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	<title>Arquivos luto - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos luto - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>O Luto e o Silêncio da Morte</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-luto-e-o-silencio-da-morte/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Cristina Guarnieri]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 30 Mar 2022 18:31:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Morte]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[luto]]></category>
		<category><![CDATA[morte]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>É que a morte tamém é uma terrível brutalidade &#8211; nenhum engodo é possível! – não apenas enquanto acontecimento físico, mas ainda mais como um acontecimento psíquico: um ser humano é arrancado da vida e o que permanece é um silêncio mortal e gelado. Não há mais esperança de estabelecer qualquer relação: todas as pontes estão cortadas.” &#8211; Carl Gustav [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><em>É que a morte tamém é uma terrível brutalidade &#8211; nenhum engodo é possível! – não apenas enquanto acontecimento físico, mas ainda mais como um acontecimento psíquico: um ser humano é arrancado da vida e o que permanece é um silêncio mortal e gelado. Não há mais esperança de estabelecer qualquer relação: todas as pontes estão cortadas.” &#8211; <strong>Carl Gustav Jung</strong></em></p></blockquote>



<p><strong>O luto é um processo que, automaticamente, se inicia após a perda; é um conjunto de sentimentos de pesar ou dor que experimentamos na presença da morte do outro.</strong> É no momento da perda que a inevitabilidade da morte é experimentada. Sem lugar para a morte, a experiência do <strong>luto</strong> também tende a ser negada. Assim, reconhecer e compreender os sentimentos e os sintomas de um processo de enlutamento tornou-se algo bastante complexo.</p>



<p>A morte tem uma história e nem sempre o ser humano manteve a mesma atitude perante este fato de sua existência. O historiador Phillipe Ariès (1977), em seu trabalho sobre as diferentes significações da morte desde a Idade Média, demonstra claramente as diferentes atitudes do ser humano perante a morte e o morrer.&nbsp;&nbsp;Mas, nessas diversas atitudes, o imaginário humano sobre a morte inclui a ideia de um além da vida. Lidar com este além é uma forma de lidar com a presença da morte na existência. Finalmente, observa-se o início do distanciamento da morte, justamente pela chegada de uma percepção da finitude, iluminada pela razão, como algo cada vez mais concreto.</p>



<p>Hoje, os cultos e ritos que nos auxiliavam frente à morte perderam o sentido. Entregamos o nosso terror aos médicos e hospitais, e neles projetamos nosso desejo interno de onipotência e controle da morte e, ao mesmo tempo, onde vivemos toda a nossa impotência e falta de controle sobre a vida.</p>



<p>Estamos negando a morte, mas sabemos que culturalmente somos impelidos a integrá-la de alguma forma mediante o universo simbólico (rituais, mitos, símbolos, entre outros). A morte é assimilada como um fracasso, algo que precisa ser banido de nossa história. Mas, o sofrimento mobiliza a ação do inconsciente, possibilitando a reorganização da personalidade. Negamos a morte e algo dentro de nós parece nos empurrar para uma busca de sentido cada vez maior.</p>



<p>Cada vez mais, não há lugar para a morte nos grandes centros, não há sinais da sua presença na vida cotidiana. A morte encontra-se na sombra, reprimida no inconsciente como uma “mãe terrível”.</p>



<p>A “mãe terrível”, também chamada de dragão-mãe, mãe-sarcófago, a devoradora de carne humana, ou Matuta, mãe dos mortos, a deusa da morte, é um tema, segundo Jung, muito encontrado na mitologia pelo mundo todo. É um monstro que absorve a criança,&nbsp;&nbsp;sugando-a novamente depois de tê-la feito nascer, vive a espera, de boca escancarada, nos Mares do Ocidente e, quando um homem se aproxima, ela se fecha sobre ele, e é o fim. (Cf. JUNG, 1997, p.104).</p>



<p>Uma das pioneiras nesta percepção da negação da morte e dos desdobramentos que esta atitude acarreta tanto na dignidade daquele que está diante da morte, como para quem o acompanha, foi a psiquiatra Elisabeth Kubler-Ross. A autora apresenta um breve resumo da vivência da dor e da doença terminal em um hospital, e reflete sobre o fato de estarmos, com este comportamento, rejeitando a morte e nos tornando menos humanos, como uma defesa psíquica. Para a autora, o paciente tem diferentes reações sobre o seu estado, que ela separou didaticamente em fases: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Essas fases também seriam vivenciadas pelos familiares deste paciente e, em todos os estágios, a única coisa que sempre persiste é a esperança. Uma esperança que está presente mesmo naquele mais conformado. A possibilidade de uma cura é sempre considerada por todos. Na realidade, enquanto há vida, há quem espere.</p>



<p>A importância dos trabalhos de Kubler-Ross (1969) é inegável, mas se dirigirmos nosso olhar para a esfera religiosa, encontraremos uma grande sabedoria sobre a psicologia da condição humana que se sabe finita. Só para citar alguns exemplos, temos os conhecidos &#8220;Tratados sobre a morte&#8221; encontrados nas mais diversas tradições, até mesmo nas primitivas, a saber: o&nbsp;<em>Livro Egípcio dos Mortos</em>; na tradição cristã, durante a Idade Média, o&nbsp;<em>Ars Moriendi</em>, onde o moribundo enfrenta em sua agonia a visita do anjo de luz e do anjo das trevas; na tradição budista, o mais conhecido é o&nbsp;<em>Bardo Thodol</em>, o livro tibetano dos mortos, onde também há a presença das divindades enfurecidas e benevolentes. Nesses tratados já podem ser observados as diversas fases do processo de agonia, porém com a seguinte diferença: a presença de uma tensão que sugere que o indivíduo está em luta com um lado e possui também, dentro de si, a capacidade de superar.</p>



<p>Podemos passar a vida inteira acreditando na nossa imortalidade e sermos surpreendidos pela morte quando esta chegar, mas podemos ser incomodados pela angústia, por um vazio interior, que cobra a reflexão sobre este outro lado da vida, pela busca de um sentido para estarmos aqui. A perda de alguém que amamos, cujo vínculo dava sentido à nossa vida e cuja ausência provoca uma intensa dor, retira a morte da sombra, torna concreto o limite da vida, reclama um lugar para a morte.</p>



<p>Aceitar o real nem sempre é fácil, principalmente quando a realidade pede que se aceite a perda daquele que amamos. Em um processo complexo, o <strong>luto</strong> pede esta aceitação da realidade para viabilizar sua elaboração, resignificando o conceito de amor. Uma intensa jornada se inicia, é necessário o desapego daquele que a morte retirou do convívio. O psiquiatra britânico Colin M. Parkes (1998) define como traços característicos dos processos de <strong>luto</strong> a procura, o alívio, a raiva e a culpa.</p>



<p>O traço mais característico do <strong>luto</strong> são os episódios agudos de dor, com muita ansiedade. Para Parkes, esta dor provoca a urgência em procurar o objeto perdido, como um chamado, que é expresso na maioria das vezes pelo ato de chorar. A procura, mesmo quando há consciência de que é uma procura sem sentido, pois o outro está morto, é um impulso forte após uma perda. E acrescenta:</p>



<p>Os que procuram têm em sua mente um retrato do objeto perdido. À medida que se aproximam de um possível local para encontrar, as sensações advindas desse local combinam-se com o retrato. Quando se ajustam, mesmo que só́ por aproximação, o objeto visto é ‘reconhecido’, a atenção é colocada nele, e maiores evidências são buscadas para confirmar a impressão inicial. ( PARKES, 1998, p. 69)</p>



<p>Aquele que amamos aparece claramente diante de nossos olhos. Estas imagens são tão nítidas que, embora sejam consideradas reações normais de <strong>luto</strong>, é necessário muitas vezes assegurar ao indivíduo que ele está dentro de uma normalidade. E não raro visões, sensações de presença, vozes ou mesmo sonhos são interpretados como a volta do morto. Todas essas experiências expressam a força do apego; dos hábitos cotidianos, daqueles comportamentos do dia-a-dia que existiam a partir da relação com o outro, como por exemplo, arrumar a mesa para dois. A ausência revela o poder que a presença continha.</p>



<p>A procura continua intensa mesmo quando os resultados são frustrantes. A sensação, ou a impressão de que a pessoa perdida está por perto, é reconfortante para o enlutado. Mas, logo a realidade se faz presente e o comportamento de procura continua. Neste sentido, procurar e encontrar andam juntos, não simultaneamente, mas alternadamente. E, no meio de tudo isso, a dura realidade da perda se torna concreta, mas nasce também a certeza de que há algo maior que nos constitui. Para muitos, é onde nasce ou se fortalece a fé.</p>



<p>A dor da perda nos é tão forte que uma das primeiras reações é a descrença do ocorrido; a negação da morte é muito comum neste momento e recebe o nome de entorpecimento. Em geral, este entorpecimento só́ tem fim com a visão do corpo ou algo que concretize a morte ocorrida. E não raro evitamos esse momento, como a desculpa de que é muito mórbido ou algo similar. Mas nossa psique precisa da concretude da finitude expressa no corpo estático. Se assim não fosse, como entenderíamos a necessidade de resgate de corpos de tragédias, mesmo quando o feito implica em grandes dificuldades e gastos expressivos. Não só precisamos garantir a dignidade de enterrar nosso ente querido, algo sagrado e de alto valor moral desde os gregos, mas também integrar a perda daquele que amamos e de que teremos que recolocar em nossa vida de um outra forma.</p>



<p>Mas, a existência é formada de polaridades, e é justamente na tensão destas que nossa vida acontece. Exatamente por isso, pensar na perda também é uma forma de amenizar a dor vivenciada. Sempre afirmo que não há modo certo de elaborar todas as questões que envolvem o <strong>luto</strong>. Sim, não pensar na perda, em uma doença grave, no envelhecimento ou agonia de um ente querido é uma defesa, e talvez a mais comum hoje. Aliás, como todas as defesas, essa também possui uma função, pois a negação da perda oferece a oportunidade de se preparar para continuar vivendo sem o outro. A grande questão é que a negação nos permite nos preparar para enfrentar a perda, mas também nos fornece um excelente esconderijo &#8211; uma zona de conforto.</p>



<p><strong>A perda de um ente querido provoca uma série de transformações que o sobrevivente não escolheu enfrentar e, não raro, observamos episódios de raiva, ou uma irritação generalizada, uma amargura, tal como os comportamentos encontrados em situação de estresse. </strong>É como se o enlutado estivesse reagindo a uma situação de perigo iminente que, na verdade, é o perigo da perda de si mesmo. E, de fato, parte de si, pelo menos a parte que ele era com o outro, está morrendo e, muito provavelmente, só se manifestará na lembrança e, ao mesmo tempo, um lado até então desconhecido emerge, um lado nem sempre desejado ou admirável. Ao acompanhar viúvos ou viúvas em seu processo de <strong>luto</strong>, por exemplo, não raro assisto um indivíduo surpreendido por&nbsp;&nbsp;se descobrir frágil e sem direção, quando todos, incluindo ele próprio, reconheciam nele a força e a determinação da relação e até mesmo da família. E mais, a família não deseja aceitar o sobrevivente nesse novo formato, pois nem mesmo gostaria de encarar que o vivido até então não existe mais, assim como a não presença de um integrante da família e, provavelmente, que uma tarefa será solicitada à família ou a outro parente que, desconhecendo aquela configuração, resiste ao novo tanto como resiste à morte do velho. A inevitabilidade da morte carrega a inevitabilidade de continuar a vida sem o outro e o enlutado vive em uma situação limiar, que é uma fase de transição onde, no final, ele precisará se reconhecer vivo sem o outro a quem estava vinculado.</p>



<p>O <strong>luto</strong> provoca uma reação em cadeia, nossa alma é afetada pela dor e se desorganiza com a perda. Há um enlutado mais próximo que exige a atenção e, geralmente, é o eleito dos cuidados e das reclamações para camuflar a dor de todos os envolvidos. Um novo tempo se inicia e se torna inevitável que o passado se afirme quebrando todos os laços que o velho tempo construiu.</p>



<p>Para além da raiva, da irritação, das resistências naturais desse momento, a culpa é um dos sentimentos que não tarda a emergir diante da morte. Em nosso entendimento inconsciente, a morte só́ pode ser causada e a reação natural é que busquemos um responsável pelo sofrimento e que, portanto, será́ o culpado. O enlutado culpa a si mesmo, ao morto, ao médico; algo precisa explicar o ocorrido: a morte é um fato importante e para o qual não temos controle, somos impotentes frente a ela e, portanto, é natural que busquemos um sentido ou, até́ mesmo, uma explicação para o seu acontecimento. Buscar um culpado, acusar-se a si mesmo, brigar com Deus ou com o destino são formas de retomar um mínimo de controle na situação. E é nessa briga que nos encontramos quando Eros está diante de Thanatos e, sem saber o que somos, de onde viemos e para onde vamos, nos indagamos sobre quando, onde e como saberemos o que o morrer nos reserva. Por ora sabemos que a vida se torna mais rica, pois a morte do outro é um convite para uma nova forma de viver. É um mistério que nos fascina e nos entrega à autêntica existência.</p>



<p>Marie-Louise von Franz diz que refletir sobre essas questões nos leva para &#8220;alguns breves momentos numa terra totalmente desconhecida, da qual quase sempre estamos separados pela neblina, enquanto ainda vivemos nesse corpo; contudo, de vez em quando, vislumbramos dela paisagens surpreendentes&#8221; (FRANZ, 1995, p.109). Para a autora, esses momentos comprovam o que Jung chamou de preparação para a morte contido no processo de individuação. A partir da análise de sonhos, Jung nos mostra que a psique inconsciente ignora a morte como sendo um fim, pois os sonhos costumam ocorrer como sempre, tendo como meta o processo de individuação. Acrescenta, ainda a autora, que a única situação em que o inconsciente não ignora a morte é quando o sonhador resiste à possibilidade do fim iminente, forjando situações ilusórias para si mesmo. Esta última colocação somente confirma o fato que o inconsciente ignora a morte pois, ao respeitar o processo de individuação, a vida deve ser expressa em sua totalidade. E mais, de que a morte &#8220;não significa um fim, mas uma singular transformação que a razão não pode compreender&#8221; (<em>Ibid.</em>).</p>



<p>Em seu texto&nbsp;<em>A alma e a morte&nbsp;</em>(1934), Jung equipara a vida, em seu processo natural, ao percurso do sol. Em seu surgimento, ele cresce no horizonte e chega no seu pico ao meio-dia, passando a uma curva descendente até́ o final da tarde, quando morre. A vida humana teria este mesmo caminho: crescimento, expansão e amadurecimento. Na metade da vida, obrigatoriamente, estaríamos nos dirigindo ao fim. A morte deveria ser nossa meta a partir desta fase e, por tal motivo, Jung coloca que só́ permanece realmente vivo quem estiver disposto a morrer com vida. E talvez esse seja o maior ensinamento do amor: poder suportar um silêncio sem resposta presente na perda, um silêncio, como diria Jung, que, em seu caso, só veio como resposta na forma de sonhos. Resposta que também encontrei em muitos de meus pacientes, um sonho ou um fato numinosamente surpreendente, que preenche o silêncio imposto no momento em que as pontes são cortadas, um vislumbre do que somos presente no enfrentamento da morte do outro, a certeza de que o mundo dos vivos e dos mortos formam um todo.</p>



<p><strong>Autora: Dra.Maria Cristina Mariante Guarnieri</strong></p>



<p><strong>Referências:</strong></p>



<p>ARIÈS, Philippe.&nbsp;<em>O Homem perante a Morte I</em>. Lisboa: Publicações Europa-América, 1997.</p>



<p>______.&nbsp;<em>O Homem perante a Morte II</em>. Lisboa: Publicações Europa-América, 1997.</p>



<p>JAFFÉ, Aniela; FREY-ROHN, Lilia; FRANZ, Marie Louise von.&nbsp;<em>A morte à luz da psicologia</em>. SãoPaulo: Cultrix, 1995.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<em>A vida simbólica</em>. Petrópolis: Vozes, 1997.</p>



<p>_____.&nbsp;<em>A alma e a morte.&nbsp;</em>In: ______<em>A natureza da Psique</em>. Petrópolis: Vozes, 1984.</p>



<p>KÜBLER-ROSS, Elisabeth.&nbsp;<em>Sobre a morte e o morrer</em>. São Paulo: Martins Fontes, 1969.</p>



<p>PARKES, Colin M.&nbsp;<em>Luto</em>: estudos sobre a perda na vida adulta. São Paulo: Summus, 1998.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Algumas lições do día de muertos, patrimônio da humanidade</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/algumas-licoes-do-dia-de-muertos-patrimonio-da-humanidade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Tania Pulier Garrido]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 26 Oct 2021 11:34:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Morte]]></category>
		<category><![CDATA[Numinoso]]></category>
		<category><![CDATA[Algumas lições do día de muertos]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[luto]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Desde a pré-História o ser humano enterra seus mortos, sendo os sepultamentos e rituais fúnebres os primeiros sinais de vivência com o sobrenatural, pelos símbolos. &nbsp;Todos os povos e religiões desenvolveram seus ritos, tanto para o momento da morte como para a recordação dos falecidos. Os cristãos rezam pelos mortos desde o surgimento da religião e, na Idade Média, a data de 2 de novembro espalhou-se primeiro pela Europa e depois pelo mundo como Dia de Finados.</p>



<p>No México, a festividade do&nbsp;<em>Día de Muertos</em>&nbsp;é uma tradição indígena, pré-hispânica, cujos elementos se mesclaram à religião católica para chegar à forma vivenciada atualmente, que se tornou em 2003 Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, reconhecido pela Unesco. A festa em honra aos falecidos começa no final de outubro de cada ano e tem como dias principais 1<sup>º</sup>&nbsp;e 2 de novembro, repleta de simbolismos em torno da antiga crença indígena de que nestes dias era permitido às almas dos mortos voltar ao mundo dos vivos para conviver com os familiares, nutrindo-se dos alimentos por eles preparados. Faz parte de uma cosmovisão que considera a morte como parte do ciclo da vida.</p>



<p>Esse olhar integrador das polaridades morte e vida encontra-se em ressonância com a Psicologia Analítica que, se não afirma nem nega a sobrevivência da alma após a morte, reconhece a relatividade das categorias tempo e espaço para a psique e coloca-se à escuta dos relatos universais, mitos e símbolos religiosos que tratam da “eternidade”. Percebe-os como prenhes de sentido e inclinações da psique desde suas camadas mais profundas.</p>



<p>Neste artigo, a partir da vivência pessoal do&nbsp;<em>Día de Muertos</em>, apresentarei alguns elementos presentes na festividade, procurando ampliá-los em seu simbolismo com um olhar analítico, na contribuição dos textos de Carl Gustav Jung “A alma e a morte” e “Sobre a vida depois da morte”. O objetivo é perceber o que essa festa tem a nos ensinar, sobretudo neste momento em que, com a pandemia da Covid-19, a morte veio com força total sobre a humanidade que há muito tentava mantê-la fora dos olhares e lutar contra ela, negando o que faz parte da natureza humana.</p>



<p><strong>A integração vida-morte-vida nos elementos do&nbsp;<em>Día de Muertos</em></strong></p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ruas enfeitadas, altares repletos de flores, pães dos mortos,&nbsp;<em>calaveritas</em>, fotos de pessoas falecidas, canções,&nbsp;<em>catrinas</em>&nbsp;caminhando por toda parte, festas nos cemitérios&#8230; são tantos simbolismos que chamam a atenção para um feriado de Finados vivido de uma maneira diferente. Participei em 2018 do&nbsp;<em>Día de Muertos</em>&nbsp;nas cidades mexicanas de Morelia, Tzintzuntzán e Pátzcaro, do Estado de Michoacán, que conserva bastante a tradição, pouco antes do falecimento da minha mãe, ocorrido em dezembro do mesmo ano, e esta festividade marcou-me sobremaneira, tendo sido um dos pontos fortes de preparo para o luto que viria logo a seguir. Aqui não tenho a pretensão de falar de todos os elementos simbólicos do&nbsp;<em>Día de Muertos</em>, mas mostrar em alguns deles o encanto da integração da morte como parte da vida, que não tem fim com ela.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ao caminhar pelas cidades, chama a atenção a vivacidade das cores. As ruas, praças e estabelecimentos são enfeitados com a flor de&nbsp;<em>cempasúchil</em>, desta temporada, de um amarelo vibrante que simboliza a força do sol. Segundo a crença, com elas se traça um caminho para dirigir as almas até o local da oferenda feita em sua homenagem. Também há papéis picados como adornos pendurados nas vias, coloridos mas sobretudo roxos, simbolizando o luto.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caminho das almas é necessária a claridade, trazida pela flor solar. Jung (2018b, §220) liga o Sol ao&nbsp;<em>Logos</em>&nbsp;que, “à maneira da luz forte e deslumbrante do Sol”, é o princípio do “distinguir, o julgar, o reconhecer” (§§217-218). Refere-se, simbolicamente, ao surgimento da consciência (§113), sendo metáfora do Cristo para os Padres da Igreja (§118), a “Luz do mundo”, aquele que foi levantado e com ele levanta da morte, retomando aqui o caminho de vida plena e eterna desejado para as almas. O roxo do luto evidencia a ambiguidade dos sentimentos — se há luz e calor pela fé na vida, a dor, a tristeza e a saudade não deixam de pairar no ar.</p>



<p>Curioso que, quando Jung fala da morte de sua mãe, do sonho que tivera na noite anterior à notícia e do contraste de sentimentos que experimentou, diz: “O contraste pode explicar-se: a morte era sentida, ora do ponto de vista do eu, ora do ponto de vista da alma.” (2016, p. 375) Com relação ao primeiro, é experimentada como “uma catástrofe, [&#8230;] um ser humano é arrancado da vida e o que permanece é um silêncio mortal e gelado. Não há mais esperança de estabelecer qualquer relação: todas as pontes estão cortadas.” (p. 375-376) Já do ponto de vista da alma, “a morte parece ser um acontecimento alegre. [&#8230;] ela é um casamento, [&#8230;] (um mistério de união). A alma, pode-se dizer, alcança a metade que lhe falta, atinge a totalidade.” (p. 376) E completa o relato dessa experiência mencionando exatamente o piquenique que se faz em diversas regiões sobre os túmulos, que podemos estender à celebração mexicana que analisamos aqui. “Essas manifestações mostram que a morte é sentida, por assim dizer, como uma festa.” (p. 376)</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Antes de entrar nas celebrações nos cemitérios, continuaremos a descrever as cidades mexicanas, que se preparam dias antes para essa festa. Nas casas e nos comércios encontram-se altares para os mortos. São verdadeiros monumentos de vários andares que homenageiam a pessoa no retrato colocado sobre ele. O altar em si é uma grande celebração, pois em torno dele é que a família se reúne com o seu falecido, que vem comer, beber, descansar e conviver um pouco mais com os que ficaram neste plano. Segundo Jung, não se pensa, inventa e imagina esses símbolos. Eles nascem “de alguma camada profunda da psique” (2018a, §805) e me parece que ajudam a consciência na tarefa posta pelo inconsciente, que é colocar a sua atitude “em conformidade [&#8230;] com o processo de morrer.” (§809)</p>



<p>O altar tradicional tem sete níveis, que significam o caminho de ascensão e purificação que a alma deve percorrer para encontrar a paz e o descanso. Por isso, embaixo muitas vezes são dispostos frutos da terra, que ainda simbolizam a divisão céu e terra, os dois planos que convivem em torno dele. Também sal para a purificação e água para matar a sede da alma que chega após a longa viagem. A oferenda é um dos elementos principais, feita de guloseimas e pratos que o finado gostava de comer e podendo contar também com algo que reflita o seu gosto, como um instrumento musical ou um brinquedo, no caso de crianças. Há muitas flores de&nbsp;<em>cempasúchil</em>&nbsp;e papéis picados. A cruz cristã costuma estar presente, bem como imagens de santos, já marcando o sincretismo, mas também intensificando o ar místico, oracional e sobrenatural da homenagem. As fotos dos homenageados personalizam o altar, e as&nbsp;<em>calaveritas</em>&nbsp;de açúcar representam os mortos a quem ele se dedica, estando neles, mas também por várias partes da cidade, para a alegria das crianças. São recordados ainda pelo&nbsp;<em>pán de muerto</em>&nbsp;(pão dos mortos), um pão doce com alguns círculos que representam os crânios. O incenso tem um significado de purificação e as inúmeras velas guiam o caminho da alma de volta para o seu mundo.</p>



<p>Jung afirma que narrar histórias ou “mitologizar” sobre a sobrevivência após a morte é importante para o ser humano. “Para o coração e a sensibilidade essa atividade é vital e salutar: confere à existência um brilho ao qual não se quereria renunciar.” (JUNG, 2016, p. 359) Não há como provar a veracidade ou a inveracidade da existência de vida fora das categorias do tempo e do espaço e, apesar de nos ser difícil imaginá-la, sua possibilidade “constitui um ponto de interrogação que deve ser levado a sério” (JUNG, 2018a, §814), uma vez que está de acordo com as necessidades do coração, a sabedoria imemorial da humanidade e as experiências das obscuridades da psique e dos mistérios da alma (Cf. idem, §815).</p>



<p>Esses mistérios que aparecem de forma profunda e simples, encarnados nos altares, mostram-se ainda mais na noite especial, que é a virada do dia 1<sup>º</sup>&nbsp;para o dia 2 de novembro, quando também são feitas verdadeiras festas nos cemitérios. As pessoas adornam os túmulos dos familiares, que ficam totalmente revestidos com as famosas flores amarelas já presentes por toda a parte. Colocam muitas velas e geralmente levam os pratos preferidos dos falecidos, algumas chegando a fazer churrasco ao lado das sepulturas. Levam instrumentos musicais, cantam as músicas preferidas do familiar morto, fazem orações, passando a noite toda ali. O clima é de festa e homenagem, e não de lágrimas e choro, como se de fato lhes tivesse sido concedida a chance de conviver com o ente querido naquela data. É indescritível participar de uma celebração em que a morte se torna presença e não ausência!</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Esse significado aparece também nas&nbsp;<em>catrinas</em>&nbsp;que caminham por toda parte e às quais são dedicados concursos ou desfiles.&nbsp;<em>La Catrina</em>&nbsp;é a maquiagem de uma alta dama da sociedade em forma de caveira, com vestido longo e chapéu elegantes, significando o caráter passageiro do luxo e&nbsp;<em>status</em>&nbsp;deste mundo diante da eternidade do espírito. Ela marca o aspecto finito e transitório da vida material, que deve ser disfrutada com sabedoria. É o que dizem as músicas cantadas em vários locais, sobretudo nos desfiles.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Se a consciência da finitude da vida humana é lição evocada por&nbsp;<em>La Catrina</em>&nbsp;e por cada elemento do&nbsp;<em>Día de Muertos</em>, esse limite não é absoluto, e na esperança da imortalidade da alma baseiam-se as festividades que celebram uma forma de presença dos entes queridos falecidos e a dádiva naqueles dias de conviver com eles pelas homenagens. Para Jung, se “compreendermos e sentirmos que já nesta vida estamos relacionados com o infinito, os desejos e atitudes se modificam. Finalmente, só valemos pelo essencial e se não acedemos a ele a vida foi desperdiçada.” (2016, p. 388)&nbsp;</p>



<p>Alguns estão tão agarrados na presença como materialidade que, diante da morte que vem inexoravelmente, por mais que se lute contra ela, ficam presos na ausência, como um luto que não se completa, um buraco do qual não se sai. A morte torna-se muro intransponível que bloqueou e ceifou a vida. Não conseguem fazer a experiência de um outro tipo de presença, que supõe a aceitação e o atravessamento da morte. E é o dia a dia que prepara essa vivência, à medida em que se acolhe as pequenas mortes cotidianas — o fracasso, as perdas, os limites, a fraqueza e vulnerabilidade — e se assume o ciclo natural da vida, feito de luz e sombra, subida e descida, vida e morte.</p>



<p>A pandemia da Covid-19 trouxe a morte para perto da vida de todos nós, não apenas dos idosos ou enfermos. Fomos obrigados a olhar para ela, e os mitos nos trazem “imagens auxiliares e enriquecedoras da vida no país dos mortos” em lugar do “fosso escuro” (JUNG, 2016, p. 365-366) que a pura razão nos dá. &nbsp;Eles podem contribuir muito, sobretudo agora em que a dificuldade de vivenciar como se desejaria os ritos fúnebres pode trazer consequências ainda não imaginadas a esta geração.</p>



<p>Não dá para apontar quem tem mais crédito ou veracidade, mas mais sentido e significado, sim. “Aquele que nega avança para o nada; o outro, o que obedece ao arquétipo, segue os traços da vida até a morte.” (JUNG 2016, p. 366) É o que fica claro no&nbsp;<em>Día de Muertos</em>, com as lições em cores e sabores que ele nos oferece. E esses aprendizados talvez possam inspirar quem não conseguiu velar seus mortos como queria devido à pandemia, mas poderiam viver com maior intensidade datas celebrativas como Finados ou o aniversário de morte.</p>



<p>Tania Pulier — analista em formação/IJEP</p>



<p>Lilian Wurzba — analista didata/IJEP</p>



<p>Referências:</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. A alma e a morte. In: ___.&nbsp;<em>A natureza da psique</em>. Petrópolis: Vozes, 2018a.</p>



<p>___. Sobre a vida depois da morte. In: ___.&nbsp;<em>Memórias, sonhos e reflexões</em>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.</p>



<p>___.&nbsp;<em>Mysterium Coniunctionis</em>. Petrópolis: Vozes, 2018b.</p>



<p>Sites para consulta sobre o tema:</p>



<p>LOS 9 símbolos más representativos del Día de los Muertos.&nbsp;<em>MamásLatinas</em>, 4 nov. 2012. Disponível em: https://mamaslatinas.com/life-inspiration/107486-mexico_se_viste_de_flores. Acesso em: 25 out. 2021.</p>



<p>RINCÓN, Maria Luciana. Descubra o que são os símbolos que compõem o altar do Día de los Muertos.&nbsp;<em>Mega Curioso</em>, 31 out. 2019. Disponível em: https://www.megacurioso.com.br/dia-das-maes/85633-descubra-o-que-sao-os-simbolos-que-compoem-o-altar-do-dia-de-los-muertos.htm. Acesso em: 25 out. 2021.</p>



<p>UNESCO.&nbsp;<em>El día de muertos</em>: el regreso de lo querido, 29 out. 2019.&nbsp;Disponível em: https://es.unesco.org/news/dia-muertos-regreso-lo-querido-0. Acesso em: 25 out. 2021.&nbsp;</p>



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<h4 class="wp-block-heading" id="h-tania-pulier"><strong><em>Tania Pulier</em></strong></h4>
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