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	<title>Arquivos Medicina Psicossomática - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos Medicina Psicossomática - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Psicossomática</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/psicossomatica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 Jul 2022 18:51:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[A doença como cura]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[Doenças Psicossomáticas]]></category>
		<category><![CDATA[Medicina Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[psicossomática]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Psicossomática é a ciência que deveria ser a base fundante de todas as ciências da saúdo, porque a psique é a mãe de todas as produções humanas, incluindo todos a formas de adoecimento, sejam elas físicas, mentais ou relacionais.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">A prática da <strong>psicossomática</strong> é muito antiga, Hipócrates, o pai da medicina, já afirmava em um dos seus mais famosos aforismos: &#8220;O que te fere é o que te cura&#8221;. E a Medicina Tradicional Chinesa há mais de cinco mil anos também assume estes princípios. Desta forma, não é a <strong>psicossomática</strong> um conhecimento novo e alternativo. Ao contrário, nossa atual medicina, que é reducionista, mecanicista e causal, que acabou fragmentando o ser humano, dessacralizando o seu corpo ao assumir uma atitude invasiva, materialista e desumanizada, muito mais ligada ao consumismo capitalista do que as verdadeiras razões e necessidades da existência humana. Em consequência disso é que surgiu o ensino da <strong>psicossomática</strong>, que serve para recuperar os conhecimentos de homem integral, que jamais poderiam ter sido perdidos, transdisciplinarmente unindo a medicina com a psicologia, a filosofia, as expressões artísticas e as religiões &#8211; corpo, alma, mente e espírito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No ocidente, Freud começou a estudar distúrbios físicos provocados pela psique, as famosas histerias conversivas. Atualmente, vários autores foram além, chegando à conclusão da inseparabilidade do trinômio: biológico, psicológico e energético, afirmando que qualquer desequilíbrio em uma parte refletirá na totalidade do ser. Assim sendo, todas as doenças podem ser consideradas<strong> psicossomáticas</strong>, porque nós somos seres <strong>psicossomáticos</strong> inseridos no contexto cultural e social que também é <strong>psicossomático</strong>. Nessa premissa nasce a PNEI &#8211; psiconeuroendocrinoimunologia, demonstrando que todo afeto &#8211; consciente ou inconsciente, real ou imaginário &#8211; é capaz de gerar alguma emoção, consciente ou inconsciente, ativando o psiquismo que imediatamente irá mobilizar o sistema neurológico. Este, por sua vez, irá gerar mudança no ambiente bioquímico e hormonal correspondente da emoção eliciada pelo afeto. Essa mudança endocrinológica, por sua vez, modificará o sistema autoimune deixando o indivíduo mais ou menos suscetível a doenças oportunistas, como bactérias, vírus, fungos ou vermes&nbsp; ou produzir as doenças autoimunes, manifestadas na conceituação patológica de reumatismos, bronquite asmática, psoríase, vitiligo, câncer, entre outras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos estudos da<strong> psicossomática</strong> arcaica ainda se faz a distinção de doenças <strong>psicossomáticas</strong> das doenças <strong>somatopsíquicas</strong>, na tentativa de buscar um &#8220;responsável&#8221; pelo sintoma. Mesmo assim, a maioria das afecções dermatologias, respiratórias, gastrintestinais, autoimunes como o câncer e o reumatismo, são consideradas doenças<strong> psicossomáticas </strong>pela velha escola psicanalítica. Com isso, o profissional de saúde que não reconhece a moderna <strong>psicossomática</strong> sofre da ilusão do saber e corre o risco de cometer abuso de poder, devido a seu ceticismo racionalista, cartesiano e reducionista. Além de estar fadado a uma crise de ordem espiritual e emocional que o levará, invariavelmente, a questionar sua prática, ficar deprimido ou, reativamente e defensivamente, completamente dogmático e obcecado pela sua crença e sua prática de que a química ou o bisturi podem eliminar qualquer sintoma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desta forma, entendemos que os sintomas são expressões simbólicas que violam e revelam, por meio de suas secreções dolorosas, os segredos emocionais que estavam secretos, na maioria das vezes ocultos no que chamamos de inconsciente pessoal. Por isso, qualquer sintoma físico, psíquico ou relacional, permitirá que o cliente , aquele que se declinou e caiu, reorganize sua vida, incluindo outras dimensões à sua existência, integrando na consciência egóica atitudes de respeito e realização dos aspectos: físicos, sexuais, emocionais, familiares, laborais, sociais, políticos e espirituais, como uma unidade contínua em busca da evolução, realização existencial e transcendência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Jung, a existência humana é a possibilidade para que o absoluto se manifeste. Mas, para isso, é necessária a mudança da consciência e de seu paradigma, possibilitando ao ego a capacidade de reconhecer e interagir com o mundo inconsciente, que estava na sombra, abrigando uma infinidade de antinomias, que são os pares de opostos, e possibilidades que podem ser de caráter instintivo, arquetípico, bestial, divino ou transcendental. Porque a negação desta tensão angustiante é geradora de neuroses e uma infinita coleção de sintomas, físicos e psíquicos, que só podem ser curados por meio do autoconhecimento, que promove à autoconsciência, o autodescobrimento e a autotransformação rumo à autoiluminação, possibilitando o estado de equanimidade do ego frente à adversidade e multiplicidade da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Waldemar Magaldi Filho, Psicólogo, analista junguiano, mestre e doutor em ciências da religião, professor e coordenador dos cursos de pós-graduação, lato-sensu, que titulam e formam especialistas em Psicologia Junguiana, <strong>Psicossomática,</strong> DAC e Arteterapia do IJEP &#8211; Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa &#8211; www.ijep.com.br</p>



<p class="wp-block-paragraph">Autor do livro: &#8220;Dinheiro, saúde e sagrado&#8221; &#8211; Ed. Eleva Cultural.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Waldemar Magaldi Filho &#8211; 19/03/2019</em></strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br/artigos">&nbsp;Voltar</a></p>



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<iframe title="Psicossomática   Waldemar Magaldi   IJEP" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/y0wjPTTS7mU?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
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			</item>
		<item>
		<title>Evento em Suzano num período de mania egocêntrica</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/evento-em-suzano-num-periodo-de-mania-egocentrica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ajax Salvador]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 19 Jun 2019 11:56:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicopatologia]]></category>
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		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[Associação Junguiana]]></category>
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		<category><![CDATA[egocentrismo]]></category>
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		<category><![CDATA[Jung na Prática]]></category>
		<category><![CDATA[Massacre em Suzano]]></category>
		<category><![CDATA[Medicina Psicossomática]]></category>
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		<category><![CDATA[psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O evento em Suzano suscitou várias reflexões. Algumas delas buscam aliviar o sofrimento e a angústia de não entender o que aconteceu diagnosticando e categorizando os que realizaram o atentado ou colocando-o como monstruosidade ou desumanidade.</p>
<p>Em entrevista ao blog A Protagonista, o psiquiatra forense Guido Palomba, mesmo alertando que é preciso cautela para formar opiniões afirma que: "Mas o que podemos saber com absoluta certeza é que esse crime foi praticado por doente mental. Não há outra possibilidade. Qualquer outra possibilidade está errada". O presidente Bolsonaro coloca na rede social o evento como desumano, uma monstruosidade e covardia.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">O evento em Suzano suscitou várias reflexões. Algumas delas buscam aliviar o sofrimento e a angústia de não entender o que aconteceu diagnosticando e categorizando os que realizaram o atentado ou colocando-o como monstruosidade ou desumanidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em entrevista ao blog A Protagonista, o psiquiatra forense Guido Palomba, mesmo alertando que é preciso cautela para formar opiniões afirma que: &#8220;Mas o que podemos saber com absoluta certeza é que esse crime foi praticado por doente mental. Não há outra possibilidade. Qualquer outra possibilidade está errada&#8221;. O presidente Bolsonaro coloca na rede social o evento como desumano, uma monstruosidade e covardia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que a narrativa junguiana poderia contribuir nesta reflexão?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Uma das marcas importantes da perspectiva junguiana é não separar o que acontece nos extremos do que acontece no habitual. Os produtos de uma doença seriam exageros de ocorrências normais. E, é exatamente por exagerarem o que acontece em todos que a &#8220;patologia&#8221; mostra de maneira mais evidente o que acontece habitualmente (JUNG C. G., 1964, p.34). Como se o que protegesse a psique fosse a colaboração de todos os complexos, suas alternâncias e flutuações produzindo, numa transformação constante, um equilíbrio que se modifica a cada momento de acordo com o contexto presente. Como cada ser seria a realização singular de uma composição de universais, seria o crescimento unilateral de qualquer padrão, que entrando em cisão e oposição com outros produziria sintomas ou inimigos (como sintomas projetados). Afinal, nada do que se configura na consciência individual (valores, características, atributos etc.) seria exclusivo daquele vivente, embora a forma como a composição se dá, naquele momento e sujeito, seja singular. Os valores coletivos afetariam e comporiam complexos que funcionando como sistemas parciais autônomos podem invadir a consciência (individual e coletiva) como ameaças e serão vividos como sintomas ou inimigos personificados ou mesmo pode haver uma possessão de um sujeito ou de um grupo que em identificação com um destes sistemas parciais seja tomado e saia atuando concretamente estes padrões.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O que é considerado problema maior na perspectiva junguiana é a unilateralidade da consciência quer seja num sujeito ou num coletivo. Jung já apontava no &#8220;Segredo da Flor de Ouro&#8221; (JUNG C. G., 2001) que o monoteísmo da consciência tem sido vivido como uma religião, uma possessão que nega, fanaticamente, a existência de sistemas parciais autônomos. O colapso, a crise seria então o efeito desta consciência desenraizada que acederia a uma liberdade prometeica exaltada e unilateral. Quando o que move a todos, faz pensar, sentir, chorar; quando os valores que conduzem não são reconhecidos apareceria o que Jung chama de uma&nbsp;&#8220;mania egocêntrica&#8221;&nbsp;e desta viria a doença. A &#8220;doença&#8221; mostraria o exagero unilateral da consciência que não pode ouvir outros lados, não contou com a composição e colaboração da multiplicidade que é constitutiva da psique.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Reconhecer o que move, influência, interfere na vida de cada um, reconhecer o estar imerso e se constituir nesta infinitude de temas e valores, que são historicamente trabalhados pela psique, seria reconhecer que o inconsciente coletivo está afetando a todos em todos os momentos e isto não desresponsabiliza qualquer sujeito. Ao contrário, aumenta a responsabilidade pelo cuidado, não apenas com o que está diretamente envolvido, mas para com o mundo que o constitui e no qual vive. Entretanto Jung aponta o ato como fundamental. Pode-se não decidir que sentimentos, ideias ou fantasias surgirão na consciência, mas a responsabilidade pelos atos é do vivente. Ato como o resultado de impulso, sucessão e realização, um evento que abarca a totalidade anímica (JUNG C. G., 1978, p.72). As motivações e os deuses podem ser múltiplos, mas o mortal é responsável pelos atos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O reforço de valores coletivos como de disputa, guerra, ataque às diferenças e aos vulneráveis etc. interferem sobre a força com que os complexos atuam no inconsciente coletivo e nos sujeitos. Estes valores autorizam formas de viver. O &#8220;neoliberalismo&#8221;, por exemplo, é o nome dado a forma de vida que coloca como valores maiores a&nbsp;propriedade privada&nbsp;e o&nbsp;mercado competitivo. O mal não seria a existência destes valores em si, mas o predomínio destes nas famílias, nas escolas, nas igrejas, nas relações de trabalho, não poderia levar a que alguns, mais identificados com os mesmos, tomem para si a tarefa de realizá-los ou punir e atacar quem é visto como problema na realização dos mesmos?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Interessante que os realizadores do massacre pediram ajuda literalmente de um fórum virtual onde se discute abertamente a prática de crimes, violação de direitos humanos, além de racismo e misoginia. Espaço virtual que já teve dois de seus administradores anteriores presos. Escrevem os que realizaram os atos agradecendo ao site dizendo: &#8220;Nascemos falhos, mas partiremos como heróis.&#8221; (SIQUEIRA &amp; GUIMARÃES, 2019). Como se falhas não pudessem ter lugar ou valor. E quantos outros &#8220;fóruns virtuais&#8221;, metaforicamente falando, não fomentam revogação dos diretos humanos, racismo, misoginia etc. na consciência coletiva atualmente? O atual administrador do site (DPR) diz que Luiz era um &#8220;rapaz injustiçado&#8221;, enquanto Guilherme, de apenas 17 anos, era &#8220;inocente a ponto de transparecer sua natureza completamente infantil&#8221;. Qual o padrão coletivo que agindo nestes sujeitos e no coletivo busca que tipo de justiça que produz tantos culpados e inocentes?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Faria sentido isolar estes atos de violência do contexto coletivo em que se vive atualmente? Estaria este ato isolado do grande ataque que tem sofrido as minorias? Afinal numa perspectiva ego centrada e neoliberal se você não conseguir ser &#8220;bem-sucedido&#8221; é porque não teve coragem, esforço e capacidade para competir no mercado livre para ser um vencedor. Haveria uma privatização do sofrimento, se você é um perdedor, &#8220;falho&#8221; a culpa e problema é seu! Não seriam estes valores que tem mais crescido e dominado ultimamente na consciência coletiva? Não haveria uma dominação unilateral nesta consciência da importância do ego? Os mais &#8220;doentes&#8221; mostrariam com mais clareza o que existe de monstruoso e desumano nos padrões que estão sendo vividos no presente e apresentados como mais importantes e valorosos? Assim, os mais doentes seriam aqueles que não podendo tomar distância destes ideais, não podendo ouvir outras vozes são tomados pela&nbsp;&#8220;mania egocêntrica&#8221;!</p>



<h1 class="wp-block-heading">Referências</h1>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav &amp; WILHELM, Richard.&nbsp;O Segredo Da Flor De Ouro &#8211; um livro de vida chinês .Petrópolis: Vozes, 2001.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;La psicologia de la transferencia.&nbsp;Buenos Aires: Editorial Paidos, 1978.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav, et al.&nbsp;O Homen e Seus Símbolos.&nbsp;Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1964.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SIQUEIRA, Filipe, e Caíque Guimarães GUIMARÃES.&nbsp;Noticias.&nbsp;20 de 03 de 2019. https://noticias.r7.com/sao-paulo/em-forum-extremista-atiradores-pediram-dicas-para-atacar-escola-13032019.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>A busca do inconsciente pela harmonia e a compensação entre o falado e o não falado</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-busca-do-inconsciente-pela-harmonia-e-a-compensacao-entre-o-falado-e-o-nao-falado/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniel Gomes]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 16 Jun 2019 21:07:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Podemos afirmar que a teoria das compensações é a regra básica, neste sentido, do comportamento psíquico em geral. O que falta de um lado, cria um excesso do outro. Da mesma forma, a relação entre o consciente e o inconsciente também é compensatória. (Jung, 2011a p. 36)</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Um dos grandes legados teóricos que C. G. Jung nos deixou foi a descoberta de que no inconsciente não ficam armazenadas apenas as experiências reprimidas, mas também toda a história da humanidade. Didaticamente, podemos afirmar que as experiências, desde a nossa concepção, ficam registradas no que ele nomeou como inconsciente pessoal e as experiências coletivas, ancestrais e universais, contemplando o surgimento da vida senciente, no inconsciente coletivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung também entendeu que as representações do inconsciente nos chegam através dos sonhos e com elas existe a intenção regulatória entre a consciência egóica e o inconsciente. Jung chamou esta auto regulação de compensação e nos oferece a seguinte explicação:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Todos os processos excessivos (unilateral/intenso) desencadeiam imediata e obrigatoriamente suas compensações. Sem estas não haveria nem metabolismos, nem psiques normais. Podemos afirmar que a teoria das compensações é a regra básica, neste sentido, do comportamento psíquico em geral. O que falta de um lado, cria um excesso do outro. Da mesma forma, a relação entre o consciente e o inconsciente também é compensatória. (Jung, 2011a p. 36)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Podemos compreender que essa afirmação está na base fundante da teoria junguiana. A partir dela podemos notar a questão sobre os opostos, já que inconsciente e consciência são pares de opostos. Mas para que essa reflexão não fique tão extensa vou discorrer apenas a respeito da compensação, pois através dela podemos analisar melhor os fatos da atualidade. A grande pergunta que podemos fazer nos dias de hoje não precisa estar baseada em quais motivações alguém teria em determinadas ações e/ou atitudes, mas o que está sendo compensando, por que e para que?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por exemplo, o discurso de ódio e racismo que uma internauta direcionou à filha adotiva e negra do casal branco e famoso (Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank), que gerou inúmeras manifestações na rede, nos possibilita a seguinte ampliação: O que estava sendo compensado tanto na protagonista quanto nos manifestantes ou defensores passionais? Antes de prosseguirmos nesta analise vale lembrar que segundo uma pesquisa do IBGE de 2008, mais de 60% das famílias declaram que a origem familiar ou de seus antepassados são da raça negra. Será que essa mulher com tal discurso racista, no fundo não se vê negra também? Se na sua consciência existe a atitude contra a criança negra valorizada e amada, em seu inconsciente pode existir uma negra renegada, que invejosamente gostaria de ser reconhecida e tratada como a menina por ela criticada, afinal de contas, Jung já afirmava &#8220;que todas as qualidades más, cuja presença nas outras pessoas nos irrita, pertencem também a nós&#8221;. (Jung, 2011b p. 225)</p>



<p class="wp-block-paragraph">As atitudes homofóbicas também podem ser analisadas à luz desta teoria. Será que não se trata da mesma situação onde a fobia, que produz unilateralismo, está denunciando o mecanismo de defesa diante da negação com a identificação e atração inconsciente com a homossexualidade? Neste caso, toda raiva contra a homossexualidade seria a compensação para a existência de conteúdos similares, porém inconscientes. De forma mais direta, aquele que busca a agressão se encontra plenamente identificado com o mesmo conteúdo inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As questões políticas não são diferentes e podem ser analisadas através da mesma ótica da compensação entre consciente e inconsciente. Jung ao escrever a introdução do livro psicologia do inconsciente explica que não poderia deixar essa obra publicada apenas em uma revista cientifica, já que o mundo passava por uma guerra (1º guerra mundial &#8211; 1912) e explica que:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nada mais apropriado do que os processos psicológicos que acompanham a guerra atual &#8211; notadamente a anarquização inacreditável dos critérios em geral, as difamações recíprocas, os surtos imprevisíveis de vandalismo e destruição, a maré indizível de mentiras e a incapacidade do homem de deter o demônio sanguinário para obrigar o homem que pensa a encarar o problema do inconsciente caótico e agitado, debaixo do mundo ordenado da consciência. (Jung, 2012)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ou seja, por trás dos inflamados discursos moralistas da atualidade, com aparente grau de consciência, podemos desconfiar de que algo não está tão bem no inconsciente. O caos que toma conta das quatro direções do mundo deveria servir de alerta para todos, mas não é o que vemos. Cada vez mais há uma polarização da população, a exemplo do que acontece no Brasil. Se cada brasileiro pudesse compreender essa teoria, poderia ficar claro que não existe alguém de extrema esquerda que não tenha dentro de si uma identificação com a extrema direita. Se fosse possível sair desta identificação unilateral uma nova resposta poderia surgir, algo que iria contemplar soluções criativas e complementares que atenderia não apenas um lado, e sim todos os lados, contemplando pobres, ricos, incluídos e excluídos, cristãos e evangélicos, ou seja, atenderia o ser humano integral. Porque a união dos pares de opostos estimula a função transcendente e o surgimento do homem integral.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A mudança que desejamos deve partir do nosso trabalho de autoconhecimento, da mesma forma que Jung nos ensina que &#8220;somente com a transformação da atitude do indivíduo é que começará a transformar-se a psicologia da nação. Até hoje, os grandes problemas da humanidade nunca foram resolvidos por decretos coletivos, mas somente pela renovação da atitude do indivíduo.&#8221; (Jung, 2012)</p>



<p class="wp-block-paragraph">É notório percebemos na atualidade a cultura que incentiva o externo, o racional e concreto. A subjetividade é apenas tocada no âmbito da consciência. A meta é a felicidade a todo custo. A maneira unilateral da atualidade deixa cada vez menos espaço para o inconsciente atuar livremente e perigosamente. Somos bombardeamos com treinamentos e manuais para o sucesso, com a confiança de que tudo posso conquistar se assim desejar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste contexto, somente a consciência tem espaço, não existe qualquer permissão para o desconhecido que habita em nós. Aquilo que não se enquadra no ideal, no belo, rico e produtivo não tem espaço para se manifestar. Este é o padrão unilateral que reina na contemporaneidade. Por isso talvez o que mais importa hoje é manter a persona de sucesso, apesar da falta de profundidade da alma, algo que já era denunciado por psicoterapeuta junguiano Robert A. Johnson em seu trabalho, Inner Work, o autor diz que:</p>



<p class="wp-block-paragraph">O desastre que assola o mundo moderno é a completa separação da mente consciente das suas raízes no inconsciente. Todas as formas de interação com o inconsciente que alimentaram nossos ancestrais &#8211; sonho, visão, ritual e experiência religiosa &#8211; estão em grande parte perdidas para nós menosprezadas pela mente moderna como primitivas ou supersticiosas. Assim, cheios de orgulho e arrogância, com profunda crença em nossa razão inabalável, cortamos as nossas origens no inconsciente e nos desligamos da parte mais profunda de nós mesmos. (Johnson, 1989 p. 18)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diante dos problemas da atualidade o que mais deveria nos preocupar hoje é a posição unilateral a qual estamos submetidos no Brasil e no mundo. Essa falta de equilíbrio denuncia o domínio de apenas um lado como o certo, apenas uma atitude ou opinião, tudo evidenciado principalmente pelos discursos conservadores, assim como também dos movimentos de gênero, onde cada um defende seu ponto de vista como único e verdadeiro. Com isso, fica claro um desequilíbrio entre as partes, ou de forma mais clara, entre consciência e inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E é neste desequilíbrio que podemos nos perguntar, o que está sendo compensado nestas atitudes? Em geral, um lado está compensando o outro, e retomando o começo do texto quando escrevi a respeito do inconsciente e da consciência. Podemos dizer que o inconsciente está compensando uma posição unilateral do ego. Todo esse fator compensatório entre essas partes da psique deveria ser fator de preocupação, afinal, cada dia que passa o inconsciente fica ainda mais sem espaço, sem lugar para se realizar. Assim como a natureza cobra a humanidade pelo desequilíbrio no planeta, o inconsciente também irá cobrar o desequilíbrio causado pela unilateralidade do ego na consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não podemos esquecer que a meta natural do inconsciente é realizar a si mesmo, portanto, sempre seremos cobrados no percurso do processo de autodesenvolvimento. Se existe posições extremadas espalhadas por toda a humanidade a busca pela compensação entre os opostos complementares também existe. E enquanto não for possível para cada um de nós entender o que é compensando nas posições que assumimos, sem abrir espaço para o outro e o seu oposto, cedo ou tarde seremos forçados a buscar a síntese para a união destes pares de opostos, que deveriam se complementar, mas encontram-se em desunião.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*Daniel Gomes</p>



<p class="wp-block-paragraph">Psicoterapeuta junguiano &#8211; &nbsp;Membro analista em formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">e-mail:daniel@conhecendojung.com.br&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referencias:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Johnson, Robert A. 1989.Inner Work &#8211; A Chave do Reino Interior. São Paulo: Mercuryo, 1989.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, Carl Gustav. 2011b.A natureza da psique. Petrópolis: Vozes, 2011b. Vol. 8/2.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-. 2011a.Ab-reação, análise dos sonhos e transferência. Petrópolis: Vozes, 2011a. Vol. 16/2.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-. 2012.Psicologia do Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2012. Vol. 7/1.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-busca-do-inconsciente-pela-harmonia-e-a-compensacao-entre-o-falado-e-o-nao-falado/">A busca do inconsciente pela harmonia e a compensação entre o falado e o não falado</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Uma problematização do singular e do universal  no tema da Individuação</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/uma-problematizacao-do-singular-e-do-universal-no-tema-da-individuacao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ajax Salvador]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 16 Jun 2019 12:01:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicopatologia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[Psiquiatria]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[Associação Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[Congresso Junguiano]]></category>
		<category><![CDATA[IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Instituto Junguiano]]></category>
		<category><![CDATA[Jung na Prática]]></category>
		<category><![CDATA[Medicina Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Pós-graduação em Psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Individuação é o termo que Jung usou para falar de uma destinação:<br />
Individuação significa tornar-se um ser único, na medida em que por individualidade entendermos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio si mesmo. Podemos, pois, traduzir individuação como tornar-se si mesmo (Verselbstung). ou o realizar-se do si mesmo (selbstverwirklichung). (JUNG, 1981c, Estudos Sobre Psicologia Analítica, §266) negritos meus</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Individuação&nbsp;é o termo que Jung usou para falar de uma destinação:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Individuação significa&nbsp;tornar-se um ser único, na medida em que por individualidade entendermos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos&nbsp;tornamos o nosso próprio si mesmo. Podemos, pois, traduzir individuação como&nbsp;tornar-se si mesmo&nbsp;(Verselbstung). ou o realizar-se do si mesmo (selbstverwirklichung). (JUNG, 1981c, Estudos Sobre Psicologia Analítica, §266) negritos meus</p>



<p class="wp-block-paragraph">A narrativa sobre o caminho da individuação dá lugar a uma importante reflexão entre coletivo ou universal e particular ou singular pois, para JUNG individuação &#8220;significa precisamente a realização melhor e mais completa das&nbsp;qualidades coletivas&nbsp;do ser humano; é a&nbsp;consideração adequada&nbsp;e não o esquecimento das&nbsp;peculiaridades individuais.&#8221; (JUNG,1981c, §267) negritos meus.&nbsp; É a realização do coletivo, do universal e ao mesmo tempo das peculiaridades individuais. Entretanto, a singularidade deve ser entendida como &#8220;uma&nbsp;combinação única, ou como diferenciação gradual de funções e faculdades que&nbsp;em si mesmas são universais.&#8221; (JUNG, 1981c, §267) negritos meus. Ou seja, pode-se entender que o que há de mais singular em cada um é uma relação ou a&nbsp;combinação única dos universais&nbsp;e não uma substância com qualidades próprias, o que é muito coerente com uma perspectiva energética. A metáfora utilizada por Jung no texto &#8220;O Eu e o Inconsciente&#8221; é do rosto humano onde cada um é composto de fatores universais como nariz, olhos etc., mas cada fator universal é variável, o que possibilita as peculiaridades individuais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Individuação é um &#8220;processo mediante o qual um homem se torna o ser único que de fato é.&#8221; (JUNG, 1981c, §267). Único parece ter aqui o sentido de singular e não de unidade matemática fixa, firme, determinada e equivalente a outras que pudesse estar sujeita a trocas e cálculos como objetos. Mas o que pode querer dizer tornar-se o que se é se este &#8220;é&#8221; deve abarcar o desconhecido e o inconsciente coletivo (com padrões arquetípicos universais, transpessoais, históricos)? Vir a ser algo, como uma coisa ou substância, não seria muito diferente de vir a&nbsp;ser uma combinação, uma relação singular de universais? Pode-se recuperar uma velha polêmica que acompanha a humanidade desde os gregos. A realidade ou o que &#8220;é&#8221; estaria sempre em mudança e em transformação e o que permanece seria ilusão (Heráclito) ou a realidade seria o que permanece e a mudança e transformação seria ilusão (Parmênides). A primeira alternativa (Heráclito) sustentaria a explicação que só se chega ao que se &#8220;é&#8221; quando pode-se perder-se do que parece que se &#8220;é&#8221; como determinação fixa. Tornar-se o que se &#8220;é&#8221; pode precisar de uma atitude empática&nbsp;com o &#8220;outro&#8221;&nbsp;para o &#8220;Eu&#8221; &#8211;&nbsp; outro que neste caso seria o si-mesmo em sua integralidade. Assim, tornar-se o que se &#8220;é&#8221; (si-mesmo) pode falar de sair do que parecia ser fixo e determinado abstratamente, sair do individualismo e fluir para além dos limites estreitos da consciência individual.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung problematiza a separação estrita entre o individual ou singular e universal ou coletivo; &#8220;(&#8230;) o&nbsp;indivíduo humano, como unidade viva, é composto de fatores puramente universais, é coletivo e de modo algum oposto à coletividade.&#8221; (JUNG, 1981c, §268) negritos meus. &#8220;A individuação, pelo contrário, tem por meta a cooperação viva de todos os fatores. Mas como os&nbsp;fatores universais sempre se apresentam em forma individual, (&#8230;)&#8221; (JUNG, 1981c, §268) negritos meus. Pode-se entender que o&nbsp;universal se realiza no particular e o particular apresenta uma forma do universal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung afirma que o &#8220;eu&#8221; é &#8220;aquele fator complexo com o qual todos os conteúdos da consciência se relacionam.&#8221; (JUNG,1982, §1); que constitui o centro do campo da consciência &#8220;e, dado que este campo inclui também a personalidade empírica, o eu é o sujeito de todos os atos conscientes da pessoa.&#8221; (JUNG,1982, §1).&nbsp;Personalidade empírica&nbsp;pode ser entendida como&nbsp;personalidade consciente&nbsp;ou o&nbsp;estilo dominante na consciência?&nbsp;Seria esta a instância que se revoltaria contra as manifestações do inconsciente quando da paralisação de energia psíquica que vinha progredindo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">A paralisação da energia progressiva de fato tem aspectos desagradáveis. Ela aparece como coincidencia indesejável ou mesmo como catástrofe, que naturalemente se tenta evitar. Em geral&nbsp;a personalidade consciente se revolta contra a manifestação do inconsciente e combate suas reivindicações&nbsp;que, como se percebe nitidamente, não se dirige apenas aos pontos fracos do caráter masculino, mas ameaça também a &#8220;virtude principal&#8221; (a &#8220;função diferenciada&#8221; e o ideal). (JUNG, 2008, p.293) negritos meus</p>



<p class="wp-block-paragraph">O inconsciente seria o fundamento do qual emerge a consciência &#8211; &#8220;coloco o inconsciente como elemento inicial, do qual brotaria a condição consciente.&#8221; (JUNG, 1983, §15). Por isso é um campo difícil de ser falado e afirma-se que&nbsp;&nbsp;negritos meus. Pois, &#8220;existem no inconsciente representações e atos volitivos, ou seja, algo parecido com os processos conscientes&#8221; (JUNG, 1984, A Natureza da Psique, §380). A diferença seria que na consciência poderiam ser corrigidos e perderiam seu &#8220;caráter automático&#8221; (JUNG, 1984, A Natureza da Psique, §384).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jaffé ajuda ao apontar que&nbsp;&#8220;(&#8230;) o objetivo da individuação não é o homem perfeito, mas o homem completo com sua luz e sua escuridão. O mal, assim como o bem, é dado ao homem juntamente com o dom da vida.&#8221;&nbsp;(JAFFÉ,1983, p.96). A integralidade é mais do que a personalidade consciente (ou empírica) fortemente ligada ao complexo do Eu. Jung para trabalhar com uma psicologia do inconsciente precisou criar uma instância que abarcasse não só a&nbsp;psique consciente como o inconsciente-&nbsp;Si mesmo:</p>



<p class="wp-block-paragraph">(&#8230;) o&nbsp;si-mesmo&nbsp;é uma instância que engloba o eu consciente. Abarca não só a psique consciente como a inconsciente, sendo portanto, por assim dizer,&nbsp;uma&nbsp;personalidade&nbsp;que&nbsp;também&nbsp;somos.&#8221; (JUNG, 1981c, §274) negritos meus.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta &#8220;personalidade&#8221; que engloba consciente e inconsciente é mais ampla e muito diversa da outra consciente. A definição determinada ou fechada de um tema como personalidade é refutada por ele. Afirma que &#8220;(&#8230;) é algo de grande e misterioso o que designamos por ‘personalidade. (&#8230;) tudo o que se possa dizer sobre ela será sempre singularmente insatisfatório e inadequado (&#8230;)&#8221; (JUNG, 2013a, O Desenvolvimento da Personalidade, §312). Entretanto, numa das aproximações da noção de personalidade Jung aponta que:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Personalidade é&nbsp;realização máxima&nbsp;da índole inata e específica&nbsp;de um ser vivo particular. (&#8230;) é a obra a que se chega pela máxima coragem de viver, pela&nbsp;afirmação absoluta do ser individual, e pela&nbsp;adaptação, a mais perfeita possível, a tudo que existe de universal, e tudo&nbsp;aliado a máxima liberdade de decisão própria. (JUNG,2013a, §289) negritos meus.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Quando Jung discute o tema de como&nbsp;tornar-se personalidade&nbsp;refere que passaria pela capacidade de&nbsp;dizer um &#8220;sim&#8221; consciente&nbsp;ao poder da &#8220;destinação interior&#8221; que se lhe apresenta (JUNG, 2013a, §308). Seria &#8220;a vida que procura realizar sua própria&nbsp;lei de modo individual, e por isso de modo&nbsp;absoluto e incondicionado&nbsp;(JUNG, 2013a, §310). Como o peso da humanidade e dos costumes eternos levam o vivente a preferir o caminho planejado em direção a metas conhecidas, seria preciso uma força maior que conduzisse alguém a um caminho estreito íngreme e que leva ao desconhecido. Por isso a&nbsp;personalidade eminente&nbsp;surgiria como uma aparição sobrenatural, uma força demoníaca ou um dom divino. Este fator irracional é denominado por Jung como&nbsp;&#8220;designação&#8221;&nbsp;&#8211; &#8220;O que cada personalidade tem de grande e de salvador reside no fato de ela,&nbsp;por livre decisão, sacrificar-se&nbsp;a sua designação (&#8230;).&#8221; (JUNG, 2013a, §308). Seria entregar-se a&nbsp;algo maior do que a consciência&nbsp;que em lendas se atribuem a um demônio pessoal, como&nbsp;uma voz interior que se dirige a pessoa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, a realização da personalidade deveria estar aliada a vivência da &#8220;máxima liberdade de decisão própria&#8221; (JUNG, 2013a, §289). É como se o Ego no processo de individuação precisasse ouvir outros, outras vozes, ao menos a voz interior que o leva a um caminho íngreme e desconhecido. O ego passa a ser servidor, a seguir, a ser conduzido por algo maior do que ele. Seria uma atitude voluntariamente assumida que não é conduzida pelo ego, embora o ego esteja presente e não resista, ao contrário, favoreça. Tornar-se personalidade, além de estar associado com a capacidade de dizer um &#8220;sim&#8221; consciente a designação, deveria estar associada à&nbsp;liberdade na ação&nbsp;pois &#8220;(&#8230;) somente pela ação é que se torna manifesto quem somos de verdade.&#8221; (JUNG, 2013a, §290). Há uma valoração significativa da ação em relação às intenções, desejos, sentimentos ou pensamentos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A consciência e o ego seriam voluntariamente dirigidos pelo &#8220;Self&#8221; (Si-mesmo) em seus atos, o que conjugariam um duplo significado&nbsp;tanto pessoal como transcendente, ou seja, o universal e o singular, particular ou pessoal em relação colaboração e não de cisão embate ou oposição. Assim é fundamental a atitude na consciência e a posição do ego no processo de individuação embora este nunca será plenamente alcançado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O objetivo da&nbsp;individuação,&nbsp;a realização do self,&nbsp;nunca é plenamente alcançado. Devido ao fato de transcender a consciência, o arquétipo do self jamais pode ser inteiramente apreendido, e, devido à sua vastidão, nunca pode ser completamente experimentado. (JAFFÉ,1983, p.84) negritos meus</p>



<p class="wp-block-paragraph">O tema da liberdade como entrega pode ser visto também quando Jung comenta sobre a imaginação ativa. Refere que é uma forma de síntese que envolve uma&nbsp;atitude &#8220;voluntariamente assumida&#8221;&nbsp;&#8220;(&#8230;) uma síntese &#8211; sustentada por uma atitude voluntariamente assumida e de resto inteiramente natural &#8211; de material consciente passivo e de influências inconscientes, e, portanto, uma espécie de amplificação espontânea dos arquétipos.&#8221; (JUNG, 1984, §403. Portanto,&nbsp;embora a ação seja voluntária ela não é conduzida pelo eu&nbsp;e talvez por isso possa ser dito que &#8220;de resto inteiramente natural&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Von Franz acrescenta apontando que o processo começa com uma lesão na personalidade consciente, o sofrimento e a resistência podem acontecer se não houver o reconhecimento do &#8220;apelo&#8221;:</p>



<p class="wp-block-paragraph">O verdadeiro processo de individuação &#8211; isto é, a harmonização do consciente com o nosso próprio centro interior (o núcleo psíquico) ou self &#8211; em geral começa infligindo uma lesão à personalidade, acompanhada do consequente sofrimento. Este choque inicial é uma espécie de &#8220;apelo&#8221;, apesar de nem sempre ser reconhecido como tal. Ao contrário, o ego sente-se tolhido nas suas vontades ou desejos e geralmente projeta esta frustração sobre qualquer objeto exterior. Isto é, o ego passa a acusar Deus, ou a situação econômica, ou o chefe, ou o cônjuge como responsáveis por esta frustração. (JUNG, O Homem e Seus Símbolos 2008, p.219)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung indica que individuação não é &#8220;dar ênfase deliberada a supostas peculiaridades, em oposição a considerações e obrigações coletivas.&#8221; (JUNG, 1981c, §267) pois isto seria individualismo.&nbsp;Com a individuação&nbsp;não se torna &#8220;egoísta&#8221;,&nbsp;no sentido usual da palavra, mas procura-se realizar a peculiaridade do ser. Jung alerta que há modos de despojar-se do &#8220;si mesmo&#8221;, de sua realidade, em benefício de um papel exterior ou de um significado imaginário. Isto pode aparecer como preponderância do coletivo e busca por corresponder a um ideal social o que pode passar por dever social ou virtude, embora possa significar abuso egoísta. &#8220;O egoísta (&#8220;salbstisch&#8221;) nada tem a ver com o conceito de si-mesmo, tal como aqui o usamos.&#8221; (JUNG, 1981c, §267). O egoísmo e o individualismo poderiam estar mais próximos do que é descrito como inflação do Ego; uma desmedida deste complexo que &#8220;(&#8230;) em consequência da inflação, a&nbsp;hybrishumana escolhe o eu, em sua miserabilidade visível,&nbsp;para senhor do universo.&#8221; (JUNG, Psicologia e Religião, 1978a, p.92). Ou seja, o complexo do ego (Eu) passa a acreditar que para ter uma vida realizada e bem-sucedida teria que ter as qualidades dos deuses. &#8211; Virar Deus ou ser senhor do universo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, como reflete Magaldi, aquele que:</p>



<p class="wp-block-paragraph">não aceita e se dirige, conscientemente, em busca do Self (si-mesmo), com o objetivo de integrar o consciente com o inconsciente, nada mais será do que produto cultural. Ele ficará impossibilitado de realizar a si-mesmo e integrar-se, permanecendo apenas como uma persona, que pode ser bem funcional, fruto da adaptação e construção coletiva, desconhecendo quem de fato é! (MAGALDI F, 2007)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung (1982, Aion, §125) reflete o quanto a experiência da integralidade pode ser vivida como insuportável (para o ego ou para o estilo dominante na consciência); por isso não haveria objeção à vivência de que a tarefa da individuação e do reconhecimento da totalidade seria algo que a natureza nos impôs de maneira obrigatória. Entretanto afirma que:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se o indivíduo efetuar isto (processo de individuação) de maneira consciente e intencional, evitará todas as consequências desagradáveis que decorrem de uma&nbsp;individuação reprimida. Isto é se assumir de livre e espontânea vontade a inteireza, não será obrigado a sentir na carne que ela se realiza dentro dele contra a sua vontade, ou seja de forma negativa. &nbsp;(JUNG,1982, §125) negritos meus.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É, portanto, fundamental a atitude na consciência e a posição do ego na realização da personalidade e no processo de individuação que necessariamente envolve uma singular combinação de universais. E, se o Ego e a consciência estiverem, voluntariamente, servindo a realização da integralidade, do self (Si mesmo) estarão a serviço de uma obra que transcende a consciência e no caminho da individuação.&nbsp; Caso contrário ter-se-ia uma &#8220;individuação reprimida&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dr. Ajax Perez Salvador</p>



<p class="wp-block-paragraph">Psiquiatra e Membro didáta do IJEP.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bibliografia</p>



<p class="wp-block-paragraph">JAFFÉ, Aniela.&nbsp;O Mito do Significado &#8211; na obra de C. G. Jung. São Paulo: Cultrix, 1983.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;A Natureza da Psique.&nbsp;Vols. VIII-2. Petrópolis: Vozes, 1984.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.Ab-reação, análise dos sonhos , psicologia da transferência.Vol. 16/2 OC. Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.Aion &#8211; Estudo sobre o simbolismo do si-mesmo.&nbsp;Petropolis: Vozes, 1982.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.Energia Psíquica. Vol. 8/1. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.Estudos Sobre Psicologia Analítica &#8211; Psicologia do Inconsciente e O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 1981 c.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.Fundamentos de Psicologia Analítica.&nbsp;Vol. Vol. XVIII/1. Petrópolis: Vozes, 1983.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.La psicologia de la transferencia.&nbsp;Buenos Aires: Editorial Paidos, 1978.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.O Homem e Seus Símbolos.&nbsp;2ª ed Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.Os arquétipos e o inconsciente coletivo.Vol. IX/I OC.Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2000.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.O Espírito na Arte e na Ciência.&nbsp;Petropólis: Vozes, v. XV, 1985.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.O Eu e o Inconsciente.&nbsp;Petrópolis: Vozes, 2001.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.O Desenvolvimento da Personalidade.&nbsp;14ª. Vol. 17. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.Psicologia e Religião. Petropolis: Vozes, 1978 a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.Psicogênese das doenças mentais.&nbsp;Vol. III. Petrópolis: Vozes, 1999</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.Símbolos da transformação:&nbsp;análise dos prelúdios de uma esquizofrenia. Vol.5 OC Petrópolis: Vozes, 2008.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.Tipos Psicológicos.&nbsp;Rio de Janeiro: Zahar, 1981a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MAGALDI F., Waldemar,&nbsp;Apostila de aula &#8211; Processo de Individuação, Curso Psicologia Junguiana (IJEP/FACIS). São Paulo, 2007.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;O Eu e o Inconsciente</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&#8220;A ideia de energia não é de uma substância.&#8221; (JUNG, Energia Psíquica, 2013, §3) A energia é um conceito abstraído das relações de movimento &#8211; a sua base são as relações. As relações produzem efeitos e, portanto, seriam reais sem precisar de substâncias. Diferente do ponto de vista mecanicista &#8220;(&#8230;) é meramente causal, e compreende o fenômeno como sendo o efeito resultante de uma causa, no sentido que as substâncias imutáveis alteram as relações de umas para com as outras segundo leis fixas.&#8221; (JUNG, Energia Psíquica, 2013, §2)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Quando Jung fala do &#8220;problema das atitudes típicas na estética nos Tipos Psicológicos diz que (&#8230;) diante da quantidade impressionante e estonteante de objetos animados, o homem criaria para si uma abstração. &#8220;isto é, uma imagem abstrata universal em que limita as impressões numa forma fixa. Esta imagem tem o significado mágico de uma proteção contra a mudança caótica da vivência.&#8221; (JUNG, 1991b, Tipos Psicológicos, p.285). E, por fim, o homem mesmo pode tornar-se uma abstração. &#8220;Ohomem mergulha tão profundamente e nela (abstração) se perde que, ao final, coloca sua verdade abstrata acima da realidade da vida, e a vida, que poderia estorvar o gozo da beleza abstrata, é de todo reprimida.&nbsp;Ele mesmo se torna abstração, ele se identifica com o valor eterno de sua imagem e nela se fixa, porque se transformou para ele em fórmula redentora.&nbsp;Renuncia, desse modo,&nbsp;a si mesmo e transfere sua vida para sua abstração&nbsp;na qual, de certa forma, fica cristalizado.&#8221; (JUNG, 1991b,&nbsp;Tipos Psicológicos,&nbsp;p.285). A&nbsp;atitude empática&nbsp;tem sua base no significado e força mágicos do objeto e também cria. Sujeito se apoderara do objeto mediante uma identificação mística;&nbsp;a atitude empatizante&nbsp;ao trazer para dentro do objeto a atividade e vida do sujeito,&nbsp;ao se entregar ao objeto este se tornaria objeto; se identifica com o objeto e, portanto,&nbsp;sai de si mesmo. Ao empatizar a vontade de agir em um &#8220;outro&#8221; (objeto)&nbsp;se liberta do ser individual,&nbsp;abrindo a compulsão interna da experiência para um objeto externo pode-se sentir a individualidade &#8220;fluir para limites estreitos, em oposição à diferenciação ilimitada da consciência individual.&#8221;&nbsp;(JUNG, 1991b,Tipos Psicológicos,&nbsp;p.285).</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;O tema do &#8220;outro&#8221; surge quando &#8220;a aparente unidade da pessoa que declara com firmeza: &#8220;eu quero, eu penso etc., se racha e se dissolve como consequência do choque com o inconsciente&#8221; (JUNG, 1978, p.60). O Eu aparece como apenas um dos complexos e não o fundamento do que se é.&nbsp;&nbsp;A unidade que emerge não é o Eu anterior em sua ficção, senão que um outro que é designado por si-mesmo. Uma unidade que nunca perde o sentimento doloroso de sua natureza dual.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É interessante que&nbsp;ao se entregar ao &#8220;outro&#8221;&nbsp;(ao se tornar objeto), ao sair de si (ou do que a consciência vive subjetivamente como sendo eu) é que pode&nbsp;haver uma libertação do ser individual. Ao perder-se na&nbsp;autorenúncia&nbsp;é que se poderia ter uma&nbsp;forma de liberdade&nbsp;que não é fazer apenas o que o Ego deseja, mas de estar&nbsp;livre para não ter que ser dominado imperativamente só pelo complexo do Ego.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Nesta perspectiva os homens não seriam &#8220;naturalmente&#8221; egoístas, como faz pensar o filósofo Thomas Hobbes na celebre frase &#8220;O homem é o lobo do homem&#8221;, mas pode-se dizer que a consciência dominada por unilateralidades, pela força dos hábitos configurado nos complexos, pode tornar o homem &#8220;naturalmente&#8221; ou habitualmente, parcial e unilateralizado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Valor da ação aparece em &#8220;Psicologia da Transferência&#8221; quando afirma que ohomem só apareceria como totalidade vivente e como unidade no ato!&nbsp;&#8220;O entusiasmo, a continuidade, e o executar dão origem&nbsp;à&nbsp;ação&nbsp;e é só nela que o homem aparece como totalidade vivente e como unidade.&#8221; (JUNG, 2012, §407) negritos meus. O ato como resultado de impulso, sucessão e realização e como o resultado de um evento que abarca a totalidade anímica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&#8220;À primeira vista não se sabe como funciona este inconsciente, mas como se trata, supostamente, de um sistema psíquico, provavelmente contém todos os elementos que integram a consciência, tais como a percepção, a apercepção, a memória, a fantasia, a vontade, os afetos, os sentimentos, a reflexão, o julgamento, etc, mas tudo isto sob forma subliminar. NR citando Lewes Há muitas ações involuntárias de que temos consciência clara, e muitas outras ações voluntárias de que às vezes estamos apenas subconscientes ou inconscientes. Da mesma forma que o pensamento, que se processa ora de forma inconsciente, ora de forma consciente, é essencialmente o mesmo pensamento&#8230; assim também a ação que ora é voluntária ora involuntária, é essencialmente a mesma ação.&#8221; (JUNG,1984, §362)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;O termo&nbsp;&#8220;Natural&#8221; pode significar fluxo sem inibição&nbsp;como é descrito na formação de um hábito onde no início o afeto sofre &#8220;grandes inibições e depois de várias repetições a reação se dá prontamente a partir de um pequeno impulso, devido à diminuição da inibição.&#8221; (JUNG, 1999, p.80).&nbsp;&#8220;Natural&#8221;&nbsp;pode ser também aquilo que&nbsp;trabalha sem esforço&nbsp;como quando Jung trata do pensamento fantasia; comparando as duas formas de pensar: &#8220;pensar dirigido ou lógico e o sonhar ou fantasiar.&#8221; &nbsp;(JUNG, 2008, p.15).&nbsp; Onde &#8220;O primeiro trabalha com a comunicação, com elementos linguísticos, é trabalhoso e cansativo; o segundo trabalha sem esforço, por assim dizer espontaneamente, com conteúdos encontrados prontos e é dirigido por motivos inconscientes.&#8221; (JUNG, 2008, p. 15)</p>
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		<title>Medicalização da vida: uma questão de saúde, educação ou política?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/medicalizacao-da-vida-uma-questao-de-saude-educacao-ou-politica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ajax Salvador]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 15 Jun 2019 12:15:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ansiedade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>​​​​​​​Medicalização poder ser vista como uma atitude, maneira de ver, viver e se conduzir em que o que não corresponde ao padrão esperado (normal, saudável etc.) é julgado como uma doença no indivíduo, que precisa ser evitado, prevenido, tratado e curado: problema médico. Disto decorre o termo "medicalização" que não ser reduz, exclusivamente, a prescrição de medicações literalmente falando, mas do olhar que transforma em doença médica tudo que é vivido como erado, ruim, moralmente reprovável etc. Por exemplo: se toda dor de cabeça for vista como uma cefaleia ela deverá ser investigada, cuidada, tratada dentro de protocolos médicos. Ela será submetida a linguagem e a todos os procedimentos médicos. </p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">O que a perspectiva Junguiana pode contribuir no debate sobre a</p>



<p class="wp-block-paragraph">medicalização da vida?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Medicalização poder ser vista como uma atitude, maneira de ver, viver e se conduzir em que o que não corresponde ao padrão esperado (normal, saudável etc.) é julgado como uma doença no indivíduo, que precisa ser evitado, prevenido, tratado e curado:&nbsp;problema médico. Disto decorre o termo &#8220;medicalização&#8221; que não ser reduz, exclusivamente, a prescrição de medicações literalmente falando, mas do olhar que transforma em doença médica tudo que é vivido como erado, ruim, moralmente reprovável etc. Por exemplo: se toda dor de cabeça for vista como uma cefaleia ela deverá ser investigada, cuidada, tratada dentro de protocolos médicos. Ela será submetida a linguagem e a todos os procedimentos médicos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na perspectiva Junguiana, para que algo seja visto e vivido como &#8220;errado&#8221;, &#8220;ruim&#8221;, &#8220;prejudicial&#8221; é necessário uma comparação entre o evento presente e uma referência avaliada como &#8220;certo&#8221;, &#8220;bom&#8221; ou &#8220;favorável&#8221;. Este julgamento aconteceria na dependência de um&nbsp;complexo&nbsp;associativo que daria a interpretação do evento atual, quer a consciência percebesse ou não. Não haveria acesso a nada imediatamente dado; sempre uma interpretação mediada por algum complexo associativo (imagem afetiva) que faria com que o que surge no presente fosse visto e vivido como tendo determinado sentido e significado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Complexos organizam-se por padrões coletivos, universais, históricos, culturais seguindo grandes temas (padrões arquetípicos) e com isto levam as pessoas, famílias, instituições etc. a pensarem, julgarem, de acordo com os&nbsp;valores&nbsp;(JUNG, Energia Psíquica, 2013) que os configuraram; conduzindo as formas de viver, morar, produzir, relacionar-se na família, trabalho, cultura etc., muitas vezes sem que a consciência perceba &#8211; inconscientemente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os valores coletivos se realizam afetando os sujeitos: o que tem mais valor afeta mais e produz mais força de associação; o que tem menos valor afeta menos ou passa sem ser percebido. Assim os valores universais ou coletivos realizam-se singularmente num processo de individuação que configura complexos que conduzem os sujeitos, dando a base de interpretação do que aparece na vida psíquica, a maioria das vezes inconscientemente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Complexos como conjuntos associativos com autonomia e independência em relação à consciência podem ser personificados como pessoas em nós. Não se tem complexos, os complexos é que podem nos ter. E mesmo o que é denominado como &#8220;eu&#8221; seria um complexo associativo entre vários outros complexos. Sujeito seria muito mais do que o complexo do Eu e existiria antes mesmo que qualquer associação se formasse ligada ao hábito de dizer eu. Em poesias coligidas um poema de Fernando Pessoa (PESSOA, 1977, §711) pode ajudar na aproximação desta experiência de sujeito para além do eu:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sou um evadido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Logo que nasci</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fecharam-me em mim,</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ah, mas eu fugi.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se a gente se cansa</p>



<p class="wp-block-paragraph">Do mesmo lugar,</p>



<p class="wp-block-paragraph">Do mesmo ser</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por que não se cansar?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Minha alma procura-me</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas eu ando a monte,</p>



<p class="wp-block-paragraph">Oxalá que ela</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nunca me encontre.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ser um é cadeia,</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ser eu, não é ser.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Viverei fugindo</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas vivo a valer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Complexos teriam uma posição relativamente autônoma diante do complexo do &#8220;Eu&#8221;: seriam &#8220;outro&#8221; para o Eu. A consciência não seria unificada &#8211; &#8220;Gostamos de pensar que somos unificados, mas isto não acontece nem nunca aconteceu&#8221; (JUNG, Fundamentos de Psicologia Analítica, 1983, p. 67). Às vezes o que se passa na consciência não só não está de acordo com o que se está fazendo como por vezes está em franca oposição.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os complexos realizariam processos de invasão na consciência que em si não seriam doenças, mas momentos em que se é tomado, capturado por uma emoção dominadora e então se sente, pensa, reage, tem reações musculares, expressões faciais, liberações de hormônios etc. tudo diferente. Não haveria uma separação entre corpo e mente pois a constelação de um complexo ativaria todas as associações chamadas físicas ou psíquicas. Quando se é invadido e/ou conduzido &#8211; quando o complexo está constelado &#8211; acionam-se todas as associações e a consciência não tem como impedir este processo automático.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A vida seria maior do que todos os padrões ou normas que os valores organizados, pela infinidade de padrões coletivos inconscientes, possam produzir. A&nbsp;vida seria excessiva, abundante, prodiga, esbanjadora, por demais múltipla, variada com infinitos sentidos e significados e em constante mudança. A vida transbordaria para além do que a consciência individual ou coletivamente tentasse organizar como tendo sentido e significado. Por isso é importante o lugar para o desconhecido, misterioso, enigmático ou inconsciente. A manifestação e/ou invasão de complexos não precisa, necessariamente, ser vivida como problema ou doença médica; pode ser manifestação da vida pulsando para além da consciência e do complexo do ego. As vezes o sofrimento acontece não porque algo está errado ou faltando, mas porque a vida está transbordando, excedendo procurando caminhos por onde se realizar e os caminhos coletivos individualizados empiricamente estão estreitos demais. O sofrimento pode virar arte, poesia, música, mudança de vida e não apenas doença.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Doença na perspectiva Junguiana&nbsp;pode ser entendida como a&nbsp;dominação unilateralde um estilo, padrão, na consciência em&nbsp;cisão e embate&nbsp;contra outros padrões que se associaram seguindo valores de vida diferentes. A atitude na consciência é fundamental pois se for de embate e exclusão ter-se-ia um tipo de efeito gerando lutas defesas contra algo vivido como de natureza mórbida. Entretanto se atitude na consciência for de escuta a sério, o que não quer dizer apenas literalmente, mas nos sentidos poéticos, metafóricos, simbólicos etc., os efeitos seriam muito diversos. O texto junguiano faz pensar que a alternância e colaboração entre os complexos (entre formas de vida e valores diferentes), a multiplicidade em colaboração, protegeria no sentido de uma vida saudável.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pode-se aproximar estas ideias da concepção de saúde em Canguilhem: &#8220;O que caracteriza a saúde é a possibilidade de ultrapassar a norma que define o normal momentâneo, a possibilidade de tolerar infrações à norma habitual e de instituir normas novas em situações novas.&#8221; (CANGUILHEM, 2000, p. 160).&nbsp; Saúde seria infidelidade a norma habitual e a possibilidade de produzir normas novas em situações novas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se o complexo do Ego levado por alguns valores passou a se identificar com atributos que anteriormente eram exclusivos dos deuses como: autonomia, independência, autodeterminação, unidade, autenticidade, espontaneidade etc., pode viver acreditando que realizar estes atributos são a norma para uma vida saudável e bem-sucedida. Seria como se para ter uma vida saudável e realizada tivesse que virar Deus. E se ainda não se virou &#8220;Deus&#8221; algo há de errado no indivíduo. Jung falava de uma inflação do Ego &#8220;(&#8230;) em consequência da inflação, a&nbsp;hybris&nbsp;humana escolhe o eu, em sua miserabilidade visível, para senhor do universo.&#8221; &nbsp;(JUNG, Psicologia e Religião, 1978, p. 92).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta forma inflada do complexo do ego pode ser vivida como o &#8220;indivíduo saudável&#8221;. Nos códigos de saúde mental atuais &#8211; Manual Estatístico e Diagnóstico (DSM) (DSM V &#8211; APA, 2014) da Associação Psiquiátrica Americana (APA) e Código Internacional de Doenças &#8211; (CID X) (CID-10 OMS, 1993) da Organização Mundial da Saúde (OMS) o transtorno metal é algo que diz respeito a um sofrimento que acontece&nbsp;exclusivamente num indivíduo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pode-se pensar que estes valores, vividos imperativamente como ideais de um indivíduo saudável, já colocaria para o complexo do ego exigências sobre-humanas; entretanto estas podem ter sido intensificadas com a passagem da sociedade da produção ou do trabalho para a sociedade do consumo. Se na&nbsp;sociedade da produçãovigorava valores como acumulação de capital e afastamento de todo gozo espontâneo da vida, segurança, estabilidade, respeito a hierarquia; na&nbsp;sociedade do consumo&nbsp;o valor desloca-se para o imperativo de não ceder em &#8220;seu desejo&#8221; (desejo do ego). Desaparecem os discursos de repressão aos prazeres e se afirmam os vínculos materiais com o prazer com cobranças de gratificação irrestrita. Limitar, refrear, tomar distância, alienar perdem o lugar de valor. Haveria um estilo de consciência onde &#8220;limite&#8221; é a marca de inadequação, incapacidade. Uma vida não realizada para a forma homem vivida como o &#8220;Eu&#8221; para o qual foram transferidos os atributos outrora relacionados às divindades.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na sociedade de consumo, os valores como propriedade privada, mercado competitivo, liberdade de expressão, livre mercado tomaram a forma de movimento que foi denominado de&nbsp;neoliberalismo. Valoriza-se neste a capacidade de enfrentar riscos, flexibilização, maleabilidade; deslocar-se sem se prender a fronteiras ou diferenças hierárquicas, de estatuto, papel, origem, grupo etc. A desregulação do trabalho apareceria como produção de formas de recusa à estrutura disciplinar das identidades, isto através de suas flexibilizações. As pessoas deveriam se transformar em&nbsp;empresas de si mesmos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Complexo do Ego inflado, identificado com os atributos dos deuses tem que, imperativamente conseguir não ceder em seus desejos, ter gratificação irrestrita, iniciativa pessoal, obrigação de ser si-mesmo, autoafirmar, autorrealizar, autoexpressar sob o crivo individual do desempenho e da performance. A patologia vira a&nbsp;insuficiência&nbsp;e&nbsp;disfuncionalidade&nbsp;da ação deste Ego inflado. &nbsp;Inquietação, violência, mal-estar, tudo que limita, faz sofrer esta forma &#8220;indivíduo&#8221; poderia ser interpretado como fazendo parte de uma síndrome, um transtorno mental para ser tratado na perspectiva médica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estes valores funcionando como certo, bom, saudável (uma vida bem realizada) não parariam de produzir no seu contraponto, em sua negação determinada, o que será vivido como errado, ruim e doente. O poder disciplinar (exame, pesquisa observação etc.) tendo como parâmetro esta forma de indivíduo internalizada como normal toma tudo que ameace a este conjunto de valores como errado, ruim e pode então aglutinar os elementos &#8220;negativos&#8221; para estes valores em categorias, classificando como doenças para serem estudadas, pesquisadas, para que sejam prevenidas e tratadas medicamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O funcionamento majoritário deste conjunto de valores torna o mundo de relações mais parecido com um jogo de tênis, onde se joga para que o outro erre, do que num jogo de frescobol, onde se joga para que o outro acerte&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os valores encarnados no&nbsp;movimento neoliberal&nbsp;ganham força como&nbsp;política de estado&nbsp;no mundo no final da década de 70 do sec. XX com as políticas econômicas de Augusto Pinochet no chile de 1973 a 1990; Margaret Thatcher no Reino Unido (1979-1990) e Ronald Reagan nos Estados Unidos (1981-1989). Neste mesmo período acontece uma mudança significativa na forma de fazer diagnóstico em saúde mental. Os códigos que até então apresentavam fortes influências psicodinâmicas foram vistos como problemáticos para se conseguir validade, confiabilidade e fidedignidade nas categorias diagnósticas. O Manual Estatístico e Diagnóstico da Associação Psiquiátrica Americana &#8211;&nbsp;DSM III&nbsp;é lançado em 1980 com uma forma de diagnosticar objetiva em que os transtornos mentais aparecem como padrões de síndrome, ou seja, conjunto de sinais e sintomas presentes durante certo tempo em&nbsp;um indivíduo. A nova proposta é eliminar diferenças subjetivas; as inovações metodológicas incluíam &#8220;(&#8230;) critérios explícitos de diagnóstico, um sistema multiaxial, e um enfoque descritivo que tentava ser neutro em relação às teorias etiológicas&#8221; (DSM IV TM &#8211; APA, 1995, p. xvii). Posteriormente a 10ª revisão do Código Internacional de Doenças &#8211; (CID-10 OMS, 1993) da Organização Mundial da Saúde (OMS) segue a mesma lógica propondo-se a fazer uma classificação ateórica. Transtorno mental é conceituado como sofrimento, incapacitação etc. apenas e&nbsp;exclusivamente quando acontece no Indivíduo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Observa-se uma expansão crescente do número de categorias diagnósticas, em especial nos últimos 50 anos. Se no Censo de 1840 nos EUA haviam&nbsp;2&nbsp;(duas) categorias; em 1880 eram&nbsp;7&nbsp;(sete)&nbsp;categorias. Pinel, no final sec. XVIII indicava&nbsp;8&nbsp;(oito) categorias (vesânias, melancolia, mania, demência, idiotismo, hipocondria, sonambulismo e a hidrofobia). Esquirol acrescenta imbecilidade. A 6ª revisão do CID da OMS (1952) incluiu o capítulo dos transtornos mentais com&nbsp;26&nbsp;(vinte e seis) categorias entre psicoses, psiconeuroses, transtornos de caráter, comportamento e inteligência; DSM II de 1968 com 182 (cento e oitenta e duas) categorias; DSM III com 265 (duzentos e sessenta e cinco) categorias; DSM III-R (1987)&nbsp;292&nbsp;(duzentas e noventa e duas) categorias;&nbsp;DSM IV (1994)&nbsp;297&nbsp;(duzentas e noventa e sete) categorias&nbsp;e&nbsp;DSM V ( 2013)&nbsp;450&nbsp;(quatrocentas e cinquenta) categorias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Autores como Vladimir Safatle (SAFATLE, 2015) citando Axel Honneth (HONNETH, 2015, p. 385) falam de uma privatização do descontentamento, pois as pessoas seriam levadas a acreditar que cada um é responsável, individualmente, pelo desemprego iminente etc. Um sentimento de ser o único responsável por seu destino, inclusive o destino profissional. Pode-se pensar que os modos de socialização poderiam ser, ao mesmo tempo, os modos de suporte do sofrimento vivido, pois haveria um tipo de sofrimento em todo processo de socialização, de construção de identidades socialmente reconhecida, de constituição do Eu, ao internalizar padrões de conduta que poderiam ser utilizados, normativamente, sobre os sujeitos, a psique e a vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Todos os sentimentos, pensamentos, emoções etc., que não se submeterem ao padrão do melhor, mais adequado serão vividos como erro, falta, fraqueza ou incapacidade etc. Isto seria valido tanto por quem vive como por quem trata, pela estrutura que reconhece, pela política de saúde e educação etc. E será visto como doença que precisa ser tratado, medicalizado!&nbsp; A norma ideal e saudável que será usada como referência no julgamento está implícita nos valores: autonomia, independência, autodeterminação, autoafirmação, autorrealização, autoexpressão, controle de si, senhor que julga e determina o que é naturalmente bom, gratificação irrestrita a si mesmo. etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph">São valores internalizados no processo de socialização pela educação que, quando funcionando demasiadamente eficaz e eficiente, poderia produzir a destruição de outras formas vida. Quanto mais jovem menos &#8220;filtro&#8221; ou barreira haveria para que os valores afetassem com mais intensidade: &#8220;A educação tem por fim implantar complexos duradouros na criança. (&#8230;) A tonalidade afetiva se mantém devido a estímulos constantemente atualizados.&#8221; (JUNG, Psicogênese das Doenças Mentais, 1999, §90).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem apresentaria mais &#8220;sintomas&#8221; seriam os que mais aderiram unilateralmente a norma &#8220;saudável&#8221; (com mais ou menos esforço; conscientemente ou não) e esta passou a funcionar de maneira dominante em cisão e oposição a outras normas e outros padrões que passaram a funcionar como inimigos ameaçadores.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não se trata de defender uma posição a favor ou contra diagnósticos, seria uma posição onipotente, pois a psique é criativa e performaticamente produz &#8220;doenças&#8221; aglutinando tudo que é vivido como errado, ruim etc., para todo e qualquer determinado conjunto de valores, quer a consciência queira ou não. Quando aparece algo como mentalmente doente, um complexo julgou quais ideias, comportamentos e fantasias estão &#8220;erradas&#8221; &#8211; comparando com padrões ideais, morais, estatísticos etc. Isto se constela independente da vontade do padrão dominante na consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não haveria nada a opor aos diagnósticos médicos, protocolos de investigação, tratamento, exames ou a prescrição de medicamentos se fossem vividos como uma possibilidade entre várias que pudessem se alternar e colaborar, de acordo com os momentos da vida. A questão da&nbsp;medicalização é a dominação unilateral destes valores,&nbsp;condutas e atitudes centradas exclusivamente no indivíduo com tendência a serem unicamente médicas: medicalizando a vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não se busca ser contra o uso de medicações por exemplo como o metilfenidato (nome farmacológico da Ritalina) porque os dados da ANVISA mostram um aumento consumo de em 74% entre 2006 e 2011 (DAROQUE, et. al, 2016). Nem de ser contra diagnósticos como Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) porque há indícios que até 75% dos jovens medicados com a substância acima referida não teriam sido corretamente diagnosticados (FERNANDES, C. T. &amp; MARCONDES, J. F., 2017). Qual seria o efeito de avaliar mais intensamente mais crianças? Isto não poderia produzir mais diagnósticos individualizados e mais medicalização?</p>



<p class="wp-block-paragraph">A lógica dos valores ligado a propriedade privada trata toda manifestação como equivalente que pode ser comparado, quantificado e virar mercadoria. O mesmo conjunto de valores que afeta produzindo um aumento de prontidão para o ataque aos inimigos das propriedades privadas aumenta também, por exemplo, níveis de cortisol com várias consequências. O aumento excessivo do cortisol, em resposta a uma atitude constante de ameaça, pode causar sofrimento que será estudado, prevenido e tratado medicamente com alguma forma de correção; seja com medicamentos ou com outros procedimentos que produzam redução do cortisol. Ou seja, tanto a &#8220;doença&#8221; como o tratamento podem funcionar como mercadoria.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os tratamentos na lógica da medicalização da vida podem incluir dispositivos do campo da psicologia, atividade física e mesmo da arte. Quando funcionam apenas na direção de eliminar o que aparece como errado, ruim, ou problemático preservando os valores e esta configuração dominante, ajudando o complexo do ego a manter a inflação. Entretanto haveria algo de errado em buscar a redução do cortisol naquela pessoa com qualquer uma das abordagens? Incluindo com medicações? A questão não seria impedir estes dispositivos de agirem reduzindo o cortisol, mas centrar a ação apenas nesta perspectiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Procura-se questionar aqui qual o olhar e valores que orientaram o reconhecimento da demanda como problemas. Este problema que emergiu é problema para que estilo de consciência conduzido por quais valores? Quanto maior as expectativas de gratificação irrestrita, prazer, animo, disposição, iniciativa etc. mais ameaçadores podem se tornar os sentimentos de desanimo, tristeza ou desinteresse. Pode-se chega num ponto em que passam a ser vividos como doença. O cuidado seria eliminar estes sintomas que são vividos como sofrimento ou rever a forma de vida que valora excessivamente o oposto? Rever os valores exclusivamente em quem se identificou o &#8220;problema&#8221; ou nos contextos, relações sociais, familiares trabalho etc.?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quais os cuidados com as questões quando e onde estas demandas aparecem? Seriam os &#8220;problemas&#8221; que aparecem como demanda exclusivamente médicos e individuais? Qual a necessidade de cuidados, o que e quem precisa de cuidado? Seriam exclusivamente os indivíduos? As relações, os contextos, não poderiam ser campo de trabalho importante na transformação do cenário onde o problema se apresenta como do indivíduo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não seria difícil encontrar, mesmo nos protocolos médicos, a indicação de que a demanda deveria ser tratada com abordagem diversificadas e que as medicações só deveriam ser utilizadas em situações específicas e precisas. Entretanto ao se aplicar os protocolos nos contextos vivos e presentes muitas das vezes a perspectiva médica e o diagnóstico categorial é a primeira demandada e não apenas pelos profissionais médicos, mas por profissionais do campo educacional (professores, diretores de escola, orientadores pedagógicos etc); no campo da justiça (assistentes sociais, juízes, promotores); no campo da saúde (psicólogos, assistentes sociais, etc.). Quando outras abordagens surgem como possibilidade, muitas vezes, os recursos necessários não estão disponíveis. Não há condição de transporte, espaço, recurso material e humano para realizar a abordagem. Mais dificuldade ainda quando a aproximação tenta instabilizar a dominação dos valores dominantes. Pode até fazer psicoterapia etc. desde que seja para eliminar os sintomas (&#8220;os problemas&#8221;) que estão incomodando. Os valores maiores devem ser preservados. Diante da dificuldade com a execução efetiva de outras abordagens com sentido diferente da eliminação do &#8220;problema&#8221;, o mais fácil e eficiente pode ser medicalizar: dar um diagnóstico individual. Assim, mesmo que não se efetive nenhuma forma de tratamento, ainda pode se dizer que o &#8220;problema&#8221; foi medicalizado. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Finalizando, pode-se refletir que a medicalização da vida passa sem dúvida pela saúde e pela educação, mas entendendo a política como o campo de relações, trocas, debates públicos onde podem acontecer a elaboração de novas normas e novos padrões coletivos de vida, então talvez esteja seja o campo fundamental para a colaboração entre valores e a superação de dominações unilaterais fundamentalistas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; Dr. Ajax Perez Salvador</p>



<p class="wp-block-paragraph">Membro didáta do IJEP</p>



<h1 class="wp-block-heading">Referências</h1>



<p class="wp-block-paragraph">CANGUILHEM, Georges.&nbsp;O normal e o patológico. Rio de Janeiro: Forense, 2000.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CID-10 OMS.&nbsp;Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento- Organização Mundial da Saúde. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.</p>



<p class="wp-block-paragraph">DAROQUE, Lucas Pelisson, et al. &#8220;RITALINA E TRATAMENTO DE TDH: UMA REVISÃO SISTEMÁTICA SOBRE A FUNCIONALIDADE CEREBRAL.&#8221;&nbsp;VIII Mostra Interna de Trabalhos de Iniciação Científica E I Mostra Interna de Trabalhos de Iniciação Tecnológica e Inovação. Maringá &#8211; Paraná &#8211; Brasil, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">DSM IV TM &#8211; APA.&nbsp;Manual Diagnóstico Estatístico de Transtornos Mentais da American Psychiatric Association. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph">DSM V &#8211; APA.&nbsp;Manual Diagnóstico Estatístico de Transtornos Mentais da American Psychiatric Association. 5ª. Porto Alegre: Artes Médicas, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FERNANDES, Cleonice Terezinha e MARCONDES, Jeisa Fernandes. &#8220;TDAH: Transtorno, Causa, Efeito e Circunstância.&#8221;&nbsp;Rev. Ens. Educ. Cienc. Human.&nbsp;(2017): 48-52.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HONNETH, Axel.&nbsp;O Direito da Liberdade. São Paulo: Martins Fontes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;Energia Psíquica. Vol. 8/1. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.&nbsp;Fundamentos de Psicologia Analítica. Vol. Vol. XVIII/1. Petrópolis: Vozes, 1983.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.&nbsp;Psicogênese das doenças mentais. Vol. III. Petrópolis: Vozes, 1999.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.&nbsp;Psicologia e Religião. Petropolis: Vozes, 1978.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PESSOA, Fernando.&nbsp;Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar S A, 1977.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SAFATLE, Vladimir. &#8220;O trabalho do impróprio e os afetos da flexibilização.&#8221;&nbsp;Revista de Filosofia da PUCRS&nbsp;Jan- Abr de 2015: 12-49.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Reimaginando Personalidade  Revendo  &#8211; Da Formação da Personalidade</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/reimaginando-personalidade-revendo-da-formacao-da-personalidade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ajax Salvador]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 12 Jun 2019 12:37:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
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		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
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		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[Congresso Junguiano]]></category>
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		<category><![CDATA[Medicina Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Pós-graduação em Psicologia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>"(...) é algo de grande e misterioso o que designamos por ‘personalidade(...)"   (JUNG, 2013a, §312)</p>
<p>Este artigo apresenta uma reflexão inspirada no texto traduzido como "Da formação da personalidade" publicado no Volume VII da Obras completas de C.G. Jung. (JUNG, 2013a, p.178)</p>
<p>A narrativa, de forma interessante, não começa definindo ou conceituando o que se quer dizer com "personalidade", mas enfatizando sua importância através de um verso de Goethe. Segue afirmando uma "opinião" de quão forte são os desejos de desenvolver a totalidade do ser humano - "à qual se dá o nome de personalidade" (JUNG, 2013a, p.178) itálico do autor. "Se dá o nome" não é a mesma coisa do que dizer que é! Ou seja, pode-se entender que Jung aproxima-se do tema falando dos discursos sobre este e não afirmando positivamente sua literalidade.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">&#8220;(&#8230;) é algo de grande e misterioso o que designamos por ‘personalidade(&#8230;)&#8221;&nbsp; &nbsp;(JUNG, 2013a, §312)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Este artigo apresenta uma reflexão inspirada no texto traduzido como &#8220;Da formação da personalidade&#8221; publicado no Volume VII da Obras completas de C.G. Jung. (JUNG, 2013a, p.178)</p>



<p class="wp-block-paragraph">A narrativa, de forma interessante, não começa definindo ou conceituando o que se quer dizer com &#8220;personalidade&#8221;, mas enfatizando sua importância através de um verso de Goethe. Segue afirmando uma &#8220;opinião&#8221; de quão forte são os desejos de desenvolver a totalidade do ser humano &#8211; &#8220;à qual se dá o nome de&nbsp;personalidade&#8221; (JUNG, 2013a, p.178) itálico do autor. &#8220;Se dá o nome&#8221; não é a mesma coisa do que dizer que é! Ou seja, pode-se entender que Jung aproxima-se do tema falando dos discursos sobre este e não afirmando positivamente sua literalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como toda palavra este enigma nomeado &#8220;personalidade&#8221; é uma presença que tem etimologia, história e pode ser personificada &#8211; &#8220;as palavras são pessoas&#8221; (Hillman, 2010, p.54). O texto aponta que &#8220;deveras é algo de grande e misterioso o que designamos por ‘personalidade. Tudo o que se possa dizer sobre ela será sempre singularmente insatisfatório e inadequado (&#8230;)&#8221; (JUNG, 2013a, §312); aparece nesta narrativa que:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Personalidade é&nbsp;realização máxima&nbsp;da índole inata e específica&nbsp;de um ser vivo particular. (&#8230;) é a obra a que se chega pela máxima coragem de viver, pela&nbsp;afirmação absoluta do ser individual, e pela&nbsp;adaptação, a mais perfeita possível, a tudo que existe de universal, e tudo&nbsp;aliado a máxima liberdade de decisão própria. &#8221; (JUNG,2013a, §289) negritos meus.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pode-se pensar na personalidade como a realização máxima do particular e individual dentro da mais perfeita adaptação a tudo que é universal.&nbsp;Seria o máximo do particular no máximo do universal.&nbsp;Pois &#8220;(&#8230;) a camada psíquica mais profunda, sobre a qual se afirma a consciência individual, é de natureza universal (&#8230;)&#8221; (JUNG, 2013a, §307). Neste sentido universal não estaria em oposição ao particular pois os padrões universais, coletivos, transpessoais ou arquetípicos só se realizariam e se manifestariam a partir de vivencias empíricas particulares que, em associação singular, configuram complexos organizados por grandes temas coletivos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O texto fala dos efeitos de um ideal pedagógico apresentado como &#8220;Educação para a personalidade&#8221; (JUNG, 2013a, §284) que teria incrementado um movimento que contrapõe &#8220;personalidade&#8221; com &#8220;homem coletivizado ou normal&#8221; produzido pela massificação geral. No entanto a narrativa carrega uma ambiguidade, pode-se dizer um certo cinismo, pois parece estar falando da importância e dos grandes feitos libertadores de personalidades dotadas de liderança e desvaloriza-se a grande massa inerte e secundária, mas ao final aponta que a massa &#8220;necessita sempre de um demagogo&#8221; (JUNG,2013a, §284). Os exemplos de &#8220;personalidades dotadas de liderança&#8221; do período da 2ª guerra mundial beiram a caricatura: o Dulce na Itália e o Führer na Alemanha.&nbsp; Neste ponto a narrativa faz uma inflexão ao afirmar que o &#8220;problema real&#8221; é efeito de um desejo intenso em muitas pessoas de encontrar &#8220;uma personalidade&#8221; &#8211; &#8220;O desejo intenso de encontrar uma personalidade se converteu em problema real, que preocupa hoje em dia muita gente&#8221; (JUNG,2013a, §284).</p>



<p class="wp-block-paragraph">É como se este ideal da personalidade estivesse associado à expectativa valorada positivamente de independência das massas e do coletivo; esta valoração produziria um desejo e expectativa de um lugar de liderança redentora. Esta expectativa converter-se-ia em problema; quanto mais massa ou coletivo, mais demanda por personalidade redentora da massificação. É no contexto em que se considera esta posição importante que não ter esta tal &#8220;personalidade&#8221; &#8211; que diferenciasse de um dito &#8220;homem coletivizado ou normal&#8221; torna-se um problema e, quanto mais este &#8220;homem de personalidade&#8221; torna-se importante maior fica o problema. Poder-se-ia ver aí elementos que sustentam o culto às celebridades numa sociedade do espetáculo (DEBORD,1997)? Mas isto seria outra reflexão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há em Jung uma crítica ao ideal de &#8220;educar para personalidade&#8221; pois, &#8220;geralmente se vê na ‘personalidade a totalidade psíquica, dotada de decisão, resistência e força, mas isto é um ideal de pessoa adulta que se pretende atribuir à infância. &#8221; (JUNG,2013a, §286). Entretanto &#8220;no adulto está oculto uma criança,&nbsp;uma criança eterna,&nbsp;algo ainda em formação e que jamais estará terminado&nbsp;(&#8230;)&#8221; (JUNG,2013a, §286) itálico do autor. Esta criança eterna é considerada por ele uma parte importante da personalidade. Pode-se então pensar em múltiplas personalidades &#8211; vontades parciais, pequenas pessoas ou complexos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apoiado em estudos de Janet e Prince, Jung fala da extrema dissociabilidade da consciência: &#8220;As intenções da vontade ficam dificultadas (pela constelação de complexos) quando não se tornam de todo impossível. &#8221; (JUNG, 1984, §201); &#8220;(&#8230;) cada fragmento da personalidade tinha uma componente caracterológica própria e sua memória separada. Cada um destes fragmentos existe lado a lado, relativamente independentes uns dos outros (&#8230;)&#8221; (JUNG, 1984, §202). Cada complexo como uma &#8220;personalidade fragmentaria&#8221; teria um elevado grau de autonomia, independência uns dos outros e que pode conduzir sujeitos sem que estes percebam conscientemente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A consciência poderia ser então reimaginada, metaforicamente, como uma multiplicidade de estilos de consciência. Jung já apontava que&nbsp;unidade da consciência é uma mera ilusão. &#8220;Gostamos de pensar que somos unificados; mas isso não acontece nem nunca aconteceu (&#8230;)&#8221; (JUNG, 1983, p.67). A própria ideia de unidade já era entendida por Jung como complexo.&nbsp;&#8220;o complexo é uma unidade psíquica&#8221;&nbsp;(JUNG, 1999, p.33). Não haveria algo que pudesse ser unitário, isolado e fora da psique pois:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Todo acontecimento afetivo torna-se um complexo.&nbsp;Se o acontecimento não estiver relacionado a um complexo já existente, possuindo assim um significado momentâneo, ele submerge (&#8230;) até o momento em que uma impressão semelhante a reproduza novamente.&#8221; (JUNG, 1999, p.58)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há um paradoxo importante, pois, embora os complexos deem a interpretação e conduzam, a realização da personalidade deveria estar aliada a vivência da &#8220;máxima liberdade de decisão própria&#8221; (JUNG, 2013a, §289) e à liberdade na ação pois &#8220;(&#8230;) somente pela ação é que se torna manifesto quem somos de verdade. &#8221; (JUNG, 2013a, §290). Há uma valoração significativa da ação em relação às intenções, desejos, sentimentos ou pensamentos. Ohomem só apareceria como totalidade vivente e como unidade no ato!&nbsp;&#8220;O entusiasmo, a continuidade, e o executar dão origem&nbsp;à&nbsp;ação&nbsp;e é só nela que o homem aparece como totalidade vivente e como unidade.&nbsp;&#8221; (JUNG, 2012, §407) negritos meus.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele diferencia personalidade de individualismo. A personalidade não se desenvolveria obedecendo a nenhum desejo, ordem ou consideração, mas somente à necessidade movida por coação de acontecimentos (externos ou internos). &#8220;Qualquer outro desenvolvimento seria justamente individualismo. &#8221; (JUNG, 2013a, §293). Entretanto, não bastaria apenas a necessidade, seria preciso também associar-se a esta uma decisão consciente e moral. &#8220;Se faltar a necessidade, esse desenvolvimento não passará de uma acrobacia da vontade, se faltar a decisão consciente, o desenvolvimento seria apenas um automatismo indistinto e inconsciente&#8221; (JUNG, 2013a, §296).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando trata das convenções de natureza moral, social, política, filosófica e religiosa, Jung as coloca como necessidades coletivas associadas à renúncia da integralidade singular do vivente. Neste sentido a grandeza das personalidades históricas estaria em serem sementes que propagam continuamente o libertar-se das convenções. Como o peso da humanidade e dos costumes eternos levam o vivente a preferir o caminho planejado em direção a metas conhecidas, seria preciso uma força maior que conduzisse alguém a um caminho estreito íngreme e que leva ao desconhecido. Por isso a personalidade eminente surgiria como uma aparição sobrenatural, uma força demoníaca ou um dom divino. Este fator irracional é denominado por Jung como&nbsp;&#8220;designação&#8221;. Algo maior do que a consciência que em lendas se atribuem a um demônio pessoal, como uma voz interior que se dirige a pessoa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesta perspectiva o psíquico não se identifica com a consciência. Padrões inconscientes podem aparecer na forma de convenções &#8211; &#8221; O mecanismo das convenções conserva os homens inconscientes, &#8221; (JUNG, 2013a, §305) pois então poderiam fazer mudanças sem precisar tomar decisão consciente. No texto sobre a psicologia da transferência Jung cita o texto alquímico em que &#8220;o artífice é servidor da obra&#8221;. (JUNG, 1978, p.129). O homem puramente natural, em sua ingenuidade espontânea amplia a tal ponto sua personalidade que o eu normal em grande medida desaparece, (JUNG, 1978, p.130);&nbsp;&#8220;a integração do inconsciente só é possível quando o Eu se suspende. &#8221;&nbsp;(JUNG, 1978, p.160) negritos meus. Por isso a morte é, ao mesmo tempo, concepção; &#8220;A nova&nbsp;personalidade não é um terceiro entre o consciente e inconsciente, se não que é os dois juntos. (&#8230;) não deve ser qualificada de eu mas de&nbsp;si &#8211; mesmo. &#8221; (JUNG, 1978, p.131) negritos meus. Ou seja, o processo que envolve a individuação não se confunde com inflação do ego, nem com crise neurótica ou psicótica, passa por uma mudança de atitude na consciência onde o complexo do ego perde sua centralidade na personalidade; a consciência se amplia ao integrar o misterioso e desconhecido como fazendo parte desta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung aponta que os padrões inconscientes podem aparecer como duros, pesados, imóveis e inacessíveis, como uma lei natural desenfreada. Compara as guerras e revoluções com epidemias psíquicas e entre estas o movimento do &#8220;esclarecimento&#8221;. Pode-se refletir que o processo de abstração cético (cartesianismo) que levou ao &#8220;esclarecimento&#8221; produziu um &#8220;deus do terror&#8221; ao desprezar as pretensões de todo o saber alcançado por meio de autoridade e experiência (tradição, mito, religião). Ao valorar representação como por diante de si &#8211; perceber &#8211; as coisas deixam de ser essenciais e passam a estar na condição de &#8220;meu objeto&#8221;, ou o que o ‘eu sabe delas. As cosias em si, enquanto tal passam a ser uma abstração vazia de toda determinidade e por isso chamam-se fenômenos &#8211; aparecimento. O esclarecimento assim realizaria a atitude abstrativa. Mas há riscos importantes na dominação da função de abstrair.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;O homem mergulha tão profundamente e nela (função de abstração) se perde que, ao final,&nbsp;coloca sua verdade abstrata acima da realidade da vida, e a vida, que poderia estorvar o gozo da beleza abstrata, é de todo reprimida.&nbsp;Ele mesmo se torna abstração, ele se identifica com o valor eterno de sua imagem e nela se fixa, porque se transformou para ele em fórmula redentora. Renuncia, desse modo, a si mesmo e transfere sua vida para sua abstração na qual, de certa forma, fica cristalizado. &#8221; (JUNG, 1991b, p.285) negritos meus.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se tudo aparece na psique em associação por inúmeros complexos em constelação e os complexos se configuram por padrões arquetípicos, estilos de consciência, fantasias dominantes, estilos imaginativos de discurso que são muito maiores que qualquer vivente isolado, então tudo que aparece na psique está conectado internamente a partir das experiência empíricas singulares e coletivamente nos padrões arquetípicos que lhes dão sentido; participa assim, de alguma forma, de padrões coletivos &#8211; &#8220;excesso de símbolos coletivos que constituem a estrutura fundamental da personalidade. &#8221; (JUNG, 1999, §527). Esta participação misteriosa que a consciência pode não perceber é designada como &#8220;participação mística&#8221;. Jung diz que a abstração seria uma função que &#8220;luta contra a participação mística primitiva. Ela afasta do objeto para destruir os vínculos com ele. &#8221; (JUNG, 1991b, p.283). Perante a quantidade impressionante e estonteante de objetos animados, vivos pela infinidade de sentidos e significados, em constante mudança, que podem falar à imaginação, o homem criaria para si uma abstração; &#8220;isto é, uma imagem abstrata universal em que limita as impressões numa forma fixa. Esta imagem tem o significado mágico de uma proteção contra a mudança caótica da vivência. &#8221; (JUNG, 1991b, p.285).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Viver uma forma de vida preso a abstração faz com que o que for excluído desta aglutine-se de forma inconsciente e pode surgir como ameaça que a consciência em cisão e embate lutará contra para preservar sua forma de viver. Uma leitura histórica feita por Jung indica que estas &#8220;pequenas pessoas&#8221; (complexos/personalidades parciais) foram em grande parte postas a serviço do Eu (vontade do homem) levando a uma dissociação entre uma autoconsciência e um inimigo invisível. Isto poderia fazer &#8220;sucumbir a uma&nbsp;vontade tirânica de um governo interior que apresenta traços de uma supra-humanidade demoníaca&#8221;&nbsp;(JUNG, 1978, p.57) negritos meus. Haveriam muitas atividades que não estão ordenadas de acordo com o estilo dominante na consciência. O medo seria expressão de uma atitude frente à atividade psíquica existente fora do domínio da consciência a qual não poderia ser atingida nem pela vontade, nem pela inteligência. Os produtos destas atividades não costumam ser inofensivos para este governo interior que definiu o que está estabelecido, podendo até ser um mal. Este mal tentador e convincente poder surgir como uma &#8220;voz interior&#8221; e, embora se apresente sob uma forma individual, é veículo das tensões e conflitos de um sofrer coletivo do qual todos fazem parte. Se o &#8220;eu&#8221; sucumbir inteiramente segue-se a catástrofe; entretanto se sucumbir apenas em parte poderá assimilar a voz e o mal pode virar salvação &#8211; &#8220;a voz da natureza é sempre boa e sempre destruidora. (&#8230;) o que é bom não permanece sempre bom, (&#8230;)&#8221; (JUNG, 2013a, §320).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sintetizando, pode-se rever este&nbsp;enigma chamado personalidade&nbsp;como o campo onde se problematizam os encontros do que é&nbsp;mais universal e coletivo&nbsp;(padrões arquetípicos) com o que é&nbsp;mais singular&nbsp;de cada vivente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A personalidade é falada, escrita e vivida como tensão entre o que é&nbsp;mais único e singular, pois só pode ser realizada em ações por este vivente, por necessidade e escolha, a partir do conjunto de associações afetivas empiricamente determinadas no processo de vida que viveu (por isso é sentida como sendo sua) e o que é&nbsp;mais universal e coletivo(pois toda interpretação do que foi vivido, empiricamente, de forma singular só se realizou a partir de padrões transpessoais coletivos &#8211; padrões arquetípicos).&nbsp;O máximo do particular no máximo do universal!&nbsp;Nesta perspectiva &#8220;personalidade&#8221; não termina, literalmente, onde acaba uma pessoa. Ela só existe conectada em participação misteriosa com o coletivo, pois é um campo ao mesmo tempo consciente e inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A &#8220;Personalidade&#8221; é única para cada vivente, na medida em que o encontro e vivência de cada padrão coletivo se realizou de maneira absolutamente singular, neste vivente, e é, ao mesmo tempo, coletiva, muito maior do que ele; pois é também todos os padrões coletivos infinitos que constituem pessoas, famílias, sociedades, culturas, governos, formas de trabalhar e de existir. Assim &#8220;personalidade&#8221; é o campo onde convivem em cada um, na cultura e na sociedade o &#8220;homem coletivizado ou normal&#8221;, massificado, que renuncia a integralidade em favor de convenções de natureza moral, social, política, filosófica e religiosa e algo de absolutamente singular que em sua indeterminação, entropicamente, pulsa vivo em relação de tensão com tudo que foi vivido como determinado, até aquele momento; um fator irracional que, embora particular, é vivido como maior do que cada um &#8211;&nbsp;designação. E&nbsp;&#8220;(&#8230;) quem não puder perder a sua vida não a ganhará. (&#8230;) A formação da personalidade é sempre um risco (&#8230;) o perigo máximo e o auxílio indispensável.&nbsp;&#8221; (JUNG, 2013a, §321) negritos meus.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Somente o outono revela o que a primavera produziu&#8221; (JUNG, 2013a, §290). &#8220;A personalidade, no sentido da realização total de nosso ser é um ideal inatingível.&nbsp;&#8221; (JUNG, 2013a, §291).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O poeta Fernando Pessoa pode ajudar neste reimaginar da personalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sou um evadido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Logo que nasci</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fecharam-me em mim,</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ah, mas eu fugi.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se a gente se cansa</p>



<p class="wp-block-paragraph">Do mesmo lugar,</p>



<p class="wp-block-paragraph">Do mesmo ser</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por que não se cansar?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Minha alma procura-me</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas eu ando a monte,</p>



<p class="wp-block-paragraph">Oxalá que ela</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nunca me encontre.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ser um é cadeia,</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ser eu, não é ser.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Viverei fugindo</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas vivo a valer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(PESSOA,1977, §710).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Minha alma é uma orquestra oculta;</p>



<p class="wp-block-paragraph">não sei que instrumentos tange e range,</p>



<p class="wp-block-paragraph">cordas e harpas, tímbales e tambores, dentro de mim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Só me conheço como sinfonia. (&#8230;)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bernardo Soares (PESSOA, 1996, p.128).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vivem em nós inúmeros;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se penso ou sinto, ignoro</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem é que pensa ou sente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sou somente o lugar</p>



<p class="wp-block-paragraph">Onde se sente ou pensa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tenho mais almas que uma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há mais eus do que eu mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Existo todavia</p>



<p class="wp-block-paragraph">Indiferente a todos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(&#8230;)Ricardo Reis (PESSOA,1977, §423).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ajax Perez Salvador, Membro Analista didáta do IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando Jung fala &#8220;do processo criador&#8221; (JUNG, 1985, p.62) discute questões sobre arte e refere que a convicção de estar criando com liberdade absoluta seria uma ilusão do consciente. &#8220;Ele (artista) acredita estar nadando, mas na realidade está sendo levado por uma corrente invisível. &#8221; (JUNG, 1985, p.63) negritos meus. &#8220;A maneira de produzir aparentemente consciente e proposital seria apenas uma ilusão subjetiva&#8221; (JUNG, 1985, p.65) negritos meus.</p>



<p class="wp-block-paragraph">[1] &#8220;O egoísta (&#8220;salbstisch&#8221;) nada tem a ver com o conceito de Si-mesmo, tal como aqui o usamos. Por outro lado, a realização do Si-mesmo parece ser o contrário do despojamento do Si-mesmo. &#8221; &nbsp;(JUNG, 2001, §267).</p>



<h1 class="wp-block-heading">Referências</h1>



<p class="wp-block-paragraph">DEBORD, Guy.&nbsp;A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HILLMAN, James.&nbsp;Re-vendo a psicologia. Petrópolis: Editora Vozes Ltda, 2010.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;A Natureza da Psique. Vols. VIII-2. Petrópolis: Vozes, 1984.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.&nbsp;Ab-reação, análise dos sonhos , psicologia da transferência. Vol. 16/2 OC. Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.&nbsp;Fundamentos de Psicologia Analítica.&nbsp;Vol. Vol. XVIII/1. Petrópolis: Vozes, 1983.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.&nbsp;La psicologia de la transferencia. Buenos Aires: Editorial Paidos, 1978.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.&nbsp;O Desenvolvimento da Personalidade. 14ª. Vol. 17. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.&nbsp;O Espírito na Arte e na Ciência. Vol. XV. Petropólis: Vozes, 1985.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.&nbsp;O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2001.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.&nbsp;Psicogênese das doenças mentais. Vol. III. Petrópolis: Vozes, 1999.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.&nbsp;Tipos Psicológicos. Petrópolis: Vozes, 1991b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PESSOA, Fernando.&nbsp;Livro do desassossego. Vol. I. Campinas: Unicamp, 1996.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.&nbsp;Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar S A, 1977.</p>
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		<title>Psicopatologia afeto e sistema de valores</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/psicopatologia-afeto-e-sistema-de-valores/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ajax Salvador]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 12 Jun 2019 12:31:42 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Partindo da narrativa junguiana, pode-se refletir que a psique possui refinado sistema de avaliação, ou seja, um "sistema de valores psicológicos" (JUNG 2013, §14). Valor designaria uma relação de intensidade e jamais uma substância, qualidade, propriedade específica, ou seja, nunca uma coisa em si. A energia psíquica neste sentido não expressa "nada mais do que as relações entre valores" (JUNG 2013, §50).  O sistema de valores usaria medidas de valores morais e estéticos coletivos (que são denominados de objetivos, pois associam-se a escalas de valores universalmente estabelecidas) e valores que podem não corresponder, exatamente, aos valores universais estabelecidos pois teriam sido vividos de maneira singular na vida de cada sujeito. Embora tivessem um arranjo vivido de forma particular e singular ainda assim teriam relação com valores coletivos.</p>
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		<title>Reimaginando episódio depressivo &#8211; psicopatologia afeto e sistema de valores II</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/reimaginando-episodio-depressivo-psicopatologia-afeto-e-sistema-de-valores-ii/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ajax Salvador]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 12 Jun 2019 12:27:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Poderia o transtorno depressivo ser reimaginado como a dominação unilateral de um conjunto de sistema de valores que, em cisão e reação de oposição e embate, produzem o que surge como sintomas? <br />
Através da narrativa Junguiana a noção de doença mental (psicopatologia) pode ser revista como o momento em que se configura a dominação unilateral de um padrão arquetípico que, em complexos, torna-se governo interior tirânico e com grande intensidade se coloca em oposição e embate contra manifestações diversas. Os complexos dominantes viveriam os elementos em cisão como inimigos a serem combatidos, o que constelaria todos os mecanismos automáticos de defesa e fariam com que estas manifestações surgissem como sintomas. <br />
Pode-se partir da descrição do episódio depressivo no X Código Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde (CID-10 OMS , 1993) em que este é apresentado como:<br />
"Em episódios depressivos típicos, (...) o indivíduo usual¬mente sofre de humor deprimido, perda de interesse e prazer e energia reduzida levando a uma fatigabilidade aumentada e atividade diminuída. Cansaço marcante após esforços apenas leves é comum (...)" (CID-10 OMS, 1993, p.117)</p>
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<p class="wp-block-paragraph">​​​​​​​Poderia o transtorno depressivo ser reimaginado como a dominação unilateral de um conjunto de sistema de valores que, em&nbsp;cisão e reação de oposição e embate, produzem o que surge como sintomas?&nbsp;<br>Através da narrativa Junguiana a noção de doença mental (psicopatologia) pode ser revista como o momento em que se configura a dominação unilateral de um padrão arquetípico que, em complexos, torna-se governo interior tirânico e com grande intensidade se coloca em oposição e embate contra manifestações diversas. Os complexos dominantes viveriam os elementos em cisão como inimigos a serem combatidos, o que constelaria todos os mecanismos automáticos de defesa e fariam com que estas manifestações surgissem como sintomas.&nbsp;<br>Pode-se partir da descrição do episódio depressivo no X Código Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde (CID-10 OMS , 1993) em que este é apresentado como:<br>&#8220;Em episódios depressivos típicos, (&#8230;) o indivíduo usual¬mente sofre de humor deprimido, perda de interesse e prazer e energia reduzida levando a uma fatigabilidade aumentada e atividade diminuída. Cansaço marcante após esforços apenas leves é comum (&#8230;)&#8221; (CID-10 OMS, 1993, p.117)<br>Ao afirmar que se &#8220;sofre de humor deprimido perda de interesse e prazer e energia reduzida&#8221;, não está implícito um julgamento? Humor deprimido, perda de interesse e prazer e energia reduzida seriam necessariamente e sempre vividos com algo que produziria sofrimento? O Poeta Fernando Pessoa na poesia intitulada &#8220;Liberdade&#8221; fala:<br>&#8220;Ai que prazer<br>não cumprir um dever.<br>Ter um livro para ler<br>e não o fazer!<br>Ler é maçada,<br>estudar é nada. (&#8230;)<br>Livros são papéis pintados com tinta.<br>Estudar é uma coisa em que está indistinta<br>A distinção entre nada e coisa nenhuma. (&#8230;)&#8221;<br>(PESSOA, 1977, §195)<br>Neste poema falta de interesse em ler um livro, em cumprir um dever, não é descrito como sofrimento, mas como prazer e como liberdade. Ou seja, a vivência de sofrimento ou não, depende de uma interpretação do evento. O que é descrito como sintoma (perda de interesse) para ser vivido como sofrimento em uma determinada &#8220;situação de experiência&#8221; dependeria de uma interpretação. Haveria sempre um certo condicionamento psíquico que se interpõe ao imediatamente dado (JUNG, 1984, §195), pois o que apareceria na psique estaria sempre ligado a complexos. A teoria dos complexos permite ver a unidade da consciência como uma mera ilusão (JUNG, 1983, p.67) e cada complexo afetivo como uma imagem de determinada situação psíquica &#8220;dotada de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de autonomia. &#8221; (JUNG, 1984, §201). &#8220;Eles (os complexos) são grupos autônomos de associações, com tendência de movimento próprio, de viverem sua vida independentemente de nossa intenção. &#8221; (JUNG, 1983, p.67).<br>Os complexos, com importante grau de autonomia do complexo do eu e da consciência, realizariam julgamentos seguindo sequencias associativas que se constituíram a partir de padrões arquetípicos (estilos de consciência, fantasias dominantes, estilos imaginativos de discurso, formas de viver, pensar e sentir), efetivando-se assim valores coletivos, transpessoais, em valores vividos singular ou particularmente em cada um, de acordo com a intensidade que o valor afeta o sujeito. Quanto mais valor, mais afeto. Este circuito de afetos julga e interpreta o &#8220;imediatamente dado&#8221;- o que parece certeza sensível &#8211; faz com que este evento seja visto e vivido como tendo determinado significado e sentido para este vivente.<br>Assim, humor deprimido, perda de interesse e prazer e energia reduzida dependeriam de instâncias que julgam. Haveria uma perspectiva (complexo), que avalia, compara padrões (libido de parentesco ) e considera que havia mais prazer, energia antes do que agora e que isto é ruim. Não só há a comparação, como a valoração negativa para sofrimento e fadiga, enquanto que &#8220;atividade&#8221; aparece positivada &#8211; &#8220;levando a uma fatigabilidade aumentada e atividade diminuída&#8221;. Os outros sintomas, mais comuns, seguem a mesma lógica de avaliação (concentração e atenção reduzidas; autoestima e autoconfiança reduzidas; sono perturbado; apetite diminuído etc.).&nbsp;<br>Os valores estarem em oposição não impediriam a progressão da energia psíquica caso não estivessem desagregados, ou seja, quando ter e não ter interesse estão em composição as ações na vida seguem o fluxo de acordo com as demandas do contexto presente. Num processo de progressão , valores identificados positivamente não funcionariam separados dos valorizados negativamente &#8211; &#8220;o impulso e contra impulso, o Sim e o Não, chegam a uma ação e influências reciprocas regulares. &#8221; (JUNG, 2013, §61). No entanto, se os elementos se desagregam (ou tem ou não tem interesse) a cisão se instala e com isto o represamento da energia psíquica. Quanto mais tempo represada a energia psíquica, mais se eleva o valor das posições opostas; isto aumenta o conflito com tentativas de reprimir um dos lados. Quando um dos lados consegue suprimir o outro instala-se a dissociação (cisão). O lado dominante na consciência, embora possa ter aspecto de que está agindo por deliberação livre, estaria funcionando de forma reativa, assombrado pelos aspectos suprimidos. Por exemplo: não ter interesse deixa de acompanhar as ações interessadas e passa a funcionar como uma ameaça constante cada vez que a consciência se pergunta sobre o interesse em determinada ação. Quanto maior for a dominação imperativa de que o sujeito &#8220;tem de ter interesse&#8221; qualquer sinal de desinteresse seria rapidamente identificado como inimigo a ser combatido &#8211; isto seria valido para os demais sintomas. Uma vez constelada a ameaça a atitude preparatória e de expectativa seria automaticamente desencadeada . Com o tempo o vivente passa a ser levado a ficar cada vez mais atento aos traços de desinteresse do que ao que teria interesse. A regressão ativaria todas as associações ligadas aos traços de desinteresse incluindo as que a consciência não tem acesso (inconscientes) . Isto é descrito como a necessidade de adaptação ao &#8220;mundo psíquico interior&#8221; (JUNG, 2013, §66); mas mundo interior da própria imagem (no sentido usado na narrativa junguiana), não é algo exclusivamente individual ou de uma pessoa, pois a imagem é configurada por padrões coletivos transpessoais que por terem valor social marcaram as vivencias singulares.&nbsp;<br>Com esta configuração, eventos que fizessem surgir na psique humor deprimido, perda de interesse e prazer e energia reduzida tenderiam a ser mais facilmente interpretados como ameaças ou mesmo catástrofe. O sentido de ameaça, desespero, desamparo, catástrofe estaria constelado e os mecanismos de defesa diante da interpretação do evento seriam ativados.&nbsp;<br>Entretanto como a perspectiva que avalia &#8220;perda de interesse e prazer e energia reduzida&#8221; como necessariamente ruim ou desvalorizado não é exclusivamente pessoal, depende de valores coletivos, quanto mais forte numa cultura, sociedade ou contexto a norma ideal saudável for você tem que ter interesse e prazer, mais os sujeitos serão levados a acreditar que apenas assim terão uma vida bem-sucedida. Quanto mais se estiver sendo conduzido por critérios firmes e estáveis que interesse e prazer tem um único sentido e significado, que são necessariamente bons e, portanto, deve-se mantê-los estáveis ou ao menos não reduzi-los (só se deve aumentá-los); qualquer diminuição que acontecesse (que não for interpretada como circunstancial, efêmera e relativamente controlável) teria que instabilizar os valores que orientam a ação, ou localizar o acontecimento numa doença e preservar a forma de vida que assim valora.<br>A instalação do sintoma poderia estar diretamente relacionada com a intensidade com que determinados valores dominam, unilateralmente, uma sociedade, cultura, relações familiares, relações de trabalho etc. e com isto afetando o vivente . A doença, entretanto, depende do quanto o vivente está absorvido pelo meio (no caso normas ou valores sociais, coletivos), afinal &#8220;o que caracteriza a saúde é a possibilidade de ultrapassar a norma que define o normal momentâneo, a possibilidade de tolerar infrações à norma habitual e de instituir normas novas em situações novas. &#8221; (CANGUILHEM, 2000, p.160).<br>Retomando a teoria dos complexos que permite ver a unidade da consciência como uma mera ilusão pode-se reler que há um complexo bastante ativo no vivente em crise; este que ataca, critica, sistematicamente vai aos traços de lembranças do passado buscar ameaças do que deu &#8220;errado&#8221; e segue produzindo cenários de futuro onde também são identificados tudo o que poder dar &#8220;errado&#8221;. A este complexo não falta energia, prazer, animo, disposição, atenção, concentração ou memória. Ele alimenta-se sistematicamente dos elementos coletivos mais fortemente valorizados e impregnados nas relações familiares, sociais etc.<br>A descrição do episódio depressivo no CID X permite depreender quais os elementos normativos mais valorizados (coletivamente e nos sujeitos em crise) pois aparecem como os mais ameaçados pelos sintomas; estes são: prazer, energia, concentração, atenção, autoestima, autoconfiança, utilidade, não se sentir culpado, visões otimistas de futuro, ideias de auto-conservação, sono sem perturbações e um apetite estável.&nbsp;<br>Se &#8220;o doente é doente por só poder admitir uma norma. &#8221; (CANGUILHEM, 2000, p.149), quanto maior a cisão e a expectativa com exigência imperativa de ter que ter prazer, energia, concentração, atenção, autoestima, autoconfiança, utilidade etc, mais tudo que divergir destes elementos será vivido como ameaça desta forma de vida. Só seria tolerado o que ameaçasse estes valores quando relacionado à alguma circunstância temporária ou controlável. Não sendo o caso, só poderiam ser o resultado de uma doença, um &#8220;transtorno&#8221; ou seria necessário rever os valores saudáveis idealizados.&nbsp;<br>Contextualizando e Reimaginando a &#8220;depressão&#8221;, ela fala de uma forma de vida que valoriza e tenta manter sob controle o que coloca como ideal de saúde os elementos citados acima . Quanto mais absorvido por estes ideais como imperativos e menor a distância destas normas ideais o sujeito tiver, mais o complexo dominante em cisão entraria em embate. Cada vez que o sujeito sinta algo como desprazer, falta de energia etc. a cisão fará que isto seja vivido como ameaça aos valores e ideais &#8220;saudáveis&#8221; configurando-os como sintomas. Diante da ameaça todos os sistemas de defesa seriam automaticamente acionados intensificando o embate e com isto o que é descrito como episódio depressivo.<br>Através da OMS a psique configuraria o &#8220;episódio depressivo&#8221; no CID X para poder realizar o seu trabalho de patologizar. A psique cria patologia, para poder localizar &#8220;quais ideias, comportamentos, e fantasias estão errados (&#8230;) fantasia é a primeira realidade da psicopatologia&#8221; (HILLMAN, 2010, p.172). O natural tende a ser idealizado e é utilizado moralmente naquilo que desvie das leis gerais, padrões idealizados morais ou imorais. Pode-se entender o que é chamado saudável ou doente depende de normas que se sustentam em alguns conceitos que podem ser estéticos como harmonia ou equilíbrio ou conceitos morais como controle, regulação, contenção e mesmo políticos como ordem, hierarquia etc. Assim saúde ou doença seriam efeitos de determinações valorativas vividas, individual e coletivamente, como naturais, biológicas e literais. A psique trabalharia através das configurações dissoluções de vasos ou constelações onde alguns temas podem ser revistos.&nbsp;<br>A teoria da progressão e regressão da libido (energia psíquica) descrito na narrativa Junguiana (JUNG 2013, §60 a 76) pode fazer refletir que, se por um lado a cisão, dissociação e unilateralidade dominante em embate configuram o que surge como sintoma, a regressão da energia psíquica faria com que aumentasse o valor dos conteúdos excluídos no processo, ou seja, os elementos inconscientes adquiririam maior influência, ultrapassariam o limiar e exerçam maior força sobre a consciência.&nbsp;<br>Na clínica é frequente observar que os conteúdos sintomáticos como humor deprimido (tristeza), falta de interesse e prazer e energia reduzida passam a ter muito mais importância e valor que outros conteúdos. É como se algo no sujeito ficasse em prontidão constante esperando que um destes elementos aparecessem. Por vezes este complexo fica buscando traços destes elementos ameaçadores nos diversos contextos e mesmo quando não surgem, tem a impressão de que algo está errado; que será atacado por um evento destes ou mesmo que está acontecendo o ataque, mas não se conseguiu percebe-lo direito. Basta que um traço semelhante seja identificado numa conversa, num gesto, tom de voz ou olhar para que tudo se confirme. Os períodos em que os conteúdos sintomáticos não são reconhecidos perdem o valor; um período &#8220;melhor&#8221; não significa nada, porque em seguida voltou-se a sentir a mesma ameaça. Só conta ou só tem valor o período ameaçado.&nbsp;<br>Entretanto, se for possível ultrapassar julgamentos fundados no senso comum, em preconceitos ou aparências superficiais, pode-se vislumbrar nos conteúdos intensificados pelo processo de regressão não só restos incompatíveis e por isso rejeitados da vida cotidiana ou tendência condenáveis do homem animalesco, mas também &#8220;(&#8230;) os germes de novas possibilidade de vida (&#8230;) possibilidade de uma renovação existencial&#8221; (JUNG 2013, §63).&nbsp;<br>Há autores como Safatle (SAFATLE, 2009) que fazem uma crítica, baseada em mudanças sócio-históricas, indicando que a sociedade ocidental teria passando de uma sociedade repressiva para uma sociedade do consumo. Se até a primeira metade do século XX ainda havia muito valor no ideário do mundo capitalista do trabalho ligado à ética protestante levando ao ascetismo e a acumulação, o mundo do consumo conduziria a um imperativo que diz apenas um puro: &#8220;não ceda em seu desejo&#8221;, sem nenhum conteúdo normativo; ou seja, sem dizer como nem qual o objeto adequado. Os mecanismos de repressão ou refrear teriam sido substituídos pelos de cobrança de gratificação irrestrita. Se antes os sujeitos eram conduzidos a conter, reprimir ou administrar as formas de satisfação, passa-se a uma sociedade da insatisfação administrada onde, por mais e quanto mais se tenha ou troque, mais se fixa o permanente sentimento de insatisfação. Limitar, refrear, tomar distância, alienar perderam o lugar de valor. Instala-se, hegemonicamente, um estilo de consciência onde estes movimentos não devem ocupar lugar valorado ou fazer parte do horizonte ético de realização. Esta configuração sociocultural pode ajudar a compreender porque a mudança da predominância de sintomas de histéricos, que pressupunham instâncias repressoras, para os transtornos de ansiedade e de humor. Isto pode ser referendado pelo estudo epidemiológico dos transtornos mentais realizado entre 2005 e 2007 em São Paulo &#8211; Megacity &#8211; que aponta os transtornos de ansiedade com os de maior incidência (19,9%), seguido dos transtornos de humor (11%) e entre estes o transtorno depressivo maior (9,4%) e a Distimia (1,3%) (ANDRADE L H, 2012).<br>Tomando a categoria psicopatológica &#8220;episódio depressivo&#8221; como resistência a norma fundamentalista dominante unilateral na sociedade de consumo, ela pode atualizar os fracassos anteriores e transformá-los em germes de novas possibilidade de vida e renovação existencial. Assim, transformar o que aparece como sofrimento em valor de vida que resiste a dominação do padrão de cobrança imperativa de &#8220;não ceder em seu desejo&#8221;, de gratificação irrestrita, com seus correlatos &#8211; prazer, energia, concentração, atenção, autoestima, autoconfiança, utilidade, não se sentir culpado, visões otimistas de futuro, ideias de auto conservação, etc. E com esta leitura, poder viver outros estilos de consciência, fantasias dominantes, estilos imaginativos de discurso, formas de viver, pensar e sentir onde possa ter valor limitação, desprazer, redução de energia, sem que isto seja necessariamente vivido como ameaça ou catástrofe. Abrir possibilidades de outros sentidos e significados para estas vivencias. Poder valorizar não apenas autoconfiança, auto estima e ideias de auto conservação ligados a noção de individuo como substância de uma unidade autônoma, independente, autodeterminada; que deveria se guiar exclusivamente por padrões de unidade, identidade, espontaneidade e autenticidade expressiva, mas poder valorar positivamente confiança, estima e conservação de outros, muitos outros (externos e internos); poder ter lugar na vida para o inútil; a culpa poder falar da onipotência do complexo do ego e da sua identificação como poder tirânico com traços de uma supra humanidade demoníaca. A perda do prazer pode propor um corte numa máxima hedonista ou mesmo questionar o prazer que esta forma de vida tem em massacrar, com ataques, tudo que se coloca com limites, na experiência. Então a vida poderia se afirmar como tensão entre determinação e indeterminação, como devir, afinal &#8221; (&#8230;) a transformação é expressão de vida. &#8221; (JUNG 2013, §80).&nbsp;<br>Fernando Pessoa em uma de suas máximas afirma: &#8220;Ter opiniões definidas e certas, instintos, paixões e carácter fixo e conhecido &#8211; tudo isto monta ao horror de tornar a nossa alma um facto, (&#8230;) viver é um doce e fluido estado de desconhecimento das coisas e de si próprio. &#8221; (PESSOA,1996, p.208)<br>Referências<br>ANDRADE L H, WANG Y P, ANDREONI S, Silveira C M, ALEXANDRINO-SILVA C, et al. &#8220;Mental Disorders in Megacities: Findings from the São Paulo Megacity Mental Health Survey,.&#8221; PLoS ONE 14 de fevereiro de 2012. .<br>CANGUILHEM, Georges. O normal e o patológico. Rio de Janeiro: Forense, 2000.<br>CID-10 OMS . Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da Organização Mundial da Saúde. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.<br>HILLMAN, James. Re-vendo a psicologia. Petrópolis: Editora Vozes Ltda, 2010.<br>JUNG, Carl Gustav. A Natureza da Psique. Vols. VIII-2. Petrópolis: Vozes, 1984.<br>-. Energia Psíquica. Vol. 8/1. Petrópolis: Vozes, 2013.<br>-. Fundamentos de Psicologia Analítica. Vol. Vol. XVIII/1. Petrópolis: Vozes, 1983.<br>-. La psicologia de la transferencia. Buenos Aires: Editorial Paidos, 1978.<br>NICOLELIS, Miguel. Muito além do nosso eu. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.<br>PESSOA, Fernando. Livro do desassossego. Vol. I. Campinas: Unicamp, 1996.<br>-. Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar S A, 1977.<br>SAFATLE, Vladimir. &#8220;Um supereu para a sociedade de consumo: Sobre a instrumentalização de fantasmas como modo de socialização.&#8221; 2009. 19 de setembro de 2016. .</p>



<p class="wp-block-paragraph">SALVADOR, Ajax Perez. PSICOPATOLOGIA AFETO E SISTEMA DE VALORES.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa &#8211; IJEP. São Paulo, 17 de 10 de 2016.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/reimaginando-episodio-depressivo-psicopatologia-afeto-e-sistema-de-valores-ii/">Reimaginando episódio depressivo &#8211; psicopatologia afeto e sistema de valores II</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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		<item>
		<title>Reimaginando transtorno bipolar psicopatologia afeto e sistema de valores III</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/reimaginando-transtorno-bipolar-psicopatologia-afeto-e-sistema-de-valores-iii/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ajax Salvador]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 12 Jun 2019 12:20:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
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		<category><![CDATA[Transtorno Bipolar]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Poderia o Transtorno Afetivo Bipolar ser reimaginado como a dominação unilateral de um conjunto de sistema de valores que, em cisão e reação de oposição e embate, produzem o que surge como sintomas?</p>
<p>Através da narrativa Junguiana a noção de doença mental (psicopatologia) pode ser revista como o momento em que se configura a dominação unilateral de um padrão arquetípico que, em complexo, torna-se governo interior tirânico e com grande intensidade se coloca em oposição e embate contra manifestações diversas. Os complexos dominantes viveriam os elementos em cisão como inimigos a serem combatidos, o que constelaria mecanismos automáticos de defesa e fariam com que estas manifestações surgissem como sintomas.</p>
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<p class="wp-block-paragraph">Poderia o Transtorno Afetivo Bipolar ser reimaginado como a dominação unilateral de um conjunto de sistema de valores que, em cisão e reação de oposição e embate, produzem o que surge como sintomas?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Através da narrativa Junguiana a noção de doença mental (psicopatologia) pode ser revista como o momento em que se configura a dominação unilateral de um padrão arquetípico que, em complexo, torna-se governo interior tirânico e com grande intensidade se coloca em oposição e embate contra manifestações diversas. Os complexos dominantes viveriam os elementos em cisão como inimigos a serem combatidos, o que constelaria mecanismos automáticos de defesa e fariam com que estas manifestações surgissem como sintomas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Transtorno Afetivo Bipolar (TAB) é descrita no CID X dentro do grupo dos transtornos de humor (F30-39)&nbsp;（CID-10 OMS ，1993）. A característica do TAB é a presença de episódios repetitivos da alteração de humor (ao menos um episódio de mania ou hipomania); afirma-se que: &#8220;Os termos &#8220;mania&#8221; e &#8220;depressão grave&#8221; são usados (&#8230;) para denotar os extremos opostos do espectro afetivo; &#8220;hipomania&#8221; é usado para denotar um estado intermediário (&#8230;). (CID-10 OMS, 1993, p110). Os critérios sintomáticos que devem &#8220;durar pelo menos uma semana e ser grave o suficiente para&nbsp;perturbar o ritmo normal de trabalho e atividades sociais. &#8221; (CID-10 OMS, 1993, p112) negritos meus. O&nbsp;episódio maníaco&nbsp;é descrito como &#8220;humor elevado e aumento na quantidade e velocidade da atividade física e mental. &#8221; (CID-10 OMS, 1993, p111). Os sintomas podem ser resumidos como: Humor desproporcionalmente elevado; aumento de energia &#8211; hiperatividade, pressão por falar, redução da necessidade de sono; perda de inibições sociais; distratibilidade marcante; autoestima inflada; ideias de grandiosidade e super otimistas livremente expressas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os critérios no DSM V não são, fundamentalmente, diferentes do CID X. Chama atenção a mudança de sentido do termo hipomania, pois os termos &#8220;mania&#8221; e &#8220;depressão grave&#8221; eram os extremos opostos do espectro afetivo e a &#8220;hipomania&#8221; um estado intermediário (&#8230;). (CID-10 OMS, 1993, p.110) enquanto que o Transtorno Bipolar II, no DSM V, a &#8220;hipomania&#8221; ganha em determinação diferenciada. A gravidade específica sustenta-se em critérios como presença de &#8220;depressão&#8221; e dos prejuízos graves no funcionamento social. Ou seja, pode-se entender que os sintomas descritos nos episódios hipomaníacos, isoladamente, não teriam critérios suficientes para caracterizar maior gravidade ou retirar o &#8220;mais leve&#8221; da avaliação. Seria necessário algo vivido como sofrimento mais significativo para caracterizar um sintoma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se, na perspectiva Junguiana, a dominação unilateral em cisão e embate produz o sintoma, é fundamental reconhecer o que é vivido como sintoma (pathos) para que se consiga perceber qual o padrão dominante que vive outra manifestação como errada e produtora de sofrimento. Sem a cisão e embate entre elementos em oposição a energia psíquica seguiria o fluxo habitual nas ações na vida sem interrupções. Ou seja, caso os valores identificados positiva e negativamente não estivessem desagregados a progressão da energia psíquica aconteceria. O sintoma surge como sofrimento pelo conflito e haveria interrupção do decorrer da vida com represamento da energia psíquica. É fundamental reconhecer quem (que padrão arquetípico, complexos ou estilo dominante na consciência) vive o sintoma com&nbsp;pathos&nbsp;ou sofrimento. Quais são os aspectos que são vividos como errados ou ruins pois estes surgirão como ameaça e como sintoma?</p>



<p class="wp-block-paragraph">A experiência clínica mostra que, frequentemente, a capacidade de crítica quanto ao estado mórbido nos sujeitos em crise com diagnóstico de transtorno bipolar é bastante prejudicada tanto na mania e como na hipomania. Ou seja, os sujeitos em crise não reconhecem o que estão sentindo e vivendo com algo errado, ruim ou que lhe produzam sofrimento. Ao contrário um fator de não adesão relatado é &#8220;o fato de sentirem-se bem (&#8230;) sentirem falta dos &#8220;altos&#8221; ou fora dos episódios de elação sentirem-se deprimidos, menos criativos e produtivos (&#8230;)&#8221; (MARCHI, 2008, p.88). Esta atitude é interpretada pelos autores como negação do transtorno mental, porem pode-se entender que o que é descrito como sintoma (pathos) para o observador externo não é vivido como tal pelo sujeito. Talvez por isso o critério para retirar o &#8220;mais leve&#8221; da avaliação da hipomania no DSM V e a necessidade de incluir critério exterior a avaliação da pessoa em crise. Inclui-se então os critérios &#8220;prejuízo profissional e social&#8221; que pode ser avaliado com maior grau de exterioridade ou a &#8220;depressão&#8221; onde os critérios sintomáticos são vividos pelo sujeito como sofrimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mais frequente na clínica é que os sujeitos que apresentam expressões de vida compatíveis com o que é descrito na categoria mania ou hipomania atribuam o sofrimento (pathos) não ás ideias ou a forma de vida que estão dominando o momento em sua existência, mas as frustrações devido às limitações nas condições externas reais e presentes (por indisponibilidade das pessoas, familiares ou não, limite no suporte material da família, instituições, cultura, sociedade etc.); tudo o que restringe as expectativas de ação e de realização do padrão que está dominando, como sendo o melhor e mais saudável, é que é vivido como sofrimento. A suspeita é de que os critérios de mania e principalmente hipomania não são reconhecidos com diferente do esperado pela norma socialmente considerada saudável e por isso ficaria difícil vivenciá-los como sintomas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Frequentemente não se percebe como sofrimento ser conduzido por ideias ou projetos de vida ligados a realização plena de vida. Trabalhar incessantemente num projeto que é vivido como muito importante, valoroso etc. mesmo que isto requeira perder noites de sono, reduzir alimentação ou deixar descuidado outros aspectos na vida pode não ser vivido como anormal ou doentio. Ao contrário pode ser vivido como sinal de determinação e até mesmo sentido como prazeroso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Critérios como autoestima inflada, humor elevado e expansivo, aumento da energia ou atividade, aumento da atividade dirigida a objetivos, que compõe o quadro sintomático apresentado, pode ser facilmente encontrado nas descrições de processos motivacionais. Uma pesquisa na internet sobre motivação mostra muitas frases que apontam ideias no mesmo sentido do que é descrito como sintoma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não é preciso muito esforço para perceber que os critérios que aparecem na descrição do Transtorno Afetivo Bipolar como&nbsp;autoestima elevada, aumento de atividade dirigida a objetos, valorização da atividade&nbsp;etc. não são o oposto do que é vivido coletivamente pelo espirito da época do mundo do consumo como a norma dominante, como o melhor e mais saudável. Pelo contrário pode-se entender que quanto mais conduzido pelo padrão que impõe, imperativamente, que se tem que agir dirigido aos objetos para conseguir os resultados desejados, com otimismo, dedicação, esforço etc. e não se puder tomar distância deste padrão; ou quanto mais se for dominado por um complexo insuperável configurado com estes valores, mais &#8220;doente&#8221; se estará. O&nbsp;sofrimento não seria tão maior quanto mais imperativamente o sujeito é conduzido pelo ideal de realização que este padrão dominante impõe ou quanto menos puder tomar distância do mesmo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">É interessante que, como este é um padrão coletivo muito forte que atravessa e configura a grande maioria na sociedade ocidental atual, tudo se passa como se não houvesse um sofrimento em sentir-se compelido a ter que resolver o que o estilo dominante na consciência vê como problemas. Como se realizar tudo que o satisfaça na intensidade máxima e da maneira mais rápida possível o que este padrão dominante exige como &#8211; ganhar o dinheiro que julga precisar, comprar coisas que lhe parecem importantes, fazer as coisas que lhe trazem prazer como compras, sexo, drogas etc. &#8211; não produzisse nenhum sofrimento. Fazer isto tudo é como se fosse a realização natural de uma vida bem-sucedida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O sofrimento que se reconhece não está relacionado com a vivência de estar obrigado a fazer isto tudo imperativamente, mas de não conseguir realizar devido ás resistências da vida presente, por não contar com a colaboração imediata e ilimitada de todos no mundo para realizar &#8220;ideal tão nobre&#8221;. Relendo na perspectiva junguiana o&nbsp;represamento&nbsp;do fluxo de energia psíquica aconteceria quando o sujeito estivesse tão aderido à norma saudável e valorizada que vivesse em cisão e oposição sofrendo como todo limite, redução da autoestima, ter algo que interrompa os pensamentos, ter que se concentrar, reduzir atividades etc. &nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Afinal seria de se estranhar que com esta dominação predominando o otimismo exagerado e as ideias de grandeza aparecessem na consciência avaliadas como algo errado ou doente. Neste contexto fica difícil que o sujeito avalie que está sofrendo de uma doença crônica que traz limites, dificuldades e precisará de cuidados e remédios pela vida toda, quando está seguindo o &#8220;padrão saudável&#8221;. Isto pode ter relação com os dados epidemiologicos do Transtorno Bipolar que apontam&nbsp; que &#8220;(&#8230;) muitos pacientes recebem um diagnóstico errado nas primeiras avaliações, freqüentemente de depressão.&#8221;&nbsp; (LIMA, et al., 2005, p.19). A prevalência de comorbidade e multimorbidade é um achado consistente em diversos inqueritos populacionais&nbsp; como na&nbsp;World Mental Health Survey Initiative&nbsp;onde aparece que três quartos dos pacientes com transtornos do espectro bipolar também fecharam critérios para outro transtorno na vida&nbsp; (KAPCZINSKI, et al., 2016). Será que isto acontece pois o sofrimento como sintoma (o&nbsp;Pathos)&nbsp;apareceria mais facilmente em outros diagnósticos do que no TAB?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez, pelo mesmo motivo de falta de percepção dos sintomas como sofrimento, existam baixos percentuais em tratamento nos EUA &#8211;&nbsp; 48.8% das pessoas com transtorno bipolar recebe algum tratamento nos EUA e destes apenas 18,8% receberiam tratamento mínimo adequado (NIMH, USA, 2016).&nbsp;Pathos&nbsp;só poderia&nbsp;aparecer então no acentuado prejuízo no funcionamento social, profissional ou na necessidade de internação. Ou no&nbsp;&#8220;prejuízo&#8221;&nbsp;por ter sono, interromper a fala ou pensamentos, se concentrar ou na redução de atividades.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A dificuldade em reconhecer algo como sintomático tenta ser contornada com a comparação do momento presente com outros, indicando que este atual seria um &#8220;período distinto humor anormal&#8221;. Isto pode reforçar que a norma saudável se encontra em outros períodos ou no habitual. Entretanto o padrão que dominou de maneira insuperável já podia estar presente mesmo antes da crise; podia estar sendo vivido, valorizado trazendo reconhecimento, afetos etc. Jung reflete, ao discutir um caso, se&nbsp;o paciente já não teria adoecido antes do evento, (referindo-se ao evento disparador descrito pelo paciente como de forte impacto emocional); para Jung ele estaria &#8220;adoecido&#8221; enquanto parecia &#8220;normal&#8221; &#8211; &#8220;(&#8230;) ele já se encontrava doente quando era normal&#8221; (JUNG, 1999, §535). Segue indicando que, a &#8220;doença&#8221; é que pode ter levado a viver aquela experiência disparadora com tanta intensidade. Ou seja, o complexo já estaria configurado em determinado padrão arquetípico, mesmo antes da crise e poderia ter se intensificado pela oposição e embate ao encontrar, por semelhanças e analogia, traços de ameaças no diverso das situações de experiências. Estes traços de ameaça poderiam fazer com que o complexo fosse constelado, intensificando-o cada vez mais. A crise se instalaria quando o complexo fosse constelado a maior parte do tempo ou dominasse de tal forma que o sujeito não pudesse ver, viver ou interpretar os eventos de outra maneira do que aquela. Assim doente não seria o fato do período ser distinto de outros que o sujeito vive habitualmente, mas da intensidade com que o funcionamento habitual &#8220;saudável&#8221; passou a tomar conta da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As&nbsp;explicações neurocientíficas&nbsp;(TAVARES, et al., 2014), não contradizem está perspectiva, pois acabam indicando que as experiências vividas intensamente que são interpretadas como boas ou más (interpretações que seriam efeito de complexo num padrão arquetípico) e que afetam o sujeito, produzem marcas descritas como alterações hormonais (cortisol, etc.) e/ou estruturais nos circuitos cerebrais (circuitos associativos) tonando-se a &#8220;cascata&#8221; para o desenvolvimento do Transtorno Bipolar. Isto não exclui, pelo contrario reforça a ideia de que a prevalência de um padrão arquetípico que se estabelecesse historicamente e se mantivesse nas relações sociais, familiares etc. poderia agir como elemento organizador que daria base para a organização do complexo que interpreta os eventos como bons ou maus e produz como efeito o afeto que marca o caminho onde a energia circulará com mais facilidade e rapidez.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Haveria uma perspectiva (complexo) que avalia, compara padrões e considera que havia um humor que era normal e o outro é avaliado como errado ou anormal, entretanto isto é realizado mais pelo observador externo do que pelo sujeito que vive o humor e usando os critérios coletivos dominantes na sociedade no momento. Como poderia ser avaliado como humor &#8220;anormal&#8221; o período anterior à crise quando as características hegemonicamente dominantes ligadas à saúde são autoestima elevada, aumento de atividade dirigida a objetos, valorização da atividade. Pode-se perceber mais claramente que estes valores são dominantes pois eles aparecem ameaçados na categoria episódio depressivo do CID X (&#8220;Em episódios depressivos típicos, (&#8230;) o indivíduo usual­mente sofre de humor deprimido, perda de interesse e prazer e energia reduzida levando a uma fatigabilidade aumentada e atividade diminuída. Cansaço marcante após esforços apenas leves é comum (&#8230;)&#8221; (CID-10 OMS, 1993, p.117); No artigo reimaginado o episódio depressivo&nbsp;foi apontado que o episódio depressivo poderia ser reimaginado como a dominação unilateral, em cisão e embate, onde os elementos normativos mais valorizados, coletivamente e nos sujeitos em crise, seriam: prazer, energia, concentração, atenção, autoestima, autoconfiança, utilidade, não se sentir culpado, visões otimistas de futuro, ideias de auto-conservação, sono sem perturbações e um apetite estável, pois estes aparecem como os mais ameaçados pelos sintomas descritos no episódio depressivo no CID X. Eles seriam a expressão de valores intensificados num mundo do consumo que conduziria a um imperativo que diz apenas um puro: &#8220;não ceda em seu desejo&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Coloca-se uma questão:&nbsp;Se há o domínio do mesmo conjunto de valores na configuração do Transtorno Bipolar (episódios de mania ou hipomania) e no episódio depressivo, como compreender as diferenças sintomáticas?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma hipótese é que no episódio depressivo os aspectos suprimidos na dissociação (sintomas) ou o &#8220;inimigo&#8221; a ser combatido é localizado no que é visto como propriedades identitárias do complexo do ego. Como se todas as emoções, sentimentos, pensamentos etc, fossem propriedades particulares do complexo do ego. Numa leitura histórica Jung indica que as funções parciais (complexos) foram em grande parte postas a serviço do Eu (vontade do homem) levando a uma dissociação entre uma autoconsciência e um inimigo invisível. Isto poderia fazer &#8220;sucumbir a uma vontade tirânica de um governo interior que apresenta traços de uma supra-humanidade demoníaca&#8221; (JUNG, 1978, p.57). Decorre disto os ataques serem dirigidos ao ego. Quanto mais identificado, mais ataque, até a fantasia de destruição do corpo como forma de destruir o complexo do ego. Por isso Hillman pode dizer que &#8220;à medida que a individualidade cresce, cresce também a possibilidade do suicídio. &#8221; (HILLMAN, 2009, p.75). Ou seja, se o inimigo a ser combatido é localizado entre os atributos identificados com o ego, ele será alvo do ataque e os sintomas serão compatíveis com o que é descrito no episódio depressivo. Falando de outra maneira, Freud, em Luto e melancolia, (FREUD, 2006) apontava como uma parte do ego se coloca contra outra, julga-a criticamente; numa constelação mental de revolta. Se um amor pelo objeto (perdido) não pode ser renunciado, o ódio entra em ação nesse objeto substitutivo (ego), dele abusando, degradando-o, fazendo-o sofrer e tirando satisfação sádica de seu sofrimento. Uma parte que se coloca contra a outra pode ser lida como um complexo que se coloca contra outro?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diferente disto no Transtorno Bipolar o inimigo estaria localizado exteriormente ao complexo do ego. Os elementos coletiva/individualmente mais valorados dominaram o complexo do ego; o combate se daria contra tudo que ameace os planos ou as ações orientadas desta forma. Por isso não se perceberia sofrimento em ser obrigado a ter que ter autoestima elevada, mas sofrimento em qualquer sinal de algo que pudesse&nbsp;reduzir a auto-estima&nbsp;ou a redução da estima que o complexo do ego usurpou dos outros complexos como quando a estima ou a atençao fosse dirigida para outro; não se sentiria sofrimento por ter que ficar acordado, mas o ego ficaria irritado ou&nbsp;bravo por ter sono e não poder continuar em ação. O complexo do ego pode não sentir como sofrimento ser obrigado a não parar de falar ou pensar, mas pode viver como&nbsp;sofrimento ter a fala ou os pensamentos interrompidas; pode não viver a distratibilidade como problema, mas pode&nbsp;sofrer ao ter que se concentrar&nbsp;em um objeto externo apenas; pode não sofrer por se sentir obrigado a envolver-se excessivamente em atividades, mas pode&nbsp;sentir-se mal ao se deparar com qualquer coisa que reduza as atividades. Subliminarmente pode-se depreender um sofrimento no que interrompe o padrão dominante e não em ser imperativamente conduzido pelo mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sendo assim, a direção ou conteúdo do humor num episódio maníaco ou hipomaníaco não seria distinto do &#8220;normal&#8221;, a crise se diferenciaria pela intensidade e pela impossibilidade de tomar distância do padrão valorado como normal por um complexo seguindo um padrão arquetípico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A psicopatologia Junguiana pode então apresentar-se como uma perspectiva em que a loucura aqui caracterizada pelo Transtorno Bipolar&nbsp;não aparece separada do psiquismo &#8220;normal&#8221; ou &#8220;saudável&#8221;. Mas surge justamente quando o sujeito não puder tomar distância do padrão coletivo, culturalmente valorizado como saudável &#8211;&nbsp;autoestima elevada, aumento de atividade dirigida a objetos, valorização da atividade&nbsp;(ligado à energia, autoconfiança, impor sua fala, suas ideias, convencer, utilidade, ritmo de trabalho, produção, consumo intensos, atividades sociais prazerosas, otimismo, atividade física etc.). Se este padrão coletivo internalizado dominar a forma de viver de um sujeito de maneira insuperável e unilateralmente, entrando em cisão em conflito com a vida em sua diversidade é que a crise se instalará. Nesta situação cada traço de redução de autoestima, cada necessidade de interrupção das atividades de pensamentos, falas, consumo, trabalho ou ações etc. será vivido como ameaça, mesmo que a consciência se dê conta ou não. O padrão que julga como algo errado aciona automaticamente todos os mecanismos de defesa internalizados para se defender da catástrofe. A crise seria o efeito da cisão e combate.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A doença depende do quanto o vivente está absorvido pelo meio (no caso normas ou valores sociais, coletivos internalizados), afinal &#8220;o que caracteriza a saúde é a possibilidade de ultrapassar a norma que define o normal momentâneo, a possibilidade de tolerar infrações à norma habitual e de instituir normas novas em situações novas. &#8221; (CANGUILHEM, 2000, p.160). Se &#8220;o doente é doente por só poder admitir uma norma.&#8221; (CANGUILHEM, 2000, p.149), quanto maior a dissociação e mais o sujeito viver imperativa a norma e a expectativa de cumprir exigências para com os elementos com maior valor coletivo na sociedade como autoestima, atividade dirigida a objetos, valorização da atividade etc. mais dominado estará e, portanto, mais em crise.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A teoria da progressão e regressão da libido (energia psíquica) descrito na narrativa Junguiana (JUNG 2013, §60 a 76) pode fazer refletir que, se por um lado a cisão, dissociação e unilateralidade dominante em embate configuram o suprimido que surge como sintoma, a regressão da energia psíquica faria com que aumentasse o valor dos conteúdos excluídos no processo, ou seja, os elementos inconscientes adquiririam maior influência (assombrariam), ultrapassariam o limiar e exerceriam maior força sobre a consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entretanto, se for possível ultrapassar julgamentos fundados no senso comum, em preconceitos ou aparências superficiais, pode-se vislumbrar nos conteúdos suprimidos que retornam intensificados pelo processo de regressão, não só restos incompatíveis e por isso rejeitados da vida cotidiana ou tendência condenáveis do homem animalesco, mas também &#8220;(&#8230;) os germes de novas possibilidade de vida (&#8230;) possibilidade de uma renovação existencial&#8221; (JUNG 2013, §63).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que as crises de mania ou hipomania proprocinaria a um sujeito e ao coletivo é oportunidade de poder viver outras interpretações dos eventos no mundo seguindo padrões diversos. A redução da auto-estima pode ser a chance (individual e coletiva) de tomar distância da norma imperativa da auto-identidade e poder ter estima por outros (internos e externos) ou pelos diferentes; poder ter a vivência de depor todo desejo de auto-identidade e não temer se perder, pois reconhecendo o profundamente heterogêneo como parte fundamental do que se é deixaria de ser visto como temerário. Cada crise seria a chance de recuperar valores de uma forma de soberania diferente (como fala Georges Bataille&nbsp;（BATAILLE，2013）&nbsp;ligada capacidade de depor toda vontade de domínio, todo projeto, porque teria a segurança de que nenhuma vontade de domínio vinda do outro poderá lhe submeter. Oportunidade de poder não querer mais controlar as coisas através da sua submissão à utilidade delas para si, que normalmente é o seu proprietário, nem controlar o tempo através da submissão do presente ao futuro que o complexo do eu projeta. Cada necessidade de interrupção das atividades de pensamentos, falas, consumo, trabalho etc, que são ações vividas como sofrimento durante a crise, podem abrir experiências de campos privilegiados de atividade improdutiva, de excesso e de dispêndio como o que acontece nos enterros, cultos, construções de monumentos santuários, os jogos, os espetáculos, as artes que teriam em si mesmas seu fim. Os limites vividos como sofrimento devido ao excesso de identificação com a autoestima elevada, aumento de atividade dirigida a objetos, valorização da atividade (ligado à energia, autoconfiança, impor sua fala, suas ideias, convencer, utilidade, ritmo de trabalho, produção, consumo intensos, atividades sociais prazerosas, otimismo, atividade física etc.) poderia adquirir outros sentidos e re-significar toda a capacidade de medir, o colapso de toda medida por usar outra lógica que não a dos objetos mensuráveis. Assim podendo ter a estima dirigida a outros, interromper as ações, ter sono, interromper as falas e pensamentos, concentrar-se e reduzir as atividades etc. sem que isto fosse vivido como uma perda, ameaça ou catastrofe contra a qual todos os sistemas de defesa seriam automaticamente acionados. E assim cada traço de redução de autoestima vivido como ameaça pode ser a oportunidade de tomar distância da norma (coletiva e &#8220;saudável&#8221;), e poder viver normas novas, outros padrões que dessem outros sentidos para cada uma destas experiências.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os exemplos inspirados em textos de Georges Bataille ilustram uma perspectiva que toma distância da forma homem moldada da sociedade do trabalho, do consumo e da lógica utilitária.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A escritora Clarice Lispector pode ajudar na superação deste padrão dominante valorizando o momento da desistência:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;A insistência é o nosso esforço, a desistência é o prêmio. A este só se chega quando se experimentou o poder de construir, e, apesar do gosto de poder, prefere-se a desistência. A desistência tem que ser uma escolha. Desistir é a escolha mais sagrada de uma vida. Desistir é o verdadeiro instante humano. E só esta, é a glória própria de minha condição. A desistência é uma revelação. &#8220;</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Lispector, 1964)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Professor Ajax Perez Salvador</p>



<p class="wp-block-paragraph">Psiquiatra, Membro Didáta do IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Referências</p>



<p class="wp-block-paragraph">BATAILLE, Georges&nbsp;O erotismo．Belo Horizonte，Autêntica，2013．</p>



<p class="wp-block-paragraph">Canguilhem, Georges.&nbsp;O normal e o patológico. Rio de Janeiro: Forense, 2000.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CID-10 OMS.&nbsp;Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento- Organização Mundial da Saúde. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.</p>



<p class="wp-block-paragraph">DSM V &#8211; APA.&nbsp;Manual Diagnóstico Estatístico de Transtornos Mentais da American Psychiatric Association.&nbsp;5ª. Porto Alegre: Artes Médicas, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Freud, Sigmund&nbsp;Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud．Rio de Janeiro，Imago,2006．</p>



<p class="wp-block-paragraph">HILLMAN, James.&nbsp;&nbsp;Re-vendo a psicologia.&nbsp;Petropólis: Editora Vozes Ltda, 2010.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211;&nbsp;Suícidio e Alma．Petrópolis，Vozes，2009．</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;Energia Psíquica．Petrópolis，Vozes，2013，Vol. 8/1．</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211;&nbsp;La psicologia de la transferencia．Buenos Aires，Editorial Paidos，1978．</p>



<p class="wp-block-paragraph">-Psicogênese das doenças mentais. Vol. III. Petrópolis: Vozes, 1999.</p>



<p class="wp-block-paragraph">KAPCZINSKI, Flávio e QUEVEDO, João.&nbsp;Transtorno Bipolar: teoria e clínica. 2ª. Porto Alegre: Artmed, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">LISPECTOR,Clarice&nbsp;A Paixão segundo G.H.Rio de Janeiro，Editora Rocco，1964</p>



<p class="wp-block-paragraph">LIMA, Maurício Silva de, et al. &#8220;Epidemiologia do transtorno bipolar.&#8221; Rev.Psiq.Clín 2005, 32 ed.:15-20.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MARCHI,&nbsp;Renato.&nbsp;Escala Clínica para prever adesão ao tratamento: transtorno Bipolar do humor. Tese de Doutorado. Campinas, 2008. 27 de 03 de 2016.&nbsp;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NIMH, USA. &#8220;Bipolar Disorder Among Adults &#8211; National Institute of Mental Health.&#8221; 2016.&nbsp;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SALVADOR,&nbsp;Ajax Perez.&nbsp;PSICOPATOLOGIA AFETO E SISTEMA DE VALORES.&nbsp;Edição: Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa &#8211; IJEP. São Paulo, SP, 17 de 10 de 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-PSICOPATOLOGIA AFETO E SISTEMA DE VALORES II.&nbsp;Edição: Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa &#8211; IJEP. São Paulo, SP, 21 de 11 de 2016. http://www.ijep.com.br/index.php?sec=artigos&amp;id=276&amp;ref=reimaginando-episodio-depressivo&#8212;psicopatologia-afeto-e-sistema-de-valores-ii-#conteudo</p>



<p class="wp-block-paragraph">TAVARES, Naraiana de Oliveira, Fernando da Silva NEVES e Leandro Fernandes MALLOY-DINIZ. &#8220;Modelo de Endofenótipo do Transtorno Bipolar: Análise qualitativa, fatores etiológicos e âmbitos de investigação abordados.&#8221; Rev. Esc. Enferm. USP 2014: 212-212.</p>
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