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	<title>Arquivos filme - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos filme - Blog IJEP</title>
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		<title>As Pontes de Madison: o paradoxo da vida e do amor</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Gabriela Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 15 Jun 2026 17:34:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Filmes e Séries]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>ste ensaio propõe um percurso simbólico pelas imagens do filme As Pontes de Madison de 1995, tecendo reflexões sobre a paradoxal condição humana em sua relação com as forças arquetípicas, a partir da psicologia de Carl Gustav Jung. Um encontro de cada indivíduo com a alma que passa, necessariamente, pelo encontro com o outro.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“<strong>Eu percebi que o amor não obedece à própria expectativa. É um mistério puro e absoluto.</strong> O que Robert e eu tivemos não teria continuado se estivéssemos juntos. E o que Richard e eu dividimos iria desaparecer se nos separássemos.”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo: </strong>Este ensaio propõe um percurso simbólico pelas imagens do filme <strong><em>As Pontes de Madison</em></strong> de 1995, tecendo reflexões sobre a paradoxal condição humana em sua relação com as forças arquetípicas, a partir da psicologia de Carl Gustav Jung. Um encontro de cada indivíduo com a alma que passa, necessariamente, pelo encontro com o outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É com essa afirmação que a personagem Francesca Johnson, interpretada por Meryl Streep no filme As Pontes de Madison de 1995, parece integrar internamente a profunda experiência afetiva compartilhada com o fotógrafo Robert Kincaid, vivido pelo ator Clint Eastwood, que também dirige o filme.</p>



<h2 id="h-uma-afirmacao-que-revela-um-paradoxo-paradoxo-do-latim-paradoxum-do-grego-paradoxos-significa-incrivel-contrario-ao-que-se-espera" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Uma afirmação que revela um paradoxo. Paradoxo &#8211; do Latim PARADOXUM, do Grego PARADOXOS, significa “incrível, contrário ao que se espera”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É por este motivo e, sobretudo, por esta frase, que este filme pareceu-me muito apropriado para tecer aqui neste ensaio algumas reflexões sobre a natureza do amor, da paixão e da existência humana, à luz da psicologia analítica de Carl Gustav Jung.</p>



<h2 id="h-a-arte-e-a-vida-simbolica" class="wp-block-heading" style="font-size:21px"><strong>A arte e a vida simbólica</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A história do filme se passa nos anos 1960, em Iowa, EUA, onde vivem Francesca Johnson, seu marido Richard e seus filhos adolescentes Michael e Carolyn. Francesca, italiana da pequena cidade de Bari, casa-se com Richard após a 2a. Guerra Mundial e muda-se para os EUA em busca do sonho da liberdade e do novo então prometidos pela ideia de “ir para a America”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A vida deles, no entanto, na zona rural de Iowa, gira em torno da criação de novilhos, da agricultura e da pacata relação com a comunidade e com outras famílias vizinhas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Até o momento em que Robert Kincaid, um fotógrafo da National Geographic, chega na cidade para fotografar as pontes do condado de Madison, especialmente a Ponte Roseman. Francesca acaba sendo sua guia para encontrar a ponte pela primeira vez e este parece ser aquele acontecimento do destino, aparentemente casual, que se torna um divisor de águas na vida dos dois e, posteriormente, de toda a família de Francesca.</p>



<h2 id="h-vale-ampliarmos-simbolicamente-alguns-fatos-desta-rica-narrativa" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Vale ampliarmos simbolicamente alguns fatos desta rica narrativa.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando Robert e Francesca se encontram pela primeira vez, ele pede a ela indicações de como chegar à Ponte Roseman. É interessante notar como, em um primeiro momento, ela tem dificuldades em dar a ele as direções indicativas para a ponte, como se seu corpo soubesse chegar, mas ela não conseguisse expressar as orientações em palavras, racionalmente. Por causa disso, ela mesma se oferece para acompanhar Robert até o local, corpo a corpo junto com ele.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Uma curiosidade sobre a Ponte Roseman, é que está localizada sobre o Middle River (Rio do Meio, da Metade) e que ganhou fama como uma “ponte assombrada” em 1892 quando, um fugitivo da prisão do condado, prestes a ser pego pelas forças policiais que se aproximavam pelas duas extremidades da ponte, misteriosamente desapareceu após soltar um grito terrível e nunca mais foi encontrado, como se tivesse desaparecido no ar.</p>



<h2 id="h-o-lugar-carregado-de-misterio-que-marca-o-encontro-dos-dois-e-portanto-um-local-limiar-de-travessia-ao-mesmo-tempo-de-separacao-e-de-uniao-o-que-geralmente-esta-associado-simbolicamente-a-imagem-de-pontes" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">O lugar carregado de mistério que marca o encontro dos dois, é, portanto, <strong>um local limiar, de travessia</strong>, ao mesmo tempo de separação e de união, o que geralmente está associado simbolicamente à imagem de pontes.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Robert e Francesca saem então da “propriedade Richard Johnson” em direção à ponte. Neste exato momento parecem estar saindo também dos domínios do casamento tradicional. No trajeto até a ponte, Robert comenta sobre o “cheiro maravilhoso e único de Iowa”, relacionando-o à composição do solo, um “cheiro rico, de terra”, que Francesca não consegue sentir, mas que é distinto e especial para ele. <strong>O cheiro rico da terra, como símbolo do feminino, o inebria.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao longo do caminho eles descobrem que Robert conhece Bari, a pequena cidade onde Francesca nasceu. Ele conta que estava simplesmente de passagem por lá, pois iria pegar um barco para outro local, mas achou a cidade tão bonita que desceu do trem e ficou por uns dias. Ela, surpresa, pergunta: “você desceu do trem só porque era bonito? você desceu do trem e ficou lá sem conhecer ninguém?”. De alguma forma, esta atitude de Robert, livre, desprendida, sem planejamento e guiada pela experiência de beleza de um lugar toca Francesca profundamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O caminho até a ponte parece ser cada vez mais alvo das flechadas de Eros. Robert oferece-lhe cigarros e cerveja; ela os desfruta relaxadamente. O contato entre os dois vai despertando em Francesca seu próprio senso de humor e espontaneidade, libertando-a das convenções sociais impostas pela <em>persona</em> de esposa e mãe estadunidense dos anos 60. <strong>Algo genuíno nela vai encontrando brechas para se expressar.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O romance entre eles inevitavelmente se concretiza. E quando eles fazem amor pela primeira vez, Francesca lhe diz: &#8220;Me leve a algum lugar….agora….me leve a algum lugar onde você esteve.” Robert então relata suas aventuras pelo mundo como fotógrafo e ela viaja por meio dele, desbrava um mundo desconhecido através das histórias dele. Nas palavras de Francesca: “tudo o que eu pensava saber sobre mim foi embora. <strong>Eu estava agindo como uma outra mulher. Melhor, era eu mesma como nunca havia sido antes.</strong>”</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E quanto a Robert, apesar de ser apaixonado e obcecado por seu trabalho como fotógrafo, não se considerava um artista pois suas fotos para a National Geographic eram tecnicamente perfeitas, mas sem nenhum toque pessoal. Seus projetos autorais haviam sido negados por editores diversas vezes. E Francesca aparece-lhe como a mulher que diz: “talvez você tenha que se convencer primeiro (que é um artista). Talvez deva se perguntar a si mesmo por que é uma obsessão.” <strong>Ela o convida a entrar em contato com sua alma</strong>, a reconhecer o artista que nele vive.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim, vamos testemunhando, a cada cena do filme, um encontro romântico apaixonado como cenário para <strong>o real encontro dos dois personagens com suas partes desconhecidas e negligenciadas pelo ego</strong>, <em>anima</em> e <em>animus</em> como imagens da alma relacionando-se e <strong>proporcionando uma experiência da totalidade,</strong> do Si-mesmo, por isso tão intensa e especial. Uma experiência simbolicamente vivida em 4 dias, coincidentemente uma quaternidade, que, segundo Jung, é um símbolo da totalidade e desempenha um papel importante no mundo de imagens do inconsciente (Cf. JUNG, 2014, p. 425).</p>



<h2 id="h-esta-imagem-e-ao-mesmo-tempo-um-simbolo-de-quaternidade-que-psicologicamente-sempre-indica-o-proprio-si-mesmo-jung-2013-p-550" class="wp-block-heading is-style-large" style="font-size:18px"><em>Esta imagem é ao mesmo tempo um símbolo de quaternidade, que psicologicamente sempre indica o próprio si-mesmo. (JUNG, 2013, p. 550)</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Há várias referências no filme à relação do homem com a <em>anima</em> e ao encontro alquímico da <em>coniunctio</em>. Em uma cena em que ambos caminham à noite pelas redondezas da casa de Francesca, inebriado pela beleza do lugar, Robert cita os versos finais do poema “<strong>A Canção do Delirante Aengus</strong>” de W. B. Yeats, que ela também conhece, e que dizem “as maçãs prateadas da lua e as maçãs douradas do sol”:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Talvez eu esteja cansado de vagar em meus caminhos</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Por tantas terras cheias de cavernas e colinas,</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Eu vou encontrar o lugar para onde ela se foi,</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>E beijar seus lábios e segurar suas mãos;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Caminharemos entre coloridas folhagens,</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>E ficaremos juntos até o tempo do fim do tempo, colhendo</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>As prateadas maçãs da lua,</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>As douradas maçãs do sol.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No simbolismo da alquimia, a lua relacionada à prata e o sol relacionado ao ouro referem-se, dentre uma gama vastíssima e complexa de significados, aos princípios feminino e masculino da psique, cujo encontro integrador é a meta e a natureza do processo alquímico, da <em>opus</em>, representando a jornada da individuação.</p>



<h2 id="h-a-natureza-domina-a-natureza" class="wp-block-heading" style="font-size:21px"><strong>“A Natureza domina a Natureza”</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em certo ponto desta história, como na vida, o movimento enantiodrômico que visa sustentar a tensão entre os opostos, se impõe. Um belo dia, enquanto a dupla apaixonada almoçava tranquilamente, uma vizinha de Francesca chega inesperadamente e anuncia que o clima mágico deste encontro de imagens de alma não vai, ou melhor, não <strong>pode</strong> durar para sempre. <strong>Como se o âmbito concreto e limitado da consciência precisasse entrar em ação, de maneira compensatória, para que a maravilha numinosa do que eles viviam passasse a existir de alguma outra forma.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A narrativa do filme intercala as cenas de Francesca e Robert com as de seus filhos Michael e Carolyn lendo os diários de Francesca após a sua morte e se transformando a partir dos relatos da mãe. Michael, <strong>ainda conectado com seu complexo materno de forma visivelmente infantil</strong>, reconhece este fato conscientemente e toma uma atitude concreta em relação a seu próprio casamento, que era deixado em segundo plano em sua vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Já a filha Carolyn, através da história da mãe, reconecta-se com sua força interior, seu parceiro interior, que lhe dá coragem para terminar um casamento infeliz. É interessante a cena em que ela faz isso usando o vestido que a mãe usou em sua primeira noite de amor com Robert, e que Francesca considerava como sendo seu vestido de noiva. E assim Carolyn, <strong>casada com ela mesma</strong>, tem coragem para, amorosamente, telefonar ao marido e pedir-lhe o divórcio.</p>



<h2 id="h-paradoxo-a-condicao-para-a-vida" class="wp-block-heading" style="font-size:21px"><strong>Paradoxo: a condição para a vida</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No final da história, certamente indo contra as expectativas do grande público, Francesca não deixa a família e Robert parte sozinho. Os motivos desta decisão são contados pela própria Francesca: “Não me parece a coisa certa para ninguém. Richard não merece&#8230; ele não saberia viver fora daqui. E meus filhos…Carolyn só tem 16 anos, está na idade de descobrir as coisas, vai se apaixonar e tentar construir uma vida para alguém. Se eu partir, o que vai significar para ela?” <strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Um senso da concreta realidade humana, nua e crua</strong>, se apresenta na decisão de Francesca. Ela está profundamente apaixonada por Robert, sabe que esta experiência nunca mais se repetirá, no entanto, a responsabilidade por suas escolhas de vida a leva a prezar o futuro de sua família e seu marido, que a ama e a quem, certamente, ela ama também.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Apesar da dor, a separação de Francesca e Robert foi, paradoxalmente, <strong>a condição para que o amor que eles sentiam um pelo outro se transmutasse em toda a sua beleza e força</strong>. A determinação e a liberdade interior de Robert ficaram vivas dentro de Francesca, <strong>como parte dela</strong>, e possibilitaram que ela se dedicasse com amor à família e ao marido até sua morte. E a beleza, a poesia e a feminilidade da mulher italiana presentes em Francesca <strong>seguiram vivas nos trabalhos de Robert</strong> a partir de então, inspirando-o a publicar seu livro autoral de fotografias.</p>



<h2 id="h-o-que-francesca-e-robert-viveram-foi-tipicamente-humano-ao-superar-a-ordem-do-somente-humano-foi-uma-experiencia-do-encontro-divino-com-a-integralidade-de-cada-um-atraves-da-relacao-foi-um-exemplo-de-um-dos-raros-momentos-da-vida-em-que-somos-autorizados-pelos-deuses-a-adentrarmos-a-dimensao-divina-essa-autorizacao-no-entanto-nao-e-ampla-e-irrestrita" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">O que Francesca e Robert viveram foi tipicamente humano ao superar a ordem do “somente humano”. Foi <strong>uma experiência do encontro divino, com a integralidade de cada um, através da relação</strong>. Foi um exemplo de um dos raros momentos da vida em que somos “autorizados” pelos deuses a adentrarmos a dimensão divina. <strong>Essa autorização, no entanto, não é ampla e irrestrita</strong>. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nossa natureza humana exige que em algum momento inCORPOremos essa fagulha divina em nossa dimensão finita, restrita, mortal e essa incorporação é um sacrifício, é nosso recolhimento humilde de volta à nossa dimensão humana. Como escreveu Marie-Louise von Franz: “<em>se o poder e a paixão se detêm no nível concreto, querendo esta ou aquela coisa e são incapazes de sacrificar esse desejo, então essa mesma libido apaixonada, que é a base do processo de individuação, é enfraquecida, torna-se destrutiva e se destrói a si mesma</em>.” (VON FRANZ, 2022)</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"></blockquote>



<h2 id="h-von-franz-segue-nos-provocando-a-pensar-que-esta-dinamica-tem-natureza-de-sacrificio-para-nos-seres-humanos-mortais-mas-tambem-para-os-deuses-para-a-dimensao-arquetipica" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Von Franz segue nos provocando a pensar que esta dinâmica tem natureza de sacrifício para nós, seres humanos mortais, mas também para os deuses, para a dimensão arquetípica:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando a imagem arquetípica se acerca do campo da consciência, é para o ego uma condição de grande esclarecimento, um estado de exultação etc&#8230; mas para o pobre arquétipo é justamente o oposto, pois ele caiem algo muito pequeno e inadequado. Portanto, visto por um lado, é uma grande realização e, por outro, uma queda muito grave. (VON FRANZ, 2022)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em sua última noite juntos, Francesca diz a Robert: “Eu não imaginava que um amor assim aconteceria, e agora que aconteceu, quero mantê-lo para sempre, quero continuar amando você como eu amo agora para o resto da minha vida. <strong>O melhor que posso fazer é tentar nos guardar em algum lugar dentro de mim</strong>.”</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Final feliz?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Temos a tendência a fantasiar que se Francesca e Robert tivessem ficado juntos, teriam vivido “felizes para sempre” como nos contos de fada. Mas ouso dizer que, para que isso acontecesse, eles teriam que, em algum momento, libertar um ao outro de suas projeções, relacionando-se com o humano Robert e a humana Francesca, o que não acontece sem uma boa dose de frustração e dor. <strong>O amor entre humanos inteiros que não mais projetam suas imagens de alma nos parceiros também é real e belo, mas não é carregado da mesma característica numinosa.</strong></p>



<h2 id="h-jung-nos-diz-sobre-o-amor" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Jung nos diz sobre o amor:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Todo amor verdadeiro e profundo é um sacrifício. A gente sacrifica suas possibilidades, ou melhor, as ilusões de suas possibilidades. Se não houvesse necessidade desse sacrifício, nossas ilusões impediriam o surgimento do sentimento profundo e responsável e, com isso, ficaríamos privados também da possibilidade de experimentar o verdadeiro amor. (JUNG, 2013, p. 231)</p>
</blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“Assim como o fiel que se entrega todo a seu Deus participa da manifestação da graça divina, também o amor só revela seus mais altos segredos e maravilhas àquele que é capaz de entrega total e de fidelidade ao sentimento&#8230; Mas, por ser o amor devotado e fiel o mais belo, nunca se deveria procurar o que pode torná-lo fácil.” (JUNG, 2013, p. 232)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No caso deste filme, a experiência do verdadeiro amor estendeu-se sobre todos os personagens, não somente sobre Francesca e Robert. Certamente estendeu-se sobre mim também e tantos outros espectadores que se sentiram atravessados por esta trama arquetípica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Que possamos aprender com esta bela história que <strong>honrar a dimensão divina do amor e ser fiel ao próprio sentimento, é justamente aprender como vivê-lo sendo somente humano.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/veridiana-aleixo-de-moura-e-souza/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/veridiana-aleixo-de-moura-e-souza/">Veridiana Aleixo de Moura e Souza &#8211; Membro Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Analista Didata</a></strong></p>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">REFERÊNCIAS:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>Civilização em transição</em>. 6.ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em>. 11.ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Símbolos da Transformação</em>. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">VON FRANZ, Marie-Louise. <em>Alquimia: Uma Introdução ao Simbolismo e seu Significado na Psicologia de Carl G. Jung</em>. 1. ed. São Paulo: Pensamento-Cultrix, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>
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		<title>A Matrix e o arquétipo do iluminado</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-matrix-e-o-arquetipo-do-iluminado/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Lopes de Lima Salek]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Feb 2026 14:36:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filmes e Séries]]></category>
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		<category><![CDATA[simbolismo em Matrix]]></category>
		<category><![CDATA[Trinity]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Não basta perceber a Matrix, é necessário enxergá-la. Para tal, o indivíduo precisa enxergar a si mesmo, compreender quem ele é de fato. A clareza da visão interior transformará radicalmente a sua visão do mundo. Ele precisa se iluminar para trazer luz à humanidade que padece pelas trevas da ilusão coletiva. Este artigo analisa o arquétipo do iluminado a partir do filme Matrix, sucesso de bilheteria e de grande profundidade filosófica. Nele, o caminho do herói é demonstrado de forma bem elaborada, enquanto conversa com a individuação proposta por C. G. Jung e a sabedoria oriental.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo: </strong>Não basta perceber a <em>Matrix</em>, é necessário enxergá-la. Para tal, o indivíduo precisa enxergar a si mesmo, compreender quem ele é de fato. A clareza da visão interior transformará radicalmente a sua visão do mundo. Ele precisa se iluminar para trazer luz à humanidade que padece pelas trevas da ilusão coletiva. Este artigo analisa o arquétipo do iluminado a partir do filme <em>Matrix</em>, sucesso de bilheteria e de grande profundidade filosófica. Nele, o caminho do herói é demonstrado de forma bem elaborada, enquanto conversa com a individuação proposta por C. G. Jung e a sabedoria oriental.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Poucos filmes, na história, influenciaram tanto o imaginário coletivo quanto <strong>Matrix</strong>. Lançado em 1999, o filme foi o primeiro de uma trilogia e é considerado por muitos não apenas o melhor dentre os três, mas também uma obra-prima atemporal. Na verdade, podemos dizer ainda que é um filme a cada dia mais atual, por mais estranho que pareça. O crescente interesse pelo autoconhecimento e a insatisfação com o sistema político-econômico vigente a cada dia mais acirrada produzem interpretações que se aprofundam com o passar dos anos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-veus-da-ilusao" style="font-size:19px"><strong>Os véus da ilusão</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em <strong>Matrix</strong>, os seres humanos vivem em uma realidade virtual que simula a vida real. Ela é tão realista que a esmagadora maioria nem sequer desconfia de que vivem uma vida ilusória. A pergunta que surge é: será que a nossa vida é tão diferente assim?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Na filosofia védica há um conceito chamado de <em>Véu de Maya</em>, que se refere à nossa incapacidade de enxergar a realidade do mundo. Esse véu que cobre nossos olhos, na realidade, é de natureza espiritual e, portanto, nos impede de enxergar a nossa própria natureza, de descobrir quem realmente somos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Mas o que acontece quando alguém desconfia da realidade das coisas? O que acontece quando se tenta enxergar por detrás do véu? No filme, muitos personagens desconfiaram e então despertaram para a vida real, com a ajuda de outros já despertos. A realidade dura de um mundo controlado pelas máquinas é o preço a ser pago pela liberdade. Para agravar a angústia, a humanidade se encontra escravizada e em sono profundo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nas-palavras-de-morpheus-para-neo-assim-como-todo-mundo-voce-nasceu-em-um-cativeiro-preso-em-uma-cela-que-voce-nao-pode-sentir-provar-ou-tocar-uma-prisao-para-sua-mente-matrix-1999" style="font-size:19px">Nas palavras de Morpheus para Neo: “<em>Assim como todo mundo, você nasceu em um cativeiro, preso em uma cela que você não pode sentir, provar ou tocar. Uma prisão para sua mente</em>” (MATRIX, 1999).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Quando Carl Gustav Jung aborda essa busca pela natureza da alma, o centro da psique, ele explica que o ego passa a ocupar uma posição periférica, ou seja, não tão importante na percepção da própria identidade (Cf. JUNG, 2013a, p. 68-9). É o que acontece quando Neo descobre que vivia na <em>Matrix</em> e quase nada do que vivera antes poderia definir quem ele era, pois vivera uma vida fictícia até então. Isso é ilustrado pela cena em que ele volta para a <em>Matrix</em> pela primeira vez após o despertar e vê o restaurante que costumava frequentar, com certa melancolia, pois percebe que ele próprio já não é o mesmo e nenhuma daquelas lembranças realmente aconteceu.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-segue-entao-para-o-questionamento-do-que-e-ilusao-visto-que-ainda-se-costuma-considerar-os-fatores-inconscientes-como-ilusorios-e-a-vida-consciente-como-realidade" style="font-size:19px"><strong>Jung segue, então, para o questionamento do que é ilusão, visto que ainda se costuma considerar os fatores inconscientes como ilusórios e a vida consciente como realidade:</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>“Será que existe algo dentro da alma que possa ser chamado de “ilusão”? Quem sabe se essa ilusão é para a alma a forma mais importante e indispensável de vida, como o oxigênio para o organismo? Aquilo que chamamos de “ilusão” é, talvez, uma realidade psíquica de suprema importância.” (JUNG, 2013a, p. 68)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Já sobre o mundo externo do consciente ele diz que, “infelizmente, hoje ainda se costuma dogmatizar, como se aquilo que chamamos de realidade também não fosse ilusório” (JUNG, 2013a, p. 69). Morpheus também levanta essa questão ao responder sobre a realidade virtual:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>“O que é real? Como você define o &#8216;real&#8217;? Se você está falando sobre o que você pode sentir, o que você pode cheirar, o que você pode saborear e ver, o real são simplesmente sinais elétricos interpretados pelo seu cérebro” (MATRIX, 1999).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Portanto, a ilusão é um fator psíquico que nos atinge a todos, logo arquetípico, e nos ludibria desde a infância sobre a realidade do mundo e de nós mesmos sem que a grande maioria desconfie. Para Jung (2015, p. 18), “é um fator inconsciente que trama as ilusões que encobrem o mundo e o próprio sujeito”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No filme, esse fator inconsciente é evidente, uma vez que as pessoas estão literalmente dormindo e o sonho, que é a própria <em>Matrix</em>, é gerenciado pelas máquinas para manter a humanidade sob controle. Essa metáfora nos faz pensar o quanto estamos sonhando, inconscientes de nós mesmos e do controle imposto por aqueles que detém o poder. Quem são as “máquinas” desse mundo “real” que forçam a humanidade ao consumismo, à competição, à normalização da miséria, da violência e da desigualdade social? Essas ferramentas de controle não só nos distraem da busca pelos caminhos de libertação, como ainda nos transformam em defensores da ordem estabelecida. Nas palavras de Morpheus: </p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>“Você precisa entender, a maioria dessas pessoas não está preparada para ser desplugada. E muitas delas estão tão inertes, tão desesperançosamente dependentes do sistema, que irão lutar para protegê-lo” (MATRIX, 1999).</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-arquetipo-do-iluminado" style="font-size:19px"><strong>O arquétipo do iluminado</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Vale ressaltar que essa relação com o sistema é inconsciente e acontece porque o indivíduo se identifica intensamente com ele. Isso faz com que enxergue a realidade através da ótica desse sistema, que traz consigo toda uma carga histórico-cultural de certo e errado, de comportamento, de moralidade, de relação interpessoal e com a natureza. Mesmo aqueles com algum senso crítico não são capazes de enxergar a si próprios separados dessa simulação construída.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Pela visão da psicologia analítica, o indivíduo se identifica com o sistema porque, primeiramente, ele se identifica com a <em>persona</em>. Ele acredita que a sua própria identidade é essa “máscara” que foi forjada pela sociedade e para a sociedade. Ele olha no espelho e acredita que aquilo é tudo que ele é. Por isso, o caminho que leva à iluminação passa pelo abandono dos apegos quanto a essas falsas noções de identidade, tanto pessoais quanto coletivas. Segundo Jung (2014, p. 68), “a meta da individuação não é outra senão a de despojar o si-mesmo dos invólucros falsos da persona, assim como do poder sugestivo das imagens primordiais”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-desapego-e-iluminacao-alan-watts-explica" style="font-size:19px">Sobre desapego e iluminação Alan Watts explica:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>“Desapego significa não ter arrependimentos pelo passado nem temores pelo futuro; significa deixar a vida seguir seu curso sem tentar interferir em seu movimento e mudança, sem tentar prolongar o estado de coisas agradáveis nem acelerar a partida de coisas desagradáveis. Fazer isso é seguir o ritmo da vida, estar em perfeita harmonia com sua constante mudança, e a isso se dá o nome de Iluminação. Em resumo, é desapegar-se do passado e do futuro e viver no eterno Agora.” (WATTS, 2020, p. 23)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Já o protagonista possui uma profunda falta de pertencimento em relação à <em>Matrix</em>. Ele não se identifica com aquele mundo e sente uma estranheza que não é capaz de explicar. Vive uma vida dupla: por um lado é um funcionário de uma respeitada empresa, por outro é um hacker famoso, como forma de rebeldia. Essa vida de hacker parece uma tentativa de viver uma vida mais real por detrás da máscara social. Mas, ainda sim, por mais que se aproxime um pouco de quem ele realmente é, continua sendo uma <em>persona</em> que pertence à <em>Matrix</em>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nas-palavras-de-trinity-a-matrix-nao-pode-lhe-dizer-quem-voce-e-matrix-1999" style="font-size:19px">Nas palavras de Trinity: “A Matrix não pode lhe dizer quem você é” (MATRIX, 1999).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Com esse importante desconforto, o caminho do herói de Neo se inicia. Ele representa o novo, a possibilidade de uma nova era de paz para a humanidade, o arquétipo do redentor. Desde o início dessa jornada, Morpheus deixa claro que acredita ser ele o Escolhido, aquele que libertará a humanidade do jugo das máquinas: um peso enorme para alguém que ainda está tentando entender onde está, quem é e o que é real.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-com-isso-a-caminhada-comeca-cheia-de-duvidas-e-crises" style="font-size:19px">Com isso, a caminhada começa cheia de dúvidas e crises.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No primeiro contato entre os dois, Neo se vê em uma situação perigosa em que precisa tentar escapar dos agentes e, então, se desespera: “<strong><em>Isso é loucura! Por quê está acontecendo comigo? O que eu fiz? Eu não sou ninguém. Eu não fiz nada. Eu vou morrer</em></strong>” (MATRIX, 1999).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em outro momento decisivo de dúvida em que Neo pensa em desistir, Trinity pede que ele confie nela. Quando ele pergunta o porquê, ela responde: “<strong><em>Porque você já esteve lá. Você conhece essa rua. Você sabe exatamente onde ela termina. E eu sei que não é onde você quer estar</em></strong>” (MATRIX, 1999).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A crise final se expressa em total desespero ao ser informado sobre do que se trata a <em>Matrix</em> de fato e qual a verdadeira situação atual da humanidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-heroi-sente-o-peso-de-sua-responsabilidade" style="font-size:19px"><em>O herói sente o peso de sua responsabilidade.</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A partir desse momento, Neo se resigna e começa a buscar autoconhecimento e contribuir com seus parceiros. Ele está pronto para seguir seu destino, mesmo não acreditando nele. A conversa com o Oráculo o deixa convicto de não ser o Escolhido. Mais adiante, ele decide sacrificar a própria vida para salvar a de Morpheus. Ele sabia que morreria. Por pensar que não era o Escolhido, ele agiu como tal: salvou seu mestre, fez o que ninguém pensaria em fazer, agiu heroicamente. Seu altruísmo e sua capacidade de ação acima da média foram revelados. Ainda sim ele morreu, como previsto pelo Oráculo, mas ressuscitou de forma inesperada.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Morpheus tinha certeza de que Neo era o Escolhido, mas assim como todos os outros não fazia ideia de que forma isso se revelaria. Como mestre, ele só poderia mostrar o caminho: “<strong><em>Estou tentando libertar sua mente, Neo. Mas eu só posso lhe mostrar a porta. É você quem tem que atravessá-la</em></strong>” (MATRIX, 1999).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Só uma coisa seria capaz de dar a certeza que o protagonista precisava para renascer e assumir o seu papel na existência: o armor. Quando Trinity o beija e releva seu amor, toda dúvida desaparece. O amor é a força mais poderosa do universo e não deixa espaço para dúvidas. Tudo se encaixou, de repente, e as palavras do Oráculo fizeram sentido: “<strong><em>Ser o Escolhido é como estar apaixonado. Ninguém pode lhe dizer que você está apaixonado. Você apenas sabe</em></strong>” (MATRIX, 1999).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-apos-a-duvida-e-o-altruismo-a-terceira-fase-da-jornada-chega-de-maneira-arrebatadora-a-certeza" style="font-size:19px">Após a dúvida e o altruísmo, a terceira fase da jornada chega de maneira arrebatadora: a certeza.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Neo se levanta e tem agora certeza de quem ele é. Ser o Escolhido era só uma ideia. Agora, ele enxerga sua própria natureza espiritual e, da mesma forma, enxerga a <em>Matrix</em> exatamente como ela é, com todos seus códigos e programações. Ele se iluminou e, como é dito sobre os iluminados, possui domínio sobre a natureza e sua vontade se manifesta no mundo. Com isso, ele derrota facilmente os agentes, que nada mais são do que programas de inteligência artificial. Essa experiência transformadora foi destacada por Jung como de grande importância:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>“Experimentar e vivenciar esse si mesmo é a meta mais nobre da ioga indiana. Por este motivo, será bom para a psicologia do si mesmo que nos familiarizemos com os tesouros do saber indiano. Tanto aqui como na Índia, a experiência do si mesmo nada tem a ver com intelectualismo, mas é uma experiência vital e profundamente transformadora. O processo que conduz a ela foi por mim denominado processo de individuação.” (JUNG, 2013a, p. 129)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O arquétipo do iluminado é, em grande parte, uma herança do Oriente. Algumas tradições espirituais como o budismo, o taoísmo e o hinduísmo, em suas múltiplas vertentes, há milênios cultuam a figura do iluminado como modelo de perfeição humana e guia para todos aqueles que desejam sinceramente conhecer a si próprios. Suas histórias e vivências deram origem a livros sagrados, contos mitológicos, doutrinas religiosas e, principalmente, a fé de que o potencial da iluminação espiritual reside na alma de cada ser humano.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-swami-abhedananda-os-iogues-da-india-sao-um-bom-exemplo-do-que-estamos-tratando" style="font-size:19px">Para Swami Abhedananda, os iogues da Índia são um bom exemplo do que estamos tratando:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>“Desde os tempos antigos, houve muitos desses verdadeiros yogues na Índia e em outros países. As descrições de suas vidas e ações são, além disso, tão notáveis e autênticas quanto a vida e os atos daquele ilustre Filho do Homem, que pregou na Galileia há quase dois mil anos. Os poderes e as obras deste pacifico, gentil e abnegado homem divino, que é reverenciado em toda a cristandade como a encarnação ideal de Deus e o Salvador da humanidade, provaram que era um tipo perfeito de quem é chamado na Índia de verdadeiro yogue.” (ABHEDANANDA, 2024, p. 78)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-tambem-se-utiliza-da-figura-de-jesus-para-relacionar-a-alma-humana-com-o-brilho-dos-iluminados" style="font-size:19px"><strong>Jung também se utiliza da figura de Jesus para relacionar a alma humana com o brilho dos iluminados:</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>“No que precede, tentei mostrar em que espécie de matrix (matriz) a figura de Cristo foi recebida ao longo dos séculos. Se não houvesse uma afinidade (“magneto”!) entre a figura do Redentor e certos conteúdos do inconsciente, jamais uma mente humana teria podido enxergar a luz em Cristo e abraçá-la com toda a intensidade do coração. O elo entre os dois é o arquétipo do Homem-Deus; de um lado, este tornou-se realidade histórica em Cristo, e, de outro, domina a alma na sua condição de existente “eterno”, como totalidade superior, o si-mesmo.” (JUNG, 2015, p. 251)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-iluminado-volta-para-a-matrix" style="font-size:19px"><strong>O iluminado volta para a <em>Matrix</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No filme, Neo incorpora esse Homem-Deus, representado especialmente pela última cena, em que ele voa pelos céus afora, simbolizando a liberdade total, que é a grande promessa da iluminação (<em>moksha</em> na ioga). Para isso ser possível, muitos personagens cumpriram seu papel na trama, principalmente Morpheus como seu mestre ou guru (como é chamado na Índia). Figura essencial no Oriente, ele é aquele que aponta o caminho e transmite confiança ao discípulo. O profundo respeito de Neo por ele o colocou diante do enfrentamento final: a sombra coletiva, representada pelos agentes. Cada ser humano inconsciente é um agente em potencial, capaz de exercer um poder destrutivo e controlador na sociedade. Sozinho, diante de seus maiores medos, Neo descobre que o verdadeiro mestre está dentro dele mesmo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-de-acordo-com-jung-2013b-p-202-esse-mestre-que-lhe-e-superior-nao-e-outra-coisa-senao-o-si-mesmo" style="font-size:19px">De acordo com Jung (2013b, p. 202), “<em>esse mestre que lhe é superior não é outra coisa senão o si-mesmo.</em>”</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essa cena do vôo demonstra, também, que o protagonista permaneceu na <em>Matrix</em>. Ele agora se sente completamente à vontade nela e já não tem porque fugir. O que era um incômodo inconsciente, passou a ser uma aversão consciente, até se transformar em paz supraconsciente. No budismo, existe um antigo ditado que diz:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>“Para aquele que nada sabe sobre o budismo, montanhas são montanhas, águas são águas e árvores são árvores. Depois de ler as escrituras e compreender um pouco da doutrina, as montanhas para ele não são mais montanhas, as águas não são mais águas e as árvores não são mais árvores. Mas quando ele está completamente iluminado, então as montanhas são outra vez montanhas, as águas, águas e as árvores, árvores.” (WATTS, 2020, p. 146-7)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Porém, a permanência de Neo não está ligada apenas a como ele se sente em relação a si mesmo, mas também em relação à humanidade. A iluminação não tem propósito egoísta, pelo contrário, é uma desidentificação com ego e uma síntese do eu com o inconsciente coletivo (JUNG, 2013b, p. 127). Ele se iluminou pelo amor e para o amor. O iluminado se sente um com a humanidade e com a própria <em>Matrix</em>, portanto continua no mundo com um grande propósito: servir.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-aborda-esse-tema-ao-comparar-individualismo-com-individuacao" style="font-size:19px">Jung aborda esse tema ao comparar individualismo com individuação:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>“Contrapondo-se a isso, o processo da individuação natural produz uma consciência do que seja a comunidade humana, porque traz justamente à consciência o inconsciente, que é o que une todos os homens e é comum a todos os homens. A individuação é o “tornar-se um” consigo mesmo, e ao mesmo tempo com a humanidade toda, em que também nos incluímos.” (JUNG, 2013a, p. 137)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Por fim, gostaria de destacar que, por mais misteriosa que seja a experiência da iluminação, é uma experiência fundamentalmente humana. Neo é o novo eu que anseia nascer em cada um de nós. O <em>Self</em> não é exclusivo dos escolhidos, mas herança psíquica de toda a humanidade. Jung deixa isso claro quando comenta sobre o satori, como é chamada a iluminação no Budismo Zen:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>“Não tenho dúvidas de que a experiência do satori ocorra também no Ocidente, pois entre nós existem igualmente pessoas que entreveem finalidades últimas e não recuam diante de nenhuma fadiga ou trabalho para se aproximarem delas. Mas se calam a respeito das próprias experiências, não por pudor, mas porque estão conscientes de que é inútil qualquer tentativa de comunicá-las aos outros.” (JUNG, 2013c, p. 105)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Leonardo Salek &#8211; Membro Analista em formação pelo IJEP</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">ABHEDANANDA, Swami. <em>Como tornar-se yogue.</em> São Paulo: Ajna, 2024. E-book.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>A prática da psicoterapia.</em> Petrópolis: Vozes, 2013a. E-book.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Ab-reação, análise dos sonhos e transferência.</em> Petrópolis: Vozes, 2013b. E-book.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Psicologia e religião oriental.</em> Petrópolis: Vozes, 2013c. E-book.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>O eu e o inconsciente.</em> Petrópolis: Vozes, 2014. E-book.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Aion.</em> Petrópolis: Vozes, 2015. E-book.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WATTS, Alan. <em>Torne-se o que você é.</em> Petrópolis: Vozes, 2020. E-book.</p>



<figure class="wp-block-image size-full is-resized"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="960" height="540" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Pos-graduacoes-IJEP-1-2.png" alt="" class="wp-image-11905" style="width:640px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Pos-graduacoes-IJEP-1-2.png 960w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Pos-graduacoes-IJEP-1-2-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Pos-graduacoes-IJEP-1-2-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Pos-graduacoes-IJEP-1-2-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Pos-graduacoes-IJEP-1-2-450x253.png 450w" sizes="(max-width: 960px) 100vw, 960px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Matrículas abertas: <a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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			</item>
		<item>
		<title>A humanização dos vilões</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-humanizacao-dos-viloes/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Barbara Pessanha]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Aug 2021 19:47:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filmes e Séries]]></category>
		<category><![CDATA[filme]]></category>
		<category><![CDATA[vilões]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=5935</guid>

					<description><![CDATA[<p>A humanização dos vilões Só um homem infantil é capaz de pensar que o mal não está presente sempre e em toda parte, e quanto mais inconsciente estiver disto, tanto mais o diabo lhe subirá na garupa. &#160;JUNG, 2012b, §255 Ao nos apresentar&#160;Descendentes, Malévola, Malévola: a dona do mal&#160;e agora, mais recente&#160;Cruella, podemos vislumbrar uma [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>A humanização dos vilões</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Só um homem infantil é capaz de pensar que o mal não está presente sempre e em toda parte, e quanto mais inconsciente estiver disto, tanto mais o diabo lhe subirá na garupa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;JUNG, 2012b, §255</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao nos apresentar&nbsp;<em>Descendentes, Malévola, Malévola: a dona do mal</em>&nbsp;e agora, mais recente&nbsp;<em>Cruella</em>, podemos vislumbrar uma releitura do que torna os nossos vilões infantis perversos. As gerações anteriores ao ano de 2010 viveram muito forte a dicotomia dos contos infantis que separavam o bem do mal, como se isso fosse “óbvio” ou até mesmo o jeito de como as coisas funcionavam. Os contos, os mitos, as fábulas vêm conversar através destes conteúdos inconscientes com a nossa consciência, mas apesar da dicotomia o ser humano é plural e o mal existe dentro de nós, e olhar do lado de fora, como algo que não nos pertence parece ajudar nosso ego a entender que estamos do lado certo. E se essa ideia de lado certo não existe? Quantas possibilidades se abrem? Este presente artigo visa abordar a humanização dos vilões da Disney, e trazer a reflexão e ampliação a subjetividade do que é o bem e o mal a luz da psicologia analítica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com gosto “adultescente” para filmes &#8211; e filhos pequenos, o que ajuda a estar em dia com as películas da Disney, Pixar e afins &#8211; pude observar junto com a construção do meu conhecimento da obra junguiana, uma redenção dos personagens que eram odiados e temidos na minha mais tenra infância. Não esqueço minha compaixão por&nbsp;<em>Malévola</em>, o filme anterior, ao ser enganada e ter suas lindas asas cortadas, achei que ela fez pouco ao se vingar de rei tão infame e mentiroso. Agora, olhando por uma perspectiva menos passional e mais analítica pude reavaliar, a partir dos textos da obra de Jung, que essa dualidade esteve no cerne da fundamentação da sua obra. Negar o mal em mim, ver o mal no outro e entender que o mal é a ausência do bem e que tudo isso vive de forma inerente e simultânea em todos os âmbitos da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se entendemos, então, que o mal habita a natureza humana independentemente da nossa vontade e que ele não pode ser evitado, o mal entra na cena psicológica como o lado oposto e inevitável do bem. Essa compreensão nos leva de imediato ao dualismo que, de maneira inconsciente, encontra-se prefigurado na cisão política do mundo e na dissociação do homem moderno. &nbsp;JUNG, 2012b, §573</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Cruella De Vill é uma mulher que é gananciosa, ambiciosa e cruel. Como se precisasse devorar tudo a sua volta e ser a única pessoa a ser nutrida, nem que isso custe a pele de cãezinhos fofos e bonzinhos. Mas, quando olhamos a nova narrativa feita no filme&nbsp;<em>Cruella</em>&nbsp;que conta como se construiu essa persona tão megalômana e egocêntrica pela morte violenta da mãe adotiva amorosa e, pela descoberta da mãe biológica perversa, essa falta de amor materno e a desnutrição de afeto torna-se realidade. Jung traz: “Uma vez que ninguém pode sair da própria pele e abandonar a si mesmo, o mal que se encontra por toda parte é o mal de si mesmo.” (JUNG, 2012d, §417). Como a dor de se perceber rejeitada promove um complexo de abandono e a coloca à disposição da vingança, nem que isso a torne “má”, o custo de aceitar sua história é se submeter a vontade do que falta numa tentativa desvairada de preenchimento. Quando depuramos sua dor, por um olhar terceirizado e analítico, podemos justificar suas reações mesmo que suas ações sejam condenáveis.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje, como em todas as épocas, é necessário que o homem não feche os olhos para o perigo do mal que está à espreita dentro dele mesmo. Infelizmente este perigo é demasiado real, e por isto a psicologia deve insistir na realidade do mal e refutar qualquer definição que deseje conceber o mal como algo sem importância ou mesmo como não existente. A psicologia é uma ciência experimental que lida com coisas reais.&nbsp; JUNG, 2012b, §98</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entender que projetar o mal no mundo não elimina o mal em nós, talvez seja a maior reflexão e paradoxo dentro da visão ocidentalizada que achando que só pensar no bem, no belo, e promover a bondade eliminamos a maldade que existe internamente. Não é real, não é compatível com a humanidade essa dissociação, somos paradoxais e complexos, vivemos o bem e o mal dentro de nós e o mundo reflete nossa luz e ao mesmo tempo nossa sombra.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Não se deve esquecer que os contrários só chegam à exacerbação moral na esfera do querer e do agir humanos, e que não estamos capacitados para dar uma definição do bem e do mal em tudo e por tudo universalmente válida, o que significa, em última análise, que ignoramos simplesmente o que são o mal e o bem em si.” (JUNG, 2012b, §423)&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que nos deixa indignados e incrédulos é o que não conseguimos estruturar e entender onde o mal habita dentro de nós. Quando as histórias são contadas e vilões de contos e histórias que nos habitam são ponderadas e humanizadas entendemos que, realmente “[&#8230;] estamos falando concretamente de algo cuja qualidade mais profunda não conhecemos realmente. Depende do critério subjetivo algo a ser vivenciado como mau ou culposo, bem como a magnitude e gravidade da culpa.” (JUNG, 2012e, §860).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A subjetividade que essas produções nos trazem são muito ricas, não só para a psique infantil, como para alcançar um público mais diversificado com a exposição e ampliação da obra junguiana, o paradoxal normalmente é colocado como absurdo, mas quando nos aprofundamos na psique podemos vivenciar que o contraditório vive em nós e isso não é absurdo nenhum. O bem e o mal: “são em si princípios; e princípios existem bem antes de nós e perdurarão depois de nós.” (JUNG, 2012e, §859). O que é vivido dentro de um determinado tempo e lugar vai ser um direcionador moral para esses princípios. Não são apenas juízos de valor interno que permitem a classificação bom e mal, mas sim a cultura, a religião, e tudo que engloba viver o aqui e agora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em&nbsp;<em>Descendentes</em>, vemos a herança “maldita” dos filhos dos vilões dos contos da Disney e a busca de redenção a partir de um movimento, que num primeiro momento a intenção é a destruição dos bonzinhos, mas durante o andamento da história vemos que a pluralidade existe em todos eles, nos filhos dos príncipes e princesas e nos filhos dos vilões. E, podemos entender a partir de Jung que “a psicologia ignora o que é bom e o que é mau em si mesmo. Ela só conhece estas coisas como juízos de relação: bom é o que parece conveniente, aceitável ou valioso sob um certo ponto de vista; mau é o inverso disto.” (JUNG, 2012b, §97). Abrandamos nossa crítica com os maus quando podemos olhar a humanidade, e tornamo-nos monstros quando recebemos uma descrição de algo distante do que consideramos humano, o humano é o que transita na dualidade bem e mal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não se deve esquecer que os contrários só chegam à exacerbação moral na esfera do querer e do agir humanos, e que não estamos capacitados para dar uma definição do bem e do mal em tudo e por tudo universalmente válida, o que significa, em última análise, que ignoramos simplesmente o que são o mal e o bem em si. &nbsp;JUNG, 2012b, §423</p>



<p class="wp-block-paragraph">A dualidade é muito visível em&nbsp;<em>Malévola: a dona do Mal</em>, esse filme aborda sob uma perspectiva de luz e sombra como as “aparências” enganam e, nos submetemos a julgos que não são nossos e colocamos em prática aquilo que nos foi passado a revelia do que seria bom ou mal. Ouvir atentamente aquilo que nos guia a um proposito está diretamente ligado as crenças que são herdadas por aqueles que vieram antes de nós e com aquilo que dá alma a nossa jornada. Assim, “a melhoria de um mal generalizado começa pelo indivíduo, e isto só quando este se responsabiliza por si mesmo, sem culpar o outro.” (JUNG, 2012a, §618)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Provavelmente vivemos numa época de despertar, não é um acordar, mas despertar. Ter a possibilidade de olhar versões de narrativas que são centenárias ou milenares sob uma perspectiva de que a verdade não é alguma coisa sólida, e sim, uma perspectiva subjetiva de algo que foi percebido e relatado por alguém, e que esse alguém carrega consigo uma história e compreensões de uma realidade subjetiva e única. Carl Gustav Jung sempre celebrou o ser humano como fenômeno e quando entendemos que o bem e o mal nos habitam, a revelia de querermos ou não, a caminhada fica menos densa, podemos ampliar visões e tentar caminhar por um viés que consideramos moralmente honesto com nossa natureza.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O inconsciente coletivo é tudo, menos um sistema pessoal encapsulado, é objetividade ampla como o mundo e aberta ao mundo. Eu sou o objeto de todos os sujeitos, numa total inversão de minha consciência habitual, em que sempre sou sujeito que tem objetos. Lá eu estou na mais direta ligação com o mundo, de forma que facilmente esqueço quem sou na realidade. “Perdido em si mesmo” é uma boa expressão para caracterizar este estado. Este si-mesmo, porém, é o mundo, ou melhor, um mundo, se uma consciência pudesse vê-lo. Por isso, devemos saber quem somos. &nbsp;JUNG, 2012a, §46</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estamos imersos no inconsciente coletivo e quando produções cinematográficas nos trazem produções que fazem uma releitura ou uma reavaliação de determinada história é trazido ao pensador comum uma imagem, a coletividade é exposta ao heterogêneo, e somos obrigados a pensar o que nos é divergente. Conteúdos novos com imagens que atingem a humanidade hoje, mais do que nunca, chegam de maneira global, e assim, podemos a partir da comunicação do cinema construir novos enredos que tragam amplitude e integralidade a nossa visão de mundo. Pois achamos que sabemos definir o mal, o mal é aquilo que não nos habita, só pertence ao outro mas Jung já alertava: “Donde nos vem a crença, esta aparente certeza de que conhecemos o bem e o mal? “Sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal”. Só os deuses o sabem, nós não.” (JUNG, 2012e, §862)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bárbara Pessanha, Membro Analista em formação do IJEP-RJ</p>



<p class="wp-block-paragraph">E. Simone D. Magaldi membro didáta do IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<strong>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</strong>. ed. Petrópolis: Vozes, 2012a. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 9/1).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<strong>Aion</strong>. ed. Petrópolis: Vozes, 2012b. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 9/2).</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<strong>Presente e Futuro</strong>. ed. Petrópolis: Vozes, 2012c. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 10/1).</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<strong>Aspectos do Drama Contemporâneo</strong>. ed. Petrópolis: Vozes, 2012d. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 10/1).</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<strong>Civilização em Transição</strong>. ed. Petrópolis: Vozes, 2012e. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 10/3).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Filmes:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Malévola</strong>,&nbsp;2014&nbsp;‧&nbsp;<a href="https://www.google.com/search?sxsrf=ALeKk01qMFHF1CHzCOAMKeLXLbuUcol6UQ:1629295186847&amp;q=mal%C3%A9vola+diretor&amp;stick=H4sIAAAAAAAAAOPgE-LSz9U3yDYoKbQ01xLLTrbST8vMyQUTVimZRanJJflFi1gFcxNzDq8sy89JVAAJAsUAY88T_zoAAAA&amp;sa=X&amp;ved=2ahUKEwjg6OHG3bryAhUOHbkGHS-bAysQ6BMoADAtegQIQxAC">Diretor</a>:&nbsp;<a href="https://www.google.com/search?sxsrf=ALeKk01qMFHF1CHzCOAMKeLXLbuUcol6UQ:1629295186847&amp;q=Robert+Stromberg&amp;stick=H4sIAAAAAAAAAOPgE-LSz9U3yDYoKbQ0VwKzLXKNiy1ztcSyk6300zJzcsGEVUpmUWpySX7RIlaBoPyk1KISheCSovxcICt9BysjAHycswpIAAAA&amp;sa=X&amp;ved=2ahUKEwjg6OHG3bryAhUOHbkGHS-bAysQmxMoATAtegQIQxAD">Robert Stromberg</a>.&nbsp;Walt Disney Pictures</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Descendentes</strong>, 2015.&nbsp;<a href="https://www.google.com/search?sxsrf=ALeKk000HHdl2PMtSP_goY0F-IJIwMtCAQ:1629295429884&amp;q=descendants+diretor&amp;stick=H4sIAAAAAAAAAOPgE-LWz9U3MDRIt8wwTtcSy0620k_LzMkFE1YpmUWpySX5RYtYhVNSi5NT81IS80qKFUDCQFEAN9P93D0AAAA&amp;sa=X&amp;ved=2ahUKEwiF79O63rryAhUlqJUCHXPEBmYQ6BMoADAxegQIWhAC">Diretor</a>:&nbsp;<a href="https://www.google.com/search?sxsrf=ALeKk000HHdl2PMtSP_goY0F-IJIwMtCAQ:1629295429884&amp;q=Kenny+Ortega&amp;stick=H4sIAAAAAAAAAOPgE-LWz9U3MDRIt8wwTlfiBHGSDC3NzLXEspOt9NMyc3LBhFVKZlFqckl-0SJWHu_UvLxKBf-iktT0xB2sjAAYZumkRAAAAA&amp;sa=X&amp;ved=2ahUKEwiF79O63rryAhUlqJUCHXPEBmYQmxMoATAxegQIWhAD">Kenny Ortega</a>. Disney Channel Original Production</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Malévola: Dona do Mal</strong>, 2019.&nbsp;<a href="https://www.google.com/search?sxsrf=ALeKk01w6m5NQak3FCHUDa9Qe8Ol91LMTQ:1629295276097&amp;q=mal%C3%A9vola+2+diretor&amp;stick=H4sIAAAAAAAAAOPgE-LVT9c3NEwzMzEvryiq1BLLTrbST8vMyQUTVimZRanJJflFi1iFcxNzDq8sy89JVDBSAAkDRQELUiqmPwAAAA&amp;sa=X&amp;ved=2ahUKEwjntqnx3bryAhU1CrkGHQpRCAIQ6BMoADAtegQITBAC">Diretor</a>:&nbsp;<a href="https://www.google.com/search?sxsrf=ALeKk01w6m5NQak3FCHUDa9Qe8Ol91LMTQ:1629295276097&amp;q=Joachim+R%C3%B8nning&amp;stick=H4sIAAAAAAAAAOPgE-LVT9c3NEwzMzEvryiqVOLSz9U3MDI3NU3O0xLLTrbST8vMyQUTVimZRanJJflFi1gFvPITkzMycxWCDu_Iy8vMS9_ByggAowmybUsAAAA&amp;sa=X&amp;ved=2ahUKEwjntqnx3bryAhU1CrkGHQpRCAIQmxMoATAtegQITBAD">Joachim Rønning</a>.&nbsp;Walt Disney Pictures</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Cruella</strong>, 2021.&nbsp;<a href="https://www.google.com/search?sxsrf=ALeKk0166xa9RgrcNL_WjmNaujWvnXAUVQ:1629295368393&amp;q=cruella+diretor&amp;stick=H4sIAAAAAAAAAOPgE-LVT9c3NMyoKiy3NK6o0hLLTrbST8vMyQUTVimZRanJJflFi1j5k4tKU3NyEhVAQkARAP2vw0k7AAAA&amp;sa=X&amp;ved=2ahUKEwjH06qd3rryAhUwppUCHRAZBXEQ6BMoADA1egQIUhAC">Diretor</a>:&nbsp;<a href="https://www.google.com/search?sxsrf=ALeKk0166xa9RgrcNL_WjmNaujWvnXAUVQ:1629295368393&amp;q=Craig+Gillespie&amp;stick=H4sIAAAAAAAAAOPgE-LVT9c3NMyoKiy3NK6oUuLSz9U3MMnKK8-11BLLTrbST8vMyQUTVimZRanJJflFi1j5nYsSM9MV3DNzclKLCzJTd7AyAgBPvB4iSgAAAA&amp;sa=X&amp;ved=2ahUKEwjH06qd3rryAhUwppUCHRAZBXEQmxMoATA1egQIUhAD">Craig Gillespie</a>.&nbsp;Walt Disney Pictures</p>



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<h4 class="wp-block-heading" id="h-barbara-pessanha"><strong><em>Bárbara Pessanha</em></strong></h4>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-humanizacao-dos-viloes/">A humanização dos vilões</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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		<title>A relação psíquica com o trabalho na atualidade: reflexões a partir do filme “Capitão Fantástico”</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-relacao-psiquica-com-o-trabalho-na-atualidade-reflexoes-a-partir-do-filme-capitao-fantastico/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Rafael Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 21 Aug 2020 17:24:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filmes e Séries]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
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		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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		<category><![CDATA[filme]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
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<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-relacao-psiquica-com-o-trabalho-na-atualidade-reflexoes-a-partir-do-filme-capitao-fantastico/">A relação psíquica com o trabalho na atualidade: reflexões a partir do filme “Capitão Fantástico”</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Assistir ao filme Capitão Fantástico é embarcar na possibilidade da construção de uma sociedade utópica, em que a chama da consciência, aquela que a mitologia grega atribui à Prometeu a responsabilidade de tê-la oferecido aos humanos, consegue ter uma relação harmônica com os princípios naturais e instintivos da vida. Para este texto fazer sentido, é necessário fazer um breve resumo da ideia do filme, e aviso de antemão que, caso você não tenha visto, aqui contém spoilers.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O enredo trata de uma família de 7 pessoas, sendo um pai, chamado Ben (interpretado com maestria por Viggo Mortensen) e seus 6 filhos, que vivem numa floresta. Eles caçam, se exercitam, fazem rituais, seguindo o roteiro de uma sociedade primitiva. Mas ao mesmo tempo eles leem (têm uma biblioteca no meio da selva), aprendem música e discutem questões profundas da humanidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como uma boa narrativa hollywoodiana, acontece um ponto de inflexão na trama, que obriga a família a deixar a floresta e entrar em contato com o que chamaríamos de civilização. É neste momento que as diferenças se destacam: como seria para uma família absolutamente adaptada à natureza ter de seguir os preceitos organizatórios de uma sociedade civil? A verdade é que eles adotam comportamentos que chamaríamos de subversivos ou que são antíteses do politicamente correto. Um exemplo é quando ludibriam os seguranças de um supermercado para roubarem a comida fresca, em vez de pagarem para comer comida industrializada. Seus argumentos se pautavam na ideia de igualdade, no sentido de que todas as pessoas têm direto à alimentação.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outra situação é quando o filho de 8 anos pergunta ao pai o que é transar, e ele responde o que é efetivamente, fugindo das respostas metafóricas que normalmente são usadas para responder essas questões às crianças. Mas as provocações não param por aí. A razão que os faz sair da floresta e voltar ao mundo urbano é realizar o desejo da esposa de Ben (e mãe de seus filhos) que morreu: ser cremada e ter suas cinzas depositadas num vaso sanitário. Inicialmente não fica claro porque ela não estava junto da família na floresta, algo que vai sendo respondido no decorrer do filme. Ela era uma mulher subversiva: adotara a religião budista em vez de seguir os preceitos cristãos protestantes de sua família e apoiava a vida selvagem do marido e filhos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No que tange o aspecto religioso, se recorrermos à Jung em Psicologia e Alquimia, ele diz “<em>A exigência da ‘imiatito Christi’, isto é, a exigência de seguir seu modelo, tornando-nos semelhantes a ele, deveria conduzir o homem interior ao seu pleno desenvolvimento e exaltação. Mas o fiel, de mentalidade superficial e formalística, transforma esse modelo num objeto externo de culto”&nbsp;</em>(CW12, §7)<em>.&nbsp;</em>Esse é o modelo da família da esposa de Ben, diferente da integração com a natureza e liberdade ao indivíduo que Ben e seus filhos adotaram.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda em Psicologia e Alquimia, Jung comenta&nbsp;<em>“A concepção inadequada da ‘imitatio Christ’ apenas exterior é reforçada pelo preconceito europeu que distingue a atitude ocidental da oriental. O homem ocidental sucumbe ao feitiço das ‘dez mil coisas’: distingue o particular, uma vez que está preso ao eu e ao objeto, permanecendo inconsciente no que diz respeito às raízes profundas de todo o ser. Inversamente, o homem oriental vivencia o mundo das coisas particulares e o seu próprio eu como um sonho, pelo fato de seu ser encontrar-se enraizado no fundamento originário; este o atrai de forma tão poderosa que relativiza sua relação com o mundo, de um modo muitas vezes incompreensível para nós”&nbsp;</em>(CW12, §8)<em>.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Entendo que essa percepção de Jung justifica a resistência do patriarca (sogro milionário de Ben, e cristão) de atender ao desejo de sua filha. Não havia exercício empático do sogro. Para ele os princípios externos de sua religião eram os mais importantes, ao passo que para Ben o importante era cumprir o desejo de sua esposa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Além de relativizar perspectivas religiosas, o tempo todo o filme oferece confrontos com o modelo capitalista predominante que conhecemos e vivemos, trazendo uma percepção do que seria uma sociedade igualitária, cooperativa e que atribui responsabilidade crítica ao indivíduo singular. Não preciso dizer que o filme é uma exaltação ao socialismo, não em sua pecha sistematicamente vociferada de maneira acrítica, como se isso fosse sinônimo de ditaduras desumanas. A proposta é oferecer contraponto para o modelo social dominante. Em certo ponto do filme, Ben e sua família celebram o dia de Noam Chomsky, um social-libertário norte-americano.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O socialismo presente no filme se apresenta como uma utopia, a mesma que Leonardo Boff menciona em seu livro “Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência?”, em que esta deve estabelecer uma relação harmoniosa entre natureza, cultura e povo. No microcosmo social de Ben e seus filhos, é possível afirmar que obtiveram algum êxito por certo período.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa tônica do filme, que antagoniza modelos sociais dominantes e não dominantes do início ao fim, passando por religiões e cultura, traz à tona o ideal de equilíbrio que buscamos como indivíduos e como sociedade. É nesse ponto que se abre um espaço reflexivo: como encontrar esse equilíbrio ideal, individual e social?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para rascunhar uma resposta, proponho uma desconstrução da palavra equilíbrio nos termos que conhecemos. O equilíbrio por si só é estático. O equilíbrio não enseja movimento. O equilíbrio pode até ser sinônimo de estagnação. A vida acontece no equilíbrio dinâmico e no movimento. Se pensamos sobre o que nos mantém biologicamente vivos, logo lembraremos do nosso coração, que expande e retrai ou do nosso pulmão, que inspira e expira, para ficar no básico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Independentemente de concordarmos ou não com as proposições utópicas do filme, é indispensável um debate contemporâneo sobre a relação da consciência coletiva, na perspectiva da psique, e não apenas da economia, com o capital. Na versão online da Folha foi publicada uma matéria em 26/03/19 com o seguinte título “Atrás de sucesso, empresários são alvo fácil da síndrome de burnout”. Já na Globo.com, um pesquisador de Stanford, Jeffrey Pfeffrey, e autor do ótimo livro “Morrendo por um salário”, disse em 27/03/19: “O trabalho está matando as pessoas e ninguém se importa”. É pelo trabalho que produzimos o capital e é pelo trabalho que pagamos nossas contas. Mas deveria ser dessa forma excruciante?</p>



<p class="wp-block-paragraph">O curioso é que atualmente há uma relação de equilíbrio com o trabalho, na visão estática, em que ele é priorizado pelos indivíduos, sem que outros aspectos da vida sejam incluídos nesta equação. No filme Capitão Fantástico, Ben e seus filhos se apresentam como um ideal novo e revolucionário de sociedade. Mas se olharmos para a realidade do trabalho, ele é um microcosmos social e que também precisa passar por uma reflexão crítica sobre a forma como tem sido conduzido. Essa reflexão é coletiva e individual.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No que tange o indivíduo singular, o primeiro ato a se fazer é deixar de usar a palavra equilíbrio como se fosse algo necessariamente positivo. É preferível pensar no conceito de harmonia, que enseja a ideia de equilíbrio dinâmico. Na mitologia grega, Harmonia é a filha de Ares, deus da guerra, e Afrodite, deusa do amor. Em outras palavras, a harmonia representa o reconhecimento do ambíguo que habita nosso ser. Ainda sobre harmonia, podemos pensar na sua aplicação na música, em que ela representa todo aquele som que não pode ser claramente identificado, que é fruto de uma ação conjunta de vários instrumentos e que serve de base para as melodias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa ideia de relação harmônica com o trabalho deve ser buscada fora do lugar comum, a partir de perguntas como: Por quem, e a serviço de que você trabalha? Sua ética pessoal está em consonância com a ética do seu trabalho? Qual é a sua contribuição para compor um espaço harmônico entre seus subordinados, seus líderes, seus pares e sua família? Sua empresa propicia essa construção harmônica? Caso não, qual é a sua responsabilidade para mudar isto?</p>



<p class="wp-block-paragraph">São respostas que devem ser buscadas no íntimo, naquilo que o trabalho representa genuinamente para cada um. Como mencionei, o mundo do trabalho está equilibrado no capital. A consequência tem sido um adoecimento crônico de trabalhadores, do maior ao menor nível organizacional. Antagonicamente, como desequilibramos essa relação para reestabelecer uma dinâmica harmônica?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em Capitão Fantástico há uma tentativa de resposta para este dilema, à medida que a família se isola para recriar um modelo social. Mas a pergunta contrária também cabe: seria o modelo de vida de Ben e seus filhos perfeitamente adequado para ser inserido neste ponto da civilização que estamos? Ben também enfrenta dilemas com seus filhos, que em certo momento decidem adotar o modelo de vida da civilização e do capital, em detrimento da vida socialista e selvagem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Gosto quando Jung fala em Presente e Futuro que&nbsp;<em>“a pregação do desejável é inútil”</em>&nbsp;e que&nbsp;<em>“sem a transformação do indivíduo, nada pode acontecer”&nbsp;</em>(CW10/1, $582). Em outros termos, o que o Capitão Fantástico nos deixa de questionamento, que deveria ser respondido na nossa maior profundidade e intimidade é: o que há de fantástico em viver uma vida não vivida em sua plenitude, no melhor exemplo do mito de Sísifo possível? Se o trabalho unilateraliza e equilibra estaticamente para o lado do capital, não há plenitude. Há doença, e é uma doença que vem do equilíbrio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É urgente a necessidade de reestabelecermos uma relação harmônica com o trabalho em que ele possibilite nosso desenvolvimento como ser humano, e que cumpra seu propósito primário, que é oferecer um produto/serviço que servirá positivamente a sociedade, recompensando de maneira justa as pessoas que trabalham por isso. Num olhar simplório, isso não deveria ser danoso ao indivíduo, ou seja, não deveria causar adoecimento.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A nossa jornada de vida não é um caminho prescrito, e em si é um processo de aprendizado. Por outro lado, precisamos ter um papel ativo na aceitação e compreensão de padrões antagônicos, sabendo que são eles que propiciam equilíbrio dinâmico quando aplicados harmonicamente. A existência de um lado não deve ser a razão para reprimir a existência do outro lado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É a partir da constatação de que tudo aquilo que sabemos também pode ser experimentado em seus contrários, que conseguiremos resgatar a harmonia individual e coletivamente no trabalho. Ou então continuaremos seguindo padrões, regras e modelos tidos como corretos. Nossa capacidade adaptativa fará com que aceitemos esse padrão e chamaremos isso de equilíbrio. Mas a nossa psique segue o mesmo princípio de harmonia e equilíbrio dinâmico que rege a vida. Pelas palavras Kierkegaard, “<em>o ser humano é infinito e finito, temporal e eterno, liberdade e necessidade, é em suma, uma síntese”&nbsp;</em>(p. 195)<em>.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Rafael Rodrigues de Souza, membro Analista em formação do IJEP.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">BOFF, Leonardo. Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência?</p>



<p class="wp-block-paragraph">CAPITÃO FANTÁSTICO (filme). Direção: Matt Ross, Produção: M. Levinson, J. Patricof, S. Rawat, L. H. Taylor. Estados Unidos da América, DVD, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Presente e futuro (V. 10/1).</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Psicologia e alquimia (V. 12).</p>



<p class="wp-block-paragraph">KIERKEGAARD, Sören. O Desespero Humano.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Rafael Rodrigues de Souza</em></strong></h4>
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