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	<title>Arquivos psicologia anal[itica - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Thu, 02 Apr 2026 13:40:46 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos psicologia anal[itica - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>A Orquestra Oculta do Universo produz a Sincronicidade e a Dança da Realidade</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-orquestra-oculta-do-universo-produz-a-sincronicidade-e-a-danca-da-realidade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 03 Oct 2025 11:45:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Sincronicidade]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia anal[itica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Este ensaio aborda o conceito de Sincronicidade, conforme definido por Carl Gustav Jung, explorando suas implicações na interconexão entre fenômenos psíquicos e eventos externos. Ampliando-o com os conceitos de Unus Mundus e Sinequismo, que postulam uma realidade subjacente unificada que engloba mente e matéria em um constante metafísico, conectados com as dimensões arquetípicas que [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-orquestra-oculta-do-universo-produz-a-sincronicidade-e-a-danca-da-realidade/">A Orquestra Oculta do Universo produz a Sincronicidade e a Dança da Realidade</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.7"><strong>Resumo</strong>: Este ensaio aborda o conceito de Sincronicidade, conforme definido por Carl Gustav Jung, explorando suas implicações na interconexão entre fenômenos psíquicos e eventos externos. Ampliando-o com os conceitos de Unus Mundus e Sinequismo, que postulam uma realidade subjacente unificada que engloba mente e matéria em um constante metafísico, conectados com as dimensões arquetípicas que são psicóides.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-sincronicidade-para-jung-e-uma-carta-enviada-pela-vida-com-o-carimbo-do-impossivel-e-a-caligrafia-do-sentido" style="font-size:19px">A sincronicidade, para Jung, é uma carta enviada pela vida com o carimbo do impossível e a caligrafia do sentido.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.8">É um “princípio de conexões acausais” que irrompe quando um padrão interno (psíquico, arquetípico, carregado de energia) encontra um evento externo que lhe corresponde em significado, embora não por relação causal. Para compreendê-la em profundidade, vale transitar por dois eixos de leitura: o causal (científico, reducionista, orientado a porquês) e o prospectivo‑sintético (finalista, teleológico, orientado a para quês). A energia psíquica — a “libido” ampliada de Jung — é a ponte dinâmica entre esses mundos: investe imagens, impulsiona símbolos, reequilibra opostos, e, às vezes, parece convocar o mundo a responder.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.8">Imagine-se caminhando, a mente absorta em uma questão que o atormenta — talvez a necessidade de uma transformação profunda, simbolizada por uma borboleta. De repente, no meio da selva de concreto da cidade, uma borboleta azul, de uma espécie rara, pousa suavemente em seu ombro e ali permanece por um instante que parece eterno. O evento não tem causa lógica. A borboleta não &#8220;sabia&#8221; de sua angústia. No entanto, o significado é tão avassalador que sua visão de mundo se estilhaça e se reconstrói.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.8">Isto, em sua essência, é a <strong>Sincronicidade</strong>. Carl Gustav Jung não a definiu como uma mera coincidência, mas como um <strong>princípio de conexão acausal</strong>. São eventos que se conectam não por uma cadeia de causa e efeito (a borboleta voou <em>porque</em> o vento a levou), mas por um laço de <strong>significado</strong>. A sincronicidade é o universo piscando para você, um sussurro da realidade oculta de que a sua paisagem interior e o cenário exterior não estão, afinal, tão separados.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-energia-psiquica-em-jung-o-motor-simbolico"><strong>Energia psíquica em Jung: o motor simbólico</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.7">Diferente de Freud, Jung concebe a “libido” como energia psíquica geral, não apenas sexual. Essa energia é constante e indestrutível e migra entre conteúdos e complexos, tende à compensação (busca equilíbrio frente a unilateralidades do ego), carrega um aspecto prospectivo (não só “causas passadas”, mas “tensões de sentido” que nos puxam adiante). Seu caminho compensatório acontece por meio de sonhos e imagens que emergem para compensar atitudes conscientes rígidas, nas produções criativas, nos sintomas e até nos eventos de sincronicidade, como função prospectiva, na forma de imagens que “apontam” direções de desenvolvimento, como bússolas simbólicas que orientam a consciência do eu para o processo de individuação. Ela produz numinosidade, quando a energia se concentra num <strong>símbolo</strong>, porque ele adquire “aura” — sentimos que “significa” algo além do banal.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.7">Nos eventos de sincronicidade quando um conteúdo carregado de energia psíquica (um arquétipo ou complexo ativado/constelado) coincide com um evento externo altamente significativo, temos a qualidade “sincronística”: baixa probabilidade + alta intensidade afetiva + forte paralelismo simbólico. Não é magia causal, é consonância de sentido entre psique e mundo — a energia psíquica é a “tinta” com que essa consonância se torna visível. A energia psíquica é o vento invisível que enfuna as velas dos símbolos – as vezes, o mar (mundo) muda de corrente exatamente quando você muda de rumo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-abordagens-causais-reducionistas-contribuicoes-e-limites"><strong>Abordagens causais reducionistas: contribuições e limites</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.7">As abordagens causalistas — materialistas, baseadas em evidências experimentais — buscam sempre uma cadeia de<strong> causa-efeito</strong>. Quando encontram relatos de “coincidências significativas”, tendem a explicá-las por mecanismos cognitivos e estatísticos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.7"><strong>O cérebro é uma máquina de achar padrões, mesmo onde não há</strong>. Por isso acontecem os fenômenos de <strong>Apofenia </strong>e<strong> Pareidolia</strong>. Vemos rostos em nuvens, constelações no caos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.7">O pensamento causal corre o risco do viés de confirmação e ilusão de frequência: quando acreditamos em algo ou nos identificamos com um conceito, notá-lo mais é esperado – os complexos interferem na nossa percepção e atenção querendo se auto confirmarem. Porque a máquina cerebral tem modelos de processamento preditivos, ou seja, o cérebro antecipa e seleciona inputs coerentes com seus “priors” (crenças/expectativas), reforçando a sensação de “coincidência” quando uma previsão vaga se cumpre.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.7">Neste sentido, as estatísticas dos grandes números, num mundo imenso de eventos, coincidências improváveis se tornam inevitáveis quando se considera o volume de tentativas não observadas &#8211; pintamos o alvo em torno do tiro que acertamos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.7">O causalismo, apesar de reforçar contarmos o caso que nos impactou e esquecermos milhares que não impactaram, criando um viés de disponibilidade é uma metodologia robusta com replicabilidade, controle de viés, parcimônia. Por isso ele se integra com a neurociência e a psicologia cognitiva e comportamental. Mas perdemos muito se ficarmos só nele, até porque a Inteligência Artificial, ao usar exclusivamente esses métodos, será muito mais eficaz do que qualquer ser humano, ao perder a dimensão do sentido vivido (qualidade numinosa e impacto transformador) desconsiderando o fenômeno do “para quê?” (finalidade subjetiva) que não se reduz a “por quê?” (mecânica).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.7">Além disso, a “alma”, como categoria empírica fenomenológica no causalismo, tende a ser colocada entre parênteses ou aspas, sem o seu sentido simbólico e experiencial, o que na prática equivale a <strong>negá-la </strong>como dado relevante.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-perspectivas-prospectivas-sinteticas-teleologia-e-sentido"><strong>Perspectivas prospectivas‑sintéticas: teleologia e sentido</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.7">A leitura prospectiva‑sintética (“para quê?”) considera que a psique não só reage a causas passadas, mas também se orienta por finalidades emergentes (teleologia), sintetizando opostos e organizando o acontecer em torno de significados. Os Sonhos e símbolos são “mensagens” do inconsciente que orientam a totalidade (Self) — não previsões místicas, mas indicação de um campo de sentido para o vir‑a‑ser.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.7">A <strong>função transcendente</strong> integra polaridades; a <strong>sincronicidade </strong>é um “clique” entre o dentro e o fora, quando a integração simbólica precisa de ancoragem fática para “nascer”. Os arquétipos são matrizes de forma-sentido que estruturam tanto a psique quanto a experiência — daí sua “trans-subjetividade”, sustentando a hipótese do unus mundus (um só mundo psico-físico) sugerindo que psique e matéria são dois aspectos de uma mesma realidade profunda.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.7">Neste caso as sincronicidades seriam fendas por onde vemos essa unidade, onde a energia psíquica se concentra, com sua numinosidade, provocando o surgimento do “kairos” — momento oportuno em que o mundo “responde”, bem diferente do tempo linear e castrador de “Cronos”. Por isso, o evento sincronístico dá corpo ao sentido, não o causa, nem é causado por ele — os dois “acontecem juntos”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-palco-unificado-unus-mundus-e-o-arquetipo-psicoide"><strong>O Palco Unificado: Unus Mundus e o Arquétipo Psicóide</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.7">Para entender como essa &#8220;mágica&#8221; acontece, Jung resgatou um conceito alquímico: o <strong>Unus Mundus</strong>, ou &#8220;Mundo Uno&#8221;. Pense nele como o porão da realidade, uma dimensão fundamental e unificada da qual tanto a mente (psique) quanto a matéria (physis) emergem como duas faces da mesma moeda. Antes do Big Bang da consciência, que separou o &#8220;eu&#8221; do &#8220;mundo&#8221;, existia apenas essa totalidade potencial.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.7">É aqui que os <strong>arquétipos</strong> entram em cena, mas não apenas como imagens primordiais em nossa mente. Jung postulou que os arquétipos possuem um aspecto <strong>psicóide</strong>, ou seja, eles transcendem o psiquismo individual. Eles são padrões de organização que atuam tanto nos nossos sonhos e complexos quanto na própria estrutura da matéria e da energia. O arquétipo do &#8220;renascimento&#8221; não vive apenas na sua cabeça; ele é um padrão universal que pode orquestrar o aparecimento de um escaravelho dourado na janela do consultório no momento exato em que ele é mencionado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.7">Para dar suporte a essa ideia, podemos nos apoiar no conceito de <strong>Sinequismo</strong>, do filósofo Charles Sanders Peirce. O sinequismo postula a <strong>continuidade fundamental de todas as coisas</strong>. Não há rupturas absolutas no tecido do real; tudo está interligado em um grande contínuo. Se mente e matéria são parte de um mesmo contínuo, a sincronicidade deixa de ser um milagre para se tornar uma expressão natural dessa interconexão inerente. O <em>Unus Mundus</em> é a fonte, e o <em>Sinequismo</em> é a lei que permite que as águas dessa fonte fluam e se conectem de maneiras inesperadas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-fisica-da-alma-pauli-emaranhamento-e-os-numeros-magicos"><strong>A Física da Alma: Pauli, Emaranhamento e os Números Mágicos</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.7">No século XX, essa conversa ganhou um parceiro surpreendente: a física quântica. O físico laureado com o Nobel, Wolfgang Pauli, um dos pioneiros da mecânica quântica, travou um diálogo profundo com Jung. Pauli não via a física como uma &#8220;prova&#8221; da sincronicidade, mas como uma <strong>linguagem moderna para descrever um universo interligado e acausal</strong>, exatamente o que Jung explorava.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.7">O fenômeno do <strong>emaranhamento quântico</strong> serve como uma metáfora perfeita. Duas partículas, uma vez conectadas, permanecem ligadas instantaneamente, não importa a distância que as separe. Se uma é medida com &#8220;spin para cima&#8221;, a outra, a anos-luz de distância, instantaneamente assume o &#8220;spin para baixo&#8221;. Não há troca de informação, não há causa e efeito no sentido clássico. Há apenas uma conexão não-local, uma unidade que desafia nossa percepção de espaço e tempo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.7">O emaranhamento quântico não <em>explica</em> a sincronicidade, mas nos mostra que o universo, em seu nível mais fundamental, opera de maneiras que a lógica clássica consideraria impossíveis. Ele nos dá permissão para pensar fora da caixa da causalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.7">Pauli e Jung também se fascinaram pelo simbolismo de <strong>constantes fundamentais</strong>, como a constante de estrutura fina (aproximadamente <strong>1/137</strong>). Este número &#8220;puro&#8221;, adimensional, que rege a força eletromagnética, parecia para eles um símbolo da ordem matemática e arquetípica subjacente ao <em>Unus Mundus</em>. Assim como <strong>π (Pi)</strong>, uma constante transcendental que emerge em círculos, ondas e equações por todo o universo, esses números são como assinaturas do arquiteto cósmico, pistas da unidade profunda que conecta tudo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-um-exemplo-pratico-o-escaravelho-dourado"><strong>Um Exemplo Prático: O Escaravelho Dourado</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.7">O exemplo mais famoso de Jung ilustra perfeitamente essa teia de conceitos. Uma paciente, extremamente racional e presa em uma visão de mundo cartesiana, contava a Jung sobre um sonho que tivera com um <strong>escaravelho dourado</strong>. Enquanto ela falava, algo começou a bater suavemente na janela do consultório. Jung abriu a janela e apanhou o inseto no ar: era um besouro da família dos escaravelhos (<em>Cetonia aurata</em>), cuja cor verde-dourada se assemelhava ao escaravelho do sonho.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-resumindo" style="font-size:19px"><strong>Resumindo</strong>:</h2>



<ul class="wp-block-list">
<li style="font-size:19px;line-height:1.7"><strong>Sincronicidade:</strong> A coincidência avassaladoramente significativa entre o relato do sonho e a aparição do inseto real.</li>



<li style="font-size:19px;line-height:1.7"><strong>Arquétipo </strong><strong>Psicóide</strong><strong>:</strong> O escaravelho, no antigo Egito, é um símbolo clássico de renascimento e transformação. Esse arquétipo estava &#8220;ativado&#8221; na psique da paciente (o sonho) e se manifestou no mundo físico (o besouro), quebrando sua resistência racional e permitindo o avanço terapêutico.</li>



<li style="font-size:19px;line-height:1.7"><strong>Unus Mundus / Sinequismo:</strong> O evento não foi uma &#8220;causa&#8221; e um &#8220;efeito&#8221;. Foi uma única realidade — a necessidade de renascimento — se expressando simultaneamente no plano psíquico e no plano material, pois ambos são facetas do mesmo contínuo.</li>



<li style="font-size:19px;line-height:1.7"><strong>Entrelaçamento quântico</strong> que nos dá uma linguagem moderna para conceber um universo fundamentalmente interligado e acausal.</li>
</ul>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-conclusao-a-danca-cosmica-do-si-mesmo"><strong>Conclusão: A Dança Cósmica do Si-mesmo</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.7">Ao conectar esses pontos, vemos que a sincronicidade é mais do que um acaso feliz; é um vislumbre da arquitetura oculta da realidade. É um convite para participar conscientemente de um universo que é vivo, interconectado e pleno de significado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.7">Neste ponto, somos lembrados daquela reflexão sobre a jornada da vida, que ressoa perfeitamente com esta exploração. <strong>Podemos imaginá-la assim</strong>:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.7">A vida dança ao som das trocas e das mudanças, um carnaval de chegadas e partidas em que ninguém repete o passo – nem o lugar, nem nós – somos eternos improvisadores do agora! Vamos dobrando e desdobrando, mesmo com os vincos ou cicatrizes das crenças e vínculos que não servem mais, mas que continuarão presentes na nossa história, memória e corporalidade. <strong>Mudar é a única coisa séria</strong>! Enquanto a gente tropeça, rindo, nas próprias pegadas que já se foram.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.7">Nesta pista de dança cósmica, somos ao mesmo tempo o ritmo e o descompasso – transmutamos como borboletas bêbadas do presente, sem saber se a próxima esquina nos dará o espanto da dor de uma asa roxa ou a gargalhada!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.7">E assim, entre mutações e muito gingado, contagiamos e somos contagiados, mesmo sem querer ou saber desse contágio intersubjetivo, até descobrirmos que a única constante é essa deliciosa loucura de realizar o Si-mesmo, sempre unido aos outros que nos habitam – e isso é pura poesia e sorte ao aprendermos que, quando estamos entregues de corpo e alma para um determinado servir, mesmo quando acreditamos que deu errado, foi certo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-conceitos-utilizados-por-jung-associados-com-a-sincronicidade"><strong>Conceitos utilizados por Jung associados com a Sincronicidade:</strong></h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-1-unus-mundus-o-mundo-uno" style="font-size:19px"><strong>1. Unus Mundus (O Mundo Uno)</strong></h2>



<ul class="wp-block-list">
<li style="font-size:19px;line-height:1.7"><strong>Origem:</strong> Alquimia, adotado e elaborado por C. G. Jung e Marie-Louise von Franz.</li>



<li style="font-size:19px;line-height:1.7"><strong>Natureza:</strong> É um conceito filosófico e psicológico que postula uma <strong>realidade subjacente unificada</strong> da qual tanto a psique (mente) quanto a physis (matéria) emergem. Não é um caos indiferenciado, mas um mundo potencial com uma ordem latente. O <em>Unus Mundus</em> é o campo onde os arquétipos, em seu aspecto &#8220;psicoide&#8221;, atuam como princípios organizadores que podem se manifestar simultaneamente no mundo psíquico (como um sonho ou uma intuição) e no mundo físico (como um evento externo), gerando a sincronicidade. É o ponto de encontro entre o observador e o observado.</li>
</ul>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-2-pleroma-a-plenitude" style="font-size:19px"><strong>2. Pleroma (A Plenitude)</strong></h2>



<ul class="wp-block-list">
<li style="font-size:19px;line-height:1.7"><strong>Origem:</strong> Gnosticismo, popularizado por Jung em sua obra &#8220;Sete Sermões aos Mortos&#8221;.</li>



<li style="font-size:19px;line-height:1.7"><strong>Natureza:</strong> O Pleroma é o &#8220;nada e o tudo&#8221;. É uma totalidade <strong>indiferenciada e pré-consciente</strong>. Nele, todos os opostos (bem e mal, luz e trevas, sentido e absurdo) existem simultaneamente, mas em um estado de anulação mútua. É uma plenitude caótica, sem qualidades, pois qualquer qualidade seria cancelada por seu oposto. A criação e a consciência (o que Jung chama de <em>Creatura</em>) surgem justamente ao <strong>se diferenciar</strong> do Pleroma, estabelecendo limites, qualidades e, portanto, dualidades. O Pleroma é o que existe <em>antes</em> da separação.</li>
</ul>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-3-tao-o-caminho" style="font-size:19px"><strong>3. Tao (O Caminho)</strong></h2>



<ul class="wp-block-list">
<li style="font-size:19px;line-height:1.7"><strong>Origem:</strong> Filosofia chinesa, principalmente o Taoísmo (Lao Tsé), adotado por Jung ao fazer o prefácio do I Ching e o livro Segredo da Flor de Ouro.</li>



<li style="font-size:19px;line-height:1.7"><strong>Natureza:</strong> O Tao é um conceito dinâmico. É &#8220;o Caminho&#8221;, o <strong>fluxo natural e espontâneo do universo</strong>. Ele é, ao mesmo tempo, a fonte primordial e imanifesta de tudo o que existe (o &#8220;Tao que não pode ser nomeado&#8221;) e o princípio ordenador que opera <em>dentro</em> do mundo manifesto através da interação do Yin e do Yang. O Tao não é uma &#8220;coisa&#8221; estática, mas um <strong>processo contínuo</strong>. A sabedoria, no Taoísmo, não é compreender o Tao intelectualmente, mas alinhar-se com seu fluxo através da &#8220;não-ação&#8221; (<em>wu wei</em>).</li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.7">A melhor palavra para descrever a relação entre eles é <strong>ressonância</strong>. Todos ressoam com a intuição humana profunda de que, por trás do véu da aparente separação e multiplicidade do mundo, existe uma unidade fundamental. Eles não são a mesma coisa, mas ao estudar um, inevitavelmente ouvimos os ecos dos outros. É uma trindade de conceitos que aponta para um mistério único, cada um com sua própria sabedoria a oferecer na jornada de autoconhecimento e integração.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Amplie o tem neste outro artigo do autor, que complementa o tema:<br>Sincronicidade Junguiana, Práticas Mânticas e o Mistério da Vida:<br><a href="https://blog.ijep.com.br/sincronicidade-junguiana-praticas-manticas-e-o-misterio-da-vida/">https://blog.ijep.com.br/sincronicidade-junguiana-praticas-manticas-e-o-misterio-da-vida/</a></p>



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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi Filho &#8211; IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-leituras-sugeridas" style="font-size:17px"><strong>Leituras Sugeridas:</strong></h2>



<ol start="1" class="wp-block-list">
<li>Jung, C. G. &#8211; 2010. <em>Sincronicidade: um princípio de conexões acausais</em>. OC 8/3 &#8211; Editora Vozes – RJ.</li>



<li>Meier, C. A. &#8211; 2001. <em>Atom and Archetype: The Pauli/Jung Letters, 1932-1958</em>. Princeton University Press.</li>



<li>Peirce, C. S. &#8211; 1992. <em>The Essential Peirce: Selected Philosophical Writings</em>. Indiana University Press. (Para uma exploração aprofundada do Sinequismo).</li>



<li>Von Franz, M.-L. &#8211; 1992. <em>Psyche and Matter</em>. Shambhala Publications.</li>



<li>Magaldi Filho, W. (Org.) &#8211; 2024. Fundamentos da Psicologia Analítica. Eleva Cultural – SP.</li>
</ol>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br"><strong>www.ijep.com.br</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Você está pronto para ser protagonista da sua própria vida?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/busca-da-autonomia-e-da-realizacao-pessoal/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marcella Ferreira]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 30 Jun 2023 20:15:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[autoestima]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia anal[itica]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=7837</guid>

					<description><![CDATA[<p>Toda vez que nos encontramos diante de uma tarefa que nos parece desafiadora demais e que exige de nós uma grande transformação, tendemos a estagnar. Quando resistimos à tomada de consciência ou rejeitamos a tarefa do novo, experimentamos a sensação de perda de controle. A vida vai perdendo sentindo, nossos dias se tornam mais difíceis até que nos sentimos sem saída e somos forçados a agir.<br />
Talvez o motivo de tanto sofrimento diante das tarefas seja o medo de correr riscos e nos expor. Nem sempre estaremos prontos para agir e tomar qualquer decisão e, pensar em fazer algo nessas circunstâncias parece assustador.<br />
	Crescer dói, não crescer mutila a nossa alma. Este processo de lapidação egóica é uma tarefa realmente árdua, mas inevitável se quisermos ir em busca de uma realização pessoal. A atitude de ficar escondido, apenas sendo coadjuvante das histórias, em algum momento, não será mais sustentado pela alma. Por mais que o ego busque alternativas para se proteger da situação, a alma apresentará desconfortos deixando em evidência que é preciso mudar. Mesmo com resistências, nós devemos buscar meios para abandonar os papéis secundários e nos tornarmos protagonistas das histórias ao nosso redor.  Resgatar a autonomia diante da nossa própria história é a tarefa a qual não conseguiremos escapar. Uma hora ou outra nós vamos ter que encarar o palco e a plateia e mostrar para todos, quem somos e como queremos viver a nossa história. </p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>O resgate da autonomia como parte da ampliação da consciência e a busca da realização pessoal. &nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Deus, tem tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo na minha vida que as vezes parece que estou dentro de um vagão descontrolado, sendo levada a situações que não escolhi, tendo que resolvê-las sem tempo de me preparar para elas, sem entender ao certo para onde elas vão me levar&#8230;só espero que você seja o condutor deste trem, Deus, e esteja realmente me levando para o lugar onde eu devo estar&#8230;”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem nunca se sentiu assim diante da própria vida? Nem sempre as coisas vão seguir o nosso planejamento e a vida vai nos dar tempo de nos prepararmos para encontrar a melhor resposta. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Confesso que quando me dei conta desta minha conversa com Deus antes de dormir eu me assustei. Não por ser algo inédito na minha vida, mas por entender que diante deste momento, eu realmente esperava que Deus estivesse sob o comando, no meu lugar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Este artigo não tem a finalidade de questionar a ação de Deus em nossas vidas. Isso é muito pessoal e nós devemos respeitar as diferentes visões sobre o tema. Mas quero ampliar aqui uma questão que eu já vinha elaborando diante dos casos que acompanho e de algumas leituras que fiz: <strong>haverá sempre um momento em que a vida vai cobrar da gente uma posição</strong> e, quando isso acontecer, não restará mais nada a fazer além da gente se tornar protagonista da própria vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como visto, o processo de evolução é um trabalho contínuo. A psique é trabalhada e a consciência é lapidada graças ao enfrentamento das situações. Este processo não se dá exclusivamente na fase do amadurecimento onde vamos nos tornando adultos, mas sim, acontece de forma <strong>constante</strong> <strong>por toda a vida</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-desenvolvimento-da-personalidade-e-formacao-do-ego">Desenvolvimento da personalidade e formação do ego</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>O <strong>desenvolvimento da personalidade e a formação do ego</strong> devem ser trabalhados continuamente</em>,<em> independentemente da idade.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Inclusive, este pensamento ilustra bem o caminho da individuação, onde somos convidados a construir, transformar, desconstruir ideias, valores, conceitos, sempre e de novo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No livro “<strong>Ego e Arquétipo</strong>”, <strong>Edinger</strong> (2012) ilustra essa ideia de evolução da consciência com um modelo espiral. Onde cada fase a ser vivida passa necessariamente por papéis, desafios de construção e desconstrução, de modo que seja trabalhado o Ego e conquistado o autoconhecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E fica evidente que esta caminhada é cíclica, ou seja, a cada novo momento ficaremos frente a frente com nossas sombras, nossos potenciais e vamos descobrindo maneiras de responder e amadurecer diante das experiências.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Podemos então pensar que este processo é cíclico, espiral e cônico, pois conforme vamos aprendendo as lições que a vida traz e vamos expandindo a nossa consciência. Encontramos saídas e respostas mais rápidas, ou vamos tendo menos necessidade de ficarmos parados em um ponto, identificados com o momento presente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-psique-passa-por-esses-movimentos-constantes-mas-nunca-da-mesma-forma" style="font-size:18px">A psique passa por esses movimentos constantes mas nunca da mesma forma.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Contudo, quando estamos diante de uma tarefa que nos parece desafiadora demais, que exige uma grande transformação ou mesmo constela nossos complexos, tendemos a estagnar.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Toda vez que resistimos à tomada de consciência ou rejeitamos a tarefa do novo, experimentamos a sensação de perda de controle</strong>. Ficamos com o emocional confuso e começamos a produzir sintomas em suas mais diversas formas. Seja diante de pequenas tarefas corriqueiras do dia a dia ou de grandes mudanças impostas pela vida, se não enfrentarmos nossa sombra os sintomas vão nos cobrar uma atitude.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-procrastinacao-preguica-ou-falta-de-prontidao" style="font-size:21px">Procrastinação: preguiça ou falta de prontidão?</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Quando resistimos ou nos sentimos paralisados diante de coisas que são julgadas como pequenas, costumamos dizer que estamos <strong>procrastinando</strong>.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Interessante pensar que nesses casos, muitos associam a resistência em fazer algo como <strong>preguiça</strong>. Mas será que realmente a pessoa que paralisa ou que arrasta uma situação deixa de fazer apenas por preguiça ou irresponsabilidade?</p>



<p class="wp-block-paragraph">No livro “<strong>Pare de procrastinar</strong>” de Nils <strong>Salzgeber</strong> (2021), fica evidente que muitas vezes essa resistência comportamental vem diante de tarefas julgadas como difíceis. Mas é quase sempre uma reação natural à uma emoção negativa ou desconfortável que é acionada, gerando ansiedade, dor, culpa, entre outros sentimentos. <strong>Por isso, a pessoa tenta mudar o foco para outra tarefa que desperte emoções mais agradáveis</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Agora, será que nós não podemos pensar que, diante de grandes mudanças de vida ou grandes tarefas, paralisamos por também nos sentirmos <strong>desconfortáveis</strong> com as nossas emoções?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não podemos pensar neste conflito interno como uma resistência profunda em olhar para a situação e assumir um papel diferente do que estávamos acostumados até então? A diferença talvez seja que nesses casos não julgamos como procrastinação, mas sim uma <strong>falta de prontidão para realizar tais tarefas</strong>.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:20px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>“A procrastinação geralmente decorre de alguma espécie de medo – do fracasso, do sucesso, do desconhecido, de ser julgado, da reprovação. É muito mais fácil procrastinar do que escrever um livro e correr o risco de ninguém gostar dele. É muito mais fácil procrastinar do que começar um negócio e correr o risco de falir.”</em> </p>
<cite>Salzgeber, 2021, p. 22</cite></blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-medo-de-correr-riscos-nao-seria-este-o-motivo-de-encontrarmos-pessoas-em-sofrimento-diante-de-desafios-que-a-vida-impoe" style="font-size:18px">Medo de correr riscos: não seria este o motivo de encontrarmos pessoas em sofrimento diante de desafios que a vida impõe?</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em><strong>Viver é correr riscos</strong>: de fracassarmos, mas também de nos surpreendemos com o sucesso. Como saber se estaremos prontos para lidar com o que vier, sendo algo positivo ou negativo? Quais partes minhas eu terei que conhecer para dar conta deste novo? Tantas perguntas para um processo que é <strong>inevitável</strong>.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Este comportamento até então visto em <strong>adolescentes </strong>agora virou tema também de muitos <strong>adultos</strong>. </p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O medo da vida e do viver, a sensação de despreparo diante das batalhas e responsabilidades, seja ela na vida pessoal ou na coletiva, tem feito com que adultos se sintam impotentes diante da própria vida</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É comum o relato de que grande parte do sofrimento vem pela falta de escolha, mas a verdade é que sempre a fazemos.  <strong>De forma consciente ou inconsciente, o tempo todo escolhemos</strong>: se queremos ou não, se vamos agir ou não, como vamos enfrentar o que nos parece inevitável – e essas decisões cabem somente a cada um.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O grande aprendizado é aprender a lidar com os desafios que vão aparecer pelo caminho, mesmo diante de uma escolha certeira. Independente da escolha (ou da aparente não escolha), inevitavelmente vamos ter que lidar com alguns desafios.  </p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:20px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">“<em>Enquanto uma pessoa continua a se desenvolver, a paz interior, mesmo para aqueles cuja vida foi enriquecida pelo encontro com o inconsciente, é apenas um breve intervalo entre o conflito resolvido e o conflito que virá, entre respostas e perguntas que nos lançam no tumulto e no sofrimento, até que novos vislumbres ou a própria transformação tragram nova solução, e o interior e o exterior em oposição se reconciliem novamente.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>A experiência do significado, que é, finalmente, aquilo com que se ocupa a vida, não é, de nenhum modo, equivalente ao não sofrimento; no entanto, a elasticidade da consciência que se dá conta de si e se transforma a si mesma pode nos fortalecer contra os perigos do irracional e do racional, contra o mundo interior e o exterior.</em>” </p>
<cite>Jaffé, 1995, p.59</cite></blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-crescer-doi-nao-crescer-mutila-a-nossa-alma">Crescer dói, não crescer mutila a nossa alma.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Este processo de <strong>lapidação egóica</strong>, buscando a totalidade individual proposto por<strong> Jung </strong>é uma tarefa realmente árdua, mas inevitável se quisermos ir em busca de uma realização pessoal.<strong> Não importa a idade ou o momento de vida, seremos convocados a algumas batalhas pessoais</strong> as quais não poderemos nos ausentar, a não ser que estivermos dispostos a adoecer, física e psiquicamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para algumas pessoas fica mais fácil associar esse chamado com a <strong>jornada do herói</strong>, e posso até concordar, desde que a jornada do herói seja compreendida de fato na sua essência: uma <strong>jornada de autoconhecimento</strong> e<strong> ampliação da consciência</strong> <strong>diante do inconsciente</strong> e não uma tarefa meramente egóica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse artigo, quero destacar os momentos em que realmente nos sentimos inundados por tarefas, mudanças e surpresas que anunciam grandes transformações de vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Situações em que teremos que rever alguns padrões, crenças, despertar para os aprendizados e realmente partir para o próximo nível da nossa jornada. Quando de fato nos lançamos para o processo, descobrimos que em alguns momentos nós devemos agir junto com os pedidos que a própria vida vai nos fazer. Ou seja, mesmo sem ter a compreensão absoluta do próximo passo, só nos resta fazer um esforço e nos apropriar da situação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-atitude-de-ficar-escondido-apenas-sendo-coadjuvante-das-historias-em-algum-momento-nao-sera-mais-sustentado-pela-alma" style="font-size:20px">A atitude de ficar escondido, apenas sendo coadjuvante das histórias, em algum momento, não será mais sustentado pela alma.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Por mais que o ego busque alternativas para se proteger da situação, a alma apresentará desconfortos deixando em evidência que é preciso mudar. Mesmo com resistências, nós devemos buscar meios para abandonar os papéis secundários e nos tornarmos protagonistas das histórias ao nosso redor.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Este é um processo realmente difícil, mas necessário</strong>. Muitos recursos do processo analítico nos ajudam neste enfrentamento, seja escutando a sombra, olhando para as fantasias, imaginando soluções, ponderando riscos, buscando um diálogo entre os conteúdos conscientes e inconscientes. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-investigando-o-inconsciente" style="font-size:20px">Investigando o inconsciente</h2>



<p class="wp-block-paragraph">No livro “<strong>O Eu e o Inconsciente</strong>” (OC, v.7/2, §369), Jung fala que não podemos usar ferramentas como meio de escapar da vida, mas sim para <strong>investigar</strong> aquilo que não se consegue ainda ter clareza.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Complementando esta ideia, ele pontua que dar voz as fantasias e ao inconsciente “<em>não são um substituto da vida; são frutos do espírito que cabem àquele que paga o seu tributo à vida. Quem se exime não experimenta nada, salvo o seu próprio medo mórbido, e este não lhe concede nenhum significado”.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Podemos, então, entender que esses momentos de grandes mudanças e tumultos emocionais fazem parte do processo de <strong>individuação</strong> e que nós não deveríamos resistir ao enfrentamento das mudanças solicitadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas é preciso deixar claro que há uma diferença entre se sentir receoso diante da mudança imposta pela vida, e de se sentir totalmente descontrolado e desconectado da própria vida e das decisões a serem tomadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No primeiro caso, devemos enfrentar essas <strong>emoções</strong> como um ajuste psíquico necessário para a nossa ampliação da consciência, e esta tarefa pode ser sim enfrentada pela nossa versão protagonista. A nossa versão protagonista entenderá a necessidade de agir apesar do receio e buscará recursos e ajuda necessárias, com a compreensão que desta forma ele poderá atuar a favor da demanda necessária.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já no segundo caso, onde o sentimento é o descontrole diante dos acontecimentos, surgirá a necessidade maior em buscar uma <strong>reconexão</strong> com a própria história, emoções e desejos, entendendo que o papel de coadjuvante, na verdade, aprisiona a pessoa em sofrimentos que não a pertence, mas que a mantém refém de complexos e sombras.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-fica-claro-entao-que-fugir-de-algumas-responsabilidades-nao-e-uma-opcao" style="font-size:18px">Fica claro, então, que fugir de algumas responsabilidades não é uma opção.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">No entanto, teremos sempre liberdade no modo de agir diante delas. <strong>Aniela Jaffé</strong> em “O Mito do Significado” (1995, p.91) fala que “<strong>o homem é livre e não é livre</strong>”. Ela diz que “n<strong>ão é livre para escolher o seu destino, mas sua consciência lhe dá a liberdade para aceitá-lo como uma tarefa que lhe foi atribuída pela natureza</strong>”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se estamos dispostos a contribuir com o <strong>processo de individuação</strong>, nos tornamos responsáveis por este processo e nos submetendo voluntariamente ao Self. <strong>O homem é livre para ampliar a sua consciência e, para isso, enfrentar seus medos e todo o desconhecido que habita a sua psique</strong>. </p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:20px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Quando alguém toma a si, voluntariamente, a integridade, não precisa vivenciar que ela lhe ‘acontece’ contra a sua vontade e de modo negativo” </em></p>
<cite>Jung, Aion, v. 9/2, §16</cite></blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-busca-da-autonomia-e-a-da-realizacao-pessoal" style="font-size:18px">A busca da autonomia e a da realização pessoal</h2>



<p class="wp-block-paragraph"> Assumir o <strong>protagonismo</strong> da situação é uma tarefa a qual não vamos conseguir escapar na busca da autonomia e da realização pessoal. É trabalhoso mudar a postura e assumir novos papéis, principalmente quando estamos <strong>acomodados</strong> diante dos nossos complexos. Porém, faz parte da vida resgatar a <strong>autonomia</strong> da nossa história pois, uma hora ou outra, vamos ter que encarar o palco e a platéia e nos expor.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:20px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“<em>Tornar-se autônomo é algo que nos é exigido, sem sombra de dúvida, como ideal e como reivindicação de nossa vida. Mas uma vez que a autonomia, em todas as suas formas, vem ligada sempre também com um processo de distinção e separação em relação ao outro, gerando assim perda, sentimentos de culpa de um lado, e de outro, sentimentos de mágoa, com medo e angústia frente à separação, de ambos os lados, via de regra, procuramos evitá-la”</em>. </p>
<cite>Kast, 2016, p. 34</cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">A totalidade do ser humano consiste em aprender conscientemente suportar conflitos, desenvolver a capacidade de buscar soluções para eles através de uma decisão ou de uma aceitação.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A vida ensina que devemos tentar maneiras de mudar aquilo que nos incomoda, mas que, algumas vezes, quando sem alternativa, devemos apenas aprender a suportar.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-isso-tambem-e-amadurecimento-psiquico" style="font-size:19px">Isso também é amadurecimento psíquico. </h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“&#8230;Só espero que você seja o condutor deste trem, Self, e esteja realmente me levando para o lugar onde eu devo estar&#8230;” . Tornar-se <strong>protagonista</strong> é realmente um grande desafio, mas é o primeiro grande passo na <strong>autonomia</strong> da nossa história.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">E quando entendermos isso, poderemos então pensar “<strong>quando é que eu irei conseguir me tornar roteirista da minha própria história?</strong>” Talvez a <strong>consciência </strong>ainda tenha um trabalho a fazer antes de conseguir escutar a resposta do <strong>Self</strong> e tomar posse desta autonomia. É possível que esta resposta (ou confirmação) seja dada apenas no <strong>desembarque do trem</strong>. Mas nós chegaremos lá.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/marcellaferreira/"><strong>Marcella Helena Ferreira</strong> &#8211; Analista em formação IJEP</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/cristinaguarnieri/"><strong>Maria Cristina Guarnieri</strong> &#8211; Analista Didata IJEP</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">EDINGER, Edward F., <em>Ego e Arquétipo</em>. São Paulo – SP: Ed. Cultrix, 2012</p>



<p class="wp-block-paragraph">JAFFÉ, Aniela. <em>O Mito do Significado</em>. São Paulo – SP: Ed. Cultrix, 1995</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>O Eu e o Inconsciente</em>. OC v.7/2. Petrópolis – RJ: Ed. Vozes, 2015</p>



<p class="wp-block-paragraph">________________ <em>Aion</em>. OC v.9/2. Petrópolis – RJ: Ed. Vozes, 2013</p>



<p class="wp-block-paragraph">KAST, Verena. <em>O Caminho para si mesmo</em>. Petropolis – RJ: Ed. Vozes, 2016</p>



<p class="wp-block-paragraph">SALZGEBER, Nils. <em>Pare de Procrastinar.</em> Campinas – SP: Ed. Auster, 2021</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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			</item>
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		<title>Simbologia do Espelho e Sombra</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sobre-a-simbologia-do-espelho-e-sombra/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sebastien Baudry]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 30 Jun 2023 19:58:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[Persona]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia anal[itica]]></category>
		<category><![CDATA[sombra]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=7827</guid>

					<description><![CDATA[<p>Eu me lembrei esses dias de uma frase famosa do escritor britânico Alan Watts que, quando questionado sobre o motivo de porque não comia carne, teria respondido : “porque as vacas gritam mais alto que as cenouras quando as matam”. Qual é o interesse da colocação um tanto simplória acima? A qual, de fato, carece [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Eu me lembrei esses dias de uma frase famosa do escritor britânico <strong>Alan Watts</strong> que, quando questionado sobre o motivo de porque não comia carne, teria respondido :</em> <em>“porque as vacas gritam mais alto que as cenouras quando as matam”.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Qual é o interesse da colocação um tanto simplória acima? A qual, de fato, carece de aprofundamento, especialmente por pertencer a um autor tão consagrado e espiritual como Watts, um grande conhecedor da <strong>doutrina budista</strong> e amador dos pensamentos de<strong> Jung</strong>?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque ela provoca em mim um encadeamento de memórias que me levaram a refletir sobre um tema que acredito ser um dos pilares mais importante da psicologia analítica quando queremos extrapolar os limites do consultório e confrontar Jung com a vida real: a <strong>projeção da sombra</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A primeira delas, quanto a essa colocação sobre o sofrimento animal, é que: por mais que faça o mais absoluto sentido, <strong>é necessário lembrar em todos os aspectos da vida que este planeta é habitado por outros seres sensíveis</strong> além de nós. Somente arranha a superfície da filosofia budista sobre o tema.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mestre Zen norte americano <strong>Philip Kapleau</strong> &#8211; referido como <em>roshi, </em>venerável sábio ou professor, traz uma visão bem diferente: a essa mesma pergunta: “<em>porque não comer animais</em>?”, deu uma resposta infinitamente mais interessante que este batido argumento de que todas as vidas são equivalentes e que, além de absolutamente esclarecedora, permite uma conexão evidente com Jung.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A segunda memória é uma viagem no tempo até momentos quase esquecidos da minha adolescência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-epoca-eu-sofri-muito-com-esse-dilema-pois-na-franca-onde-eu-cresci-era-comum-consumir-carne-de-cavalo-e-cavalos-eram-minha-grande-paixao">Na época eu sofri muito com esse dilema, pois, na França, onde eu cresci, era comum consumir carne de cavalo. E cavalos eram minha grande paixão.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Lá, paradoxalmente, se em alguns lugares a tradição o mantém como alimento, este animal também é parte da vida quotidiana e seu uso continua no trabalho em fazendas, no esporte, no divertimento e ainda encontramos, no sul do país, rebanhos de cavalos selvagens.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dizem que se o cachorro é o melhor amigo do homem, o cavalo é sua mais nobre conquista. É um animal tão nobre que nem sobre patas anda&#8230;ele tem pernas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-cavalo-e-indissociavel-da-historia-e-da-humanidade">O cavalo é indissociável da história e da humanidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O Cavalo de batalha de Napoleão Bonaparte encontra-se exposto empalhado no museu da guerra em Paris. A conquista dos territórios do leste da Europa, e sua povoação a partir da Rússia, foi realizada pelos cossacos &#8211; eméritos cavaleiros. Tanto que <strong>Gengis Khan</strong> conseguiu estender seu fantástico império graças a relação estreita que os guerreiros mongóis tinham com seus cavalos. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Toda a história de Alexandre o Grande e suas conquistas estão ligadas ao seu amado <em>Bucephalus</em>. <strong>O que seria de Ulisses e da Odisseia e de toda a popularidade das histórias e da mitologia grega se não houvesse o episódio do Cavalo de Tróia</strong>?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-uma-relacao-de-cumplicidade-entre-os-homens-e-os-cavalos-que-se-encontra-em-todas-as-culturas-nbsp"><strong>Há uma relação de cumplicidade entre os homens e os cavalos que se encontra em todas as culturas</strong>.&nbsp;</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ela é presente em vários relatos, de índios norte-americanos até os demais conquistadores. E é na <strong>Espanha</strong> onde encontramos um dos mais lindos espetáculos. Quando a dançarina de <strong>flamenco</strong> brinca de seduzir o animal com seu bailado, talvez como uma forma de ganhar o coração do seu cavaleiro, numa dissociação artística que enfatiza a lado simbólico do garanhão, macho, majestoso e poderoso que conecta a cabeça do humano à terra com&nbsp;suas 4 &#8220;pernas&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa relação do homem com o cavalo, por ser transcrultural e atemporal, deixa pressupor uma relação <strong>arquetípica</strong>. Há algo em comum entre as duas espécies. Algo que as conecta além da utilidade, do trabalho, de uma forma ainda mais profunda e que não conseguimos entender.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu tive a oportunidade de presenciar, vivenciar, apreciar toda majestade deste nobre animal. Na época eu praticava hipismo e, para poder pagar aulas e competições, ajudava a cuidar dos animais na academia onde treinava. Era comum soltarmos alguns cavalos na arena de adestramento para se divertirem, desfrutando de um espaço maior de que nos estábulos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-foi-assim-que-um-dia-fui-agraciado-com-uma-experiencia-impar" style="font-size:19px">Foi assim que, um dia, fui agraciado com uma experiência ímpar.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Fiquei durante um bom tempo assistindo ao <em>ballet</em> majestoso de um jovem imponente garanhão. Ele alternava galopes e batidas de cascos, relinches e bufadas, num inexorável bailado coreografado para mostrar a um outro animal o quanto poderoso era. Que o domínio do pedaço era dele e que, com certeza , o outro deveria se afastar se quisesse evitar uma luta fadada à derrota.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mais interessante era que o temido adversário não existia. As paredes da arena, onde tudo aconteceu, eram revestidas de espelhos a fim de que que os cavaleiros pudessem olhar suas posturas e corrigi-las (conforme mandam as cartilhas desta disciplina exigente que é o adestramento equestre). O bicho, sem entender que isto não teria fim, estava tentando intimidar a si mesmo. <strong>Ele não percebia que o adversário era ele mesmo, refletido no espelho.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-espere-um-pouco-e-a-resposta-do-mestre-zen-sobre-comer-carne-de-animais">Mas, espere um pouco&#8230;E a resposta do mestre Zen sobre comer carne de animais?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">E sim, eu comi um dia, carne de cavalo. Tive outra experiencia parecida depois. Um filhote de cachorro ficava rosnando para sua própria imagem que via num espelho fixado à uma porta. Corria atrás e voltava como desapontado de não ter encontrado, do outro lado, nenhuma fera ameaçadora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso, se não nos prova, pelo menos recorda o que muito se fala sobre a diferença essencial entre a psique humana e a dos animais. Especialmente dos mamíferos, que apesar de compartilharmos muito do DNA, da estrutura corporal, da mecânica da vida e da homeostase, algo entre nós difere: <strong>humanos tem a capacidade de perceber sua própria existência, a certeza de estar vivo que lhe confere o Ego, centro organizador da consciência</strong>. Humanos tem consciência e animais não, pelo menos não tanto, ao que parece.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Jung</strong> escreveu pouco sobre a formação do Ego em si. Apesar disso, alguns psicólogos e psicanalistas abordam que esse encontro com o espelho é um dos momentos essenciais para a formação do Eu. Dessa maneira, para dar início ao desenvolvimento da personalidade e a esse processo sem fim, que Jung descreve como “<strong>individuação</strong>”, a aventura de <strong>se tornar quem de fato é</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-encontro-com-o-espelho">O encontro com o espelho</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O primeiro a estudar este momento, denominado &#8220;<strong>estágio do espelho</strong>”, foi o psicólogo francês <strong>Henri Wallon</strong>, em seu livro <em>Les origines do caractere chez l´enfant</em>  &#8211; as origens da personalidade na criança (1931). Trata-se do momento no qual a criança, ao reconhecer sua imagem refletida no espelho, começa a perceber que é <strong>um ser individual</strong>, que possui um corpo que a diferencia de outros seres humanos. <strong>René Zazzo</strong>, um dos pioneiros da psicologia da criança descreve, em 1977, na revista francesa “Enfance”, o processo do estágio do espelho em 4 fases:</p>



<ol class="wp-block-list" style="list-style-type:1">
<li>Reconhecimento da imagem do outro (a criança nunca está sozinha frente ao espelho);</li>



<li>A criança confunde sua imagem com a de outra criança e tende a brincar com ela;</li>



<li>Desconforto com seu reflexo e fuga obstinada do espelho;</li>



<li>Momento jubilatório da identificação da sua própria imagem.</li>
</ol>



<p class="wp-block-paragraph">Lembrando que foi o também psicanalista francês <strong>Jacques Lacan</strong> quem trouxe este assunto para a psicanálise, o que fez no congresso da associação internacional de psicanálise em Marienbad, na então Checoslováquia (1936), antes de publicar na revista francesa de psicanálise (1949).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele continuou desenvolvendo o assunto durante toda sua carreira enfatizando aos poucos importância do olhar do outro nessa formação do Eu; haja vista que é quando é apresentado ao espelho, por um adulto, e que lhe é dito “olha, é você ali”. Geralmente por um dos pais cuja imagem reconhece ao lado da sua, que a criança começa a entender que este terceiro desconhecido, “sou eu”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De fato, esse aspecto é fundamental. Justamente porque demonstra que precisamos do outro para nos reconhecer. É com a certeza que o outro sabe quem ele é que podemos começar a caminhar em direção a ele para iniciar a descoberta de nós mesmos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-precisamos-do-olhar-do-outro-para-entender-quem-nos-somos">Precisámos do olhar do outro para entender quem nós somos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Françoise Dolto</strong> (202), pediatra e psicanalista, elaborou outro ponto interessante: acrescentou que precisamos conceber esse espelho como “<strong>uma superfície psíquica oni-refletora</strong>”, considerando a importância de tudo que é refletido e recebido como volta da interação com o outro, como sons, fala, toques ou expressões corporais.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Em resumo, precisamos entender que, para nos desenvolvermos, para nos tornarmos indivíduos plenos e autônomos, precisamos ao longo da vida nos deparar com <strong>espelhos simbólicos</strong> oferecidos pela interação com os outros.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Em sumo, é o olhar do outro tanto quanto nosso olhar no outro que nos permite aprender e entender quem nós somos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-o-zen-budismo-nisso-tudo-calma-ai-que-chegamos-la">E o Zen budismo nisso tudo? Calma aí que chegamos lá&#8230;</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para fazer essa conexão, devemos antes elaborar mais um pouco essa questão do espelho simbólico. Espelhos e reflexos aparecem em várias histórias e contos, da branca de neve até o mito de narciso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“<strong>O</strong> <strong>retrato de Dorian Gray</strong>”, livro do <strong>Oscar Wilde</strong>, acaba mostrando a realidade escondida por trás da tardia boa consciência adquirida pelo protagonista da história. E, se todas essas narrativas parecem dar a lição de que, se olharmos bem para a imagem, iremos ver algo sombrio, é bem interessante a continuação da história de Alice.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em “<strong>Alice no país das maravilhas</strong>”, <strong>Lewis Caroll</strong> nos mostra como <strong>no universo da criança imaginário e realidade de misturam</strong>. Contudo, na sua sequência, que muitos não conhecem, <strong>Alice através do espelho</strong>, a pequena aventureira atravessa o espelho para se deparar com figuras estranhas e altamente simbólicas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso, é muito relevante que o título original da novela fosse: <strong>Através do espelho, e o que Alice encontrou ali</strong> (traduzido para o português).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso nos faz pensar que para o nosso desenvolvimento, não basta olhar no espelho, pois isso nos fixaria no momento presente como <strong>Narciso</strong> preso na eterna admiração do seu reflexo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-precisamos-olhar-atrave-s-e-ir-a-o-outro-lado-po-is-alem-da-imagem-refletida-ha-algo-precioso-p-ara-ser-encontrado" style="font-size:20px"><strong>Precisamos olhar atravé</strong>s e<strong> ir a</strong>o<strong> outro lado,</strong> po<strong>is, além da imagem refletida</strong> <strong>há algo precioso p</strong>ara ser<strong> encontrado</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando falamos em desenvolvimento e aspectos sombrios, imediatamente lembramos o que Jung nós ensinou sobre a formação da personalidade. À medida que tomamos consciência da nossa existência e que se firma o Ego como centro organizador da consciência, responsável por guiar-nos pela vida em sociedade. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Juntamente e irremediavelmente se forma a <strong>sombra</strong>: parte do inconsciente pessoal com todos os conteúdos, desejos, vontades e atitudes reprimidas por serem julgadas inadequadas ao momento da consciência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-compreendendo-os-conteudos-sombrios">Compreendendo os conteúdos sombrios</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>É importante ressaltar sempre que sombrio não significa “do mal” ou “pecaminoso”, mas sim em oposição “à luz da consciência”, ou seja, tudo aquilo para que, no presente momento, é melhor não olhar, nem ter conhecimento.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro aspecto importante é que esses conteúdos são “<strong>sombrios</strong>” justamente por terem sido reprimidos. Isso é a base de que chamam a “psicodinâmica” na qual se enquadram tanta a psicanálise quanto à psicologia analítica. São conteúdos que existiam no inconsciente &#8211; seja ele pessoal ou impessoal, coletivo. Os quais receberam energia suficiente, na forma de desejos e vontades, até serem elevados à consciência para serem realizados e vivenciados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entretanto, por serem incompatíveis com a percepção do Ego, com moral, ética, religião, valores individuais ou do coletivo o qual é envolvido, esses conteúdos são devolvidos e jogados para baixo do tapete do inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas o ponto chave para <strong>Jung</strong> é que <strong>a psique é um sistema fechado no qual a energia não se volatiliza, não desaparece</strong>. Portanto, por mais que o Ego não queira enxergar essas vontades e desejos, esses permanecem ativos. Assim, permanecem na<strong> sombra</strong>, na <strong>escuridão afetiva</strong>. Até que, intensos demais para serem ignorados, reaparecem sob a forma de <strong>projeção</strong>.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:20px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“&#8230; todas as tendências de adaptação ao mundo externo são reprimidas e somem no inconsciente. E, assim, quando percebidas, aparecem como não pertencendo à própria personalidade, mas como projetadas”.</em></p>
<cite> Jung, 2015, 267</cite></blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tendemos-a-jogar-nos-outros-e-nos-objetos-todas-essas-questoes-que-nos-inquietam-mas-que-nao-percebemos">Tendemos a “jogar” nos outros e nos objetos todas essas questões que nos inquietam, mas que não percebemos.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:20px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“O objetivo essencial do opus psychologicum é o desenvolvimento da consciência, isto é, em primeiro lugar, a tomada de consciência dos conteúdos até então projetados. Esse esforço leva pouco a pouco ao conhecimento do outro, bem como ao conhecimento de si e, assim, a distinguir o que a pessoa é na realidade daquilo que nela é projetado ou o que ela fantasia a seu respeito.”</em></p>
<cite> Jung, 2011, 471</cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Começamos a dar aos outros qualidades e defeitos que não tem e, assim, criamos vínculos afetivos com artistas, líderes religiosos ou políticos, acreditando ser o que não são.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Começamos a amar e odiar personagens de ficção, nos ligar em novelas ou heróis de desenhos, jogadores e times de futebol e, muitas vezes, damos à eles mais importância de que a membros da família ou a amigos próximos. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Choramos o falecimento de cantores e cantoras que nunca encontramos, como se um pedaço de nós tivesse morrido também.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas se pensarmos bem, certamente <strong>um pedaço de nós</strong> se foi junto do famoso que partiu e de que tanto gostamos. Se foi o pedaço da nossa alma que o Ego nunca aceitou, esse aspecto nosso escondido que tivemos que pintar na cara do outro para nunca esquecermos que nos incomoda por dentro. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-projecao-jung-disse">Sobre projeção, Jung disse:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:20px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Esta expressão designa, pois, um estado de identidade que se tornou perceptível e, assim, objeto de crítica, seja da crítica do próprio sujeito, seja da crítica de outros.”</em></p>
<cite>Jung, 2015, 881</cite></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:20px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Para configurar esta relação, o sujeito destaca de si um conteúdo, por exemplo, um sentimento, e o transfere para o objeto, dando vida a este e incluindo-o na esfera subjetiva.”</em></p>
<cite>Jung, 2015, 882</cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, ao longo do decorrer da vida, <strong>fazemos dos outros nossos espelhos vivos</strong>, para que nosso “eu”, incapaz de olhar para dentro, com o olhar constante fixado para fora, possa enxergar o que lhe falta para tornar-se, na totalidade, quem há de ser. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-preciso-como-alice-atravessar-o-espelho">É preciso, como Alice, atravessar o espelho. </h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ir além da sensação, do afeto que a imagem refletida causa. Procurar do outro lado o sentido escondido e questionar, tal como fez o mestre Zen, para que seja possível responder a seguinte pergunta: <em>Não é proibido comer carne</em>. <em>Nada é proibido. Mas se você se deleita ao comer, o que diz sobre você que seu maior prazer advém da morte de outro ser?”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Nesse contexto, indago: o que significa sobre nós, como coletivo, curtir, assistir filmes de terror, “cidade alerta”, campeonatos de MMA, não chorarmos ao ver o espelho da sociedade dormindo na calçada e não fazer nada, xingar o torcedor do outro time porque é divertido?</em> </p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Então</strong>, <strong>pergunto</strong>:<strong> o que diz ao seu respeito tudo aquilo de que gosta?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/sebastienbaudry/">Analista em formação: Sebastien Baudry</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/cristinaguarnieri/">Analista didata: Maria Cristina Guarnieri</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">REFERÊNCIAS</h2>



<p class="wp-block-paragraph">DOLTO, <a href="https://fr.wikipedia.org/wiki/Fran%2525C3%2525A7oise_Dolto">F,</a> NASIO J.-D. L&#8217;enfant du miroir, Paris, França: Payot, 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph">KAPLEAU, P. Zen Budismo – O Caminho da iluminação, Editora Arx.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <em>Ab-reaçã</em><em>o, análise dos sonhos, transferê</em><em>ncia</em>. 16/2 Obra Completa. 9 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________ <em>Tipos psicológicos</em>. 6 Obra Completa. 9 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WALLON, H. <em>Les origines du caractère chez l&#8217;enfant. Les préludes du sentiment de Personnalité</em>. Paris, França: <a href="https://fr.wikipedia.org/wiki/Presses_universitaires_de_France">Presses universitaires de France</a>. 1983</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://fr.wikipedia.org/wiki/Jacques_Lacan">LACAN,</a> J. <em>Le Stade du miroir comme formateur de la fonction du Je: telle qu&#8217;elle nous est révélée dans l&#8217;expérience psychanalytique</em>. Paris, França:&nbsp; <a href="https://fr.wikipedia.org/wiki/Presses_universitaires_de_France">Presses universitaires de France</a>, 1949.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ZAZZO, R, <em>Image spéculaire et image anti spéculaire. Expériences sur la construction de l&#8217;image de soi. </em>Revista<em> Enfance</em><strong>, </strong>Paris Fance, 1977, 30-2-4, pp.223-230</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Sobre a Simbologia do espelho e sombra" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/1Z2pjLWjyh4?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
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		<title>Servir para Ser</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/servir-para-ser/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 Jul 2022 19:09:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Uma vida sem sentido não tem sentido! E o único sentido que faz sentido para a vida é o de servir a própria vida. Este ensaio reflete a respeito da necessidade de servirmos para sermos!</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Ter capacidade crítica e reflexiva é o que me mantém&nbsp;vivo, confiante, plural e feliz! Foi isso que fiz quando anunciei publicamente o sétimo dia do falecimento da minha mãe, aos 101 anos de idade, agradecendo tudo que ela fez por mim e, ao mesmo tempo, criticando o que ela deixou de fazer por ela, na direção consciente do seu processo de individuação. Com isso, acredito que deixei claro a diferença que faço entre amar e gostar. Infelizmente, assim como ela, a maioria dos humanos, por ficarem monotemáticos e egoístas, perdem a oportunidade de servir ao Self que, para C. G. Jung, é a representação da Imago Dei em nós, ou Deus em nós! Ampliando um pouco mais a questão, posso amar uma pessoa, e com isso vibrar e contribuir para sua realização, mesmo que seu caminho vá numa direção contrária ao meu ou dos meus gostos, exercitando minha capacidade de tolerância. Por isso, existem muitos seres humanos, que amo verdadeiramente, e estou sempre pronto para servir e contribuir com seus caminhos de realização, mesmo não gostando se suas posições políticas, religiosas, hábitos, etc. Óbvio que, por amar, jamais deixo de estimula-los criticamente, com o propósito de ampliação da consciência &#8211; creio que essa é a minha missão. Porém, quando o convívio passa a ser oneroso, e para respeitar as diferenças passo a me desrespeitar, começo a me desamar e, neste caso, a distância se faz necessária, porque o convívio passa a ser muito desgostoso, consciente de que o limite do amor ao próximo é o amor a nós mesmos preservado!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para estar&nbsp;vivo, de verdade, é necessário fazer muitas trocas: dando, recebendo e retribuindo, inclusive as críticas reflexivas, que servem para a ampliação da consciência &#8211; nossa e do nosso entorno relacional! Isso irá possibilitar a prática da alteridade, que nos permite sair da nossa lente de condicionamentos e conforto, para nos vermos pelas lentes do outro! Essa prática nos faz tolerantes, mais fraternos e igualitários. Porque lidar com o contraditório, sem encará-lo como um ataque pessoal, contribui para a evolução do conhecimento e do pensamento. Nossa estrutura de consciência necessita do Ego, que é seu gestor e precisa lidar com as forças opositivas entre Bios e Zoé, matéria somática e energia psíquica respectivamente. Elas são informações presentes em dinâmicas de movimento opostas, a primeira está hipostasiada no plano físico e instintivo do corpo ou soma, que Jung atribui ao espectro Infravermelho da Luz &#8211; como símbolo da consciência -, e a segunda no plano arquetípico, nos remetendo as dimensões anímicas e espirituais da psique, o espectro ultravioleta da Luz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Além dessa tensão, o Ego (que é primeiro complexo que se diferencia do inconsciente, arquetipicamente presente em todos humanos e inicialmente identificado com a corporalidade), faz polaridade opositiva e complementar com a Sombra (que por ser arquetípica, é universal). O Ego, apesar de não ser a totalidade da consciência, é o representante dela, assim como a Sombra, que também não é a totalidade do inconsciente, é sua representante. Da mesma forma que na Sombra estão muitos aspectos da Anima ou do Animus (nossos contrapontos sexuais, do ponto de vista egóico), no Ego estão a maioria dos aspectos da Persona, porque o Ego necessita da Persona para se relacionar e adaptar-se com o entorno social, e tudo isso pertence ao Self, que é a totalidade do Sí-mesmo. Com isso, de forma indireta, Persona e Sombra fazem espelhamento opositivo, assim como a Persona do Ego masculino faz oposição com a Anima e a Persona do Ego feminino faz oposição ao Animus. Porém, Jung também diz que para chegarmos na relação com a Anima ou com o Animus devemos ultrapassar as barreiras da Sombra e flexibilizar a Persona, as máscaras funcionais, para servirmos a alma, que não tem gênero ou raça, em seu fluxo contínuo que almeja a unidade. Porém, na maioria das vezes, o Ego, com seu livre arbítrio e sem saber estar aprisionado por complexos patológicos, dificulta e até pode interditar essa realização.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para estar&nbsp;confiante&nbsp;é preciso ter fé na vida &#8211; fiar com Deus, no sentido de distribuir seus talentos, entusiasmadamente, para a humanidade, com resiliência e coragem, aceitando o fato de que tudo o que vem, independentemente de produzir prazer ou dor, alegria ou tristeza, está vindo com o propósito do nosso aprimoramento evolutivo, anímico e espiritual, que vai muito além dos apêgos egóicos, fixados no corpo e na territoriedade reptiliana.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com essas duas premissas conquistadas, podemos ser&nbsp;plurais, e não promíscuos, deixando de existir monotematicamente, dominados pelos complexos patológicos. Isso mesmo, os complexos nos deixam monotemáticos, com atitudes fóbicas e unilaterais, frequentemente manifestadas nos fanatismos religiosos, no apêgo às doenças crônicas, no partidarismo político, nas dietas rígidas, na vigorexia, ortorexia, anorexia, bulimia, hipocondria, oniomania,&nbsp;entre outros transtornos obsessivos e compulsivos como dependências de álcool, drogas, da&nbsp;beleza, do sexo, da riqueza, do trabalho, da fama, etc. Obviamente, nossa modernidade líquida e do vazio, onde tudo e todos são descartáveis, como bens de consumo, usando-nos como bens de produção para continuarmos consumindo e poluindo, no amplo sentido, estimula todas essas unilateralidades.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por fim, para ser&nbsp;feliz, é necessário estarmos livres para fazermos nossa escolha de dependência e servidão missionária ao amor. Porque, quando aprendemos amar tudo e todos, nos amamos e seremos amados por Deus &#8211; no sentido de possibilitarmos que a imanência do Self atinja seus propósitos e sentidos transcendentais. Isso equivale a estarmos engajados, conscientemente, com o processo de individuação, servindo para ser, na certeza de que quando mais darmos, mais teremos para dar, vivenciando o mistério, o encanto, o lúdico do cotidiano, transformando o ordinário em uma aventura extraordinária, com humor e alegria. Essa é a verdadeira arte, que só aqueles que estão à serviço da alma conseguem realizar. Os outros, infelizmente a maioria comum, perdeu o romantismo do viver, aprisionados na miserabilidade egoísta do ego, assumindo a condição de coitados desgraçados, brigando pelas certezas, pela normalidade, contra as doenças, as dores, os desamores, com o que fizeram ou deixaram de fazer com e para eles, hipostasiando raiva, culpa, medo, ansiedade, &nbsp;ressentimento, vingança ou mágoa, obviamente vivendo exclusivamente pela preservação do território, que é a primazia do Bios, que é finito e ilusório, mesmo com suas personas aprisionados em discursos e práticas aparentemente voltados para Zoé!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para evitar que o passado traumático deixe de se manifestar como complexo autônomo e patológico, muitas vezes expressado em sintomas físicos e ou psíquicos, é necessário o enfrentamento consciente, possibilitando sua simbolização e ressignificação. Negar o passado é tão patológico quanto ficar paralisado nele. Por meio da ressignificação é possível o surgimento da superação e a capacidade empática da alteridade para servirmos, amorosamente, os demais feridos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com isso, a&nbsp;consciência evolutiva, que nos coloca responsáveis e protagonistas do processo de individuação, exige autoconhecimento, por meio da capacidade crítica e reflexiva, com o contínuo reconhecimento, respeito e enfretamento da sombra, que está em nós, ao invés de buscar práticas alienantes, por meio de fanatismos que levam a estados alterados da consciência, direta ou indiretamente, que acabam impedindo o autojulgamento critico, a alteridade e a servidão amorosa. Após aprendermos a agradecer tudo que vem e dizer o sim incondicional à vida, sem abrirmos mão do servir, começaremos a perceber que nada é por acaso e que tudo faz parte da gargalhada divina e transcendental!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Paz e Bem</p>



<p class="wp-block-paragraph">Julho de 2018</p>



<p class="wp-block-paragraph">*WALDEMAR MAGALDI FILHO:&nbsp;Psicólogo, Analista Junguiano Didata do IJEP, Especialista em Psicologia Junguiana, Psicossomática, Arteterapia e Homeopatia; Mestre e Doutor em Ciências da Religião. Autor do livro: &#8220;Dinheiro, Saúde e Sagrado &#8211; Interfaces Econômicas e Religiosas à Luz da Psicologia Junguiana&#8221;, Ed. Eleva Cultural, Coordenador dos Cursos de Pós-Graduação que titulam especialistas em: Psicologia Junguiana; Psicossomática; Arteterapia e Expressões Criativas do IJEP &#8211; Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa (www.ijep.com.br), oferecidos nas cidades de Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Imagem: Abadia de Heiligenkreuz (Baixa Áustria).&nbsp;Claustros &#8211; Estátua de Maria Madalena ungindo os pés de Cristo (século XVIII), de Giovanni Giuliani.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Waldemar Magaldi Filho &#8211; 16/06/2019</em></strong></h4>



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