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	<title>Arquivos profissionais da saúde - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos profissionais da saúde - Blog IJEP</title>
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		<title>A invisibilidade: superpoder ou maldição?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-invisibilidade-superpoder-ou-maldicao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Michella Paula Cechinel Reis]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 29 Mar 2022 13:46:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Sociabilidade]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A pandemia por Covid-19 nos mostrou a realidade da saúde do nosso país. Falta de equipamentos, medicamentos, profissionais treinados, políticas públicas consistentes, e aí vai. Até dia 17 de março de 2022, o painel Coronavírus do Ministério da Saúde totalizou mais de 29,5 milhões de pessoas confirmadas e 656 mil mortos (2,2% de letalidade). Por [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">A pandemia por Covid-19 nos mostrou a realidade da saúde do nosso país. Falta de equipamentos, medicamentos, profissionais treinados, políticas públicas consistentes, e aí vai. Até dia 17 de março de 2022, o painel Coronavírus do Ministério da Saúde totalizou mais de 29,5 milhões de pessoas confirmadas e 656 mil mortos (2,2% de letalidade).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por trás desses números temos pessoas e suas famílias, que vivenciaram essa sombra coletiva de forma individualizada. E por trás dessas pessoas temos os profissionais de saúde, que desde o início da pandemia, arriscaram suas vidas para cuidar e experimentaram toda essa situação de forma mais intensa, acompanhando o sofrimento, a dor e a morte de milhares de pessoas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em geral, as pessoas que escolhem estudar e trabalhar na área da saúde sentem fascínio pelos mistérios da vida e da morte, e um desejo de se tornar imune a ela. O deus Asclépio, pai da medicina é um exemplo. Ele começou a ressuscitar os mortos causando desconforto no submundo, então Hades se queixa a Zeus sobre o esvaziamento de almas em seu domínio fazendo com que Zeus puna Asclépio fulminando-o com um raio (FILHO&nbsp;&amp;&nbsp;BURD, 2010).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar da atração pelo mórbido, o confrontar a terminalidade da vida não é um assunto muito abordado pelas universidades da área de saúde e, diversos autores relatam que uma das dificuldades em lidar com os pacientes terminais é o sentimento de despreparo. O foco fica na doença, no cuidar e salvar o paciente até o último minuto, como uma espécie de negação da finitude da vida. Ziegler (2012) menciona a necessidade de uma relação mais natural com o sofrimento, com a mortalidade e com a natureza mórbida da própria vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em face da situação epidemiológica, não somos capazes de mensurar o tamanho do sofrimento e dor que esses profissionais de saúde que trabalharam e se dedicaram para cuidar dos pacientes mais graves infectados com Covid vivenciaram? Essa é uma dor que fica invisível, assim como esses profissionais. Normalmente, o foco se volta para aqueles que estão infectados e internados na rede de saúde. Quantos não eram os antigos cuidadores que sucumbiram a doença e possivelmente perderam a vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estudo realizado pela&nbsp;Fiocruz em todo o território nacional, mostrou que a pandemia alterou de modo significativo a vida de 95% desses trabalhadores da saúde. Os dados revelam que quase 50% admitiram excesso de trabalho ao longo desta crise mundial de saúde, com jornadas para além das 40 horas semanais, e um elevado percentual (45%) deles necessita de mais de um emprego para sobreviver (BRASIL, 2021).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esses profissionais lidam em sua vida cotidiana com&nbsp;<strong>sombras</strong>&nbsp;importantes do ser humano: dor, sofrimento, doença e morte. É antiga a visão sobre a morbidade como algo pecaminoso, castigo ou reparação de um carma, mesmo na cultura oriental. Contudo, podemos olhar para a doença como um desafio que nos impõe desconforto, mas também oportunidade de aprendizados e autoconhecimento. Segundo Ramos (2018, pág. 76-77), os sintomas, sejam físicos ou psíquicos, têm sua origem nos complexos, e a doença é um símbolo que revela a disfunção no eixo ego-Self. O sintoma-símbolo compensa o desvio e aponta sincronicamente para a correção a ser feita (integração do conteúdo inconsciente à consciência). &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma outra relação possível aos profissionais de saúde é a do sacerdócio, inclusive historicamente, foram os detentores desses conhecimentos por muitos séculos no ocidente. O sacerdote é aquele que se sacrifica, que se oferece a Deus, como prova de dependência, obediência, arrependimento ou amor. “O sacrifício é um símbolo da renúncia aos vínculos terrestres por amor ao espírito ou à divindade”, segundo Chevalier &amp; Gheerbrant (2020). Enatiodromicamente, a sombra que se constela a essa vontade de ajudar primordial é o desejo de poder e alegria em despotencializar o “cliente/paciente” (GUGGENBUHL-CRAIG, 2004).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não podemos esquecer que o tratamento de qualquer doença passa em primeiro lugar pela vontade do chamado “paciente”, que não é tão passivo quanto imaginamos. Estudos sobre a epigenética, a relação mente-corpo e os aspectos energéticos relacionados aos organismos são fontes de diversas pesquisas nas últimas décadas, se contrapondo ao domínio fármaco-cirúrgico. Os estudos clínicos, em geral, têm como grupo controle um medicamento ou intervenção placebo, que surtem efeitos benéficos em uma boa parte dos pacientes. Contudo, o foco dos estudos é na eficácia medicamentosa, e pouco se questiona sobre o efeito placebo e sua viabilidade de tratamento. Esse ponto é importante para refletirmos sobre a falibilidade do profissional. Será que o sucesso ou fracasso de um tratamento são de responsabilidade exclusiva dos profissionais da saúde?&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não podemos deixar de dialogar com a morbidade. A doença está a serviço de quê ou de quem? Que complexo está atuando no momento e nos clama por atenção. Hillman (2011) menciona que a energia psíquica precisa de alternância, ora está mais voltada para o ego e a consciência, e ora está mais voltada aos conteúdos do inconsciente. O que reforça a importância de aprendermos a ouvir nossa voz interior, nossos sonhos, nossas intuições. A doença nos leva ao movimento para baixo, mais ctônico, para cama e para dentro, ou seja, é uma oportunidade de introspecção e busca por sentidos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A habilidade de transitar por todos os mundos, seja o céu, a terra ou o subterrâneo pertence a Hermes, deus mensageiro do Olimpo e relacionado ao processo terapêutico. Ele mostra flexibilidade suficiente para olhar para todas as polaridades, a dor não é apenas um aprisionamento e sofrimento para o indivíduo, mas pode conter um potencial de crescimento, um olhar para aspectos mais simbólicos. Essa habilidade vai contra a lógica racionalista, linear e medicamentosa adotada pelas ciências da saúde atualmente, com foco no&nbsp;<em>pathos</em>. Essa cosmovisão mais assimétrica e integradora de Hermes pode ajudar os profissionais de saúde a se conectar mais aos indivíduos, suas narrativas de vida, seus desejos e entender que tudo isso está ali diante de si. É mudar o foco da intervenção para o acolhimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E o acolher a si mesmo também faz parte dessa jornada para médicas(os), enfermeiras(os), terapeutas, psicólogas(os), entre outros. É muito comum entre esses profissionais a sobrecarga de trabalho (dois ou mais empregos), plantões noturnos, estresse, conflitos entre as equipes e os colegas de trabalho, baixos rendimentos para quase todas as categorias, etc. Esses são fatores de risco para o adoecimento físico e psíquico. A incidência de depressão e suicídio é alarmante. Estudo norte-americano, segundo Cardoso (2021), mostrou uma taxa de suicídio em médicos de 28 a 40 por 100.000, mais que o dobro da encontrada na população geral (12,3 por 100.000).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O abuso de substâncias também é algo a ser considerado, pois os plantões noturnos quebram o ritmo ou ciclo circadiano, e para se manter acordado, muitas vezes esses profissionais fazem uso de substâncias estimulantes. E para compensar a falta de sono no dia seguinte, podem fazer uso de tranquilizantes, pois precisam descansar para o próximo plantão. A quebra de ritmos é uma questão importante para esses profissionais, afetando todo ciclo de sono-vigília, horários para alimentação, aumento de suscetibilidade para o abuso de drogas lícitas ou ilícitas, doenças, suicídio e morte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo Jung (2013, pág. 35), “o desenvolvimento da personalidade é uma das tarefas mais árduas. É dizer sim a si mesmo, tornando-se consciente daquilo que faz e, especialmente, não fechando os olhos a própria dubiedade”. Olhar para nosso lado sombrio e inconsciente, reconhecê-lo, nos remete a nossa inteireza, nosso senso de humanidade. A falibilidade é uma característica humana negada ao profissional de saúde, que é treinado para nunca errar, falhar, pois pode impactar em vidas. E a responsabilidade e a culpa recaem em seus ombros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ser infalível é uma característica pertencente aos deuses, e se apegar de forma polarizada a essa ideia pode gerar uma identificação e inflação de ego. Que cuidado esse profissional endeusado será capaz de ofertar? E seu trabalho está a serviço de quem? Do ego ou do outro? O risco de ser fulminado por um raio, ou começar uma jornada equivocada é imenso, se tornando um anti-herói. Da mesma forma, cair na polaridade inversa, da falha e incompetência e ficar preso a esse complexo, pode gerar danos a si mesmo e ao outro na mesma medida. E será que essa ideia de sacerdócio e sacrifício também não impacta no autocuidado de médicos e enfermeiros, afinal, quanto mais próximo do divino, menos corpo possuímos. O caminho para cuidar do outro passa inicialmente na capacidade de cuidar de si mesmo(a).&nbsp;<strong><em>Todo curador tem suas próprias feridas! Vamos olhar para isso?</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Michella Chechinel Membra analista em formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">E. Simone D. Magaldi membro didata</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">BRASIL, Ministério da Saúde.&nbsp;<strong><em>Painel coronavírus</em></strong>. Disponível em:&nbsp;<a href="https://covid.saude.gov.br/">https://covid.saude.gov.br/</a>. Acessado em 17 de março de 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CARDOSO, F. Setembro amarelo e o suicídio entre profissionais da saúde. Disponível em:&nbsp;<a href="https://portalhospitaisbrasil.com.br/artigo-setembro-amarelo-e-o-suicidio-entre-profissionais-da-saude">https://portalhospitaisbrasil.com.br/artigo-setembro-amarelo-e-o-suicidio-entre-profissionais-da-saude</a><a href="https://portalhospitaisbrasil.com.br/artigo-setembro-amarelo-e-o-suicidio-entre-profissionais-da-saude/">/</a>. Acessado em: 28/12/2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CHEVALIER, J; GHEERBRANT, A. Dicionários de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Edição 34° revisada. Rio de Janeiro: José Olympio, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FILHO, J.M.; BURD, M.&nbsp;<strong><em>Psicossomática hoje</em></strong>. 2 ed. Porto Alegre: Artmed, ano 2010.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GUGGENBUHL-CRAIG, A. O abuso do poder na psicoterapia: e na medicina, serviço social, sacerdócio e magistério. São Paulo: Paulus, 2004.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HILLMAN, J.&nbsp;<strong><em>Suicídio e alma</em></strong>. 4 ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.&nbsp;<strong><em>O segredo da flor de ouro: o livro da vida chinês</em></strong>. 15 ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Leonel, F.&nbsp;<em>Pesquisa analisa o impacto da pandemia entre profissionais de saúde</em>. Disponível em:&nbsp;<a href="https://portal.fiocruz.br/noticia/pesquisa-analisa-o-impacto-da-pandemia-entre-profissionais-de-saude#:~:text=Os%20dados%20indicam%20que%2043,a%20necessidade%20de%20improvisar%20equipamentos">https://portal.fiocruz.br/noticia/pesquisa-analisa-o-impacto-da-pandemia-entre-profissionais-de-saude#:~:text=Os%20dados%20indicam%20que%2043,a%20necessidade%20de%20improvisar%20equipamentos</a>). Acessado em: 11 de fevereiro de 2022.</p>



<h1 class="wp-block-heading" id="h-ramos-g-r-a-psique-do-corpo-a-dimensao-simbolica-da-doenca-6-ed-sao-paulo-summus-2018">RAMOS, G.R. A psique do corpo: a dimensão simbólica da doença. 6 ed. São Paulo: Summus, 2018.</h1>



<p class="wp-block-paragraph">ZIEGLER, A.J.&nbsp;<strong><em>Medicina arquetípica</em></strong>. São Paulo, Paulus, 2012.</p>



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<h4 class="wp-block-heading" id="h-michella-paula-cechinel-reis-29-03-2022"><strong><em>Michella Paula Cechinel Reis &#8211; 29/03/2022</em></strong></h4>
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