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	<title>Arquivos homem - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Mon, 12 Oct 2026 15:52:47 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos homem - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>O Labirinto do Homem Moderno: Uma Análise Junguiana sobre a Crise do Masculino</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-labirinto-do-homem-moderno-uma-analise-junguiana-sobre-a-crise-do-masculino/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Mauro Angelo Soave Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 07 Oct 2026 13:37:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Masculinidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[contemporaneidade]]></category>
		<category><![CDATA[crise do masculino]]></category>
		<category><![CDATA[homem]]></category>
		<category><![CDATA[masculino]]></category>
		<category><![CDATA[ser homem hoje]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O artigo propõe uma leitura junguiana da "crise do homem" contemporâneo, entendida como enantiodromia diante do colapso de papéis de gênero rígidos. Argumenta-se que a confusão entre o arquétipo do masculino e suas performances sociais gera um enrijecimento identitário que bloqueia o diálogo com a Ânima, alimentando tanto movimentos reacionários (RedPills, Incels, MGTOW) quanto violência de gênero e exploração ambiental — projeções do feminino reprimido. Propõe-se a distinção entre o homem "Estruturado" (ego rígido e quebradiço) e o "Estruturante" (que integra sombra e fragilidade), defendendo que a superação da crise é um processo individual de individuação, não coletivo ou político.  </p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: O artigo propõe uma leitura junguiana da &#8220;crise do homem&#8221; contemporâneo, entendida como enantiodromia diante do colapso de papéis de gênero rígidos. Argumenta-se que a confusão entre o arquétipo do masculino e suas performances sociais gera um enrijecimento identitário que bloqueia o diálogo com a Ânima, alimentando tanto movimentos reacionários (RedPills, Incels, MGTOW) quanto violência de gênero e exploração ambiental — projeções do feminino reprimido. Propõe-se a distinção entre o homem &#8220;Estruturado&#8221; (ego rígido e quebradiço) e o &#8220;Estruturante&#8221; (que integra sombra e fragilidade), defendendo que a superação da crise é um processo individual de individuação, não coletivo ou político.&nbsp;&nbsp;</p>



<h2 id="h-a-crise-do-homem-contemporaneo-nao-se-manifesta-isolada-mas-como-uma-enantiodromia-inevitavel-a-tendencia-de-um-principio-psiquico-de-se-transformar-em-seu-oposto-quando-levado-ao-extremo" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">A &#8220;crise do homem&#8221; contemporâneo não se manifesta isolada, mas como uma enantiodromia inevitável — a tendência de um princípio psíquico de se transformar em seu oposto quando levado ao extremo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Estamos diante de um subproduto necessário de um mundo em transição, onde os antigos papéis e definições colapsam sob o peso de sua própria rigidez histórica. Compreender este fenômeno não é apenas um exercício acadêmico, mas um imperativo estratégico para um olhar crítico ao espírito da época, aos movimentos coletivos e à alma dos homens contemporâneos. A crise não reside no &#8220;masculino&#8221; enquanto arquétipo universal, que permanece imutável em sua essência, mas na manifestação individual e coletiva do homem que, despojado de suas bússolas tradicionais, oscila entre a nostalgia agressiva e a paralisia identitária.</p>



<h2 id="h-para-evitar-as-simplificacoes-que-dominam-o-debate-publico-a-psicologia-analitica-exige-que-separemos-os-principios-energeticos-das-performances-sociais-e-biologicas-a-confusao-entre-esses-dois-planos-gera-um-enrijecimento-identitario-que-impede-o-homem-moderno-de-lidar-com-sua-pluralidade-interna" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Para evitar as simplificações que dominam o debate público, a psicologia analítica exige que separemos os princípios energéticos das performances sociais e biológicas. A confusão entre esses dois planos gera um enrijecimento identitário que impede o homem moderno de lidar com sua pluralidade interna.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A incapacidade de diferenciar a essência arquetípica da máscara social faz com que o homem confunda &#8220;força&#8221; com &#8220;dureza&#8221;. Ao identificar-se exclusivamente com a dureza, ele se torna incapaz de acessar sua pluralidade interna, suas águas profundas e emocionais onde vivem as imagens da <em>anima</em>. Assim ego rígido (e frágil) se quebra diante da complexidade emocional principalmente interna, já que a externa ele enfrenta com a persona social da dureza. Esta enantiodromia do espírito nos conduz diretamente da abstração teórica para a realidade amarga da desvalorização do feminino.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>James Hollis</strong> (cf.1997) já apontava em seu livro “<em>Sob a Sombra de Saturno</em>”, para o aumento do número de homens em seu consultório, em comparação nas décadas anteriores, apresentando temas semelhantes em cada caso. Segundo o autor, ele percebeu que “a experiência coletiva dos homens é também parte inevitável da sua história pessoal”, coisa que as mulheres já haviam percebido há muito tempo (cf. p. 10).</p>



<h2 id="h-a-crise-atual-e-indissociavel-de-uma-mudanca-tectonica-na-postura-feminina-e-na-redefinicao-do-espaco-social" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">A crise atual é indissociável de uma mudança tectônica na postura feminina e na redefinição do espaço social.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Observamos um fenômeno de polarização sociológica profundo e intrincado: enquanto mulheres jovens movem-se em direção a visões progressistas e liberais, observamos uma massa de homens jovens recuando para um conservadorismo defensivo e, por vezes, violento (cf. Gandra, 2025). Fazendo eco a Hollis, nossa intenção não é minimizar as feridas femininas, mas reconhecer a dívida com o feminino. Em um trecho forte Hollis (1997) aponta: “A não ser que os homens consigam emergir das trevas [seguindo o exemplo das mulheres, que lutaram contra a subjugação do coletivo], continuaremos a ferir tanto as mulheres quanto a nós mesmos (cf. p. 11).</p>



<h2 id="h-a-primazia-automatica-do-homem-na-sociedade-anteriormente-garantida-pelo-mero-nascimento-desvaneceu-ou-ao-menos-perdeu-boa-parte-de-sua-tonalidade" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">A primazia automática do homem na sociedade, anteriormente garantida pelo mero nascimento, desvaneceu ou ao menos perdeu boa parte de sua tonalidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Sem o roteiro do privilégio, o homem sente-se exilado de um &#8220;paraíso&#8221; de segurança que nunca foi sustentável. As transformações sociais contemporâneas colocaram em xeque modelos tradicionais de masculinidade sustentados por privilégios patriarcais historicamente naturalizados. Nesse contexto, muitos homens vivenciam sentimentos de desorientação identitária e perda de referência simbólica (CONNELL; MESSERSCHMIDT, 2013; SILVA, 2006). Vale ressaltar que o direito de nascimento não é extinto, no seio de muitas famílias a prole masculina ainda tem a preferência, no entanto, já não se trata da regra.</p>



<h2 id="h-o-desprezo-milenar-pelo-sentir-e-pelo-acolher-yin-eros-e-a-centralidade-do-homem-como-referencia-em-diversos-ambitos-gerou-um-desequilibrio-que-agora-transborda" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">O desprezo milenar pelo &#8220;sentir&#8221; e pelo &#8220;acolher&#8221; (Yin/Eros) e a centralidade do homem como referência em diversos âmbitos gerou um desequilíbrio que agora transborda.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O ódio ao feminino interno manifesta-se externamente no que podemos chamar de &#8220;estupro de Gaia&#8221; — a exploração predatória da Terra e da mulher como meros objetos de consumo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando as mulheres evocam seu próprio masculino (Animus) para ocupar o mundo, o homem perde seu papel de &#8220;oposto absoluto&#8221;. Sentindo-se despojado, ele reage à autonomia feminina como uma invasão de território, em vez de uma oportunidade de integração.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A desvalorização histórica de atributos associados ao cuidado, à sensibilidade e à dimensão relacional contribuiu para a consolidação de modelos de masculinidade centrados no domínio, no controle e na racionalidade instrumental. Nesse contexto, a exploração predatória da natureza e a objetificação das mulheres podem ser compreendidas como expressões correlatas de uma lógica patriarcal de poder. Paralelamente, à medida que mulheres ocupam espaços historicamente restritos aos homens, muitos sujeitos masculinos vivenciam sentimentos de perda identitária e ameaça simbólica, reagindo à autonomia feminina como ruptura de uma ordem tradicional de gênero (CONNELL; MESSERSCHMIDT, 2013; SILVA, 2006; DUPUIS-DÉRI, 2018).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O medo da fragilidade pode ser compreendido, em grande medida, como medo do feminino, uma vez que a masculinidade tradicional foi historicamente estruturada pela negação de atributos associados à vulnerabilidade, ao cuidado e à sensibilidade. Como aponta Hollis (1997), a masculinidade vive a cultura do medo, muitos homens foram educados sob a exigência de afastamento de tudo aquilo culturalmente identificado como “não masculino”, desenvolvendo uma identidade defensiva sustentada pela repressão emocional e pela necessidade constante de validação viril. Nesse contexto, experiências de vulnerabilidade tendem a ser percebidas como ameaça à própria identidade masculina, favorecendo reações compensatórias marcadas pela rigidez, pela busca de controle e pela adesão a discursos coletivos que prometem restaurar modelos tradicionais de poder e pertencimento (HOLLIS, 1997).</p>



<h2 id="h-movimentos-de-resgate-e-a-nostalgia-do-enrijecimento" class="wp-block-heading" style="font-size:22px"><strong>Movimentos de &#8220;Resgate&#8221; e a Nostalgia do Enrijecimento</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung observa que períodos de intensa insegurança psíquica e transformação social favorecem movimentos coletivos regressivos, nos quais indivíduos fragilizados tendem a aderir a discursos simplificadores e estruturas rígidas de pertencimento como forma de compensar sentimentos de desorientação e perda de identidade (cf. JUNG, 2013).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Diante da angústia da perda de território identitário, surgem movimentos como &#8220;RedPills&#8221;, &#8220;Incels&#8221;, “MGTOW (Men Going Their Own Way)” e uma miríade de “cursos”, “imersões” e etc com o objetivo de resgatar o homem e a masculinidade. No entanto, ao buscar uma identidade forjada externamente, o homem aliena-se de sua própria verdade interna.</p>



<h2 id="h-a-busca-por-formulas-rigidas-e-condutas-militarescas-tenta-restaurar-o-homem-imbativel-e-uma-tentativa-de-forjar-o-carater-de-fora-para-dentro-ignorando-que-a-verdadeira-alma-nasce-da-individuacao-e-nao-da-obediencia-a-manuais-de-conduta" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">A busca por fórmulas rígidas e condutas militarescas tenta restaurar o &#8220;homem imbatível&#8221;. É uma tentativa de &#8220;forjar&#8221; o caráter de fora para dentro, ignorando que a verdadeira alma nasce da individuação e não da obediência a manuais de conduta.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Existe um desejo inconsciente de retorno à proteção incondicional da Grande Mãe. Quando a mulher contemporânea — real e autônoma — não cumpre o papel de útero acolhedor para o ego regredido do homem, a frustração desse desejo gera uma raiva misógina. A violência doméstica e o feminicídio são, muitas vezes, as explosões de um ego infantilizado que não tolera a alteridade da mulher, sintomas de uma masculinidade frágil que busca se estabelecer por meio da violência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A &#8220;Machosfera&#8221; utiliza a tecnologia e as redes sociais como um escudo contra a frustração. O orgulho ferido busca refúgio no mundo digital para evitar a dor da rejeição real, criando uma câmara de eco onde a fragilidade é substituída por uma performance de poder, quase sempre permeada de violência contra mulheres, contra o feminino e contra outros homens que não correspondem aos ideais desse grupo.</p>



<h2 id="h-anima-sombra-e-individuacao" class="wp-block-heading" style="font-size:22px"><strong>Ânima, Sombra e Individuação</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para resolver a crise de forma profunda, o homem deve abandonar a máscara da Persona e enfrentar o seu mundo interior. O homem precisa dialogar com sua Ânima, o princípio relacional erótico. Sem esse diálogo, ele permanece desconectado de seu corpo — que é matéria (<em>Mater</em>) — e de sua capacidade de vinculação autêntica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para Jung, o desenvolvimento psíquico depende da integração dos opostos presentes na personalidade, sendo a unilateralidade uma fonte de empobrecimento e neurotização da consciência. A repressão sistemática de aspectos associados ao feminino comprometeria, portanto, a possibilidade de individuação e de constituição de uma personalidade mais integrada (JUNG, 2014), menos reativa e menos defendida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A obsessão pela performance sobre a presença manifesta-se em dados alarmantes, como o aumento de 2000% no uso de medicamentos para disfunção erétil entre jovens (OLIVEIRA, 2025). O homem torna-se ausente de seu próprio corpo, focando em uma funcionalidade mecânica para validar sua máscara, enquanto negligencia a sensibilidade relacional e a vulnerabilidade inerente aos relacionamentos íntimos.</p>



<h2 id="h-a-crise-do-masculino-e-uma-crise-de-homens-que-so-sabem-se-relacionar-atraves-do-poder-do-falo-do-martelo-e-das-armas-quando-o-poder-nao-e-temperado-pelo-amor-eros-ele-degenera-em-tirania-o-amor-exige-o-reconhecimento-da-alteridade-algo-impossivel-para-quem-vive-em-estado-de-defesa-constante" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">A crise do masculino é uma crise de homens que só sabem se relacionar através do poder, do falo, do martelo e das armas. Quando o poder não é temperado pelo amor (Eros), ele degenera em tirania. O amor exige o reconhecimento da alteridade, algo impossível para quem vive em estado de defesa constante.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A distinção crucial reside entre ser um homem <strong>&#8220;Estruturado&#8221;</strong> ou <strong>&#8220;Estruturante&#8221;</strong>. O homem &#8220;Estruturado&#8221; é um constructo rígido de ego, uma armadura que, por ser inflexível, torna-se quebradiça e frágil. O homem <strong>&#8220;Estruturante&#8221;</strong>, por outro lado, é aquele que integrou sua sombra e sua fragilidade. Ele é flexível e forte o suficiente para permitir que outras polaridades existam ao seu redor sem se sentir ameaçado. Integrar a fragilidade é, paradoxalmente, o que confere a verdadeira estrutura ao ser.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Um caminho para a crise do masculino não é coletiva nem política no sentido tradicional; é um processo individual e solitário de individuação. O resgate da masculinidade exige a coragem de ser frágil e de renunciar ao ideal do herói invulnerável. É necessário que o homem assuma a responsabilidade por sua própria sombra, deixando de projetar na mulher, ou em Gaia, a função de receptáculo de suas angústias e frustrações.</p>



<h2 id="h-o-caminho-para-o-fim-da-guerra-dos-sexos-passa-pela-colaboracao-entre-as-polaridades" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">O caminho para o fim da &#8220;guerra dos sexos&#8221; passa pela colaboração entre as polaridades.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando o homem integra seu feminino interno, ele não enfraquece; ele se torna inteiro. A verdadeira maturidade masculina nasce da capacidade de ser um porto estruturante, alguém que não teme o infinito da alma nem a autonomia do outro. Somente ao abraçar sua totalidade o homem poderá, finalmente, caminhar para além do labirinto e florescer em uma virilidade autêntica e pacificada.</p>



<h2 id="h-sob-a-perspectiva-da-psicologia-analitica-a-repressao-historica-de-atributos-associados-ao-feminino-produziu-formas-de-masculinidade-marcadas-pela-unilateralidade-psiquica-e-pela-recusa-da-vulnerabilidade" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Sob a perspectiva da psicologia analítica, a repressão histórica de atributos associados ao feminino produziu formas de masculinidade marcadas pela unilateralidade psíquica e pela recusa da vulnerabilidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para Jung, o desenvolvimento humano depende da integração dos opostos constitutivos da personalidade, sendo a individuação um processo que exige o reconhecimento e a elaboração das dimensões rejeitadas do Self. Nesse sentido, a negação do feminino interno favorece mecanismos de projeção e empobrecimento afetivo, nos quais fragilidade, sensibilidade e dependência passam a ser percebidas como ameaças externas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Além disso, Jung observa que períodos de crise cultural e insegurança identitária tornam indivíduos mais suscetíveis à adesão a discursos coletivos simplificadores e estruturas rígidas de pertencimento, frequentemente mobilizadas como compensação psíquica diante do desamparo subjetivo (JUNG, 2013; JUNG, 2014).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para Dupuis-Déri (apud SULZ e CARDOSO, 2025) a crise do masculino não é recente, mas persistente, acaba funcionando como mecanismo de manutenção de estereótipos de gênero e desigualdades historicamente estruturadas entre homens e mulheres. Nesse contexto, a dificuldade de reelaboração das masculinidades diante das transformações sociais contemporâneas favorece movimentos de nostalgia e idealização de modelos tradicionais de primazia masculina, frequentemente mobilizados como reação à perda de privilégios simbólicos e sociais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/maurosoave/">Mestre Mauro Angelo Soave Junior – Analista didata em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/gabriel-yamaya/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/gabriel-yamaya/">Especialista Gabriel Yamaya – Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Didata e fundadora do IJEP</a></strong></p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="851" height="315" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/10/A-VIDA-QUER-VOCE-INTEIRO-Waldemar-Magaldi-2.png" alt="" class="wp-image-14031" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/10/A-VIDA-QUER-VOCE-INTEIRO-Waldemar-Magaldi-2.png 851w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/10/A-VIDA-QUER-VOCE-INTEIRO-Waldemar-Magaldi-2-300x111.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/10/A-VIDA-QUER-VOCE-INTEIRO-Waldemar-Magaldi-2-149x55.png 149w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/10/A-VIDA-QUER-VOCE-INTEIRO-Waldemar-Magaldi-2-767x284.png 767w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/10/A-VIDA-QUER-VOCE-INTEIRO-Waldemar-Magaldi-2-448x166.png 448w" sizes="(max-width: 851px) 100vw, 851px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><em>*Pré-venda até 10/11/2026; envio após o encerramento da pré-venda</em></p>



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<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:20px"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">CONNELL, Raewyn; MESSERSCHMIDT, James W. <em>Masculinidade hegemônica: repensando o conceito</em>. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 21, n. 1, p. 241-282, 2013. Disponível em: <a href="https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/S0104-026X2013000100014">https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/S0104-026X2013000100014</a>. Acesso em: 25 maio 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">HOLLIS, James. <em>Sob a sombra de Saturno: a ferida e a cura dos homens</em>. Tradução de Cláudia Gerpe Duarte. São Paulo: Paulus, 1997. (Coleção Amor e Psique)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">JUNG, Carl Gustav. <em>Mysterium Coniunctionis</em>. Petrópolis: Vozes, 1990. (Obras completas de C. G. Jung, v. 14/1 e 14/2).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">______. <em>Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo</em>. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2012. (Obras completas de C. G. Jung, v. 9/1).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">______. <em>Civilização em Transição</em>. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013. (Obras completas de C. G. Jung, v. 10/3).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">______. <em>Aion: estudos sobre o simbolismo do Si-mesmo</em>. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2014. (Obras completas de C. G. Jung, v. 9/2).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">OLIVEIRA, Andreza de. Venda de tadalafila cresceu quase 2.000% nos últimos dez anos no Brasil. <em>Folha de S. Paulo</em>, São Paulo, 16 maio 2025. Disponível em: <a href="https://www1.folha.uol.com.br/equilibrio/2025/05/venda-de-tadalafila-aumentou-em-quase-2000-nos-ultimos-nove-anos-no-brasil.shtml?utm_source=chatgpt.com">https://www1.folha.uol.com.br/equilibrio/2025/05/venda-de-tadalafila-aumentou-em-quase-2000-nos-ultimos-nove-anos-no-brasil.shtml</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">SILVA, Sérgio Gomes da. <em>A crise da masculinidade: uma crítica à identidade de gênero e à literatura masculinista</em>. Psicologia: Ciência e Profissão, Brasília, v. 26, n. 1, p. 118-131, 2006. Disponível em: <a href="https://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=6156371">https://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=6156371</a>. Acesso em: 25 maio 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">SULZ, Juliana Albuquerque; CARDOSO, Frederico Assis. <em>Os homens estão em crise, dizem</em>. <em>Cadernos de Gênero e Diversidade</em>, Salvador, v. 10, n. 4, p. 421-430, 2025. Disponível em: <a href="https://periodicos.ufba.br/index.php/cadgendiv/article/view/54304?utm_source=chatgpt.com">https://periodicos.ufba.br/index.php/cadgendiv/article/view/54304</a>. Acesso em: 26 maio 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



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		<title>O oitavo pecado capital: a sensibilidade</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-oitavo-pecado-capital-a-sensibilidade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Pedro Pimentel Rocha]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 30 Nov 2024 10:44:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Gênero]]></category>
		<category><![CDATA[feminino]]></category>
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		<category><![CDATA[logos]]></category>
		<category><![CDATA[mulher]]></category>
		<category><![CDATA[sensibilidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Na história da humanidade, a igreja católica estabeleceu uma lista de sete comportamentos considerados prejudiciais e proibidos – soberba, avareza, inveja, ira, luxúria, gula e preguiça, balizando a ética e a moral do ser humano. Classificados como capitais, os principais (dos quais todos outros se originavam), eram uma espécie de faróis que iluminavam conteúdos sombrios [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Na história da humanidade, a igreja católica estabeleceu uma lista de sete comportamentos considerados prejudiciais e proibidos – soberba, avareza, inveja, ira, luxúria, gula e preguiça, balizando a ética e a moral do ser humano<strong>. </strong>Classificados como capitais, os principais (dos quais todos outros se originavam), eram uma espécie de faróis que iluminavam conteúdos sombrios da alma humana e auxiliavam o seu reconhecimento em momentos turvos e agitados do mar das emoções e do mundo interno de cada indivíduo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung reconhecia na natureza humana e na psique a presença da sombra, ou seja, aspectos e conteúdos rejeitados pelo ego por não serem compatíveis com um ideal da persona ou com os requisitos válidos para uma adaptação ao mundo externo – os códigos de conduta morais. Sendo renegados ao inconsciente, sua voz ainda ecoava e exigia reconhecimento e integração, mesmo que fosse às custas da insegurança, da surpresa e do constrangimento do funcionamento da consciência e do controle egóico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Atualmente, infelizmente, por conta do padrão patriarcal e da heteronormatividade dominantes, acredito que podemos acrescentar um novo pecado capital: a sensibilidade. Sua expressão genuína e o contato com sua força arquetípica são rechaçados e considerados infames, sem valor e fora de qualquer validação social. Em um mundo onde as pessoas estão cada vez mais voltadas para si mesmas, enredadas em comportamentos massificantes, estimuladas para unilateralidades de pensamento e percepções rígidas e literais &#8211; que impedem o olhar para um outro lado mais flexível, de forma simbólica, acabam determinado a morte e a inadequação da sensibilidade e suas reverberações.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Pelo visto, Paracelso pertencia àquelas criaturas que guardam numa gaveta o intelecto e o sentimento na outra a fim de poderem seguir despreocupadamente em frente, pensando com o intelecto sem jamais correr o risco de entrar em choque com a fé do sentimento.</p><cite>JUNG, OC.15, §10</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quando-se-olha-a-raiz-latina-da-palavra-encontra-se-sensibilitas-atis-que-significa-sentido" style="font-size:16px">Quando se olha a raiz latina da palavra, encontra-se &#8220;<strong>sensibilitas,atis</strong>&#8220;, que significa sentido.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O sentido é algo que está morto na sociedade atual. Muitos de nós procuramos sentido e significado em redes sociais, na aceitação em grupos de ideologia sem reflexão, em laudos que determinam transtornos, em uma doença para chamar de “minha”. Entretanto, todos esses caminhos massacram a individualidade, massificam o pensamento próprio e enterram a possibilidade do contato mais natural, leve, contrastante e rico com o campo humano sensível.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pecado, do grego <em><strong>hamartia</strong></em>, é um verbo que significa errar o alvo. Isso não significa meramente um erro intelectual de juízo, mas não conseguir atingir o objetivo existencial.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No pensamento coletivo, a ideia de expressar sua sensibilidade foi associada à característica feminina, a aspectos do ser mulher e todo seu campo afetivo. Jung associa a Alma ao princípio feminino e, como ela, muitas vezes, gera incômodos, negá-la acaba sendo uma forma de defesa. Um ponto intrigante é que, ao refutar esse aspecto humano e proibir sua expressão, o estigma da fragilidade feminina e a sua menos valia entram no campo de discussão. Um estímulo ao empobrecimento do que é ser um ser humano integral e conectado com seu Si mesmo, com sua totalidade psíquica, que abarca um olhar múltiplo para o mundo externo, é constantemente reforçado. Negar uma parte essencial da mulher também presente no homem é um atentado contra a singularidade de cada ser.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Frases como: “isso é coisa de mulher”, “o que importa no mundo é ter sucesso profissional”; “isso é bobagem, não tem razão nenhuma”; “você tem coração mole”; revelam o quanto há uma cisão profunda no interior da sociedade moderna. Quanto mais divididos somos, mais diabólicos ficamos. A divisão afasta a união, afasta o símbolo e, consequentemente, levanta angústias, dores emocionais e físicas, sintomas, sensação de vazio e perda de perspectiva de mundo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-atrofia-dos-sentimentos-e-uma-caracteristica-do-homem-moderno-que-se-manifesta-como-reacao-quando-ha-sentimentos-em-demasia-e-principalmente-sentimentos-falsos-jung-oc-15-183" style="font-size:18px">“A atrofia dos sentimentos é uma característica do homem moderno que se manifesta como reação quando há sentimentos em demasia e principalmente sentimentos falsos.” (JUNG, OC.15, §183)</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Aquilo que é desconhecido assusta, mesmo que haja um potencial oculto de libertação e inovação. A expressão da sensibilidade acaba se tornando um desconforto, algo estranho, ruim, difícil de ser compreendido e aceito como um aspecto natural do ser humano. Como resultado, a busca pela anestesia dos sentidos e sentimentos se intensifica, abrindo caminho para o uso de drogas, entorpecentes e outros mecanismo de compensação e fuga.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As pontes são construídas pela sensibilidade. Não há como relações serem construídas sem a presença do “oitavo pecado capital”. O se desarmar, o sair das próprias convicções e certeza, o retirar-se da zona de conforto e do controle da vida, são passos e posturas fundamentais para o desenvolvimento de relações. O que mais se vê hoje em dia são demandas emocionais com o tema do se relacionar. Os reflexos mais notórios são casamentos falidos nos quais a comunicação se perdeu; o aumento da indisponibilidade em procurar parceiros e parceiras; a reclusão no mundo digital e sua ilusão de virtude e perfeição.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-o-mesmo-caso-do-intelecto-que-nao-consegue-explicar-nem-muito-menos-entender-a-essencia-do-sentimento-e-essas-duas-coisas-nao-existiriam-como-entidades-separadas-se-sua-diversidade-em-principio-nao-se-tivessem-imposto-ha-muito-tempo-a-inteligencia-jung-oc-15-99" style="font-size:18px">“É o mesmo caso do intelecto que não consegue explicar nem muito menos entender a essência do sentimento. E essas duas coisas não existiriam como entidades separadas, se sua diversidade, em princípio, não se tivessem imposto, há muito tempo, à inteligência.” (JUNG, OC.15, §99)</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A sensibilidade é a mãe da criatividade e mola propulsora da espontaneidade. Ser criativo é ter a possibilidade de unir contrastes; de pensar originalmente fora daquilo que é preestabelecido como normal e previsível; é poder ter um contato mais próximo da natureza interna rica e presente em cada um de nós. Nenhuma espontaneidade aflora se não houver um reconhecimento daquilo que é verdadeiro, daquilo que foi construído por imposições socias e familiares e que não é coerente com o potencial da natureza.</p>



<p class="wp-block-paragraph"> A sensibilidade está ligada ao Eros e é a mãe das expressões criativas. O casamento real se completa com a sua contraparte. O Pai, como está ligado ao Logos, estimula o criativo pela dificuldade, necessidade, limite de tempo e espaço. Logos e Eros juntos conclamam o resgate da integralidade, não limitados no macho e na fêmea, mas sim da totalidade da expressão humana com alma e realização coletiva. Para gerar o novo é preciso ouvir a complexidade inerente à sensibilidade e não encará-la como um pecado capital.</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Pedro Pimentel Rocha</strong> <strong>&#8211; Membro Analista em formação IJEP</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>O espírito na arte e na ciência</strong>. OC.15. Petrópolis: Vozes, 2021</p>
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		<title>Uma reflexão sobre a psicologia masculina: zeus, poseidon, família corleone e dramas do homem contemporâneo</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/uma-reflexao-sobre-a-psicologia-masculina-zeus-poseidon-familia-corleone-e-dramas-do-homem-contemporaneo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Rafael Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Dec 2019 17:09:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Homem]]></category>
		<category><![CDATA[Masculinidade]]></category>
		<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Numinoso]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[homem]]></category>
		<category><![CDATA[masculidade]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Como é sabido, na mitologia grega, em uma das versões aceitas, após vencer os Titãs, os deuses Zeus, Poseidon e Hades sortearam qual seria o reino destinado aos cuidados de cada um, sendo Zeus o sorteado para ser o responsável pelos céus, Poseidon pelos mares e Hades pelo submundo (Bolen, 2002). Também é sabido que [...]</p>
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<p class="wp-block-paragraph">Como é sabido, na mitologia grega, em uma das versões aceitas, após vencer os Titãs, os deuses Zeus, Poseidon e Hades sortearam qual seria o reino destinado aos cuidados de cada um, sendo Zeus o sorteado para ser o responsável pelos céus, Poseidon pelos mares e Hades pelo submundo (Bolen, 2002). Também é sabido que toda a mitologia grega pode ser compreendida como uma representação arquetípica dos dramas humanos atemporais, em suas virtudes e vicissitudes (Jung, OC 9/1, 2012).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma olhada rápida para as glórias e infortúnios dos deuses mencionados acima nos abre um leque de análise importante para a psicologia masculina (Brandão, 2015). Outros deuses e suas aventuras também poderiam ser considerados nesta análise, mas quero me concentrar especialmente na visão do Zeus e Poseidon constelados no homem contemporâneo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não é objetivo do texto propor um aprofundamento nas aventuras dos dois deuses, uma vez que se parte do pressuposto que podemos conhecê-las em livros especializados como, por exemplo, a trilogia de Junito de Souza Brandão (Mitologia I, II e III) ou os estudos da Jean Shinoda Bolen (Os deuses e os homens / As deusas e a mulher).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma consideração a se fazer é que, como representação simbólica da psique, cada deus encerra em si uma totalidade em que estão contidos aspectos polares, ou seja, há um conflito de opostos dentro de cada deus mítico. Podemos compreender Zeus em sua dimensão sagrada, de justiça, solicitude e estratégia, assim como em sua dimensão profana, de crueldade, vingança e autoritarismo. O mesmo vale para Poseidon.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por outro lado, em termos de ampliação simbólica e para fins didáticos, também é possível compreender dinâmicas da psique em que, contextualmente, um deus represente o oposto do outro, tal como sugere Nietzsche quando ele estabelece a polarização entre Apolo e Dionísio (in Jung, OC, 2013), na qual estes deuses representam simbolicamente, dentro da mesma unidade psíquica, um par de opostos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda que não haja um aprofundamento na dinâmica Zeus e Poseidon neste artigo, é importante fazermos ao menos uma pequena contextualização de suas características para embasar a reflexão proposta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Zeus, apesar da designação de deus dos céus, acabava por ter uma liderança geral perante todos os deuses, até mesmo no Olimpo, território, supostamente, livre para todos os imortais. Ele se caracterizava por ser um deus estratégico, sábio e, na maioria das vezes, justo em seus acordos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em outra perspectiva, era extremamente furioso e com uma relação instável com o universo feminino. Diversas vezes se disfarçou para conquistar suas parceiras, e quando estas o recusavam, ele as tomava à força.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Poseidon, por sua vez, era o irmão de Zeus, tendo sido sorteado para ficar com os mares. Guardava em si uma certa gana de um dia tornar-se líder dos deuses, posição informalmente ocupada por Zeus, na visão exposta especialmente por Bolen (2002).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Era um deus extremamente emocional e quando rejeitado se enchia de ira, normalmente expressando isso por maremotos e afins. Em seu outro aspecto, ele procurou diversas vezes ajudar outros deuses (ou mortais) em situação de risco ou perigo, usando de sua força e reinado sobre os mares para resolver as situações, sendo este um aspecto positivo de sua divindade. Também não tinha um bom termo com as mulheres, sendo rejeitado por elas em diversas ocasiões.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se fizermos uma aproximação com a tipologia junguiana, poderíamos dizer que Zeus era regido pelo mundo do pensamento, ao passo que Poseidon era regido pelo mundo do sentimento. Mas como seriam esses deuses expressos arquetipicamente na psicologia masculina?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma comparação que me parece interessante é a do filme “O poderoso chefão – I”, em que Don Vito Corleone expressa em seu perfil aspectos da imagem arquetípica de Zeus. Ele é líder soberano da máfia ítalo-americana, um homem articulador, poderoso, respeitado, que preza pela justiça e contrapartidas, fazendo também o uso de seus capangas para acertar as contas com aqueles que não tiveram “respeito” pelas suas negociações.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Don Corleone tinha três filhos e uma filha. Como podemos prever, nesse contexto patriarcal, a filha pouco valor tinha nesse mundo de “deuses” encabeçado por seu pai. Contudo, foi justamente a personagem dela que teve um papel crucial num acontecimento trágico, mostrado numa cena chocante: o assassinato de seu irmão Santino, também chamado Sonny – e essa cena nos ajudará na compreensão deste texto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os três filhos homens de Don Corleone eram Michael, Fredo e Santino. Michael era o filho predileto, que ao meu ver é possível aproximar sua imagem ao deus Apolo, um dos filhos prediletos de Zeus (mas não embarcarei na discussão do perfil de Michael, que no contexto do filme foi exatamente quem sucedeu o pai no “trono”).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fredo era o rejeitado, absorvendo para si toda a sombra de fracasso e deslealdade que rondava a família Corleone. Tinha em si algo de Dionísio, que em sua passagem mitológica guarda um histórico a rejeição familiar, tal como Fredo, que também era sutilmente rejeitado por sua família, além de ter uma personalidade com baixa expressividade. Não seria errado vermos características de Hefesto em Fredo também.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Santino era, antes da chegada de Michael (que estava ausente da família para cumprir serviços militares), o suposto sucessor de seu pai. Simbolicamente seria o Poseidon que queria tornar-se Zeus. Santino era ávido por assumir a liderança dos negócios (ilícitos) da família. Era um rapaz altamente emocional e explosivo, nada conciliador e pouco estrategista. Procurava se impor pelos gritos e impaciência para com seus apadrinhados. Mas não media esforços para garantir a honra da “famiglia”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A filha de Don Corleone, Connie Corleone, casou-se com um rapaz que se mostrará altamente violento para com ela e misógino (o que não chega a ser uma surpresa, dada a referência de masculino que Connie tinha na família).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao saber de uma das diversas agressões sofridas pela irmã, Santino sai em disparada em seu carro, sozinho, sem a devida proteção de seus seguranças, e é surpreendido por uma rajada de metralhadoras que destrói seu carro, uma cena épica para a história do cinema. Ele não resistiu aos ferimentos, assim como não resistiu à possessão emocional de seus complexos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em nossa sociedade patriarcal existem muitos homens com o arquétipo de Zeus constelado, tanto em seu aspecto luz, quanto em seu aspecto sombra, sejam eles líderes políticos, institucionais ou organizacionais. Normalmente são homens com frieza emocional, mas com ótima capacidade de articulação política a estratégica, e que, em seu aspecto sombra, não estabelecem um bom termo com suas animas, aspectos do simbólico feminino presente nos homens, mas que ainda assim são venerados e respeitados em seus respectivos “tronos”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Emma Jung (2006) nos explica que a anima “<em>representa o componente feminino da personalidade do homem, mas ao mesmo tempo a imagem do ser feminino que de modo geral traz em si; em outras palavras, o arquétipo do feminino”&nbsp;</em>(pág. 57).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um dos caminhos para o desenvolvimento do homem-Zeus, é justamente trazer à tona o universo do sentimento, abrindo espaço para que outros aspectos de sua personalidade emerjam, a fim de evitar o sofrimento emocional que a ausência do amor altruísta e o auto amor podem trazer, expressados na infinita busca por poder. Esse é o caminho sugerido para que se integre na psique os aspectos positivos da anima.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já Poseidon, ocupa em nossa sociedade um espaço que me parece até mais perigoso do que o de Zeus. São homens que em seu íntimo queriam ser Zeus, e que não medem esforços para atingir esta meta psíquica. Porém, na maioria das vezes, são tomados por seus complexos de inferioridade, e se expressam como crianças mimadas, querendo ganhar “no grito” ou “na força” o poder que&nbsp;<strong><u>não</u></strong>&nbsp;lhes foi outorgado. Faltam-lhes a capacidade estratégica de Zeus.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim como Santino foi tomado de ira, sem ponderar os riscos de uma ação intempestiva, Poseidon não hesita em expressar sua fúria como deus dos mares. Mas vale lembrar que, dentre muitas representações simbólicas, o mar (ou oceano) pode ser visto como o inconsciente. Um homem-Poseidon que não consegue estabelecer um bom termo com a força do inconsciente, buscará incansavelmente o trono de Zeus, mas de maneira intempestiva, passional e desajustada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não raro, vemos políticos se estapeando publicamente, muitas vezes tomados pela ira de Poseidon, deixando escapar pelos tabefes de suas mãos seus complexos de inferioridade perante a soberania de um Zeus qualquer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O caminho para o desenvolvimento do homem-Poseidon é justamente buscar a integração com a sabedoria e a capacidade analítica que o habita, tal como o pensamento de Zeus. Isso só pode ser feito se houver uma aceitação de que ele não é, a priori, um homem-Zeus. Ele deve entrar em contato com seu inconsciente, a fim de evitar que seja tomado de assalto pelos seus complexos, reconhecendo-os e lidando com eles, fazendo isto especialmente no processo de Análise Pessoal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Santino Corleone (homem-Poseidon) foi assassinado quando teve de resolver um problema da sua irmã (imagem de sua anima), deixando correr pelo seu corpo uma ira incontrolável. Simbolicamente, se ele tivesse chamado para si a sabedoria de Zeus e não a intempestividade de Poseidon, talvez tivesse ocupado o lugar que tanto almejava, evitando sua morte prematura. Neste contexto, a morte prematura de um homem-Poseidon, é justamente não conseguir sair de seu imbróglio emocional, não conseguir transitar para o universo da sabedoria, ficando refém de seus próprios complexos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No filme, a irmã de Santino o chama para salvá-la das mãos do marido violento. Foi um chamado da anima, que em seu aspecto psicopompo na psicologia masculina, o colocou em contato com uma situação de crise, e com isso abriu a possibilidade para que o conflito fosse enfrentado de maneira sábia e que, para a desgraça da família Corleone, não foi compreendido dessa forma por Santino.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na psicologia masculina, a anima vai sempre fazer um chamado, colocando o homem diretamente em contato com os seus complexos. Cabe a este decidir como lidar com eles, pelo caminho do desenvolvimento que, por exemplo, a Análise Junguiana propõe ou pelo caminho da dor, em que os complexos não compreendidos, e supostamente abafados pela consciência, podem causar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em tempos de polaridades políticas e anseios por poder nas organizações e instituições, geradas pelos aspectos negativos do patriarcado, é imperativa a necessidade dos homens se aprofundarem nos mistérios de suas almas (animas) a fim de enfrentar seus complexos (maternos, paternos, de inferioridade, de insegurança, dentre outros) e, em que por meio do seu processo de desenvolvimento individual, ele contribua para a melhoria de toda coletividade. Reciprocamente, as mulheres também precisam fazer esta mesma jornada na direção de seus animus.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Zeus e Poseidons são necessários, mas viver somente na sombra de suas deidades, faz dos homens reféns de si mesmos, de seus complexos. Isto é o inverso do potencial criativo, da justiça, da estratégia e da temperança que estes deuses podem proporcionar.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Rafael Rodrigues de Souza</strong>&nbsp;é Psicólogo e Analista Junguiano em formação pelo IJEP. Atende em seu consultório particular na Vila Mariana em São Paulo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia grega, vol. I. 25ª ed. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BOLEN, Jean Shinoda. Os deuses e o homem: uma nova psicologia da vida e dos amores masculinos. São Paulo: Paulos, 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo (v. 9/1). 8ª ed. Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Tipos Psicológicos (v. 6). 7ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Emma. Animus e anima. Cultrix: São Paulo, 2006.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O PODEROSO CHEFÃO I (filme). Direção: Francis Ford Coppola, Produção: Albert. S. Ruddy. Estados Unidos da América, DVD, 1972.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Rafael Rodrigues de Souza&nbsp;</em></strong></h4>
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