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	<title>Arquivos masculino e feminino - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos masculino e feminino - Blog IJEP</title>
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		<title>FELIZ DIA DOS PAIS &#8211; ENTRE O PRESENTE, A PRESENÇA E A AUSÊNCIA</title>
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					<comments>https://blog.ijep.com.br/feliz-dia-dos-pais-entre-o-presente-a-presenca-e-a-ausencia/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 04 Aug 2026 19:40:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[complexo paterno]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Atualmente vivemos sob o signo de um paradoxo avassalador. De um lado, um patriarcado abstrato e onipresente, que governa através do poder tecnológico e dos algoritmos do mercado financeiro dominados por um pai-máquina que tudo controla e nada abraça. De outro, uma ausência de paternagem que deixa um vazio ensurdecedor nos lares. Esta não é apenas a falta de um corpo, mas a do amparo que guia e fortalece. No lugar do pai amoroso, impera a sombra de uma estrutura tirânica que, por sua própria rigidez, gera uma geração de órfãos de pais vivos, com a alma marcada pela tristeza, o abandono e a rejeição.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/feliz-dia-dos-pais-entre-o-presente-a-presenca-e-a-ausencia/">FELIZ DIA DOS PAIS &#8211; ENTRE O PRESENTE, A PRESENÇA E A AUSÊNCIA</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No Brasil, o Dia dos Pais é comemorado anualmente no segundo domingo de agosto. A data foi criada em 1953 pelo publicitário Sylvio Bhering, diretor do jornal <em>O Globo</em>, com o objetivo inicial de homenagear os pais e movimentar o comércio no segundo semestre. O primeiro &#8220;Dia dos Pais&#8221; ocorreu em 16 de agosto de 1953, dia que coincidia com a festividade de São Joaquim, pai da Virgem Maria e avô de Jesus, considerado um símbolo patriarcal na tradição católica. Nos anos seguintes, a celebração foi transferida para o segundo domingo do mês, para facilitar a reunião das famílias no fim de semana.</p>



<h2 id="h-atualmente-vivemos-sob-o-signo-de-um-paradoxo-avassalador" class="wp-block-heading" style="font-size:18px"><strong>Atualmente vivemos sob o signo de um paradoxo avassalador.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">De um lado, um patriarcado abstrato e onipresente, que governa através do poder tecnológico e dos algoritmos do mercado financeiro dominados por um pai-máquina que tudo controla e nada abraça. De outro, uma ausência de paternagem que deixa um vazio ensurdecedor nos lares. Esta não é apenas a falta de um corpo, mas a do amparo que guia e fortalece. No lugar do pai amoroso, impera a sombra de uma estrutura tirânica que, por sua própria rigidez, gera uma geração de órfãos de pais vivos, com a alma marcada pela tristeza, o abandono e a rejeição.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Há muito tempo se sabe que o exemplo é o melhor dos mestres embora seja também o mais cruel, porque não admite ensaio nem edição de cortes. A criança não lê o nosso roteiro, porque ela assiste ao nosso filme ao vivo, sem filtro, sem legenda, sem classificação indicativa. Por isso, precisamos estar conscientes das referências e exemplos que transmitimos aos nossos filhos, não com palavras bonitas e sábias, que qualquer orador de palanque entoa com maestria, mas tão-somente com o agir e a vida real dos pais e da sociedade.</p>



<h2 id="h-neste-sentido-importa-distinguir-concepcao-de-filiacao" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Neste sentido, importa distinguir concepção de filiação.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A primeira é um ato biológico rápido, instintivo, às vezes até acidental. A segunda é um ato social, cultural, espiritual, que é longo, deliberado, exige presença contínua e, sobretudo, coerência. A diferença entre um e outro é a diferença entre plantar uma semente e cultivar uma árvore. Qualquer um pode jogar a semente no chão. Poucos têm paciência de regá-la, podá-la, admirá-la e, principalmente, aceitar que ela cresça num formato diferente daquele que havíamos planejado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A verdadeira paternidade transcende o ato de prover. É uma semeadura na alma, uma jornada de presença consciente que transforma o cotidiano no mais sagrado dos rituais. Construir um legado invisível e eterno não acontece nos grandes gestos, mas na delicadeza das pequenas ações diárias. É no chão sagrado da vida familiar que os conceitos de amor, respeito e responsabilidade se tornam carne e osso, tecendo a herança viva que deixamos em nossos filhos. Este é um chamado profundo ao pai que anseia ser mais do que um provedor, mas um arquiteto do caráter, um poeta da alma e um guardião do bem-estar emocional de seus descendentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">As influências do patriarcado, portanto, advêm tanto dos progenitores biológicos ou adotivos quanto das dimensões sociais e culturais, produzindo semelhanças de atitudes e de valores que vão muito além da mera coincidência. O filho herda não apenas as feições e gestos do pai, mas também o seu silêncio. A sua raiva contida. O seu riso nervoso diante de autoridade. A sua dificuldade de pedir desculpas. Herda, sobretudo, aquilo que o pai jamais disse, mas que o seu corpo, o seu tom de voz e o seu olhar gritaram em surdina.</p>



<h2 id="h-o-psiquismo-que-absorve-tudo-inclusive-o-que-escondemos" class="wp-block-heading"><strong>O psiquismo que absorve tudo — inclusive o que escondemos</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O psiquismo inconsciente da criança é um oceano sem margens, absorvendo não apenas as correntes emocionais da família, mas também o espírito de nosso tempo. Como delicadas antenas, as crianças captam não o teatro das aparências, mas a verdade silenciosa que pulsa em nosso universo interior. Elas absorvem informações que ultrapassam os limites familiares como uma esponja que desconhece a diferença entre água limpa e água contaminada. Captam o espírito da época, o <em>Zeitgeist&nbsp; </em>internalizando valores, medos e desejos coletivos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Com isso, mesmo um pai honrado, que na sua intimidade não se sinta realizado, esteja infeliz ou abrigue sentimentos e desejos obscuros, poderá passar essas informações a seus filhos. Pais que sorriem por fora, mas carregam a infelicidade por dentro, legam essa dissonância a seus filhos. Portanto, o caminho para o bem de um filho começa na jornada de um pai em direção a si mesmo. O maior presente que se pode dar é a própria inteireza, o compromisso inabalável com a própria realização e felicidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Isso porque a alma coletiva está espalhada por toda parte, não como uma nuvem etérea e romântica, mas como uma rede invisível de afetos, preconceitos e angústias que atravessa gerações como herança maldita. A criança percebe não apenas os condicionamentos mais profundos dos pais ou da sociedade, mas também, num âmbito mais extenso, tanto o bem quanto o mal existentes nas profundezas da natureza humana. Ela sente a hipocrisia antes de saber nomeá-la. Pressente a violência antes de presenciar a agressão. E, principalmente, registra tudo, absolutamente tudo, no inconsciente, de onde nada se apaga, apenas se reprime, adormece ou, mais tarde, explode.</p>



<h2 id="h-o-homem-brutalizado-e-a-fabrica-de-filhos-a-sua-imagem" class="wp-block-heading"><strong>O homem brutalizado e a fábrica de filhos à sua imagem</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O homem contemporâneo, cada vez mais brutalizado pelo excesso de competição e pela negação das dimensões espirituais, naturalmente está formando filhos competitivos, acometidos por depressão, hiperatividade, agressividade e vários tipos de compulsões. Filhos de pais que não conseguem parar, que trabalham como autômatos e como se a vida fosse uma roda de hamster sem fim, tornam-se adultos que também não sabem parar. E o ciclo se repete com uma fidelidade trágica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Precisamos repensar nosso estilo de vida e o que desejamos transmitir para nossos descendentes. Da mesma forma, todo adulto, de qualquer gênero, deve começar a ser responsável, conscientemente, pelo arquétipo paterno, não apenas os pais biológicos, mas qualquer pessoa que ocupe um papel de referência, autoridade ou cuidado. É urgente iniciarmos mudanças nos sistemas familiar, social e cultural, objetivando um futuro viável e melhor, com menos exclusão, mais amorosidade e respeito humano e ecológico. Porque nossas atitudes estão colocando em risco todo o planeta, e isso não é metáfora, é realidade ambiental. Toda ação tem reação, e a Terra já está nos cobrando a fatura com juros compostos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A cura reside na integração amorosa dos princípios masculino e feminino. É preciso iniciar uma mudança que floresça de dentro para fora, nos sistemas familiar, social, cultural e espiritual.</p>



<h2 id="h-a-ausencia-que-grita-e-a-presenca-que-oprime" class="wp-block-heading"><strong>A ausência que grita e a presença que oprime</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Aqui chegamos a um dos paradoxos mais dolorosos do nosso tempo: a crescente ausência paterna convive com a presença abusiva, invasiva, sectária, patrimonialista e misógina de um sistema patriarcal retrógrado que se traveste de conservadorismo.</p>



<h2 id="h-nunca-se-falou-tanto-em-valores-familiares-e-nunca-se-abandonou-tanto-a-familia-com-tanta-eficiencia-burocratica" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Nunca se falou tanto em &#8220;valores familiares&#8221; e nunca se abandonou tanto a família com tanta eficiência burocrática.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Os números não mentem, pois são números. No Brasil, cerca de 6,7% dos nascimentos ocorridos entre 2023 e 2024 foram registrados sem o nome do pai. Em 2025, o país registrou 172 mil certidões de nascimento sem o nome do pai. Mais de cem mil crianças entraram no mundo sem sequer ter um nome masculino escrito em sua certidão. É como se o país inteiro dissesse a essas crianças: &#8220;Bem-vinda ao mundo. Metade da tua origem é um espaço em branco.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Adicionalmente, dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que 49,1% das famílias brasileiras são chefiadas por mulheres, o que pode indicar um número significativo de lares sem a presença de uma figura paterna ou masculina como principal responsável. Não se trata de questionar a competência feminina, que é sobejamente heróica, mas de reconhecer que a ausência de um princípio paterno saudável cria um vazio que a mãe, por mais que se dedique, não pode preencher sozinha, porque a função arquetípica paterna é estruturalmente distinta da materna.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E, no entanto, o mesmo sistema que falha em garantir a presença paterna real, afetiva, cotidiana e encarnada, não falha em exercer a sua presença patriarcal simbólica: a que dita corpos, controla autonomias, criminaliza diferenças, patrimonializa a fé e confunde conservação de valores com conservação de privilégios. Um sistema que se diz protetor da família, mas que, na prática, protege apenas a si mesmo, como aquele pai que diz &#8220;isto é para o seu bem&#8221; enquanto pratica o contrário do bem.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A ausência do pai que ama não deveria jamais ser confundida com a presença do sistema que domina. Um é falta. O outro é excesso. E ambos ferem.</p>



<h2 id="h-fogo-e-agua-a-danca-dos-principios" class="wp-block-heading"><strong>Fogo e água — a dança dos princípios</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Embora devamos considerar as configurações familiares contemporâneas, que vão muito além do modelo nuclear heteronormativo, os princípios materno e paterno são essenciais para o desenvolvimento saudável das crianças, independentemente do gênero ou da orientação sexual de seus cuidadores. A mãe simboliza o cuidado e a nutrição -água e terra, o princípio Yin. O pai representa a proteção, os limites e os desafios – ar e fogo, o princípio Yang. O equilíbrio entre esses elementos é vital, pois em harmonia sustentam o crescimento, mas em desarmonia causam danos. Assim como muita água apodrece e pouca fenece, ou como muito sol queima e pouco estagna.</p>



<h2 id="h-na-linguagem-da-psicologia-analitica-de-jung-esses-dois-principios-correspondem-as-dimensoes-que-m-esther-harding-em-the-way-of-all-women-designa-como-eros-e-logos" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Na linguagem da psicologia analítica de Jung, esses dois princípios correspondem às dimensões que M. Esther Harding, em <em>The Way of All Women</em>, designa como Eros e Logos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Eros</strong> é o princípio da relacionalidade, do sentimento, da conexão, é a capacidade de estabelecer vínculos, de sentir o outro, de criar intimidade. É a dimensão tradicionalmente associada ao feminino, à mãe, ao princípio materno que acolhe, nutre e envolve.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Logos</strong> é o princípio da razão, do julgamento objetivo, da discriminação, da lei, é a capacidade de estabelecer limites, de sustentar a frustração, de dizer &#8220;não&#8221; com firmeza e de abrir caminho para a separação e a individuação. É a dimensão tradicionalmente associada ao masculino, ao pai, ao princípio paterno que ordena, protege e desafia.</p>



<h2 id="h-quando-eros-se-expressa-de-modo-saudavel-manifesta-se-como-calor-humano-empatia-profunda-capacidade-de-nutrir-vinculos-autenticos-sensibilidade-estetica-e-espiritualidade-relacional" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Quando Eros se expressa de modo saudável, manifesta-se como calor humano, empatia profunda, capacidade de nutrir vínculos autênticos, sensibilidade estética e espiritualidade relacional.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A mãe que expressa um Eros consciente oferece à criança a experiência fundamental de ser amada não pelo que faz, mas pelo que é. <strong>Um amor incondicional que constitui a base da segurança emocional</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando, porém, Eros se manifesta de modo não saudável, e é aqui que a ausência do princípio paterno se torna particularmente devastadora, ele degenera em reatividade, histeria, fusão indiferenciada, possessividade e identificação inconsciente com o filho. A mãe que carrega sozinha o peso da criação, sem a contrapartida de uma presença que sustente a dimensão do Logos, corre o risco de ser engolida pela própria dimensão Eros que, sem o contraponto organizador do Logos, se torna um mar sem margens.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A criança, por sua vez, absorve não apenas o amor, mas também a angústia, o ressentimento e a exaustão materna pois, como Jung e Harding observam, existe uma <em>participation mystique</em>, uma identificação inconsciente profunda entre mãe e filho, através da qual os problemas psicológicos não resolvidos da mãe afetam diretamente a saúde e o comportamento da criança.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando Logos se expressa de modo saudável, manifesta-se como proatividade, clareza de pensamento, firmeza consistente, capacidade de estabelecer limites que protegem sem aprisionar, e sobretudo como a disposição de sustentar a frustração do filho, aquela qualidade essencial que permite à criança aprender que nem todo desejo deve ser imediatamente satisfeito, que a realidade tem contornos, que existem outros além de si mesmo.</p>



<h2 id="h-a-paternagem-que-encarna-um-logos-consciente-oferece-a-crianca-a-experiencia-do-mundo-como-estrutura-legivel-nao-como-caos-indiferenciado" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">A paternagem que encarna um Logos consciente oferece à criança a experiência do mundo como estrutura legível, não como caos indiferenciado.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É ele quem, tradicionalmente, introduz a criança no mundo da lei, das regras, da justiça e da competição sadia. Quando, porém, o Logos se manifesta de modo não saudável, ou quando está simplesmente ausente, o vazio que se instala não é neutro. A ausência de Logos deixa a criança sem a experiência internalizada do limite, da frustração tolerável e da autoridade amorosa.</p>



<h2 id="h-sem-essa-estrutura-a-crianca-tende-a-desenvolver-dificuldades-em-lidar-com-a-frustracao-em-respeitar-regras-sociais-em-conter-impulsos-e-em-estabelecer-metas-que-exigem-disciplina" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Sem essa estrutura, a criança tende a desenvolver dificuldades em lidar com a frustração, em respeitar regras sociais, em conter impulsos e em estabelecer metas que exigem disciplina.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E a mãe, por mais dedicada que seja, quando precisa exercer simultaneamente as funções de Eros e de Logos, de nutrir e de limitar, de acolher e de desafiar, de envolver e de separar, frequentemente se vê diante de uma exigência psicológica que ultrapassa as suas possibilidades, não por incompetência, mas porque essas duas funções exigem modos de ser qualitativamente diferentes, e a alternância constante entre elas pode gerar inconsistência, exaustão e culpa.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A mãe que se identifica excessivamente com o papel materno, tornando-se &#8220;toda mãe&#8221;, cria fixação e impede a independência do filho. É a arquetípica mãe devoradora que consome a individualidade da criança. Por outro lado, a mãe que, sobrecarregada pela necessidade de suprir também a função paterna, se torna excessivamente dura, burocrática ou controladora, corre o risco de reprimir seu próprio Eros, sua capacidade de sentir, de se conectar, de fluir e de transmitir ao filho a mensagem de que o mundo é um lugar de exigências sem acolhimento. O dilema é real e doloroso: como exercer, ao mesmo tempo, a função que envolve e a que separa, a que une e a que delimita, sem que uma destrua a outra?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim como, o pai que ensina o filho a respeitar a lei mas desrespeita a mãe em casa não está ensinando lei, está ensinando hipocrisia com pedigree. E o pai que se ausenta sob a alegação de que &#8220;está trabalhando para prover&#8221; pode estar, na verdade, provendo tudo menos aquilo de que o filho realmente precisa, sua presença.</p>



<h2 id="h-a-mulher-que-precisa-ser-pai-e-mae-o-dilema-contemporaneo" class="wp-block-heading"><strong>A mulher que precisa ser pai e mãe: o dilema contemporâneo</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Harding descreve três estágios de consciência feminina: o ingênuo, em que a mulher opera por instinto e sem reflexão; o sofisticado, em que desenvolve ego-consciência e busca controle; e o consciente, em que transcende o ego e reconhece um valor suprapessoal que orienta sua vida para além dos papéis biológicos e sociais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A mulher que, sozinha, precisa exercer maternagem e paternagem é frequentemente empurrada para o estágio sofisticado, aquele em que o ego se sobrecarrega, em que a eficiência substitui a presença, em que a sobrevivência se torna o modo de vida. O risco é que essa mulher, esgotada pela exigência de ser tudo para todos, perca o contato com sua própria profundidade, com o Eros que, quando consciente, é fonte de sabedoria relacional, e com o Logos que, quando integrado, é fonte de discernimento e não de mera rigidez.</p>



<h2 id="h-ela-argumenta-que-o-objetivo-profundo-e-frequentemente-inconsciente-da-emancipacao-feminina-nao-era-apenas-a-independencia-economica-mas-a-criacao-da-possibilidade-de-uma-relacao-psicologica-mais-consciente-entre-os-sexos-baseada-tanto-em-eros-quanto-em-logos" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Ela argumenta que o objetivo profundo, e frequentemente inconsciente, da emancipação feminina não era apenas a independência econômica, mas a criação da possibilidade de uma relação psicológica mais consciente entre os sexos, baseada tanto em Eros quanto em Logos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O que vemos hoje, porém, é frequentemente o contrário: a mulher que se torna tudo, mãe, pai, provedora, educadora e terapeuta, não porque escolheu a integração consciente de ambas as dimensões, mas porque foi abandonada à sua própria sorte por um sistema que produz ausência paterna em escala industrial.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A questão não é que a mulher seja incapaz de desenvolver Logos, certamente ela não apenas pode como deve, mas que o desenvolvimento consciente do Logos pela mulher é um processo psicológico longo e deliberado, que exige condições internas e externas que a sobrecarga da maternidade solo dificulta enormemente.</p>



<h2 id="h-quando-a-mae-e-levada-a-exercer-por-necessidade-e-nao-por-escolha-consciente-a-funcao-paterna-tres-dinamicas-psicologicas-podem-se-instalar" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Quando a mãe é levada a exercer, por necessidade e não por escolha consciente, a função paterna, três dinâmicas psicológicas podem se instalar.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Primeiro, a <strong>fusão</strong> sem a presença de uma figura que represente o princípio da separação, a <em>participation mystique</em> entre mãe e filho se intensifica, e a criança tem dificuldade de se diferenciar como indivíduo. Segundo, a <strong>inconsistência</strong>, a mesma pessoa que acolhe é a que limita, e essa ambiguidade confunde a criança, que não sabe se a autoridade que a frustra é a mesma que a nutre, gerando ansiedade e desconfiança em relação ao cuidado. Terceiro, a <strong>idealização, </strong>a criança privada do pai real constrói uma imagem idealizada do pai ausente, uma espécie de projeção do animus, e essa fantasia impede que ela desenvolva relações realistas com figuras masculinas no futuro, pois nenhum homem real conseguirá corresponder à perfeição do pai imaginário.</p>



<h2 id="h-e-aqui-chegamos-a-pergunta-mais-angustiante-de-todas-como-sera-o-futuro-dos-filhos-que-crescem-sem-a-intimidade-cotidiana-com-uma-presenca-masculina-saudavel" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">E aqui chegamos à pergunta mais angustiante de todas: como será o futuro dos filhos que crescem sem a intimidade cotidiana com uma presença masculina saudável?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A criança que não experimentou, no cotidiano, o que significa ser vista por um olhar masculino amoroso e firme, um olhar que simultaneamente acolhe e desafia,terá dificuldade em internalizar o arquétipo paterno de modo saudável. Ela terá dificuldade em sustentar frustrações, em respeitar limites que não sejam impostos pela força, em reconhecer a autoridade legítima quando ela não vem acompanhada de afeto.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E, no caso dos meninos, a ausência de um modelo masculino encarnado, não idealizado, não virtual, mas real e cotidiano, com suas qualidades e suas falhas, dificulta enormemente o processo de identificação masculina saudável, aquele que permite ao menino tornar-se homem sem precisar renegar a sua dimensão sensível, sem precisar endurecer-se para provar que é forte.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No caso das meninas, a ausência do pai real alimenta a fantasia do Amante Fantasma, aquele homem idealizado e irreal como projeção do animus inconsciente, que persegue a imaginação feminina e a afasta da realidade dos relacionamentos autênticos.</p>



<h2 id="h-o-complexo-paterno-quando-a-lei-encontra-o-afeto" class="wp-block-heading"><strong>O complexo paterno: quando a lei encontra o afeto</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O complexo paterno é um dinamismo psíquico que, no desenvolvimento da personalidade, fica mais atuante dos sete até aproximadamente os catorze anos. Neste momento a criança passa a viver o mundo do pai, o período do patriarcado, mesmo que não tenha relação com nenhuma pessoa do sexo masculino. É uma fase caracterizada pelo amadurecimento do cérebro límbico, maior capacidade de inibição dos instintos e consolidação dos valores culturais, sociais e religiosos. O jovem começa a estabelecer relações intersubjetivas mais abrangentes, vinculando-se a grupos, times, torcidas ou outras agremiações, formando referências hierárquicas.</p>



<h2 id="h-e-nesse-momento-que-as-regras-as-leis-e-a-justica-sao-internalizadas" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">É nesse momento que as regras, as leis e a justiça são internalizadas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E é exatamente aqui que reside o perigo e a oportunidade: se o modelo de autoridade que a criança internaliza for tirânico, ela aprenderá que poder é sinônimo de crueldade. Se for ausente, aprenderá que lei é sinônimo de vazio. Se for amoroso e firme, aprenderá que limite é sinônimo de cuidado e que respeito não se exige, se inspira.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando a figura paterna real está ausente, a criança buscará o arquétipo paterno em outros lugares, no professor, no tio, no treinador, no líder de comunidade, e, cada vez mais, em figuras virtuais e influenciadores digitais ou lideranças religiosas que, na maioria das vezes, encarnam exatamente a versão mais patológica do Logos que é poder sem responsabilidade, força sem vulnerabilidade, sucesso sem ética. A criança que não tem um pai presente para internalizar como modelo de Logos saudável fica à mercê de pseudopais coletivos que não a conhecem, não a amam e não se responsabilizam por ela.</p>



<h2 id="h-os-quatro-pilares-da-paternidade-consciente" class="wp-block-heading"><strong>Os quatro pilares da paternidade consciente</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para que essa internalização seja saudável, é preciso que o pai, ou quem exerça a função da paternagem, cultive quatro pilares fundamentais:</p>



<h2 id="h-1-a-presenca-consciente" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">1. <strong>A Presença Consciente</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Este é o maior presente. Exige uma entrega intencional, uma desconexão das distrações que fragmentam a alma. É a arte da escuta empática, que ouve o coração por trás das palavras. É o tempo de qualidade, onde os rituais de afeto fortalecem os laços anímicos. É o silêncio dos dispositivos eletrônicos para que o contato visual possa comunicar: &#8220;você é minha prioridade&#8221;.</p>



<h2 id="h-2-limites-como-um-abraco-de-amor" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">2<strong>. Limites como um Abraço de Amor</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Limites, quando estabelecidos com amor e firmeza, não são jaulas, mas as margens seguras que permitem ao rio da vida infantil fluir com propósito. A ausência de limites gera um mar de ansiedade. Uma estrutura paterna saudável, em harmonia com a nutrição materna, oferece essa segurança por meio da clareza, da consistência e do diálogo. A firmeza corrige o comportamento, mas sempre reafirma o amor incondicional pela essência da criança. É o Logos a serviço do Eros, a lei que protege o amor, e não o amor que se submete à lei.</p>



<h2 id="h-3-a-vulnerabilidade-como-forca" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">3. <strong>A Vulnerabilidade como Força</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A transição de um modelo de poder para um de alteridade começa em casa. É ali que a criança aprende a empatia e o respeito. Isso acontece quando o pai modela a vulnerabilidade: quando admite seus erros, pede desculpas e demonstra que a verdadeira força não reside na infalibilidade, mas na coragem de ser humano, de aprender e de se reparar. Um pai que integra sua própria sombra e que reconhece suas falhas sem se destruir pela culpa, ensina ao filho que a integridade não é perfeição, mas consciência.</p>



<h2 id="h-4-a-cooperacao-como-vitoria-da-alma" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">4. <strong>A Cooperação como Vitória da Alma</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Incentivar a colaboração em vez da competição, validar a perspectiva do outro e partilhar responsabilidades ensina que o cuidado com o espaço comum é um dever sagrado de todos. Ensina que o triunfo coletivo é a mais gratificante das vitórias.</p>



<h2 id="h-o-presente-que-os-filhos-nos-dao" class="wp-block-heading"><strong>O presente que os filhos nos dão</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Como estamos nos aproximando da comemoração do Dia dos Pais, que em 2026 cai em 9 de agosto, acredito que o melhor presente que os filhos possam nos dar é a sua presença, exigindo-nos coerência e consistência das nossas atitudes com os nossos valores. Sim, você leu corretamente: o presente é deles para nós. Porque a presença de um filho que olha nos olhos do pai e diz &#8220;seja o que você ensina&#8221; é o maior espelho que um homem pode enfrentar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E nós, pais, devemos refletir a respeito das nossas prioridades, exigindo e estimulando o cumprimento das leis, o respeito aos direitos humanos e maior consciência e transparência sobre nossa real condição existencial. Só assim poderemos sonhar com um mundo livre das tiranias que se alimentam do abandono, um mundo onde um patriarcado curado, forte e comprometido com o futuro, caminhe de mãos dadas com o matriarcado. Juntos, em alteridade, ensinam cada ser a conhecer seu limite e sua responsabilidade, pois aprenderam a arte mais sublime de todas que é o respeito, a capacidade de olhar e se deixar ser olhado com os olhos do amor.</p>



<h2 id="h-a-alteridade-nao-e-o-fim-do-pai-e-o-seu-amadurecimento-e-o-momento-em-que-o-pai-pode-finalmente-dizer-cresce-eu-ja-plantei-agora-floresce-no-teu-proprio-jeito" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">A alteridade não é o fim do pai. É o seu amadurecimento. É o momento em que o pai pode finalmente dizer: &#8220;<strong>Cresce. Eu já plantei. Agora floresce no teu próprio jeito</strong>.&#8221;</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O futuro que desejamos para nossos filhos não é uma abstração a ser erguida amanhã. Ele é forjado no agora, em cada interação, em cada escolha, em cada momento de presença consciente que tece a estrutura interna para uma vida plena, justa e com significado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Com isso, o princípio paterno será internalizado, fazendo com que disciplina, limites, regras, proteção e referência de autoridade amorosa contribuam para o futuro saudável de todos. Porque, no fim das contas, o que a criança precisa não é de um pai perfeito, porque seres perfeitos só existem em campanhas publicitárias de Dia dos Pais, mas de um pai presente, consciente e humano o suficiente para reconhecer os próprios erros e corrigi-los diante dos filhos. Isso é paternidade. O resto é performance.</p>



<h2 id="h-feliz-dia-dos-pais" class="wp-block-heading"><strong>Feliz Dia dos Pais!</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Que seja não apenas uma data de presente e abraço, embora ambos sejam indispensáveis, mas um dia de autoconsciência paterna. Que cada pai, cada mãe, cada adulto que exerce a função paterna, se pergunte: que espelho tenho sido para os filhos que herdarão não apenas o meu nome, mas a minha luz e a minha sombra, e que farão, daquilo que eu lhes transmitir ou lhes negar, o material bruto com que construirão o próprio destino? E que a resposta, por mais desconfortável que seja, seja o começo de uma nova herança.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; IJEP</a></strong></p>



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		<title>O que significa realmente conhecer alguém? Entre o encontro, a projeção e o mistério do outro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Gabriela Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 08 Jun 2026 20:55:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[Sociabilidade]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[amizade]]></category>
		<category><![CDATA[anima e animus]]></category>
		<category><![CDATA[inconsciente]]></category>
		<category><![CDATA[individualidade]]></category>
		<category><![CDATA[masculino e feminino]]></category>
		<category><![CDATA[projeção]]></category>
		<category><![CDATA[relação]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[relações]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A gente acha que conhece as pessoas. Sabe o que elas gostam, onde trabalham, o que pensam, o que postam. Mas isso não é conhecer alguém. Isso é ter informação. Conhecer alguém é outra coisa.Acontece no encontro. No jeito que a pessoa reage quando algo não sai como esperado.Nos silêncios.Nos desconfortos.Nas contradições que aparecem com [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:12px;line-height:1.1">
<p class="wp-block-paragraph">A gente acha que conhece as pessoas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sabe o que elas gostam, onde trabalham, o que pensam, o que postam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas isso não é conhecer alguém.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso é ter informação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Conhecer alguém é outra coisa.<br>Acontece no encontro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No jeito que a pessoa reage quando algo não sai como esperado.<br>Nos silêncios.<br>Nos desconfortos.<br>Nas contradições que aparecem com o tempo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E é aí que muita gente desiste.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque conhecer de verdade exige atravessar a queda das projeções.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aquele momento em que o outro deixa de ser quem a gente imaginou&#8230;<br>e passa a ser quem ele é.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nem toda amizade sobrevive a isso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Algumas acabam quando a idealização cai.<br>Outras ficam, e se tornam mais reais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Menos encantadas&#8230;<br>mas muito mais verdadeiras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez a amizade não seja sobre encontrar alguém que &#8220;combina&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas alguém com quem é possível continuar&#8230;<br>mesmo quando o mistério aparece.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque no fundo&#8230;<br>ninguém conhece totalmente ninguém.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E talvez seja exatamente isso<br>que torna alguns encontros tão raros.</p>
</blockquote>



<h2 id="h-vivemos-em-uma-epoca-curiosa-nunca-tivemos-acesso-a-tanta-informacao-sobre-as-pessoas-e-ao-mesmo-tempo-talvez-nunca-tenha-sido-tao-dificil-dizer-que-realmente-conhecemos-alguem" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Vivemos em uma época curiosa. Nunca tivemos acesso a tanta informação sobre as pessoas e, ao mesmo tempo, talvez nunca tenha sido tão difícil dizer que realmente conhecemos alguém.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Sabemos onde as pessoas trabalham, o que estudaram, quais lugares frequentam, o que gostam de comer, que músicas escutam, quais filmes assistem. Em poucos minutos, uma busca na internet pode revelar uma quantidade impressionante de dados sobre a vida de alguém.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Mas, mesmo assim, algo permanece inacessível.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque conhecer alguém não é simplesmente acumular informações sobre essa pessoa. Existe uma diferença sutil e profundamente importante entre <strong>saber sobre alguém</strong> e <strong>conhecer alguém de verdade</strong>. Saber sobre alguém pertence ao campo dos fatos. Podemos listar características, eventos biográficos, preferências, escolhas. É possível organizar essas informações como quem organiza arquivos em uma base de dados.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Conhecer alguém, no entanto, pertence a outra dimensão. Ele acontece no encontro. E encontros humanos são sempre mais complexos do que qualquer conjunto de informações.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Carl Gustav Jung observou que cada pessoa carrega dentro de si uma realidade psíquica muito mais vasta do que aquilo que aparece na superfície da vida cotidiana. Aquilo que mostramos ao mundo, nossos papéis sociais, nossas histórias, nossas narrativas conscientes, representa apenas uma parte daquilo que somos.</p>



<h2 id="h-a-psique-e-em-grande-parte-inconsciente-jung-2013" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><em>“A psique é, em grande parte, inconsciente.” (JUNG, 2013).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Isso significa que conhecer verdadeiramente alguém implica entrar em contato não apenas com aquilo que a pessoa diz sobre si mesma, mas também com aquilo que se revela lentamente na relação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O modo como alguém reage às situações, as histórias que escolhe contar, os silêncios que aparecem em determinados momentos, as emoções que surgem inesperadamente, tudo isso compõe uma espécie de linguagem da alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E essa linguagem não pode ser reduzida a dados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela se revela no tempo.</p>



<h2 id="h-a-cultura-contemporanea-desenvolveu-uma-confianca-enorme-na-ideia-de-que-tudo-pode-ser-conhecido-atraves-da-informacao-quanto-mais-dados-possuimos-sobre-um-fenomeno-mais-acreditamos-compreende-lo" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">A cultura contemporânea desenvolveu uma confiança enorme na ideia de que tudo pode ser conhecido através da informação. Quanto mais dados possuímos sobre um fenômeno, mais acreditamos compreendê-lo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Esse modelo funciona muito bem para diversos campos do conhecimento. Sistemas financeiros, redes de comunicação, tecnologia da informação e processos organizacionais dependem justamente da capacidade de coletar, organizar e interpretar grandes volumes de dados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas quando aplicamos essa mesma lógica às relações humanas, algo começa a escapar. Podemos saber quase tudo sobre alguém e, ainda assim, não conhecer essa pessoa. Da mesma forma, às vezes conhecemos alguém profundamente mesmo sabendo muito pouco sobre sua história objetiva. Isso acontece porque o conhecimento humano não se limita à informação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele envolve presença.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Envolve escuta.</p>



<h2 id="h-envolve-a-capacidade-de-perceber-nuances-que-nao-aparecem-nos-fatos-mas-se-manifestam-no-modo-como-uma-pessoa-habita-o-mundo" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Envolve a capacidade de perceber nuances que não aparecem nos fatos, mas se manifestam no modo como uma pessoa habita o mundo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A psicologia analítica reconhece que cada indivíduo é portador de uma história psíquica única. Experiências da infância, imagens arquetípicas, complexos emocionais e desejos inconscientes participam silenciosamente da construção da personalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Grande parte desses conteúdos não aparecem diretamente na narrativa consciente da pessoa. Eles se revelam no encontro. E, por isso, conhecer alguém exige algo que nenhuma base de dados pode oferecer: tempo compartilhado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma das marcas mais curiosas da cultura contemporânea é a sensação de que tudo pode ser conhecido, explicado e organizado. Vivemos cercados por sistemas que prometem tornar o mundo cada vez mais transparente: algoritmos que antecipam preferências, redes sociais que revelam hábitos, plataformas que registram cada passo de nossas rotinas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse cenário, parece natural acreditar que conhecer alguém seja apenas uma questão de acesso à informação. Nós sabemos onde as pessoas trabalham, que lugares frequentam, o que publicam, com quem se relacionam. Podemos acompanhar suas opiniões, suas viagens, suas conquistas e até mesmo seus estados emocionais expressos em imagens e textos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, paradoxalmente, essa abundância de informação não necessariamente nos aproxima das pessoas. Em muitos casos, ela cria apenas a sensação de proximidade. A psique humana, no entanto, não se organiza apenas em torno daquilo que é visível. Existe uma dimensão profunda da experiência humana que não pode ser totalmente capturada por dados ou descrições objetivas.</p>



<h2 id="h-jung-observou-que-grande-parte-da-vida-psiquica-permanece-inconsciente-influenciando-silenciosamente-pensamentos-emocoes-e-comportamentos" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Jung observou que grande parte da vida psíquica permanece inconsciente, influenciando silenciosamente pensamentos, emoções e comportamentos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Isso significa que mesmo a pessoa que mais acreditamos conhecer guarda dentro de si territórios desconhecidos. Não porque esteja escondendo algo, mas porque a própria natureza da psique humana é, em grande medida, misteriosa. Conhecer alguém, portanto, não é apenas reunir informações sobre essa pessoa. É participar de uma experiência que se revela lentamente, no encontro e na convivência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando duas pessoas se encontram de forma verdadeira, algo acontece que não pode ser completamente previsto. Uma conversa pode abrir perguntas que antes não existiam. Um olhar pode despertar lembranças ou reflexões inesperadas. Às vezes, um simples diálogo produz mudanças profundas na maneira como alguém percebe a própria vida.</p>



<h2 id="h-jung-descreveu-esse-fenomeno-com-uma-imagem-muito-conhecida" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Jung descreveu esse fenômeno com uma imagem muito conhecida:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:13px">
<p class="wp-block-paragraph">“O encontro de duas personalidades é como o contato de duas substâncias químicas: se houver reação, ambas se transformam.” (JUNG, 2012, p. 49).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Essa frase aponta para um aspecto fundamental das relações humanas: os encontros verdadeiros são sempre transformadores. Eles nos confrontam com perspectivas diferentes, revelam aspectos de nós mesmos que permaneciam ocultos e, muitas vezes, ampliam nossa compreensão da realidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso acontece porque cada pessoa carrega dentro de si um universo psíquico singular. Quando dois universos se encontram, surge um campo relacional que não existia antes. Nesse campo, novas possibilidades de pensamento e sentimento podem emergir. E, às vezes, aquilo que começa como uma simples conversa transforma-se em um vínculo significativo. Entre as muitas formas que os encontros humanos podem assumir, a amizade entre homens e mulheres ocupa um lugar particularmente interessante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Durante muito tempo, a cultura tratou esse tipo de relação com certa desconfiança. Muitas narrativas sociais sugeriam que homens e mulheres não poderiam desenvolver uma amizade profunda sem que ela se transformasse necessariamente em um relacionamento amoroso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa ideia, no entanto, revela mais sobre os limites culturais do que sobre a complexidade das relações humanas. Homens e mulheres podem, sim, desenvolver amizades intensas, baseadas em diálogo, admiração intelectual, troca emocional e crescimento mútuo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na perspectiva da Psicologia Analítica, esse tipo de vínculo pode possuir uma função psíquica importante. Jung observou que cada pessoa carrega dentro de si imagens arquetípicas do feminino e do masculino, aquilo que ele chamou de Anima e Animus. Essas imagens influenciam profundamente a forma como percebemos e nos relacionamos com o outro.</p>



<h2 id="h-a-anima-e-o-arquetipo-da-vida-no-inconsciente-masculino-jung-2013-p-26" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><em>“A anima é o arquétipo da vida no inconsciente masculino.” (JUNG, 2013, p. 26).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando um homem estabelece uma relação significativa com uma mulher, seja ela amorosa, profissional ou amistosa, aspectos de sua própria vida emocional podem ser mobilizados. Da mesma forma, uma mulher também pode entrar em contato com dimensões de seu próprio Animus através da relação com o masculino. Isso não significa que toda amizade entre homens e mulheres esteja marcada por projeções românticas ou conflitos inconscientes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Significa apenas que esse tipo de relação pode favorecer um diálogo psíquico entre dimensões complementares da experiência humana. Em muitos casos, esse diálogo torna-se um espaço de aprendizado mútuo. Homens podem desenvolver maior sensibilidade emocional. Mulheres podem ampliar formas de expressão intelectual ou assertiva. Ambos podem encontrar no outro uma perspectiva que desafia e enriquece a própria visão de mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse sentido, a amizade entre homens e mulheres pode funcionar como um território fértil para o desenvolvimento psicológico. Um espaço onde duas pessoas, sem necessariamente se tornar um casal, participam do crescimento uma da outra. Talvez seja justamente por isso que conhecer alguém nunca seja um processo completo. Por mais longa que seja uma relação, sempre permanece algo do outro que escapa à nossa compreensão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Existe um núcleo de mistério na experiência humana que não pode ser totalmente traduzido em palavras ou conceitos. A alteridade &#8211; a experiência de encontrar alguém que é verdadeiramente diferente de nós &#8211; lembra constantemente que o mundo não se resume às nossas próprias percepções.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O outro possui uma interioridade própria, uma história única, uma forma singular de habitar o mundo. E talvez seja justamente isso que torna os encontros humanos tão preciosos. Eles nos lembram que a vida não é apenas um conjunto de informações organizadas. Ela é também um campo de experiências compartilhadas, de descobertas inesperadas e de relações que ampliam nossa consciência.</p>



<h2 id="h-conhecer-alguem-nesse-sentido-nunca-e-um-processo-terminado" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Conhecer alguém, nesse sentido, nunca é um processo terminado.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">É um caminho. Um caminho que se constrói no tempo, na escuta e na disposição de permanecer aberto ao mistério que cada pessoa carrega dentro de si. Quando duas pessoas se encontram pela primeira vez, aquilo que se apresenta na relação raramente corresponde à totalidade daquilo que cada uma é.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cada indivíduo chega ao encontro carregando histórias, experiências, expectativas e defesas. Ao longo da vida aprendemos, consciente ou inconscientemente, a mostrar certos aspectos de nós mesmos e a proteger outros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung chamou de Persona essa dimensão da personalidade que se apresenta ao mundo. A Persona não é falsa no sentido de mentira; ela é, antes de tudo, uma forma de adaptação social. Através dela conseguimos circular na sociedade, trabalhar, estabelecer relações e ocupar determinados papéis.</p>



<h2 id="h-a-persona-e-aquilo-que-alguem-nao-e-realmente-mas-que-ele-e-os-outros-pensam-que-ele-e-jung-2013-p-305" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><em>“A persona é aquilo que alguém não é realmente, mas que ele e os outros pensam que ele é.” (JUNG, 2013, p. 305).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Esse mecanismo é necessário. Sem alguma forma de Persona, a convivência humana seria extremamente difícil. No entanto, quando duas pessoas começam a se conhecer, aquilo que aparece inicialmente na relação costuma ser justamente essa camada mais visível e social da personalidade. O verdadeiro conhecimento do outro exige algo mais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele exige tempo suficiente para que as máscaras sociais possam, aos poucos, relaxar. Pequenos gestos, contradições, fragilidades e histórias pessoais começam então a aparecer. É, nesse momento que a relação deixa de ser apenas um encontro entre papéis e começa a tornar-se um encontro entre pessoas. Mesmo quando acreditamos estar vendo o outro com clareza, existe um elemento que sempre participa das relações humanas: a projeção.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na Psicologia Analítica, projeção é o processo pelo qual os conteúdos da própria psique são atribuídos a outra pessoa. Aquilo que ainda não reconhecemos em nós mesmos pode ser percebido como pertencente ao outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse fenômeno é extremamente comum nos vínculos humanos. Às vezes idealizamos alguém, atribuindo-lhe qualidades que desejamos encontrar. Em outras ocasiões, reagimos negativamente a comportamentos que, na verdade, refletem conflitos internos nossos.</p>



<h2 id="h-jung-descreveu-esse-processo-de-forma-bastante-clara" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Jung descreveu esse processo de forma bastante clara:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>“As projeções transformam o mundo em uma réplica do nosso próprio rosto desconhecido.” (JUNG, 2013, p. 233).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Isso significa que, em muitos encontros, não estamos lidando apenas com o outro real, mas também com imagens internas que projetamos sobre ele.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse fenômeno não precisa ser compreendido apenas de maneira negativa. Em muitos casos, as projeções funcionam como pontes que permitem à psique entrar em contato com aspectos ainda inconscientes de si mesma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando uma projeção se torna consciente, aquilo que antes parecia pertencer exclusivamente ao outro começa a ser reconhecido como parte da própria experiência psíquica. Dessa forma, algumas relações humanas funcionam como verdadeiros espelhos. Elas revelam dimensões de nós mesmos que dificilmente seriam percebidas em isolamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro elemento fundamental para conhecer alguém é o tempo. A cultura contemporânea, marcada pela velocidade e pela instantaneidade, frequentemente cria a ilusão de que as relações podem se desenvolver rapidamente. Conversas intensas, trocas frequentes de mensagens e afinidades aparentes podem gerar a sensação de que já compreendemos profundamente a outra pessoa. Mas a experiência humana mostra que o verdadeiro conhecimento de alguém acontece de maneira muito mais lenta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É no decorrer do tempo que surgem os pequenos detalhes da vida cotidiana: a forma como alguém reage ao conflito, como lida com frustrações, como se comporta em momentos de alegria ou de perda. Esses aspectos raramente aparecem nas primeiras interações. Eles se revelam na convivência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Conhecer alguém implica atravessar diferentes fases da vida ao lado dessa pessoa. Significa observar mudanças, amadurecimentos, dúvidas e transformações. A identidade humana não é estática. Cada indivíduo está em constante processo de desenvolvimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung descreveu esse movimento como Processo de Individuação, o caminho pelo qual a pessoa se aproxima gradualmente da totalidade de sua própria psique.</p>



<h2 id="h-individuacao-significa-tornar-se-um-ser-unico-e-indivisivel-jung-2011-p-275" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><em>“Individuação significa tornar-se um ser único e indivisível.” (JUNG, 2011, p. 275).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando acompanhamos alguém ao longo do tempo, testemunhamos partes desse processo. E talvez seja justamente essa experiência compartilhada que torna certos vínculos tão significativos. Entre as muitas formas de relação humana, a amizade ocupa um lugar singular.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diferente dos vínculos familiares, que muitas vezes são determinados pela história e pela biologia, a amizade nasce da escolha. Ela se constrói a partir de afinidades, interesses comuns e, muitas vezes, de um certo reconhecimento silencioso entre duas pessoas. Na amizade, existe uma liberdade particular.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os amigos podem compartilhar pensamentos, dúvidas e reflexões que nem sempre encontram espaço em outros contextos. Conversas que começam de forma casual podem se transformar em diálogos profundos sobre a vida, os valores e o sentido da existência.</p>



<h2 id="h-em-algumas-situacoes-a-amizade-torna-se-um-espaco-privilegiado-para-o-desenvolvimento-psicologico-os-dois-individuos-que-se-encontram-em-momentos-semelhantes-de-suas-trajetorias-podem-oferecer-um-ao-outro-algo-extremamente-valioso-escuta-questionamento-e-presenca" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Em algumas situações, a amizade torna-se um espaço privilegiado para o desenvolvimento psicológico. Os dois indivíduos que se encontram em momentos semelhantes de suas trajetórias podem oferecer um ao outro algo extremamente valioso: escuta, questionamento e presença.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Através dessas trocas, aspectos da própria personalidade começam a se tornar mais claros. Perguntas que permaneciam difusas encontram novas formas de expressão. Ideias que antes pareciam isoladas ganham sentido no diálogo com o outro. Neste contexto, a amizade pode participar do Processo de Individuação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não porque os amigos tenham a função de analisar ou orientar a vida um do outro, mas porque o encontro humano cria um espaço onde a consciência pode se ampliar. A presença do outro, com sua história e sua perspectiva singular, torna-se um convite permanente à reflexão. E, muitas vezes, é justamente nesses encontros, simples, cotidianos, aparentemente sem pretensão, que surgem algumas das conversas mais transformadoras da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar das profundas transformações sociais ocorridas nas últimas décadas, a amizade entre homens e mulheres ainda costuma ser cercada por certo grau de desconfiança cultural. Em muitas narrativas sociais, permanece a ideia de que a proximidade entre um homem e uma mulher inevitavelmente conduz ao campo amoroso ou sexual.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa suposição aparece frequentemente em conversas cotidianas, em filmes, em literatura popular e até mesmo em discursos psicológicos simplificados. Segundo essa visão, homens e mulheres não conseguiriam sustentar uma amizade profunda sem que, em algum momento, o desejo erótico emergisse como elemento central da relação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No entanto, a experiência humana mostra que as relações são muito mais complexas do que esse modelo sugere. A proximidade entre homens e mulheres pode, de fato, despertar tensões eróticas. Isso não deveria causar surpresa. A psique humana é atravessada por forças afetivas e simbólicas que nem sempre seguem limites rígidos entre amizade, admiração e desejo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung reconheceu que as relações entre homens e mulheres frequentemente mobilizam imagens arquetípicas profundas.</p>



<h2 id="h-todo-homem-carrega-dentro-de-si-a-imagem-eterna-da-mulher-nao-a-imagem-de-uma-mulher-particular-mas-de-uma-mulher-determinada-jung-2013-p-26" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><em>“Todo homem carrega dentro de si a imagem eterna da mulher, não a imagem de uma mulher particular, mas de uma mulher determinada.” (JUNG, 2013, p. 26).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Essas imagens psíquicas influenciam profundamente a forma como percebemos o outro sexo. Em muitos encontros, aquilo que inicialmente nos atrai ou nos intriga não é apenas a pessoa concreta que está diante de nós, mas também a imagem arquetípica que ela constela dentro da psique. É, nesse ponto que muitas amizades entre homens e mulheres se tornam psicologicamente interessantes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A presença da tensão simbólica entre masculino e feminino pode enriquecer o diálogo e ampliar a consciência de ambos os lados. A relação torna-se um espaço onde cada um entra em contato com aspectos da própria psique que talvez permanecessem menos desenvolvidos em contextos exclusivamente masculinos ou femininos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Marie-Louise von Franz, importante colaboradora de Jung, observou que o encontro com o outro sexo frequentemente desempenha um papel essencial no desenvolvimento psicológico.</p>



<h2 id="h-o-encontro-com-o-outro-sexo-e-um-dos-fatores-mais-importantes-no-processo-de-desenvolvimento-da-personalidade-von-franz-1990-p-112" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><em>“O encontro com o outro sexo é um dos fatores mais importantes no processo de desenvolvimento da personalidade.” (VON FRANZ, 1990, p. 112).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando esse encontro acontece dentro de um campo de amizade, e não apenas de relação amorosa, ele pode produzir efeitos particularmente interessantes. A amizade entre homens e mulheres permite que exista diálogo sem que todas as energias da relação sejam absorvidas pela expectativa romântica. Nesse espaço, torna-se possível explorar ideias, compartilhar reflexões e desenvolver intimidade intelectual e emocional.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso não significa que a dimensão erótica esteja completamente ausente. Em muitos casos, ela aparece como uma tensão latente que faz parte da complexidade da relação. Mas a existência dessa tensão não precisa necessariamente conduzir à transformação da amizade em relacionamento amoroso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando reconhecida com maturidade, ela pode inclusive contribuir para aprofundar o vínculo, permitindo que duas pessoas permaneçam conscientes das forças psíquicas que atravessam a relação. Assim, a amizade entre homens e mulheres pode funcionar como um espaço privilegiado de crescimento psicológico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Homens podem entrar em contato com dimensões emocionais que frequentemente são pouco estimuladas em ambientes exclusivamente masculinos. Mulheres podem ampliar sua relação com o pensamento, a assertividade e outras formas de expressão frequentemente associadas ao masculino.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung observou que o desenvolvimento psicológico envolve justamente o diálogo entre diferentes dimensões da psique.</p>



<h2 id="h-a-psique-e-uma-realidade-complexa-composta-por-opostos-que-precisam-entrar-em-relacao-jung-2013-p-89" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><em>“A psique é uma realidade complexa, composta por opostos que precisam entrar em relação.” (JUNG, 2013, p. 89).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando uma amizade entre homem e mulher consegue sustentar esse diálogo sem reduzir a relação apenas ao campo do desejo, algo bastante interessante acontece. O encontro torna-se um espaço de ampliação da consciência. Duas pessoas, com histórias e experiências diferentes, ajudam uma à outra a perceber aspectos do mundo, e de si mesmas, que talvez permanecessem invisíveis em outros contextos. E talvez seja justamente essa possibilidade de crescimento mútuo que torna algumas dessas amizades tão profundamente significativas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando um homem e uma mulher desenvolvem uma relação próxima, nem sempre é simples compreender a natureza do vínculo que se estabelece entre eles. A proximidade emocional, o diálogo profundo e a sensação de reconhecimento mútuo podem despertar sentimentos que transitam entre diferentes dimensões da experiência humana.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em alguns casos, trata-se de amizade genuína. Em outros, o que aparece na relação é a projeção de imagens inconscientes que pertencem à própria psique. A Psicologia Analítica oferece uma chave importante para compreender essa dinâmica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando um homem encontra uma mulher que ressoa a Ânima, é comum que ela se torne portadora de qualidades simbólicas que ultrapassam a pessoa concreta. Algo da vida psíquica profunda passa a se projetar sobre ela. O mesmo ocorre, em direção oposta, quando uma mulher projeta aspectos de seu Animus em um homem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesses momentos, a relação pode adquirir uma intensidade particular. Surge uma sensação de fascínio, de profundidade ou de destino compartilhado que parece difícil de explicar apenas em termos racionais. Jung descreveu esse fenômeno de forma bastante direta:</p>



<h2 id="h-onde-reina-a-projecao-da-anima-ali-se-encontra-um-dos-maiores-encantamentos-da-vida-jung-2013-p-28" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><em>“Onde reina a projeção da anima, ali se encontra um dos maiores encantamentos da vida.” (JUNG, 2013, p. 28).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Esse encantamento, no entanto, possui uma característica importante: ele não pertence exclusivamente ao outro. Grande parte da energia emocional que aparece na relação tem origem na própria psique de quem projeta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando essa dinâmica não é reconhecida, a amizade pode facilmente transformar-se em enamoramento. O outro passa a ser percebido como alguém excepcional, quase portador de qualidades extraordinárias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em muitos casos, o que está sendo amado não é exatamente a pessoa real, mas a imagem psíquica que foi projetada sobre ela. Isso não significa que o sentimento seja falso. Pelo contrário, ele pode ser extremamente intenso e transformador. Mas a compreensão desse processo ajuda a perceber que algumas relações possuem uma função psicológica específica. Elas servem como espelhos. Através do outro, a pessoa entra em contato com aspectos da própria alma que permaneciam inconscientes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Marie-Louise von Franz descreveu esse processo ao afirmar que as projeções frequentemente desempenham um papel importante no desenvolvimento psicológico.</p>



<h2 id="h-a-projecao-e-uma-tentativa-inconsciente-de-tornar-visivel-algo-que-ainda-nao-foi-reconhecido-na-propria-psique-von-franz-1990-p-98" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><em>“A projeção é uma tentativa inconsciente de tornar visível algo que ainda não foi reconhecido na própria psique.” (VON FRANZ, 1990, p. 98).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando a projeção começa a se dissolver, algo interessante pode acontecer. A relação pode perder parte da intensidade romântica inicial, mas ganhar uma nova qualidade de consciência. O outro deixa de ser portador de uma imagem idealizada e passa a ser reconhecido como pessoa real, com suas próprias complexidades e limites. É nesse momento que algumas relações se transformam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O enamoramento diminui, mas algo mais estável pode surgir em seu lugar: a amizade. A amizade, nesse sentido, representa um encontro menos dominado por projeções e mais aberto à realidade do outro. Ela não exige que o outro corresponda a uma imagem ideal. Ela permite que duas pessoas se encontrem como realmente são.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Curiosamente, algumas das amizades mais profundas entre homens e mulheres surgem justamente depois que certas projeções se tornam conscientes. Quando o fascínio inicial se transforma em compreensão, a relação pode adquirir uma qualidade mais tranquila e, ao mesmo tempo, mais verdadeira. Duas pessoas passam a se encontrar sem a necessidade de corresponder às expectativas idealizadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Existe espaço para diálogo, discordância, aprendizado e crescimento mútuo. Esse tipo de amizade possui uma força particular porque não depende da idealização. Ela nasce da experiência compartilhada de reconhecer a humanidade do outro. Neste sentido, a amizade pode representar um estágio mais maduro do encontro entre masculino e feminino.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não porque o desejo desapareça completamente, mas porque ele deixa de dominar a relação. A presença do outro continua sendo significativa, mas não exige que a relação se transforme em algo que talvez não corresponda ao caminho de cada um. E quando isso acontece, a amizade torna-se um espaço de liberdade. Duas pessoas podem caminhar lado a lado, compartilhando ideias, experiências e reflexões, sem que a relação precise assumir uma forma predeterminada.</p>



<h2 id="h-e-talvez-seja-justamente-essa-liberdade-que-torna-algumas-amizades-entre-homens-e-mulheres-tao-raras-e-tao-preciosas-talvez-uma-das-maiores-dificuldades-da-cultura-contemporanea-seja-reconhecer-que-o-amor-pode-assumir-formas-diferentes-daquelas-que-estamos-acostumados-a-imaginar" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">E talvez seja justamente essa liberdade que torna algumas amizades entre homens e mulheres tão raras e tão preciosas. Talvez uma das maiores dificuldades da cultura contemporânea seja reconhecer que o amor pode assumir formas diferentes daquelas que estamos acostumados a imaginar.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Muitas narrativas sociais ainda sugerem que a proximidade profunda entre duas pessoas precisa necessariamente conduzir ao relacionamento amoroso. Quando isso não acontece, surge a impressão de que algo ficou incompleto ou mal resolvido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No entanto, a experiência humana mostra que algumas relações encontram sua forma mais verdadeira justamente fora do modelo romântico. A amizade pode ser uma dessas formas. Quando duas pessoas conseguem sustentar um vínculo baseado em respeito, diálogo e reconhecimento mútuo, sem que a relação precise se tornar possessiva ou exclusiva, algo raro acontece. O encontro deixa de ser dominado pela necessidade de possuir o outro. Ele se torna um espaço de liberdade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Do ponto de vista da Psicologia Analítica, essa possibilidade está relacionada ao amadurecimento da relação com as projeções inconscientes. À medida que imagens idealizadas se dissolvem, o outro deixa de ser portador de expectativas psíquicas e passa a ser percebido como indivíduo real.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung observou que o desenvolvimento psicológico envolve justamente essa capacidade de reconhecer a alteridade.</p>



<h2 id="h-a-relacao-verdadeira-com-o-outro-so-se-torna-possivel-quando-as-projecoes-sao-retiradas-jung-2013-p-132" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><em>“A relação verdadeira com o outro só se torna possível quando as projeções são retiradas.” (JUNG, 2013, p. 132).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando isso acontece, a relação ganha uma nova qualidade. A presença do outro continua sendo significativa, mas já não precisa corresponder a uma imagem idealizada ou a um papel previamente definido. Duas pessoas podem simplesmente compartilhar experiências, pensamentos e momentos da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse tipo de vínculo não elimina as tensões naturais da relação entre masculino e feminino. Pelo contrário, reconhece sua existência sem permitir que elas determinem completamente o destino da relação. Existe espaço para admiração, para troca intelectual, para aprendizado mútuo. Existe espaço, sobretudo, para o reconhecimento de que cada pessoa permanece sendo um mistério. Conhecer alguém nunca é um processo completo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por mais longa que seja uma amizade, sempre haverá aspectos da interioridade do outro que permanecem inacessíveis. Cada ser humano carrega dentro de si uma história, uma imaginação e uma profundidade que não podem ser totalmente traduzidas. Talvez seja justamente essa dimensão de mistério que torna os encontros humanos tão significativos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eles nos lembram que a vida não é apenas um conjunto de informações organizadas, mas uma experiência compartilhada entre consciências que se encontram. Algumas dessas relações tornam-se breves. Outras permanecem ao longo dos anos. E algumas, silenciosamente, participam do Processo de Individuação de ambos os envolvidos. Não porque tenham sido planejadas para isso. Mas, porque, no encontro entre duas histórias, algo da alma encontra espaço para se reconhecer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez seja isso que realmente significa conhecer alguém. Não dominar sua história. Não compreender completamente sua interioridade. Mas permanecer aberto ao mistério que cada pessoa traz consigo e permitir que esse encontro transforme, ainda que discretamente, o curso da própria vida.</p>



<h2 id="h-e-voce-tem-cuidado-das-suas-amizades-tem-cultivado-elas" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">E você tem cuidado das suas amizades, tem cultivado elas?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Boas reflexões!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/natalhe/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/natalhe/">Ms. Natalhe Vieni – Analista Didata em Formação</a></strong></p>



<h2 id="h-esp-gabriel-yamaya-analista-em-formacao" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/gabriel-yamaya/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/gabriel-yamaya/">Esp. Gabriel Yamaya – Analista em Formação</a></h2>



<h2 id="h-dra-simone-magaldi-didata-e-fundadora-do-ijep" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. Simone Magaldi – Didata e Fundadora do IJEP</a></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Vídeo de apresentação:</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:19px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <strong>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</strong>. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <strong>O eu e o inconsciente</strong>. 24. ed. Petrópolis: Vozes, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <strong>A natureza da psique</strong>. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <strong>A prática da psicoterapia</strong>. Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NEUMANN, Erich. <strong>A grande mãe: um estudo fenomenológico das constituições femininas do inconsciente</strong>. São Paulo: Cultrix, 2000.</p>



<p class="wp-block-paragraph">VON FRANZ, Marie-Louise. <strong>A interpretação dos contos de fadas</strong>. São Paulo: Paulus, 1990.</p>



<p class="wp-block-paragraph">VON FRANZ, Marie-Louise. <strong>O processo de individuação</strong>. In: JUNG, C. G. (Org.). <em>O homem e seus símbolos</em>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HOLLIS, James. <strong>A passagem do meio: da crise à individuação</strong>. São Paulo: Paulus, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HAN, Byung-Chul. <strong>Sociedade do cansaço</strong>. Petrópolis: Vozes, 2017.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br"><strong>www.ijep.com.br</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-que-significa-realmente-conhecer-alguem-entre-o-encontro-a-projecao-e-o-misterio-do-outro/">O que significa realmente conhecer alguém? Entre o encontro, a projeção e o mistério do outro</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Algo do feminino se tornou inconsciente na mulher contemporânea?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/algo-do-feminino-se-tornou-inconsciente-na-mulher-contemporanea/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luciana Gimenes Branco]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Mar 2026 20:03:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[anima/animus]]></category>
		<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[animus]]></category>
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		<category><![CDATA[energia psíquica]]></category>
		<category><![CDATA[feminino]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Muita coisa mudou nos últimos 100 anos nas vidas das mulheres ocidentais, especialmente aquelas que vivem nas grandes cidades. Algo do aspecto masculino (Animus) tornou-se bastante consciente e ativo, usando muito da energia psíquica das mulheres. Será que, de forma compensatória, teria algo do feminino nas mulheres foi tornado inconsciente, criando uma “nova” Anima? </p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo: </strong>Muita coisa mudou nos últimos 100 anos nas vidas das mulheres ocidentais, especialmente aquelas que vivem nas grandes cidades. Algo do aspecto masculino (Animus) tornou-se bastante consciente e ativo, usando muito da energia psíquica das mulheres. Será que, de forma compensatória, teria algo do feminino nas mulheres foi tornado inconsciente, criando uma “nova” Anima? </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-ultimo-seculo-e-marcado-por-mudancas-profundas-nas-vidas-das-mulheres-que-nasceram-e-vivem-no-ocidente-especialmente-nas-grandes-cidades" style="font-size:18px">O último século é marcado por mudanças profundas nas vidas das mulheres que nasceram e vivem no Ocidente, especialmente, nas grandes cidades.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Não tenho como me propor a refletir sobre as mulheres que nasceram e vivem no Oriente, por isso estabeleço o recorte a partir de minha própria experiência na vida e, mais recentemente, no que tenho experimentando no consultório, como analista em formação pelo IJEP.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A mulher conquistou direitos civis e políticos. O direito ao voto em Appenzell Innerrhoden, último cantão da Suíça de Jung, por exemplo, tornou-se realidade por decisão judicial em 1990 – e não por voto popular. O sufrágio universal feminino em Portugal ocorreu em 1976, após a Revolução dos Cravos. Nos Estados Unidos em 1920, na França em 1944 e no Brasil, em 1946, para citar alguns exemplos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Neste último século, as mulheres passaram a ter acesso massivo ao ensino superior, entraram no mercado de trabalho formal, especialmente após as guerras, e assim&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; passaram a conquistar independência econômica. Segundo o Censo do IBGE de 2022, 49,1% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">As ideias do casamento e da maternidade como principais destinos da vida de uma mulher vêm sendo esvaziadas, não sem dúvida e sofrimento. Desde 1977, o Brasil conta com a Lei do Divórcio, que pode ser solicitado por qualquer um dos cônjuges, até de forma unilateral, mesmo que litigiosa.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Muitas mudanças também vêm acontecendo no território do corpo da mulher. Com acesso à contracepção (a pílula anticoncepcional é invenção dos anos 60), a sexualidade feminina ganhou dimensão para além da maternidade. O prazer feminino e o aborto tornaram-se assuntos frequentes na grande imprensa. A moda tornou possível &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;corpos expostos, silhuetas marcadas, peitos e bundas à mostra.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-a-toa-esta-condicao-feminina-contemporanea-ganhou-novas-expressoes-e-coros-tambem-na-cultura-pop-de-formas-inimaginaveis-na-suica-de-jung" style="font-size:18px">Não à toa, esta condição feminina contemporânea ganhou novas expressões e coros também na cultura pop, de formas inimagináveis na Suíça de Jung.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Coro &#8211;</strong> Após cansar-se do sofrimento gerado pelo pouco cuidado que o namorado lhe dava, incrementado por traições, a musicista americana Miley Cyrus canalizou um hino da independência afetiva feminina que alcançou bilhões de streamings nos últimos dois anos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Com <em><strong>Flowers</strong></em>, Cyrus ganhou seu primeiro Grammy, o prêmio máximo da música, aos 31 anos e protagonizou cena inesquecível na cultura pop na noite em que recebeu a honraria.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-do-ponto-de-vista-junguiano-o-refrao-da-musica-pode-ser-visto-simbolicamente-como-uma-conversa-olho-no-olho-com-um-aspecto-do-animus" style="font-size:18px">Do ponto de vista junguiano, o refrão da música pode ser visto, simbolicamente, como uma conversa olho no olho com um aspecto do Animus.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“I can buy myself flowers</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>(Eu posso comprar flores para mim mesma)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Write my name in the sand</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>(Escrever meu nome na areia)</em><em><br>Talk to myself for hours</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>(Conversar comigo mesma por horas)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Say things you don&#8217;t understand</em><em><br>(Dizer coisas que você não entende)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>I can take myself dancing</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>(Eu posso me levar para dançar)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>And I can hold my own hand</em><em><br>(E eu posso segurar minha própria mão)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Yeah, I can love me better than you can”</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>(Sim, eu posso me amar melhor do que você pode)</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Anima e Animus &#8211;</strong> Jung pensou a dimensão das forças inconscientes feminina e masculina a partir dos conceitos de Anima e Animus. A analista junguiana e esposa do autor Emma Jung, em seu <em>Animus e Anima</em>, buscou trazer uma explicação objetiva para o tema, a partir do olhar de uma mulher.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“São características femininas no homem e masculinas na mulher que normalmente estão sempre presentes em determinada medida, mas que são incômodas para a adaptação externa ou para o ideal existente, não encontrando espaço algum no ser voltado para o exterior” </em><em>(Página 16)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se para Jung, uma pessoa identificada conscientemente como mulher mantém no inconsciente a dimensão do masculino (Animus), a mulher contemporânea ocidental, que experimenta aspectos do masculino na vida prática, ou seja, na consciência, tem colocado a teoria à prova ou, ao menos, demandado novas leituras atualizadas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-emma-jung-cuja-escrita-pode-por-vezes-assustar-a-mulher-contemporanea-devido-ao-tom-conservador-segue" style="font-size:18px"><strong>Emma Jung, cuja escrita pode, por vezes, assustar a mulher contemporânea devido ao tom conservador, segue:</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“O problema da mulher atual me parece estar muito mais na postura em relação ao logos do animus, em relação ao espiritual-masculino no sentido estrito”.</em></p>
</blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“&#8230;uma determinada quantidade de espírito masculino amadureceu na consciência das mulheres e deve encontrar em suas personalidades seu lugar e sua atuação. Conhecer essas grandezas, ordená-las para que possam agir de maneira adequada é uma parte importante do problema do animus” (Página 20)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Tais fatos trazem para a conversa aspecto fundamental da psicologia analítica. Se o inconsciente coletivo também é fruto da história de todos os tempos, as vivências contemporâneas o influenciam e, assim, se tornam parte do inconsciente e buscam se manifestar. Com aquele sorriso amedrontado, ouso dizer que não à toa a psicologia também é chamada de complexa.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“A verdade eterna precisa da linguagem humana que se modifica de acordo com o espírito do tempo. As imagens primordiais são susceptíveis de transformações infinitas, mas nem por isso deixam de ser sempre as mesmas. No entanto só serão compreendidas de novo se renovarem a forma de se apresentarem. Elas requerem constantemente novas interpretações, se não quisermos que, devido a uma conceituação obsoleta, elas percam seu poder de atração”. (O/C </em><em>16/ 2 parágrafo 396) </em><em></em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Dúvida &#8211;</strong> Na minha vida e no consultório enxergo mulheres navegando de forma natural nas dimensões do aspecto masculino arquetípico. Pessoas com força de realização, com segurança na tomada de decisões, altamente hábeis na capacidade analítica. Mulheres que desejam, planejam e realizam sonhos, famílias, viagens, propriedades. Que criam e desenvolvem vínculos afetivos com amigos, familiares e amores.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-ainda-assim-algo-falta-nessas-mulheres-algo-tem-nos-faltado" style="font-size:20px"><strong>Mas ainda assim, algo falta nessas mulheres. Algo tem nos faltado.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“&#8230;pode-se muito bem supor que, em grande parte, as formas mais primitivas da masculinidade já foram assimiladas pela mulher. Falando-se de maneira geral, elas há muito encontraram sua utilização na vida feminina, pois já faz tempo que</em><em> existem mulheres cuja força de vontade, objetividade, atividade e capacidade de atuação serviram como forças úteis em suas vidas, vividas por outro lado de forma completamente feminina.” (Página 20)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Será que, após termos integrado o aspecto masculino (Animus) na dimensão consciente da vida, algo do feminino arquetípico tornou-se inconsciente de forma compensatória, fazendo de nós mulheres contemporâneas seres que precisam agora dialogar com aspectos de uma nova Anima (um feminino arquetípico)?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-simbolicamente-os-sintomas-podem-estar-nos-dizendo-que-sim" style="font-size:21px"><strong>Simbolicamente, os sintomas podem estar nos dizendo que sim.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se Jung afirma que “O inconsciente é a Natureza e a Natureza nunca mente”, a liberdade conquistada pelo uso de hormônios contraceptivos ou que mascaram os sintomas da menopausa, por exemplo, pode resultar, em sua dimensão oposta complementar, na prisão de um corpo que silencia os ciclos da Natureza que, consequentemente, vai dar um jeito de se fazer ouvir, como é hábito do inconsciente por esta perspectiva.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Mãe de cinco e que interrompeu a vida sexual com o marido por um período, evitando novas gestações, Emma Jung afirma que “&#8230;com a possibilidade de controle de natalidade, uma significativa quantidade de libido fica livre. Duvido que até mesmo a própria mulher possa avaliar de maneira correta quão grande é essa quantidade, que até então era utilizada para a constante preparação interior e estava consolidada” (Página 22).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-de-novo-e-sempre" style="font-size:18px"><strong>De novo e sempre</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na introdução do clássico pós-junguiano <em>Mulheres que correm com os lobos</em>, que já vendeu mais de 2,7 milhões de cópias globalmente, a analista Clarisse Pinkola Estés diz que as terras espirituais da Mulher Selvagem, durante o curso da história, foram saqueadas ou queimadas. “Com seus refúgios destruídos e seus ciclos naturais transformados à força em ritmos artificiais para agradar os outros”, completa.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A Organização Mundial da Saúde (OMS) indica um crescimento significativo no número de casos de câncer de mama no mundo até 2050. Dez por cento das mulheres em idade reprodutiva no planeta sofrem de endometriose, uma doença que inverte a tendência de parte do fluxo menstrual e faz com que a menstruação ocorra —&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; simbolicamente —&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;na cavidade abdominal da mulher, causando terríveis dores e até infertilidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez por procurarem mais ajuda, talvez por estarem mais adoecidas, as mulheres têm cerca de duas vezes mais diagnósticos de depressão do que os homens. <strong>Emma</strong> afirma: “<em>para ela, tornar-se consciente significa a perda de um poder especificamente feminino</em>”. (Página 44)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-prefacio-de-seu-best-seller-estes-lanca-a-seta-sem-temer" style="font-size:18px"><strong>No prefácio de seu <em>best seller</em>, Estés lança a seta sem temer:</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Todas nós temos anseio pelo que é selvagem. Existem poucos antídotos aceitos por nossa cultura para esse desejo ardente. Ensinaram-nos a ter vergonha desse tipo de aspiração. Deixamos crescer o cabelo e o usamos para esconder nossos sentimentos. No entanto, o espectro da Mulher Selvagem ainda nos espreita de dia e de noite. Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem decididamente quatro patas.”</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-arquetipo-como-instinto-uma-parte-do-feminino-foi-tornado-inconsciente-pela-influencia-do-espirito-do-tempo-em-nossos-corpos-no-ultimo-seculo-no-ocidente-o-masculino-vivido-como-patriarcado-que-busca-dominar-tudo-ate-mesmo-a-forma-de-ser-mulher-contemporanea" style="font-size:18px">O arquétipo como instinto. Uma parte do feminino foi tornado inconsciente pela influência do espírito do tempo em nossos corpos no último século, no Ocidente. O masculino vivido como patriarcado que busca dominar tudo, até mesmo a forma de ser mulher contemporânea.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez seja a hora de, novamente, buscarmos o novo de novo. Um novo equilíbrio entre o feminino e o masculino que nos habitam, algo que poderia ser facilitado pelo desenvolvimento e a transformação psíquica mais acelerada dos homens com os quais, inevitavelmente, convivemos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Porque apesar de todas as conquistas comportamentais, ainda sinto e vejo no consultório e também nas conversas com as amigas que algo de uma alma arquetípica permanece. Talvez parte das mulheres ainda queira conciliar o “sexo frágil” ao que “não foge à luta” e ainda ousar buscar suas formas únicas de ser mulher por inteiro, afinal, como canta <strong>Rita Lee:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Toda mulher quer ser amada</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Toda mulher quer ser feliz</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Toda mulher se faz de coitada</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Toda mulher é meio Leila Diniz”</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/luciana-branco/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/luciana-branco/">Luciana Branco &#8211; Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi Filho &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">CYRUS, Miley. <em>Flowers.</em> <em>Los Angeles, Columbia Records e Smiley Miley Inc</em>, 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Emma. <em>Animus e Anima</em>. 2ª edição. São Paulo: Cultrix, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.Ab-reação, análise dos sonhos e transferência O/C 16//2. 9ª edição. Petrópolis: Editora Vozes, 2012. </p>



<p class="wp-block-paragraph">ESTÉS, Clarissa Pinkola. <em>Mulheres que correm com os lobos</em>. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Quando os titãs capturam os relacionamentos afetivos e a violência vira seu palco</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/quando-os-titas-capturam-os-relacionamentos-afetivos-e-a-violencia-vira-seu-palco/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Pedro Pimentel Rocha]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 10 Nov 2025 14:09:55 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>Resumo</strong>: Nesse artigo, a temática da violência crescente nos relacionamentos afetivos é ampliada e debatida, passando pela metáfora dos titãs e da inconsciência ao se relacionar. A questão de como a ira e a agressividade ganham força também é abordada, levando em consideração a cultura atual e os ditames coletivos. Uma visão da sombra coletiva é destacada como um dos pilares da violência e da agressividade rompante na sociedade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-premissa-de-todo-relacionamento-afetivo-saudavel-criativo-e-funcional-o-conhecimento-minimo-sobre-a-natureza-subjetiva-daquele-que-se-propoe-a-compartilhar-dores-alegrias-sorrisos-e-angustias-com-o-outro" style="font-size:20px">É premissa de todo relacionamento afetivo saudável, criativo e funcional o conhecimento mínimo sobre a natureza subjetiva daquele que se propõe a compartilhar dores, alegrias, sorrisos e angústias com o outro.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">A delegação da responsabilidade própria de se autogerir e de se administrar emocionalmente ao outro acaba solapando um desenvolvimento conjunto e direcionado para uma finalidade construtiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Logo, abrir mão da própria capacidade de reconhecer quais aspectos precisam ser elaborados (presentes em uma projeção de conteúdos inconscientes), encarcera o movimento recíproco do dar e receber. A dinâmica do poder e do controle é a ferramenta titânica mais eficiente para a promoção da violência e da anestesia do tear vínculos e relações. &nbsp;Ferramenta estimulada a todo momento pela cultura, grupos e mídias sociais e contextos familiares.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:21px"><blockquote><p>Não resta dúvida que o mal provém, em grande parte, da inconsciência ilimitada do homem, como também é verdade que um conhecimento mais profundo nos ajuda a lutar contra as causas psíquicas do mal.</p><cite>Jung, OC.10/3, §166</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Quanto mais inconscientes somos sobre o que nos atravessa, mais a consciência é invadida por conteúdos sombrios e pelas constelações dos complexos. Assim, em uma dinâmica conjugal, a razão e o discernimento são afastados, sendo substituídos pela ação do aspecto primitivo inconsciente de todo ser humano, anunciando a entrada em campo da força violenta e bruta dos titãs. Deste modo, se tem um embate entre sombras e não entre vozes conscientes e direcionadas a um amor compartilhado.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-explica" style="font-size:20px">Jung explica:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>De modo geral, estas resistências ligam-se a projeções que não podem ser reconhecidas como tais e cujo conhecimento implica um esforço moral que ultrapassa os limites habituais do indivíduo. Os traços característicos da sombra podem ser reconhecidos, sem maior dificuldade, como qualidades pertinentes à personalidade, mas tanto a compreensão como a vontade falham, pois a causa a emoção parece provir, sem dúvida alguma, de outra pessoa.</p><cite>OC 9.2, §16</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-um-outro-alicerce-para-relacoes-abusivas-e-violentas-e-o-falsear-aquilo-que-somos" style="font-size:20px">Um outro alicerce para relações abusivas e violentas é o falsear aquilo que somos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">A espontaneidade é o aroma que encanta e atrai multidões como também desperta fúria e perseguições. A angústia em ver no parceiro/a aquele lado que tanto foi renegado ou subvalorizado por mim, provoca terremotos e tsunamis emocionais profundas, capazes de destronar a consciência e levar o indivíduo a todo tipo de barbárie.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">A inveja &#8211; aspecto genuinamente humano &#8211; daqueles que conseguiram expressar aquilo que tanto foi negado por mim é uma força que ganha intensidade quando a superficialidade se torna regra nas relações. A frustração interna em não ter trabalhado possibilidades e potências inerentes e múltiplas do ser se espelha em uma frustração externa, que se faz ser reconhecida independente da vontade pessoal, das defesas e compensações inconscientes.&nbsp; Esse movimento profundo de autoalienação cobra um preço alto e exige uma conscientização amarga, que infelizmente é desaguado nos parceiros/as.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">A autoalienação é uma erva daninha que se espalha e se expressa de inúmeras formas. Seja em uma busca insaciável por um corpo perfeito, volumoso, com veias e voz grossa; seja por encantos de uma distorcida imagem social luxuosa ostentada em redes sociais com viagens e objetos de luxo. <strong>O território desconhecido em mim é o lugar de morada dos titãs</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Na mitologia, as figuras simbólicas dos titãs representam tanto uma força poderosa,&nbsp; intensa, construtiva da terra como a destruição brutal e domínio da consciência pelos instintos e forças primitivas. <strong>March</strong> comenta: “<strong><em>Depois Urano fecundou Gaia, que deu à luz a raça dos deuses primordiais conhecidas como titãs: Oceano, Ceos, Crio, Hiperio etc..</em></strong>” (March, 2016, p.42)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-vale-ressaltar-que-a-fuga-de-si-mesmo-nao-poder-ser-abafada-por-uma-dependencia-afetiva-ou-seja-por-uma-ausencia-constante-daquilo-que-me-toca-e-me-afeta-genuinamente" style="font-size:20px">Vale ressaltar que a fuga de si mesmo não poder ser abafada por uma dependência afetiva, ou seja, por uma ausência constante daquilo que me toca e me afeta genuinamente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">A maior plenitude de uma consciência é ter a sensibilidade psíquica, corporal, espiritual de poder ser tocada, mexida, afetada, sendo posteriormente elaborada, ampliada e integrada. Entretanto, não é um movimento inconsciente ao outro enredado por traumas, dores, ausências maternas, paternas que irá preencher um vazio infinito de valorização e de reconhecimento. Esse poço apenas pode ser preenchido por uma redenção ao centro solar, uno, que vivifica toda a vida; a autopercepção honesta, profunda e misericordiosa entoada pelo Si mesmo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-violencia-titanica-de-um-ser-humano-ignora-todas-as-dependencias-e-interrelacoes-necessarias-com-o-meio-que-o-cerca" style="font-size:20px">A violência titânica de um ser humano ignora todas as dependências e interrelações necessárias com o meio que o cerca.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">O que se tem é o uso da natureza como uma serviçal pronta para qualquer tipo de satisfação imediata e fugaz. Então, a partir do momento que há um corte no olhar observador que singulariza a natureza viva daquilo que chega até mim, o descarte, a agressão e o uso desalmado ganham palco. Então, podendo levar à fúria dos inconscientes e à derrocada de um encontro criativo e vivo.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>A sequência desses fenômenos é de certo modo ordenada por dois arquétipos, o da anima que exprime vida incondicional, e o do “velho sábio”, que personifica a mente.</p><cite>Jung, OC.14/1. §307</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-ataque-violento-contra-a-figura-feminina-denota-uma-agressao-contra-a-propria-vida-que-se-torna-insuportavel-de-ser-vivida-e-sentida-aquela-que-se-torna-falsa" style="font-size:20px">O ataque violento contra a figura feminina denota uma agressão contra a própria vida que se torna insuportável de ser vivida e sentida, aquela que se torna falsa.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">A projeção da anima em mulheres, na comunidade homoafetiva e em tudo aquilo ligado ao sensível se transforma no alvo inconsciente a ser destruído por lembrar ao ego a dor e angústia profunda de se abandonar. A figura do feminino passa a carregar a ameaça constante do precipício que convida o ego massificado e ignorante de si mesmo a pular dentro (como uma tentativa de se resgatar).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-negacao-da-anima-da-vida-e-sua-conexao-gera-uma-ferida-angustiante-que-a-todo-tempo-relembra-sua-presenca-e-o-seu-vazio-jung-cita" style="font-size:20px">A negação da anima, da vida e sua conexão, gera uma ferida angustiante que a todo tempo relembra sua presença e o seu vazio. <strong>Jung </strong>cita:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>A anima em seu aspecto negativo, isto é, quando ela, permanecendo inconsciente, oculta-se no sujeito e exerce uma influência possessiva sobre ele. Os sintomas principais dessa possessão são de uma parte caprichos cegos e confusões compulsivas, e de outra parte isolamento, frio e sem nenhum relacionamento, numa atitude de princípios (confusão de ideias).</p><cite>OC. 4/2, §204</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-monick-complementa" style="font-size:20px"><strong>Monick</strong> complementa:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Na fúria, a tempestade de resposta emocional nasce da necessidade urgente que o homem experimenta de proteger e salvar a sua identidade, o seu próprio ser- isso e/ou a retaliação da ofensa que está sobre ele, como ela é percebida subjetivamente. A ira pode ser a emoção que se sente quando não há nada a fazer. É mais provável que surja a fúria quando o homem se sente incapaz.</p><cite>Monick, 1993, p. 116</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-espirito-da-epoca-cada-vez-mais-raso-seco-egoista-indiferente-estimulando-a-produtividade-e-performance-a-todo-custo-alavanca-a-ira-e-o-controle" style="font-size:20px">O espírito da época cada vez mais raso, seco, egoísta, indiferente estimulando a produtividade e performance a todo custo alavanca a ira e o controle.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Como consequência, a raiva profunda em ser decepado, castrado, dividido e desmembrado em uma cama que não cabe a grandeza e a riqueza de ser quem somos é enterrada no inconsciente. Logo, a não permissão de sermos vistos com a totalidade intrínseca e inerente ao humano somado com a anestesia da capacidade de ligação com o mundo, com a natureza com aquilo que nos cerca, acaba constelando os titãs e ogros que habitam em todos nós.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ampliando-o-tema-monick-comenta" style="font-size:20px">Ampliando o tema, Monick comenta:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>A fúria masculina é uma indicação de que um homem está em contato pessoal e doloroso com um ferimento profundo, até mesmo com o não-ser. Pode-se receber essa fúria, e afastar-se dela, julgando-a com dureza adequada, mas sem um mínimo de compreensão. </p><cite>Monick, 1993, p. 119</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>Até que ponto a cultura vigente permite que haja um espaço para que a raiva e a exposição de feridas masculinas emocionais sejam elaboradas? Enquanto coletivo, abafamos a fúria ou damos espaço para que ela seja ouvida?</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-revolta-da-sombra-se-faz-presente-na-consciencia-de-todos-aqueles-que-vivem-de-maneira-inconsciente" style="font-size:20px">A revolta da sombra se faz presente na consciência de todos aqueles que vivem de maneira inconsciente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Seu motim, seu grito, é proclamado em alto e bom tom em todos de forma explicita ou implícita, degradando relacionamentos e vínculos conjugais. Como consequência, a raiva se intensifica e toma o lugar da consciência.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>O campo amplo e vasto do inconsciente, não alcançado pela crítica e pelo controle da consciência, acha-se aberto e desprotegido para receber todas as influências e infecções psíquicas possíveis.</p><cite>Jung, OC. 10/1, §493</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Nas consciências pautadas pelo princípio masculino, pode se expressar através da sequência extrema de socos e golpes em algo delicado; pela brutalidade de respostas desconcertantes e fora de contexto; pela indiferença do sentir do outro; na cegueira em momentos de abertura daquilo que fere e causa sofrimento, angústia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Por outro lado, nas consciências pautadas pelo princípio feminino, pode se manifestar através de manipulações emocionais sutis e perversas; pelo controle da vida e dos movimentos do outro com uma voz aveludada e mansa; pela ambiguidade proposital de palavras, falas e atos; pela sedução e jogo de sinais afetivos deturpados e com aroma podre; ou até mesmo pelo uso efetivo e camuflado de benefícios que esconde a busca por um novo pai e não um parceiro ao lado.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>Dizer que um indivíduo “teve um acesso de raiva” significa que algo caiu sobre ele e o subjugou; que o demônio está montado nele; que está possesso e que alguma coisa penetrou em seu íntimo.</p><cite>Jung, OC.8.2, §627</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">É importante destacar que gentileza e proteção, compaixão e apoio, atos de afeto e trocas são raízes de qualquer relacionamento saudável que busca uma construção conjunta. Entretanto, quando a invisibilidade do outro; quando há a percepção de um corpo vivo como um objeto ou um negócio que pode angariar benefícios; quando a minha total inconsciência sobre o que me desafia e me atravessa; a terra alquímica da união entre polos diferentes se torna seca, abrindo rachaduras através das quais o clamor das sombras e o grito dos titãs internos saem e fazem presença. Sendo todo esse processo iluminado com a coroa da violência e da destruição.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-um-fenomeno-moderno-comum-na-atualidade-e-colocar-estigmas-nas-relacoes-padroes-de-classificacao" style="font-size:20px">Um fenômeno moderno comum na atualidade é colocar estigmas nas relações, padrões de classificação.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">A fuga de relações profundas ao classificar “ficantes” em várias categorias cobra seu preço quando a ausência do contato (necessidade arquetipicamente humana) fala mais forte. Ao se colocar barreiras, requisitos a serem conquistados, avaliações empresariais e capitalistas em um campo afetivo e de aproximação e constituição de vínculos, uma faixa preta de alienação é amarrada nos olhos, na percepção de alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">A máquina das redes socias em criar fantasias, as denúncias falsas de agressões de parceiros/as, a demonização e destruição da imagem masculina com a vulgarização interesseira da feminina alimentam nossos titãs. Formas de violência profunda que permeiam o campo social e coletivo. Se engana quem pensa que essa força agressiva, titânica, estimulada a todo instante “desaparece” em um passe de mágica ou por discursos ideológicos. É necessário o enfrentamento de si mesmo.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>A culpa coletiva psicológica é uma fatalidade trágica; atinge a todos, justos e injustos, que, de alguma maneira, se encontravam na proximidade do crime.</p><cite>Jung, OC.10/2, §405</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mais-uma-vez-a-sombra-coletiva-tem-seu-peso-sua-voz-e-sua-forca-de-atuacao-no-inconsciente-coletivo-e-pessoal" style="font-size:20px">Mais uma vez, a sombra coletiva tem seu peso, sua voz e sua força de atuação no inconsciente coletivo e pessoal.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Aquilo que não é reconhecido na dinâmica coletiva se manifesta em dinâmicas particulares, seja em relacionamentos seja em uma indisponibilidade para criar vínculos. O caminho não é a instrumentalização dessa força para se obter lucro, mas sim uma identificação, mediação, integração e diálogo não excludente da sua própria existência e eficácia.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>A figura da sombra personifica tudo o que o sujeito não reconhece em si e sempre o importunam, diretamente ou indiretamente, como por exemplo traços inferiores de caráter e outras tendências incompatíveis.</p><cite>Jung, OC.9.1, §513</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>Por fim, a amplitude da experiência humana, que permite uma ampliação de consciência, está sendo encaixotada em uma esteira de massificação e padronização de produtos</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">O produto do relacionamento perfeito, instagramável, que atende todos os requisitos de um casal margarina que anda pelos campos com um cachorro <em>gold retriver</em>. Ou seja, uma ilusão que captura e sequestra a possibilidade de transformação mútua quando se relaciona afetivamente com alguém. A propaganda é: compre esse produto e não se preocupe em integrar os conteúdos sombrios e dos complexos. A máquina das redes socias e denúncias fazem o resto.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;Quando os titãs capturam os relacionamentos afetivos e a violência vira seu palco&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/H_tk5-ZsZbc?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/pedro-rocha/">Pedro Pimentel Rocha &#8211; Membro Analista em Formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi – Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>A natureza da psique</strong>.<strong>OC.8.2</strong> Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>Os arquétipos e o inconsciente coletivo. OC.9/1</strong>. Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>Aion. Estudo sobre o simbolismo do Si-mesmo</strong>.<strong>OC.9.2</strong> Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>Presente e futuro. OC.10/1</strong>. Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>Aspectos do drama contemporâneo. OC.10/2</strong>. Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>Civilização em transição. OC.10/3</strong>. Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>Mysterium Coniunctionis. OC.14/1</strong>. Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>Mysterium Coniunctionis. OC.14/2</strong>. Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p class="wp-block-paragraph">MARCH, J. <strong>Mitos clássicos</strong>. 2ªd – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016</p>



<p class="wp-block-paragraph">MONICK, E. <strong>Castração e fúria masculina: a ferida fálica</strong>. São Paulo: editora paulinas, 1993.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br"><strong>www.ijep.com.br</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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