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	<title>Arquivos jorge ben jor - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos jorge ben jor - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>O ouro que dança: uma leitura junguiana de A Tábua de Esmeralda, de Jorge Ben Jor</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Nino Karvan]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 30 Oct 2026 12:33:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[alquimia]]></category>
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		<category><![CDATA[simbolismo alquímico]]></category>
		<category><![CDATA[tábua de esmeralda]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo propõe uma leitura do álbum A Tábua de Esmeralda (1974), de Jorge Ben Jor, à luz da psicologia analítica de Carl Gustav Jung. A partir do simbolismo alquímico, estabelece relações entre as canções e o processo de individuação, entendido como caminho de transformação e integração da psique. O disco reúne elementos do cristianismo, hermetismo, ancestralidade africana, amor e espiritualidade, expressando a união dos contrários. A figura de Zumbi evoca a necessidade de confrontar a sombra histórica brasileira, marcada pela escravidão e pelo racismo. O desejo, o corpo e as relações humanas aparecem como dimensões fundamentais dessa transformação. Ao fundir diferentes tradições musicais e simbólicas, Jorge Ben abrasileira a Alquimia. O verdadeiro ouro alquímico, nessa interpretação, não é a perfeição, mas a ampliação da consciência e a capacidade de transformar a própria existência.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<h2 id="h-alquimia-individuacao-e-transformacao-na-musica-popular-brasileira" class="wp-block-heading" style="font-size:19px">Alquimia, individuação e transformação na música popular brasileira</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo:</strong> &nbsp;Este artigo propõe uma leitura do álbum A Tábua de Esmeralda (1974), de Jorge Ben Jor, à luz da psicologia analítica de Carl Gustav Jung. A partir do simbolismo alquímico, estabelece relações entre as canções e o processo de individuação, entendido como caminho de transformação e integração da psique. O disco reúne elementos do cristianismo, hermetismo, ancestralidade africana, amor e espiritualidade, expressando a união dos contrários. A figura de Zumbi evoca a necessidade de confrontar a sombra histórica brasileira, marcada pela escravidão e pelo racismo. O desejo, o corpo e as relações humanas aparecem como dimensões fundamentais dessa transformação. Ao fundir diferentes tradições musicais e simbólicas, Jorge Ben abrasileira a Alquimia. O verdadeiro ouro alquímico, nessa interpretação, não é a perfeição, mas a ampliação da consciência e a capacidade de transformar a própria existência.<strong></strong></p>



<h2 id="h-introducao" class="wp-block-heading"><strong>Introdução</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Lançado em 1974, <em>A Tábua de Esmeralda</em>, de Jorge Ben Jor, que na época assinava apenas Jorge Ben, ocupa um lugar peculiar na música popular brasileira. Suas doze canções aproximam universos aparentemente distantes: alquimia, cristianismo, hermetismo, ancestralidade africana, amor, desejo, história, vida cotidiana e especulação cósmica. O disco começa anunciando a chegada dos alquimistas e, ao longo do seu percurso, encontra Paracelso, Zumbi, Hermes Trismegisto, mulheres amadas, a fraternidade cristã e até a possibilidade de uma origem extraterrestre da humanidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O interesse do artista pela Alquimia se dá após uma viagem à França com o amigo Gilberto Gil, onde visitam a antiga casa do alquimista medieval&nbsp; Nicolas Flamel. O disco, porém, não se trata de um tratado esotérico musicado. A força da obra talvez esteja precisamente no contrário, ou seja, o artista retira a alquimia dos livros herméticos e a coloca para dançar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A partir da psicologia de Carl Gustav Jung, esse movimento adquire uma significação particular. Jung dedicou décadas ao estudo da alquimia quando percebeu que os antigos alquimistas, enquanto acreditavam trabalhar sobre metais, substâncias e operações químicas, projetavam também sobre a matéria processos que ocorriam em sua própria psique. A busca pela pedra filosofal e pela transformação dos metais inferiores em ouro podia ser compreendida, psicologicamente, como imagem de outro processo: a transformação do ser humano em direção à totalidade. É justamente nesse ponto que <em>A Tábua de Esmeralda</em> se torna especialmente fértil para uma leitura junguiana.</p>



<h2 id="h-a-alquimia-como-imagem-da-individuacao" class="wp-block-heading">A alquimia como imagem da individuação</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para Jung, a alquimia forneceu uma espécie de iconografia histórica do processo de individuação. Imagens de decomposição, purificação, união, morte, renascimento e transformação da matéria apresentavam surpreendentes paralelos com aquilo que ele observava nos sonhos e fantasias de seus pacientes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em <em>Psicologia e Alquimia</em>, Jung relaciona explicitamente o simbolismo alquímico ao aparecimento de um novo centro da personalidade: o Self, ou Si-mesmo, como representação da totalidade que engloba consciente e inconsciente.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>Não obstante, defino o “si-mesmo” como sendo a totalidade da psique consciente e inconsciente. No entanto, essa totalidade transcende a nossa visão: é um verdadeiro “lapis invisibilitatis” (pedra da invisibilidade). (Jung,&nbsp; 2017 (f), p.197)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Individuar-se não significa tornar-se perfeito. Significa tornar-se progressivamente aquilo que se é, integrando dimensões da personalidade que haviam permanecido inconscientes, negadas ou projetadas no mundo exterior. O ouro alquímico, portanto, não precisa ser entendido literalmente. O verdadeiro ouro é a transformação.</p>



<h2 id="h-sob-essa-perspectiva-a-primeira-faixa-do-album-funciona-quase-como-uma-abertura-ritual-os-alquimistas-estao-chegando-os-alquimistas" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Sob essa perspectiva, a primeira faixa do álbum funciona quase como uma abertura ritual: <strong>“Os Alquimistas Estão Chegando os Alquimistas”</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Os alquimistas de Jorge Ben são figuras discretas, pacientes e misteriosas. Não pertencem ao universo da exibição; pertencem ao da observação e do trabalho silencioso. Em termos psicológicos, essa atitude se aproxima daquela exigida pelo processo analítico: observar os movimentos da alma, suportar a incerteza e esperar que algo amadureça sem precipitar artificialmente seu aparecimento. O alquimista trabalha com aquilo que encontra. A psicologia profunda também.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>O procedimento é necessariamente muito trabalhoso e demorado. É certo que se fazem muitas tentativas no sentido de abreviar ao máximo a duração do tratamento, mas não se pode afirmar que os resultados tenham sido animadores. Porque quase sempre as neuroses são produto de uma evolução defeituosa, que demorou anos e anos para se formar, e não existe processo curto e intensivo que a corrija. (Jung, 2017 (a).&nbsp; p.35)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Não escolhemos toda a nossa matéria psíquica. Recebemos uma história, um corpo, uma família, uma cultura, feridas, desejos, contradições, sombras e potencialidades. A questão não é livrar-se dessa matéria, mas trabalhar sobre ela. É exatamente do material considerado impuro que a alquimia pretende produzir ouro.&nbsp;</p>



<h2 id="h-o-laboratorio-interior" class="wp-block-heading">O laboratório interior</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Logo depois dos alquimistas surge <strong>“O Homem da Gravata Florida”</strong>, associado à figura de Paracelso, médico e alquimista renascentista. O aparecimento de Paracelso é significativo porque introduz a figura do <strong>curador-alquimista</strong>. Segundo Jung, Paracelso acreditava que:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>O médico precisa, pois, de conhecimentos alquimistas a fim de poder, por analogia, diagnosticar as doenças das pessoas, partindo das doenças dos minerais. E, finalmente, ele mesmo é o sujeito, ou melhor, o objeto do processo de transformação alquimista. Assim torna-se maduro, isto é, evoluído. (Jung, 2017 (d), p. 26)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Na tradição alquímica, curar e transformar não eram necessariamente atividades separadas. Havia uma relação entre transformação da natureza e transformação humana, onde seria possível dizer que o alquimista projetava suas questões inconscientes na matéria que desejava transformar.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>O alquimista vivenciava sua projeção como uma propriedade da matéria; mas o que vivia na realidade era o seu inconsciente. (Jung, 2017 (c) p.261).</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-a-cura-nao-significa-simplesmente-fazer-desaparecer-um-sintoma-e-restaurar-o-individuo-a-condicao-anterior" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">A cura não significa simplesmente fazer desaparecer um sintoma e restaurar o indivíduo à condição anterior.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Algumas crises exigem algo mais radical: que uma forma de existência se desfaça para que outra possa emergir. Nesse sentido, o laboratório alquímico pode ser compreendido como metáfora da própria psique. O recipiente em que as substâncias são colocadas, o <em>vas</em> alquímico, encontra um curioso equivalente no próprio álbum. <em>A Tábua de Esmeralda</em> funciona como um vaso simbólico no qual Jorge Ben reúne materiais aparentemente incompatíveis: África e Europa, Cristo e Hermes, ciência e mito, sensualidade e espiritualidade, história e fantasia, samba e esoterismo. Em vez de eliminar as contradições, o disco as mantém juntas. E essa capacidade de sustentar os opostos é profundamente junguiana.</p>



<h2 id="h-errare-humanum-est-quando-o-ego-olha-para-o-cosmos" class="wp-block-heading">“Errare Humanum Est”: quando o ego olha para o cosmos</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Em <strong>“Errare Humanum Est”</strong>, o horizonte se amplia. A existência humana passa a ser contemplada a partir do cosmos. Surgem perguntas sobre nossa origem, nossa presença no universo e a possibilidade de que a história humana seja muito mais misteriosa do que supomos. Psicologicamente, esse deslocamento é importante. O ego tende a comportar-se como se fosse o centro da personalidade. Para Jung, entretanto, ele é apenas o centro da consciência. A totalidade psíquica é muito maior.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O encontro com o inconsciente frequentemente provoca exatamente essa experiência: descobrimos que existem forças, imagens e movimentos dentro de nós que não foram produzidos deliberadamente pela consciência. Sonhamos sem decidir o que sonhar. Apaixonamo-nos sem escolher inteiramente por quem. Somos tomados por emoções, fantasias e imagens que ultrapassam a vontade racional. O universo de “Errare Humanum Est” pode então ser lido como metáfora dessa descentralização. Diante do cosmos, o homem descobre sua pequenez. Diante do inconsciente, o ego passa pela mesma experiência que está relacionada à força do arquétipo e de sua representação imagética em relação à questão do numinoso.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>Cada vez que um arquétipo aparece em sonho, na fantasia ou na vida, ele traz consigo uma “influência” específica ou uma força que lhe confere um efeito</em> <em>numinoso</em> <em>e</em> <em></em><em>fascinante ou que impele à ação.</em> <em>(Jung. 2017 (f) p. 81)</em><em></em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-o-feminino-e-eros" class="wp-block-heading">O feminino e Eros</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Mas Jorge Ben não permanece nas alturas cósmicas. O álbum retorna continuamente ao corpo, à mulher e ao desejo. <strong>“Menina Mulher da Pele Preta”</strong>, <strong>“Magnólia”</strong> e <strong>“Minha Teimosia, Uma Arma Pra Te Conquistar”</strong> introduzem uma dimensão de Eros que impede que a alquimia do disco se transforme em espiritualidade desencarnada. Uma leitura junguiana tradicional poderia rapidamente associar essas figuras femininas à <em>anima</em>. Entretanto, é preciso certa cautela. Reduzir mulheres concretas e, sobretudo, a mulher negra celebrada por Jorge Ben, a simples representações da “anima masculina” empobreceria tanto a canção quanto sua dimensão cultural.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É mais interessante compreender Eros aqui em sentido amplo: como princípio de relação. A individuação não é um movimento de isolamento narcísico. Tornar-se si mesmo implica também transformar nossa maneira de nos relacionarmos com o outro. E há ainda algo profundamente alquímico no desejo. Desejar é reconhecer que algo nos falta. O objeto amado desestabiliza a autossuficiência do ego. Somos deslocados de nós mesmos pelo encontro com uma alteridade que não controlamos inteiramente. A experiência amorosa pode, por isso, tornar-se também experiência de transformação.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>O erotismo constitui um problema controvertido e sempre o será, independente de qualquer legislação futura a respeito. Por outro lado, pertence à natureza primitiva e animal do homem e existirá enquanto o homem tiver um corpo animal. Por outro lado, está ligado às mais altas formas de espírito. Só florece quando instinto e espírito estão em perfeita harmonia. (Jung, 2017(f), p. 39)</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-zumbi-e-a-sombra-historica-brasileira" class="wp-block-heading">Zumbi e a sombra histórica brasileira</h2>



<p class="wp-block-paragraph">É nesse percurso que aparece <strong>“Zumbi”</strong>, uma das canções decisivas do álbum. Aqui é necessário fazer uma distinção importante em uma leitura junguiana. Não se deve associar simbolicamente “negro” ou “África” à Sombra, operação problemática presente em determinadas leituras europeias antigas do imaginário.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que pode ser pensado como Sombra, neste caso, é outra coisa: <strong>a escravidão e o racismo como conteúdos traumáticos da história brasileira que a consciência coletiva repetidamente tenta negar, minimizar ou recalcar</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Sombra coletiva não é Zumbi. Zumbi é justamente aquele que obriga a consciência brasileira a olhar para sua Sombra. Ao introduzir Palmares, escravidão, violência e resistência dentro de um álbum atravessado pela alquimia, Jorge Ben realiza uma operação extraordinária: impede que a transformação seja compreendida apenas como iluminação espiritual individual. Não existe ouro sem matéria. E não existe transformação coletiva sem confronto com a história.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A individuação, transposta com todos os cuidados necessários para o âmbito cultural, exige também reconhecimento do que determinada sociedade excluiu de sua autoimagem. Zumbi retorna como memória que não aceita ser apagada. É uma imagem de resistência contra o esquecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>&#8230; o terror que recentemente se abateu sobre a humanidade, lançado pelos Estados ditatoriais, constitui o ponto culminante de todas as atrocidades cuja responsabilidade recai sobre os nossos antepassados, num passado não muito remoto. A começar pelas carnificinas, tão frequentes na história europeia, perpretadas pelas nações cristãs, o europeu deve ainda responder por todos os crimes contra os povos de cor durante o período colonial. (Jung, 2017 (e) p.58)</em></p>



<h2 id="h-cristo-hermes-e-a-uniao-dos-contrarios" class="wp-block-heading">Cristo, Hermes e a união dos contrários</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Depois de Zumbi encontramos <strong>“Brother”</strong>, marcada por uma espiritualidade cristã, e mais adiante chegamos a <strong>“Hermes Trismegisto e Sua Celeste Tábua de Esmeralda”</strong>, faixa creditada a Jorge Ben e Fulcanelli. A convivência dessas referências é particularmente interessante. Cristo não expulsa Hermes. Hermes não elimina Zumbi. A África não precisa desaparecer para que apareça o cristianismo. O corpo não precisa ser negado para que exista espiritualidade, pois é justamente essa convivência dos contrários que aproxima o disco de um dos temas centrais da psicologia alquímica de Jung: a <strong>coniunctio</strong>, a união de opostos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em <em>Mysterium Coniunctionis</em>, Jung dedicou-se extensamente ao simbolismo alquímico das polaridades, masculino e feminino, espírito e matéria, ativo e passivo, Sol e Lua, cuja tensão poderia produzir uma terceira realidade, não simplesmente idêntica a nenhum dos polos anteriores. A individuação não consiste em escolher definitivamente um dos lados. Consiste em suportar a tensão entre eles até que seja possível uma nova configuração. Talvez seja isso que musicalmente Jorge Ben faça o tempo inteiro. Sagrado e profano. África e Ocidente. Cristianismo e hermetismo. Terra e cosmos, desejo e transcendência, história e mito. Em vez de resolver essas tensões conceitualmente, ele as faz conviver musicalmente.</p>



<h2 id="h-assim-em-cima-como-embaixo" class="wp-block-heading">“Assim em cima como embaixo”</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A própria Tábua de Esmeralda está ligada a uma das ideias mais conhecidas da tradição hermética: a correspondência entre aquilo que está acima e aquilo que está abaixo. Macrocosmo e microcosmo se refletem. Independentemente da leitura metafísica que se dê a esse princípio, ele possui enorme força psicológica. Para Jung, o símbolo é justamente aquilo que permite estabelecer relações entre dimensões que a consciência racional tende a manter separadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong>O símbolo não explica completamente o mistério; ele oferece uma imagem capaz de contê-lo.</strong><strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Em <em>A Tábua de Esmeralda</em>, o que está em cima encontra constantemente o que está embaixo. O cosmos encontra o violão. Hermes encontra o samba. A pedra filosofal encontra o corpo. A transcendência encontra o amor cotidiano. E talvez esteja aí a operação mais original realizada por Jorge Ben: <strong>abrasileirar a alquimia</strong>. Ele não simplesmente reproduz um imaginário hermético europeu. Coloca-o dentro de uma experiência musical marcada pela matriz africana, pela síncope brasileira, pela corporalidade, pelo cristianismo popular e pela experiência histórica negra.</p>



<h2 id="h-a-musica-como-operacao-alquimica" class="wp-block-heading">A música como operação alquímica</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Há ainda uma última possibilidade de leitura: talvez a verdadeira alquimia de <em>A Tábua de Esmeralda</em> não esteja apenas nas letras. Está no próprio som. O álbum é musicalmente econômico. O violão rítmico de Jorge Ben ocupa posição central, acompanhado por baixo, bateria e percussão, com intervenções de cordas e outros poucos elementos nos arranjos. A crítica destaca justamente essa combinação relativamente simples e extremamente fluida. Mas dessa simplicidade emerge uma música difícil de classificar. Samba, soul, funk, balanço afro-brasileiro, canção popular e experimentação se misturam. Novamente, temos uma operação alquímica: elementos diferentes entram no recipiente e deixam de existir exatamente como eram antes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A mistura produz uma terceira coisa. Talvez seja essa uma das características mais profundas da obra de Jorge Ben: ele não trabalha por purificação no sentido de eliminar influências. Trabalha por combinação. Sua música cresce pela mestiçagem dos materiais. A alquimia benjoriana cozinha, mistura, aquece, transforma e faz dançar.</p>



<h2 id="h-o-ouro-possivel" class="wp-block-heading">O ouro possível</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Jung escreveu que a alquimia conservou, sob imagens obscuras e operações materiais, símbolos fundamentais do processo de individuação. Em sua leitura, aquilo que os alquimistas projetavam sobre a matéria antecipava simbolicamente problemas que a psicologia moderna encontraria no interior da psique. Talvez possamos ouvir <em>A Tábua de Esmeralda</em> nessa mesma chave. Não porque Jorge Ben esteja propondo conscientemente uma teoria psicológica da individuação, nem porque cada personagem ou canção possa ser convertido mecanicamente em algum “arquétipo junguiano”.&nbsp; A força do disco está justamente em permanecer imagem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jorge Ben parece intuir poeticamente aquilo que a alquimia sempre soube simbolicamente: <strong>a transformação não ocorre pela rejeição da matéria, mas através dela</strong>. É preciso atravessar o corpo, o desejo, a história,&nbsp; a ancestralidade , a dúvida, a paixão, a injustiça, a espiritualidade, a sombra. Não há pedra filosofal fora da matéria bruta da existência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse sentido, talvez o verdadeiro ouro procurado em <em>A Tábua de Esmeralda</em> não seja uma substância secreta nem a promessa de perfeição. O ouro é uma consciência capaz de suportar maior complexidade. Uma consciência na qual Hermes pode encontrar Zumbi; Cristo pode conviver com o alquimista; a África pode encontrar o cosmos; o espírito pode habitar o corpo e o mistério pode aparecer no meio de uma canção popular. É esse talvez o grande gesto alquímico de Jorge Ben. Quase cinquenta minutos de música popular transformam um antigo imaginário hermético em experiência brasileira, negra, amorosa, espiritual e corporal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jorge Ben toma a velha pergunta dos alquimistas, &nbsp;“<strong>como transformar a matéria?</strong><strong>”</strong> Ele parece responder musicalmente com outra: <strong>como transformar a vida sem deixar de dançá-la?</strong> <strong></strong>Talvez seja justamente aí que esteja sua pedra filosofal.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/nino-karvan/">Nino Karvan – Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



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<h3 id="h-referencias" class="wp-block-heading">Referências:</h3>



<p class="wp-block-paragraph">BEN, Jorge. <em>A Tábua de Esmeralda</em>. Rio de Janeiro: Philips, 1974.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A prática da psicoterapia. Petrópolis: Vozes, 2020.(a)&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>Mysterium Coniunctionis</em>. Petrópolis: Vozes, 2020. (b)</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. O espírito na arte e na ciência. Petrópolis: Vozes, 2020. (c)</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. &nbsp;<em>Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo</em>. Petrópolis: Vozes, 2020. (d)</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Presente e futuro. Petrópolis: Vozes, 2020. (e)</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Psicologia do inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2020. (f)</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>Psicologia e Alquimia</em>. Obras Completas, Petrópolis: Vozes, 2020. (g)</p>



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