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	<title>Arquivos ouvir com o coração - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos ouvir com o coração - Blog IJEP</title>
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		<title>A Travessia do Terapeuta: Entre o Silêncio e o Sol </title>
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		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 Jul 2026 18:35:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Aprender a ouvir — mas não com os ouvidos que filtram, classificam e arquivam. Ouvir com aquele órgão que não tem nome nos manuais, mas que os antigos chamavam de kardia, o coração-pensante. O terapeuta que ouve de verdade não está buscando o que encaixar no DSM-V ou CID; está buscando o que emerge entre as palavras, no intervalo, no suspiro que antecede a confissão, no silêncio que grita. </p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Aprender a ouvir — mas não com os ouvidos que filtram, classificam e arquivam. Ouvir com aquele órgão que não tem nome nos manuais, mas que os antigos chamavam de <em>kardia</em>, o coração-pensante. O terapeuta que ouve de verdade não está buscando o que encaixar no DSM-V&nbsp;ou CID; está buscando o que emerge entre as palavras, no intervalo, no suspiro que antecede a confissão, no silêncio que grita.&nbsp;</p>



<h2 id="h-aprender-a-ficar-calado-e-aqui-esta-talvez-a-arte-mais-dificil-nbsp-nbsp" class="wp-block-heading"><strong>Aprender a ficar calado</strong> — e aqui está talvez a arte mais difícil.&nbsp;&nbsp;</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O silêncio terapêutico não é ausência; é presença radical. É o terapeuta que, ao calar, diz: <em>&#8220;Eu suporto ficar aqui, no desconhecido, contigo. Não vou preencher o vazio com uma interpretação prematura só para me sentir útil.&#8221;</em> Jung sabia disso&nbsp;ao&nbsp;insistir&nbsp;que o terapeuta precisa aprender a <strong>sustentar a tensão entre os opostos</strong> sem correr para a solução. É o que ele chamou de <em>função transcendente</em> — aquela terceira via que só nasce quando se aguenta o paradoxo tempo suficiente para que a psique, espontaneamente, produza um símbolo que reconcilie.&nbsp;</p>



<h3 id="h-sustentar-a-duvida-nbsp-a-sua-e-a-do-cliente-nbsp" class="wp-block-heading"><strong>Sustentar a dúvida</strong>&nbsp;— a sua e a do cliente.&nbsp;</h3>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A dúvida não é inimiga. É a guarda da porta. Quem não duvida de si mesmo como terapeuta não viu ainda a própria sombra profissional — aquela parte que precisa do cliente doente para se sentir sã, que precisa do outro em fragmentos para se sentir inteira.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Sustentar a dúvida é ficar de pé na beira do abismo sem o paraquedas de uma técnica infalível. É olhar para o cliente e pensar: <em>&#8220;Não sei. E nesse não-saber habita uma possibilidade que toda certeza mataria.&#8221;</em>&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Aquele que afirma saber é o mais perigoso dos pacientes — e o mais perigoso dos terapeutas.&nbsp;Parafraseando&nbsp;Jung&nbsp;&nbsp;é&nbsp;passar&nbsp;a vida aprendendo a não saber.&nbsp;</p>



<h3 id="h-confortar-acolher-e-confrontar-nbsp" class="wp-block-heading"><strong>Confortar, acolher — e confrontar.</strong>&nbsp;</h3>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O acolhimento sem confronto é complacência. O confronto sem acolhimento é violência. A arte terapêutica vive nesse fio: <strong>ser o ventre e a espada ao mesmo tempo</strong>.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Acolher é deixar que o outro entre no seu campo psíquico sem&nbsp;defensa, sem correção, sem &#8220;isso não é bem assim&#8221;. É a empatia que&nbsp;Jung descrevem — não como técnica, mas como disposição existencial.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Confrontar, porém, é olhar o cliente nos olhos quando ele diz &#8220;eu sou assim e não muda&#8221; e responder, com firmeza amorosa: <em>&#8220;Você pode estar se escondendo atrás de uma identidade que já não serve.&#8221;</em> O confronto junguiano não é agressão; é o ato de refletir a sombra do outro com tanta clareza que ele não consegue mais desviar o olhar.&nbsp;</p>



<h3 id="h-confiar-no-self-a-certeza-paradoxal-nbsp" class="wp-block-heading"><strong>Confiar no Self — a certeza paradoxal.</strong>&nbsp;</h3>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E aqui chegamos ao coração&nbsp;doa análise junguiana: <strong>a certeza de que existe um propósito prospectivo</strong>, mesmo quando tudo está ruim e sem sentido.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O Self, em Jung, não é um conceito abstrato. É a totalidade reguladora da psique — aquele centro que opera com uma teleologia própria, arrastando a pessoa para a individuação mesmo pelos caminhos mais dolorosos. A depressão, a crise, o sintoma psicossomático — todos podem ser vistos como <strong>movimentos do Self</strong> tentando reorganizar a psique num novo patamar de integração.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O terapeuta que confia no Self não precisa salvar ninguém. Ele confia que o processo tem uma inteligência intrínseca — como o corpo que sabe curar um corte, a psique sabe curar uma ferida&nbsp;ao&nbsp;simboliza-la, desde que sejam dadas as condições. E qual é a condição principal? <strong>A presença de alguém que já atravessou o próprio inferno e voltou para contar — não com palavras, mas com o corpo inteiro.</strong>&nbsp;</p>



<h3 id="h-a-pergunta-que-corta-e-se-o-terapeuta-nao-viveu-isso-nbsp" class="wp-block-heading"><strong>A pergunta que corta: </strong><strong><em>E se o terapeuta não viveu isso?</em></strong>&nbsp;</h3>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se o terapeuta não teve essa vivência, como vai conseguir sustentar a travessia sombria do outro?&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung foi incisivo sobre isso&nbsp;ao explicitar várias&nbsp;vezes&nbsp;&nbsp;que <strong>o terapeuta só pode ajudar o cliente até onde ele mesmo foi em sua própria análise</strong>. Não é teoria que se aprende em seminário. É cicatriz que se carrega no corpo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A ferida do terapeuta — o arquétipo de <strong>Quíron</strong>, o centauro ferido que não consegue curar a&nbsp;si mesmo&nbsp;mas cura os outros — não é um defeito a ser escondido. É a própria condição de possibilidade da cura.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Mas,&nbsp;quando o terapeuta <strong>não fez a travessia</strong>, quando não desceu à própria catacumba psíquica e não olhou a própria sombra nos olhos, o que resta?&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resta o título.</strong> Restam os diplomas na parede como escudos contra o vazio interior. Restam os <strong>remédios</strong> como anestesia do que não se ousa sentir. Restam os <strong>esquemas fechados de diagnóstico</strong> como mapas de um território que nunca foi pisado — porque é mais seguro ter um mapa do que caminhar sem um, mesmo que o mapa descreva uma terra que não existe. Restam as <strong>certezas</strong> — aquelas certezas rígidas,&nbsp;cristalizadas,&nbsp;&nbsp;a&nbsp;persona&nbsp;profissional: a máscara do saber que cobre o terror do não-saber.&nbsp;</p>



<h3 id="h-a-ironia-da-certeza-nbsp" class="wp-block-heading"><strong>A ironia da certeza.</strong>&nbsp;</h3>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O paradoxo é delicioso e trágico: <strong>quem mais precisa de certezas é quem menos confiou na própria incerteza.</strong> O terapeuta que vivenciou a travessia sabe que o caos é fértil, que a escuridão tem luz própria, que o Self trabalha de madrugada, quando o ego dorme. Esse terapeuta pode sustentar o cliente no nada — porque já esteve no nada e descobriu que o nada paria algo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Já o terapeuta que não viveu isso precisa preencher cada silêncio com uma técnica, cada crise com uma medicação, cada grito com um diagnóstico. Ele não suporta o caos do outro porque nunca suportou o próprio. E, no fundo, <strong>tem medo do que emergiria se parasse de fazer e começasse a ser.</strong>&nbsp;</p>



<h3 id="h-o-que-se-pede-entao-nbsp" class="wp-block-heading"><strong>O que se pede, então?</strong>&nbsp;</h3>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Não se pede perfeição. Se pede <strong>veracidade&nbsp;e integridade</strong>. Que o terapeuta tenha mergulhado na própria água escura o suficiente para saber o gosto do afogamento — e o sabor do ar que volta. Que carregue suas cicatrizes como credenciais vivas, não como vergonhas escondidas. Que, ao&nbsp;sentar&nbsp;diante do cliente, não ofereça um manual, mas uma presença — essa presença que só existe porque alguém já esteve no inferno e decidiu, por solidariedade cósmica, voltar para segurar a mão de quem ainda desce.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Como escreveu Jung numa passagem que ecoa através das décadas:&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>&#8220;O encontro de duas personalidades é como o contato de duas substâncias químicas: se houver alguma reação, ambas são transformadas.&#8221;</em>&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O terapeuta que já foi transformado pelo próprio fogo não teme ser transformado de novo pelo fogo do cliente. O que não foi&#8230; agarra-se ao título como quem se agarra à borda de um barco que nunca ousou zarpar.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><em>E talvez a maior generosidade que um terapeuta possa oferecer não seja uma interpretação brilhante, nem um diagnóstico preciso, mas este silêncio honesto: &#8220;Eu também estive perdido. E estou aqui, ainda caminhando, ao seu lado.&#8221;</em> </strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Que esta ampliação sirva como eco e espelho para nos dar absoluta certeza de que uma graduação em psicologia ou em medicina jamais irá capacitar um verdadeiro analista junguiano que é o&nbsp;jardineiro&nbsp;da alma!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; IJEP</a></strong></p>



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<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-travessia-do-terapeuta-entre-o-silencio-e-o-sol/">A Travessia do Terapeuta: Entre o Silêncio e o Sol </a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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