consigo mesma. A intimidade torna-se mais possível quando cada pessoa pode reconhecer no parceiro alguém distinto de suas próprias necessidades, expectativas e fantasias. Eros, então, deixa de ser compreendido exclusivamente como força que conduz à fusão e passa a ser reconhecido também como aquilo que permite estabelecer uma ligação entre diferenças, preservando a alteridade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A mulher madura não precisa deixar de desejar para se tornar mais consciente de si. Tampouco precisa abandonar o amor para alcançar a individuação. O desafio consiste em reconhecer quando o desejo se encontra subordinado à necessidade de aprovação, quando o vínculo se sustenta em projeções e quando a identidade depende excessivamente da manutenção de papéis que já não traduzem sua experiência interior.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez seja justamente nesse ponto que Eros revele uma de suas expressões mais significativas na segunda metade da vida: não apenas como impulso em direção ao outro, mas como força que favorece o encontro entre aquilo que a mulher viveu, aquilo que ainda deseja e aquilo que começa a reconhecer em si mesma. O amor deixa de ser exclusivamente a promessa de encontrar alguém que lhe ofereça uma identidade e pode tornar-se a possibilidade de compartilhar uma identidade em contínua transformação.</p>



<h2 id="h-a-questao-portanto-nao-e-saber-se-eros-sobrevive-a-juventude-mas-compreender-como-ele-se-transforma-quando-a-mulher-ja-nao-precisa-responder-as-mesmas-exigencias-que-organizaram-sua-vida-ate-entao" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">A questão, portanto, não é saber se Eros sobrevive à juventude, mas compreender como ele se transforma quando a mulher já não precisa responder às mesmas exigências que organizaram sua vida até então.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se, na juventude, o desejo pode estar fortemente associado à busca de pertencimento, reconhecimento e construção de uma identidade social, na maturidade ele também pode abrir caminho para uma relação mais consciente com a própria interioridade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando a mulher deixa de perguntar apenas se ainda é desejada e começa a perguntar o que deseja, Eros não necessariamente se retrai: pode adquirir uma nova profundidade. O desejo deixa de ser apenas uma busca por aquilo que falta no outro e passa a participar da descoberta daquilo que ainda pode nascer em si. Nessa passagem, a maturidade não representa o encerramento da vida amorosa, mas a possibilidade de vivê-la sob outras bases: menos sustentada pela idealização, mais aberta à alteridade e comprometida com a construção de sentido.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim, pensar Eros na maturidade é pensar a possibilidade de uma mulher que continua desejando, amando e estabelecendo vínculos, mas que também pode reconhecer a si mesma como centro de responsabilidade por sua própria existência. Não se trata de alcançar uma completude definitiva, mas de sustentar o movimento de tornar-se quem se é — tarefa que, na perspectiva junguiana, permanece aberta ao longo de toda a vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/paula-penas/">Paula de Azevedo Bernardi Peñas – Membro Analista em Formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Dalvio Magaldi – Diretora do IJEP</a></strong></p>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">HOLLIS, James. <em>O Projeto Éden: A busca do Outro Mágico.</em> São Paulo: Paulus, 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">HOLLIS, James. <em>A passagem do meio: da miséria ao significado da meia idade.</em> São Paulo: Paulus, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">JUNG, Carl Gustav. <em>Símbolos da transformação.</em> Petrópolis: Vozes, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">JUNG, Carl Gustav. <em>Freud e a Psicanálise</em>. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">JUNG, Carl Gustav. <em>Psicologia do Inconsciente</em>. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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