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	<title>Arquivos LGBTQIA+ - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos LGBTQIA+ - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Barbies, Ursos e Mitologias Gays</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/barbies-ursos-e-mitologias-gays/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gabriel Andrade]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 10 Aug 2022 19:09:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Gênero]]></category>
		<category><![CDATA[LGBTQIA+]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[Homossexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Esse artigo traz uma reflexão sobre o curioso hábito da comunidade gay masculina de se classificar em uma miríade de tribos. Qual o motivo dessas classificações e como podemos entender esse fenômeno na clínica?</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Barbies, ursos, pocs, twinkies, twunks, lontras, discretos, pintosas e mais. A profusão de tribos que a comunidade gay (aqui só o G do LGBTQIA+ mesmo) usa para se classificar pode ser um tanto estranha para quem a observa de fora. Trata-se de uma tipologia que varia, tanto geograficamente quanto com o tempo, mas que sempre marca a diferença entre corpos e comportamentos. Mas o que há por traz desse afã classificatório? Esse artigo busca entender, a luz da psicologia junguiana, porque esse sistema de tribos existe na comunidade gay e como isso repercute na psique desses homens.</p>



<p>Primeiramente, é necessário dizer que essa tipologia não é de forma alguma universal. Como dito anteriormente, ela é variável, tal qual as gírias, dependem do local e mudam com o tempo. Nesse sentido se assemelham muito com as tribos adolescentes. Mas enquanto as tribos adolescentes se organizam em torno, geralmente, de interesses comuns como músicas e hobbies, a tipologia gay é marcadamente focada em corpos e comportamentos. Há título de exemplo podemos falar de algumas classificações comuns nesse mundo: barbies são gays com corpos malhados, podendo ser mais ou menos masculinos, ursos são gays geralmente gordos e peludos e mais masculinos, lontras são peludos como ursos mas magros, discretos evitam transparecer qualquer traço de feminilidade enquanto uma pintosa será tudo menos masculina. Há também as classificações que marcam diferenças socioeconômicas e etárias, mas essas surgem dentro de um contexto de chacota e dificilmente alguém quer ser entendido como uma bicha pão-com-ovo (de baixa renda) ou uma cacura (um gay mais velho).</p>



<p>&nbsp;Para quem não está familiarizado com esses termos essa taxonomia pode muito bem causar um bocado de estranhamento, mas talvez o estranhamento seja uma abordagem interessante para o fenômeno, afinal, por que seria interessante classificar pessoas dessa maneira? Afinal, é estranho que um grupo que já é marginalizado queira entre seus pares gerar mais categorias e eventual (re)marginalização. Também é estranho porque entre heterossexuais não existe de maneira tão patente esse fenômeno. É interessante notar aqui que também existe tal fenômeno entre mulheres lésbicas, mas em menor grau.</p>



<p>A primeira explicação possível para tal fenômeno seria sociológica. Essa classificação faz parte de um jogo de desejo, valor e pertencimento. O que faz bastante sentido, mas não parece bastar, afinal, esses jogos não são exclusividade da comunidade gay. Deve haver algo específico nas vivências gays que favoreçam o surgimento dessas classificações</p>



<p>Talvez a primeira pista resida na natureza dessas classificações: são iminentemente superficiais, focadas em aspectos visuais e padrões de comportamento, e são, obviamente, coletivas como qualquer classificação social seria. Podemos imaginar então que essas classificações se ordenam dentro do reino da persona. Mas seria razoável imaginar essas categorias como personas?</p>



<p>Em Os Arquétipos do Inconsciente Coletivo Jung diz que “Exagerando um pouco, poderíamos até dizer que a persona é o que não se é realmente, mas sim aquilo que os outros e a própria pessoa acham que se é.” (JUNG, 2014, §221) Nesse sentido, as classificações das tribos gays funcionam como personas, estando pautadas essencialmente naquilo que pode ser visto pelos outros, o corpo e uma postura mais masculina ou feminina. Em outro trecho Jung diz que “A persona é uma aparência, uma realidade bidimensional, como se poderia designá-la ironicamente.” (JUNG, 2015, §246). Considerando a natureza quase caricata de uma classificação como barbie ou urso, poderíamos dizer que essas classificações se aproximam do conceito de persona.</p>



<p>Mas observemos outra definição para persona, dessa vez do livro Tipos Psicológicos: “A persona é, pois, um complexo funcional que surgiu por razões de adaptação ou de necessária comodidade, mas que não é idêntico à individualidade.” (JUNG, 2013, §735). &nbsp;Podemos dizer que as classificações das quais estamos tratando se enquadram nessa definição? Afinal tais classificações adaptam alguém a sociedade? A sociedade em geral com certeza não, mas definitivamente podem servir para se navegar dentro da comunidade gay. Obviamente, uma persona só faz sentido dentre aqueles que reconhecem aquele “personagem”, então apenas entre quem entende o que é um twink, fara sentido ser ou não ser um twink. &nbsp;</p>



<p>É talvez seja esse o ponto central desse artigo: tais classificações, por pior que sejam, estão de alguma maneira servindo para que indivíduos transitem dentro da comunidade gay. Esses personagens estão na realidade pautando maneiras de se ser gay, dando imagens a vivências múltiplas do que é ser um homossexual masculino. Obviamente categorias não possuem a complexidade nem a potência de personas mais antigas e elaboradas como personas profissionais, por exemplo, nem tão pouco costumam ser de tamanha importância para o indivíduo quanto essas. Mas não deixam de pautar as subjetividades e ordenar vivências. Contudo o leitor há de perguntar, não são essas classificações muito pobres e superficiais? E uma resposta sincera seria sim, são. Mas há uma razão para essa superficialidade: a escassez de narrativas de vida homossexuais nas quais se pautar. Poderíamos até dizer, uma escassez de mitologia que dê conta dessas subjetividades.</p>



<p>E aqui entra o segundo ponto desse artigo: de onde homens homossexuais estão retirando material para entender a própria vivência relacional? &nbsp;Primeiramente a maioria dos homossexuais adultos de hoje não teve contato com histórias de vida de outros homossexuais enquanto cresciam, já deixando um vácuo de referências do que é ser gay. Já na mídia até pouco tempo era quase inexistente na mídia de amplo alcance narrativas sobre personagens homossexuais (sejam homens ou mulheres). Os poucos personagens homossexuais que surgiam costumavam ser vilões ou estar em algum tipo de papel cômico, geralmente jocoso. Havia poucas representações saudáveis possíveis para um homem gay nessas narrativas. Mesmo em produções que tratavam de questões LGBTQIA+ as narrativas não costumavam ser mais favoráveis, visto que, por muito tempo, quase todas tratavam mais dos aspectos trágicos dessas condições, e, por melhor que o filme seja, é difícil imaginar uma vida a dois feliz com O Segredo de Brokeback Mountain como horizonte. E se nessas duas instâncias o material já é pobre, não há nem o que se dizer em relação a disponibilidade de material mitológico e literário acerca do tema.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Essa aridez narrativa pode ter sido uma das forças motrizes para o surgimento dessas classificações. Na ausência de boas histórias com bons personagens, foi surgindo uma plêiade de estereótipos mais ou menos caricatos para tentar dar conta de subjetividades que não se encontravam representadas facilmente. Obviamente, isso tem um custo psíquico para os indivíduos que passam a se identificar com esses papéis, como lembra Jung:</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; “Essas identificações com o papel social são fontes abundantes de neuroses. O homem jamais conseguirá desembaraçar-se de si mesmo, em benefício de uma personalidade artificial. A simples tentativa de fazê- lo desencadeia, em todos os casos habituais, reações inconscientes: caprichos, afetos, angústias, ideias obsessivas, fraquezas, vícios etc. O “homem forte” no contexto social é, frequentemente, uma criança na “vida particular”, no tocante a seus estados de espírito. Sua disciplina pública (particularmente exigida dos outros) fraqueja lamentavelmente no lar e a “alegria profissional” que ostenta mostra em casa um rosto melancólico. Quanto à sua moral pública “sem mácula”, tem um aspecto estranho atrás da máscara – e não falemos de atos, mas só de fantasias: suas mulheres teriam muitas coisas para contar. Quanto ao seu abnegado altruísmo, a opinião dos filhos é outra.” (JUNG, 2015, §307)</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Que poderíamos então imaginar de um homem gay que chegue na análise identificado com um desses personagens? Que neuroses estariam ocultas por trás dos esforços para ser uma barbie? O que ocultaria um orgulho exagerado em ser um urso? A que custos ocorre a performance necessária para ser entendido como discreto? Certamente, cada caso precisa de atenção própria e estender generalizações talvez só nos leve de volta para a superficialidade que essas classificações trazem a princípio. De qualquer forma, uma das funções da análise nesses casos seria alargar os horizontes imaginais da experiência do que é ser um homem gay. Para além dos estereótipos postos, quem é o indivíduo por trás da máscara? A pessoa que existe por trás de um desses personagens bidimensionais necessariamente será muito mais interessante do que qualquer classificação da conta, mas talvez ela não tenha boas maneiras de contar a sua história para si própria.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Para esses indivíduos a análise talvez possa ser um lugar para reverter essa aridez de narrativas. Mesmo que não tenhamos uma ampla disponibilidade de narrativas mitológicas sobre homossexualidade masculina elas existem. E para muitos casos será útil valer-se desses mitos para encontrar formas mais interessantes de se imaginar gay. Talvez a parceria entre Gilgamesh e Enkidu possa ensejar uma discussão sobre dinâmicas de casal. Ou talvez o caso de Ossaim seduzindo Oxóssi possa ajudar numa discussão sobre as consequências de se mudar para a casa do namorado. Certamente, o rapto de Ganimedes por Zeus também poderá dizer algo sobre a condição de homens gays. As incursões amorosas de Apolo com seus parceiros masculinos, no entanto, provavelmente só renderão ampliações para cenários menos favoráveis.</p>



<p>Mas se na mitologia não encontrarmos algo que nos seja interessante a produção cultural dos últimos tem proporcionado novos personagens (agora mais complexos e menos abjetos) que também podem ajudar num processo de se reinventar gay. Recentemente, a série Heartstopper, adaptada do quadrinho de mesmo nome, traz o retrato de um amor adolescente entre dois rapazes, algo impensável há uma década num programa de TV. O filme Me Chame Pelo Seu Nome trata do tema do primeiro amor (e da primeira decepção amorosa). Filmes como De Repente Califórnia e Delicada Atração mostram casais gays que se formam, mesmo perante adversidades. Weekend relata o relacionamento efêmero, mas intenso entre dois homens ao longo de um fim de semana. E mesmo numa série humor, o relacionamento de Mitchell e Cameron de Modern Family talvez ajude alguém a se entender como parte de um casal. Obviamente os filmes de abordagem mais trágica e de crítica social como Brokeback Mountain, Filadélfia, Garotos de Programa e Maurice também podem ser muito interessantes no contexto da análise, mas é sem dúvida um alívio que não tenhamos apenas filmes tristes.</p>



<p>Certamente há muito mais nesse curioso hábito classificatório do que esse artigo da conta. Mas espero que esse possa ajudar analistas, analisandos e curiosos a expandir um pouco suas visões sobre a questão das identidades gays. A verdade é que não existe um jeito só de se ser homossexual (como não existe um jeito só de se ser heterossexual) e é necessário abandonar classificações e papéis que absorvemos em nossa trajetória, tenham elas vindo de uma sociedade heteronormativa ou de dentro da própria comunidade LGBTQIA+. Tais classificações, afinal, acabam por limitar as experiências e subjetividades do indivíduo. As temáticas LGBTQIA+ praticamente inexistem na obra junguiana, e nem poderia ser diferente, seria absolutamente anacrônico esperar o contrário. Mas isso não significa de maneira alguma que a clínica junguiana não tenha muito a oferecer aos homossexuais. Na análise podemos buscar formas de existir que sejam não só mais saudáveis, mas que também estejam em maior consonância com o Self e o processo de individuação da pessoa.</p>



<p>Gabriel Andrade – Analista em Formação pelo IJEP</p>



<p>Waldemar Magali &nbsp;&#8211; Analista Didata</p>



<p>Bibliografia</p>



<p>JUNG, C. G. O Eu e o Inconsciente. 27.ed. Petrópolis, Vozes, 2015</p>



<p>______. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. 11.ed. Petrópolis, Vozes, 2014</p>



<p>______. Tipos Psicológicos. 7.ed. Petrópolis, Vozes, 2013</p>



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			</item>
		<item>
		<title>A cura gay &#8211; LGBTQIA+</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-cura-gay-lgbtqia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Jun 2022 15:38:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quando me perguntam se meu trabalho como analista junguiano cura gays, e toda gama das expressões LGBTQIA+, prontamente respondo que o propósito maior da minha atividade profissional, que deveria ser a de todo profissional de ajuda e da saúde, é o de promover a cura, que implica o cuidar, por meio do autoconhecimento, ativando o curador interno que existe em cada um de nós, no maior número possível de pessoas, incluindo os LGBTQIA+. Este ensaio reflete esse tema, incluindo a Homofobia e a Heteronormatividade como instrumentos do poder patriarcal.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>A CURA GAY &#8211; LGBTQIA+</p>


<p>Ultimamente, por conta do tema da &#8220;<strong>cura gay</strong>&#8220;, vários clientes e alunos me interpelam em busca de compreensão e ampliação tanto do famigerado projeto de lei de 2016, que tem esse nome, e da atual visibilidade e influência que indivíduos com vários tipos de ativismos literais, unilaterais e preconceituosos, incluindo a <strong>homofobia</strong>, estão tendo na política e na mídia. Infelizmente, isso reflete a falta de sensibilidade dos nossos políticos diante da natureza humana e a permissividade do judiciário que deveria estar agindo para punir e interditar todos eles. É incrível, e triste, como que a maioria desses “políticos” só age em causa própria, defendendo seus interesses pessoais e fazendo tudo para poder aparecer e se perpetuarem no poder, retroalimentando a <strong>Homofobia</strong> e a <strong>Heteronormatividade</strong> como instrumentos do poder patriarcal.</p>
<p><!-- /wp:post-content --><!-- wp:paragraph --></p>
<p>Antes de tudo, precisamos compreender o significado da palavra &#8220;cura&#8221;. O conceito de cura, nas visões da <strong>psicologia junguian</strong>a, <strong>arteterapia</strong> e <strong>psicossomática</strong>, vai muito além da supressão dos sintomas, porque a cura implica na cicatrização das férias com integralidade, plenitude e consistência do ser, tornando-o comprometido, de forma consciente e consequente, com o seu caminho da realização existencial, para que sua vida tenha sentido, amorosidade, significado e propósito de servir, com liberdade e autonomia, prerrequisitos necessários para a conquista da felicidade.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Cura deveria ser sinônimo de cuidado e inteireza</strong>, que depende da contínua relação do eu com o inconsciente, proporcionando autoconhecimento, por meio da compreensão dos aspectos sombrios e do reconhecimento da presença dos vários tipos de complexos que habitam nosso íntimo. Essa condição é que vai possibilitar a capacidade de resiliência diante das possíveis adversidades e traumas, fazendo com que o indivíduo possa identificar, diferenciar, compreender e aceitar suas potencialidades, fraquezas, incongruências e distonias. A palavra cura também é usada no processo de consistência e resistência de materiais como concreto, cimento, polímeros e até do queijo, que também passa por um procedimento de cura para atingir sua melhor consistência e sabor.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --></p>
<p>Desta forma, quando me perguntam se meu trabalho como <strong>analista junguiano</strong> cura gays, e toda gama das expressões<strong> LGBTQIA+</strong>, prontamente respondo que o propósito maior da minha atividade profissional, que deveria ser a de todo profissional de ajuda e da saúde, é o de promover a cura por meio do autoconhecimento, ativando o curador interno que existe em cada um de nós, para que o maior número possível de pessoas, incluindo a comunidade<strong> LGBTQIA+</strong>, a partir do autoconhecimento aprendam a se respeitarem, aceitando suas peculiaridades e idiossincrasias, com qualidades, potencialidades e defeitos, para adquirirem amor próprio e autonomia no sentido da realização do si-mesmo, assumindo a integralidade da sua essência.</p>
<p>O autoconhecimento possibilita o surgimento da autoconsciência e a capacidade de lidar com as tensões naturais entre o eu e o inconsciente, a persona e a sombra, o individual e o social, entre outras. Por isso, tenho orgulho em afirmar que meu objetivo como <strong>analista junguiano</strong> e atuar como um espelho, o menos deformado possível, criando condições para que o compromisso com a cura seja atingido tanto para <strong>heterossexuais</strong> quanto para os <strong>LGBTQIA+</strong>.  Neste sentido, posso afirmar que, ao longo de mais de 40 anos atendendo almas humanas, tive o prazer de ajudar muitas pessoas se aproximarem da sua integralidade, assumindo suas essências e respeitando sua natureza, com orgulho e respeito, independentemente de estarem alinhados com a <strong>heteronormatividade</strong>, vivendo e vivenciando, harmoniosamente, seu desejo e sua orientação sexual, sua identidade e aparência de gênero, não permitindo que ninguém transforme sua condição, que pode ser diferente da maioria, em desigualdade.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --></p>
<p>Gênero tem a ver com gene. Biológica e geneticamente falando, não existe possibilidade de gênese de vida sem os pares de opostos complementares advindos do androcentrismo e do ginocentrismo. <strong>Carl Gustav Jung</strong>, na sua teoria, nos apresentou os <strong>arquétipos</strong> da <strong>Anima</strong> e do <strong>Animus</strong>, que representam a polaridade opositiva com a identificação de gênero do Ego, que pode tender mais para o espectro masculino ou feminino, independentemente de estar alinhada com a orientação sexual e a herança genética ser XX ou XY. Porém, precisamos lembrar que não atendemos categorias, classificações, rótulos ou estereótipos, porque cada ser humano é, apesar da universidade e do determinismo do inconsciente, único, complexo e criativo, apesar de que muitas pessoas padecem com suas condições<strong> egodistônicas</strong>.</p>
<h2>Qual objetivo da análise junguiana atendendo homossexuais, homofóbicos e heteronormativos?</h2>
<p><!-- /wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --></p>
<p>É obvio que, <strong>se o indivíduo está em conflito</strong> entre seu sexo biológico, sua orientação ou desejo sexual, sua identidade de gênero ou a forma da sua expressão ou aparência de gênero, isso irá produzir muita dor e sofrimento, que é significativamente amplificada por conta deste patriarcado <strong>falocêntrico</strong>, com toda sua discriminação e preconceito estrutural desta contemporaneidade hipócrita com sua <strong>heteronormatividade</strong>, por se julgar conservadora mas que, na realidade, é absolutista, retrograda e exageradamente patriarcal, interditando o surgimento do dinamismo da alteridade, para termos equidade, inclusão, respeito, igualdade, empatia e amorosidade com todas as formas, expressões e diversidade de vida, independente de gênero, raça, credos, origem e cultura.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Quando existe o conflito e sofrimento psicológico</strong>, temos que contribuir para que essa distonia entre o ego e a alma fique menos exagerada, da mesma forma que também não é interessante a unilateralidade, porque esta é igualmente patológica. Nos primórdios da psicanálise era nomeado de <strong>egossintonia</strong> os indivíduos que tinham comportamentos, valores e sentimentos harmonizados com as normas, regras e moral dominante, e de <strong>egodistonia</strong> para aqueles que que estavam em conflito, gerando muito sofrimento psíquico. Lembrando que a alma não é moral e nem sede as regras morais, que são códigos de conduta cultural. Mas quando damos vazão a ela o que surge é a ética e esta é muito mais abrangente do que a moral, apesar de muitas vezes entrar em rota de colisão com ela.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --></p>
<p>O inconsciente, por conta da sua potencialidade arquetípica, é universalista e, de certo modo, determinista, quando negado e interditado de realizar-se no nosso existir! Neste caso, seus conteúdos, que não foram reconhecidos e realizados pelo ego, tornam-se destino cego e trágico, na forma de projeção da sombra, no nosso entorno relacional, ou nos invadem autonomamente, numa espécie de possessão dos conteúdos sombrios, produzindo os mais variados tipos de sintomas físicos e ou psíquicos! Por isso, o autoconhecimento e a conexão com o si-mesmo, despotencializando a ilusão do poder e o monoteísmo da razão, são tão necessários para que o amor, a saúde e a plenitude da vida, com sentido e significado, aconteçam!</p>
<p><!-- /wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --></p>
<p>Um outro problema é que muitas pessoas fanáticas, preconceituosas e alienadas de si mesmas, tendem a transformar o diferente em desigual e, no caso da <strong>homossexualidade</strong> e toda forma de expressão <strong>LGBTQIA+</strong>, de forma leviana e perversa, também associam à<strong> promiscuidade</strong>. Porém, é importante deixarmos claro que <strong>promiscuidade</strong>, corrupção e falta de ética são práticas inerentes de todas as pessoas egoístas e ignorantes, que na realidade são inseguras e, na maioria das vezes, fogem desesperadamente daquilo que discriminam e atacam, por não conseguirem reconhecer ou lidar com essas tendencias nelas mesmas refugiando-se, iludidamente, na busca de poder.</p>
<h2>A homofobia estrutural e a heteronormatividade transformam a homossexualidade em doença ou em crime.</h2>
<p>Psicologicamente, quanto mais elas conquistam poder, mais tentam projetar suas sombras nos diferentes e nas minorias, mais se afastam do amor. Por isso, o processo do autoconhecimento promove a cura e a ética, como resultante, eliminando os impulsos <strong>promíscuo</strong>s, corruptos, fanáticos e de poder, tanto de <strong>heteros</strong> quanto de<strong> gays</strong>. Acho que seria muito mais interessante pensarmos num projeto de lei para promover a reversão corrupta dos políticos, curando-os! Isso seria muito mais interessante e teria muito mais efeito social. Porque, se os políticos forem curados, certamente, eles investirão pesadamente na educação e, com isso, toda a diversidade será compreendida como uma enorme diversão existencial, com amor, igualdade, fraternidade e liberdade para todos!</p>
<p>Na obra de Jung até tem alguns relatos em que ele dá a entender que aconteceu uma espécie de &#8220;reversão&#8221; da homossexualidade masculina em alguns casos que ele expõe. Porém, isso não tem nada a ver com a psicopatologização da homossexualidade, porque ele trabalhou o sofrimento psíquico do cliente. Os casos em que Jung relata essa mudança de atitude da orientação sexual aconteceram quando a homossexualidade era reativa, e não essencial, e isso estava deixando o indivíduo em contínua crise, dor psicoafetiva e incapacidade de acontecer a adaptação para a vida e sua consequente evolução. Como já citei anteriormente, a cura tem a ver com a aceitação da natureza peculiar de cada um e a realização do si-mesmo, independentemente do não alinhamento entre o gênero biológico e os padrões heteronormativos. Nosso trabalho é o de contribuir para que todos os indivíduos possam conseguir se entregar para o mistério da conjunção (Mysterium Coniunctionis) da integração dos <strong>princípios masculinos</strong> e <strong>femininos</strong>, as bodas místicas da união do sol com a lua ou o ouro e a prata, para que possa ser alcançada dimensão do Rebis, o hermafrodita ou andrógeno espiritual! O resultado desta integração eliminará a segregação e a desigualdade entre os gêneros no mundo exterior, porque o andrógeno espiritual nos possibilita acolher todas as expressões de gênero que é a verdadeira <strong>cura gay</strong>!</p>
<p><!-- /wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>WALDEMAR MAGALDI FILHO</strong>, Psicólogo, especialista em <strong>Psicologia Junguiana</strong>, Psicossomática, <strong>Arteterapia</strong> e Homeopatia. Mestre e doutor em Ciências da Religião. Autor do livro: &#8220;<strong>Dinheiro, Saúde e Sagrado</strong>&#8221; &#8211; Ed. <strong>Eleva Cultural</strong>. Coordenador e professor dos cursos de especialização em <strong>Psicologia Junguiana</strong>,<strong> Arteterapia</strong> e <strong>Psicossomática</strong> do <strong>IJEP</strong> &#8211; Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa (<a href="https://www.ijep.com.br/">www.ijep.com.br</a>)</p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p><p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-cura-gay-lgbtqia/">A cura gay &#8211; LGBTQIA+</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>DRAG QUEENS, FEMININO E OS GAYS</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/drag-queens-feminino-e-os-gays/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Mauro Angelo Soave Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 27 Oct 2021 14:31:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[LGBTQIA+]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo busca explorar a performance artística das drag queens. Buscando entender a relação com o feminino interior dos artistas e seu impacto no público. Como manifestação artística, entende-se que a performance apresenta aspectos inconscientes e que podem nos ajudar a entender a relação com o feminino, principalmente nos homens gays.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/drag-queens-feminino-e-os-gays/">DRAG QUEENS, FEMININO E OS GAYS</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-image is-resized"><img fetchpriority="high" decoding="async" src="https://www.ijep.com.br/img/artigos/artigo_550.jpeg" alt="DRAG QUEENS, FEMININO E OS GAYS drag queens" width="588" height="909"/></figure>



<p>Este artigo busca explorar a performance artística das drag queens. Quem seria essa personagem que surge nos palcos dos bares e boates LGBT, comanda o início do movimento por direitos LGBT e agora ocupa os holofotes da televisão e da música? Que aspectos podem ser observados nessa performance e por que tem uma associação tão forte com os homens gays? Aliás, o que é uma drag queen?</p>



<p>Drag queens são artistas que fazem uso da feminilidade estereotipada e exacerbada, em sua maioria homens “fantasiados” de mulher (JESUS, 2012, p. 18). Não se trata de como o indivíduo se sente em relação à sua própria percepção, tanto interna quanto externa, na verdade é o que ele faz como expressão artística. A drag queen não tem nenhum compromisso com a mulher real, se passar por mulher ou ainda ser confundida com uma mulher nas ruas, mas sim de personificar um feminino, um constructo que pode conter várias mulheres como observado por Greaf (2015, p. 4). Esse compromisso com a realidade só é observado quando esses artistas buscam personificar uma pessoa real, geralmente uma grande diva ou referência feminina.</p>



<p>A arte&nbsp;<em>drag</em>&nbsp;pode ser performada por qualquer pessoa. Vale lembrar que a drag não possui relação estrita com identidade de gênero ou orientação sexual do artista, e essa arte também foi chamada no Brasil de transformismo, sendo o termo “<em>drag queen</em>” uma importação linguística (Cf. AMANAJÁS, 2014, p. 3; JESUS, 2012). Mesmo assim essas artes foram se diferenciando ao longo do tempo, onde o ator transformista, continuou sua existência em programas de TV, palcos de teatro, a&nbsp;<em>drag queen</em>&nbsp;seguia em outro universo estético e simbólico, com indumentárias exageradas, referenciadas por ícones da moda e drag queens americanas (Cf. SANTOS, 2014, p. 197).</p>



<p>O termo&nbsp;<em>drag</em>&nbsp;puro e simples é uma gíria inglesa antiga de bastidores do teatro, para o uso de roupas de mulher por homens, hoje em dia é atualizado para definir inclusive mulheres que se vestem como homens (a exemplo&nbsp;<em>drag king</em>).&nbsp;<em>Drag queen</em>&nbsp;é um termo criado usando puramente gírias gays (no inglês, queen é uma maneira que os gays usam para se referir a outro gay) que para Baker (1994) é o termo que melhor define essa arte, principalmente por ligá-la ao mundo gay automaticamente, no entanto nem todos os artistas que realizam essa performance acham que é o melhor termo para defini-la (BAKER, 1994, p. 17-8).</p>



<p>Ao longo do tempo, vestir-se de mulher, foi ganhando cada vez mais valor para a comunidade gay. “Em uma sociedade dominada pelo masculino, com papéis sexuais cada vez mais definidos, um homem se vestir de mulher era sequer tolerado como piada; era algo irracional, ameaçador” (BAKER, 1994, p. 110). “É importante notar que não é a&nbsp;<em>drag&nbsp;</em>em si que significa homossexualidade, mas as ações e trejeitos dos homens que o fazem – e o efeito disso nas testemunhas” (BAKER, 1994, p. 113).</p>



<p>Valores negativos são atribuídos à homossexualidade e ao feminino pela sociedade. Todos, inclusive os homens, sofrem com essa repressão, mas os meninos gays mais próximos da feminilidade, ou efeminados, são afetados de maneira mais intensa por essa mensagem negativa, gerando dessa forma uma negação do eros e um ódio a todo tipo de manifestação do mesmo, chamada de “homofobia internalizada”, que leva à criação de personas mentirosas e aprisionadoras em troca da aceitação social, tudo isso às custas da própria alma (Cf. BARCELLOS, 2011, p.70).</p>



<p>Homens com um feminino aparente, principalmente os homens gays, são obrigados a reprimir esse lado para sobreviver à violência psicológica e até física que lhes é imposta. Como o feminino (ainda) é percebido na sociedade atual como inferior, fraco e indesejado, ser homem e ter comportamentos femininos é praticamente uma ofensa. Ter um lado feminino é considerado uma fraqueza e dessa forma, deve ser escondido, muitas vezes compensado, por uma persona encarceradora e opressora.</p>



<p>“O homem considera uma virtude reprimir da melhor maneira possível seus traços femininos [&#8230;]. A repressão de tendências e traços femininos determina um acúmulo dessas pretensões no inconsciente” (JUNG, 2011, p. 79). Nesse sentido, homens que apresentem comportamentos tidos como femininos, algo que, apesar de não ser necessariamente um significado de homossexualidade, é mais observável em homens gays, tendem a ter um acúmulo maior de pretensões femininas em seu inconsciente, muito provavelmente em sua sombra. Ainda nesse sentido, Jung (2011, p. 79) continua: “[&#8230;] o homem, em sua escolha amorosa, sente-se tentado a conquistar a mulher que melhor corresponda à sua própria feminilidade inconsciente: a mulher que acolha prontamente a projeção de sua alma”. Nos casos em que a mulher não é o interesse amoroso e/ou sexual, a feminilidade inconsciente pode, então, se projetar de outras maneiras: amor fraternal, identificação, admiração e idolatria daquelas mulheres que correspondem ao feminino inconsciente, ao mesmo tempo a tarefa de integrar esse feminino ainda existe. Jung não aborda essas outras formas de afeto ao feminino pelo homem, ele afirma que no caso do homem homossexual, o componente de heterossexualidade do filho fica preso à mãe (JUNG, 2000, p. 95), sendo então essa uma assunção minha.</p>



<p>Greaf (2015, p. 5) diz que na performance de uma&nbsp;<em>drag</em>, podem ser encontradas várias mulheres, ou várias características femininas, no entanto, considerando que as barreiras de gênero (masculino/feminino) não são tão definidas como se pensava, não podemos definir a personificação da drag como hiperfeminina, mas um feminino masculinizado, ou ainda, a captura de uma construção social do que seria uma mulher para a construção de um personagem. A personagem drag seria uma manifestação do feminino apreendido por meio dos olhos e do corpo de um homem, no entanto não se trata de uma imitação, o intérprete assume sua personalidade feminina temporariamente, performando o feminino de acordo com os estereótipos vigentes (BRAGA, 2018, p. 27) ou apreendidos. Essa descrição da personagem drag vai de encontro à definição de&nbsp;<em>anima</em>&nbsp;de Jung. Nesse sentido a mulher expressa na personagem&nbsp;<em>drag</em>&nbsp;é uma imago projetada da&nbsp;<em>anima</em>, com características sombrias, apreendida e expressa pela consciência masculina, muito provavelmente pelo complexo materno, por isso a personagem da drag tende a ser uma mulher com atitude fálica, pois a libido vai para a criação, em seu próprio corpo, dessa imago idealizada.</p>



<p>Nenhuma mulher é como uma&nbsp;<em>drag queen</em>&nbsp;[&#8230;], elas carregam de forma tão exagerada os signos ligados ao feminino que é como se, além de ultrapassar a fronteira entre os gêneros, essa figura explodisse o outro lado, ou seja, a própria ideia de feminino que fazemos hoje. Ela o faz sobretudo na sua atitude predominantemente fálica no espaço público. Ela assedia, seduz, provoca e é ao mesmo tempo um ser impenetrável (MALUF, 1999, p. 274-5).</p>



<p>O ritual de se fazer&nbsp;<em>drag queen</em>&nbsp;é chamado de “montação”, pois é diferente do ato de apenas se vestir de mulher. Se montar implica em se transformar de maneira temporária em um ser feminino com referência à imago da mulher, de maneira exagerada e exacerbada. Nesse processo o homem se transforma em uma mulher simbólica e manifesta características reprimidas ou sombrias de sua personalidade sob uma máscara feminina.</p>



<p>A montação não é um ato simples, mas um ritual de transformação; é criar e expressar a personagem&nbsp;<em>drag</em>&nbsp;por meio do próprio corpo, em que o masculino vai se escondendo e o feminino vai aparecendo. Psicologicamente pode-se dizer que essa mulher inconsciente vai emergindo à medida em que é investida de libido (maquiagem, figurino, peruca) enquanto o homem, ou o ego masculino, vai submergindo, mas sem de fato afundar. A&nbsp;<em>drag</em>&nbsp;é o encontro desses dois aspectos.</p>



<p>A performance&nbsp;<em>drag</em>, por trazer o elemento feminino de maneira tão exuberante, de alguma maneira se relaciona com a construção da imagem do feminino no inconsciente do homem gay, e sua manifestação consciente pode ser uma demonstração do fascínio pela anima, ou ainda, a descoberta de um feminino que por ser tão reprimido, agora quer compensar essa vida na sombra por meio da exacerbação e do exagero, quer mostrar que existe, é uma mistura de fúria, beleza e luxúria digna das deusas. Drag foi uma maneira de inverter o estigma da efeminação por ser gay e usar isso como um crachá de orgulho (BAKER, 1994, p.238).</p>



<p>A persona, imagem construída pelo homem tal como ele quer ser, é compensada interiormente pela fraqueza feminina; e assim como o indivíduo exteriormente faz o papel de homem forte, por dentro se torna mulher, torna-se anima (JUNG, 2011, p.85). Uma persona masculinizada, construída para esconder um feminino, pode criar inconscientemente uma sombra hiperfeminina, essa anima então será projetada de alguma maneira. Viver o feminino como algumas drags vivem é sinônimo de liberdade, de força, de um lugar possível de se sentir forte e completa.</p>



<p>Homens que não sigam o padrão de comportamento esperado pelos padrões de gênero, recebem a mensagem, consciente e inconscientemente, de que não são homens, dessa forma, o masculino consciente fica fragilizado, enquanto a vida e o interior feminino crescem no inconsciente, compensando uma persona aprisionadora, como dito por Barcellos (2011, p. 70).</p>



<p>“Quando se cria um personagem no palco, ou num poema, drama ou romance, normalmente se pensa que isso é apenas um produto da imaginação, mas aquele personagem por um caminho secreto, fez-se a si mesmo” (JUNG, 1985, p. 68). A personagem da&nbsp;<em>drag queen</em>, então, existe no inconsciente de seu intérprete, ela é construída a partir da vivência do homem com o feminino e permeada com suas percepções a seu respeito, sendo um misto de homenagem, admiração e ao mesmo tempo de escárnio e exacerbação.</p>



<p>Pode-se então afirmar que a interpretação ou incorporação de&nbsp;<em>drag queens</em>&nbsp;pelos homens gays pode ter um componente de manifestação de um feminino inconsciente reprimido, compondo parte da anima. A&nbsp;<em>drag</em>&nbsp;é uma das possíveis respostas a uma alma ferida, onde masculino e feminino naquele corpo tentam se curar da tentativa de se adaptar aos valores binários de gênero que até hoje a sociedade tenta impor e seguir. Esse feminino que desabrocha nessas performances sai da ferida que o masculino tem, pelas frequentes mensagens homofóbicas e sexistas que recebe durante a vida.</p>



<p>Apesar dessa relação com o feminino, não raramente as drag queens são acusadas de misoginia, ao satirizar o feminino, exacerbando características que são consideradas femininas, por uma lente machista, o que pode ser verdade em alguns casos, mas não é o objetivo da drag como manifestação artística. Ao satirizar a construção social da mulher, a drag nem sempre a oprime, mas busca libertá-la dos constructos sociais aos quais o patriarcado tem tentado trancafiar. Nesse sentido, Baker (1994) afirma:</p>



<p>À primeira vista parece ser o caso [a misoginia], mas o que elas estão realmente fazendo é criticar essas estruturas sociais – a divisão rígida de papéis entre os sexos e os valores heterossexistas que são seguidos – que fazem mulheres e homens se comportarem dessas maneiras. A drag queen não está ridicularizando a vida comum das mulheres reais, ou da mulher como tal, mas da sociedade em geral.</p>



<p>A arte&nbsp;<em>drag</em>&nbsp;é um possível caminho simbólico para integração e vivência do feminino por homens gays e por aqueles que sentem o impulso e o desejo de performar nessa arte. Ela vem trazer força e qualidades que o feminino inconsciente tem, mas foi reprimido. Essa persona obscura e feminina, como todo aspecto sombrio, tem muito a contribuir no desenvolvimento psicológico e no cumprimento dos desígnios do Self.</p>



<p>Além de ser a manifestação de um feminino inconsciente e reprimido, a&nbsp;<em>drag queen</em>&nbsp;tem essa presença incômoda e que leva seu público a todo momento se questionar sobre o que está vendo, se é homem, se é mulher, se é os dois. Esse questionamento dos papéis de gênero é importante e tem o papel de libertar a todos, tanto homens, quanto mulheres da prisão imposta pela construção social dos gêneros.</p>



<p>Performar como&nbsp;<em>drag queen&nbsp;</em>tem potencial para integrar conteúdos femininos inconscientes daqueles que se sentem à vontade ao fazê-lo.&nbsp;<em>Drags</em>&nbsp;transitam entre os gêneros e mostram que quando um homem abraça e aceita seu lado feminino ele não se torna mais fraco, pelo contrário, lhe dá mais força.</p>



<p>Mauro Soave Junior – Membro analista em formação do IJEP-Bsb</p>



<p>E. Simone Magaldi – Membro didata do IJEP</p>



<p>Referências:</p>



<p>AMANAJÁS, Igor.&nbsp;<em>Drag queen: um percurso histórico pela arte dos atores transformistas</em>. Revista Belas Artes, São Paulo, n. 16, set-dez/ (2014), p. 1-23. Disponível em: &lt;http://www.belasartes.br/revistabelasartes/?pagina=player&amp;slug=<em>drag</em>-queen-umpercursohistorico-pela-artedos-atores-transformistas&gt;.</p>



<p>BARCELLOS, G. O amor entre parceiros do mesmo sexo e a grande tragédia da homofobia in SALLES, Carlos Alberto C.; CÉSAR e MELO, Jussara M. de F &#8211; (orgs).&nbsp;<em>Estudos sobre a Homossexualidade: Debates Junguianos&nbsp;</em>(2011). São Paulo &#8211; Vetor Editora, p. 65-86</p>



<p>BAKER, R.&nbsp;<em>DRAG</em>:&nbsp;<em>A history of female impersonation in the performing arts&nbsp;</em>(1994).&nbsp;New York University Press. New York.</p>



<p>BRAGA, Lucas.&nbsp;<em>A Marcação da Feminilidade em Corpos Masculinos: A Construção de uma Performance Drag</em>. 2018. 110 f. TCC (Graduação) &#8211; Curso de Comunicação Social &#8211; Publicidade e Propaganda, Escola de Educação, Tecnologia e Comunicação, Universidade Católica de Brasília, Brasília, 2018.</p>



<p>GREAF, Catilyn.&nbsp;<em>Drag queens and gender identity</em>. Journal of Gender Studies. (2015). Disponível em: http://dx.doi.org/10.1080/09589236.2015.1087308, p. 1-11.</p>



<p>JESUS, Jaqueline G.&nbsp;<em>Orientações sobre identidade de gênero: conceitos e termos</em>. EDA/FBN Brasília, 2012.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<em>Arquétipos e o Inconsciente Coletivo&nbsp;</em>(2000). Petrópolis &#8211; Ed. Vozes</p>



<p>JUNG, _________.&nbsp;<em>Fundamentos de psicologia analítica&nbsp;</em>(1985). Petrópolis – Vozes.</p>



<p>JUNG, _________.&nbsp;<em>O eu e o inconsciente&nbsp;</em>(2011). Petrópolis – Vozes</p>



<p>MALUF, Sônia, W. O dilema de Cênis e Tirésias: Corpo, Pessoa e as Metamorfoses de Gênero.&nbsp;<em>in Falas de Gênero, Teorias, Análises, Leituras</em>. SILVA, Alcione L.; LAGO, Mara, C. S.; RAMOS, Tânia, R. O. (Orgs). São Paulo &#8211; Mulheres, 1999, p. 261-275.</p>



<p>SANTOS, J. F. dos.&nbsp;<em>&#8220;Tupiniqueens&#8221;: a invenção drag na cultura brasileira</em>. História Agora. São Paulo, n. 26, v. 1, 2014, p. 186-203.</p>



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<h4 class="wp-block-heading" id="h-mauro-soave-junior-27-10-2021"><strong><em>Mauro Soave Junior &#8211; 27/10/2021</em></strong></h4>
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