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	<title>Arquivos introspecção - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos introspecção - Blog IJEP</title>
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		<title>O adoecimento no luto reprimido</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Beatriz Proença Whitaker de Assumpção]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Nov 2026 22:56:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O luto é uma experiência humana inevitável: inúmeras são as perdas, separações e distanciamentos pelos quais passamos ao longo da vida e que nos causam dor e sentimento de vazio. Em uma sociedade que valoriza a produtividade, a felicidade e não dá espaço para a expressão da dor, muitas vezes, o luto é reprimido e visto como fraqueza. Pessoas que não vivenciam o luto conscientemente e continuam a viver como se nada tivesse acontecido são atropeladas por sintomas psicossomáticos, como tentativa de integração dos conflitos que foram reprimidos. Ou seja, o sofrimento acaba encontrando vias corporais para se manifestar.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>RESUMO:</strong> O luto é uma experiência humana inevitável: inúmeras são as perdas, separações e distanciamentos pelos quais passamos ao longo da vida e que nos causam dor e sentimento de vazio. Em uma sociedade que valoriza a produtividade, a felicidade e não dá espaço para a expressão da dor, muitas vezes, o luto é reprimido e visto como fraqueza. Pessoas que não vivenciam o luto conscientemente e continuam a viver como se nada tivesse acontecido são atropeladas por sintomas psicossomáticos, como tentativa de integração dos conflitos que foram reprimidos. Ou seja, o sofrimento acaba encontrando vias corporais para se manifestar.</p>



<h2 id="h-so-poderemos-viver-novamente-quando-dermos-a-dor-a-atencao-que-ela-procura-lauren-depino" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><em>&#8220;Só poderemos viver novamente quando dermos à dor a atenção que ela procura” Lauren DePino</em><em></em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ao longo da vida, passamos por diversas despedidas dolorosas: para crescer, nos despedimos da infância para, logo depois, nos despedirmos da adolescência e, assim, nos tornarmos adultos. Para além das fases da vida, também nos despedimos de sonhos, projetos, ideias pessoais, da vitalidade do corpo e da saúde, de papéis, de aspectos da nossa personalidade e, sobretudo, de entes queridos. Os vínculos que criamos com aquilo que amamos é que carregam a possibilidade da dor da separação, não só pela morte, mas também por separações, divórcios ou até a síndrome do ninho vazio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como explica Maria Helena Pereira Franco (Cf. FRANCO, 2021, p.45), em <em>O luto no século 21</em>, o luto é a experiência de perder alguém significativo ou de romper vínculo com uma situação que dava significado à vida e contorno à identidade. É um processo de diminuição gradual da energia que liga a pessoa enlutada ao objeto perdido ou à pessoa falecida, exigindo o enfrentamento da realidade da perda para conseguir transformar o vínculo que formava o “nós&#8221; em relacionamento interno com o ente querido. &#8220;Esta é a principal tarefa do trabalho de luto: romper os laços com ele, confrontando os sentimentos e emoções associados à perda, chorando a morte, expressando tristeza ou saudades do morto” (FRANCO, 2021, p.48).</p>



<h2 id="h-o-luto-e-doloroso-e-perturbador-e-exige-uma-serie-de-adaptacoes-e-mudancas-no-mundo-tal-como-o-conheciamos-ate-entao-o-mundo-presumido" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">O luto é doloroso e perturbador e exige uma série de adaptações e mudanças no mundo tal como o conhecíamos até então, o mundo presumido.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Entender quem somos sem a pessoa amada faz com que uma nova identidade precise ser construída, em um ambiente desconhecido e inseguro, onde ela não existe mais. Durante a adaptação à nova vida, existe um movimento natural que oscila entre momentos de se enfrentar a perda sofrida e outros voltados à restauração da vida cotidiana, o que possibilita ao enlutado entrar em contato com a dor da perda e, aos poucos, ir se restabelecendo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enfrentar a dor da separação daqueles que amamos é algo que precisa ser vivido para que possamos iniciar uma nova fase, em que também é necessária uma nova forma de nos relacionarmos com o mundo, criando novos laços, fortalecendo aqueles que já existem e buscando um novo significado para a vida.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="is-style-default wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>Quanto melhor a pessoa em luto se adaptar aos novos papéis que a vida exige dela, quanto melhor ela perceber, tamb</em><em>é</em><em>m em relação a esses novos pap</em><em>é</em><em>is, quais características ela pode desenvolver como um ser humano, mais rapidamente ela recuperará sua autoconfiança e sua autoestima. (KAST, 2026, p.75)</em><em></em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-o-processo-de-luto-necessita-de-tempo-reclusao-e-introspeccao" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">O processo de luto necessita de tempo, reclusão e introspecção.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">No atual contexto histórico, em que os valores sociais são o sucesso, a produtividade, o crescimento econômico, o consumo e a individualidade, a vida do enlutado não é fácil, já que eficiência, força e felicidade são exigidos a todo custo (Cf. FRANCO, 2021, p.103).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em <em>Sociedade Paliativa</em>, Byung-Chul Han (Cf. Han, 2021, p.11) nos fala da atual sociedade como aquela da positividade, que vê toda dor como sinal de fraqueza, que precisa ser eliminada ou ocultada por meio da otimização, do bem-estar, da felicidade e da autorrealização. Pensamentos negativos devem ser evitados e nada deve provocar a dor. Como diz o autor, a própria vida precisa ser <em>instagramáve</em>l, removendo da dor qualquer possibilidade de expressão. Com o aumento significativo da medicalização e farmacologização da dor, gera-se uma sociedade anestesiada, que perde sua capacidade de simbolizar e dar significado a uma perda. No entanto, como afirma, esquece-se que a dor purifica (Cf. HAN, 2021, p.14). </p>



<p class="wp-block-paragraph">Nessa sociedade, em que a dor não tem lugar para ser vivida e expressa, e a morte precisa ser negada e afastada, as pessoas que não demostram sinais de luto consciente, muitas vezes, são vistas como auto-confiantes, independentes, fortes e com bom auto-controle, e, desse modo, continuam vivendo após a perda como se nada estivesse acontecendo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No entanto, justamente as pessoas particularmente fortes que reprimem o luto é que são atropeladas por ele, apresentando queixas de sintomas psicossomáticos, como dores de cabeça, insônia, consumo excessivo de álcool e depressão (Cf. KAST, 2026, p.87).</p>



<h2 id="h-o-adoecimento-como-expressao-do-conflito" class="wp-block-heading">O ADOECIMENTO COMO EXPRESSÃO DO CONFLITO</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Como sabemos, para a Psicologia Analítica, corpo e psique estão intimamente ligados, sendo dois aspectos diferentes de uma única e mesma coisa, e que atuam simultaneamente. James Hillman nos apresenta o termo <em>patologizar</em> como a habilidade autônoma da psique para criar doença, morbidade, anormalidade e sofrimento. Para ele, a psique não existe sem patologizar, já que a alma expressa suas fantasias, seja por ideias que vem à cabeça, ou doenças que vem ao corpo. &#8220;Coração, pele, articulações, quer seja congênito, crônico ou agudo, quer seja acidental, infeccioso ou hereditário &#8211; tudo isso, e cada uma dessas coisas tem significado psicológico, também são metáforas; são focos de fantasia, tanto quanto de doença&#8221; (HILLMAN, 2010, p.176).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Podemos pensar que, quando o indivíduo se expressa somaticamente, há uma desconexão do corpo com o inconsciente. Isso significa que, se não há espaço para simbolizar verbalmente a dor emocional, ela será vivida corporalmente. Dessa maneira, a somatização corresponde a uma tentativa de cura da psique, ao tentar integrar o conteúdo reprimido à consciência, e assim compensar a unilateralidade do ego. &#8220;A doença orgânica é uma reação do organismo, uma compensação, com a finalidade de levar o indivíduo a integrar o reprimido, religar o ego ao seu eixo com o Self” (RAMOS, 2018, p.73).</p>



<h2 id="h-quando-o-processo-do-luto-nao-e-vivido-e-simbolizado-mas-sim-reprimido-o-sofrimento-pode-encontrar-vias-corporais-para-se-manifestar-como-tentativa-inconsciente-de-elaboracao-emocional" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Quando o processo do luto não é vivido e simbolizado mas sim reprimido, o sofrimento pode encontrar vias corporais para se manifestar, como tentativa inconsciente de elaboração emocional. </h2>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, as emoções contidas encontram no adoecimento uma maneira de transferir para o corpo a vivência do conflito. &#8220;A somatização é, portanto, compreendida como a conversão de afetos não elaborados em sinais corporais, que incluem fadiga, insônia, alterações imunológicas e sintomas clínicos indefinidos” (TOLEDO; SILVA, 2026, p.46).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Atualmente, alguns estudos confirmam a relação entre o sistema imunológico e eventos psicológicos. Um processo inibitório que é mantido por um longo período, por exemplo, funciona como um estressor cumulativo de longo termo, o que aumenta a probabilidade de adoecimento. Indivíduos que passam por experiências traumáticas, como o luto de alguém amado, e são incapazes de compartilhar o sofrimento com os outros, têm maior probabilidade de manifestar problemas de saúde posteriormente. Essa descoberta relaciona a incapacidade de expressar a dor e a supressão concomitante da imunidade, aumentando o risco de câncer (Cf. RAMOS, 2018, pp. 100-103).</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph"><em>O que esses estudos ilustram</em> <em>é</em> <em>que a não-expressividade de uma emoção forte e negativa, decorrente de luto, ruptura de um relacionamento amoroso ou uma situaçã</em><em>o traum</em><em>ática, constitui um fator que predispõ</em><em>e a uma altera</em><em>ção do funcionamento do sistema imunol</em><em>ó</em><em>gico, deixando o organismo mais vulnerá</em><em>vel</em> <em>à</em> <em>forma</em><em>ção de tumores malignos. (RAMOS, 2018, p.108)</em><em></em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">A repressão e a negação do sofrimento podem proteger a pessoa de entrar em contato com informações dolorosas do inconsciente, mas acabam facilitando a desregulação do sistema imunológico, assim como do sistema endócrino e cardiovascular. A dor que não é elaborada conscientemente acaba ficando aprisionada no complexo e produz sintomas patológicos. Desse modo, a cura implica na tomada de consciência dos conflitos e mecanismos inconscientes, permitindo realizar a transdução dos sintomas da sua polaridade biológica (corporal) para a abstrata, levando a diminuição gradual de sua expressividade patológica e melhorando a saúde geral da pessoa (Cf. RAMOS, 2018, p.193).</p>



<h2 id="h-a-morte-como-renascimento-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp" class="wp-block-heading">A MORTE COMO RENASCIMENTO&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Com o avanço da ciência, houve uma hipervalorização da materialidade, da objetividade, e do racionalismo. A sociedade foi tornando-se anestesiada e perdendo a capacidade de refletir e de se transformar a partir da dor da perda. Para <strong>Hillman</strong> (Cf. HILLAMN, 1993, p.75), é justamente a partir dessas experiências de morte, tanto de alguém que se ama quanto das mortes simbólicas, que a alma se regenera: ao mesmo tempo que há a morte para fora do mundo, acontece a morte para dentro da vida, despertando uma preocupação nova e vital com o que é essencial. &#8220;Pelo fato de o viver e o morrer, neste sentido, terem implicação recíproca, qualquer ato que afaste a morte impede a vida” (HILLMAN, 1993, p.75).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Viver o luto demanda tempo, paciência e o enfrentamento do desconforto. Atravessar por essa dor conscientemente, permite nos refazermos a partir da perda: desapegamos de ideias, sentimentos e emoções, revemos valores e prioridades e até mesmo o estilo de vida. O reconhecimento e aceitação de que nosso ente querido se foi permitem o regresso da motivação para buscar entes queridos vivos, para nos envolvermos em atividades significativas, e assim podemos sentir novamente alegria, criatividade, compaixão e amor. &#8220;Esses sentimentos positivos podem coexistir com os sentimentos dolorosos contidos em nossa experiência humana, incluindo o luto, a saudade, a tristeza, a raiva e a ansiedade” (O’CONNOR, 2025, p.97).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Comportamentos que afastem nossos sentimentos e pensamentos de luto da consciência trazem consequências para o corpo físico. A expressão desses sentimentos, a  aceitação da morte e o modo como lidamos com ela é fundamental para renovarmos nosso modo de compreender a vida e de nossas atitudes diante dela.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/beatriz-whitaker/"><strong>Beatriz Assumpção</strong> &#8211; <strong>Analista em formação</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/liaromano/"><strong>Lia Romano</strong> &#8211; <strong>Analista Didata IJEP</strong></a></p>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">REFERÊNCIAS:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">FRANCO, Maria Helena Pereira. <em>O luto no século 21</em>. Uma compreensão abrangente do fenômeno. 1.ed. São Paulo: Summus, 2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HAN, Byung-Chul. <em>Sociedade paliativa</em>. A dor hoje. 1.ed. Petrópolis: Vozes, 2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HILLMAN, James. <em>Suicídio e alma</em>. 1.ed. Petrópolis: Vozes, 1993.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______<em>Re-vendo a psicologia</em>. 1.ed. Petrópolis: Vozes, 2010.</p>



<p class="wp-block-paragraph">KAST, Verena. <em>Luto</em>. Fases e chances do processo psíquico. 1.ed. Petrópolis: Vozes, 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">RAMOS, Denise Gimenes. <em>A psique do corpo</em>. A dimensão simbólica da doença. 6.ed. São Paulos: Summus, 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph">TOLEDO, Paulo Rubim de; SILVA, Katia Wanderley da. Psicossomatização do luto<em>.</em> Atualizações cientificas sobre os impactos da perda na saúde física e mental. <em>ACiS</em>. São Paulo, vol. 14, n.2, pp.42-53, jun 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O’CONNOR, Mary-Frances. <em>O corpo de luto</em>. Como a dor da perda pode ser uma oportunidade de cura. 1.ed. Rio de Janeiro: Principium, 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



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