<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Arquivos pais e filhos - Blog IJEP</title>
	<atom:link href="https://blog.ijep.com.br/tag/pais-e-filhos/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://blog.ijep.com.br/tag/pais-e-filhos/</link>
	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Mon, 12 Oct 2026 15:52:38 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=7.1.3</generator>

<image>
	<url>https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/03/cropped-logo-ijep-32x32.png</url>
	<title>Arquivos pais e filhos - Blog IJEP</title>
	<link>https://blog.ijep.com.br/tag/pais-e-filhos/</link>
	<width>32</width>
	<height>32</height>
</image> 
	<item>
		<title>A Herança Invisível na Educação dos Nossos Filhos</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-heranca-invisivel-na-educacao-dos-nossos-filhos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luiza de Oliveira Burger]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 10 Sep 2026 12:39:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[Maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[Parentalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[complexos]]></category>
		<category><![CDATA[crianças]]></category>
		<category><![CDATA[desenvolvimento infantil]]></category>
		<category><![CDATA[dinâmica familiar]]></category>
		<category><![CDATA[educação]]></category>
		<category><![CDATA[educação positiva]]></category>
		<category><![CDATA[educação respeitosa]]></category>
		<category><![CDATA[família]]></category>
		<category><![CDATA[gerações]]></category>
		<category><![CDATA[herança educacional]]></category>
		<category><![CDATA[herança geracional]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[padrões familiares]]></category>
		<category><![CDATA[pais e filhos]]></category>
		<category><![CDATA[parentalidade]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=13820</guid>

					<description><![CDATA[<p>Este artigo discute a dificuldade de romper padrões familiares na parentalidade, mesmo quando existe o desejo consciente de educar os filhos de forma diferente daquela vivenciada na própria infância. As experiências emocionais não elaboradas, e até mesmo as elaboradas, podem influenciar reações automáticas e a repetição de comportamentos herdados. Utilizando o mito grego de Urano, Cronos e Zeus como metáfora da transmissão transgeracional de padrões, o texto reflete sobre os desafios de transformar a própria história familiar.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-heranca-invisivel-na-educacao-dos-nossos-filhos/">A Herança Invisível na Educação dos Nossos Filhos</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo:</strong> Este artigo discute a dificuldade de romper padrões familiares na parentalidade, mesmo quando existe o desejo consciente de educar os filhos de forma diferente daquela vivenciada na própria infância. As experiências emocionais não elaboradas, e até mesmo as elaboradas, podem influenciar reações automáticas e a repetição de comportamentos herdados. Utilizando o mito grego de Urano, Cronos e Zeus como metáfora da transmissão transgeracional de padrões, o texto reflete sobre os desafios de transformar a própria história familiar.</p>



<h2 id="h-voce-ja-se-pegou-reproduzindo-com-seus-filhos-a-mesma-dinamica-que-voce-tinha-com-os-seus-pais-mesmo-que-elas-tenham-te-trazido-algum-tipo-de-sofrimento-e-que-voce-tenha-jurado-aos-quatro-ventos-que-na-sua-vez-faria-diferente" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Você já se pegou reproduzindo com seus filhos a mesma dinâmica que você tinha com os seus pais, mesmo que elas tenham te trazido algum tipo de sofrimento e que você tenha jurado aos quatro ventos que na sua vez faria diferente?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A geração de pais das últimas décadas carrega um paradoxo: ao mesmo tempo em que deseja educar os filhos de forma diferente daquela que vivenciou, frequentemente se vê reproduzindo padrões que acreditava ter deixado para trás. Há um esforço genuíno para romper ciclos familiares, mas não é raro surgir a sensação de estar correndo atrás do próprio rabo. Quanto mais se tenta evitar determinados comportamentos, mais eles aparecem, revelando a força das marcas deixadas pela própria história.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa mesma geração de pais que tem à disposição uma gama de informações sobre educação e parentalidade, muitas vezes à um clique, tem que conviver com a angústia da distância entre a teoria e prática.</p>



<h2 id="h-mas-por-que-sera-que-isso-acontece-a-tarefa-de-romper-com-nossos-padroes-familiares-e-ardua-principalmente-quando-elas-tocam-em-nossos-complexos" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Mas por que será que isso acontece? A tarefa de romper com nossos padrões familiares é árdua, principalmente quando elas tocam em nossos complexos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Para Jung os complexos são conteúdos carregados de afeto com um ou mais núcleos arquetípicos</strong>. Ou seja, a temática dos complexos é universal, mas a forma como experimentamos esses mesmos temas em nossas vidas faz com que nossa relação com eles seja positiva ou negativa;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph"><em>Ao estudar os fenômenos da associação, indiquei que existem certos agrupamentos de elementos psíquicos em torno de conteúdos emocionais, que denominamos complexos. O conteúdo emocional, ou complexo, é constituído de um elemento nuclear e de uma grande quantidade de associações consteladas secundariamente. O elemento nuclear consta de dois componentes: em primeiro lugar, de uma condição, determinada pela experiência, portanto, de um fato vivido, causalmente vinculado ao ambiente e, em segundo lugar, de uma condição imanente de caráter individual de natureza disposicional (JUNG, 2013a, p.21).</em><em></em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">É muito comum falarmos que uma determinada situação que vivenciamos nos gerou algum gatilho emocional. Isso quer dizer que um acontecimento atual nos remeteu à uma situação antiga, mas que ainda têm o poder de nos provocar, ainda que muito tempo depois, algum tipo de desconforto.</p>



<h2 id="h-para-jung-um-complexo-afetivo-e-uma-imagem-de-uma-determinada-situacao-psiquica-de-forte-carga-emocional-e-alem-disso-incompativel-com-as-disposicoes-ou-atitude-habitual-da-consciencia-jung-2013b-p-43" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Para Jung, “um complexo afetivo é uma imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência”. (JUNG, 2013b, p.43).</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Todo esse processo ocorre de forma inconsciente e gera reações imediatas, quase que automáticas, que fogem do nosso padrão de comportamento e que temos dificuldade de justificar depois. Quando isso ocorre, dizemos que o indivíduo foi tomado pelo complexo.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph"><em>O complexo é um fator psíquico que, em termos de energia, possui um valor que supera, às vezes, os de nossas intenções conscientes&#8230; De fato, um complexo ativo nos coloca por algum tempo num estado de não liberdade, de pensamentos obsessivos e ações compulsivas para os quais, sob certas circunstâncias, o conceito jurídico de imputabilidade limitada seria o único válido. (JUNG, 2013b, p.43).</em><em></em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Para ilustrar como um complexo paterno negativo pode atuar influenciando na reprodução de padrões familiares, nesse estado de “não liberdade” das nossas própria ações e pensamentos, podemos pegar um exemplo da mitologia grega que envolve a história de três pais: Urano, Cronos e Zeus.</p>



<h2 id="h-complexo-paterno-negativo" class="wp-block-heading"><strong>Complexo paterno negativo</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo conta o mito, Urano, temendo que seus filhos fossem uma ameaça ao seu poder, mantinha-os aprisionados no ventre da mãe, Gaia. Um dia, descontente com essa situação, Gaia tenta convencer seus filhos a enfrentarem o pai. Apenas Cronos, o mais novo dos titãs, aceita. Ele ataca o pai com uma foice e o castra. Depois disso, Urano perde o poder, se afasta de Gaia e dos filhos, e Cronos passou a governar em seu lugar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cronos herda do pai&nbsp;o medo de ser destronado por um de seus filhos. Acreditando numa profecia, toda vez que sua esposa,&nbsp;Reia, dava à luz, Cronos engolia o bebê. Ele fez isso com&nbsp;Héstia,&nbsp;Deméter,&nbsp;Hera,&nbsp;Hades&nbsp;e&nbsp;Poseidon.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando nasce&nbsp;Zeus, Reia decide salvá-lo. Esconde o bebê e entrega à Cronos uma pedra enrolada em panos, que ele engole pensando ser o filho. Depois de adulto, Zeus obriga Cronos a vomitar os irmãos e lidera uma guerra contra ele, o derrotando e assumindo o poder do Olimpo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Zeus, por sua vez, engole a primeira esposa, Métis, ainda grávida, também por causa de uma profecia que dizia que seu segundo filho seria mais poderoso que ele. Métis era considerada umas das divindades mais sábias que existiam e continuou viva dentro de Zeus mesmo depois de ser engolida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Zeus ainda age movido pelo medo de perder o poder, mas o mito sugere uma mudança importante, o padrão não é apenas repetido, é parcialmente transformado. Ao engolir Métis, ele incorpora a própria sabedoria. Dela, nasce Atena, que emerge de sua cabeça, símbolo de uma consciência que começa a integrar aquilo que antes era apenas reprimido.</p>



<h2 id="h-da-mitologia-a-parentalidade" class="wp-block-heading"><strong>Da mitologia à parentalidade</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Esse mito nos mostra como é difícil mudar o que está sendo sustentado há tantas gerações. Na realidade de muitas famílias, a repetição de padrões pode aparecer na forma de violência física e psicológica, autoritarismo, abandono, controle excessivo, dificuldade em expressar afeto, e por aí vai. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">E quando esse mesmo padrão reacende nossas feridas, o desafio é ainda maior. E nessa hora não existe livro, educador, influencer, pedagogia ou educação positiva que dê conta disso. Porque a nossa história familiar impacta diretamente na forma como vamos educar nossos filhos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando lidamos com nossos filhos estamos de alguma forma dando conta da criança que fomos um dia e revivendo, em muitos momentos, experiências pelas quais passamos na nossa infância. Pensando dessa forma, os filhos podem ser um gatilho e tanto para aqueles complexos que poderiam estar adormecidos, mas que irrompem tão logo alguém coloque o dedo naquela ferida ainda aberta. Muitas vezes não reagimos ao filho que está diante de nós, mas ao filho que fomos.</p>



<h2 id="h-talvez-o-primeiro-passo-seja-a-consciencia-ter-consciencia-dos-padroes-que-repetimos-e-que-vem-das-nossas-familias-de-origem" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Talvez o primeiro passo seja a consciência. Ter consciência dos padrões que repetimos e que vêm das nossas famílias de origem.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Ter consciência dos nossos complexos é saber onde o nosso calo aperta e que não vamos apagar a nossa história, mas podemos ressignificá-la de forma que, quem sabe, percam sua potência para não passarmos os mesmos padrões adiante.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>No entanto, o que acontece em grande parte dos casos é repetirmos a mesma dinâmica de forma inconsciente</strong>. Ou que a necessidade de fazer diferente dos nossos pais e negar nosso modelo familiar de origem nos leve para outro polo, o da idealização da paternidade e da maternidade. “Eu abomino tanto a dinâmica estabelecida na minha família que vou para o caminho oposto, em vez de tentar encontrar um caminho do meio”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem teve pais autoritários, por exemplo, pode se tornar igualmente autoritário, por repetição, mas também pode se tornar excessivamente permissivo, como compensação. À primeira vista parecem opostos, mas ambos continuam organizados em torno da mesma ferida.</p>



<h2 id="h-a-abordagem-conhecida-como-educacao-positiva-talvez-tenha-nascido-dessa-vontade-de-encontrar-uma-terceira-via" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">A abordagem conhecida como “educação positiva”, talvez tenha nascido dessa vontade de encontrar uma terceira via.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ela prega a educação de crianças baseada em respeito mútuo, conexão emocional, limites firmes e desenvolvimento de habilidades socioemocionais, sem recorrer à violência física, humilhação ou punições excessivamente autoritárias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Embora práticas associadas à educação positiva tenham raízes na Psicologia Individual de <strong>Alfred Adler</strong>, no início do século XX, o conceito ganhou maior difusão a partir das décadas de 1980/1990, especialmente com os trabalhos de Jane Nelsen e o avanço das pesquisas em desenvolvimento infantil e parentalidade responsiva. E mais ainda com a chegada das redes sociais, onde é muito comum encontrar profissionais e até mesmo influencers que se dedicam a falar sobre o tema.</p>



<h2 id="h-a-educacao-positiva-seria-um-bom-caminho-se-nao-tivesse-sendo-interpretada-muitas-vezes-a-partir-dos-nossos-complexos-talvez-tomados-por-eles-estejamos-sendo-levados-a-entender-a-educacao-positiva-como-um-modelo-de-nao-frustracao-as-criancas" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><strong>A educação positiva seria um bom caminho, se não tivesse sendo interpretada muitas vezes a partir dos nossos complexos. Talvez, tomados por eles, estejamos sendo levados a entender a educação positiva como um modelo de não frustração às crianças.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O medo de que meu filho sofra como eu sofri faz com que eu evite ao máximo que ele se chateie, mesmo que isso signifique eliminar da vida dele todo e qualquer foco de sofrimento, inclusive aqueles que dizem respeito aos “nãos” que são necessários para a formação da sua personalidade. Com isso, vemos uma legião de crianças e adolescentes que não sabem lidar com suas frustrações e com a angústia de que nem tudo na vida acontece da forma como gostariam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muitos pais não estão apenas tentando educar os filhos. Estão tentando curar a própria infância, reparar a relação com seus pais, provar para si mesmos que são diferentes.&nbsp; O problema é que a criança real acaba ocupando o lugar de um projeto de reparação emocional. E que peso para essas crianças.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/luiza-de-oliveira-burger/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/luiza-de-oliveira-burger/"><strong>Luiza de Oliveira Burger – Membro Analista em formação</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/"><strong>Ana Paula Maluf – Analista Didata</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📃Artigo novo: &quot;A Herança Invisível na Educação dos Nossos Filhos&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/Ex0bLxDsLCs?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A Energia Psíquica. 14. ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ A Natureza da Psique. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega – volume I. Petrópolis: Vozes.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.ijep.com.br"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="369" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/09/banner-pos-graduacao-29.6.26-1-1024x369.png" alt="" class="wp-image-13831" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/09/banner-pos-graduacao-29.6.26-1-1024x369.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/09/banner-pos-graduacao-29.6.26-1-300x108.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/09/banner-pos-graduacao-29.6.26-1-150x54.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/09/banner-pos-graduacao-29.6.26-1-450x162.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/09/banner-pos-graduacao-29.6.26-1-1199x432.png 1199w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/09/banner-pos-graduacao-29.6.26-1.png 1280w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-heranca-invisivel-na-educacao-dos-nossos-filhos/">A Herança Invisível na Educação dos Nossos Filhos</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Arquétipo Paterno: Entre o Pai Ideal e o Pai Real</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/arquetipo-paterno-entre-o-pai-ideal-e-o-pai-real/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Keller Alves Villela Ocaña Bruno]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 06 Aug 2026 17:33:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[complexo paterno]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[Parentalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[arquétipo]]></category>
		<category><![CDATA[contos de fadas]]></category>
		<category><![CDATA[dia dos pais]]></category>
		<category><![CDATA[idealização]]></category>
		<category><![CDATA[jornada do herói]]></category>
		<category><![CDATA[mitos]]></category>
		<category><![CDATA[pai ideal]]></category>
		<category><![CDATA[pai real]]></category>
		<category><![CDATA[pais]]></category>
		<category><![CDATA[pais e filhos]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=13684</guid>

					<description><![CDATA[<p>O artigo aborda os desafios de exercer uma paternidade que se aproxime da realidade e não de uma idealização. Trazendo conceitos como arquétipo paterno e arquétipo materno e como a transição e o equilíbrio entre eles pode ajudar o indivíduo no seu desenvolvimento. Entendendo como ser um pai que também olha para o filho que foi um dia. Utilizando exemplos de mitos e contos de fadas o artigo ilustra essas dinâmicas e destaca que ser um “pai melhor” não é buscar um ideal, mas integrar a própria sombra, equilibrando disciplina e afeto, e aceitando a imperfeição, tornando-se uma presença autêntica e transformadora na vida dos filhos.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/arquetipo-paterno-entre-o-pai-ideal-e-o-pai-real/">Arquétipo Paterno: Entre o Pai Ideal e o Pai Real</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo</strong>: O artigo aborda os desafios de exercer uma paternidade que se aproxime da realidade e não de uma idealização. Trazendo conceitos como arquétipo paterno e arquétipo materno e como a transição e o equilíbrio entre eles pode ajudar o indivíduo no seu desenvolvimento. Entendendo como ser um pai que também olha para o filho que foi um dia. Utilizando exemplos de mitos e contos de fadas o artigo ilustra essas dinâmicas e destaca que ser um “pai melhor” não é buscar um ideal, mas integrar a própria sombra, equilibrando disciplina e afeto, e aceitando a imperfeição, tornando-se uma presença autêntica e transformadora na vida dos filhos.</p>



<h2 id="h-na-psicologia-analitica-de-carl-gustav-jung-os-arquetipos-sao-imagens-primordiais-que-emergem-do-inconsciente-coletivo-e-estruturam-a-experiencia-humana" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Na psicologia analítica de Carl Gustav Jung, os arquétipos são imagens primordiais que emergem do inconsciente coletivo e estruturam a experiência humana.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Entre eles, o arquétipo materno e o arquétipo paterno ocupam posição central, pois representam forças universais que moldam tanto o desenvolvimento psíquico quanto as narrativas simbólicas. Eles constituem dois polos fundamentais da experiência psíquica humana. E é importante ressaltar que eles não se reduzem às figuras concretas de pai e mãe, mas representam funções simbólicas universais que estruturam o desenvolvimento psicológico e aparecem de forma recorrente em mitos, contos de fadas e na jornada do herói.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O arquétipo materno, descrito por Jung como a “Grande Mãe”, traz nutrição, proteção e ligação com a natureza. Em sua face positiva, aparece como acolhimento e fertilidade; em sua sombra, como sufocamento e possessividade. Nos contos de fadas, essa ambivalência é dramatizada em fadas madrinhas e mães boas, mas também em madrastas cruéis e bruxas devoradoras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Autores como Erich Neumann, em <em>A Grande Mãe</em> (2006), aprofundaram essa visão, mostrando como o materno é tanto fonte de vida quanto de ameaça, dependendo da forma como é vivido. Neumann amplia a ideia de Jung ao afirmar que a Grande Mãe é um arquétipo que contém em si todas as polaridades: é a matriz da criação, mas também a devoradora; é a terra fértil que dá alimento, mas também o abismo que engole. Ele destaca que a experiência humana com o materno é sempre ambivalente, pois a mesma força que protege pode aprisionar, e a mesma energia que nutre pode sufocar. Essa duplicidade é fundamental para compreender o desenvolvimento psíquico, já que o indivíduo precisa aprender a se separar da fusão materna sem perder o vínculo com sua dimensão nutritiva e instintiva.</p>



<h2 id="h-na-jornada-do-heroi-neumann-mostra-que-o-materno-e-o-ponto-de-partida-o-heroi-inicia-sua-trajetoria-em-um-espaco-protegido-marcado-pela-fusao-com-o-materno-que-simboliza-acolhimento-nutricao-e-seguranca" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Na jornada do herói, Neumann mostra que o materno é o ponto de partida: o herói inicia sua trajetória em um espaço protegido, marcado pela fusão com o materno, que simboliza acolhimento, nutrição e segurança. </h2>



<p class="wp-block-paragraph">Esse ambiente inicial é essencial, pois fornece ao indivíduo a base instintiva e emocional necessária para enfrentar o mundo. Contudo, permanecer nesse estado de fusão significa não amadurecer: o herói precisa se separar da Grande Mãe para conquistar autonomia e identidade. Essa separação não é simples, porque o materno é ambivalente. Ele é ao mesmo tempo fonte de vida e ameaça, terra fértil e abismo devorador. O herói, ao sair do espaço materno, enfrenta a sombra da Grande Mãe — a bruxa, a madrasta, a deusa destruidora — que simboliza o perigo de regressão e aprisionamento. Esse confronto é necessário para que o herói não permaneça infantilizado, dependente de uma proteção que, se prolongada, se torna sufocante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A jornada, portanto, dramatiza o processo de individuação: o herói precisa romper com a fusão materna, atravessar o desafio da sombra e, ao final, integrar em si os aspectos positivos do materno — acolhimento, intuição, ligação com a vida — sem ser aprisionado por sua face negativa. Só assim ele pode avançar para o encontro com o arquétipo paterno, que introduz lei, ordem e transcendência, completando o ciclo de amadurecimento.</p>



<h2 id="h-nos-mitos-e-contos-de-fadas-essa-dinamica-aparece-de-forma-recorrente" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Nos mitos e contos de fadas, essa dinâmica aparece de forma recorrente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Perséfone, ao ser arrancada do convívio com Deméter, simboliza a separação dolorosa do materno e a necessidade de transitar entre mundos. Em <em>João e Maria</em>, a casa de doces representa o acolhimento ilusório da Grande Mãe, que se revela devoradora na figura da bruxa. Em <em>A Bela Adormecida</em>, o sono profundo é metáfora da regressão ao materno, da qual a heroína precisa despertar para viver sua própria individuação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O arquétipo paterno, representa lei, ordem e transcendência. Ele introduz limites, disciplina e abre o caminho para o mundo exterior, para a cultura e para o espírito, funcionando como uma força que conduz o indivíduo para fora da fusão materna e o lança em direção à autonomia. Sua face positiva aparece em reis justos, mentores sábios e pais protetores, figuras que oferecem direção e segurança sem sufocar a liberdade. Já sua sombra se manifesta em personagens autoritários, rígidos ou ausentes, que em vez de guiar acabam por aprisionar ou abandonar.</p>



<h2 id="h-marie-louise-von-franz-em-a-interpretacao-dos-contos-de-fadas-2008-mostra-como-a-ausencia-ou-distorcao-da-funcao-paterna-nos-contos-abre-espaco-para-o-caos-ou-para-a-tirania-materna" class="wp-block-heading" style="font-size:16px"><strong>Marie-Louise von Franz</strong>, em <em>A interpretação dos contos de fadas</em> (2008), mostra como a ausência ou distorção da função paterna nos contos abre espaço para o caos ou para a tirania materna.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando o pai não cumpre sua função simbólica de estabelecer limites e mediar a relação entre o filho e o mundo, o materno pode se tornar excessivo, sufocante ou destrutivo. Essa ausência paterna, tão recorrente nas narrativas míticas e nos contos de fadas, revela a importância da função do pai como mediador entre o lar e o mundo, entre a proteção e a aventura.</p>



<h2 id="h-joseph-campbell-em-o-heroi-de-mil-faces-2007-descreve-o-pai-como-guardiao-do-limiar-cuja-funcao-e-testar-o-heroi-e-permitir-sua-passagem-para-o-mundo-adulto" class="wp-block-heading" style="font-size:16px"><strong>Joseph Campbell</strong>, em <em>O herói de mil faces</em> (2007), descreve o pai como guardião do limiar, cuja função é testar o herói e permitir sua passagem para o mundo adulto.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O encontro com o pai, segundo Campbell, é um dos momentos decisivos da jornada: o herói precisa confrontar a autoridade, superar o medo e, muitas vezes, reconciliar-se com essa figura para alcançar maturidade. Esse guardião do limiar pode aparecer como um mestre benevolente que transmite sabedoria, ou como um adversário severo que desafia o herói a provar sua força. Em ambos os casos, o pai simboliza a transição necessária entre a infância e a vida adulta, entre a dependência e a autonomia.  </p>



<p class="wp-block-paragraph">Todo arquétipo possui uma face sombria. No caso do arquétipo paterno, ela se manifesta como autoritarismo, quando a lei se transforma em tirania; rigidez, quando as regras sufocam a espontaneidade; ou ausência, quando o pai não oferece presença emocional ou física. Também pode aparecer como projeção, quando o pai transfere suas frustrações para os filhos. Autores contemporâneos como James Hollis, em <em>Sob a sombra de Saturno</em> (1997), enfatizam que reconhecer e integrar a sombra é essencial para que o pai real se torne mais consciente e presente.</p>



<h2 id="h-nos-mitos-essas-forcas-aparecem-dramatizadas-em-deuses-e-deusas-que-expressam-tanto-a-luz-quanto-a-sombra-dos-arquetipos" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Nos mitos, essas forças aparecem dramatizadas em deuses e deusas que expressam tanto a luz quanto a sombra dos arquétipos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O arquétipo materno é representado por figuras como Gaia e Deméter na mitologia grega, que simbolizam fertilidade e nutrição, ou por Ísis no Egito, protetora e cuidadora. Sua face sombria surge em divindades como Kali na tradição hindu, que encarna destruição e renovação. O arquétipo paterno, por sua vez, aparece em Zeus, autoridade suprema da mitologia grega, em Odin, guia espiritual e guerreiro da mitologia nórdica, e nas tradições monoteístas como o Deus Pai, legislador e transcendente. Esses mitos revelam a complementaridade e o conflito entre as forças maternas e paternas, dramatizando a necessidade de equilíbrio entre acolhimento e lei, raiz e direção.</p>



<h2 id="h-no-plano-psicologico-o-pai-real-que-consegue-integrar-sua-sombra-e-equilibrar-disciplina-com-acolhimento-aproxima-se-dessa-funcao-simbolica-tornando-se-nao-apenas-autoridade-mas-guia-espiritual-e-humano" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">No plano psicológico, o pai real que consegue integrar sua sombra e equilibrar disciplina com acolhimento aproxima-se dessa função simbólica, tornando-se não apenas autoridade, mas guia espiritual e humano.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ser um pai melhor, portanto, não significa encarnar o ideal arquetípico, mas integrar a sombra e equilibrar as forças paternas e maternas dentro de si. Isso envolve autoconhecimento, para perceber padrões herdados da própria relação com o pai e evitar repeti-los de forma inconsciente; presença consciente, que valoriza a constância no cotidiano mais do que grandes gestos; diálogo e vulnerabilidade, mostrando aos filhos que o pai também erra e aprende, humanizando sua função; e equilíbrio com o materno, integrando acolhimento e escuta, não apenas disciplina e lei.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos contos e mitos, vemos como a ausência ou sombra de um dos arquétipos gera desequilíbrio: em <em>Branca de Neve</em>, o pai ausente abre espaço para a tirania da madrasta; em <em>Cinderela</em>, a sombra materna domina enquanto o pai passivo mostra fragilidade; em <em>Star Wars</em>, Luke enfrenta a sombra paterna em Darth Vader e encontra acolhimento materno simbólico na Força; em <em>Rei Leão</em>, Simba integra o legado paterno de Mufasa e supera a ausência materna para assumir sua identidade.</p>



<h2 id="h-no-arquetipo-paterno-temos-dois-polos-pai-e-filho-e-necessario-integrar-o-polo-filho-para-que-se-possa-realizar-uma-paternagem-satisfatoria-ou-seja-o-individuo-precisa-estar-bem-com-a-dimensao-ser-filho-para-conseguir-viver-o-ser-pai" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">No arquétipo paterno temos dois polos – Pai e Filho. É necessário integrar o polo “filho” para que se possa realizar uma paternagem satisfatória, ou seja, o indivíduo precisa estar bem com a dimensão “Ser-filho” para conseguir viver o “Ser-pai”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Faz-se necessário que o indivíduo olhe para sua própria história de vida, a história vivida com seus próprios pais. Estando diante do filho resgatar também a criança que já foi um dia, e que talvez ainda precise receber paternagem – se essa não foi bem realizada. Dessa maneira, integrando essas polaridades para não sobrecarregar o filho com expectativas e desejos de realização, fechando o ciclo Pai-Filho-Pai.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Lembro de uma música de <strong>Toquinho e Vinícius</strong> que, para mim, fala exatamente disso: <em>O Filho que eu quero ter*.</em> A letra da música traz o início do ciclo, o desejo de ser pai, e ao se tornar pai ver-se no filho como a criança que já foi, e ver no filho o adulto que quer se tornar pai. E assim fecha-se o ciclo.</p>



<h2 id="h-o-pai-real-e-sempre-um-ser-humano-em-tensao-ele-nao-pode-ser-o-rei-perfeito-mas-pode-ser-uma-presenca-autentica-consciente-e-transformadora" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">O pai real é sempre um ser humano em tensão. Ele não pode ser o rei perfeito, mas pode ser uma presença autêntica, consciente e transformadora.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ao reconhecer suas limitações e integrar sua sombra, aproxima-se de uma vivência saudável do arquétipo paterno: não como ideal inatingível, mas como função viva que oferece aos filhos direção e acolhimento. Assim, ajudar um homem a ser um pai melhor significa trazer o arquétipo para a realidade, aceitando a imperfeição e valorizando a constância. O pai que consegue equilibrar lei e afeto, disciplina e escuta, aproxima-se daquilo que Jung chamaria de individuação: tornar-se inteiro e, nesse processo, oferecer aos filhos não apenas regras, mas também humanidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, o arquétipo paterno é essencial para o processo de individuação. Ele desafia, testa e orienta, mas também pode falhar e se tornar opressor. Reconhecer essa ambivalência é fundamental para compreender tanto os mitos quanto a vida cotidiana: o pai é sempre uma figura em tensão entre lei e afeto, entre proteção e rigidez, entre presença e ausência. É nesse espaço de tensão que se dá a possibilidade de crescimento, tanto para o filho quanto para o próprio pai, que precisa aprender a ser não o “Grande Pai” idealizado, mas um homem real capaz de oferecer direção sem sufocar, e disciplina sem abandonar.</p>



<h2 id="h-o-filho-que-eu-quero-ter" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><em><strong>* O Filho Que Eu Quero Ter</strong></em></h2>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://letras.mus.br/toquinho/"><em>Toquinho</em></a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>É comum a gente sonhar, eu sei, quando vem o entardecer<br>Pois eu também dei de sonhar um sonho lindo de morrer<br>Vejo um berço e nele eu me debruçar com o pranto a me correr<br>E assim chorando acalentar o filho que eu quero ter<br>Dorme, meu pequenininho, dorme que a noite já vem<br>Teu pai está muito sozinho de tanto amor que ele tem</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>De repente eu vejo se transformar num menino igual à mim<br>Que vem correndo me beijar quando eu chegar lá de onde eu vim<br>Um menino sempre a me perguntar um porque que não tem fim<br>Um filho a quem só queira bem e a quem só diga que sim<br>Dorme menino levado, dorme que a vida já vem<br>Teu pai está muito cansado de tanta dor que ele tem</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Quando a vida enfim me quiser levar pelo tanto que me deu<br>Sentir-lhe a barba me roçar no derradeiro beijo seu<br>E ao sentir também sua mão vedar meu olhar dos olhos seus<br>Ouvir-lhe a voz a me embalar num acalanto de adeus<br>Dorme meu pai sem cuidado, dorme que ao entardecer<br>Teu filho sonha acordado, com o filho que ele quer Ter.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/keller/"><strong>Me. Keller Villela</strong> &#8211;<strong> Analista Didata em formação IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">CAMPBELL, J. (2007). <em>O herói de mil faces</em>. São Paulo: Cultrix/Pensamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HOLLIS, J. (1997). <em>Sob a sombra de Saturno</em>. São Paulo: Paulus.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. (2012). <em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em>. Petrópolis: Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NEUMANN, E. (2006). <em>A Grande Mãe</em>. São Paulo: Cultrix.</p>



<p class="wp-block-paragraph">VON FRANZ, M.-L. (2008). <em>A interpretação dos contos de fadas</em>. São Paulo: Paulus.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/arquetipo-paterno-entre-o-pai-ideal-e-o-pai-real/">Arquétipo Paterno: Entre o Pai Ideal e o Pai Real</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>FELIZ DIA DOS PAIS &#8211; ENTRE O PRESENTE, A PRESENÇA E A AUSÊNCIA</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/feliz-dia-dos-pais-entre-o-presente-a-presenca-e-a-ausencia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 04 Aug 2026 19:40:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[complexo paterno]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[Patriarcado]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[abandono paterno]]></category>
		<category><![CDATA[arquétipo]]></category>
		<category><![CDATA[ausência paterna]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[cg jung]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[legado]]></category>
		<category><![CDATA[masculino e feminino]]></category>
		<category><![CDATA[pais]]></category>
		<category><![CDATA[pais e filhos]]></category>
		<category><![CDATA[presença paterna]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psique]]></category>
		<category><![CDATA[relações familiares]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=13647</guid>

					<description><![CDATA[<p>Atualmente vivemos sob o signo de um paradoxo avassalador. De um lado, um patriarcado abstrato e onipresente, que governa através do poder tecnológico e dos algoritmos do mercado financeiro dominados por um pai-máquina que tudo controla e nada abraça. De outro, uma ausência de paternagem que deixa um vazio ensurdecedor nos lares. Esta não é apenas a falta de um corpo, mas a do amparo que guia e fortalece. No lugar do pai amoroso, impera a sombra de uma estrutura tirânica que, por sua própria rigidez, gera uma geração de órfãos de pais vivos, com a alma marcada pela tristeza, o abandono e a rejeição.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/feliz-dia-dos-pais-entre-o-presente-a-presenca-e-a-ausencia/">FELIZ DIA DOS PAIS &#8211; ENTRE O PRESENTE, A PRESENÇA E A AUSÊNCIA</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No Brasil, o Dia dos Pais é comemorado anualmente no segundo domingo de agosto. A data foi criada em 1953 pelo publicitário Sylvio Bhering, diretor do jornal <em>O Globo</em>, com o objetivo inicial de homenagear os pais e movimentar o comércio no segundo semestre. O primeiro &#8220;Dia dos Pais&#8221; ocorreu em 16 de agosto de 1953, dia que coincidia com a festividade de São Joaquim, pai da Virgem Maria e avô de Jesus, considerado um símbolo patriarcal na tradição católica. Nos anos seguintes, a celebração foi transferida para o segundo domingo do mês, para facilitar a reunião das famílias no fim de semana.</p>



<h2 id="h-atualmente-vivemos-sob-o-signo-de-um-paradoxo-avassalador" class="wp-block-heading" style="font-size:18px"><strong>Atualmente vivemos sob o signo de um paradoxo avassalador.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">De um lado, um patriarcado abstrato e onipresente, que governa através do poder tecnológico e dos algoritmos do mercado financeiro dominados por um pai-máquina que tudo controla e nada abraça. De outro, uma ausência de paternagem que deixa um vazio ensurdecedor nos lares. Esta não é apenas a falta de um corpo, mas a do amparo que guia e fortalece. No lugar do pai amoroso, impera a sombra de uma estrutura tirânica que, por sua própria rigidez, gera uma geração de órfãos de pais vivos, com a alma marcada pela tristeza, o abandono e a rejeição.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Há muito tempo se sabe que o exemplo é o melhor dos mestres embora seja também o mais cruel, porque não admite ensaio nem edição de cortes. A criança não lê o nosso roteiro, porque ela assiste ao nosso filme ao vivo, sem filtro, sem legenda, sem classificação indicativa. Por isso, precisamos estar conscientes das referências e exemplos que transmitimos aos nossos filhos, não com palavras bonitas e sábias, que qualquer orador de palanque entoa com maestria, mas tão-somente com o agir e a vida real dos pais e da sociedade.</p>



<h2 id="h-neste-sentido-importa-distinguir-concepcao-de-filiacao" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Neste sentido, importa distinguir concepção de filiação.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A primeira é um ato biológico rápido, instintivo, às vezes até acidental. A segunda é um ato social, cultural, espiritual, que é longo, deliberado, exige presença contínua e, sobretudo, coerência. A diferença entre um e outro é a diferença entre plantar uma semente e cultivar uma árvore. Qualquer um pode jogar a semente no chão. Poucos têm paciência de regá-la, podá-la, admirá-la e, principalmente, aceitar que ela cresça num formato diferente daquele que havíamos planejado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A verdadeira paternidade transcende o ato de prover. É uma semeadura na alma, uma jornada de presença consciente que transforma o cotidiano no mais sagrado dos rituais. Construir um legado invisível e eterno não acontece nos grandes gestos, mas na delicadeza das pequenas ações diárias. É no chão sagrado da vida familiar que os conceitos de amor, respeito e responsabilidade se tornam carne e osso, tecendo a herança viva que deixamos em nossos filhos. Este é um chamado profundo ao pai que anseia ser mais do que um provedor, mas um arquiteto do caráter, um poeta da alma e um guardião do bem-estar emocional de seus descendentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">As influências do patriarcado, portanto, advêm tanto dos progenitores biológicos ou adotivos quanto das dimensões sociais e culturais, produzindo semelhanças de atitudes e de valores que vão muito além da mera coincidência. O filho herda não apenas as feições e gestos do pai, mas também o seu silêncio. A sua raiva contida. O seu riso nervoso diante de autoridade. A sua dificuldade de pedir desculpas. Herda, sobretudo, aquilo que o pai jamais disse, mas que o seu corpo, o seu tom de voz e o seu olhar gritaram em surdina.</p>



<h2 id="h-o-psiquismo-que-absorve-tudo-inclusive-o-que-escondemos" class="wp-block-heading"><strong>O psiquismo que absorve tudo — inclusive o que escondemos</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O psiquismo inconsciente da criança é um oceano sem margens, absorvendo não apenas as correntes emocionais da família, mas também o espírito de nosso tempo. Como delicadas antenas, as crianças captam não o teatro das aparências, mas a verdade silenciosa que pulsa em nosso universo interior. Elas absorvem informações que ultrapassam os limites familiares como uma esponja que desconhece a diferença entre água limpa e água contaminada. Captam o espírito da época, o <em>Zeitgeist&nbsp; </em>internalizando valores, medos e desejos coletivos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Com isso, mesmo um pai honrado, que na sua intimidade não se sinta realizado, esteja infeliz ou abrigue sentimentos e desejos obscuros, poderá passar essas informações a seus filhos. Pais que sorriem por fora, mas carregam a infelicidade por dentro, legam essa dissonância a seus filhos. Portanto, o caminho para o bem de um filho começa na jornada de um pai em direção a si mesmo. O maior presente que se pode dar é a própria inteireza, o compromisso inabalável com a própria realização e felicidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Isso porque a alma coletiva está espalhada por toda parte, não como uma nuvem etérea e romântica, mas como uma rede invisível de afetos, preconceitos e angústias que atravessa gerações como herança maldita. A criança percebe não apenas os condicionamentos mais profundos dos pais ou da sociedade, mas também, num âmbito mais extenso, tanto o bem quanto o mal existentes nas profundezas da natureza humana. Ela sente a hipocrisia antes de saber nomeá-la. Pressente a violência antes de presenciar a agressão. E, principalmente, registra tudo, absolutamente tudo, no inconsciente, de onde nada se apaga, apenas se reprime, adormece ou, mais tarde, explode.</p>



<h2 id="h-o-homem-brutalizado-e-a-fabrica-de-filhos-a-sua-imagem" class="wp-block-heading"><strong>O homem brutalizado e a fábrica de filhos à sua imagem</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O homem contemporâneo, cada vez mais brutalizado pelo excesso de competição e pela negação das dimensões espirituais, naturalmente está formando filhos competitivos, acometidos por depressão, hiperatividade, agressividade e vários tipos de compulsões. Filhos de pais que não conseguem parar, que trabalham como autômatos e como se a vida fosse uma roda de hamster sem fim, tornam-se adultos que também não sabem parar. E o ciclo se repete com uma fidelidade trágica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Precisamos repensar nosso estilo de vida e o que desejamos transmitir para nossos descendentes. Da mesma forma, todo adulto, de qualquer gênero, deve começar a ser responsável, conscientemente, pelo arquétipo paterno, não apenas os pais biológicos, mas qualquer pessoa que ocupe um papel de referência, autoridade ou cuidado. É urgente iniciarmos mudanças nos sistemas familiar, social e cultural, objetivando um futuro viável e melhor, com menos exclusão, mais amorosidade e respeito humano e ecológico. Porque nossas atitudes estão colocando em risco todo o planeta, e isso não é metáfora, é realidade ambiental. Toda ação tem reação, e a Terra já está nos cobrando a fatura com juros compostos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A cura reside na integração amorosa dos princípios masculino e feminino. É preciso iniciar uma mudança que floresça de dentro para fora, nos sistemas familiar, social, cultural e espiritual.</p>



<h2 id="h-a-ausencia-que-grita-e-a-presenca-que-oprime" class="wp-block-heading"><strong>A ausência que grita e a presença que oprime</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Aqui chegamos a um dos paradoxos mais dolorosos do nosso tempo: a crescente ausência paterna convive com a presença abusiva, invasiva, sectária, patrimonialista e misógina de um sistema patriarcal retrógrado que se traveste de conservadorismo.</p>



<h2 id="h-nunca-se-falou-tanto-em-valores-familiares-e-nunca-se-abandonou-tanto-a-familia-com-tanta-eficiencia-burocratica" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Nunca se falou tanto em &#8220;valores familiares&#8221; e nunca se abandonou tanto a família com tanta eficiência burocrática.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Os números não mentem, pois são números. No Brasil, cerca de 6,7% dos nascimentos ocorridos entre 2023 e 2024 foram registrados sem o nome do pai. Em 2025, o país registrou 172 mil certidões de nascimento sem o nome do pai. Mais de cem mil crianças entraram no mundo sem sequer ter um nome masculino escrito em sua certidão. É como se o país inteiro dissesse a essas crianças: &#8220;Bem-vinda ao mundo. Metade da tua origem é um espaço em branco.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Adicionalmente, dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que 49,1% das famílias brasileiras são chefiadas por mulheres, o que pode indicar um número significativo de lares sem a presença de uma figura paterna ou masculina como principal responsável. Não se trata de questionar a competência feminina, que é sobejamente heróica, mas de reconhecer que a ausência de um princípio paterno saudável cria um vazio que a mãe, por mais que se dedique, não pode preencher sozinha, porque a função arquetípica paterna é estruturalmente distinta da materna.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E, no entanto, o mesmo sistema que falha em garantir a presença paterna real, afetiva, cotidiana e encarnada, não falha em exercer a sua presença patriarcal simbólica: a que dita corpos, controla autonomias, criminaliza diferenças, patrimonializa a fé e confunde conservação de valores com conservação de privilégios. Um sistema que se diz protetor da família, mas que, na prática, protege apenas a si mesmo, como aquele pai que diz &#8220;isto é para o seu bem&#8221; enquanto pratica o contrário do bem.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A ausência do pai que ama não deveria jamais ser confundida com a presença do sistema que domina. Um é falta. O outro é excesso. E ambos ferem.</p>



<h2 id="h-fogo-e-agua-a-danca-dos-principios" class="wp-block-heading"><strong>Fogo e água — a dança dos princípios</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Embora devamos considerar as configurações familiares contemporâneas, que vão muito além do modelo nuclear heteronormativo, os princípios materno e paterno são essenciais para o desenvolvimento saudável das crianças, independentemente do gênero ou da orientação sexual de seus cuidadores. A mãe simboliza o cuidado e a nutrição -água e terra, o princípio Yin. O pai representa a proteção, os limites e os desafios – ar e fogo, o princípio Yang. O equilíbrio entre esses elementos é vital, pois em harmonia sustentam o crescimento, mas em desarmonia causam danos. Assim como muita água apodrece e pouca fenece, ou como muito sol queima e pouco estagna.</p>



<h2 id="h-na-linguagem-da-psicologia-analitica-de-jung-esses-dois-principios-correspondem-as-dimensoes-que-m-esther-harding-em-the-way-of-all-women-designa-como-eros-e-logos" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Na linguagem da psicologia analítica de Jung, esses dois princípios correspondem às dimensões que M. Esther Harding, em <em>The Way of All Women</em>, designa como Eros e Logos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Eros</strong> é o princípio da relacionalidade, do sentimento, da conexão, é a capacidade de estabelecer vínculos, de sentir o outro, de criar intimidade. É a dimensão tradicionalmente associada ao feminino, à mãe, ao princípio materno que acolhe, nutre e envolve.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Logos</strong> é o princípio da razão, do julgamento objetivo, da discriminação, da lei, é a capacidade de estabelecer limites, de sustentar a frustração, de dizer &#8220;não&#8221; com firmeza e de abrir caminho para a separação e a individuação. É a dimensão tradicionalmente associada ao masculino, ao pai, ao princípio paterno que ordena, protege e desafia.</p>



<h2 id="h-quando-eros-se-expressa-de-modo-saudavel-manifesta-se-como-calor-humano-empatia-profunda-capacidade-de-nutrir-vinculos-autenticos-sensibilidade-estetica-e-espiritualidade-relacional" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Quando Eros se expressa de modo saudável, manifesta-se como calor humano, empatia profunda, capacidade de nutrir vínculos autênticos, sensibilidade estética e espiritualidade relacional.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A mãe que expressa um Eros consciente oferece à criança a experiência fundamental de ser amada não pelo que faz, mas pelo que é. <strong>Um amor incondicional que constitui a base da segurança emocional</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando, porém, Eros se manifesta de modo não saudável, e é aqui que a ausência do princípio paterno se torna particularmente devastadora, ele degenera em reatividade, histeria, fusão indiferenciada, possessividade e identificação inconsciente com o filho. A mãe que carrega sozinha o peso da criação, sem a contrapartida de uma presença que sustente a dimensão do Logos, corre o risco de ser engolida pela própria dimensão Eros que, sem o contraponto organizador do Logos, se torna um mar sem margens.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A criança, por sua vez, absorve não apenas o amor, mas também a angústia, o ressentimento e a exaustão materna pois, como Jung e Harding observam, existe uma <em>participation mystique</em>, uma identificação inconsciente profunda entre mãe e filho, através da qual os problemas psicológicos não resolvidos da mãe afetam diretamente a saúde e o comportamento da criança.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando Logos se expressa de modo saudável, manifesta-se como proatividade, clareza de pensamento, firmeza consistente, capacidade de estabelecer limites que protegem sem aprisionar, e sobretudo como a disposição de sustentar a frustração do filho, aquela qualidade essencial que permite à criança aprender que nem todo desejo deve ser imediatamente satisfeito, que a realidade tem contornos, que existem outros além de si mesmo.</p>



<h2 id="h-a-paternagem-que-encarna-um-logos-consciente-oferece-a-crianca-a-experiencia-do-mundo-como-estrutura-legivel-nao-como-caos-indiferenciado" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">A paternagem que encarna um Logos consciente oferece à criança a experiência do mundo como estrutura legível, não como caos indiferenciado.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É ele quem, tradicionalmente, introduz a criança no mundo da lei, das regras, da justiça e da competição sadia. Quando, porém, o Logos se manifesta de modo não saudável, ou quando está simplesmente ausente, o vazio que se instala não é neutro. A ausência de Logos deixa a criança sem a experiência internalizada do limite, da frustração tolerável e da autoridade amorosa.</p>



<h2 id="h-sem-essa-estrutura-a-crianca-tende-a-desenvolver-dificuldades-em-lidar-com-a-frustracao-em-respeitar-regras-sociais-em-conter-impulsos-e-em-estabelecer-metas-que-exigem-disciplina" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Sem essa estrutura, a criança tende a desenvolver dificuldades em lidar com a frustração, em respeitar regras sociais, em conter impulsos e em estabelecer metas que exigem disciplina.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E a mãe, por mais dedicada que seja, quando precisa exercer simultaneamente as funções de Eros e de Logos, de nutrir e de limitar, de acolher e de desafiar, de envolver e de separar, frequentemente se vê diante de uma exigência psicológica que ultrapassa as suas possibilidades, não por incompetência, mas porque essas duas funções exigem modos de ser qualitativamente diferentes, e a alternância constante entre elas pode gerar inconsistência, exaustão e culpa.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A mãe que se identifica excessivamente com o papel materno, tornando-se &#8220;toda mãe&#8221;, cria fixação e impede a independência do filho. É a arquetípica mãe devoradora que consome a individualidade da criança. Por outro lado, a mãe que, sobrecarregada pela necessidade de suprir também a função paterna, se torna excessivamente dura, burocrática ou controladora, corre o risco de reprimir seu próprio Eros, sua capacidade de sentir, de se conectar, de fluir e de transmitir ao filho a mensagem de que o mundo é um lugar de exigências sem acolhimento. O dilema é real e doloroso: como exercer, ao mesmo tempo, a função que envolve e a que separa, a que une e a que delimita, sem que uma destrua a outra?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim como, o pai que ensina o filho a respeitar a lei mas desrespeita a mãe em casa não está ensinando lei, está ensinando hipocrisia com pedigree. E o pai que se ausenta sob a alegação de que &#8220;está trabalhando para prover&#8221; pode estar, na verdade, provendo tudo menos aquilo de que o filho realmente precisa, sua presença.</p>



<h2 id="h-a-mulher-que-precisa-ser-pai-e-mae-o-dilema-contemporaneo" class="wp-block-heading"><strong>A mulher que precisa ser pai e mãe: o dilema contemporâneo</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Harding descreve três estágios de consciência feminina: o ingênuo, em que a mulher opera por instinto e sem reflexão; o sofisticado, em que desenvolve ego-consciência e busca controle; e o consciente, em que transcende o ego e reconhece um valor suprapessoal que orienta sua vida para além dos papéis biológicos e sociais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A mulher que, sozinha, precisa exercer maternagem e paternagem é frequentemente empurrada para o estágio sofisticado, aquele em que o ego se sobrecarrega, em que a eficiência substitui a presença, em que a sobrevivência se torna o modo de vida. O risco é que essa mulher, esgotada pela exigência de ser tudo para todos, perca o contato com sua própria profundidade, com o Eros que, quando consciente, é fonte de sabedoria relacional, e com o Logos que, quando integrado, é fonte de discernimento e não de mera rigidez.</p>



<h2 id="h-ela-argumenta-que-o-objetivo-profundo-e-frequentemente-inconsciente-da-emancipacao-feminina-nao-era-apenas-a-independencia-economica-mas-a-criacao-da-possibilidade-de-uma-relacao-psicologica-mais-consciente-entre-os-sexos-baseada-tanto-em-eros-quanto-em-logos" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Ela argumenta que o objetivo profundo, e frequentemente inconsciente, da emancipação feminina não era apenas a independência econômica, mas a criação da possibilidade de uma relação psicológica mais consciente entre os sexos, baseada tanto em Eros quanto em Logos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O que vemos hoje, porém, é frequentemente o contrário: a mulher que se torna tudo, mãe, pai, provedora, educadora e terapeuta, não porque escolheu a integração consciente de ambas as dimensões, mas porque foi abandonada à sua própria sorte por um sistema que produz ausência paterna em escala industrial.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A questão não é que a mulher seja incapaz de desenvolver Logos, certamente ela não apenas pode como deve, mas que o desenvolvimento consciente do Logos pela mulher é um processo psicológico longo e deliberado, que exige condições internas e externas que a sobrecarga da maternidade solo dificulta enormemente.</p>



<h2 id="h-quando-a-mae-e-levada-a-exercer-por-necessidade-e-nao-por-escolha-consciente-a-funcao-paterna-tres-dinamicas-psicologicas-podem-se-instalar" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Quando a mãe é levada a exercer, por necessidade e não por escolha consciente, a função paterna, três dinâmicas psicológicas podem se instalar.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Primeiro, a <strong>fusão</strong> sem a presença de uma figura que represente o princípio da separação, a <em>participation mystique</em> entre mãe e filho se intensifica, e a criança tem dificuldade de se diferenciar como indivíduo. Segundo, a <strong>inconsistência</strong>, a mesma pessoa que acolhe é a que limita, e essa ambiguidade confunde a criança, que não sabe se a autoridade que a frustra é a mesma que a nutre, gerando ansiedade e desconfiança em relação ao cuidado. Terceiro, a <strong>idealização, </strong>a criança privada do pai real constrói uma imagem idealizada do pai ausente, uma espécie de projeção do animus, e essa fantasia impede que ela desenvolva relações realistas com figuras masculinas no futuro, pois nenhum homem real conseguirá corresponder à perfeição do pai imaginário.</p>



<h2 id="h-e-aqui-chegamos-a-pergunta-mais-angustiante-de-todas-como-sera-o-futuro-dos-filhos-que-crescem-sem-a-intimidade-cotidiana-com-uma-presenca-masculina-saudavel" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">E aqui chegamos à pergunta mais angustiante de todas: como será o futuro dos filhos que crescem sem a intimidade cotidiana com uma presença masculina saudável?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A criança que não experimentou, no cotidiano, o que significa ser vista por um olhar masculino amoroso e firme, um olhar que simultaneamente acolhe e desafia,terá dificuldade em internalizar o arquétipo paterno de modo saudável. Ela terá dificuldade em sustentar frustrações, em respeitar limites que não sejam impostos pela força, em reconhecer a autoridade legítima quando ela não vem acompanhada de afeto.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E, no caso dos meninos, a ausência de um modelo masculino encarnado, não idealizado, não virtual, mas real e cotidiano, com suas qualidades e suas falhas, dificulta enormemente o processo de identificação masculina saudável, aquele que permite ao menino tornar-se homem sem precisar renegar a sua dimensão sensível, sem precisar endurecer-se para provar que é forte.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No caso das meninas, a ausência do pai real alimenta a fantasia do Amante Fantasma, aquele homem idealizado e irreal como projeção do animus inconsciente, que persegue a imaginação feminina e a afasta da realidade dos relacionamentos autênticos.</p>



<h2 id="h-o-complexo-paterno-quando-a-lei-encontra-o-afeto" class="wp-block-heading"><strong>O complexo paterno: quando a lei encontra o afeto</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O complexo paterno é um dinamismo psíquico que, no desenvolvimento da personalidade, fica mais atuante dos sete até aproximadamente os catorze anos. Neste momento a criança passa a viver o mundo do pai, o período do patriarcado, mesmo que não tenha relação com nenhuma pessoa do sexo masculino. É uma fase caracterizada pelo amadurecimento do cérebro límbico, maior capacidade de inibição dos instintos e consolidação dos valores culturais, sociais e religiosos. O jovem começa a estabelecer relações intersubjetivas mais abrangentes, vinculando-se a grupos, times, torcidas ou outras agremiações, formando referências hierárquicas.</p>



<h2 id="h-e-nesse-momento-que-as-regras-as-leis-e-a-justica-sao-internalizadas" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">É nesse momento que as regras, as leis e a justiça são internalizadas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E é exatamente aqui que reside o perigo e a oportunidade: se o modelo de autoridade que a criança internaliza for tirânico, ela aprenderá que poder é sinônimo de crueldade. Se for ausente, aprenderá que lei é sinônimo de vazio. Se for amoroso e firme, aprenderá que limite é sinônimo de cuidado e que respeito não se exige, se inspira.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando a figura paterna real está ausente, a criança buscará o arquétipo paterno em outros lugares, no professor, no tio, no treinador, no líder de comunidade, e, cada vez mais, em figuras virtuais e influenciadores digitais ou lideranças religiosas que, na maioria das vezes, encarnam exatamente a versão mais patológica do Logos que é poder sem responsabilidade, força sem vulnerabilidade, sucesso sem ética. A criança que não tem um pai presente para internalizar como modelo de Logos saudável fica à mercê de pseudopais coletivos que não a conhecem, não a amam e não se responsabilizam por ela.</p>



<h2 id="h-os-quatro-pilares-da-paternidade-consciente" class="wp-block-heading"><strong>Os quatro pilares da paternidade consciente</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para que essa internalização seja saudável, é preciso que o pai, ou quem exerça a função da paternagem, cultive quatro pilares fundamentais:</p>



<h2 id="h-1-a-presenca-consciente" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">1. <strong>A Presença Consciente</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Este é o maior presente. Exige uma entrega intencional, uma desconexão das distrações que fragmentam a alma. É a arte da escuta empática, que ouve o coração por trás das palavras. É o tempo de qualidade, onde os rituais de afeto fortalecem os laços anímicos. É o silêncio dos dispositivos eletrônicos para que o contato visual possa comunicar: &#8220;você é minha prioridade&#8221;.</p>



<h2 id="h-2-limites-como-um-abraco-de-amor" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">2<strong>. Limites como um Abraço de Amor</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Limites, quando estabelecidos com amor e firmeza, não são jaulas, mas as margens seguras que permitem ao rio da vida infantil fluir com propósito. A ausência de limites gera um mar de ansiedade. Uma estrutura paterna saudável, em harmonia com a nutrição materna, oferece essa segurança por meio da clareza, da consistência e do diálogo. A firmeza corrige o comportamento, mas sempre reafirma o amor incondicional pela essência da criança. É o Logos a serviço do Eros, a lei que protege o amor, e não o amor que se submete à lei.</p>



<h2 id="h-3-a-vulnerabilidade-como-forca" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">3. <strong>A Vulnerabilidade como Força</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A transição de um modelo de poder para um de alteridade começa em casa. É ali que a criança aprende a empatia e o respeito. Isso acontece quando o pai modela a vulnerabilidade: quando admite seus erros, pede desculpas e demonstra que a verdadeira força não reside na infalibilidade, mas na coragem de ser humano, de aprender e de se reparar. Um pai que integra sua própria sombra e que reconhece suas falhas sem se destruir pela culpa, ensina ao filho que a integridade não é perfeição, mas consciência.</p>



<h2 id="h-4-a-cooperacao-como-vitoria-da-alma" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">4. <strong>A Cooperação como Vitória da Alma</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Incentivar a colaboração em vez da competição, validar a perspectiva do outro e partilhar responsabilidades ensina que o cuidado com o espaço comum é um dever sagrado de todos. Ensina que o triunfo coletivo é a mais gratificante das vitórias.</p>



<h2 id="h-o-presente-que-os-filhos-nos-dao" class="wp-block-heading"><strong>O presente que os filhos nos dão</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Como estamos nos aproximando da comemoração do Dia dos Pais, que em 2026 cai em 9 de agosto, acredito que o melhor presente que os filhos possam nos dar é a sua presença, exigindo-nos coerência e consistência das nossas atitudes com os nossos valores. Sim, você leu corretamente: o presente é deles para nós. Porque a presença de um filho que olha nos olhos do pai e diz &#8220;seja o que você ensina&#8221; é o maior espelho que um homem pode enfrentar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E nós, pais, devemos refletir a respeito das nossas prioridades, exigindo e estimulando o cumprimento das leis, o respeito aos direitos humanos e maior consciência e transparência sobre nossa real condição existencial. Só assim poderemos sonhar com um mundo livre das tiranias que se alimentam do abandono, um mundo onde um patriarcado curado, forte e comprometido com o futuro, caminhe de mãos dadas com o matriarcado. Juntos, em alteridade, ensinam cada ser a conhecer seu limite e sua responsabilidade, pois aprenderam a arte mais sublime de todas que é o respeito, a capacidade de olhar e se deixar ser olhado com os olhos do amor.</p>



<h2 id="h-a-alteridade-nao-e-o-fim-do-pai-e-o-seu-amadurecimento-e-o-momento-em-que-o-pai-pode-finalmente-dizer-cresce-eu-ja-plantei-agora-floresce-no-teu-proprio-jeito" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">A alteridade não é o fim do pai. É o seu amadurecimento. É o momento em que o pai pode finalmente dizer: &#8220;<strong>Cresce. Eu já plantei. Agora floresce no teu próprio jeito</strong>.&#8221;</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O futuro que desejamos para nossos filhos não é uma abstração a ser erguida amanhã. Ele é forjado no agora, em cada interação, em cada escolha, em cada momento de presença consciente que tece a estrutura interna para uma vida plena, justa e com significado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Com isso, o princípio paterno será internalizado, fazendo com que disciplina, limites, regras, proteção e referência de autoridade amorosa contribuam para o futuro saudável de todos. Porque, no fim das contas, o que a criança precisa não é de um pai perfeito, porque seres perfeitos só existem em campanhas publicitárias de Dia dos Pais, mas de um pai presente, consciente e humano o suficiente para reconhecer os próprios erros e corrigi-los diante dos filhos. Isso é paternidade. O resto é performance.</p>



<h2 id="h-feliz-dia-dos-pais" class="wp-block-heading"><strong>Feliz Dia dos Pais!</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Que seja não apenas uma data de presente e abraço, embora ambos sejam indispensáveis, mas um dia de autoconsciência paterna. Que cada pai, cada mãe, cada adulto que exerce a função paterna, se pergunte: que espelho tenho sido para os filhos que herdarão não apenas o meu nome, mas a minha luz e a minha sombra, e que farão, daquilo que eu lhes transmitir ou lhes negar, o material bruto com que construirão o próprio destino? E que a resposta, por mais desconfortável que seja, seja o começo de uma nova herança.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; IJEP</a></strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="👨‍🍼Artigo novo: &quot;FELIZ DIA DOS PAIS - ENTRE O PRESENTE, A PRESENÇA E A AUSÊNCIA&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/kpiyh2KQY9k?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/feliz-dia-dos-pais-entre-o-presente-a-presenca-e-a-ausencia/">FELIZ DIA DOS PAIS &#8211; ENTRE O PRESENTE, A PRESENÇA E A AUSÊNCIA</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Desidealizar como rito de passagem na adolescência</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/desidealizar-como-rito-de-passagem-na-adolescencia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Cristiane Jageneski dos Reis]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 25 Jun 2026 14:39:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[etapas da vida humana]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[pais e filhos]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=13222</guid>

					<description><![CDATA[<p>O artigo propõe uma reflexão sobre a desidealização dos pais na adolescência como um processo psíquico necessário ao desenvolvimento da personalidade. A partir da psicologia analítica de Carl Gustav Jung, discute-se a projeção como mecanismo inconsciente que sustenta a idealização das figuras parentais na infância e sua posterior retirada durante a adolescência. Argumenta-se que esse movimento não configura mera ruptura ou rebeldia, mas que é um processo de diferenciação da consciência, no qual o jovem passa a reconhecer os pais em sua condição humana e reintegra à própria psique conteúdos antes projetados.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/desidealizar-como-rito-de-passagem-na-adolescencia/">Desidealizar como rito de passagem na adolescência</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>RESUMO</strong>: O artigo propõe uma reflexão sobre a desidealização dos pais na adolescência como um processo psíquico necessário ao desenvolvimento da personalidade. A partir da psicologia analítica de Carl Gustav Jung, discute-se a projeção como mecanismo inconsciente que sustenta a idealização das figuras parentais na infância e sua posterior retirada durante a adolescência. Argumenta-se que esse movimento não configura mera ruptura ou rebeldia, mas que é um processo de diferenciação da consciência, no qual o jovem passa a reconhecer os pais em sua condição humana e reintegra à própria psique conteúdos antes projetados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O trabalho reflete sobre o mito da ruptura com os adultos, propondo que o amadurecimento saudável não conduz ao isolamento, mas à construção de vínculos mais conscientes e interdependentes. Por fim, o artigo sugere uma ponte entre a retirada de projeções e o processo de individuação, compreendendo a adolescência como um rito simbólico de passagem em direção ao tornar-se si-mesmo.</p>



<h2 id="h-a-adolescencia-pode-ser-compreendida-como-um-momento-privilegiado-de-reorganizacao-psiquica-no-qual-se-intensifica-o-confronto-entre-as-imagens-inconscientes-e-a-realidade-objetiva" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">A adolescência pode ser compreendida como um momento privilegiado de reorganização psíquica, no qual se intensifica o confronto entre as imagens inconscientes e a realidade objetiva.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Aquilo que na infância se apresentava como sólido, sobretudo as figuras parentais, passa a apresentar fissuras, questionamentos e ambivalências. Nesse contexto, a relação com essas pessoas, anteriormente sustentada por fortes investimentos idealizados, tende a ser atravessada por um processo de revisão simbólica, marcado pela retirada progressiva de projeções.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Carl Gustav Jung, a projeção consiste na atribuição inconsciente de conteúdos internos a objetos externos, sendo mecanismo fundamental na constituição dos vínculos humanos. Assim, a idealização dos pais pode ser entendida como expressão dessas projeções, que conferem às figuras parentais um caráter ampliado, muitas vezes associadas às imagens arquetípicas de proteção, autoridade e totalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O movimento de desidealização, nesse sentido, não implica uma simples perda ou ruptura, mas configura-se como um processo de diferenciação, no qual o indivíduo pode começar a reconhecer o outro em sua condição humana. Essa dinâmica, em famílias funcionais, favorece a ampliação da consciência e inaugura novas possibilidades de relação, menos marcadas pela dependência inconsciente e mais abertas à construção de vínculos baseados na reciprocidade. Trata-se de um movimento de diferenciação que, ao mesmo tempo em que tensiona os vínculos, também os transforma, possibilitando a emergência de relações mais abertas à construção de formas de interdependência, sendo, porém, importante salientar que em ambientes disfuncionais a quebra de vínculos pode apresentar-se como solução adaptativa.</p>



<h2 id="h-a-adolescencia-e-o-mito-da-ruptura" class="wp-block-heading"><strong>A adolescência e o mito da ruptura</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Há uma narrativa muito difundida, no senso comum e em certos discursos pedagógicos, de que a adolescência é marcada por uma ruptura necessária com os adultos. Como se crescer implicasse, inevitavelmente, afastar-se, romper, rejeitar. Como se o movimento em direção à autonomia exigisse o apagamento daqueles que vieram antes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No entanto, essa leitura, embora contenha uma certa dose de verdade, revela-se insuficiente quando observada à luz da complexidade psíquica. A adolescência não é propriamente um tempo somente de ruptura, mas de transformação.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>É importante o período que vai do nascimento até o término da puberdade psíquica, que para o homem, em nosso clima e em nossa raça (Suíça), pode estender-se até os vinte e cinco anos, e na mulher termina antes, aos dezenove ou vinte anos; justamente nesse período ocorre o maior e mais intenso desenvolvimento da consciência. Este desenvolvimento estabelece vínculos fortes entre o “eu” e os processos psíquicos até então inconscientes, e também os separa nitidamente do inconsciente. Deste modo emerge a consciência a partir do inconsciente, como uma nova ilha aflora sobre a superfície do mar (JUNG, 2013a, parágrafo 103).</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-a-psicologia-analitica-oferece-uma-chave-importante-para-essa-reflexao-ao-compreender-a-adolescencia-como-uma-etapa-da-vida-em-processo-de-diferenciacao-progressiva-da-consciencia" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">A psicologia analítica oferece uma chave importante para essa reflexão, ao compreender a adolescência como uma etapa da vida em processo de diferenciação progressiva da consciência.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para o jovem, os pais deixam de ocupar o lugar de totalidade e passam a ser vistos em sua dimensão humana, limitada, ambígua.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>No estágio infantil da consciência, ainda não há problemas; nada depende do sujeito, porque a própria criança ainda depende inteiramente dos pais. É como se não tivesse nascido ainda inteiramente, mas se achasse mergulhada na atmosfera dos pais. O nascimento psíquico e, com ele, a diferenciação consciente em relação aos pais só ocorrem na puberdade, com a irrupção da sexualidade. A mudança fisiológica é acompanhada também de uma revolução espiritual. Isto é, as várias manifestações corporais acentuam de tal maneira o eu, que este frequentemente se impõe desmedidamente. Daí o nome que se dá a esta fase: “os anos difíceis” da adolescência (JUNG, 2013b, parágrafo 756).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Essa fase, vivida como conflito ou oposição, não constitui necessariamente um rompimento, mas um deslocamento psíquico fundamental, ou seja, a passagem da dependência inconsciente para uma relação mais diferenciada. Trata-se menos de romper com os pais e mais de romper com as imagens idealizadas e constituídas até então.</p>



<h2 id="h-com-isso-o-que-esta-em-jogo-nao-e-a-quebra-do-vinculo-mas-sua-transformacao-a-autonomia-que-emerge-desse-processo-nao-se-constroi-no-isolamento-mas-na-possibilidade-de-estabelecer-relacoes-menos-fusionais-e-mais-conscientes" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Com isso, o que está em jogo não é a quebra do vínculo, mas sua transformação. A autonomia que emerge desse processo não se constrói no isolamento, mas na possibilidade de estabelecer relações menos fusionais e mais conscientes.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" id="h-o-curso-natural-da-vida-exige-inicialmente-do-jovem-o-sacrificio-de-sua-infancia-e-de-sua-dependencia-infantil-dos-pais-fisicos-para-que-nao-permaneca-fixado-a-eles-pelo-laco-do-incesto-inconsciente-prejudicial-para-corpo-e-alma-com-a-separacao-do-torpor-da-infancia-se-almeja-uma-consciencia-autonoma-jung-2016-paragrafo-553"><em>O curso natural da vida exige inicialmente do jovem o sacrifício de sua infância e de sua dependência infantil dos pais físicos, para que não permaneça fixado a eles pelo laço do incesto inconsciente, prejudicial para corpo e alma [&#8230;]. Com a separação do torpor da infância se almeja uma consciência autônoma (JUNG, 2016, parágrafo 553).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Na perspectiva junguiana, o amadurecimento e o desenvolvimento da personalidade não ocorrem sem perdas. Crescer implica, inevitavelmente, atravessar um campo de renúncias, como exigência própria da transformação psíquica. É nesse contexto que o conceito de sacrifício adquire relevância, referindo-se ao movimento pelo qual algo precisa ser deixado para trás para que outra forma de existência possa emergir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na adolescência, esse processo se torna particularmente evidente. O jovem encontra-se diante da tarefa de se diferenciar das imagens que, até então, sustentavam sua experiência de mundo. Entretanto, para que a personalidade se desenvolva, segundo Jung, o jovem é convocado a renunciar à <strong>“saudade retrospectiva” </strong>(JUNG, 2016, parágrafo 643<strong>), e à fantasia de </strong>permanecer vinculado a um estado anterior de segurança, dependência e relativa indiferenciação.</p>



<h2 id="h-esse-sacrificio-nao-se-da-sem-tensao-ele-frequentemente-se-manifesta-como-conflito-oposicao-afastamento-emocional-ou-mesmo-desvalorizacao-dos-pais" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Esse sacrifício não se dá sem tensão. Ele frequentemente se manifesta como conflito, oposição, afastamento emocional ou mesmo desvalorização dos pais.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">No entanto, tais movimentos não devem ser compreendidos apenas como rebeldia, mas como expressões de um processo psíquico mais profundo.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>Se é falta de sorte da criança não encontrar uma verdadeira família em casa, de outro lado também é perigoso para a criança estar presa demais à família. A ligação muito forte aos pais constitui impedimento direto para a acomodação futura no mundo. O adolescente está destinado para o mundo, e não para continuar a ser sempre apenas filho de seus pais. Lamentavelmente há muitíssimos pais que persistem em considerar os filhos sempre como crianças, porque eles próprios não querem nem envelhecer, nem renunciar à autoridade e ao poder de pais. Agindo deste modo, exercem sobre os filhos influência altamente desastrosa por tirar-lhes todas as ocasiões de assumirem responsabilidade individual. Este método prejudicial ou produz pessoas sem independência própria ou indivíduos que forçam a conquista da própria independência por caminhos escusos. Em contrapartida, há também outros pais que, por causa de sua própria fraqueza, são incapazes de opor à criança aquela autoridade da qual precisará mais tarde para adaptar-se corretamente ao mundo (JUNG, 2013a, parágrafo 107a).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">O jovem que consegue renunciar à sua identificação com a saudade da infância e, também, afrouxar a forte ligação com os pais inicia um deslocamento decisivo. Aquilo que antes estava projetado no outro começa, gradualmente, a ser reintegrado à própria psique e, assim, o sacrifício não é apenas perda, é também recuperação. O que se perde em idealização, ganha-se em possibilidade de apropriação subjetiva.</p>



<h2 id="h-a-separacao-aqui-nao-se-refere-a-um-afastamento-concreto-ou-definitivo-mas-a-uma-mudanca-na-qualidade-da-relacao-com-a-retirada-de-projecoes-e-consequentemente-na-humanizacao-das-figuras-parentais" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">A separação, aqui, não se refere a um afastamento concreto ou definitivo, mas a uma mudança na qualidade da relação com a retirada de projeções, e, consequentemente, na humanização das figuras parentais.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, o sacrifício da infância não conduz ao isolamento, mas abre caminho para formas mais complexas de vínculo. Ao renunciar à segurança de uma relação fusionada, o indivíduo torna-se capaz de construir relações menos idealizadas e mais conscientes, com os outros e consigo mesmo, dando início a um processo simbólico de transformação, um movimento em que algo precisa morrer para que outra forma de vida psíquica possa nascer.</p>



<h2 id="h-a-projecao-e-o-trabalho-de-tornar-se-si-mesmo" class="wp-block-heading"><strong>A projeção e o trabalho de tornar-se si mesmo</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Se a adolescência é compreendida como um tempo de transformação dos vínculos, é sobretudo porque ela mobiliza intensamente um mecanismo psíquico fundamental: a projeção. É por meio dela que o jovem, sem saber, organiza sua experiência do outro, ao mesmo tempo que se distancia de aspectos ainda não reconhecidos de si.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na psicologia analítica, a projeção pode ser compreendida como um processo inconsciente pelo qual conteúdos psíquicos que não são reconhecidos como pertencentes ao sujeito são percebidos como estando no outro.</p>



<h2 id="h-nao-se-trata-portanto-de-uma-escolha-consciente-ou-de-uma-distorcao-deliberada-mas-de-um-modo-espontaneo-pelo-qual-a-psique-lida-com-aquilo-que-ainda-nao-pode-ser-integrado-pela-consciencia-do-eu" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Não se trata, portanto, de uma escolha consciente ou de uma distorção deliberada, mas de um modo espontâneo pelo qual a psique lida com aquilo que ainda não pode ser integrado pela consciência do eu.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>A projeção é um mecanismo psicológico geral que carrega conteúdos subjetivos de toda espécie sobre o objeto. Por exemplo, quando se diz: “A cor desta sala é amarela”, trata-se de projeção, porque no próprio objeto não há amarelo; há apenas em nós. Como se sabe a cor é uma experiência subjetiva. O mesmo acontece quando se ouve um som, que é uma projeção, pois o som não existe por si próprio. É o som em minha cabeça, o problema psíquico que eu projetei. [&#8230;] Ninguém pode fazer projeções intencionais e conscientes, pois aí a pessoa saberia que estava projetando os seus conteúdos subjetivos, e por conseguinte não poderia localizá-los no objeto, pois saberia que eles são próprios da pessoa e não do objeto. Na projeção o fato aparente ao qual você está confrontado no objeto na realidade é uma ilusão; mas presumimos que aquilo que observamos no objeto não é subjetivo, mas inerente ao objeto. Eis por que essa ilusão é abolida quando se descobre que os fatos aparentemente objetivos são realmente conteúdos subjetivos. A partir de então tais elementos tornam-se associados com a própria psicologia do indivíduo, não se podendo mais atribuí-los ao objeto (JUNG, 2015, parágrafos 313-314).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse sentido, a projeção está intimamente ligada ao desconhecimento de si. Aquilo que não encontra lugar na consciência, seja por imaturidade, por conflito ou por incompatibilidade com a autoimagem, tende a ser deslocado para fora, ganhando forma na figura do outro. É assim que o mundo relacional se torna, muitas vezes, um espelho da própria interioridade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Durante a infância, esse mecanismo exerce uma função organizadora essencial, pois as figuras parentais tornam-se alvos de conteúdos ampliados. Elas são investidas de saber, poder, segurança, perfeição e, em outros casos, de falha, insuficiência e ameaça. Em ambos os polos, o que está em jogo não é apenas a realidade concreta dos pais, mas o campo simbólico que se projeta sobre eles.</p>



<h2 id="h-e-na-adolescencia-que-esse-arranjo-comeca-a-se-esgarcar-a-medida-em-que-o-eu-se-estrutura-e-a-consciencia-se-amplia-as-projecoes-tendem-a-se-tornar-instaveis" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">É na adolescência que esse arranjo começa a se esgarçar. À medida em que o eu se estrutura e a consciência se amplia, as projeções tendem a se tornar instáveis.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O jovem começa a perceber contradições e constata que os pais falham, hesitam, mostram limites. Esse momento pode ser vivido como decepção, revolta ou distanciamento, mas, do ponto de vista psíquico, ele marca algo decisivo, o início da retirada de projeções.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>As primeiras impressões recebidas na vida são as mais fortes e as mais ricas em consequências, mesmo sendo inconscientes, e talvez justamente porque jamais se tornaram conscientes, ficando assim inalteradas. Apenas na consciência algo pode ser corrigido. O que é inconsciente permanece inalterado. Se quisermos provocar alguma alteração, precisamos passar para a consciência os fatos inconscientes, a fim de podermos submetê-los a uma correção (JUNG, 2013a, parágrafo 260).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Retirar uma projeção não significa simplesmente corrigir uma percepção equivocada sobre o outro. Trata-se de um processo mais exigente, no qual o sujeito é convocado a reconhecer em si aquilo que antes via apenas fora. Pelo fato da projeção se referir justamente a algo que ainda não foi compreendido pela consciência, aquela protege e limita ao mesmo tempo, ou seja, preserva o sujeito do confronto imediato com certos conteúdos, mas também impede sua ampliação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É por isso que a retirada de projeções é considerada, na psicologia junguiana, uma condição fundamental para o desenvolvimento psíquico. Sem esse movimento, o indivíduo permanece preso à relações marcadas por idealizações ou rejeições excessivas, nas quais o outro é menos reconhecido em sua alteridade e mais utilizado como suporte para conteúdos não elaborados.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>Da mesma forma que nos inclinamos a supor que o mundo é tal como o vemos, com igual ingenuidade supomos que os homens são tais como os figuramos. Infelizmente ainda não existe, aqui, uma Física que nos mostre a discrepância entre a percepção e a realidade. Embora seja muito maior a possibilidade de erro grosseiro neste caso, do que nas percepções sensoriais, nem por isto deixamos de projetar nossa própria psicologia nos outros, com toda a tranquilidade. Cada um de nós cria, assim, um conjunto de relações mais ou menos imaginárias, baseadas essencialmente em projeções deste gênero. Nos neuróticos são até mesmo frequentes os casos em que projeções fantásticas constituem as únicas vias possíveis de relações humanas. Um indivíduo que eu percebo principalmente graças à minha projeção é imago (imagem) ou um suporte de imago ou de símbolo. Todos os conteúdos de nosso inconsciente são constantemente projetados em nosso meio ambiente, e só na medida em que reconhecemos certas peculiaridades de nossos objetos como projeções, como imagines (imagens), é que conseguimos diferenciá-los dos atributos reais desses objetos. Mas se não estamos conscientes do caráter projetivo da qualidade do objeto, não temos outra saída senão acreditar, piamente, que esta qualidade pertence realmente ao objeto. Todas as nossas relações humanas afundam em semelhantes projeções [&#8230;] (JUNG, 2013b, parágrafo 507).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Ao retirar projeções, o sujeito não apenas passa a ver o outro com mais realidade, mas também amplia sua própria consciência. Ele se torna capaz de reconhecer em si tanto as qualidades quanto as limitações que antes estavam dissociadas. Esse processo, embora frequentemente desconfortável, é estruturante, pois permite a construção de uma relação mais diferenciada consigo mesmo e com o mundo.</p>



<h2 id="h-da-desidealizacao-a-interdependencia" class="wp-block-heading"><strong>Da desidealização à interdependência</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Muitas vezes, após a queda da idealização, o jovem oscila em direção a uma postura reativa, marcada pela negação da autoridade, pela contestação intensa e pela necessidade de diferenciação. Ainda assim, essa oposição frequentemente mantém uma forma de dependência psíquica, pois o sujeito continua a se configurar em função do outro, já não mais pela submissão, mas pela persistente reação a ele.</p>



<h2 id="h-em-outras-palavras-o-vinculo-permanece-atrelado-ao-eixo-da-dependencia-apenas-invertido" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Em outras palavras, o vínculo permanece atrelado ao eixo da dependência, apenas invertido.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>[&#8230;] ser adolescente pode ser confuso e apavorante, pois muitas coisas nessa fase são novas e frequentemente intensas. Para os adultos, o que os adolescentes fazem pode parecer estranho e até sem sentido. [&#8230;] A visão de que a adolescência é algo que todos devemos suportar é muito limitadora. Na verdade, os adolescentes não precisam apenas sobreviver a essa fase, pois podem florescer justamente devido a ela. O que isso quer dizer? A ideia central é que, de várias maneiras-chave, o &#8220;trabalho&#8221; na adolescência — testar limites e a ânsia de explorar o que é desconhecido e excitante &#8211; pode abrir caminho para o desenvolvimento de características fundamentais do caráter que farão os adolescentes seguirem em frente [&#8230;] (SIEGEL e HARTZELL, 2020, p. 302).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">A interdependência emerge justamente quando a dinâmica dessas relações começa a se naturalizar. Diferente da dependência infantil, em que há necessidade de fusão e sustentação, e também diferente da oposição reativa, em que o sujeito precisa negar o outro para afirmar-se, a interdependência pressupõe diferenciação sem ruptura. Trata-se da capacidade de reconhecer a própria individualidade sem perder a possibilidade de vínculo.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>Embora haja um impulso natural e necessário para se tornar independentes dos adultos que os criaram, os adolescentes ainda se beneficiam dos relacionamentos com adultos. A transição saudável para a fase adulta leva à interdependência, não ao isolamento total. A natureza dos vínculos dos adolescentes com os pais como figuras de apego muda, e os amigos se tornam mais importantes durante essa fase. Em última instância, o ser humano começa a vida dependendo do cuidado dos outros durante a infância, afastando-se dos pais e de outros adultos e aprendendo mais com seus pares durante a adolescência, e depois cuidando e recebendo ajuda dos outros. Isso é interdependência (SIEGEL e HARTZELL, 2020, p. 302-303).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Uma relação interdependente é aquela em que há reciprocidade entre sujeitos diferenciados. O outro já não é vivido como extensão narcísica de si, nem como inimigo a ser combatido para garantir autonomia. Há reconhecimento mútuo de limites, fragilidades, necessidades e singularidades. Assim, o vínculo se torna mais real e consciente porque deixa de ser sustentado predominantemente pelas fantasias inconscientes e passa a apoiar-se na alteridade, na capacidade de reconhecer o outro como efetivamente outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sob esse aspecto, a interdependência não significa regressão à dependência, mas uma forma mais amadurecida de relação. O sujeito torna-se capaz de sustentar a própria identidade, pode receber apoio sem submissão, oferecer cuidado sem anulação de si e manter proximidade sem perder a própria diferenciação psíquica, indicando, assim, o início da jornada da individuação.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>Individuação significa tornar-se um ser único, na medida em que por “individualidade” entendermos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio si-mesmo. Podemos pois traduzir “individuação” como “tornar-se si-mesmo” (Verselbstung) ou “o realizar-se do si mesmo” (Selbstverwirklichung) (JUNG, 2015a, parágrafo 266).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Desse modo, a desidealização dos pais pode abrir caminho para relações mais autênticas, sem conduzir ao afastamento emocional ou ao isolamento. Ao retirar projeções e reconhecer os pais em sua humanidade, o adolescente também se aproxima de sua própria condição humana, promovendo amadurecimento. É justamente nessa passagem que se torna possível a construção de vínculos interdependentes ao mesmo tempo em que emerge um fortalecimento de si, favorecendo, então, o processo de individuação como apontado por Jung, “mediante o qual um homem se torna o ser único que de fato é” (JUNG, 2015a, parágrafo 267).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/cristiane-jageneski-dos-reis/"><strong>Cristiane Jageneski – Membro Analista em formação</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">José Luiz Balestrini Junior – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Desidealizar como rito de passagem na adolescência" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/_4wUD_p8zHk?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:16px"><strong>REFERÊNCIAS</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Imagem: foto de arquivo pessoal</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">FRANKEL, Richard. <em>A psique adolescente: perspectivas junguianas e winnicottianas.</em> Tradução de Claudia Oliveira Dornelles. Petrópolis: Vozes, 2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>O desenvolvimento da personalidade</em>. 14ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">____, Carl Gustav. <em>A natureza da psique</em>. 10ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">____, Carl Gustav.&nbsp; <em>A prática da psicoterapia</em>. 16ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013c.</p>



<p class="wp-block-paragraph">____, Carl Gustav. <em>A vida simbólica</em>. Edição digital. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">____, Carl Gustav. <em>O Eu e o Inconsciente</em>. 27ª ed. Petrópolis: Vozes, 2015a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">____, Carl Gustav. S<em>ímbolos da transformação. </em>Edição digital.Petrópolis: Vozes, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">OUTEIRAL, José Ottoni. <em>Adolescer: estudos sobre adolescência</em>. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SIEGEL, Daniel J.; HARZELL, Mary. <em>Parentalidade consciente: como o autoconhecimento nos ajuda a criar nossos filhos.</em> Tradução de Thais Costa. SP: nVersos, 2020.</p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><a href="https://www.ijep.com.br"><img decoding="async" width="1024" height="488" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/curso-de-introducao-JUNG-1-1-2-1024x488.png" alt="" class="wp-image-13231" style="aspect-ratio:2.098448862919837;width:767px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/curso-de-introducao-JUNG-1-1-2-1024x488.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/curso-de-introducao-JUNG-1-1-2-300x143.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/curso-de-introducao-JUNG-1-1-2-768x366.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/curso-de-introducao-JUNG-1-1-2-150x72.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/curso-de-introducao-JUNG-1-1-2-450x215.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/curso-de-introducao-JUNG-1-1-2.png 1080w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/desidealizar-como-rito-de-passagem-na-adolescencia/">Desidealizar como rito de passagem na adolescência</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Será que é tudo Culpa dos Pais?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sera-que-e-tudo-culpa-dos-pais/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Andreia Guiotti di Gregorio]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 20 May 2026 12:42:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[análise junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[complexos parentais]]></category>
		<category><![CDATA[contemporaneidade]]></category>
		<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[desenvolvimento da personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[educação]]></category>
		<category><![CDATA[inconsciente]]></category>
		<category><![CDATA[maternidade e paternidade]]></category>
		<category><![CDATA[pais e filhos]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[setting analítico]]></category>
		<category><![CDATA[setting terapeutico]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=12956</guid>

					<description><![CDATA[<p>A pergunta “é tudo culpa dos pais?” frequentemente emerge diante do sofrimento psíquico infantil, sustentando uma visão causal e moralizante. A Psicologia Analítica propõe um deslocamento dessa lógica, enfatizando que a influência parental se dá sobretudo em nível inconsciente. Leia o artigo aqui.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/sera-que-e-tudo-culpa-dos-pais/">Será que é tudo Culpa dos Pais?</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>Um olhar junguiano sobre a culpabilidade dos pais na personalidade dos filhos</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo</strong>: A pergunta “<strong>é tudo culpa dos pais</strong>?” frequentemente emerge diante do sofrimento psíquico infantil, sustentando uma visão causal e moralizante. A Psicologia Analítica propõe um deslocamento dessa lógica, enfatizando que a influência parental se dá sobretudo em nível inconsciente. A criança, em estado de participação mística, encontra-se imersa no campo psíquico dos pais, sendo profundamente afetada por seus conflitos não elaborados, afetos reprimidos e vidas não vividas. A compreensão de que o inconsciente dos pais atua como um solo invisível na constituição da psique infantil, desloca a noção de culpa para a de responsabilidade psíquica. Ainda assim, a criança não é determinada exclusivamente por esse campo, sendo também atravessada pelo inconsciente coletivo e pelo seu próprio processo de individuação</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-pergunta-sera-que-e-tudo-culpa-dos-pais-emerge-com-frequencia-tanto-na-clinica-quanto-no-discurso-cultural-contemporaneo" style="font-size:18px"><strong>A pergunta: “Será que é tudo culpa dos pais?” emerge com frequência tanto na clínica quanto no discurso cultural contemporâneo.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Diante do sofrimento psíquico, é comum buscar causas objetivas e responsáveis diretos (e externos). Muito frequentemente, procura-se culpabilizar os pais por todo sofrimento psíquico dos filhos, muitas vezes não levando em conta as dinâmicas inconscientes &#8211; pessoais e coletivas &#8211; que nos tomam a todos de assalto. Essa busca constante por um culpado, no entanto, tende a simplificar a imensa complexidade da alma humana.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-psicologia-analitica-oferece-uma-perspectiva-distinta-dessa-logica-reducionista-causal-e-moralista-deslocando-a-nocao-de-culpa-para-uma-compreensao-simbolica-e-relacional-do-desenvolvimento-psiquico" style="font-size:16px">A Psicologia Analítica oferece uma perspectiva distinta dessa lógica reducionista, causal e moralista, deslocando a noção de culpa para uma compreensão simbólica e relacional do desenvolvimento psíquico.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Jung reconhece a profunda influência dos pais na constituição da psique infantil, mas recusa a ideia de uma determinação mecânica ou de uma culpabilização consciente; até porque ninguém nasce como uma tábula rasa. Para ele, a criança não é afetada apenas pelos comportamentos explícitos dos pais, mas sobretudo pelo estado inconsciente de suas almas. Assim, a questão central deixa de ser a culpa e passa a ser a responsabilidade psíquica. Afinal, <strong>o inconsciente parental atua como um terreno invisível, onde a semente da psique infantil irá, inevitavelmente, germinar</strong>.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:18px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:1.4"><em>Também não está resolvido o assunto se os pais apenas procuram viver de acordo com os valores morais geralmente aceitos, porque o cumprimento de costumes e leis pode servir&nbsp; igualmente para encobrir uma mentira de tal modo sutil que, por isso mesmo, escape à percepção de outras pessoas. (JUNG, 2013, p. 49)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-obra-o-desenvolvimento-da-personalidade-jung-afirma-que-a-crianca-vive-inicialmente-em-um-estado-de-profunda-indiferenciacao-em-relacao-ao-mundo-dos-pais" style="font-size:17px">Na obra “<strong>O Desenvolvimento da Personalidade</strong>”<em>,</em> Jung afirma que a criança vive inicialmente em um estado de profunda indiferenciação em relação ao mundo dos pais.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ele descreve essa condição como uma&nbsp; participação mística, na qual a criança não se percebe como um eu separado. Nesse contexto, os conteúdos inconscientes dos pais, seus conflitos não elaborados, medos, expectativas e frustrações, exercem influência direta sobre a psique infantil. Jung enfatiza que a criança é particularmente sensível não ao que os pais dizem, mas ao que eles são. Nas palavras do autor:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px;line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph"><em>O exemplo é o melhor dos mestres! Isto se verifica aqui como uma verdade, que já a muito é conhecida e que ao mesmo tempo é inexorável. Neste sentido o que importa não são palavras boas e sábias, mas tão somente o agir e a vida real dos pais. (JUNG, 2013, p. 49)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Essa ideia desloca nossa reflexão do campo moral para o campo simbólico e inconsciente, indicando que o sofrimento infantil muitas vezes expressa aquilo que não foi simbolizado ou integrado pelos adultos responsáveis. As crianças, com sua sensibilidade aguçada, ou em termos junguianos, ainda imersas no inconsciente dos pais, frequentemente atuam como &#8220;antenas&#8221; emocionais, absorvendo as tensões não ditas do sistema familiar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-outras-palavras-as-dinamicas-inconscientes-dos-pais-deveriam-receber-uma-maior-atencao-em-favor-da-qualidade-de-vida-dos-filhos-e-ate-certo-ponto-para-lhes-garantir-a-liberdade-de-viverem-suas-proprias-vidas" style="font-size:16px">Em outras palavras, as dinâmicas inconscientes dos pais deveriam receber uma maior atenção em favor da qualidade de vida dos filhos, e até certo ponto, para lhes garantir a “liberdade” de viverem suas próprias vidas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com Jung (2013, p. 52, § 87), via de regra,&nbsp; o fator que atua psiquicamente de um modo mais intenso sobre a criança é a vida que os pais ou antepassados não viveram. Isso nos mostra que nossos sonhos engavetados e frustrações não elaboradas podem se tornar literalmente o “peso nos ombros” da geração seguinte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung é cuidadoso ao falar de culpa moral dos pais. Em seus textos sobre educação e psicoterapia, ele ressalta que muitos adultos carregam complexos não elaborados que inevitavelmente se manifestam na relação com os filhos, sem que haja nenhuma intenção consciente. Em vez de falar de culpa, Jung traz o conceito de responsabilidade psíquica, que não implica acusação, mas o reconhecimento das limitações e dificuldades dos próprios cuidadores.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-assumir-essa-responsabilidade-exige-profunda-coragem-para-olhar-para-dentro-e-acolher-as-proprias-imperfeicoes" style="font-size:17px">Assumir essa responsabilidade exige profunda coragem para olhar para dentro e acolher as próprias imperfeições.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px;line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>Não é importante que os pais nunca cometam erros, isso seria impossível para seres humanos, mas que os reconheçam como erros. Não é a vida que deve ser detida, mas a nossa inconsciência; primeiramente a do educador, isto é, a própria, pois cada um é educador do seu próximo tanto para o bem quanto para o mal. (JUNG, 2013, p. 90, § 155)</em><em></em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nos-que-somos-pais-sentimos-na-pele-a-dificuldade-e-a-bencao-que-e-a-criacao-de-filhos" style="font-size:17px">Nós, que somos pais, sentimos na pele a dificuldade e a bênção que é a criação de filhos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Entendemos, no amor e na dor, que um filho é completamente diferente do outro, e que a mesma educação não traz os mesmos resultados para ambos. Na minha experiência como mãe, tenho duas filhas com uma diferença de seis anos entre elas. Entre os dois nascimentos, vivenciei duas gestações perdidas, episódios de dor que naturalmente deixaram suas marcas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A primeira nasceu com um temperamento completamente diferente da segunda. Claro que as experiências e a visão de mundo delas dependeram de mim: tanto das minhas próprias vivências em diferentes momentos das gestações quanto durante os primeiros anos de suas vidas. A primeira teve sete meses de atenção minha exclusivamente dedicados a ela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A segunda, infelizmente, foi privada dessa atenção exclusiva, uma vez que, aos seus 40 dias de vida, precisei voltar ao trabalho; e, embora minha casa fosse ao lado do trabalho, não pude dar a ela a mesma presença. Mesmo tentando dar a ambas a mesma educação, eu já não era a mesma pessoa seis anos após a primeira gestação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-sentido-fica-evidente-que-todas-as-experiencias-vividas-por-nos-e-pelos-filhos-parecem-determinar-sensibilidades-futuras" style="font-size:16px">Nesse sentido, fica evidente que todas as experiências vividas por nós e pelos filhos parecem determinar sensibilidades futuras.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para mim, se fortalece o conceito de inconsciente coletivo e pessoal quando, independentemente do mesmo estímulo, cada um reage a seu modo. Somado a toda essa revisão do contexto da maternagem se encontram também todas as minhas quinas, curvas e pontos cegos da minha própria personalidade e dos conflitos conscientes e inconscientes que estavam em curso. <strong>Não somos mesmo tábula rasa</strong>; e aqui trago também minha percepção da espiritualidade manifestada em cada um de forma única e autônoma, confirmando que somos singulares e temos, cada um, um <em>dharma </em>a ser cumprido. Essa dimensão espiritual dialoga com o processo de individuação, no qual a alma busca seu propósito e sua totalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Voltando para Jung, ele reconhece a força das influências parentais, mas não considera o indivíduo condenado a elas. Cada um tem seu universo único e trilha seu caminho de evolução de forma independente. O&nbsp; processo de individuação pode representar a possibilidade de diferenciação da psique em relação às imagos parentais e aos complexos herdados. O desenvolvimento da consciência e a percepção de nossa luz e sombra permite uma relação mais honesta com os conteúdos inconscientes. Assim a Psicologia Analítica não busca apontar culpados, mas favorecer a integração simbólica das experiências vividas, possibilitando que o indivíduo assuma sua própria trajetória psíquica. Talvez aqui a pergunta “Será que é tudo culpa dos pais?” se transforme em outra: <strong>O que pode ser conscientizado, elaborado e transformado</strong>?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-capacidade-de-tomar-consciencia-de-nossas-sombras-e-o-primeiro-passo-para-alcancar-a-tao-almejada-evolucao" style="font-size:17px">A capacidade de tomar consciência de nossas sombras é o primeiro passo para alcançar a tão almejada evolução.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Também devemos nos lembrar que a individuação não é um processo linear. Somos apenas humanos e cometeremos erros ao longo do caminho. A escada é infinita e eventualmente daremos passos para trás. Autossabotagem, percursos equivocados, tudo parte do processo evolutivo da nossa longa jornada rumo à individuação. Reconhecer essas falhas, sem autojulgamento destrutivo, é essencial para continuarmos avançando.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-luz-da-psicologia-analitica-a-relacao-entre-pais-e-filhos-revela-se-complexa-simbolica-e-bastante-inconsciente" style="font-size:17px">À luz da Psicologia Analítica, a relação entre pais e filhos revela-se complexa, simbólica e bastante inconsciente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Jung reconhece a profunda influência dos pais no desenvolvimento psíquico dos filhos, mas não abraça explicações simplistas baseadas na culpa. A criança não sofre apenas por falhas objetivas, mas também por aquilo que circula silenciosamente no campo familiar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dessa forma a contribuição junguiana permite uma abordagem não acusatória, na qual pais e filhos são compreendidos como participantes de um processo relacional mais amplo. Nesse sentido, à medida que vamos caminhando rumo a nós mesmos, o processo de individuação traz como possibilidade atravessar e transformar essas heranças, além de proporcionar uma compreensão do outro de maneira mais inteira e respeitosa. Desta maneira, abre-se espaço para uma relação mais consciente e mais empática, que compreende as influências das dimensões inconscientes e o destino psíquico que nos cabe e que cabe ao outro, tomando para nós o que é nosso e devolvendo ao outro o que a ele pertence.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Conduzir a educação dos filhos é, afinal, conduzir o nosso próprio caminho. Percebo que muito mais do que ensinamos aprendemos com eles. Talvez eles não tenham vindo apenas aprender conosco, mas sim nos ensinar a caminhar com mais leveza e finalmente fluir como o rio. Costumo usar a seguinte metáfora na clínica: deite de costas sobre as águas do rio e se deixe flutuar, ele sabe o caminho e inevitavelmente chega lá. Nadar contra a correnteza com certeza não é uma boa ideia!</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📃Artigo novo: Será que é tudo Culpa dos Pais?" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/Fq6ODC5JxKo?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/andreia-guiotti-di-gregorio/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/andreia-guiotti-di-gregorio/">Andreia Guiotti di Gregório &#8211; Membro Analista em Formação do IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi &#8211; Membro Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencia-bibliografica" style="font-size:17px"><strong>Referência bibliográfica</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <em>O desenvolvimento da personalidade</em>. 14. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/sera-que-e-tudo-culpa-dos-pais/">Será que é tudo Culpa dos Pais?</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Crescer dói?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/crescer-doi/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Paula Borba dos Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Mar 2026 21:51:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Desenvolvimento da personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[cg jung]]></category>
		<category><![CDATA[crescer]]></category>
		<category><![CDATA[desenvolvimento da personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[desenvolvimento humano]]></category>
		<category><![CDATA[diferenciação]]></category>
		<category><![CDATA[ego]]></category>
		<category><![CDATA[etapas de crescimento]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[pais e filhos]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[red: crescer é uma fera]]></category>
		<category><![CDATA[self]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=12548</guid>

					<description><![CDATA[<p>A partir de uma leitura simbólica do filme Red: Crescer é uma Fera, este texto busca explorar a pergunta “crescer dói?”. A animação narra a jornada de Mei, uma adolescente que se transforma em um panda vermelho sempre que suas emoções transbordam. Partindo da ideia de que o amadurecimento só se torna possível por meio das relações que estabelecemos com o outro e, sobretudo, por meio do diálogo honesto com as emoções que nos atravessam, a análise utiliza a narrativa da Pixar como pano de fundo para refletir a respeito de quanto o crescimento psíquico exige confronto, coragem e vínculos verdadeiros. Entre rituais de contenção, expectativas parentais e a busca por autenticidade, o filme se revela como uma metáfora potente sobre a força transformadora dos relacionamentos e sobre a importância de libertarmos aquilo que, por medo ou lealdade, mantemos aprisionado dentro de nós.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/crescer-doi/">Crescer dói?</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>RESUMO: </strong>A partir de uma leitura simbólica do filme <em>Red: Crescer é uma Fera</em>, este texto busca explorar a pergunta “crescer dói?”. A animação narra a jornada de Mei, uma adolescente que se transforma em um panda vermelho sempre que suas emoções transbordam. Partindo da ideia de que o amadurecimento só se torna possível por meio das relações que estabelecemos com o outro e, sobretudo, por meio do diálogo honesto com as emoções que nos atravessam, a análise utiliza a narrativa da Pixar como pano de fundo para refletir a respeito de quanto o crescimento psíquico exige confronto, coragem e vínculos verdadeiros. Entre rituais de contenção, expectativas parentais e a busca por autenticidade, o filme se revela como uma metáfora potente sobre a força transformadora dos relacionamentos e sobre a importância de libertarmos aquilo que, por medo ou lealdade, mantemos aprisionado dentro de nós.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-filme-red-crescer-e-uma-fera-2022-e-uma-animacao-da-pixar-sensivel-e-envolvente-que-conta-a-historia-de-mei-lee-uma-adolescente-de-13-anos-que-vivencia-descobertas-e-tensoes-tipicas-desta-etapa-da-vida" style="font-size:18px">O filme <em><strong>Red: Crescer é uma Fera</strong> (2022)</em> é uma animação da Pixar sensível e envolvente que conta a história de Mei Lee, uma adolescente de 13 anos que vivencia descobertas e tensões típicas desta etapa da vida.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Enquanto é surpreendida por mudanças latentes no corpo e no humor, ela também precisa lidar com sua família e com as heranças transgeracionais que compõem sua história. Mais do que uma trama sobre adolescência e seus ritos de passagem, é um convite para observarmos o poder transformador de nos relacionarmos com o outro e com as emoções que nos atravessam a partir desses encontros.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-a-partir-desse-pano-de-fundo-que-este-texto-se-propoe-a-investigar-a-pergunta-titulo-crescer-doi" style="font-size:20px">É a partir desse pano de fundo que este texto se propõe a investigar a pergunta título: crescer dói?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A narrativa apresenta Mei como a filha “perfeita”, profundamente dedicada a corresponder às expectativas dos pais, sobretudo de sua mãe, Ming, cuja postura zelosa, amorosa e controladora organiza toda a dinâmica familiar, enquanto o pai, Jin, cuida e oferece suporte de forma mais discreta. Esse vínculo, marcado por amor, orgulho e pressão, é o terreno onde nasce a tensão central: ao entrar na adolescência, Mei começa a vivenciar desejos e transformações corporais que a afastam da criança obediente que sempre foi. Entre o conforto da infância e o chamado do novo, ela experimenta o primeiro ciclo menstrual e, simultaneamente, descobre que suas emoções mais fortes a fazem transformar-se em um panda vermelho gigante.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Através do Panda Vermelho, a personagem vai nos ensinando que só podemos nos desenvolver psiquicamente dialogando com as emoções que nos compõem e que nossas relações são terrenos férteis para nossa dialética emocional. É no encontro com nossos entes queridos que podemos fazer reencontros e confrontos com as múltiplas e contraditórias partes que nos habitam.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-ensina-gugguenbul-craig-somente-mediante-ao-intercambio-emocional-com-aqueles-com-quem-vive-uma-relacao-de-amor-e-que-uma-nova-dimensao-pode-penetrar-em-seu-mundo-amortecido-guggenbuhl-craig-2004-p-138-139" style="font-size:18px">Como ensina Gugguenbül-Craig: “somente mediante ao intercâmbio emocional com aqueles com quem vive uma relação de amor é que uma nova dimensão pode penetrar em seu mundo amortecido” (GUGGENBÜHL-CRAIG, 2004, p. 138-139).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na teoria, parece simples, e até poético, imaginar essa troca emocional, mas Mei revela o quanto esse processo pode ser assustador quando temos de encarar os aspectos destrutivos e agressivos da nossa própria “fera”. Isso acontece porque relacionar-se exige intimidade com o outro e, antes de tudo, conosco mesmos. Ela evidencia o quanto é difícil aceitarmos nossas partes sombrias e indesejáveis, e como, muitas vezes, fugimos da tarefa de cuidar de nossos vínculos, evitando conversas difíceis. Assim como Mei, quantas vezes não evitamos o confronto em nome de uma suposta harmonia? Talvez por medo de ficarmos vulneráveis, de decepcionarmos quem amamos ou de sermos feridos. E, pouco a pouco, vamos nos tornando menos permeáveis e sensíveis.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É justamente nesse ponto de tensão, quando a tentativa de esconder ou conter o que é doloroso já não se sustenta, que a narrativa avança. Após um episódio marcante na escola, Mei recolhe-se ao quarto, um espaço que, simbolicamente, já não comporta seu novo tamanho nem o peso do que ela tenta esconder. É, então, que seus pais revelam a verdade: o panda é uma herança familiar transmitida de mãe para filha desde a ancestral Sun Yee, que recebeu esse poder como dádiva para proteger sua família durante a guerra. O segredo, enfim, vem à tona, junto da promessa de um ritual que poderá conter a fera na próxima lua vermelha.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-trama-o-panda-vermelho-simboliza-o-que-na-psicologia-junguiana-chamamos-de-complexos" style="font-size:18px">Na trama, o Panda Vermelho simboliza o que, na psicologia junguiana, chamamos de complexos:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"> núcleos emocionais autônomos, carregados de significados, afetos intensos e impulsos que emergem tanto da história pessoal quanto da herança coletiva. Na família Lee, esse legado aparece em explosões emocionais e comportamentos repetitivos, nos quais as mulheres são tomadas pelo panda como se perdessem momentaneamente a própria consciência, um retrato preciso de um complexo constelado. O filme, assim, evidencia a força dos complexos familiares que atravessam gerações e mostra como a família passou a realizar rituais para aprisionar esse espírito em amuletos, numa tentativa de livrar-se desse estado avassalador e impedir que as emoções comandassem suas ações.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa dinâmica soa muito próxima da nossa própria contemporaneidade, em que nos tornamos cada vez mais defendidos e impermeáveis, acreditando que negar ou conter nossas emoções impede o “estrago feito pelo panda”. E é possível compreender o tamanho desse temor, pois, segundo Jung, ao lidar com tais forças, estamos, de certo modo, lidando com a ira de Deus, que ele assim definiu:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>É um nome apropriado para todas as grandes emoções que ocorrem em meu próprio sistema psíquico e que dominam minha vontade consciente, apoderando-se do controle sobre mim mesmo. É por este nome que designo tudo o que se atravessa de forma violenta e desapiedosa, o itinerário por mim traçado; tudo o que subverte minhas concepções subjetivas, meus planos objetivos, e interfere no curso da minha vida, seja para o bem seja para o mal (JUNG,&nbsp; p. 146, 2012).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao longo da narrativa, Mei experimenta na própria pele o quanto é arriscado e trabalhoso “desafiar os deuses”, sobretudo quando isso envolve decepcionar os pais; trata-se do processo de diferenciação descrito pela psicologia analítica, em que o jovem começa a se reconhecer como alguém distinto da família e passa a buscar a própria identidade. À medida que aguarda o dia do eclipse lunar, ela aprende a se relacionar com seu Panda Vermelho, permitindo-se viver suas experiências, conquistando autenticidade e reconhecendo-se no mundo para além do olhar materno.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-movimento-descobre-que-incorporar-o-urso-tambem-traz-ganhos-torna-se-popular-na-escola-e-recebe-o-afeto-incondicional-das-amigas" style="font-size:18px">Nesse movimento, descobre que incorporar o urso também traz ganhos: torna-se popular na escola e recebe o afeto incondicional das amigas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O ponto de virada surge quando decide ir ao show de sua banda preferida, mesmo sem a aprovação dos pais, trabalhando para juntar o dinheiro necessário para os ingressos, uma metáfora clara de que toda transformação exige esforço e tem um preço. E, ao afirmar que “não é um simples show, é um portal para a vida adulta”, Mei ecoa uma imagem que Jung também propõe, ao comparar a passagem da infância para a adolescência a um verdadeiro nascimento:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>No estágio infantil da consciência, ainda não há problemas; nada depende do sujeito, porque a própria criança depende inteiramente dos pais. É como se não tivesse nascido ainda inteiramente, mas se achasse mergulhada na atmosfera dos pais. O nascimento psíquico e, com ele, a diferenciação consciente em relação aos pais só ocorrem na puberdade, com a irrupção da sexualidade. A mudança fisiológica é acompanhada também de uma revolução espiritual. Isto é, as várias manifestações corporais acentuam de tal maneira o eu, que este frequentemente se impõe desmedidamente (JUNG, 2013a, p. 346-347).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A imagem do parto como metáfora para o nascimento psíquico da adolescência é profundamente rica. Do ponto de vista do bebê, podemos imaginar o desconforto de não caber mais naquele espaço antes seguro e acolhedor, que, de repente, se torna estreito e insuficiente. Para nascer, ele precisa se lançar por um canal apertado rumo a um mundo vasto, com muita claridade e completamente desconhecido.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">As contrações que impulsionam essa passagem são dolorosas, inevitáveis e requerem esforço mútuo; tanto mãe quanto bebê dependem de se renderem ao fluxo natural da vida. E, do ponto de vista materno, o parto natural é uma experiência de dor visceral, que exige entrega absoluta e deixa marcas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-assim-o-nascimento-do-adolescente-tambem-nao-sera-indolor-pais-e-filhos-atravessam-tensoes-intensas-e-o-processo-nao-termina-no-parto" style="font-size:18px">Assim, o nascimento do adolescente também não será indolor: pais e filhos atravessam tensões intensas, e o processo não termina no parto.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Depois dele, existe o desafio de adaptação: o bebê precisa aprender novas formas de respirar e alimentar-se, enquanto a mãe enfrenta o puerpério, um período emocionalmente denso e exigente. Da mesma maneira, a entrada na adolescência inaugura um novo modo de existir, que demanda força, coragem e um reajuste honesto do vínculo entre pais e filhos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É nesse contexto simbólico que surge o segundo grande conflito da trama: Mei descobre que o show de sua boyband favorita acontecerá exatamente no dia do ritual destinado a aprisionar seu panda. Essa “coincidência” a obriga a encarar uma escolha inevitável entre lealdade à família e seu próprio rito de passagem. É impossível ter as duas coisas ao mesmo tempo. Inicialmente inclinada a seguir o ritual, ela se sensibiliza com a atitude do pai, que lhe mostra gravações em que aparece feliz com as amigas e revela que o panda de Ming, sua mãe, era muito mais destrutivo, carregando uma ferida antiga.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-reconhecer-essa-historia-e-validar-a-singularidade-da-filha-o-pai-atua-como-uma-especie-de-guia-interno-ajudando-a-a-perceber-que-pode-e-precisa-decidir-a-partir-de-si-mesma" style="font-size:18px">Ao reconhecer essa história e validar a singularidade da filha, o pai atua como uma espécie de guia interno, ajudando-a a perceber que pode, e precisa, decidir a partir de si mesma.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao crescer, os filhos inevitavelmente rompem expectativas, e isso dói nos pais. Ming expressa essa dor de forma explosiva quando Mei abandona o ritual e escolhe manter seu panda para ir ao show, surgindo como um panda colossal que simboliza sua fúria e medo. No confronto final, mãe, filha, avó e tias entram juntas em uma espécie de floresta mágica (o inconsciente familiar), onde encaram feridas herdadas e aceitam que Mei seguirá com seu panda.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse processo, Ming reconhece o peso de ter vivido para agradar a própria mãe e, ao soltar essa exigência, permite que Mei faça escolhas mais autênticas. A separação é dolorosa, mas necessária: Mei sustenta sua decisão apesar do medo, e Ming&nbsp; suporta o corte simbólico do cordão umbilical. Por fim, ao encontrar a ancestral que originou o panda, Mei pergunta se pode se arrepender, mas recebe apenas um abraço afetuoso e silencioso, um chamado para confiar em si mesma, mesmo diante do desconhecido.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-crescer-afinal-e-um-caminho-sem-retorno-uma-vez-ampliada-a-consciencia-nao-e-possivel-voltar-ao-estado-anterior" style="font-size:18px">Crescer, afinal, é um caminho sem retorno; uma vez ampliada a consciência, não é possível voltar ao estado anterior.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E é exatamente isso que vemos ao final do filme: Mei emerge mais autêntica e serena, capaz de ressignificar o panda e, com isso, romper o padrão familiar que a aprisionava. Agora, ela dialoga com suas emoções, nem se submete cegamente a elas, nem tenta eliminá-las. Sua mãe também cresce: guarda o espírito do Panda em um novo amuleto, um bichinho virtual que precisa ser cuidado e alimentado. O Panda, antes preso num pingente rígido e silencioso, passa a ter espaço para se relacionar com ela, que, por sua vez, deve sustentar esse vínculo vivo. Afinal, “<em>quando duas pessoas se encontram, suas psiques se defrontam em sua totalidade; o consciente e o inconsciente, o dito e o não dito, tudo afeta o outro</em>” (GUGGENBÜHL-CRAIG, 2004, p. 50).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-fim-com-o-longa-metragem-testemunhamos-a-forca-do-crescimento-individual-e-familiar-que-emerge-de-um-processo-amoroso-e-doloroso-de-mudanca-crescer-so-e-possivel-a-partir-das-relacoes-e-da-coragem-de-transgredir-e-doi-mas-vale-a-pena" style="font-size:18px">Por fim, com o longa-metragem, testemunhamos a força do crescimento individual e familiar que emerge de um processo amoroso e doloroso de mudança. <strong>Crescer só é possível a partir das relações e da coragem de transgredir e dói, mas vale a pena</strong>!</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É um trabalho para toda a vida, aqui ilustrado na turbulência sagrada da adolescência e no impacto que ela provoca no universo parental. Encerro refletindo se o nosso maior desafio é lançar dos amuletos que nos aprisionam ou anestesiam, das antigas formas de proteção que já não nos servem para libertar o espírito do nosso próprio Panda, portanto, o convite permanece no ar: o que ainda mantemos aprisionado em nós, acreditando ser segurança, mas que, na verdade, impede o nosso crescimento?</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: Crescer Dói?" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/2bi7x24762E?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/paula-borba-dos-santos/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/paula-borba-dos-santos/"><strong>Paula Borba dos Santos</strong> &#8211; <strong>Analista em formação pelo IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/mgloriagmiranda/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/mgloriagmiranda/">Glória G. de Miranda &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias-bibliograficas" style="font-size:19px"><strong>Referências bibliográficas:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">BENEDITO, Vanda. <strong>Desafios à Terapia de Casal e de Família</strong>: Olhares junguianos da clínica contemporânea. 1. ed. São Paulo, Summus Editorial, 2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GUGGENBÜHL-CRAIG, Adolf.<strong> O Abuso do Poder na Psicoterapia.</strong> 1. ed. São Paulo, Paulus, 2004.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <strong>Escritos diversos</strong>: Psicologia e Religião Ocidental e Oriental. 3. ed. Petrópolis, Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp; <strong>A natureza da Psique.&nbsp; </strong>10. ed. Petrópolis, Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.<strong>Civilização em Transição.&nbsp; </strong>6. ed. Petrópolis, Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <strong>O Desenvolvimento da Personalidade. </strong>14. ed. Petrópolis, Vozes, 2013c.</p>



<p class="wp-block-paragraph">RED: crescer é uma fera. Direção: Domee Shi. Produção: Lindsey Collins. [<em>S. l.</em>]: Pixar Animation Studios; Walt Disney Pictures, 2022. 1 filme (aprox. 100 min), son., color.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/crescer-doi/">Crescer dói?</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>À procura do pai no parceiro amoroso</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-procura-do-pai-no-parceiro-amoroso/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Cristiane dos Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Oct 2025 19:12:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[complexo paterno]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[blog ijep]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[cgjung]]></category>
		<category><![CDATA[educação]]></category>
		<category><![CDATA[figura paterna]]></category>
		<category><![CDATA[IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[pai]]></category>
		<category><![CDATA[pais e filhos]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=11337</guid>

					<description><![CDATA[<p>Resumo: Esse texto foi fundamentado no livro O Desenvolvimento da Personalidade, de Carl Gustav Jung e apesar de abordar um recorte feminino, a problemática é análoga à vivência masculina, ou seja, o homem procurando sua mãe na parceira amorosa. O intuito dessas linhas é convidar o leitor à reflexão de como estamos conduzindo a educação [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-procura-do-pai-no-parceiro-amoroso/">À procura do pai no parceiro amoroso</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.6"><strong>Resumo</strong>: Esse texto foi fundamentado no livro <em>O Desenvolvimento da Personalidade,</em> de Carl Gustav Jung e apesar de abordar um recorte feminino, a problemática é análoga à vivência masculina, ou seja, o homem procurando sua mãe na parceira amorosa. O intuito dessas linhas é convidar o leitor à reflexão de como estamos conduzindo a educação de nossas crianças. Visa também a conscientização de como pequenas atitudes, que muitas vezes julgamos inofensivas, podem provocar danos profundos à psique de nossas crianças e que repercutirão durante a vida toda. É um chamado à introspecção e à análise sobre qual terreno estamos edificando as nossas relações e que tipo de herança estamos deixando para as futuras gerações. Boa leitura!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tudo-aquilo-que-quisermos-mudar-nas-criancas-devemos-primeiro-examinar-se-nao-e-algo-que-e-melhor-mudar-em-nos-mesmos-jung"><strong><em>“Tudo aquilo que quisermos mudar nas crianças, devemos primeiro examinar se não é algo que é melhor mudar em nós mesmos.” Jung</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Nos meus atendimentos comecei a perceber um padrão recorrente em algumas de minhas clientes e durante a anamnese pude perceber que elas estavam vivenciando uma dinâmica familiar herdada nos primeiros anos da vida e até durante a gestação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Traições, relacionamentos tóxicos e abusivos, agressividade, drogadicção, sensação de não serem ouvidas ou validadas, desrespeito e comportamentos que impactavam a autoestima eram questões constantemente narradas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Durante a anamnese comecei a perceber que essa vivência era muito familiar, pois, quando crianças, haviam presenciado essa estrutura emocional em seus lares e que atualmente, de forma inconsciente, estavam replicando esse padrão comportamental em suas vidas.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>A criança tem uma psicologia singular. Assim como o seu corpo, durante a vida embrionária, é uma parte do corpo materno, também sua mente, por muitos anos, constitui parte da atmosfera psíquica dos pais. </p><cite>(JUNG, 2013, p. 84)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung destaca com essa afirmação que a maneira de viver dos pais influencia profundamente na formação da personalidade da criança e que a atmosfera familiar molda e determina o direcionamento que essa pessoa dará à sua vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung (2013, p. 60) diz que durante a infância a consciência vai se formando por um agrupamento gradual de fragmentos e que esse processo dura a vida inteira, mas que a partir da puberdade, vai se tornando cada vez mais lento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">É devido à esta constatação que se diz que a primeira infância é a época propícia para incutir crenças e valores nas crianças, além de corrigir tendências nocivas que por ventura elas apresentem.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Esse é o momento em que as sementes lançadas encontram as condições mais promissoras para fecundação e crescimento.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>&#8230; o que importa não são palavras boas e sábias, mas tão somente o agir e a vida real dos pais. Também não está resolvido o assunto se os pais apenas procuram viver de acordo com os valores morais geralmente aceitos, porque o cumprimento de costumes e leis pode servir igualmente para encobrir uma mentira de tal modo sutil que, por isso mesmo, escape à percepção de outras pessoas. </p><cite>&nbsp;(JUNG, 2013, p. 49)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-nos-convoca-a-necessidade-de-uma-atitude-etica-verdadeira-e-transparente-em-nossas-relacoes" style="font-size:19px">Jung nos convoca à necessidade de uma atitude ética, verdadeira e transparente em nossas relações.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ele nos convida à inteireza, com a integração dos aspectos luminosos e sombrios de nossa personalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essa é uma questão muito complexa, pois, para se ter uma relação realmente harmoniosa, exige-se do casal, primeiramente, uma sinceridade consigo mesmo e depois com o parceiro. É essencial desnudar-se e entrar na relação de forma inteira, sem subterfúgios, manipulações ou falsas promessas.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Coisas que pairam no ar ou que a criança percebe de modo indefinido, a atmosfera abafada e cheia de temores e apreensões, tudo isso penetra lentamente na alma da criança, como se fossem vapores venenosos.</p><cite>(JUNG, 2013, p. 139)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Não adianta querer representar uma relação do tipo “<strong><em>família margarina</em></strong>”, pois o inconsciente da criança, como diz Jung: “<strong><em>constitui parte da atmosfera psíquica dos pais</em></strong>” e está à espreita, vendo e registrando tudo o que acontece, para no futuro balizar suas escolhas baseadas nessas impressões.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essas-escolhas-acontecem-de-forma-inconsciente-pois-como-o-padrao-esta-incutido-na-psique-essas-pessoas-vao-atrair-para-suas-vidas-parceiros-e-circunstancias-similares-como-se-fossem-um-ima" style="font-size:19px">Essas escolhas acontecem de forma inconsciente, pois, como o padrão está incutido na psique, essas pessoas vão atrair para suas vidas, parceiros e circunstâncias similares, como se fossem um ímã.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">&nbsp;Os amores não vivenciados, as mentiras ocultadas, as emoções veladas, os desejos reprimidos e as verdades não verbalizadas pelos pais são captadas pelo inconsciente da criança, que dependendo do grau de ligação a eles, influenciará as escolhas em sua vida, no caso dos relacionamentos amorosos, a pessoa buscará um parceiro com tendências idênticas ou diametralmente opostas.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Em regra, a vida que os pais podiam ter vivido, mas foi impedida por motivos artificiais, é herdada pelos filhos, sob uma forma oposta. Isto significa que os filhos são forçados inconscientemente a tomar um rumo na vida que compense o que os pais não realizaram na própria vida. </p><cite>(JUNG, 2013, p. 49)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-verificamos-assim-que-o-padrao-energetico-do-parceiro-escolhido-esta-estritamente-vinculado-a-energia-psiquica-do-modelo-de-pai-que-essa-mulher-teve" style="font-size:19px">Verificamos assim que o padrão energético do parceiro escolhido está estritamente vinculado à energia psíquica do modelo de pai que essa mulher teve.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Não é uma questão de azar, ou de dedo podre, ou gostar de sofrer, essa escolha é fruto de uma “<em>infecção que se dá por via indireta, fazendo com que os filhos assumam uma atitude em relação ao estado de espírito dos pais: ou reagem em defesa própria por meio de um protesto mudo, ou se tornam vítimas de uma coação interna de imitação, que os paralisa psiquicamente</em>.” (JUNG, 2013, p. 89)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-entao-os-pais-devem-ser-perfeitos-para-assegurar-uma-vida-sem-influencias-negativas-aos-seus-filhos-jung-nos-diz-que" style="font-size:19px">Então os pais devem ser perfeitos para assegurar uma vida sem influências negativas aos seus filhos? Jung nos diz que:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>O que importa não é que os pais devam ser perfeitos, a fim de não causarem danos aos filhos. Caso fossem realmente perfeitos, isto seria catastrófico para os filhos, pois neste caso não restaria a estes outra coisa senão o sentirem-se moralmente inferiores; a não ser que preferissem ultrapassar os pais, empregando os mesmos meios que eles, isto é, imitando-os. Mas este último recurso apenas adia a prestação de contas, no máximo até a terceira geração. Os problemas recalcados e os sofrimentos que foram deste modo poupados fraudulentamente na vida produzem um veneno secreto, que penetra na alma dos filhos, mesmo através das paredes mais grossas do silêncio ou do reboco mais duro aplicado sobre os sepulcros, porque passa através de tudo isso como que deslizando de maneira fraudulenta e sobreposta. </p><cite>(JUNG, 2013, p.89)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-como-saio-dessa-situacao" style="font-size:19px">“E como saio dessa situação?”</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>“É possível atrair parceiros diferentes desse padrão?</strong>”</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essas são perguntas que constantemente ouço após a identificação e conscientização dessa dinâmica, desse padrão de atração repetitivo, inicialmente totalmente inconsciente e tão desestruturante.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung (2013, p. 205) diz que esse momento de conscientização pode ser atingido através de vários caminhos, mas que eles obedecem a certas leis. Normalmente essa mudança acontece no início da segunda metade da vida, que é uma fase de fundamental importância psicológica.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>O meio da vida é um tempo de desenvolvimento máximo, quando a pessoa ainda está trabalhando e operando com toda a sua força e todo o seu querer. Mas nesse momento tem início o entardecer, e começa a segunda metade da vida&#8230;. Procura-se encontrar suas motivações verdadeiras e surgem descobertas. O indivíduo consegue conhecer sua peculiaridade por meio da consideração crítica de si próprio e de seu destino. Mas esses conhecimentos não lhe são dados de graça. Chega-se a tais conhecimentos apenas por abalos violentos. </p><cite>(JUNG, 2013, p. 205-206)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Os abalos violentos mencionados por Jung são decorrentes da mudança de paradigma que a pessoa vivencia no entardecer da vida, provenientes da constatação de que aquilo que era importante na primeira metade da vida, agora se mostra insuficiente ou inadequado e que os valores e crenças que alicerçavam sua vida, se tornaram frágeis e insustentáveis.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-aquilo-que-foi-propagado-como-garantia-de-felicidade-nao-produz-preenchimento-interno-nem-tampouco-paz-a-alma" style="font-size:19px">Aquilo que foi propagado como garantia de felicidade não produz preenchimento interno, nem tampouco, paz à alma.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essa fase desperta na pessoa um profundo desejo de tornar-se uno e indivisível.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">É nesse momento que ela percebe que passou muito tempo em sua vida, procurando por alguém que a completasse, que preenchesse o vazio existencial originado na infância, decorrente das situações em que vivenciou o abandono, o abuso, a rejeição, a violência, a inadequação, a falta de afeto e atenção, quando sua voz e vontade foram suprimidas e sua autoestima reprimida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-e-a-hora-de-virar-o-jogo-e-parar-de-projetar-no-parceiro-os-aspectos-desse-pai-ausente-fraco-castrador-devorador-manipulador-abusivo-e-violento" style="font-size:19px">Essa é a hora de virar o jogo e parar de projetar no parceiro os aspectos desse pai ausente, fraco, castrador, devorador, manipulador, abusivo e violento.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Perceber que se faz necessário a ruptura da vontade inconsciente de querer salvar nossos pais, vivendo a vida que eles não conseguiram, para sermos dignos de receber o amor, o afeto, a atenção e a validação deles.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Esse é um processo extremamente desafiador, mas, profundamente libertador.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: &quot;À procura do pai no parceiro amoroso&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/uEZSjeu6wTY?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/cristiane-santos/">Cristiane dos Santos &#8211;  Membro Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/"><strong>Dra. E. Simone Magaldi &#8211; Analista Didata</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:20px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. &nbsp;<em>O Desenvolvimento da Personalidade</em>. 14.ed. Petrópolis: Vozes, 2013</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br"><strong>www.ijep.com.br</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-procura-do-pai-no-parceiro-amoroso/">À procura do pai no parceiro amoroso</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A proeza de ser Independente: filhos criados sob o narcisismo dos pais</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/narciso-e-o-narcisismo-dos-pais/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Patricia Moura Vernalha]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 11 Jul 2023 10:17:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[abuso familiar]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[dependência emocional]]></category>
		<category><![CDATA[família]]></category>
		<category><![CDATA[narcisismo]]></category>
		<category><![CDATA[pais e filhos]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos familiares]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=7886</guid>

					<description><![CDATA[<p>A proeza de ser independente – filhos criados sob o narcisismo dos pais</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/narciso-e-o-narcisismo-dos-pais/">A proeza de ser Independente: filhos criados sob o narcisismo dos pais</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>O narcisismo dos pais é algo desafiador a se lidar. A tarefa de criar filhos ultrapassa as margens de condições ideais e necessárias para o desenvolvimento saudável</em>, <em>passando pela construção de uma educação ancorada em valores</em>. <em>Visando superar obstáculos sombrios e obscuros</em>, <em>que habitam o mais profundo em cada um de nós. </em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Os pais desempenham um papel crucial na formação da personalidade dos filhos. Quando estes pais encontram dificuldades para lidar com seus próprios aspectos negativos, podem desenvolver uma conexão distorcida com a criança no exercício da parentalidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-este-artigo-tem-como-alvo-uma-tentativa-de-explorar-brevemente-questoes-voltadas-as-dificuldades-encontradas-pelos-filhos-filhos-estes-que-apesar-da-responsabilidade-e-ate-mesmo-da-maioridade-podem-se-perder-ao-encontro-da-autonomia-e-seguranca-que-pede-a-vida-adulta" style="font-size:16px"><strong>Este artigo tem como alvo uma tentativa de explorar, brevemente, questões voltadas às dificuldades encontradas pelos filhos</strong>. Filhos estes que, <strong>apesar da responsabilidade e até mesmo da maioridade, podem se perder ao encontro da autonomia e segurança que pede a vida adulta.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O que nos parece ser uma questão voltada a uma dinâmica disfuncional parental no relacionamento com os filhos. Tornando, assim, o alcance da maturidade algo bem distante. Ou seja, esta relação pode estar baseada não somente no autovalor que constituí o individuo – o qual poderíamos chamar de condição narcísica natural, mas também como infortúnio nesse relacionamento, levando a prováveis danos futuros.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-jung-a-personalidade-vai-se-desenvolvendo-ao-longo-da-vida-para-se-constituir-plenamente-na-maturidade-1910" style="font-size:16px">Segundo <strong>Jung</strong>, a personalidade vai se desenvolvendo ao longo da vida, para se constituir plenamente na maturidade (1910).</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para o autor, os temas juvenis se iniciam logo após a puberdade até aproximadamente trinta e cinco anos. Não há aqui o objetivo de discorrer sobre a patologia do transtorno narcisista de personalidade. Nem tampouco fazer dos pais os culpados pelas dificuldades que muitos filhos se deparam no enfrentamento da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mais importante aqui seria farejar a medida certa neste relacionamento, união e diferenciação familiar. Pois, as figuras paternas podem tanto promover o “voo” de seus filhos, lançando-os na vida, como podem criar laços onde os mesmos permanecerão atados. O termo “<strong>narcisismo</strong>” não foi muito usado por Jung. O termo é encontrado somente quatro vezes em sua obra, sendo que três dessas citações são usadas como referência crítica à obra de Freud (JUNG, 2011b, p. 482). </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-conceito-comum-do-narcisismo-que-ha-muito-ocupa-a-atencao-humana-e-a-auto-adoracao-extrema-que-vem-acompanhada-de-uma-indiferenca-que-nega-a-necessidade-de-outra-pessoa-schwartz-1982" style="font-size:17px">O conceito comum do narcisismo que há muito ocupa a atenção humana, é a auto <strong>adoração extrema</strong>, que vem acompanhada de uma indiferença que nega a necessidade de outra pessoa (SCHWARTZ, 1982).</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A palavra faz referência a um mito. O mito de Narciso e Eco foi narrado pelo poeta Ovídio em <em>Metamorfoses</em>, uma de suas obras mais famosas. Segundo o mito, Narciso era belo e vaidoso. Quando nasceu, um dos oráculos chamado Tirésias disse que ele seria muito atraente e que teria vida longa, desde que não conhecesse a si próprio. Entretanto, não deveria admirar sua própria beleza, uma vez que isso amaldiçoaria sua vida. Quando adulto, atraia olhares de muitas pessoas, mas desprezava a todas. Uma das ninfas chamada Eco, apaixonou-se loucamente por Narciso, mas fora rejeitada por ele. A deusa Nêmesis é quem auxilia na vingança. Eco atraiu Narciso para uma fonte que ao se debruçar sobre as águas enxerga sua própria imagem e se encanta por ela. Morre fascinado por si mesmo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-da-relacao-eu-outro-que-trata-o-mito-de-narciso-existindo-esse-outro-dentro-ou-fora-de-nos" style="font-size:18px">É da relação eu-outro que trata o mito de Narciso, existindo esse outro, dentro ou fora de nós.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A maneira que lidamos ao longo da vida com esses outros externos e internos originaram inúmeras concepções sobre o narcisismo</strong> (RUBINI, 2020). Pensando na questão de Narciso e alguns padrões familiares temos que: tanto a relação consigo mesmo quanto com o outro podem levar ao sofrimento e consequências indesejáveis.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quando-na-consciencia-se-vive-uma-realidade-unilateralizada-ou-seja-rigida-e-inflexivel-tal-como-narciso-corre-se-o-risco-de-morrer-sem-contemplar-a-entrega-para-a-vida" style="font-size:17px"><strong>Quando na consciência se vive uma realidade unilateralizada, ou seja, rígida e inflexível tal como Narciso, corre-se o risco de morrer sem contemplar à entrega para a vida</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Chama atenção a <strong>inflexibilidade</strong> que aparece em muitas dinâmicas familiares, quando o comportamento adotado por elas enaltece uma união de modo marcado e unilateralizado. O que gera um campo de força fechado e rígido &#8211; que esconde, por trás de sentimentos como amor e proteção, um egoísmo e, ao que parece, um sistema muito confortável de prisão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesta dinâmica os fatores externos podem ficar sob o jugo de uma realidade psíquica muito inflexível. Neste terreno, as portas podem estar fechadas para todo tipo de diversidade e complexidade, apoiados até mesmo em verdades únicas, distanciando-se mais e mais da alteridade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-medo-pode-ser-uma-questao-importante-neste-ambito-familiar-e-os-integrantes-contagiados-em-maior-ou-menor-grau-tudo-aquilo-que-e-novo-deve-ser-evitado-no-primeiro-momento-ou-vivenciado-sempre-com-muita-cautela" style="font-size:17px"><strong>O medo pode ser uma questão importante neste âmbito familiar e os integrantes contagiados em maior ou menor grau</strong>. Tudo aquilo que é novo deve ser evitado no primeiro momento ou vivenciado sempre com muita cautela.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Além do medo, outra situação relevante seria a dificuldade que estes filhos podem encontrar em vivenciar plenamente suas experiências e aspirações. Pois podem ser “convidados” a testemunhar de muito perto a vida dos pais, participando sempre de todos os conflitos em questão.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:21px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">[&#8230;] <em>Cada um logo compreende aquilo que conseguimos controlar mais ou menos, isto é, a consciência e seu conteúdo, é, no entanto, apesar de todo nosso esforço, ineficiente quando comparado com os efeitos incontroláveis do fundo psíquico. Como então se poderá proteger as crianças contra os efeitos provenientes de si próprio, quando falha tanto a vontade consciente como o esforço consciente? Indubitavelmente será de grande utilidade para os pais saberem considerar os sintomas de seu filho à luz dos seus próprios problemas e conflitos. É dever dos pais proceder assim.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px"><em>Neste particular, a responsabilidade dos pais se estende até onde eles tem o poder de ordenar a própria vida de tal maneira que ela não represente nenhum dano para os filhos. Em geral se acentua muito pouco quão importante é para a criança a vida que os pais levam, pois o que atua sobre a criança são os fatos e não as palavras. Por isso deverão os pais estar sempre conscientes de que eles próprios, em determinados casos, constituem a fonte primária e principal para as neuroses de seus filhos </em></p>
<cite>JUNG,1981, § 84</cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Quando se chega à vida adulta espera-se que o indivíduo tenha condições de iniciar o rumo de sua jornada, mesmo que esta ainda não pareça assim tão evidente. Que consiga discernir entre o que não lhe chama atenção de outros interesses. Que possa farejar seus medos e limitações para poder trabalhar em prol de seu desenvolvimento. Manejando a cada fase, a função judicativa da consciência, para benefício de seu processo de diferenciação dos padrões familiares impostos e até mesmo os sociais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-termos-de-comportamento-e-atitudes-e-muito-comum-que-estes-pais-idealizem-os-filhos-de-acordo-com-suas-expectativas" style="font-size:16px">Em termos de comportamento e atitudes é muito comum que estes pais idealizem os filhos de acordo com suas expectativas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">Estes pais podem se tornar extremamente protetores, inviabilizando fases de descoberta através do abuso de poder ou até mesmo usando do medo e/ou chantagem emocional. Por outro lado, todos estes comportamentos podem ser muito sutis. Desde violação dos limites de privacidade, passando pelo controle das escolhas dos filhos, falta de empatia, exigência constante de atenção e também manipulação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De um modo extremo, podemos ainda falar sobre a demonstração de <strong>inveja</strong> frente às conquistas dos filhos. Com atitudes de boicote e falta de encorajamento; críticas em excesso e dificuldades para elogiar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-calligaris-1996-ha-um-esforco-por-parte-do-individuo-na-satisfacao-do-outro-principalmente-os-pais-com-sua-imagem" style="font-size:18px">Para <strong>CALLIGARIS</strong> (1996) há um esforço por parte do indivíduo na satisfação do outro – principalmente os pais, com sua imagem.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">De certa forma, os filhos podem desenvolver a tendência de sentirem-se culpados por não serem bons o suficiente e tentar a todo custo corresponder às expectativas em troca de admiração, aumentando ainda mais, sentimentos de inferioridade e denegação. Ao invés de olharem para si mesmos podem estar preocupados com seu empenho em balizar o humor dos pais, promovendo alegria e tentando evitar que se sintam frustrados. Aqui podemos encontrar muitas questões ligadas à ansiedade, devido um sentimento de angústia iminente, sempre presente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse <strong>excesso de controle</strong> tende a enfraquecer a relação, levando esses filhos a experimentarem altos níveis de carência, vulnerabilidade e dependência emocional e financeira.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>[&#8230;] Via de regra, o fator que atua psiquicamente de um modo mais intenso sobre a criança é a vida que os pais ou antepassados não viveram ( pois se trata de fenômeno psicológico atávico do pecado original). Esta afirmação poderia parecer algo de sumário e artificial sem esta restrição: essa parte da vida a que nos referimos seria aquela que os pais poderiam ter vivido se não a tivessem ocultado mediante subterfúgios mais ou menos gastos. Trata-se pois de uma parte da vida que – numa expressão inequívoca – foi abafada talvez com uma mentira piedosa. É isto que abriga os germes mais virulentos.</em></p>
<cite>JUNG, 1981§ 87</cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Em algum momento, até mesmo na ausência dos pais, ao se dar conta do tempo passado, terão que lidar com o susto frente às dificuldades e dar continuidade a um caminho que irão &nbsp;seguir, ainda que sem um planejamento prévio e, contabilizando as inseguranças.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-nocao-ou-senso-de-identidade-nos-leva-a-saber-sobre-nos-mesmos" style="font-size:20px"> A noção ou senso de identidade nos leva, a saber, sobre nós mesmos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando passamos muito tempo voltados ao externo, na tentativa de atender os anseios do outro, incorreremos na falta de nos assistir com legitimidade, revelando prováveis falhas de identidade e pouca ou quase nenhuma intimidade como a esfera inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pode-se falar aqui sobre a questão do sentido junguiano da existência ou ausência do poder orientador do Si- mesmo, que é o único capaz de dar á pessoa um sentido de direção e, em última análise, uma percepção de identidade pessoal (SCHWARTZ, 1982).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com o passar do tempo, as ligações parentais vão cedendo espaço a outros tipos de vínculos, tais como sociais, afetivos e profissionais e esta ampliação de apoio emocional é que também vai permitir posteriormente, o processo de individuação, que se inicia na segunda metade da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, espera-se que esses filhos alcancem um desenvolvimento pleno e saudável; que possam usufruir da autonomia que diz respeito à capacidade de se tornar independente, tomar decisões e se responsabilizar por elas. Caminhar na busca de seu verdadeiro” Eu”, integrando na consciência o que estava inconsciente, desenvolvendo suas potencialidades, se tornando único e autêntico.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Apesar de toda a complexidade e possíveis impactos que envolvem o relacionamento entre pais e filhos, a esperança (aquela que não espera passivamente) pode inteirar uma singularidade profunda, muito bem representada pelo” Si- mesmo</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/pmoura/">Patrícia Moura Vernalha – Analista em Formação IJEP</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Diretor e Analista Didata IJEP</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>REFERÊNCIAS</strong>:</h2>



<ul class="wp-block-list">
<li>CALLIGARIS, Contardo. “Essas crianças que amamos demais.”In: Crônicas do individualismo cotidiano. São Paulo: Editora Ática, 1996</li>



<li>JUNG, C.G. O desenvolvimento da personalidade. O.C v. 17. Petrópolis: Vozes [1981]</li>



<li>OVÍDIO<em>. Metamorfoses</em>. São Paulo, 2017</li>



<li>RUBINI, Rosana. Feridas psíquicas, Jung e o narcisismo. Junguiana vol.38 n 1 São Paulo jan./jun.2020</li>



<li>SCHARTZ – SALANT, N. Narcisismo e transformação do caráter: a psicologia das desordens do caráter narcisista. Junguianos – cultrix. São Paulo. 1982</li>
</ul>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="A proeza de ser independente – filhos criados sob o narcisismo dos pais #Shorts" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/QbNoaIR0abI?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Acesso nosso site: <a href="https://www.ijep.com.br/">https://www.ijep.com.br/</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Confira nossos Congressos Junguianos: <a href="https://ijep.pages.net.br/congressos-carl-jung-ijep">https://ijep.pages.net.br/congressos-carl-jung-ijep</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/narciso-e-o-narcisismo-dos-pais/">A proeza de ser Independente: filhos criados sob o narcisismo dos pais</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Mãe, eu te amo, mas amo ainda mais a minha jornada</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/mae-eu-te-amo-mas-amo-ainda-mais-a-minha-jornada/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 13 May 2021 17:55:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[Mãe]]></category>
		<category><![CDATA[Maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[pais e filhos]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[Sair de casa]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=4844</guid>

					<description><![CDATA[<p>Este artigo propõe refletir sobre a simbiose família/mãe/filho e o distanciamento necessário entre eles para o filho ganhar sua autonomia na vida. Buscou-se dados quantitativos para ilustrar o tamanho do fenômeno no Brasil bem como uma análise do conto de Percival, dos ciclos Arturianos.&#160; O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou que nas [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/mae-eu-te-amo-mas-amo-ainda-mais-a-minha-jornada/">Mãe, eu te amo, mas amo ainda mais a minha jornada</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-image is-resized"><img decoding="async" src="https://www.ijep.com.br/img/artigos/artigo_430.jpeg" alt="Mãe, eu te amo, mas amo ainda mais a minha jornada Psicologia Junguiana" width="280" height="460"/></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Este artigo propõe refletir sobre a simbiose família/mãe/filho e o distanciamento necessário entre eles para o filho ganhar sua autonomia na vida. Buscou-se dados quantitativos para ilustrar o tamanho do fenômeno no Brasil bem como uma análise do conto de Percival, dos ciclos Arturianos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou que nas últimas duas décadas indivíduos entre 25 e 34 anos estão considerando cada vez menos sair de casa. No final da década de 1990, 20% dos indivíduos dessa faixa etária morava com os pais; já, no final de 2010, a taxa aumentou para 25%. O IBGE ainda aponta que 60,2% desses jovens são homens.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sair de casa na maioridade é um processo natural do ciclo familiar, apontam Cerveny e Berthoud (2010), pois existe uma necessidade de diferenciar-se da família e buscar autonomia, contudo, parece que esta faixa etária tem modificado o comportamento coletivo. Vale a ressalva que aqui não estamos pensando nesta autonomia como um individualismo e ascensão de carreira, mas como a autonomia integral do ser humano maduro – bio-psico-socio-espiritual: o processo de individuação. Sobre o individualismo, Jung (2013) aponta que “nunca foi um desenvolvimento natural, mas sim uma usurpação contrária à natureza, uma atitude inadequada e impertinente, que muitas vezes se revela oca e sem consistência, por desabar à primeira dificuldade encontrada”. (JUNG, 2013, §292).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cerveny e Berthoud (2010) ainda denominam estes jovens de “Geração Canguru”, devido ao marsúpio, a bolsa epidérmica que&nbsp;cobre a parte dos seios da canguru fêmea, servindo como uma incubadora para os filhotes, na região do ventre, que transporta e protege o canguru filhote.&nbsp;Ferreira, Rezende e Lourenço (2011, p.14) discorrem que fatores como “a comodidade, o conforto, a segurança financeira, um bom padrão de vida, a progressão na carreira profissional são tidos como prioridades” por esses jovens adultos. Mesmo com a preocupação com a carreira, os autores revelam que&nbsp;o consumo desta geração tende à compra de produtos supérfluos – de roupas caras ou em exagero a vídeo games do ano, etc.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Juntando isso à aspiração do individualismo tão estrutural na sociedade por estes jovens e à crítica a este modelo por Jung, pode-se reconhecer que há uma fragilidade psíquica para o enfrentamento das adversidades sociais. Jung (1995, §456) explica que “o medo do mundo e o dos homens causa um recuo maior [&#8230;] o que leva ao infantilismo e à volta ‘para dentro da mãe’”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro fator de grande importância para os filhos permanecerem em casa são os pais que, em sua maioria, não tem discutido, cobrado ou incentivado seus filhos a buscarem autonomia de vida. Como a família é composta por poucos filhos, os pais parecem não sentir tanto o ônus de sustentar mais um indivíduo, abrindo espaço para o adulto que trabalha e tenta subir na carreira com custo zero.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vale ainda somar este fenômeno ao número de crianças e jovens brasileiros que crescem sem seus pais no Brasil. Segundo o Instituto Brasileiro do Direito de Família, 5,5 milhões de crianças e jovens não possuem o nome do pai na certidão de nascimento. Além disso, ainda temos uma infinidade de famílias onde a figura paterna inexiste e os filhos são criados pelas avós ou terceirizados para outros cuidadores ou instituições. Desta forma, este artigo faz um recorte de um segmento socioeconômico menos excluído.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Este exemplo não é único e nem localizado. Pelo mundo existe o fenômeno dos&nbsp;<em>Hikikomori,&nbsp;</em>indivíduos que não saem de casa e não estabelecem contato interpessoal com ninguém, vivendo em seus quartos e conectados na internet, explanado em meu livro “Contágio Psíquico: a loucura das massas e suas reverberações na mídia”. E também, indivíduos que mesmo após saírem de casa buscam no parceiro o vínculo inicial do pai ou da mãe, reconfigurando assim, a estrutura familiar inicial, assim como Jung (1995) aponta:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um indivíduo é infantil porque se libertou insuficientemente ou não se libertou do ambiente da infância, isto é, da adaptação aos pais, razão por que reage perante o mundo como uma criança perante os pais, sempre exigindo amor e recompensa afetiva imediata. Por outro lado, identificado&nbsp; com os pais devido à forte ligação aos mesmos, o indivíduo infantil comporta-se como o pai e como a mãe. (JUNG, 1995, §431)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Se lançarmos o olhar à literatura a fim de encontrar uma lenda, um conto que faça uma homologia ao descrito acima, encontraremos Percival. Percival, de acordo com Chrétien de Troyes, é filho de um nobre cavalheiro morto em batalha e da mulher Heartsorrow. Esta, por sua vez, traduzindo seu nome para o português, é “Tristeza no Coração”. Na lenda, conta-se que ela perdeu seu marido e demais filhos para as batalhas cavalheirescas, tendo que criar Percival sozinha. O jovem era o grande e único vínculo que a mulher possuía, pois ambos viviam isolados na floresta. Sobre Heartsorrow, pode-se conferir Nichíle (2021) refletindo sobre o papel cultural da maternidade ao longo da história e na contemporaneidade. A autora aponta que a cultura patriarcal trouxe a partir do séc. XVIII como positivo o comportamento da mãe demasiadamente protetora e altamente atuante em sua maternagem, sendo ela criticada e condenada caso não cumpra este papel exaustivo, esquecendo-se até sua integralidade bio-psico-sócio-espiritual em prol da maternidade, promovendo as mais variadas frustrações nas mulheres.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Retomando a lenda, Percival encontrava-se em uma grande simbiose com este feminino materno, simbolizado pela floresta e pela sua mãe. Já os jovens e adultos “cangurus” também parecem estar em simbiose com a família de origem. Assim como marsúpio, estes jovens e o próprio Percival permanecem em um estado de passividade e de fantasia. A imagem da Árvore Wak-wak que Jung (1995, p. 251) traz em Símbolos da Transformação ilustra brilhantemente tal simbiose:</p>



<figure class="wp-block-image size-full is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2022/07/image-11.jpeg" alt="" class="wp-image-4845" width="276" height="479" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/07/image-11.jpeg 421w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/07/image-11-173x300.jpeg 173w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/07/image-11-150x260.jpeg 150w" sizes="(max-width: 276px) 100vw, 276px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Não somente a árvore é um símbolo materno, mas também o dragão, monstro que os cavalheiros usualmente enfrentam nas lendas, contos e mitos:&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">o dragão, como imagem materna negativa, exprime a resistência contra o incesto, ou melhor, o medo dele. O dragão e a serpente são os representantes simbólicos do medo das consequências da quebra do tabu, da regressão para o incesto. Por isto é compreensível porque sempre encontramos a árvore com a serpente. A serpente e o dragão têm principalmente o significado de guardiães e defensores do tesouro. Na canção persa antiga de&nbsp;<em>Tishtriya</em>&nbsp;aparece, neste sentido, o cavalo negro&nbsp;<em>Apaosha</em>, que mantém ocupadas as fontes do lago das chuvas. O cavalo branco&nbsp;<em>Tishtriya</em>&nbsp;duas vezes avança em vão contra&nbsp;<em>Apaosha</em>, mas na terceira tentativa, com a ajuda de&nbsp;<em>Ahuramazda</em>, consegue vencê-lo<sup>123</sup>. Abrem-se então as comportas do céu e uma violenta chuva cai sobre a terra<sup>124</sup>. (JUNG, 1995, §395).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pondera-se ainda que a fantasia neste ponto é uma encruzilhada para o indivíduo. Se por um lado ela pode promover um impulso de “ir para a vida” e almejar uma autonomia, isto é, tornar-se um processo psíquico de progressão, por outro, ela também pode manter o indivíduo no estado infantil simbiótico como supracitado, gerando indivíduos não-autônomos, frustrados pois não alcançam suas expectativas pueris, mas aparentemente com uma vida confortável.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já na lenda, Percival encontra cinco cavalheiros que atravessavam a floresta e fica encantado e paralisado com suas armaduras, emergindo assim nele um desejo de tornar-se também um cavalheiro. Conta-se que Percival enfrenta sua mãe e vai à procura de Rei Arthur, exclamando para ela: “<strong>mãe, eu te amo, mas amo ainda mais a minha jornada</strong>”. Sua mãe, contudo, morre de dor pela perda do filho. Esta passagem deve ser lida e apreendida de forma simbólica, tanto para os filhos atuais como para seus pais.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando os jovens adultos saem de casa, eles devem matar, no sentido de transformar, as fantasias e expectativas “perfeitas” e infantis para encontrar assim seus caminhos de vida – diferenciar-se deste mundo ilusório (Maya = Mãe). Perfeitas, afinal, tudo o que está em potência é perfeito: a poesia não colocada no papel é perfeita, diz Fernando Pessoa, ela imperfeiçoa-se ao escrever. Já, mulheres e homens pais deveriam reconhecer que seus papéis enquanto mães e pais foram cumpridos, a fim de transformá-los e ressignificá-los para um outro nível de paternargem e maternagem. Este processo do enfrentamento da fantasia é relatado por Jung (2011) quando aponta que:</p>



<p class="wp-block-paragraph">consiste em entender sua própria fantasia como um verdadeiro processo psíquico, que aconteceu a ele mesmo. Ainda que de certo modo a pessoa olhe para isso como que de fora e sem participação, no entanto ela própria também é a figura que age e sofre no drama da alma. Este conhecimento significa um progresso tão importante quão imprescindível. Enquanto a pessoa apenas olhar para as imagens da fantasia, é ela como o tolo Parcival [&#8230;]. Quando então cessar o fluxo das imagens, tudo se parecerá como se nada houvesse acontecido, ainda que se repita mil vezes o processo. Mas desde que a pessoa reconheça sua participação, então ela deverá entrar no processo com sua reação pessoal, como se ela fosse uma figura da fantasia, ou melhor, como se fosse real o drama que se desenrola diante de seus olhos. E na verdade um fato psíquico o acontecimento dessa fantasia. Ele é tão real como a pessoa é um ser psíquico real. Se a pessoa não realizar esta operação, todas as transformações ficam relegadas para as imagens, enquanto ela própria não se transforma. (JUNG, 2011, §407)</p>



<p class="wp-block-paragraph">O real drama do ego é servir à alma rumo ao processo individuação, isto é, buscar autonomia e integralidade bio-psico-sócio-espiritual: tornar-se quem se é. Ao enfrentar os desafios da vida o indivíduo tem a oportunidade de relativizar e descontruir suas fantasias pueris (muitas vezes heranças dos pais); aprofundar-se em sua própria alma e encontrar no lodo da profundeza o ouro da vida. Este processo também é contado em Percival, quando o rapaz emprenha-se na busca do Santo Graal (Self &#8211; Si-mesmo).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sobre o Santo Graal, historicamente, ressalva-se que vale considerar a lenda de Percival como uma passagem da cultura pagã para o cristianismo, revelando o processo de repressão do feminino visto nos últimos séculos. Loomis (1963) demonstra que o Graal, tão perseguido por Percival, possui uma homologia com o caldeirão da cultura e da mitologia céltica e gaulesa, que oferecia a quem toma-se dele a Vida e livraria o indivíduo da Morte e da Fome.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Retomando, o processo de tornar-se quem se é, assim como no setting terapêutico, faz o “eu” começar a perceber e criar enfrentamentos com sua sombra. Para isso, é necessário que ele não esteja na simbiose materna na posição de acolhido, se não é impossível concluir a obra heroica, isto é, de enfrentar o que ele não aceita em si, bem como a própria imagem da mãe (complexo materno). Por isso mesmo, Jung faz a comparação entre o “Filho da Mãe” humano e simbólico:</p>



<p class="wp-block-paragraph">o “filho de sua mãe”, enquanto apenas ser humano, morre cedo, mas como deus pode realizar o que não é permitido, o sobre-humano, pode cometer o incesto mágico e com isto alcançar a imortalidade. Em muitos mitos o herói não morre, mas em compensação precisa vencer o dragão da morte. (JUNG, 1995, § 394).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Este “morrer cedo” pode ser considerado de forma literal, visto estudos anteriores de&nbsp;<em>puer aeternus</em>, mas também, simbólico: indivíduos que nunca buscaram à autonomia permanecem no&nbsp;<em>uno</em>&nbsp;amedrontados, portanto, não vivem. Não à toa Jung (1995, §315) aponta que “o neurótico que não consegue separar-se da mãe tem boas razões: afinal é o medo da morte que o prende a ela”. Por isso a frase “<strong>Mãe, eu te amo, mas amo ainda mais a minha jornada</strong>” pode parecer dura sob a ótica da contemporaneidade, visto que aí surge o filho ingrato e abandonador, isto é a sombra do “Filho da Mãe”, mas mais do que necessária – preparou Percival para morrer, e, enantiodromicamente, para viver. Se este não abandona, isto é, deixa o bando, ele viverá sempre na sombra materna, acolhido e protegido pelo dragão.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Leonardo Torres &#8211;&nbsp;Membro Analista em Formação no IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">REFERÊNCIAS</p>



<p class="wp-block-paragraph">CERVENY, C. M. O; BERTHOUD, C. M. E. Ciclo vital da família brasileira. In: OSORIO, L.C.; VALLE, M.E. Manual de Terapia Familiar.&nbsp;Porto Alegre: Artmed, 2009, p.25-37.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CERVENY, C.M.O; BERTHOUD, C.M.E et al.&nbsp;Família e ciclo vital: nossa realidade em pesquisa. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2010.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Der Percevalroman (Li contes del Graal) / von Christian von Troyes&nbsp;; unter benutzung des van Gottfried Baist nachgelassenen Handschriftlichen Materials hrsg. von Alfons Hilka. &#8211; Halle&nbsp;: Max Niemeyer, 1932. &#8211; LIV, 808 p. . Frontespizio. Disponível em:&nbsp;<a href="https://ijep.com.br/artigos/show/maternidade-escolha-ou-obrigacao">https://ijep.com.br/artigos/show/maternidade-escolha-ou-obrigacao</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">ESCHENBACH, Wolfram von e Richard Wagner.&nbsp;Parsifal.&nbsp;Editora Nova Acrópole. Lisboa. 1997.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Geração Canguru: Algumas Tendências que Orientam o Consumo Jovem e Modificam o Ciclo de Vida Familiar Patrícia Aparecida Ferreira, Daniel Carvalho de Rezende y Cléria Donizete da Silva Lourenço&nbsp;<a href="http://www.revistaespacios.com/a11v32n01/11320143.html">http://www.revistaespacios.com/a11v32n01/11320143.html</a>&nbsp;Espacios. Vol. 32 (1) 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG. C. G. Desenvolvimento da Personalidade. Petrópolis: Vozes, 2013.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG. C. G. Mysteruim Coniunctionis 14/2. Petrópolis: Vozes, 2011.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG. C. G. Símbolos da Transformação. Petrópolis: Vozes, 1995.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">NÍCHILE, T. Maternidade: Escolha ou Obrigação? Disponível em: https://ijep.com.br/artigos/show/maternidade-escolha-ou-obrigacao</p>



<p class="wp-block-paragraph">Paternidade responsável: mais de 5,5 milhões de crianças brasileiras não têm o nome do pai na certidão de nascimento disponível:&nbsp;em:&nbsp;<a href="https://ibdfam.org.br/noticias/7024/Paternidade+respons%C3%A1vel:+mais+de+5,5+milh%C3%B5es+de+crian%C3%A7as+brasileiras+n%C3%A3o+t%C3%AAm+o+nome+do+pai+na+certid%C3%A3o+de+nascimento">https://ibdfam.org.br/noticias/7024/Paternidade+respons%C3%A1vel:+mais+de+5,5+milh%C3%B5es+de+crian%C3%A7as+brasileiras+n%C3%A3o+t%C3%AAm+o+nome+do+pai+na+certid%C3%A3o+de+nascimento</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">LOOMIS, R. S. The Grail : from Celtic myth to Christian symbol.&nbsp;Mythos, 1963.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Leonardo Torres</em></strong></h4>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/mae-eu-te-amo-mas-amo-ainda-mais-a-minha-jornada/">Mãe, eu te amo, mas amo ainda mais a minha jornada</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A Criança com Câncer, Seus Pais e Espiritualidade</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-crianca-com-cancer-seus-pais-e-espiritualidade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Rita Macieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 19 Mar 2019 19:27:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[Câncer]]></category>
		<category><![CDATA[pais e filhos]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=3571</guid>

					<description><![CDATA[<p>&#160;“A espiritualidade não pode ser esquecida, pois é ela que nos faz humanos” Viktor Frankl Atualmente falamos muito em oferecer tratamento integral para os pacientes. Para isto é necessário também um olhar mais atento ao papel que a família desempenha como agente de cuidados quando um de seus membros adoece. Mais importante ainda, se o [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-crianca-com-cancer-seus-pais-e-espiritualidade/">A Criança com Câncer, Seus Pais e Espiritualidade</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;“A espiritualidade não pode ser esquecida, pois é ela que nos faz humanos”</em></p>
<cite>Viktor Frankl</cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Atualmente falamos muito em oferecer tratamento integral para os pacientes. Para isto é necessário também um olhar mais atento ao papel que a família desempenha como agente de cuidados quando um de seus membros adoece. Mais importante ainda, se o paciente que adoece é uma criança. Desta forma, pensamos sempre em uma unidade de cuidados paciente/família.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Durante a gestação o psiquismo da criança está imerso no psiquismo materno, formando um vinculo que se atenua ao longo da vida, mas que não cessa de existir. Mesmo quando o filho atinge a fase adulta e se encontra a milhares de quilômetros de distância esta ligação se mantém.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando uma criança adoece de câncer, sua vida passa por rápida e intensa transformação, assim como o cotidiano familiar. De um momento para o outro, ela se vê atirada em um hospital, onde é cercada por pessoas estranhas em um ambiente desconhecido, no qual será submetida a uma série de exames e procedimentos invasivos e dolorosos. Independentemente de sua idade e de sua capacidade de compreensão cognitiva da realidade que a rodeia, ela de algum modo se dá conta de que algo grave e temível está acontecendo consigo (Menezes et. al. 2007).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Abalada pela sensação de perda iminente, impotente e vulnerável, a família acompanha a criança na travessia de situações desconhecidas, difíceis e dolorosas. No desejo de oferecer apoio e poupar a criança de um excesso de sofrimento, os familiares experimentam, eles próprios, sentimentos de desamparo, que comprometem seu bem-estar físico, emocional e espiritual.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Auxiliar os pais no comportamento de enfrentamento adequado pode ter efeitos positivos no ajustamento e sobrevida da criança com câncer. Contrariamente, enfrentamento inadequado por parte dos pais está associado à piora dos sintomas de estresse na criança, tais como aumento da ansiedade, perda de esperança, insegurança e aumento da dor. Um programa de auxílio deve levar em consideração as características culturais e as variáveis religiosas da família (Suzuki &amp; Kato, 2003)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Integrar espiritualidade e religiosidade à área da saúde física e mental tem inspirado muitas pesquisas que atestam os benefícios desta integração. Pacientes e familiares, ameaçados na sua existência, precisam encontrar no profissional de saúde que os assiste, a possibilidade de recuperar sua saúde física, psicológica, emocional e também a saúde existencial, lembrando que a espiritualidade faz parte da existência humana.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As manifestações de religiosidade e de espiritualidade de crianças com câncer&nbsp;&nbsp;e de seus familiares, no decorrer do tratamento, que aparecem permeadas por situações de crise originadas pelos sofrimentos que a doença impõe, pela instabilidade da vida que pode ficar &#8220;por um fio&#8221; ou se acabar, pela apreensão e medos de diferentes ordens, dentre os quais o medo da morte, é uma realidade no hospital (Valle, 2006).&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para a autora acima, a possibilidade de morte de um filho ameaça a função da paternidade&#8230; Significa uma perda de parte de si mesmo. E é em Deus e na religião, freqüentemente, que os pais se refugiam, que eles buscam apoio para conseguir uma compreensão para o que está acontecendo e para conseguir dar continuidade à sua vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muitos estudos demonstram associação positiva entre espiritualidade e religiosidade, sendo que a maioria desses aponta para melhores indicadores de saúde mental e adaptação ao estresse em pessoas que praticam atividades ditas religiosas (Moreira-Almeida; Lotufo Neto e Koenig, 2006). Desta forma, atender aos aspectos da espiritualidade se torna cada vez mais necessário na prática de assistência à saúde, o que justifica sua integração no trato com pacientes e familiares.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De fato, crenças espirituais costumam ser uma fonte importante de conforto e apoio para muitos pacientes com câncer e suas famílias, mas elas podem desempenhar um papel particularmente grande quando o paciente é uma criança. Os pais que enfrentam uma doença grave e possível morte de um filho, e as próprias crianças tentando encontrar um sentido para a doença, para o sofrimento e a morte, muitas vezes voltam seu olhar para além do mundo material na busca de conforto e explicações. Pais de crianças e de adolescentes com câncer podem encontrar na espiritualidade o apoio fundamental necessário ao processo de&nbsp;enfrentamento.&nbsp;&nbsp;A espiritualidade imprime significado ao adoecimento e auxilia na identificação de forças para enfrentar as dificuldades advindas do sofrimento e da morte, qualquer que seja a religião da família.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Interessante pesquisa qualitativa foi feita no Brasil, com o objetivo de se conhecer a relação entre as experiências de nove famílias de diferentes religiões, que vivenciaram a experiência de ter uma criança gravemente doente e sua religião, doença e histórias de vida (Bousso, Serafim e Misk, 2010). Como resultado observou-se que as narrativas evidenciaram a busca pelas famílias, qualquer que fosse sua religião, por atribuir significados às experiências vivenciadas, a partir de suas crenças religiosas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Para Peres et al (2007),&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cada vez mais a ciência se curva diante da grandeza e da importância da espiritualidade na dimensão do ser humano. Ser humano é buscar significado em tudo que está em nós e em nossa volta, pois somos seres inacabados por natureza e estamos sempre em busca de nos completar. A transcendência de nossa existência torna-se a essência de nossa vida à medida que esta se aproxima do seu fim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Embora a literatura nos sugira que a busca de significado e propósito de uma doença costuma ser freqüente, ainda nos é difícil avaliar sobre em que medida a doença infantil provoca angustia existencial dos pais ou sobre como estes podem encontrar sentido nesta experiência. E será em sua espiritualidade que muitos se encontrarão forças para resistirem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Podem os médicos colaborar com os pais de crianças com câncer em suas buscas de sentido e significado? As pesquisas mostram que para muitos médicos que cuidam de pacientes terminais uma preocupação cada vez mais importante é o bem-estar espiritual e o senso de significado e propósito na vida daqueles sob seus cuidados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os médicos e todos da equipe de saúde podem ser capazes de auxiliarem a formulação da paz de espírito e senso de controle, ao darem aos pais informações médicas de alta qualidade, incluindo informações acerca dos prognósticos, mas também suportando ouvir e facilitando aos pais manterem-se confiantes em suas crenças. As crenças podem ter um efeito profundo em suas vidas e escolhas para o cuidado (Mack et al. 2009).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Peres et. al.(2007), a psicoterapia baseada na linha integrativa transpessoal ou com enfoque existencial também pode ser uma ferramenta eficaz no auxílio ao paciente e/ou sua família que procura resolver aspectos relacionados ao significado e ao propósito da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Mestre Rita de Cassia Macieira</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Professora do IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referencias:&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Bousso, RS., Serafim TS., Misk MD. Histórias de vida de familiares de crianças com doenças graves: relação entre religião, doença e morte.&nbsp;Rev. Latino-Am. Enfermagem 18(2):[07 telas]mar-abr 2010</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mack, JW.; Wolfe, J.; Cook, EF.; Grier, HE.; Cleary PD.; Weeks, JC.. Peace of Mind and Sense of Purpose as Core Existential Issues Among Parents of Children With Cancer.&nbsp;Arch Pediatr Adolesc Med. 2009;163(6):519-524. DOI: 10.1001/archpediatrics.2009.57</p>



<p class="wp-block-paragraph">Menezes CNB; Passareli PM; Drude FS; Santos MA; Valle ERM. Câncer infantil: organização familiar e doença. Rev. Mal-Estar Subj. v.7 n.1 mar. 2007</p>



<p class="wp-block-paragraph">Moreira-Almeida, A.; Lotufo Neto, F.; Koenig, H.G. &#8211; Religiousness and mental health: a review.&nbsp;<em>Rev Bras Psiquiatr&nbsp;</em>28(3):242-250, 2006</p>



<p class="wp-block-paragraph">Peres, MFP.; Arantes, ACLQ; Lessa, PS; Caous, CA. A importância da integração da espiritualidade e da religiosidade no manejo da dor e dos cuidados paliativos. Rev. psiquiatr. clín. vol.34&nbsp;&nbsp;suppl.1 São Paulo&nbsp;&nbsp;2007 doi: 10.1590/S0101-60832007000700011&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Suzuki LK, Kato PM.&nbsp;Psychosocial support for patients in pediatric oncology: the influences os parents, schools, peers and technology.&nbsp;J Ped Onc Nurs, 2003; 20(4):159-174</p>



<p class="wp-block-paragraph">Valle ERM. O câncer na criança e as manifestações da espiritualidade. Boletim III(2) Soc Bras Psico-Oncologia, 2005. Disponível em&nbsp;<a href="http://www.virtuotech.com.br/download/webanexoslink/sbpo-105/edicoes/III-002.htm">http:///www.virtuotech.com.br/download/webanexoslink/sbpo-105/edicoes/III-002.htm</a></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-crianca-com-cancer-seus-pais-e-espiritualidade/">A Criança com Câncer, Seus Pais e Espiritualidade</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
