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	<title>Arquivos Patriarcado - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos Patriarcado - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>FELIZ DIA DOS PAIS &#8211; ENTRE O PRESENTE, A PRESENÇA E A AUSÊNCIA</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/feliz-dia-dos-pais-entre-o-presente-a-presenca-e-a-ausencia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 04 Aug 2026 19:40:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[complexo paterno]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Atualmente vivemos sob o signo de um paradoxo avassalador. De um lado, um patriarcado abstrato e onipresente, que governa através do poder tecnológico e dos algoritmos do mercado financeiro dominados por um pai-máquina que tudo controla e nada abraça. De outro, uma ausência de paternagem que deixa um vazio ensurdecedor nos lares. Esta não é apenas a falta de um corpo, mas a do amparo que guia e fortalece. No lugar do pai amoroso, impera a sombra de uma estrutura tirânica que, por sua própria rigidez, gera uma geração de órfãos de pais vivos, com a alma marcada pela tristeza, o abandono e a rejeição.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/feliz-dia-dos-pais-entre-o-presente-a-presenca-e-a-ausencia/">FELIZ DIA DOS PAIS &#8211; ENTRE O PRESENTE, A PRESENÇA E A AUSÊNCIA</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No Brasil, o Dia dos Pais é comemorado anualmente no segundo domingo de agosto. A data foi criada em 1953 pelo publicitário Sylvio Bhering, diretor do jornal <em>O Globo</em>, com o objetivo inicial de homenagear os pais e movimentar o comércio no segundo semestre. O primeiro &#8220;Dia dos Pais&#8221; ocorreu em 16 de agosto de 1953, dia que coincidia com a festividade de São Joaquim, pai da Virgem Maria e avô de Jesus, considerado um símbolo patriarcal na tradição católica. Nos anos seguintes, a celebração foi transferida para o segundo domingo do mês, para facilitar a reunião das famílias no fim de semana.</p>



<h2 id="h-atualmente-vivemos-sob-o-signo-de-um-paradoxo-avassalador" class="wp-block-heading" style="font-size:18px"><strong>Atualmente vivemos sob o signo de um paradoxo avassalador.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">De um lado, um patriarcado abstrato e onipresente, que governa através do poder tecnológico e dos algoritmos do mercado financeiro dominados por um pai-máquina que tudo controla e nada abraça. De outro, uma ausência de paternagem que deixa um vazio ensurdecedor nos lares. Esta não é apenas a falta de um corpo, mas a do amparo que guia e fortalece. No lugar do pai amoroso, impera a sombra de uma estrutura tirânica que, por sua própria rigidez, gera uma geração de órfãos de pais vivos, com a alma marcada pela tristeza, o abandono e a rejeição.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Há muito tempo se sabe que o exemplo é o melhor dos mestres embora seja também o mais cruel, porque não admite ensaio nem edição de cortes. A criança não lê o nosso roteiro, porque ela assiste ao nosso filme ao vivo, sem filtro, sem legenda, sem classificação indicativa. Por isso, precisamos estar conscientes das referências e exemplos que transmitimos aos nossos filhos, não com palavras bonitas e sábias, que qualquer orador de palanque entoa com maestria, mas tão-somente com o agir e a vida real dos pais e da sociedade.</p>



<h2 id="h-neste-sentido-importa-distinguir-concepcao-de-filiacao" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Neste sentido, importa distinguir concepção de filiação.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A primeira é um ato biológico rápido, instintivo, às vezes até acidental. A segunda é um ato social, cultural, espiritual, que é longo, deliberado, exige presença contínua e, sobretudo, coerência. A diferença entre um e outro é a diferença entre plantar uma semente e cultivar uma árvore. Qualquer um pode jogar a semente no chão. Poucos têm paciência de regá-la, podá-la, admirá-la e, principalmente, aceitar que ela cresça num formato diferente daquele que havíamos planejado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A verdadeira paternidade transcende o ato de prover. É uma semeadura na alma, uma jornada de presença consciente que transforma o cotidiano no mais sagrado dos rituais. Construir um legado invisível e eterno não acontece nos grandes gestos, mas na delicadeza das pequenas ações diárias. É no chão sagrado da vida familiar que os conceitos de amor, respeito e responsabilidade se tornam carne e osso, tecendo a herança viva que deixamos em nossos filhos. Este é um chamado profundo ao pai que anseia ser mais do que um provedor, mas um arquiteto do caráter, um poeta da alma e um guardião do bem-estar emocional de seus descendentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">As influências do patriarcado, portanto, advêm tanto dos progenitores biológicos ou adotivos quanto das dimensões sociais e culturais, produzindo semelhanças de atitudes e de valores que vão muito além da mera coincidência. O filho herda não apenas as feições e gestos do pai, mas também o seu silêncio. A sua raiva contida. O seu riso nervoso diante de autoridade. A sua dificuldade de pedir desculpas. Herda, sobretudo, aquilo que o pai jamais disse, mas que o seu corpo, o seu tom de voz e o seu olhar gritaram em surdina.</p>



<h2 id="h-o-psiquismo-que-absorve-tudo-inclusive-o-que-escondemos" class="wp-block-heading"><strong>O psiquismo que absorve tudo — inclusive o que escondemos</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O psiquismo inconsciente da criança é um oceano sem margens, absorvendo não apenas as correntes emocionais da família, mas também o espírito de nosso tempo. Como delicadas antenas, as crianças captam não o teatro das aparências, mas a verdade silenciosa que pulsa em nosso universo interior. Elas absorvem informações que ultrapassam os limites familiares como uma esponja que desconhece a diferença entre água limpa e água contaminada. Captam o espírito da época, o <em>Zeitgeist&nbsp; </em>internalizando valores, medos e desejos coletivos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Com isso, mesmo um pai honrado, que na sua intimidade não se sinta realizado, esteja infeliz ou abrigue sentimentos e desejos obscuros, poderá passar essas informações a seus filhos. Pais que sorriem por fora, mas carregam a infelicidade por dentro, legam essa dissonância a seus filhos. Portanto, o caminho para o bem de um filho começa na jornada de um pai em direção a si mesmo. O maior presente que se pode dar é a própria inteireza, o compromisso inabalável com a própria realização e felicidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Isso porque a alma coletiva está espalhada por toda parte, não como uma nuvem etérea e romântica, mas como uma rede invisível de afetos, preconceitos e angústias que atravessa gerações como herança maldita. A criança percebe não apenas os condicionamentos mais profundos dos pais ou da sociedade, mas também, num âmbito mais extenso, tanto o bem quanto o mal existentes nas profundezas da natureza humana. Ela sente a hipocrisia antes de saber nomeá-la. Pressente a violência antes de presenciar a agressão. E, principalmente, registra tudo, absolutamente tudo, no inconsciente, de onde nada se apaga, apenas se reprime, adormece ou, mais tarde, explode.</p>



<h2 id="h-o-homem-brutalizado-e-a-fabrica-de-filhos-a-sua-imagem" class="wp-block-heading"><strong>O homem brutalizado e a fábrica de filhos à sua imagem</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O homem contemporâneo, cada vez mais brutalizado pelo excesso de competição e pela negação das dimensões espirituais, naturalmente está formando filhos competitivos, acometidos por depressão, hiperatividade, agressividade e vários tipos de compulsões. Filhos de pais que não conseguem parar, que trabalham como autômatos e como se a vida fosse uma roda de hamster sem fim, tornam-se adultos que também não sabem parar. E o ciclo se repete com uma fidelidade trágica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Precisamos repensar nosso estilo de vida e o que desejamos transmitir para nossos descendentes. Da mesma forma, todo adulto, de qualquer gênero, deve começar a ser responsável, conscientemente, pelo arquétipo paterno, não apenas os pais biológicos, mas qualquer pessoa que ocupe um papel de referência, autoridade ou cuidado. É urgente iniciarmos mudanças nos sistemas familiar, social e cultural, objetivando um futuro viável e melhor, com menos exclusão, mais amorosidade e respeito humano e ecológico. Porque nossas atitudes estão colocando em risco todo o planeta, e isso não é metáfora, é realidade ambiental. Toda ação tem reação, e a Terra já está nos cobrando a fatura com juros compostos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A cura reside na integração amorosa dos princípios masculino e feminino. É preciso iniciar uma mudança que floresça de dentro para fora, nos sistemas familiar, social, cultural e espiritual.</p>



<h2 id="h-a-ausencia-que-grita-e-a-presenca-que-oprime" class="wp-block-heading"><strong>A ausência que grita e a presença que oprime</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Aqui chegamos a um dos paradoxos mais dolorosos do nosso tempo: a crescente ausência paterna convive com a presença abusiva, invasiva, sectária, patrimonialista e misógina de um sistema patriarcal retrógrado que se traveste de conservadorismo.</p>



<h2 id="h-nunca-se-falou-tanto-em-valores-familiares-e-nunca-se-abandonou-tanto-a-familia-com-tanta-eficiencia-burocratica" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Nunca se falou tanto em &#8220;valores familiares&#8221; e nunca se abandonou tanto a família com tanta eficiência burocrática.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Os números não mentem, pois são números. No Brasil, cerca de 6,7% dos nascimentos ocorridos entre 2023 e 2024 foram registrados sem o nome do pai. Em 2025, o país registrou 172 mil certidões de nascimento sem o nome do pai. Mais de cem mil crianças entraram no mundo sem sequer ter um nome masculino escrito em sua certidão. É como se o país inteiro dissesse a essas crianças: &#8220;Bem-vinda ao mundo. Metade da tua origem é um espaço em branco.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Adicionalmente, dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que 49,1% das famílias brasileiras são chefiadas por mulheres, o que pode indicar um número significativo de lares sem a presença de uma figura paterna ou masculina como principal responsável. Não se trata de questionar a competência feminina, que é sobejamente heróica, mas de reconhecer que a ausência de um princípio paterno saudável cria um vazio que a mãe, por mais que se dedique, não pode preencher sozinha, porque a função arquetípica paterna é estruturalmente distinta da materna.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E, no entanto, o mesmo sistema que falha em garantir a presença paterna real, afetiva, cotidiana e encarnada, não falha em exercer a sua presença patriarcal simbólica: a que dita corpos, controla autonomias, criminaliza diferenças, patrimonializa a fé e confunde conservação de valores com conservação de privilégios. Um sistema que se diz protetor da família, mas que, na prática, protege apenas a si mesmo, como aquele pai que diz &#8220;isto é para o seu bem&#8221; enquanto pratica o contrário do bem.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A ausência do pai que ama não deveria jamais ser confundida com a presença do sistema que domina. Um é falta. O outro é excesso. E ambos ferem.</p>



<h2 id="h-fogo-e-agua-a-danca-dos-principios" class="wp-block-heading"><strong>Fogo e água — a dança dos princípios</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Embora devamos considerar as configurações familiares contemporâneas, que vão muito além do modelo nuclear heteronormativo, os princípios materno e paterno são essenciais para o desenvolvimento saudável das crianças, independentemente do gênero ou da orientação sexual de seus cuidadores. A mãe simboliza o cuidado e a nutrição -água e terra, o princípio Yin. O pai representa a proteção, os limites e os desafios – ar e fogo, o princípio Yang. O equilíbrio entre esses elementos é vital, pois em harmonia sustentam o crescimento, mas em desarmonia causam danos. Assim como muita água apodrece e pouca fenece, ou como muito sol queima e pouco estagna.</p>



<h2 id="h-na-linguagem-da-psicologia-analitica-de-jung-esses-dois-principios-correspondem-as-dimensoes-que-m-esther-harding-em-the-way-of-all-women-designa-como-eros-e-logos" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Na linguagem da psicologia analítica de Jung, esses dois princípios correspondem às dimensões que M. Esther Harding, em <em>The Way of All Women</em>, designa como Eros e Logos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Eros</strong> é o princípio da relacionalidade, do sentimento, da conexão, é a capacidade de estabelecer vínculos, de sentir o outro, de criar intimidade. É a dimensão tradicionalmente associada ao feminino, à mãe, ao princípio materno que acolhe, nutre e envolve.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Logos</strong> é o princípio da razão, do julgamento objetivo, da discriminação, da lei, é a capacidade de estabelecer limites, de sustentar a frustração, de dizer &#8220;não&#8221; com firmeza e de abrir caminho para a separação e a individuação. É a dimensão tradicionalmente associada ao masculino, ao pai, ao princípio paterno que ordena, protege e desafia.</p>



<h2 id="h-quando-eros-se-expressa-de-modo-saudavel-manifesta-se-como-calor-humano-empatia-profunda-capacidade-de-nutrir-vinculos-autenticos-sensibilidade-estetica-e-espiritualidade-relacional" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Quando Eros se expressa de modo saudável, manifesta-se como calor humano, empatia profunda, capacidade de nutrir vínculos autênticos, sensibilidade estética e espiritualidade relacional.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A mãe que expressa um Eros consciente oferece à criança a experiência fundamental de ser amada não pelo que faz, mas pelo que é. <strong>Um amor incondicional que constitui a base da segurança emocional</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando, porém, Eros se manifesta de modo não saudável, e é aqui que a ausência do princípio paterno se torna particularmente devastadora, ele degenera em reatividade, histeria, fusão indiferenciada, possessividade e identificação inconsciente com o filho. A mãe que carrega sozinha o peso da criação, sem a contrapartida de uma presença que sustente a dimensão do Logos, corre o risco de ser engolida pela própria dimensão Eros que, sem o contraponto organizador do Logos, se torna um mar sem margens.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A criança, por sua vez, absorve não apenas o amor, mas também a angústia, o ressentimento e a exaustão materna pois, como Jung e Harding observam, existe uma <em>participation mystique</em>, uma identificação inconsciente profunda entre mãe e filho, através da qual os problemas psicológicos não resolvidos da mãe afetam diretamente a saúde e o comportamento da criança.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando Logos se expressa de modo saudável, manifesta-se como proatividade, clareza de pensamento, firmeza consistente, capacidade de estabelecer limites que protegem sem aprisionar, e sobretudo como a disposição de sustentar a frustração do filho, aquela qualidade essencial que permite à criança aprender que nem todo desejo deve ser imediatamente satisfeito, que a realidade tem contornos, que existem outros além de si mesmo.</p>



<h2 id="h-a-paternagem-que-encarna-um-logos-consciente-oferece-a-crianca-a-experiencia-do-mundo-como-estrutura-legivel-nao-como-caos-indiferenciado" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">A paternagem que encarna um Logos consciente oferece à criança a experiência do mundo como estrutura legível, não como caos indiferenciado.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É ele quem, tradicionalmente, introduz a criança no mundo da lei, das regras, da justiça e da competição sadia. Quando, porém, o Logos se manifesta de modo não saudável, ou quando está simplesmente ausente, o vazio que se instala não é neutro. A ausência de Logos deixa a criança sem a experiência internalizada do limite, da frustração tolerável e da autoridade amorosa.</p>



<h2 id="h-sem-essa-estrutura-a-crianca-tende-a-desenvolver-dificuldades-em-lidar-com-a-frustracao-em-respeitar-regras-sociais-em-conter-impulsos-e-em-estabelecer-metas-que-exigem-disciplina" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Sem essa estrutura, a criança tende a desenvolver dificuldades em lidar com a frustração, em respeitar regras sociais, em conter impulsos e em estabelecer metas que exigem disciplina.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E a mãe, por mais dedicada que seja, quando precisa exercer simultaneamente as funções de Eros e de Logos, de nutrir e de limitar, de acolher e de desafiar, de envolver e de separar, frequentemente se vê diante de uma exigência psicológica que ultrapassa as suas possibilidades, não por incompetência, mas porque essas duas funções exigem modos de ser qualitativamente diferentes, e a alternância constante entre elas pode gerar inconsistência, exaustão e culpa.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A mãe que se identifica excessivamente com o papel materno, tornando-se &#8220;toda mãe&#8221;, cria fixação e impede a independência do filho. É a arquetípica mãe devoradora que consome a individualidade da criança. Por outro lado, a mãe que, sobrecarregada pela necessidade de suprir também a função paterna, se torna excessivamente dura, burocrática ou controladora, corre o risco de reprimir seu próprio Eros, sua capacidade de sentir, de se conectar, de fluir e de transmitir ao filho a mensagem de que o mundo é um lugar de exigências sem acolhimento. O dilema é real e doloroso: como exercer, ao mesmo tempo, a função que envolve e a que separa, a que une e a que delimita, sem que uma destrua a outra?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim como, o pai que ensina o filho a respeitar a lei mas desrespeita a mãe em casa não está ensinando lei, está ensinando hipocrisia com pedigree. E o pai que se ausenta sob a alegação de que &#8220;está trabalhando para prover&#8221; pode estar, na verdade, provendo tudo menos aquilo de que o filho realmente precisa, sua presença.</p>



<h2 id="h-a-mulher-que-precisa-ser-pai-e-mae-o-dilema-contemporaneo" class="wp-block-heading"><strong>A mulher que precisa ser pai e mãe: o dilema contemporâneo</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Harding descreve três estágios de consciência feminina: o ingênuo, em que a mulher opera por instinto e sem reflexão; o sofisticado, em que desenvolve ego-consciência e busca controle; e o consciente, em que transcende o ego e reconhece um valor suprapessoal que orienta sua vida para além dos papéis biológicos e sociais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A mulher que, sozinha, precisa exercer maternagem e paternagem é frequentemente empurrada para o estágio sofisticado, aquele em que o ego se sobrecarrega, em que a eficiência substitui a presença, em que a sobrevivência se torna o modo de vida. O risco é que essa mulher, esgotada pela exigência de ser tudo para todos, perca o contato com sua própria profundidade, com o Eros que, quando consciente, é fonte de sabedoria relacional, e com o Logos que, quando integrado, é fonte de discernimento e não de mera rigidez.</p>



<h2 id="h-ela-argumenta-que-o-objetivo-profundo-e-frequentemente-inconsciente-da-emancipacao-feminina-nao-era-apenas-a-independencia-economica-mas-a-criacao-da-possibilidade-de-uma-relacao-psicologica-mais-consciente-entre-os-sexos-baseada-tanto-em-eros-quanto-em-logos" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Ela argumenta que o objetivo profundo, e frequentemente inconsciente, da emancipação feminina não era apenas a independência econômica, mas a criação da possibilidade de uma relação psicológica mais consciente entre os sexos, baseada tanto em Eros quanto em Logos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O que vemos hoje, porém, é frequentemente o contrário: a mulher que se torna tudo, mãe, pai, provedora, educadora e terapeuta, não porque escolheu a integração consciente de ambas as dimensões, mas porque foi abandonada à sua própria sorte por um sistema que produz ausência paterna em escala industrial.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A questão não é que a mulher seja incapaz de desenvolver Logos, certamente ela não apenas pode como deve, mas que o desenvolvimento consciente do Logos pela mulher é um processo psicológico longo e deliberado, que exige condições internas e externas que a sobrecarga da maternidade solo dificulta enormemente.</p>



<h2 id="h-quando-a-mae-e-levada-a-exercer-por-necessidade-e-nao-por-escolha-consciente-a-funcao-paterna-tres-dinamicas-psicologicas-podem-se-instalar" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Quando a mãe é levada a exercer, por necessidade e não por escolha consciente, a função paterna, três dinâmicas psicológicas podem se instalar.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Primeiro, a <strong>fusão</strong> sem a presença de uma figura que represente o princípio da separação, a <em>participation mystique</em> entre mãe e filho se intensifica, e a criança tem dificuldade de se diferenciar como indivíduo. Segundo, a <strong>inconsistência</strong>, a mesma pessoa que acolhe é a que limita, e essa ambiguidade confunde a criança, que não sabe se a autoridade que a frustra é a mesma que a nutre, gerando ansiedade e desconfiança em relação ao cuidado. Terceiro, a <strong>idealização, </strong>a criança privada do pai real constrói uma imagem idealizada do pai ausente, uma espécie de projeção do animus, e essa fantasia impede que ela desenvolva relações realistas com figuras masculinas no futuro, pois nenhum homem real conseguirá corresponder à perfeição do pai imaginário.</p>



<h2 id="h-e-aqui-chegamos-a-pergunta-mais-angustiante-de-todas-como-sera-o-futuro-dos-filhos-que-crescem-sem-a-intimidade-cotidiana-com-uma-presenca-masculina-saudavel" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">E aqui chegamos à pergunta mais angustiante de todas: como será o futuro dos filhos que crescem sem a intimidade cotidiana com uma presença masculina saudável?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A criança que não experimentou, no cotidiano, o que significa ser vista por um olhar masculino amoroso e firme, um olhar que simultaneamente acolhe e desafia,terá dificuldade em internalizar o arquétipo paterno de modo saudável. Ela terá dificuldade em sustentar frustrações, em respeitar limites que não sejam impostos pela força, em reconhecer a autoridade legítima quando ela não vem acompanhada de afeto.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E, no caso dos meninos, a ausência de um modelo masculino encarnado, não idealizado, não virtual, mas real e cotidiano, com suas qualidades e suas falhas, dificulta enormemente o processo de identificação masculina saudável, aquele que permite ao menino tornar-se homem sem precisar renegar a sua dimensão sensível, sem precisar endurecer-se para provar que é forte.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No caso das meninas, a ausência do pai real alimenta a fantasia do Amante Fantasma, aquele homem idealizado e irreal como projeção do animus inconsciente, que persegue a imaginação feminina e a afasta da realidade dos relacionamentos autênticos.</p>



<h2 id="h-o-complexo-paterno-quando-a-lei-encontra-o-afeto" class="wp-block-heading"><strong>O complexo paterno: quando a lei encontra o afeto</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O complexo paterno é um dinamismo psíquico que, no desenvolvimento da personalidade, fica mais atuante dos sete até aproximadamente os catorze anos. Neste momento a criança passa a viver o mundo do pai, o período do patriarcado, mesmo que não tenha relação com nenhuma pessoa do sexo masculino. É uma fase caracterizada pelo amadurecimento do cérebro límbico, maior capacidade de inibição dos instintos e consolidação dos valores culturais, sociais e religiosos. O jovem começa a estabelecer relações intersubjetivas mais abrangentes, vinculando-se a grupos, times, torcidas ou outras agremiações, formando referências hierárquicas.</p>



<h2 id="h-e-nesse-momento-que-as-regras-as-leis-e-a-justica-sao-internalizadas" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">É nesse momento que as regras, as leis e a justiça são internalizadas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E é exatamente aqui que reside o perigo e a oportunidade: se o modelo de autoridade que a criança internaliza for tirânico, ela aprenderá que poder é sinônimo de crueldade. Se for ausente, aprenderá que lei é sinônimo de vazio. Se for amoroso e firme, aprenderá que limite é sinônimo de cuidado e que respeito não se exige, se inspira.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando a figura paterna real está ausente, a criança buscará o arquétipo paterno em outros lugares, no professor, no tio, no treinador, no líder de comunidade, e, cada vez mais, em figuras virtuais e influenciadores digitais ou lideranças religiosas que, na maioria das vezes, encarnam exatamente a versão mais patológica do Logos que é poder sem responsabilidade, força sem vulnerabilidade, sucesso sem ética. A criança que não tem um pai presente para internalizar como modelo de Logos saudável fica à mercê de pseudopais coletivos que não a conhecem, não a amam e não se responsabilizam por ela.</p>



<h2 id="h-os-quatro-pilares-da-paternidade-consciente" class="wp-block-heading"><strong>Os quatro pilares da paternidade consciente</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para que essa internalização seja saudável, é preciso que o pai, ou quem exerça a função da paternagem, cultive quatro pilares fundamentais:</p>



<h2 id="h-1-a-presenca-consciente" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">1. <strong>A Presença Consciente</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Este é o maior presente. Exige uma entrega intencional, uma desconexão das distrações que fragmentam a alma. É a arte da escuta empática, que ouve o coração por trás das palavras. É o tempo de qualidade, onde os rituais de afeto fortalecem os laços anímicos. É o silêncio dos dispositivos eletrônicos para que o contato visual possa comunicar: &#8220;você é minha prioridade&#8221;.</p>



<h2 id="h-2-limites-como-um-abraco-de-amor" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">2<strong>. Limites como um Abraço de Amor</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Limites, quando estabelecidos com amor e firmeza, não são jaulas, mas as margens seguras que permitem ao rio da vida infantil fluir com propósito. A ausência de limites gera um mar de ansiedade. Uma estrutura paterna saudável, em harmonia com a nutrição materna, oferece essa segurança por meio da clareza, da consistência e do diálogo. A firmeza corrige o comportamento, mas sempre reafirma o amor incondicional pela essência da criança. É o Logos a serviço do Eros, a lei que protege o amor, e não o amor que se submete à lei.</p>



<h2 id="h-3-a-vulnerabilidade-como-forca" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">3. <strong>A Vulnerabilidade como Força</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A transição de um modelo de poder para um de alteridade começa em casa. É ali que a criança aprende a empatia e o respeito. Isso acontece quando o pai modela a vulnerabilidade: quando admite seus erros, pede desculpas e demonstra que a verdadeira força não reside na infalibilidade, mas na coragem de ser humano, de aprender e de se reparar. Um pai que integra sua própria sombra e que reconhece suas falhas sem se destruir pela culpa, ensina ao filho que a integridade não é perfeição, mas consciência.</p>



<h2 id="h-4-a-cooperacao-como-vitoria-da-alma" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">4. <strong>A Cooperação como Vitória da Alma</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Incentivar a colaboração em vez da competição, validar a perspectiva do outro e partilhar responsabilidades ensina que o cuidado com o espaço comum é um dever sagrado de todos. Ensina que o triunfo coletivo é a mais gratificante das vitórias.</p>



<h2 id="h-o-presente-que-os-filhos-nos-dao" class="wp-block-heading"><strong>O presente que os filhos nos dão</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Como estamos nos aproximando da comemoração do Dia dos Pais, que em 2026 cai em 9 de agosto, acredito que o melhor presente que os filhos possam nos dar é a sua presença, exigindo-nos coerência e consistência das nossas atitudes com os nossos valores. Sim, você leu corretamente: o presente é deles para nós. Porque a presença de um filho que olha nos olhos do pai e diz &#8220;seja o que você ensina&#8221; é o maior espelho que um homem pode enfrentar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E nós, pais, devemos refletir a respeito das nossas prioridades, exigindo e estimulando o cumprimento das leis, o respeito aos direitos humanos e maior consciência e transparência sobre nossa real condição existencial. Só assim poderemos sonhar com um mundo livre das tiranias que se alimentam do abandono, um mundo onde um patriarcado curado, forte e comprometido com o futuro, caminhe de mãos dadas com o matriarcado. Juntos, em alteridade, ensinam cada ser a conhecer seu limite e sua responsabilidade, pois aprenderam a arte mais sublime de todas que é o respeito, a capacidade de olhar e se deixar ser olhado com os olhos do amor.</p>



<h2 id="h-a-alteridade-nao-e-o-fim-do-pai-e-o-seu-amadurecimento-e-o-momento-em-que-o-pai-pode-finalmente-dizer-cresce-eu-ja-plantei-agora-floresce-no-teu-proprio-jeito" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">A alteridade não é o fim do pai. É o seu amadurecimento. É o momento em que o pai pode finalmente dizer: &#8220;<strong>Cresce. Eu já plantei. Agora floresce no teu próprio jeito</strong>.&#8221;</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O futuro que desejamos para nossos filhos não é uma abstração a ser erguida amanhã. Ele é forjado no agora, em cada interação, em cada escolha, em cada momento de presença consciente que tece a estrutura interna para uma vida plena, justa e com significado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Com isso, o princípio paterno será internalizado, fazendo com que disciplina, limites, regras, proteção e referência de autoridade amorosa contribuam para o futuro saudável de todos. Porque, no fim das contas, o que a criança precisa não é de um pai perfeito, porque seres perfeitos só existem em campanhas publicitárias de Dia dos Pais, mas de um pai presente, consciente e humano o suficiente para reconhecer os próprios erros e corrigi-los diante dos filhos. Isso é paternidade. O resto é performance.</p>



<h2 id="h-feliz-dia-dos-pais" class="wp-block-heading"><strong>Feliz Dia dos Pais!</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Que seja não apenas uma data de presente e abraço, embora ambos sejam indispensáveis, mas um dia de autoconsciência paterna. Que cada pai, cada mãe, cada adulto que exerce a função paterna, se pergunte: que espelho tenho sido para os filhos que herdarão não apenas o meu nome, mas a minha luz e a minha sombra, e que farão, daquilo que eu lhes transmitir ou lhes negar, o material bruto com que construirão o próprio destino? E que a resposta, por mais desconfortável que seja, seja o começo de uma nova herança.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; IJEP</a></strong></p>



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<iframe title="👨‍🍼Artigo novo: &quot;FELIZ DIA DOS PAIS - ENTRE O PRESENTE, A PRESENÇA E A AUSÊNCIA&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/kpiyh2KQY9k?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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			</item>
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		<title>Tapa de amor dói sim!</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/tapa-de-amor-doi-sim/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Michella Paula Cechinel Reis]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 03 Dec 2025 23:21:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[2025]]></category>
		<category><![CDATA[barba azul]]></category>
		<category><![CDATA[codependência]]></category>
		<category><![CDATA[dependência emocional]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[machismo]]></category>
		<category><![CDATA[Patriarcado]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[violência]]></category>
		<category><![CDATA[violência contra a mulher]]></category>
		<category><![CDATA[violência contra as mulheres no Brasil]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O presente artigo, escrito em duas mãos, traz reflexões sobre a violência relacionada às mulheres no contexto brasileiro. O Brasil é considerado um dos países mais inseguros para as mulheres, ou seja, a violência doméstica, abusos físicos, psíquicos e sexuais, se traduz em medos, inseguranças e traumas. Normalmente, os abusadores são pessoas conhecidas e as violências ocorrem dentro de casa, no ambiente familiar. Relações disfuncionais se refletem no corpo e na alma de todas as mulheres, numa rede inconsciente coletivamente compartilhada, e os complexos e compensações nas relações abusivas impactam a todos. Mudanças legais e sociais estão em curso, com altos e baixos nos palcos sociopolíticos, portanto, o presente artigo é mais que pertinente, é necessário para ampliarmos as discussões atualmente vigentes.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: O presente artigo, escrito em duas mãos, traz reflexões sobre a violência relacionada às mulheres no contexto brasileiro. O Brasil é considerado um dos países mais inseguros para as mulheres, ou seja, a violência doméstica, abusos físicos, psíquicos e sexuais, se traduz em medos, inseguranças e traumas. Normalmente, os abusadores são pessoas conhecidas e as violências ocorrem dentro de casa, no ambiente familiar. Relações disfuncionais se refletem no corpo e na alma de todas as mulheres, numa rede inconsciente coletivamente compartilhada, e os complexos e compensações nas relações abusivas impactam a todos. Mudanças legais e sociais estão em curso, com altos e baixos nos palcos sociopolíticos, portanto, o presente artigo é mais que pertinente, é necessário para ampliarmos as discussões atualmente vigentes.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-violencia-e-noticiada-todos-os-dias-nas-midias-sociais-e-nos-canais-de-telecomunicacao" style="font-size:19px">A violência é noticiada todos os dias nas mídias sociais e nos canais de telecomunicação.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">E parte nos comove e em outra medida nos mostra nossa insensibilidade ou normalização em relação à violência. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (PNS, 2019), no Brasil, um contingente de 29,1 milhões de pessoas sofreu violência física, psicológica ou sexual em 2019; a violência atingiu 19,4% das mulheres e 17,0% dos homens. Companheiros, ex-companheiros ou parentes são os principais agressores das mulheres que sofreram violência física (52,4%), psicológica (32,0%) e violência sexual (53,3%). O domicílio é o principal local da agressão das mulheres. A violência sexual gerou consequências psicológicas (60,2%), físicas (19,4%) e sexuais (5,0%) para as vítimas. A pesquisa mostra&nbsp;que a violência atinge mais as mulheres, os jovens, as pessoas pretas ou pardas e a população de menor rendimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O espírito da época contemporânea é atravessado por recursos tecnológicos e midiáticos que evoluíram sobremaneira nos últimos 50 anos. Isso não significa que os utilizamos de maneira adequada. No Brasil (IBGE, 2021), a sensação de vitimização média a alta para situações que envolvam fotos, vídeos ou conversas divulgadas na internet contra sua vontade foi maior para o grupo etário de 25 a 39 anos. Ou seja, a violência não se restringe a presença do agressor(a) no ambiente físico, virtualmente existem riscos que precisam ser mais bem estudados para aprendermos a nos proteger, criar regulamentações e políticas públicas necessárias. Tudo é novo e ao mesmo tempo velho, pois a violência não é algo novo, mas uma construção histórica e cultural.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-historicamente-a-violencia-contra-as-mulheres-foi-respaldada-pelos-contextos-religiosos-e-patriarcais-conforme-ensina-borges-2020" style="font-size:19px">Historicamente, a violência contra as mulheres foi respaldada pelos contextos religiosos e patriarcais, conforme ensina BORGES (2020):</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>A Idade Média foi considerada por muitos historiadores como a Idade das Trevas, uma época de muita perseguição religiosa, várias doenças e ataques entre povos, porém foi nessa época que as mulheres conquistaram acesso a grande parte das profissões e também ao direito de propriedade, porém subjugadas como podemos destacar no trecho do livro MALLEUS MALEFICARUM:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>[..] convém observar que houve uma falha na formação da primeira mulher, por ter sido ela criada a partir de uma costela recurva, ou seja, uma costela do peito, cuja curvatura é, por assim dizer, contrária à retidão do homem. E como, em virtude dessa falha, a mulher é animal imperfeito, sempre decepciona e mente (KREMER, SPRENGER 1991, pag. 116).</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>As mulheres deste período eram muito desvalorizadas, pois a sociedade era toda centralizada na figura do homem, porém com as guerras, doenças e perseguições a expectativa de vida desse período tornou-se muito baixa. Decorrente desses fatos as mulheres tornavam-se viúvas de forma precoce, assim tinham que assumir como chefe de família. Entretanto, a participação das mulheres durante a Idade Média foi ainda mais concisa por meio de mulheres de destaque que estudaram em universidades e que participaram da vida política da época, exemplos como de Hilda de Whitby que fundou vários mosteiros e conventos pela Europa, da Duquesa da Aquitânia que lecionou e governou o feudo junto ao seu marido, e um dos maiores exemplos da história Joana D’arc.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Joana D’arc é uma das mais ilustres figura da história francesa, nasceu no período da Idade Média, em uma época bastante conturbada e sem muito espaço para manifestação do pensamento feminino. Essa valente figura rompeu com os paradigmas impostos pela sociedade, vestia roupas masculinas e possuía uma forte personalidade.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Diante dos dados expostos, fica evidente que a violência contra as mulheres é muito mais que apenas um problema cultural e localizado, mas uma inferência de que o corpo feminino é menos valioso que o masculino.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-patente-que-a-mulher-vem-sendo-diminuida-enquanto-ser-humano-por-ser-taxada-de-suja-fragil-emocional-esses-dados-remontam-como-visto-acima-uma-trajetoria-de-milhares-de-anos" style="font-size:19px">É patente que a mulher vem sendo diminuída enquanto ser humano, por ser taxada de “suja”, “frágil”, “emocional”. Esses dados remontam, como visto acima, uma trajetória de milhares de anos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A persistência da violência contra as mulheres no Brasil segue sendo uma das expressões mais alarmantes das desigualdades de gênero no país. Em mais um ano, os dados do sistema de saúde revelam números elevados de homicídios femininos e de agressões a mulheres, evidenciando a continuidade desse fenômeno estrutural. A despeito das políticas públicas implementadas nas últimas décadas e dos avanços normativos – como a atualização da Lei do Feminicídio (Lei nº 14.994), em 2024 –, a letalidade feminina, especialmente daquelas em situação de maior vulnerabilidade, segue como um problema público grave, e que, só em 2023, matou quase 4 mil mulheres (IPEA, 2025). Isso representa 4 mulheres mortas diariamente em consequência do feminicídio.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-historia-de-conquista-feminina-no-pais-com-as-normativas-de-lei-do-feminicidio-e-lei-maria-da-penha-sao-muito-atuais-sendo-promulgadas-em-2006-e-2015-respectivamente" style="font-size:19px">A história de conquista feminina no país com as normativas de Lei do Feminicídio e Lei Maria da Penha são muito atuais, sendo promulgadas em 2006 e 2015, respectivamente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Isso significa que, anteriormente a 2006, essas violências não eram tratadas como uma violência direcionada à mulher pelo simples fato de ser mulher. Infelizmente, o Brasil ainda é um país com muitas subnotificações, tornando os dados aproximados com relação aos abusos sofridos e às marcas deixadas ao longo dos anos. Cabe ainda, relembrar que durante o período escravista no Brasil, a Lei do Ventre Livre, que estabelecia que os filhos nascidos de mães escravas seriam livres foi promulgada em 28 de setembro de 1871, apenas 17 anos antes do fim da escravidão.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-quando-falamos-de-uma-populacao-mais-vulneravel-falamos-especialmente-de-mulheres-pretas-ou-pardas-com-baixos-salarios-poucos-direitos-trabalhistas-acesso-a-bens-e-servicos-restritos-a-sua-condicao-economica-como-mulheres-nessas-condicoes-sao-assistidas-quando-em-condicoes-de-violencia-domestica-e-abusos-spivak-celebre-autora-argumenta-se-o-subalterno-pode-falar-se-ele-a-tem-voz-para-spivak-2010-p-13-14-o-termo-subalterno-refere-se-as-camadas-mais-baixas-da-sociedade-constituidas-pelos-modos-especificos-de-exclusao-de-mercados-da-representacao-politica-e-legal-e-da-possibilidade-de-se-tornarem-membros-plenos-no-estrato-social-dominante" style="font-size:19px">Quando falamos de uma população mais vulnerável, falamos especialmente de mulheres pretas ou pardas com baixos salários, poucos direitos trabalhistas, acesso a bens e serviços restritos a sua condição econômica. Como mulheres nessas condições são assistidas quando em condições de violência doméstica e abusos? Spivak, célebre autora, argumenta se o subalterno pode falar, se ele(a) tem voz? Para Spivak (2010, p. 13-14) o termo subalterno refere-se “às camadas mais baixas da sociedade constituídas pelos modos específicos de exclusão de mercados, da representação política e legal, e da possibilidade de se tornarem membros plenos no estrato social dominante”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-atlas-da-violencia-2025-fornece-um-retrato-alarmante-e-preciso-da-violencia-de-genero-no-brasil-mulheres-continuam-sob-grave-ameaca-especialmente-dentro-de-casa-com-impacto-diferenciado-sobre-mulheres-negras-e-jovens" style="font-size:19px">O <em><strong>Atlas da Violência 2025</strong></em> fornece um retrato alarmante e preciso da violência de gênero no Brasil: mulheres continuam sob grave ameaça, especialmente dentro de casa, com impacto diferenciado sobre mulheres negras e jovens.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A combinação entre violência letal, formas não letais e subnotificação aponta para a urgência de ações políticas, legais e sociais mais eficazes, ampliando o alcance da proteção e atuando na prevenção desde o ambiente familiar até o contexto estrutural (IPEA, 2025).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Entre os mamíferos, os chimpanzés e humanos regularmente matam adultos de sua própria espécie. Também compartilham outros males, como assassinatos políticos, espancamentos e estupros. O estupro é um ato comum aos orangotangos machos e gorilas machos matam bebês com muita frequência, embora essa atitude não seja exclusiva dos primatas (Wrangham e Peterson, 1996).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-pergunta-se-se-ha-algo-com-os-primatas-que-os-predispoe-a-violencia-e-aos-seres-humanos" style="font-size:19px">Pergunta-se se há algo com os primatas que os predispõe a violência? E aos seres humanos?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-wrangham-e-peterson-1996-p-181-no-livro-o-macho-demoniaco-mostram-que-os-ataques-violentos-dos-chimpanzes-machos-contra-as-femeas-e-um-aspecto-sistematico-e-comum-os-autores-comparam-o-comportamento-dos-humanos-e-dos-chimpanzes-da-seguinte-forma-1-ambos-sao-casos-de-violencia-de-machos-contra-femeas-ou-homens-contra-mulheres-no-caso-humano-2-ambos-sao-exemplos-de-violencia-no-relacionamento-os-machos-conhecem-as-femeas-a-muito-tempo-membros-da-sua-comunidade-e-nao-havia-um-contexto-como-falta-de-comida-ou-aliancas-a-outros-grupos-para-justificar-o-comportamento-3-fatores-superficiais-desencadeiam-a-reacao-mas-a-questao-subjacente-e-o-controle-ou-a-dominacao-da-femea-pelo-macho" style="font-size:19px">Wrangham e Peterson (1996, p. 181) no livro “<strong>O macho demoníaco</strong>” mostram que os ataques violentos dos chimpanzés machos contra as fêmeas é um aspecto sistemático e comum. Os autores comparam o comportamento dos humanos e dos chimpanzés da seguinte forma: <strong>1)</strong> ambos são casos de violência de machos contra fêmeas, ou homens contra mulheres no caso humano; <strong>2)</strong> ambos são exemplos de violência no relacionamento &#8211; os machos conhecem as fêmeas a muito tempo, membros da sua comunidade e não havia um contexto como falta de comida ou alianças a outros grupos para justificar o comportamento; <strong>3)</strong> fatores superficiais desencadeiam a reação, mas a questão subjacente é o controle ou a dominação da fêmea pelo macho.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Os autores, pautados nas pesquisas com primatas, buscaram a associação entre a violência do macho/homem como fator biológico, instintivo e social. Entretanto, os próprios autores admitem que a complexidade do tema é maior que uma herança geracional, genética ou modulação de comportamentos ao longo da história. Se temos a maldição de um temperamento masculino demoníaco e uma capacidade maquiavélica para expressá-lo, somos também abençoados com uma inteligência que é capaz, através da sabedoria, afastar-nos do passado de grande primata. Se a inteligência é capaz de enxergar, a sabedoria é capaz de ouvir e ver ao longe, ou seja, a sabedoria é a perspectiva futura (WRANGHAM e PETERSON, 1996, p. 315).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-machismo-estrutural-resultado-do-patriarcado-e-a-subordinacao-da-mulher-as-necessidades-dos-homens-ao-longo-de-milenios-e-uma-base-importante-para-atitudes-violentas-e-possessivas-em-relacao-aos-corpos-femininos" style="font-size:19px">O machismo estrutural, resultado do patriarcado, e a subordinação da mulher às necessidades dos homens ao longo de milênios, é uma base importante para atitudes violentas e possessivas em relação aos corpos femininos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essa construção de força masculina está mais vinculada à força física. Através da força, homens e animais machos imprimem abusos físicos, psicológicos e sexuais ao sexo oposto. Pensando na imagem arquetípica do masculino, esse seria o lado demoníaco do arquétipo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-oc-7-2-245-254-menciona-em-sua-obra-a-persona-como-um-fragmento-da-psique-coletiva-comportamentos-ou-papeis-esperados-em-determinado-tempo-e-epoca-incluindo-os-papeis-de-homens-e-mulheres" style="font-size:19px"><strong>Jung</strong> (OC 7/2, § 245-254) menciona em sua obra a <strong>persona</strong>, como um fragmento da psique coletiva, comportamentos ou papéis esperados em determinado tempo e época, incluindo os papéis de homens e mulheres.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Esses papéis são construções sociais, influenciados pela história humana e sua evolução ao longo dos séculos. À medida que aumenta a influência do inconsciente coletivo, a consciência perde seu poder de liderança, e passa a se mover como uma peça de xadrez, à mercê do inconsciente. Esse colapso da consciência e domínio do inconsciente é desastroso ao indivíduo, ele perde o chão, desenraiza. Essa inundação pode ser refletida em paranoia e esquizofrenia, em excentricidade e atitude infantil, apartando-o da sociedade, ou entrando em um processo de restauração regressiva da persona.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung, em seu livro “<strong>Aspectos do drama contemporâneo</strong>”, descreve as guerras europeias do século XX como uma onda de primitividade e violência, que seriam a manifestação de &#8220;poderes obscuros&#8221; que se intensificaram durante a Primeira Guerra e atingiram o auge na Segunda, em movimentos como o Nazismo e o Fascismo. Ele afirma que o &#8220;caos e a desordem do mundo&#8221; se refletem de forma semelhante na mente de cada pessoa, e que essa ausência de direção é equilibrada no inconsciente pelos &#8220;arquétipos da ordem&#8221;. A integração dos conteúdos inconscientes é apresentada como uma ação individual de concretização, compreensão e julgamento ético, que exige uma grande responsabilidade moral (§ 449-451).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-diante-do-exposto-muitas-perguntas-ficam-em-suspenso" style="font-size:19px">Diante do exposto, muitas perguntas ficam em suspenso:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Quais complexos estão envolvidos nessa construção coletiva, que incide em diferentes tipos de violências? A violência e a necessidade de dominação podem ser atreladas a uma necessidade compensatória, busca-se dominar o outro na tentativa de se sentir superior? </strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ousamos dizer que um estudo sobre o assunto seria muito rico e beneficiaria sobremaneira a humanidade. Entender essa necessidade de poder, especialmente em relação às mulheres.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Uma pesquisa sobre o perfil dos agressores presos em flagrante mostra que são homens adultos jovens em maior percentual, com baixa escolaridade, possuíam uma ocupação e havia relato de passagens pela polícia anteriormente em aproximadamente 30% dos casos, incluindo a própria violência doméstica. É interessante que o tipo de violência se caracteriza de forma distinta em relação ao consumo de substâncias: os agressores que consumiram somente álcool praticam mais violência física (39,7%); os que ingeriram álcool e drogas associados perpetraram mais violência psicológica (30%); e os usuários de drogas isoladas cometeram mais a psicológica (75%) &#8211; (MADUREIRA, et. al., 2014).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Estudo feito no Maranhão observou que os atos violentos foram praticados majoritariamente por indivíduos que não têm mais relações afetivas com as vítimas e entre as motivações para a violência destacam-se o inconformismo com o fim da relação, ciúmes, dentre outros (BEZERRA e RODRIGUES, 2021). Em grande parte dos casos, as violências contra a mulher são cometidas no ambiente doméstico, na frente dos filhos, gerando impactos na saúde emocional e psíquica de toda a família (LEITE, et. al., 2015).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-existe-um-ditado-popular-que-diz-violencia-gera-mais-violencia" style="font-size:19px">Existe um ditado popular que diz “<strong>violência gera mais violência</strong>”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em ciclos repetitivos de vitimização e agressão, com trocas de papéis ao longo da vida e a reprodução de padrões de conduta, de forma sistêmica. Enquanto não ocorre uma quebra, um repensar, não há mudanças significativas. A relação entre vítima e agressores gera polaridades, e movimentos internos compensatórios se manifestam.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-um-conto-brilhante-que-trabalha-essa-questao-chama-se-barba-azul" style="font-size:19px">Um conto brilhante que trabalha essa questão chama-se Barba Azul. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O <strong>Barba Azul</strong> seduz mulheres, casa com elas e depois as mata, jogando seus restos mortais no porão.Sua tática de sedução, afinal ele não é tão atraente assim, é o poder e dinheiro. Ele conquista a moça e sua família mostrando suas propriedades, seu conforto e o padrão de vida que a moça terá sob sua tutela.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Até que um dia ele avisa que tem uma única sala que não pode ser aberta, senão a mataria. E não por acaso, ele entrega todas as chaves da casa para ela enquanto viaja (intencional? Perverso?). Quando volta e descobre que o porão foi aberto num arroubo de curiosidade da mulher, avisa que ela irá morrer. Ela, espertamente, usa de suas habilidades para enrolar o Barba Azul enquanto chama seus irmãos para ajudá-la.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No fim, Barba Azul é morto e despedaçado, e seus pedaços espalhados pelos cantos do mundo. Note que ele nunca é eliminado de vez, ele fica espalhado, com menos energia psíquica, mas está lá, em algum lugar internamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Estudos observam que o manejo do trauma ocorre de maneira mais eficiente para pessoas que usaram de suas habilidades para escapar, se salvar ou resolver a situação</strong>. Quando entram em estado mais passivo ou letárgico, o trauma se instala com uma profundidade maior (LEVINE, 2022). Essa é a ideia do conto do Barba Azul. A única esposa que sobreviveu foi a que teve uma atitude, que lutou para sobreviver com inteligência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Cabe observar ainda, que nesse conto, demonstra-se uma dinâmica psíquica de agressor-vítima, em que a vítima em determinado momento passa a se identificar com o agressor, de forma a permanecer no relacionamento ainda que seja abusivo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-esse-assunto-kast-2022" style="font-size:19px">Sobre esse assunto, Kast (2022):</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Tal &#8220;identificação com o agressor&#8221; é também um conhecido mecanismo de defesa ou de enfrentamento: quando temos medo de alguém, podemos assumir seu ponto de vista, traindo a nós mesmos no processo e assim estabilizando temporariamente nossa autoestima, pois fingimos estar de acordo com o mais forte – nós nos identificamos com o agressor.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-compele-se-dizer-que-as-razoes-que-mantem-as-vitimas-em-relacionamentos-sao-muitas-a-principal-delas-e-a-falta-de-independencia-financeira-contudo-o-agressor-se-nutre-do-medo-da-vitima-numa-tentativa-de-manter-o-controle-em-uma-relacao-desigual" style="font-size:19px">Compele-se dizer que as razões que mantém as vítimas em relacionamentos são muitas. A principal delas é a falta de independência financeira. Contudo, o agressor se nutre do medo da vítima, numa tentativa de manter o controle em uma relação desigual.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-outro-ponto-significativo-para-pensarmos-essa-questao-seria-a-relacao-de-codependencia-que-se-estabelece-entre-agressores-e-vitimas" style="font-size:19px">Outro ponto significativo para pensarmos essa questão seria a relação de codependência que se estabelece entre agressores e vítimas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Muitas pessoas incorporam uma entidade <strong>salvadora</strong>, capaz de redimir o outro(a) de seus desvios de conduta, como se o seu amor fosse suficiente para a mudança do outro(a). Na verdade, estamos em nossa jornada de autoconhecimento e precisamos nos ver com nossos aspectos sombrios, que nos atravessam para nos ensinar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-que-temos-em-jogo-sao-carencias-afetivas-e-complexos-constelados-que-nos-aprisionam-a-situacoes-que-nao-sao-saudaveis" style="font-size:19px">O que temos em jogo são carências afetivas e complexos constelados que nos aprisionam a situações que não são saudáveis.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em relação aos homens, o que não pertence à consciência masculina (o não “eu”) é sentido como se não pertencesse ao eu, por isso, a imagem da <em>anima</em> (contraparte feminina) é projetada nas mulheres. Os índices de divórcios cada vez maiores apontam que essa projeção no sexo oposto, ocasiona relacionamentos complicados (JUNG, 9/1, § 61).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A <strong><em>anima</em> </strong>é o arquétipo do significado ou sentido, o arquétipo da vida (JUNG, 9/1, § 66). Um homem que se priva de entrar em contato com seu aspecto psíquico feminino está desalmado e sem vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-ideia-de-poder-esta-muito-vinculada-a-imagem-de-homem-em-uma-sociedade-patriarcal-que-estabeleceu-ha-milhares-de-anos-uma-relacao-de-subordinacao-do-corpo-feminino-e-sua-capacidade-reprodutiva" style="font-size:19px">A ideia de poder está muito vinculada à imagem de homem em uma sociedade patriarcal, que estabeleceu há milhares de anos uma relação de subordinação do corpo feminino e sua capacidade reprodutiva.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Construiu-se uma divisão sexual, social e do trabalho entre homens e mulheres, delegando às mulheres os trabalhos tido como inferiores e menos valorizados, simbolizando seu papel na hierarquia social (BOURDIEU, 2024). Esse complexo cultural que atravessa gerações permeia o inconsciente coletivo traçando relações injustas entre os dois sexos ainda nos dias de hoje. Em nossa sociedade o que faz um homem ser considerado forte? Ter dinheiro, poder e mulheres, ou seja, ele precisa “possuir”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Por outro lado, os homens expõem sua vulnerabilidade e sentimentos com muito mais facilidade para as mulheres do que entre os amigos. É compreensível que a população mais vulnerável estude sobre os seus “opressores”, para entender melhor o fenômeno e traçar formas de resistência. Isso significa que as mulheres estavam muito mais atentas aos homens do que o inverso, por uma questão de necessidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-ideia-de-submissao-das-mulheres-e-construida-ao-longo-de-todo-um-trabalho-de-socializacao-um-trabalho-que-tende-a-diminui-las-nega-las-fazem-parte-das-virtudes-negativas-da-abnegacao-resignacao-e-do-silencio-feminino" style="font-size:19px">A ideia de submissão das mulheres é construída ao longo de todo um trabalho de socialização. Um trabalho que tende a diminuí-las, negá-las, fazem parte das virtudes negativas da abnegação, resignação e do silêncio feminino.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ao mesmo tempo, aprisionam os homens em uma <em>persona</em> de domínio e os obrigando a afirmar sua virilidade. A virilidade entendida como a capacidade reprodutiva, sexual e social, aptidão ao combate e ao exercício da violência são uma carga ou cilada. Às mulheres fica relegada a fragilidade, a astúcia diabólica e a magia. Como a honra e a vergonha estão ligadas a virilidade masculina, práticas sexuais violentas como visita coletiva a bordeis, estupros coletivos realizados por adolescentes são formas de provar sua condição de homem (BOURDIEU, 2024, p. 86-91).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Bourdieu explana que o que chamamos de coragem tem suas raízes na covardia ou medo de ser excluído do mundo dos homens tidos como fortes, e para comprová-lo, atos como matar, torturar e violentar, a vontade de dominação, de exploração ou de opressão estão relacionados. A virilidade é uma noção relacional, construída diante dos outros homens, para os homens e contra a feminilidade, em uma espécie de medo do feminino, construída dentro de si mesmo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-violencia-contra-mulheres-e-feminicidio-provocados-pelos-homens-nos-dias-atuais-podem-ser-um-reflexo-dessa-persona-coletiva-de-um-masculino-toxico-e-ferido-em-sua-construcao-social-de-virilidade" style="font-size:19px">A violência contra mulheres e feminicídio provocados pelos homens nos dias atuais podem ser um reflexo dessa persona coletiva de um masculino tóxico e ferido em sua construção social de virilidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">É comum esse tipo de ato ocorrer após o término de um relacionamento ou durante a tentativa de finalizar um ciclo de violência já estabelecido na família.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Atualmente, observamos uma crise do masculino, não coincidentemente após a legalização e aumento dos divórcios e o aumento de mulheres no mercado de trabalho, garantindo recursos financeiros e independência. Em consequência, ocorre um fenômeno sem precedentes: o aumento de mulheres chefiando os lares brasileiros.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-grafico-01-numero-de-domicilios-pelo-sexo-do-responsavel-brasil" style="font-size:16px"><strong>Gráfico 01:</strong> Número de domicílios pelo sexo do responsável, Brasil.</h2>



<figure class="wp-block-image size-full is-resized"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="884" height="500" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1.png" alt="" class="wp-image-11518" style="aspect-ratio:1.768018416858509;width:552px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1.png 884w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1-300x170.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1-768x434.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1-150x85.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1-450x255.png 450w" sizes="(max-width: 884px) 100vw, 884px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Fonte: IBGE, <a href="https://sidra.ibge.gov.br/tabela/6788">Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua</a>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-estrutura-patriarcal-aprisiona-mulheres-e-homens-criando-expectativas-personas-a-serem-alcancadas-gerando-empecilhos-para-um-crescimento-e-amadurecimento-mutuo-em-relacoes-mais-equitativas-e-menos-opressoras-para-ambos" style="font-size:20px">Essa estrutura patriarcal aprisiona mulheres e homens, criando expectativas (personas) a serem alcançadas, gerando empecilhos para um crescimento e amadurecimento mútuo, em relações mais equitativas e menos opressoras para ambos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Não se questiona os papéis se não houver um atravessamento ou incômodo por alguma das partes. Entretanto, mudanças não ocorrem de forma unilateral. Precisam envolver diversos atores, homens e mulheres em trabalho conjunto. O mundo está mudando porque as pessoas mudam e se transformam. As imagens de homens e mulheres estão sendo revistas, gerando conflitos entre os que querem conservar o que se entende por imagem de família, apegados a estruturas que não funcionam mais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-arriscariamos-dizer-que-a-base-dos-conflitos-politicos-atuais-estao-calcados-nessa-polaridade-o-desejo-de-mudanca-e-conservacao-coexistindo-e-em-confronto-ao-mesmo-tempo-felizmente-os-movimentos-e-mudancas-sociais-estao-em-constante-fluxo-nao-conseguimos-impedir-o-curso-da-vida-e-da-alma" style="font-size:20px">Arriscaríamos dizer que a base dos conflitos políticos atuais estão calcados nessa polaridade: o desejo de mudança e conservação coexistindo e em confronto ao mesmo tempo. Felizmente, os movimentos e mudanças sociais estão em constante fluxo. Não conseguimos impedir o curso da vida e da alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Como mulheres e como analistas junguianas, não podemos ignorar as questões sociais de nosso tempo. A violência não é um fenômeno isolado — ela é coletiva, sistêmica, e nos atravessa em múltiplos níveis. Quando uma mulher sofre abusos físicos, psicológicos ou patrimoniais, todo o sistema ao seu redor é afetado. Somos parte de uma grande psique coletiva, que se manifesta em nossas individualidades. Cada ferida aberta em uma mulher reverbera em todas nós.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-michella-cechinel-reis-analista-em-formacao-pelo-ijep" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/michellacechinel/">Michella Cechinel Reis &#8211; Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/paula-penas/"><strong>Paula de Azevedo Bernardi Peñas</strong> &#8211; <strong>Analista em formação pelo IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/"><strong>Dra. E. Simone Magaldi</strong> &#8211; <strong>Analista Didata do IJEP</strong></a></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Tapa de amor dói sim!" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/x36klunNvN0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:19px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">BEZERRA, A.R.; RORIGUES, Z.M.R. Violência contra as mulheres: o perfil da vítima e do agressor em São Luís-MA. Revista do Departamento de Geografia, v. 41, e176806, 2021. Disponível em: [https://revistas.usp.br/rdg/article/view/176806]. Acesso em: [12/08/2025].</p>



<p class="wp-block-paragraph">BORGES, José Carlos. A mulher e suas concepções históricas. 2020. RC:52704. Disponível em: <a href="https://www.nucleodoconhecimento.com.br/historia/concepcoes-historicas">https://www.nucleodoconhecimento.com.br/historia/concepcoes-historicas</a>. Acesso em: 10.nov.2025</p>



<p class="wp-block-paragraph">BOURDIEU, P. A dominação masculina: a condição feminina e a violência simbólica. 23 ed. Rio de Janeiro: Difel, 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2019). Pesquisa Nacional de Saúde: acidentes, violências, doenças transmissíveis, atividade sexual, características do trabalho e apoio social. Brasil / IBGE, Coordenação de Trabalho e Rendimento, [Ministério da Saúde].</p>



<p class="wp-block-paragraph">Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2021). Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: vitimização &#8211; sensação de segurança. Brasil / IBGE, Coordenação de Trabalho e Rendimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CERQUEIRA, Daniel; BUENO, Samira (coord.). Atlas da Violência 2025. Brasília: Ipea; FBSP, 2025. Disponível em:<a href="https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/publicacoes/290/atlas-da-violencia-2025"> </a><a href="https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/publicacoes/290/atlas-da-violencia-2025">https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/publicacoes/290/atlas-da-violencia-2025</a>. Acesso em: 10 ago. 2025.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-c-g-o-eu-e-o-inconsciente-dois-escritos-sobre-psicologia-analitica-27-ed-rio-de-janeiro-vozes-2015" style="font-size:16px">JUNG, C.G. O eu e o inconsciente: dois escritos sobre psicologia analítica. 27 ed. Rio de Janeiro, Vozes, 2015.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. Aspectos do drama contemporâneo: civilização em mudança. 5 ed. Rio de Janeiro, Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 11 ed. Petropolis, RJ: Vozes, 2014, reimpressão 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph">KAST, Verena. Abandonar o papel de vítima: Viva sua própria vida. Ed. Vozes, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">LEITE, F. M. C. et al. Violência contra a mulher: caracterizando a vítima, a agressão e o autor. Revista de Pesquisa Cuidado é Fundamental Online, v. 7, n. 1, p. 2181-2191, 2015. Disponível em: [https://www.redalyc.org/pdf/5057/505750945029.pdf]. Acesso em: [12/08/2025].</p>



<p class="wp-block-paragraph">LEVINE, P.A. O despertar do tigre: curando o trauma. 5 ed. São Paulo, Summus, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MADUREIRA, A.B.; et. al. Perfil de homens autores de violência contra mulheres detidos em flagrante: contribuições para o enfrentamento. Esc Anna Nery 2014;18(4):600-606. DOI: 10.5935/1414-8145.20140085.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">WRANGHAM, R.; PETERSON, D. O macho demoníaco: as origens da agressividade humana. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 1996.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>
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