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	<title>Arquivos psicopatologia - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos psicopatologia - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>O coringa, ou a hannya dionisíaca</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-coringa-ou-a-hannya-dionisiaca/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[José Luiz Balestrini Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 17 Oct 2019 19:58:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Psicopatologia]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">Arthur Fleck, personagem principal do filme Coringa, teve sua existência negada desde o início, desde sua infância. Sendo ou não, filho bastardo do magnata Thomas Wayne, as duas hipóteses apresentadas na história contam de um abandono: pelo pai rico na primeira suposição, ou por ambos os pais, no caso de realmente ter sido adotado pela mãe doente que o criou. Tratado sempre como uma criança, impedido de crescer psiquicamente, foi projeção de uma felicidade inalcançável de uma mãe disfuncional e doente que o chamava o tempo todo de “Happy” (feliz), apelido infantil que o manteve infantilizado por toda vida. Ninguém ri o tempo todo, a não ser que seja por uma esperança &#8211; o último mal contido na caixa de&nbsp;<em>Pandora</em>&nbsp;– para disfarçar o desespero. Negado pelo pai, fosse ele o milionário Thomas Wayne, fosse ele um pobre qualquer, Arthur não teve uma construção minimamente funcional de um complexo paterno. Herdou de sua mãe a capacidade de viver &#8211; até certo ponto &#8211; de fantasias, até que se tornou a literalização da paradoxalidade &#8211; individual e coletiva &#8211; negada pela sociedade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quando comete o matricídio, tentando se livrar na verdade do complexo materno disfuncional que o habita, dá um passo grande para se tornar literalmente uma&nbsp;<em>hannya</em>. A&nbsp;<em>hannya</em>&nbsp;é a representação de uma mulher que se tornou um demônio triste que ri de maneira ameaçadora e mostra, dentro da cultura japonesa do teatro&nbsp;<em>Noh</em>, a confusão de sentimentos humanos. Ela ri com a boca, enquanto seus olhos mostram angústia. Matar literalmente sua mãe não determina o fim do seu complexo materno. Arthur chega a nutrir também uma fantasia de companheirismo projetada numa mulher que mal conhece, uma vizinha. Com a impossibilidade de concretizar seus desejos, e com o embate da realidade, essa fantasia também se esvai, se desfaz. Depois desses acontecimentos, como no mito de&nbsp;<em>Hermafrodito,&nbsp;</em>Arthur é possuído por sua anima enlouquecida, uma ninfa faminta de amor e desejo que se prende a ele com desespero para não mais se soltar, os dois se transformam em um único ser que carrega em si traços masculinos e femininos.&nbsp;<em>Hermafrodito&nbsp;</em>era filho de&nbsp;<em>Hermes</em>&nbsp;e&nbsp;<em>Afrodite.</em>&nbsp;Seus pais foram portanto, o deus&nbsp;<em>trickster</em>, aquele que consegue transitar entre os três mundos (olímpico, telúrico e ctônico) e tem o poder de dominar as sombras, e a deusa do amor &#8211;&nbsp;<em>Afrodite</em>&nbsp;representa muitas formas diferentes do amor, mas principalmente a força da fecundidade que direciona os seres humanos de maneira instintiva; é o amor animal e selvagem que faz com que até mesmo&nbsp;<em>Zeus</em>, o mais poderoso dos deuses, perca o controle de seus atos. Arthur, tomado por esse amor instintivo, mas de maneira deturpada e distorcida, se torna aquele que faz emergir os conteúdos da escuridão de uma sociedade inteira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Coringa é a representação da sombra da cultura hipócrita, egoísta, consumista, preconceituosa, unilateralizante e literalizante. Além disso, traz consigo características de todo indivíduo tratado como invisível por essa sociedade. Por isso, a identificação com o personagem é tão fácil por aqueles que têm o mínimo de sensibilidade, no que diz respeito a essas questões, ao mesmo tempo que é negado veementemente pelas pessoas que mostram indiferença com esses assuntos. Ele pode ser a sombra de qualquer um de nós, afinal, ele é um coringa e pode ocupar qualquer posição no jogo social. Então, é apenas óbvio que quando Arthur se torne o Coringa, leve consigo toda a parte pobre, suja, doente e louca da população de Gotham num movimento frenético e catártico que se espalha contagiando psiquicamente todas essas pessoas. A parte negada da sociedade se identifica com ele, o apoia e o segue, mesmo sem saber direito para onde está sendo conduzida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ele representa um impulso irracional para a mudança. É de natureza ambígua: ri com a boca enquanto sofre com os olhos; tem uma aparência andrógina; usa paletó e pinta o rosto como um palhaço; destrutivo e criativo ao mesmo tempo. Nunca sabemos se o que diz é verdade ou mentira. A tensão que antecede suas ações é constante, elas são sempre imprevisíveis. Tem o poder de nos incitar a mergulhar no desconhecido, nas sombras. Essa é a descrição da carta “o louco” do tarô mitológico, e ela é a representação do deus grego&nbsp;<em>Dioniso</em>. Na carta, o deus louco se prepara para saltar para o mundo inferior enquanto é guardado pela águia de&nbsp;<em>Zeus.</em>&nbsp;Arthur desce as escadas nessa mesma direção amparado por pombos, ratos com asas, como são chamados às vezes. Na falta das folhas de vinha nos cabelos, usa apenas tinta verde barata. Assim como a&nbsp;<em>hannya</em>, o louco tem chifres na frente da cabeça, o que indica uma condição instintiva animal. O Coringa é o messias das sombras, um&nbsp;<em>Dioniso</em>&nbsp;do mundo inferior, uma mistura de mitos e mitologemas – o Coringa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Não quero reduzir esse personagem a um único mito ou representação simbólica, porque isso transformaria o símbolo em signo e caracterizaria um erro. Faço apenas a consideração da projeção de um aspecto arquetípico específico do inconsciente. Consciente de que o trabalho de análise de mitos, contos de fadas ou sonhos, alinhado com o objetivo da psicologia junguiana, é de sempre ampliar, e não reduzir ou encerrar uma interpretação. O próprio personagem propõe isso de maneira genial: ele não se encerra, não se torna apenas um vilão e não tem apenas duas caras, tem milhares. Essa é a razão pela qual muitos espectadores saíram da apresentação com sentimentos ambivalentes num espectro amplo oscilando entre a atração e a repulsão. Possui todas as caras escondidas pelas máscaras de seus seguidores: qualquer um pode ser um coringa, assim como o Coringa pode ser qualquer um.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No consultório com clientes, em conversas com amigos, conhecidos, e com pessoas que estudam a psicologia junguiana e outras, posso perceber como o filme tem um impacto grande causando impressões profundas nos indivíduos. Gostando ou não do filme, ninguém sai da experiência sem se sentir tocado de alguma maneira. E mesmo que não haja reflexão, a imagem, ou as imagens evocadas em cada um são suficientes para mostrar que arquétipos, afetos e complexos foram estimulados. É extremamente interessante a pluralidade de leituras que surgem, com suas diferenças e similaridades. Obviamente, cada um falando de seus próprios aspectos espelhados, de alguma maneira, na tela do cinema.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Para mim, de todos os recortes analíticos, o mais importante está na ideia de que, quanto mais unilateral e literal nossa sociedade se torna, maior o perigo de vivermos movimentos enantiodrômicos avassaladores que nos levam para o outro lado do pêndulo, também de forma extrema e patológica. Enquanto não aceitarmos que somos seres paradoxais, e que é necessário mergulhar em si mesmo para integrar nossos aspectos sombrios masculinos, femininos, andróginos e loucos, alimentaremos sociedades com culturas ainda mais divididas e estratificadas. Jung, no texto abaixo, comenta a importância do paradoxal e do enfraquecimento da religião quando esta abre mão do contraditório e dos questionamentos opositivos:&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; “Surpreendentemente, o paradoxo pertence ao bem espiritual mais elevado. O significado unívoco é um sinal de fraqueza. Por isso a religião empobrece interiormente quando perde ou reduz seus paradoxos; no entanto, a multiplicação destes últimos a enriquece, pois só o paradoxal é capaz de abranger aproximadamente a plenitude da vida. A univocidade e a não contradição são unilaterais e, portanto, não se prestam para exprimir o inalcançável.” (JUNG, O.C. VOL 12, § 18)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Parece falar aqui especificamente sobre religião, porém, é possível e importante ampliarmos isso para outros &#8211; talvez todos &#8211; aspectos da vida. Percebamos que ele diz que “só o paradoxal é capaz de abranger&nbsp;<strong>aproximadamente</strong>&nbsp;a plenitude da vida”. Ou seja, mesmo vivendo o paradoxo, somos&nbsp;<strong>aproximadamente</strong>&nbsp;completos, e sem ele nos tornamos cada vez mais doentes. É preciso entender e aceitar que em cada um de nós habitam personagens que nos fazem chorar e rir ao mesmo tempo. Ouçamos os loucos, dionísios, coringas e&nbsp;<em>hannyas</em>&nbsp;que vivem em nós e façamos esse mergulho nas profundezas do nosso ser em busca dos paradoxos que nos tornam verdadeiramente aquilo que deveríamos ser, antes que seja tarde demais. Afinal de contas, sem dúvida não pode existir a fé!</p>



<p class="wp-block-paragraph">*Jose Luiz Balestrini Junior, ser humano, psicólogo, especialista em psicologia junguiana pelo IJEP, analista junguiano em formação pelo IJEP, especialista em medicina tradicional chinesa, e Sifu (mestre) de Kung Fu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E-mail:&nbsp;<a href="mailto:balestrini@lungfu.com.br">balestrini@lungfu.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Atende e dá aulas na Zona Sul de São Paulo</p>



<p class="wp-block-paragraph">Av. Ibijau, 236 – Moema</p>



<p class="wp-block-paragraph">Consultório: (11) 98207-7766</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.lungfu.com.br/">www.lungfu.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. Psicologia e alquimia, O.C. vol. 12, Petrópolis, Vozes, 2016.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>José Luiz Balestrini</em></strong></h4>
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			</item>
		<item>
		<title>Reimaginando transtorno bipolar psicopatologia afeto e sistema de valores III</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/reimaginando-transtorno-bipolar-psicopatologia-afeto-e-sistema-de-valores-iii/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ajax Salvador]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 12 Jun 2019 12:20:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
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		<category><![CDATA[Transtorno Bipolar]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Poderia o Transtorno Afetivo Bipolar ser reimaginado como a dominação unilateral de um conjunto de sistema de valores que, em cisão e reação de oposição e embate, produzem o que surge como sintomas?</p>
<p>Através da narrativa Junguiana a noção de doença mental (psicopatologia) pode ser revista como o momento em que se configura a dominação unilateral de um padrão arquetípico que, em complexo, torna-se governo interior tirânico e com grande intensidade se coloca em oposição e embate contra manifestações diversas. Os complexos dominantes viveriam os elementos em cisão como inimigos a serem combatidos, o que constelaria mecanismos automáticos de defesa e fariam com que estas manifestações surgissem como sintomas.</p>
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<p class="wp-block-paragraph">Poderia o Transtorno Afetivo Bipolar ser reimaginado como a dominação unilateral de um conjunto de sistema de valores que, em cisão e reação de oposição e embate, produzem o que surge como sintomas?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Através da narrativa Junguiana a noção de doença mental (psicopatologia) pode ser revista como o momento em que se configura a dominação unilateral de um padrão arquetípico que, em complexo, torna-se governo interior tirânico e com grande intensidade se coloca em oposição e embate contra manifestações diversas. Os complexos dominantes viveriam os elementos em cisão como inimigos a serem combatidos, o que constelaria mecanismos automáticos de defesa e fariam com que estas manifestações surgissem como sintomas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Transtorno Afetivo Bipolar (TAB) é descrita no CID X dentro do grupo dos transtornos de humor (F30-39)&nbsp;（CID-10 OMS ，1993）. A característica do TAB é a presença de episódios repetitivos da alteração de humor (ao menos um episódio de mania ou hipomania); afirma-se que: &#8220;Os termos &#8220;mania&#8221; e &#8220;depressão grave&#8221; são usados (&#8230;) para denotar os extremos opostos do espectro afetivo; &#8220;hipomania&#8221; é usado para denotar um estado intermediário (&#8230;). (CID-10 OMS, 1993, p110). Os critérios sintomáticos que devem &#8220;durar pelo menos uma semana e ser grave o suficiente para&nbsp;perturbar o ritmo normal de trabalho e atividades sociais. &#8221; (CID-10 OMS, 1993, p112) negritos meus. O&nbsp;episódio maníaco&nbsp;é descrito como &#8220;humor elevado e aumento na quantidade e velocidade da atividade física e mental. &#8221; (CID-10 OMS, 1993, p111). Os sintomas podem ser resumidos como: Humor desproporcionalmente elevado; aumento de energia &#8211; hiperatividade, pressão por falar, redução da necessidade de sono; perda de inibições sociais; distratibilidade marcante; autoestima inflada; ideias de grandiosidade e super otimistas livremente expressas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os critérios no DSM V não são, fundamentalmente, diferentes do CID X. Chama atenção a mudança de sentido do termo hipomania, pois os termos &#8220;mania&#8221; e &#8220;depressão grave&#8221; eram os extremos opostos do espectro afetivo e a &#8220;hipomania&#8221; um estado intermediário (&#8230;). (CID-10 OMS, 1993, p.110) enquanto que o Transtorno Bipolar II, no DSM V, a &#8220;hipomania&#8221; ganha em determinação diferenciada. A gravidade específica sustenta-se em critérios como presença de &#8220;depressão&#8221; e dos prejuízos graves no funcionamento social. Ou seja, pode-se entender que os sintomas descritos nos episódios hipomaníacos, isoladamente, não teriam critérios suficientes para caracterizar maior gravidade ou retirar o &#8220;mais leve&#8221; da avaliação. Seria necessário algo vivido como sofrimento mais significativo para caracterizar um sintoma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se, na perspectiva Junguiana, a dominação unilateral em cisão e embate produz o sintoma, é fundamental reconhecer o que é vivido como sintoma (pathos) para que se consiga perceber qual o padrão dominante que vive outra manifestação como errada e produtora de sofrimento. Sem a cisão e embate entre elementos em oposição a energia psíquica seguiria o fluxo habitual nas ações na vida sem interrupções. Ou seja, caso os valores identificados positiva e negativamente não estivessem desagregados a progressão da energia psíquica aconteceria. O sintoma surge como sofrimento pelo conflito e haveria interrupção do decorrer da vida com represamento da energia psíquica. É fundamental reconhecer quem (que padrão arquetípico, complexos ou estilo dominante na consciência) vive o sintoma com&nbsp;pathos&nbsp;ou sofrimento. Quais são os aspectos que são vividos como errados ou ruins pois estes surgirão como ameaça e como sintoma?</p>



<p class="wp-block-paragraph">A experiência clínica mostra que, frequentemente, a capacidade de crítica quanto ao estado mórbido nos sujeitos em crise com diagnóstico de transtorno bipolar é bastante prejudicada tanto na mania e como na hipomania. Ou seja, os sujeitos em crise não reconhecem o que estão sentindo e vivendo com algo errado, ruim ou que lhe produzam sofrimento. Ao contrário um fator de não adesão relatado é &#8220;o fato de sentirem-se bem (&#8230;) sentirem falta dos &#8220;altos&#8221; ou fora dos episódios de elação sentirem-se deprimidos, menos criativos e produtivos (&#8230;)&#8221; (MARCHI, 2008, p.88). Esta atitude é interpretada pelos autores como negação do transtorno mental, porem pode-se entender que o que é descrito como sintoma (pathos) para o observador externo não é vivido como tal pelo sujeito. Talvez por isso o critério para retirar o &#8220;mais leve&#8221; da avaliação da hipomania no DSM V e a necessidade de incluir critério exterior a avaliação da pessoa em crise. Inclui-se então os critérios &#8220;prejuízo profissional e social&#8221; que pode ser avaliado com maior grau de exterioridade ou a &#8220;depressão&#8221; onde os critérios sintomáticos são vividos pelo sujeito como sofrimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mais frequente na clínica é que os sujeitos que apresentam expressões de vida compatíveis com o que é descrito na categoria mania ou hipomania atribuam o sofrimento (pathos) não ás ideias ou a forma de vida que estão dominando o momento em sua existência, mas as frustrações devido às limitações nas condições externas reais e presentes (por indisponibilidade das pessoas, familiares ou não, limite no suporte material da família, instituições, cultura, sociedade etc.); tudo o que restringe as expectativas de ação e de realização do padrão que está dominando, como sendo o melhor e mais saudável, é que é vivido como sofrimento. A suspeita é de que os critérios de mania e principalmente hipomania não são reconhecidos com diferente do esperado pela norma socialmente considerada saudável e por isso ficaria difícil vivenciá-los como sintomas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Frequentemente não se percebe como sofrimento ser conduzido por ideias ou projetos de vida ligados a realização plena de vida. Trabalhar incessantemente num projeto que é vivido como muito importante, valoroso etc. mesmo que isto requeira perder noites de sono, reduzir alimentação ou deixar descuidado outros aspectos na vida pode não ser vivido como anormal ou doentio. Ao contrário pode ser vivido como sinal de determinação e até mesmo sentido como prazeroso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Critérios como autoestima inflada, humor elevado e expansivo, aumento da energia ou atividade, aumento da atividade dirigida a objetivos, que compõe o quadro sintomático apresentado, pode ser facilmente encontrado nas descrições de processos motivacionais. Uma pesquisa na internet sobre motivação mostra muitas frases que apontam ideias no mesmo sentido do que é descrito como sintoma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não é preciso muito esforço para perceber que os critérios que aparecem na descrição do Transtorno Afetivo Bipolar como&nbsp;autoestima elevada, aumento de atividade dirigida a objetos, valorização da atividade&nbsp;etc. não são o oposto do que é vivido coletivamente pelo espirito da época do mundo do consumo como a norma dominante, como o melhor e mais saudável. Pelo contrário pode-se entender que quanto mais conduzido pelo padrão que impõe, imperativamente, que se tem que agir dirigido aos objetos para conseguir os resultados desejados, com otimismo, dedicação, esforço etc. e não se puder tomar distância deste padrão; ou quanto mais se for dominado por um complexo insuperável configurado com estes valores, mais &#8220;doente&#8221; se estará. O&nbsp;sofrimento não seria tão maior quanto mais imperativamente o sujeito é conduzido pelo ideal de realização que este padrão dominante impõe ou quanto menos puder tomar distância do mesmo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">É interessante que, como este é um padrão coletivo muito forte que atravessa e configura a grande maioria na sociedade ocidental atual, tudo se passa como se não houvesse um sofrimento em sentir-se compelido a ter que resolver o que o estilo dominante na consciência vê como problemas. Como se realizar tudo que o satisfaça na intensidade máxima e da maneira mais rápida possível o que este padrão dominante exige como &#8211; ganhar o dinheiro que julga precisar, comprar coisas que lhe parecem importantes, fazer as coisas que lhe trazem prazer como compras, sexo, drogas etc. &#8211; não produzisse nenhum sofrimento. Fazer isto tudo é como se fosse a realização natural de uma vida bem-sucedida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O sofrimento que se reconhece não está relacionado com a vivência de estar obrigado a fazer isto tudo imperativamente, mas de não conseguir realizar devido ás resistências da vida presente, por não contar com a colaboração imediata e ilimitada de todos no mundo para realizar &#8220;ideal tão nobre&#8221;. Relendo na perspectiva junguiana o&nbsp;represamento&nbsp;do fluxo de energia psíquica aconteceria quando o sujeito estivesse tão aderido à norma saudável e valorizada que vivesse em cisão e oposição sofrendo como todo limite, redução da autoestima, ter algo que interrompa os pensamentos, ter que se concentrar, reduzir atividades etc. &nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Afinal seria de se estranhar que com esta dominação predominando o otimismo exagerado e as ideias de grandeza aparecessem na consciência avaliadas como algo errado ou doente. Neste contexto fica difícil que o sujeito avalie que está sofrendo de uma doença crônica que traz limites, dificuldades e precisará de cuidados e remédios pela vida toda, quando está seguindo o &#8220;padrão saudável&#8221;. Isto pode ter relação com os dados epidemiologicos do Transtorno Bipolar que apontam&nbsp; que &#8220;(&#8230;) muitos pacientes recebem um diagnóstico errado nas primeiras avaliações, freqüentemente de depressão.&#8221;&nbsp; (LIMA, et al., 2005, p.19). A prevalência de comorbidade e multimorbidade é um achado consistente em diversos inqueritos populacionais&nbsp; como na&nbsp;World Mental Health Survey Initiative&nbsp;onde aparece que três quartos dos pacientes com transtornos do espectro bipolar também fecharam critérios para outro transtorno na vida&nbsp; (KAPCZINSKI, et al., 2016). Será que isto acontece pois o sofrimento como sintoma (o&nbsp;Pathos)&nbsp;apareceria mais facilmente em outros diagnósticos do que no TAB?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez, pelo mesmo motivo de falta de percepção dos sintomas como sofrimento, existam baixos percentuais em tratamento nos EUA &#8211;&nbsp; 48.8% das pessoas com transtorno bipolar recebe algum tratamento nos EUA e destes apenas 18,8% receberiam tratamento mínimo adequado (NIMH, USA, 2016).&nbsp;Pathos&nbsp;só poderia&nbsp;aparecer então no acentuado prejuízo no funcionamento social, profissional ou na necessidade de internação. Ou no&nbsp;&#8220;prejuízo&#8221;&nbsp;por ter sono, interromper a fala ou pensamentos, se concentrar ou na redução de atividades.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A dificuldade em reconhecer algo como sintomático tenta ser contornada com a comparação do momento presente com outros, indicando que este atual seria um &#8220;período distinto humor anormal&#8221;. Isto pode reforçar que a norma saudável se encontra em outros períodos ou no habitual. Entretanto o padrão que dominou de maneira insuperável já podia estar presente mesmo antes da crise; podia estar sendo vivido, valorizado trazendo reconhecimento, afetos etc. Jung reflete, ao discutir um caso, se&nbsp;o paciente já não teria adoecido antes do evento, (referindo-se ao evento disparador descrito pelo paciente como de forte impacto emocional); para Jung ele estaria &#8220;adoecido&#8221; enquanto parecia &#8220;normal&#8221; &#8211; &#8220;(&#8230;) ele já se encontrava doente quando era normal&#8221; (JUNG, 1999, §535). Segue indicando que, a &#8220;doença&#8221; é que pode ter levado a viver aquela experiência disparadora com tanta intensidade. Ou seja, o complexo já estaria configurado em determinado padrão arquetípico, mesmo antes da crise e poderia ter se intensificado pela oposição e embate ao encontrar, por semelhanças e analogia, traços de ameaças no diverso das situações de experiências. Estes traços de ameaça poderiam fazer com que o complexo fosse constelado, intensificando-o cada vez mais. A crise se instalaria quando o complexo fosse constelado a maior parte do tempo ou dominasse de tal forma que o sujeito não pudesse ver, viver ou interpretar os eventos de outra maneira do que aquela. Assim doente não seria o fato do período ser distinto de outros que o sujeito vive habitualmente, mas da intensidade com que o funcionamento habitual &#8220;saudável&#8221; passou a tomar conta da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As&nbsp;explicações neurocientíficas&nbsp;(TAVARES, et al., 2014), não contradizem está perspectiva, pois acabam indicando que as experiências vividas intensamente que são interpretadas como boas ou más (interpretações que seriam efeito de complexo num padrão arquetípico) e que afetam o sujeito, produzem marcas descritas como alterações hormonais (cortisol, etc.) e/ou estruturais nos circuitos cerebrais (circuitos associativos) tonando-se a &#8220;cascata&#8221; para o desenvolvimento do Transtorno Bipolar. Isto não exclui, pelo contrario reforça a ideia de que a prevalência de um padrão arquetípico que se estabelecesse historicamente e se mantivesse nas relações sociais, familiares etc. poderia agir como elemento organizador que daria base para a organização do complexo que interpreta os eventos como bons ou maus e produz como efeito o afeto que marca o caminho onde a energia circulará com mais facilidade e rapidez.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Haveria uma perspectiva (complexo) que avalia, compara padrões e considera que havia um humor que era normal e o outro é avaliado como errado ou anormal, entretanto isto é realizado mais pelo observador externo do que pelo sujeito que vive o humor e usando os critérios coletivos dominantes na sociedade no momento. Como poderia ser avaliado como humor &#8220;anormal&#8221; o período anterior à crise quando as características hegemonicamente dominantes ligadas à saúde são autoestima elevada, aumento de atividade dirigida a objetos, valorização da atividade. Pode-se perceber mais claramente que estes valores são dominantes pois eles aparecem ameaçados na categoria episódio depressivo do CID X (&#8220;Em episódios depressivos típicos, (&#8230;) o indivíduo usual­mente sofre de humor deprimido, perda de interesse e prazer e energia reduzida levando a uma fatigabilidade aumentada e atividade diminuída. Cansaço marcante após esforços apenas leves é comum (&#8230;)&#8221; (CID-10 OMS, 1993, p.117); No artigo reimaginado o episódio depressivo&nbsp;foi apontado que o episódio depressivo poderia ser reimaginado como a dominação unilateral, em cisão e embate, onde os elementos normativos mais valorizados, coletivamente e nos sujeitos em crise, seriam: prazer, energia, concentração, atenção, autoestima, autoconfiança, utilidade, não se sentir culpado, visões otimistas de futuro, ideias de auto-conservação, sono sem perturbações e um apetite estável, pois estes aparecem como os mais ameaçados pelos sintomas descritos no episódio depressivo no CID X. Eles seriam a expressão de valores intensificados num mundo do consumo que conduziria a um imperativo que diz apenas um puro: &#8220;não ceda em seu desejo&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Coloca-se uma questão:&nbsp;Se há o domínio do mesmo conjunto de valores na configuração do Transtorno Bipolar (episódios de mania ou hipomania) e no episódio depressivo, como compreender as diferenças sintomáticas?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma hipótese é que no episódio depressivo os aspectos suprimidos na dissociação (sintomas) ou o &#8220;inimigo&#8221; a ser combatido é localizado no que é visto como propriedades identitárias do complexo do ego. Como se todas as emoções, sentimentos, pensamentos etc, fossem propriedades particulares do complexo do ego. Numa leitura histórica Jung indica que as funções parciais (complexos) foram em grande parte postas a serviço do Eu (vontade do homem) levando a uma dissociação entre uma autoconsciência e um inimigo invisível. Isto poderia fazer &#8220;sucumbir a uma vontade tirânica de um governo interior que apresenta traços de uma supra-humanidade demoníaca&#8221; (JUNG, 1978, p.57). Decorre disto os ataques serem dirigidos ao ego. Quanto mais identificado, mais ataque, até a fantasia de destruição do corpo como forma de destruir o complexo do ego. Por isso Hillman pode dizer que &#8220;à medida que a individualidade cresce, cresce também a possibilidade do suicídio. &#8221; (HILLMAN, 2009, p.75). Ou seja, se o inimigo a ser combatido é localizado entre os atributos identificados com o ego, ele será alvo do ataque e os sintomas serão compatíveis com o que é descrito no episódio depressivo. Falando de outra maneira, Freud, em Luto e melancolia, (FREUD, 2006) apontava como uma parte do ego se coloca contra outra, julga-a criticamente; numa constelação mental de revolta. Se um amor pelo objeto (perdido) não pode ser renunciado, o ódio entra em ação nesse objeto substitutivo (ego), dele abusando, degradando-o, fazendo-o sofrer e tirando satisfação sádica de seu sofrimento. Uma parte que se coloca contra a outra pode ser lida como um complexo que se coloca contra outro?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diferente disto no Transtorno Bipolar o inimigo estaria localizado exteriormente ao complexo do ego. Os elementos coletiva/individualmente mais valorados dominaram o complexo do ego; o combate se daria contra tudo que ameace os planos ou as ações orientadas desta forma. Por isso não se perceberia sofrimento em ser obrigado a ter que ter autoestima elevada, mas sofrimento em qualquer sinal de algo que pudesse&nbsp;reduzir a auto-estima&nbsp;ou a redução da estima que o complexo do ego usurpou dos outros complexos como quando a estima ou a atençao fosse dirigida para outro; não se sentiria sofrimento por ter que ficar acordado, mas o ego ficaria irritado ou&nbsp;bravo por ter sono e não poder continuar em ação. O complexo do ego pode não sentir como sofrimento ser obrigado a não parar de falar ou pensar, mas pode viver como&nbsp;sofrimento ter a fala ou os pensamentos interrompidas; pode não viver a distratibilidade como problema, mas pode&nbsp;sofrer ao ter que se concentrar&nbsp;em um objeto externo apenas; pode não sofrer por se sentir obrigado a envolver-se excessivamente em atividades, mas pode&nbsp;sentir-se mal ao se deparar com qualquer coisa que reduza as atividades. Subliminarmente pode-se depreender um sofrimento no que interrompe o padrão dominante e não em ser imperativamente conduzido pelo mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sendo assim, a direção ou conteúdo do humor num episódio maníaco ou hipomaníaco não seria distinto do &#8220;normal&#8221;, a crise se diferenciaria pela intensidade e pela impossibilidade de tomar distância do padrão valorado como normal por um complexo seguindo um padrão arquetípico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A psicopatologia Junguiana pode então apresentar-se como uma perspectiva em que a loucura aqui caracterizada pelo Transtorno Bipolar&nbsp;não aparece separada do psiquismo &#8220;normal&#8221; ou &#8220;saudável&#8221;. Mas surge justamente quando o sujeito não puder tomar distância do padrão coletivo, culturalmente valorizado como saudável &#8211;&nbsp;autoestima elevada, aumento de atividade dirigida a objetos, valorização da atividade&nbsp;(ligado à energia, autoconfiança, impor sua fala, suas ideias, convencer, utilidade, ritmo de trabalho, produção, consumo intensos, atividades sociais prazerosas, otimismo, atividade física etc.). Se este padrão coletivo internalizado dominar a forma de viver de um sujeito de maneira insuperável e unilateralmente, entrando em cisão em conflito com a vida em sua diversidade é que a crise se instalará. Nesta situação cada traço de redução de autoestima, cada necessidade de interrupção das atividades de pensamentos, falas, consumo, trabalho ou ações etc. será vivido como ameaça, mesmo que a consciência se dê conta ou não. O padrão que julga como algo errado aciona automaticamente todos os mecanismos de defesa internalizados para se defender da catástrofe. A crise seria o efeito da cisão e combate.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A doença depende do quanto o vivente está absorvido pelo meio (no caso normas ou valores sociais, coletivos internalizados), afinal &#8220;o que caracteriza a saúde é a possibilidade de ultrapassar a norma que define o normal momentâneo, a possibilidade de tolerar infrações à norma habitual e de instituir normas novas em situações novas. &#8221; (CANGUILHEM, 2000, p.160). Se &#8220;o doente é doente por só poder admitir uma norma.&#8221; (CANGUILHEM, 2000, p.149), quanto maior a dissociação e mais o sujeito viver imperativa a norma e a expectativa de cumprir exigências para com os elementos com maior valor coletivo na sociedade como autoestima, atividade dirigida a objetos, valorização da atividade etc. mais dominado estará e, portanto, mais em crise.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A teoria da progressão e regressão da libido (energia psíquica) descrito na narrativa Junguiana (JUNG 2013, §60 a 76) pode fazer refletir que, se por um lado a cisão, dissociação e unilateralidade dominante em embate configuram o suprimido que surge como sintoma, a regressão da energia psíquica faria com que aumentasse o valor dos conteúdos excluídos no processo, ou seja, os elementos inconscientes adquiririam maior influência (assombrariam), ultrapassariam o limiar e exerceriam maior força sobre a consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entretanto, se for possível ultrapassar julgamentos fundados no senso comum, em preconceitos ou aparências superficiais, pode-se vislumbrar nos conteúdos suprimidos que retornam intensificados pelo processo de regressão, não só restos incompatíveis e por isso rejeitados da vida cotidiana ou tendência condenáveis do homem animalesco, mas também &#8220;(&#8230;) os germes de novas possibilidade de vida (&#8230;) possibilidade de uma renovação existencial&#8221; (JUNG 2013, §63).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que as crises de mania ou hipomania proprocinaria a um sujeito e ao coletivo é oportunidade de poder viver outras interpretações dos eventos no mundo seguindo padrões diversos. A redução da auto-estima pode ser a chance (individual e coletiva) de tomar distância da norma imperativa da auto-identidade e poder ter estima por outros (internos e externos) ou pelos diferentes; poder ter a vivência de depor todo desejo de auto-identidade e não temer se perder, pois reconhecendo o profundamente heterogêneo como parte fundamental do que se é deixaria de ser visto como temerário. Cada crise seria a chance de recuperar valores de uma forma de soberania diferente (como fala Georges Bataille&nbsp;（BATAILLE，2013）&nbsp;ligada capacidade de depor toda vontade de domínio, todo projeto, porque teria a segurança de que nenhuma vontade de domínio vinda do outro poderá lhe submeter. Oportunidade de poder não querer mais controlar as coisas através da sua submissão à utilidade delas para si, que normalmente é o seu proprietário, nem controlar o tempo através da submissão do presente ao futuro que o complexo do eu projeta. Cada necessidade de interrupção das atividades de pensamentos, falas, consumo, trabalho etc, que são ações vividas como sofrimento durante a crise, podem abrir experiências de campos privilegiados de atividade improdutiva, de excesso e de dispêndio como o que acontece nos enterros, cultos, construções de monumentos santuários, os jogos, os espetáculos, as artes que teriam em si mesmas seu fim. Os limites vividos como sofrimento devido ao excesso de identificação com a autoestima elevada, aumento de atividade dirigida a objetos, valorização da atividade (ligado à energia, autoconfiança, impor sua fala, suas ideias, convencer, utilidade, ritmo de trabalho, produção, consumo intensos, atividades sociais prazerosas, otimismo, atividade física etc.) poderia adquirir outros sentidos e re-significar toda a capacidade de medir, o colapso de toda medida por usar outra lógica que não a dos objetos mensuráveis. Assim podendo ter a estima dirigida a outros, interromper as ações, ter sono, interromper as falas e pensamentos, concentrar-se e reduzir as atividades etc. sem que isto fosse vivido como uma perda, ameaça ou catastrofe contra a qual todos os sistemas de defesa seriam automaticamente acionados. E assim cada traço de redução de autoestima vivido como ameaça pode ser a oportunidade de tomar distância da norma (coletiva e &#8220;saudável&#8221;), e poder viver normas novas, outros padrões que dessem outros sentidos para cada uma destas experiências.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os exemplos inspirados em textos de Georges Bataille ilustram uma perspectiva que toma distância da forma homem moldada da sociedade do trabalho, do consumo e da lógica utilitária.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A escritora Clarice Lispector pode ajudar na superação deste padrão dominante valorizando o momento da desistência:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;A insistência é o nosso esforço, a desistência é o prêmio. A este só se chega quando se experimentou o poder de construir, e, apesar do gosto de poder, prefere-se a desistência. A desistência tem que ser uma escolha. Desistir é a escolha mais sagrada de uma vida. Desistir é o verdadeiro instante humano. E só esta, é a glória própria de minha condição. A desistência é uma revelação. &#8220;</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Lispector, 1964)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Professor Ajax Perez Salvador</p>



<p class="wp-block-paragraph">Psiquiatra, Membro Didáta do IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Referências</p>



<p class="wp-block-paragraph">BATAILLE, Georges&nbsp;O erotismo．Belo Horizonte，Autêntica，2013．</p>



<p class="wp-block-paragraph">Canguilhem, Georges.&nbsp;O normal e o patológico. Rio de Janeiro: Forense, 2000.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CID-10 OMS.&nbsp;Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento- Organização Mundial da Saúde. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.</p>



<p class="wp-block-paragraph">DSM V &#8211; APA.&nbsp;Manual Diagnóstico Estatístico de Transtornos Mentais da American Psychiatric Association.&nbsp;5ª. Porto Alegre: Artes Médicas, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Freud, Sigmund&nbsp;Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud．Rio de Janeiro，Imago,2006．</p>



<p class="wp-block-paragraph">HILLMAN, James.&nbsp;&nbsp;Re-vendo a psicologia.&nbsp;Petropólis: Editora Vozes Ltda, 2010.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211;&nbsp;Suícidio e Alma．Petrópolis，Vozes，2009．</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;Energia Psíquica．Petrópolis，Vozes，2013，Vol. 8/1．</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8211;&nbsp;La psicologia de la transferencia．Buenos Aires，Editorial Paidos，1978．</p>



<p class="wp-block-paragraph">-Psicogênese das doenças mentais. Vol. III. Petrópolis: Vozes, 1999.</p>



<p class="wp-block-paragraph">KAPCZINSKI, Flávio e QUEVEDO, João.&nbsp;Transtorno Bipolar: teoria e clínica. 2ª. Porto Alegre: Artmed, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">LISPECTOR,Clarice&nbsp;A Paixão segundo G.H.Rio de Janeiro，Editora Rocco，1964</p>



<p class="wp-block-paragraph">LIMA, Maurício Silva de, et al. &#8220;Epidemiologia do transtorno bipolar.&#8221; Rev.Psiq.Clín 2005, 32 ed.:15-20.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MARCHI,&nbsp;Renato.&nbsp;Escala Clínica para prever adesão ao tratamento: transtorno Bipolar do humor. Tese de Doutorado. Campinas, 2008. 27 de 03 de 2016.&nbsp;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NIMH, USA. &#8220;Bipolar Disorder Among Adults &#8211; National Institute of Mental Health.&#8221; 2016.&nbsp;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SALVADOR,&nbsp;Ajax Perez.&nbsp;PSICOPATOLOGIA AFETO E SISTEMA DE VALORES.&nbsp;Edição: Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa &#8211; IJEP. São Paulo, SP, 17 de 10 de 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-PSICOPATOLOGIA AFETO E SISTEMA DE VALORES II.&nbsp;Edição: Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa &#8211; IJEP. São Paulo, SP, 21 de 11 de 2016. http://www.ijep.com.br/index.php?sec=artigos&amp;id=276&amp;ref=reimaginando-episodio-depressivo&#8212;psicopatologia-afeto-e-sistema-de-valores-ii-#conteudo</p>



<p class="wp-block-paragraph">TAVARES, Naraiana de Oliveira, Fernando da Silva NEVES e Leandro Fernandes MALLOY-DINIZ. &#8220;Modelo de Endofenótipo do Transtorno Bipolar: Análise qualitativa, fatores etiológicos e âmbitos de investigação abordados.&#8221; Rev. Esc. Enferm. USP 2014: 212-212.</p>
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		<title>Arte, Psicopatologia e o Sublime</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/arte-psicopatologia-e-o-sublime/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ajax Salvador]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 19 Mar 2019 18:42:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ansiedade]]></category>
		<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Depressão]]></category>
		<category><![CDATA[Pânico]]></category>
		<category><![CDATA[Psicopatologia]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicopatologia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Jung afirmava que é controvertida a relação entre psicologia e arte: “apenas aquele aspecto da arte que existe no processo de criação pode ser objeto da psicologia, não aquele que constitui o próprio ser da arte.” (JUNG, 1985) p.54. Afasta-se das posições que associavam as condições da criação da vida e relações pessoais do artista [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Jung afirmava que é controvertida a relação entre psicologia e arte: “apenas aquele aspecto da arte que existe no processo de criação pode ser objeto da psicologia, não aquele que constitui o próprio ser da arte.” (JUNG, 1985) p.54. Afasta-se das posições que associavam as condições da criação da vida e relações pessoais do artista pois isto poderia levar a afirmações como: “todo artista é um narcisista”. Distancia-se do pensamento que torna a arte expressão de dinâmicas individuais (a figura do gênio ou do artista) e propõe não mais sobre falar a identidade do artista ou deste “como pessoa, mas do&nbsp;<strong>processo criador</strong>” (JUNG, 1985)&nbsp;p.62. A convicção de estar criando com liberdade absoluta seria uma ilusão do consciente. “Ele (artista) acredita estar nadando, mas na realidade está sendo levado por uma corrente invisível.” (JUNG, 1985)&nbsp;p.63. “A maneira de produzir aparentemente consciente e proposital seria apenas uma ilusão subjetiva”&nbsp;(JUNG, 1985)&nbsp;p.65.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O processo criativo como essência viva é denominado por Jung de “<strong>complexo autônomo</strong>” (JUNG, 1985) p.63; é descrito como supra pessoal, transcende o alcance da consciência e &#8220;aparece e desaparece de acordo com suas próprias tendências internas.&#8221; (CW15, §122) Apud (BARCELLOS, 2004). Se acontecer uma identificação do Ego com o complexo e a atitude for receptiva produz-se um tipo de efeito; se não isto é vivido como um “imperativo” que se impõe. Pode-se aproximar então arte e pathos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung fala que os complexos podem interferir e realizar processos de&nbsp;<strong>invasão</strong>&nbsp;na consciência, mas estes não seriam de forma alguma doentes ou “patológicos”, a não ser no sentido do&nbsp;<strong>“pathos”</strong>&nbsp;(ser conduzido, sofrer, sentir, aguentar, suportar, tolerar, deixar-se levar por, deixar-se convocar por); isto quando patologia significava a ciência das paixões. As invasões seriam momentos em que uma pessoa fica subitamente alterada, tomada por algo; como se perdesse a cabeça. Emoções dominadoras podem ser indesejáveis para o complexo do Ego, mas não seriam em si patológicas.&nbsp;(JUNG, 1983) p.156.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, tanto na arte como na psicopatologia tem-se a invasão de complexos. O<strong>&nbsp;processo&nbsp;</strong><strong>criativo manifesta um “complexo autônomo” e&nbsp;</strong>“entre uma inspiração artística e uma invasão não há absolutamente diferença alguma. São a mesma coisa, (&#8230;)” (JUNG, 1983) §72.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Embora não se possa&nbsp;“negar o fato de que a realização de<strong>&nbsp;uma obra de arte depende das mesmas condições psicológicas de uma neurose”</strong>&nbsp;(JUNG, 1985)&nbsp;p.56 para se chegar a noção de que “a obra de&nbsp;<strong>arte não é uma doença</strong>.” (JUNG, 1985)&nbsp;p.60 será necessário rever várias noções naturalizadas pelo seu uso cotidiano como a ideia de que o indivíduo é literalmente um. “Gostamos de pensar que somos unificados; mas isso não acontece nem nunca aconteceu.” (JUNG, 1983) p. 67. A unidade da consciência seria uma mera ilusão. “(&#8230;)&nbsp;<strong>aquele que parece uno não é um senão que muitas personas&nbsp;</strong>(diferentes) que aparecem nele.&nbsp;(JUNG, 1978) p.59. “O homem só apareceria como totalidade vivente e como unidade no ato. (&#8230;) Ato como o resultado de um evento que abarca a totalidade anímica.”&nbsp;&nbsp;(JUNG, 1978) p.72</p>



<p class="wp-block-paragraph">Revendo a ideia de doença, a perspectiva Junguiana aproxima-a da dominação unilateral.&nbsp;<strong>“A consciência, devido a suas funções dirigidas, exerce uma inibição”</strong>&nbsp;(JUNG, 1984)§132&nbsp;<strong>sobre “todos os elementos psíquicos que parecem ser, ou realmente são incompatíveis</strong>”(JUNG, 1984)§136. É exatamente&nbsp;<strong>por causa dos atos de julgamento que o processo dirigido se torna necessariamente unilateral</strong>. Mas, a “aparente unidade da pessoa que declara com firmeza: “eu quero, eu penso etc., se racha e se dissolve como consequência do choque com o inconsciente” (JUNG, 1978) p.60. O choque com o inconsciente seria a reação viva da multiplicidade de sentidos, do mistério, enigma e indeterminação pulsante que, como&nbsp;<strong>resistência à função dirigida, regularia</strong>&nbsp;ou limitaria a dominação unilateral de qualquer complexo (incluindo o Eu). Isto protegeria resistindo a que as funções parciais fossem postas a serviço do Eu (vontade do homem) pois&nbsp;“isto poderia fazer sucumbir a uma vontade tirânica de um&nbsp;<strong>governo interior&nbsp;</strong>que apresenta traços de uma&nbsp;<strong>supra-humanidade</strong>&nbsp;demoníaca” (JUNG, 1978) p. 57.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung afasta-se do pensamento unitário dominado pela equivalência e coloca a referência na noção de complexo: “<strong>o complexo é uma unidade psíquica</strong>” (JUNG, 1999) p.33. Não haveria algo que pudesse ser unitário, equivalente, isolado e fora da psique. Assim as doenças nunca seriam “entia per si”, dotados uma psicologia autônoma.” (JUNG, 1983) p.2 Quando se vive algo como “doente” isto se configura associado a ideias, comportamentos e fantasias que estariam erradas. “Fantasia é a primeira realidade da psicopatologia” (HIILLMAN, 2010) p.172. O natural tende a ser idealizado; utilizam-se padrões ideais sobre aquilo que desvie comparando a leis gerais, padrões morais ou imorais. Mas, “(&#8230;)&nbsp;<strong>normas são as ilusões que determinadas partes prescrevem a outras</strong>.” (HIILLMAN, 2010) p.189. Aproxima-se isto de noções como “o doente é doente por só poder admitir uma norma.” (CANGUILHEM, 2000) p.149 ou “<strong>o que caracteriza a saúde é a possibilidade de ultrapassar a norma&nbsp;</strong>que define o normal momentâneo, a possibilidade de tolerar infrações à norma habitual e de instituir normas novas em situações novas.” (CANGUILHEM, 2000) p.160.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Doenças apontariam para<strong>&nbsp;fixação de um complexo</strong>&nbsp;e as cisões como efeito de revolta e combate entre do estilo predominante na consciência (“personalidade consciente”) contra as manifestação de formações diversas ou&nbsp;<strong>quando há o domínio permanente de um complexo insuperável.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">É interessante que o mesmo processo de invasão de complexos permite a assimilação destes e protege contra o isolamento. Por isso os modos de socialização poderiam ser, ao mesmo tempo, os modos de suporte do sofrimento vivido.&nbsp;Haveria um tipo de sofrimento em todo processo de socialização, de construção de identidades socialmente reconhecida, de constituição do Eu, ao internalizar padrões de conduta que poderiam ser utilizados, normativamente, sobre os sujeitos, a psique e a vida.&nbsp;Como as relações socialmente organizadas e constituídas, ao seguirem valores, expectativas, exigências, seriam investida de várias maneiras,&nbsp;<strong>sofrer-se-ia por não poder tomar distância das normas</strong>&nbsp;que obrigam a realizar certos valores, certas expectativas, que, para um complexo dominante, pode parecer totalmente ligadas à realização&nbsp;<strong>de uma vida bem sucedida.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Se a saúde passou a ser vista como a possibilidade de transgredir a norma ou o padrão arquetípico dominante de forma unilateral fundamentalista, as invasões diversas podem ser protetoras. Arte e psicopatologia como&nbsp;processos criativos, essências vivas,&nbsp;podem então serem aproximadas em especial através na noção de sublime.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Sublime</strong>&nbsp;era um termo literário, superlativo do Belo, relacionado ao êxtase que teria a função de comover; seria o&nbsp;<strong>lugar onde</strong>&nbsp;<strong>domina o&nbsp;<em>pathos</em></strong>&nbsp;– o grau mais violento dos afetos ligado ao impulso que conduz a ação. Enquanto o&nbsp;<strong>Belo</strong>&nbsp;relacionava-se com o decorum, a adequação ligado a simpatia, produzindo prazer simples, correspondente a autopreservação, ao gênero médio, com a intensão de deleitar; o Sublime seria riqueza espiritual que ultrapassa os limites do usual e relaciona-se ao êxtase.&nbsp;&nbsp;Diferente da harmonia do belo, o sublime suscita desprazer ou deleite. A paixão e o entusiasmo são as fontes do Sublime, assim como o grande, o excesso, a vastidão, o ilimitado e o magnifico que produz terror fundamental. Deleite é como se chama o prazer do&nbsp;<strong>Sublime;&nbsp;</strong>é mais complexo e aproxima-se da sensação que acompanha a remoção da dor e do perigo; implica terror à distância; uma paixão mista de terror e surpresa, forte e de natureza severa. O conceito de Sublime é ligado ao ilimitado, infinito, pensamentos e paixões grandiosas, demasiado grandes para a compreensão, esmagam a mente com seu excesso e lançam uma espécie muito agradável de assombro e admiração. A dor que provoca o deleite está na base individual do Sublime e na base coletiva da catarse; é&nbsp;<strong>a excitação relacionada ao descentramento que estará na base das artes</strong>. A emoção básica que passa a ser exercitada é o espanto frente a um objeto que possa infligir a morte, uma força superior que o sujeita, algo que ultrapassa os limites do entendimento.&nbsp;Jung, refletindo a partir de texto sobre alquimia, aponta que o&nbsp;<strong>artífice é servidor da obra</strong>. (JUNG, 1978) p.129; o homem “puramente natural”, em sua ingenuidade espontânea amplia a tal ponto sua personalidade que o eu normal em grande medida desaparece, (JUNG, 1978) p.130.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A atitude do ego que reconhece o processo criativo como um complexo autônomo acolhe e cuida como zelador do mesmo.&nbsp;“<strong>O</strong>&nbsp;<strong>tratamento analítico poderia ser considerado um reajustamento da atitude psicológica</strong>” (JUNG, 1984)&nbsp;§142. Trata-se de mudanças de atitude, mas&nbsp;<strong>não há uma atitude correta</strong>&nbsp;a ser alcançada como uma norma positiva que pudesse orientar a vida – “<strong>A vida tem de ser conquistada sempre e de novo</strong>” (JUNG, 1984)&nbsp;§142. Pode-se pensar que é necessário sempre ter que produzir novas atitudes, novas posições para novas situações presentes, que como tal são sempre paradoxalmente conhecidas/desconhecidas e misteriosas. As atividades artísticas, os processos de criação podem se configurar como campos de enriquecimento das vidas, de descobertas de recursos, vínculos, relações e de acesso a bens culturais. Um processo que acompanha sujeitos no mundo num território vivo e não apenas orienta-se para a eliminação de sintomas, mas procura promover a vida onde e como ela apareça.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se o doente “é uma pessoa que sofre dos mesmos problemas humanos que nós (&#8230;)” (JUNG, 1999) p.149 e reconhece-se&nbsp;<strong>na doença uma reação inusitada a questões que se apresentam em todos nós</strong>&nbsp;poderia ser dito o mesmo em relação a processo artístico? E talvez os processos artísticos atuem não apenas em quem foi instrumento de sua realização, mas em todos; como o trabalho com o laço transferencial. E a obra que diz: “estou em condições de dizer mais do que realmente digo.” (JUNG, 1985) p.65 possa pôr um grão no plantio da resistência à dominação do literalismo heroico na vida e no mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Ajax Perez Salvador</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Professor do IJEP</p>



<h1 class="wp-block-heading">Referências</h1>



<p class="wp-block-paragraph">BARCELLOS, Gustavo.&nbsp;<em>Jung, junguianos e arte: uma breve apreciação</em>. Vol. 15. Campinas:&nbsp;UNICAMP, 2004.&nbsp;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CANGUILHEM, Georges.&nbsp;<em>O normal e o patológico</em>. Rio de Janeiro: Forense, 2000.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HILLMAN, James.&nbsp;<em>Re-vendo a psicologia</em>. Petropólis: Editora Vozes Ltda, 2010.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<em>A Natureza da Psique</em>. Vols. VIII-2. Petrópolis: Vozes, 1984.</p>



<p class="wp-block-paragraph">—.&nbsp;<em>Fundamentos de Psicologia Analítica.</em>&nbsp;Vol. Vol. XVIII/1. Petrópolis: Vozes, 1983.</p>



<p class="wp-block-paragraph">—.&nbsp;<em>La psicologia de la transferencia</em>. Buenos Aires: Editorial Paidos, 1978.</p>



<p class="wp-block-paragraph">—.&nbsp;<em>O Espírito na Arte e na Ciência</em>. Vol. XV. Petrópolis: Vozes, 1985.</p>



<p class="wp-block-paragraph">—.&nbsp;<em>Psicogênese das doenças mentais</em>. Vol. III. Petrópolis: Vozes, 1999.</p>



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