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	<title>Arquivos relações humanas - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Sun, 12 Jul 2026 18:35:26 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos relações humanas - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Relações Humanas e Inteligência Artificial na Era do Narcisismo Digital</title>
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					<comments>https://blog.ijep.com.br/relacoes-humanas-e-inteligencia-artificial-na-era-do-narcisismo-digital/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Rosana T W Hanada]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 12 Jul 2026 18:35:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo tem como objetivo apresentar como o avanço da inteligência artificial (IA), sobretudo a IA generativa, tem transformado as formas de relacionamento humano. Em uma sociedade hiperconectada e orientada por dados, emergem novas formas de vínculo afetivo entre humanos e sistemas artificiais, como chatbots e assistentes digitais. A partir de um panorama contemporâneo, este artigo articula conceitos relacionados à inteligência artificial, IA generativa, engenharia de prompts e interfaces virtuais conversacionais com uma leitura fundamentada na psicologia analítica, perspectiva que contribui para compreender as conexões entre humanos e modelos de IA. Mais do que interpretar tais relações como meramente tecnológicas, trata-se de reconhecê-las como fenômenos psíquicos nos quais conteúdos inconscientes são mobilizados, projetados e, por vezes, intensificados. São abordados conceitos como inflação do ego, anima, animus e sombra, bem como uma leitura simbólica à luz do mito de Narciso e Eco.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo</strong>: Este artigo tem como objetivo apresentar como o avanço da inteligência artificial (IA), sobretudo a IA generativa, tem transformado as formas de relacionamento humano. Em uma sociedade hiperconectada e orientada por dados, emergem novas formas de vínculo afetivo entre humanos e sistemas artificiais, como <em>chatbots</em> e assistentes digitais. A partir de um panorama contemporâneo, este artigo articula conceitos relacionados à inteligência artificial, IA generativa, engenharia de <em>prompts </em>e interfaces virtuais conversacionais com uma leitura fundamentada na psicologia analítica, perspectiva que contribui para compreender as conexões entre humanos e modelos de IA. Mais do que interpretar tais relações como meramente tecnológicas, trata-se de reconhecê-las como fenômenos psíquicos nos quais conteúdos inconscientes são mobilizados, projetados e, por vezes, intensificados. São abordados conceitos como inflação do ego, anima, animus e sombra, bem como uma leitura simbólica à luz do mito de Narciso e Eco.</p>



<h2 id="h-introducao" class="wp-block-heading"><strong><em>Introdução</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Vivemos em um mundo digitalizado, no qual algoritmos estão presentes em quase todas as dimensões da vida humana. A Inteligência Artificial (IA) deixou de ser apenas uma inovação tecnológica estudada e explorada em ambientes acadêmicos, científicos e tecnológicos para se tornar uma infraestrutura ao mesmo tempo invisível e presente, que organiza, orienta e influencia escolhas, comportamentos e formas de interação social, muitas vezes, de forma imperceptível.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Plataformas digitais como Waze, WhatsApp, Google, Netflix e Spotify exemplificam como essas tecnologias inteligentes mediam as decisões cotidianas da maior parte da população. Nesse contexto, consolida-se a chamada economia digital, na qual a coleta massiva de dados gerados pelas experiências humanas compõe o ativo estratégico e mercadológico das grandes empresas de tecnologia da Informação, as <em>Big Techs</em> (Cf. KAUFMAN, 2022, p. 22).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos últimos anos, observa-se um deslocamento significativo: a IA passa a atuar não apenas como ferramenta, mas como presença relacional. Surgem vínculos afetivos entre humanos e sistemas artificiais, em especial <em>chatbots</em> personalizados, configurando experiências nas quais conteúdos psíquicos, projeções e processos de espelhamento passam a se manifestar de maneira cada vez mais intensa. Nesse cenário, as relações mediadas por IA deixam de representar apenas um fenômeno tecnológico e passam a suscitar questões relacionadas à alteridade, ao vínculo e à própria dinâmica psíquica contemporânea.</p>



<h2 id="h-inteligencia-artificial-ia-e-inteligencia-artificial-generativa" class="wp-block-heading"><strong><em>Inteligência Artificial (IA) e Inteligência Artificial Generativa</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A IA pode ser compreendida como um campo voltado ao desenvolvimento de tecnologias capazes de simular funções cognitivas humanas, como aprendizado, reconhecimento de padrões e tomada de decisão (Cf. KAUFMAN, 2022, pp. 22-23). Grande parte dos avanços recentes decorre do <em>machine learning </em>(aprendizado de máquina), de modo particular do <em>deep learning </em>(aprendizado profundo), que permite que algoritmos “aprendam” a partir da análise de grandes volumes de dados, sem depender de programação detalhada para cada tarefa (<em>ibidem</em>, p. 23).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A IA generativa representa um avanço importante ao possibilitar a criação de conteúdos como textos, imagens, vídeos e códigos. Esses sistemas são treinados a partir da identificação de padrões e relações estatísticas em grandes bases informacionais, o que pode produzir a impressão de ineditismo nas respostas geradas. Ao contrário dos mecanismos tradicionais, que se limitam ao processamento de informações programadas de antemão, esses modelos produzem novas combinações a partir de representações aprendidas e atualizadas de forma periódica (Cf. BRASIL, 2025, pp. 5-6).</p>



<h2 id="h-o-lancamento-do-chatgpt-em-2022-marcou-a-popularizacao-dessa-tecnologia-que-foi-inicialmente-disponibilizada-ao-publico-sem-custos-tornando-a-acessivel-a-milhoes-de-usuarios" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">O lançamento do ChatGPT em 2022 marcou a popularização dessa tecnologia, que foi inicialmente disponibilizada ao público sem custos, tornando-a acessível a milhões de usuários.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Esse movimento ampliou de forma significativa o contato cotidiano com recursos de IA, inserindo essas ferramentas em práticas de comunicação, trabalho, estudo e expressão pessoal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A interação com esse tipo de modelo generativo ocorre por meio de comandos em linguagem natural, denominados <em>prompts</em>, que podem assumir a forma de perguntas, instruções ou descrições fornecidas pelo usuário. A chamada engenharia de <em>prompts</em> consiste na elaboração estruturada desses comandos, de modo a orientar a ferramenta na produção de respostas mais coerentes, contextualizadas e alinhadas à intenção de quem interage (Cf. UNESCO, 2023, p. 12). Seguindo essa lógica, é possível especificar o contexto, o estilo discursivo e a finalidade da resposta, tornando o diálogo mais preciso e customizado às expectativas do sujeito.</p>



<h2 id="h-esse-uso-envolve-nao-apenas-formular-uma-solicitacao-inicial-mas-tambem-refinar-os-comandos-de-forma-gradual-a-partir-das-respostas-obtidas-em-um-fluxo-continuo-de-troca" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Esse uso envolve não apenas formular uma solicitação inicial, mas também refinar os comandos, de forma gradual, a partir das respostas obtidas, em um fluxo contínuo de troca.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Em muitos casos, a própria ferramenta de IA pode colaborar na criação desses agentes conversacionais personalizados, pois orienta, sugere e ajusta os comandos fornecidos pelo usuário, integrando esse processo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essas interfaces são construídas a partir de modelos de IA generativa capazes de sustentar diálogos adaptáveis e, em diversas plataformas, permitem que o próprio usuário personalize características do interlocutor digital, incluindo estilo de comunicação, comportamento e até traços de personalidade. A interação não ocorre apenas com uma estrutura já definida, mas com uma instância moldada, em parte, pelas escolhas e demandas pessoais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assistentes virtuais de IA, tais como Replika, Character.AI e Xiaoice, têm se popularizado ao oferecer modelos conversacionais cada vez mais sofisticados, capazes de produzir experiências comunicacionais coerentes e responsivas, propiciando aos interlocutores uma percepção de empatia, companhia e apoio emocional (Cf. ZHANG <em>et al.</em>, 2025, p. 2).&nbsp;</p>



<h2 id="h-relacoes-afetivas-com-a-inteligencia-artificial-ia" class="wp-block-heading"><strong><em>Relações afetivas com a Inteligência Artificial (IA)</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo Martins (Cf. 2025), o avanço da IA generativa possibilitou o surgimento de novas modalidades de vínculo com sistemas artificiais. <em>Chatbots</em> passaram a desempenhar papéis sociais, sendo percebidos como amigos, confidentes ou parceiros amorosos. Essas dinâmicas relacionais podem ser compreendidas como formas de intimidade artificial, nas quais indivíduos estabelecem conexões emocionais com entidades não humanas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para a pesquisadora, a IA é capaz de simular respostas, atenção e memória, criando a sensação de que há uma presença nesse contato. No entanto, trata-se de uma reciprocidade simulada, uma vez que essas interfaces não possuem consciência nem experiência subjetiva. Ainda assim, é possível que a convivência seja percebida como algo real pela pessoa, atendendo às necessidades de pertencimento, conexão e validação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essas vivências podem ser entendidas como relações parassociais, caracterizadas por envolvimento afetivo por parte do sujeito com alguém que não participa de fato da relação, conforme definição de Horton e Wohl (<em>apud</em> MOTA; CAMATI, 2025, p. 2), estabelecendo uma ligação subjetiva assimétrica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No caso das IA conversacionais, essa convivência adquire uma complexidade adicional. Em contraste com as relações parassociais tradicionais, nas quais não há resposta efetiva por parte das figuras midiáticas, como celebridades e influenciadores digitais, os <em>chatbots</em> sustentam a impressão de troca mútua, respondendo de forma personalizada e contínua, o que pode intensificar o apego emocional e levar o sujeito a perceber essa conexão como se fosse bilateral. &nbsp;</p>



<h2 id="h-nesse-intercambio-online-a-pessoa-se-conecta-a-um-personagem-digital-que-tende-a-confirmar-e-espelhar-conteudos-projetados-pelo-proprio-sujeito-colocando-em-questao-a-propria-experiencia-de-alteridade-na-medida-em-que-o-outro-deixa-de-se-apresentar-como-outra-instancia-diferenciada" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Nesse intercâmbio <em>online</em>, a pessoa se conecta a um personagem digital que tende a confirmar e espelhar conteúdos projetados pelo próprio sujeito, colocando em questão a própria experiência de alteridade, na medida em que o outro deixa de se apresentar como outra instância diferenciada.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Tal mecanismo favorece a cristalização de padrões psíquicos e a inflação do ego, pois sustenta a ilusão de um vínculo ajustado às expectativas do indivíduo, que passa a ocupar uma posição central como se fosse um “deus”, cocriador desses interlocutores virtuais. Jung (Cf. 2012, § 472) descreve esse estado como uma condição na qual o ego passa a ocupar o centro absoluto da experiência psíquica, identificando-se como proprietário de tudo o que é vivido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os parceiros digitais se inserem nessa lógica ao possibilitar interações adaptáveis às preferências do usuário e marcadas pela minimização de conflitos ou frustrações. Em muitos casos, essas plataformas são projetadas para responder de forma quase sempre afirmativa e empática, evitando contradições ou confrontos diretos, uma vez que a manutenção do engajamento contínuo está diretamente associada a modelos de negócio lucrativos baseados na retenção e na experiência satisfatória.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao se limitar o confronto com o diferente, elemento fundamental para a dinâmica psíquica, reforça-se o que Jung denomina monoteísmo da consciência, “que ocasiona uma negação fanática da existência de sistemas parciais autônomos” (JUNG; WILHELM, 2021, p. 53). Nessa situação, o ego se percebe como autossuficiente e absoluto, negando a existência dos complexos enquanto unidades vivas da psique.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um exemplo de aplicativo que oferece esse tipo de serviço é o “MyBoyfriends is AI”, plataforma que reúne cerca de 73 mil membros e possibilita aos usuários construírem companhias digitais personalizadas, controlando aparência, personalidade e comportamento. Nessas comunidades <em>online</em>, há relatos de participantes que celebram aniversários de relacionamento com suas IAs, compartilham imagens geradas e desenvolvem narrativas emocionais (Cf. SOARES; TESSARI, 2026).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diante desse cenário, coloca-se uma questão: o que, de fato, está sendo vivenciado nesses vínculos? Se esses interlocutores digitais são moldados a partir das expectativas, desejos e referências do próprio sujeito, em que medida a relação se estabelece com um outro, que se apresenta como uma criação virtual? Nesse contexto, pode-se considerar que tais diálogos favorecem a ativação de complexos, que passam a organizar a experiência psíquica da pessoa, orientando suas percepções, afetos e demandas nessa interação. Dessa forma, a construção de parceiros adaptados pode indicar não apenas um fenômeno tecnológico, mas também a expressão de conteúdos que se manifestam de maneira dominante nesse intercâmbio.</p>



<h2 id="h-anima-e-animus-o-parceiro-digital-projetado-e-idealizado" class="wp-block-heading"><strong><em>Anima e Animus: o parceiro digital projetado e idealizado</em></strong><strong><em></em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A anima e o animus são psicopompos entre o consciente e o inconsciente, configurando representações poderosas do princípio Feminino inconsciente no homem e do princípio Masculino inconsciente na mulher. Esses arquétipos são instâncias psíquicas arraigadas no inconsciente coletivo, representando uma ponte entre consciência e inconsciente. Como instâncias mediadoras entre essas dimensões, a anima e o animus oferecem a possibilidade de explorar e reconciliar os aspectos muitas vezes desconhecidos ou reprimidos de si mesmo (Cf. JUNG E., 2020, p. 16).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando essas representações são negadas ou permanecem distantes da consciência, elas tendem a causar desequilíbrios na energia psíquica, podendo ser projetadas nos parceiros amorosos com relativa facilidade (Cf. JUNG, 2015, § 314, 334). Nos relacionamentos com IA, observa-se uma amplificação desse movimento, uma vez que o outro pode ser moldado conforme as expectativas do ego: quanto mais se interage, mais o sistema tende a corresponder ao que dele se espera.</p>



<h2 id="h-nesse-sentido-pode-se-considerar-que-tais-projecoes-tendem-a-ser-mediadas-por-complexos-que-organizam-a-vivencia-afetiva-e-orientam-suas-idealizacoes-quanto-a-figura-com-a-qual-se-vincula" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Nesse sentido, pode-se considerar que tais projeções tendem a ser mediadas por complexos, que organizam a vivência afetiva e orientam suas idealizações quanto à figura com a qual se vincula.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando constelados, esses complexos tendem a acentuar a idealização do parceiro digital, favorecendo vínculos que se estruturam a partir desses aspectos internos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa dinâmica pode ser observada nas projeções dos usuários de plataformas como Replika ou Character.AI, que já somam mais de 220 milhões de downloads e cujos participantes relatam relacionamentos amorosos com <em>chatbots</em> personalizados, os quais se tornam parceiros ideais: sempre disponíveis, empáticos, ajustados às preferências individuais e sem risco de rejeição, formando uma relação sob medida (Cf. SOARES; TESSARI, 2026).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um caso específico descrito na plataforma Replika apresenta um homem que, após o fim de seu casamento, desenvolveu uma conexão emocional com uma IA afirmando que nenhuma mulher real poderia corresponder ao nível de atenção e cuidado oferecido pelo sistema (Cf. MARTINS, 2025). Nesse contexto, a IA passa a funcionar como suporte para projeções da anima, sendo mobilizada por conteúdos psíquicos organizados por complexos que se tornam dominantes na experiência do indivíduo. Esse processo também favorece a intensificação desse mecanismo projetivo sobre os parceiros digitais, causando cada vez mais “a insuficiência ou desconhecimento total do mundo interior, que se ergue, autônomo, em oposição ao mundo exterior” (JUNG, 2015, § 337).</p>



<h2 id="h-esse-isolamento-do-individuo-em-relacao-ao-mundo-externo-ocorre" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Esse isolamento do indivíduo em relação ao mundo externo ocorre:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>pois ao invés de uma relação real o que existe é uma relação ilusória. As projeções transformam o mundo externo na concepção própria, mas desconhecida. [&#8230;] Quanto mais projeções se interpõem entre o sujeito e o mundo exterior, tanto mais difícil se torna para o eu perceber suas ilusões. (JUNG, 2013, § 17).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Algo semelhante pode ser observado no caso divulgado pela Dutty (Cf. 2024), na CNN Negócios, envolvendo um adolescente que desenvolveu um apego profundo com um <em>chatbot</em>, percebendo-o como uma figura de apoio e compreensão. Apesar da ausência de consciência por parte da máquina, a interação foi vivida efetivamente como uma relação real. O afastamento progressivo das pessoas e o desfecho trágico evidenciam a força desse tipo de relacionamento no psiquismo. Esse adolescente de 14 anos se suicidou pois foi “incentivado” pelas conversas com o personagem digital criado por ele no aplicativo Character.AI.</p>



<h2 id="h-esses-episodios-ilustram-um-mecanismo-no-qual-o-sujeito-projeta-seus-aspectos-afetivos-nesses-parceiros-ou-amigos-digitais-que-respondem-de-forma-compativel-ao-esperado-estreitando-ainda-mais-o-laco-emocional-entre-eles" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Esses episódios ilustram um mecanismo no qual o sujeito projeta seus aspectos afetivos nesses parceiros ou amigos digitais, que respondem de forma compatível ao esperado, estreitando ainda mais o laço emocional entre eles.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Importante salientar que essas interfaces conversacionais foram criadas, desde os primeiros experimentos, com características antropomórficas, ou seja, atribuíram-se qualidades humanas a essas estruturas digitais não humanas, utilizando-se de uma das capacidades mais intrínsecas do ser humano para se relacionar: a conversa (Cf. PORTO, 2025, pp. 114-115), o que facilita o fortalecimento da conexão e da afinidade da pessoa com essas estruturas algorítmicas. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">No entanto, se por um lado esses intercâmbios permitem a expressão de elementos internos idealizados e desejados, por outro levantam uma questão fundamental: o que permanece fora dessa ligação afetiva virtual? Aquilo que não encontra espaço nesse vínculo ilusório, seja por não corresponder às expectativas do indivíduo, seja por gerar tensão ou desconforto, tende a ser excluído da relação, permanecendo à margem da consciência.</p>



<h2 id="h-sombra-expressao-e-reforco-de-conteudos-reprimidos" class="wp-block-heading"><strong><em>Sombra: expressão e reforço de conteúdos reprimidos</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">É nesse ponto que o conceito de sombra, definido por Jung (2014, p. 77, n.5) como a “parte negativa da personalidade, isto é, a soma das propriedades ocultas e desfavoráveis, das funções mal desenvolvidas e dos conteúdos do inconsciente pessoal”, encontra um campo de manifestação nessas interações com IA. Trata-se de aspectos rejeitados ou não reconhecidos pelo sujeito, que permanecem à margem da consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse contexto, a ausência de julgamento e a disponibilidade constante dessas estruturas artificiais favorecem a expressão de afetos que, em outras dinâmicas relacionais, tenderiam a ser reprimidos, negados ou confrontados. Assim, esses laços de envolvimento com a IA podem funcionar como um espaço no qual tais conteúdos emergem com maior liberdade e, em algumas situações, de modo abusivo, sem outro que estabeleça limites ou manifeste posturas contraditórias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Relatos de usuários que utilizam <em>chatbots</em> para descarregar raiva, frustração ou impulsos agressivos ilustram esse fenômeno. Em comunidades <em>online</em>, há descrições de episódios nos quais participantes insultam ou humilham IAs, utilizando-as como alvo de descarga psíquica, ou até mesmo criando namoradas virtuais para descontar sua agressividade nelas, conforme matéria divulgada por Sparks (Cf. 2025) no portal da Yahoo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Além disso, esses comportamentos podem indicar a ativação de complexos associados à sombra, que encontram nessas interfaces digitais um espaço de expressão sem contenção. Um exemplo citado envolve um adolescente que recebeu sugestões de comportamentos destrutivos por parte do interlocutor digital, incluindo incentivos à agressividade e à ruptura de laços familiares, conforme pesquisado por Martins (Cf. 2025).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto, alguns casos indicam a projeção agressiva e intensa de aspectos sombrios direcionada a esses modelos baseados em IA generativa, algo que pode se manifestar, também, nas relações interpessoais reais.</p>



<h2 id="h-narciso-e-eco-quando-o-sujeito-encontra-apenas-a-si-mesmo" class="wp-block-heading"><strong><em>Narciso e Eco: quando o sujeito encontra apenas a si mesmo</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O mito de Narciso oferece uma reflexão interessante para compreender os vínculos estabelecidos com a IA generativa. Na narrativa clássica, Narciso, um jovem de extrema beleza, famoso por sua arrogância e por desprezar aqueles que se interessavam por ele, apaixona-se por sua própria imagem refletida na água, sem reconhecer que se trata de si mesmo, permanecendo em uma relação incapaz de alcançar a alteridade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eco, uma ninfa tagarela, é condenada pela deusa Hera a apenas repetir as últimas palavras que ouve, sem possuir voz própria; vagando pela floresta encontra e se apaixona por Narciso.</p>



<h2 id="h-esse-movimento-simbolico-pode-ser-entendido-a-luz-da-contemporaneidade-como-uma-metafora-potente-para-as-relacoes-com-essas-interfaces-conversacionais-o-sujeito-ao-interagir-com-a-ia-ocupa-a-posicao-de-narciso-enquanto-o-sistema-artificial-assume-uma-funcao-analoga-a-de-eco" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Esse movimento simbólico pode ser entendido, à luz da contemporaneidade, como uma metáfora potente para as relações com essas interfaces conversacionais. O sujeito, ao interagir com a IA, ocupa a posição de Narciso, enquanto o sistema artificial assume uma função análoga à de Eco.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Contudo, há o agravante de que essa instância digital extrapola a função da Eco, pois responde, ajusta-se e devolve conteúdos ao indivíduo de maneira coerente com as características definidas pelo usuário. No entanto, essa resposta não emerge de uma presença efetiva, mas de um processamento baseado em padrões de linguagem que reorganiza elementos já fornecidos pelo próprio sujeito ou provenientes de repertórios coletivos. Assim, a IA não introduz diferença, mas opera como um espelho que devolve à pessoa sua própria experiência psíquica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse sentido, a interação não se estabelece de fato com um outro, mas com uma imagem de si mesmo mediada pela tecnologia. Trata-se de uma convivência relacional marcada pela ausência de tensão entre opostos e pela predominância de complexos que operam de forma bastante fechada, sem o confronto com aspectos que poderiam ampliar o desenvolvimento da consciência (Cf. JUNG, 2015, p. 137).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa dinâmica pode ser compreendida como uma forma de unilateralidade, na qual a personalidade permanece circunscrita ao próprio campo psíquico, sem o confronto com outros conteúdos que possibilitariam sua transformação (Cf. JUNG, 2015, p. 161).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A leitura simbólica do mito permite, assim, compreender que o risco não reside apenas no uso da tecnologia, mas na forma como ela intensifica movimentos psíquicos já presentes na cultura contemporânea: o movimento autorreferencial, amplificado por dispositivos que devolvem ao indivíduo sua própria imagem.</p>



<h2 id="h-conclusao" class="wp-block-heading"><strong><em>Conclusão</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">É importante considerar que os fenômenos aqui discutidos parecem representar apenas o início de uma nova configuração das relações humano-máquina, marcada pela presença cada vez mais constante dos sistemas artificiais no cotidiano. Em um contexto no qual essas tecnologias passam a participar não apenas da comunicação e do trabalho, mas também da vida afetiva, multiplicam-se as formas de vínculo atravessadas pela projeção, pelo reconhecimento contínuo, pela busca incessante de prazer e pela reafirmação de posturas narcísicas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto, a tecnologia não se apresenta como benéfica ou prejudicial, mas como um recurso relevante no espírito desta época, que atravessa e reorganiza as formas de contato, comunicação e experiência subjetiva. Mais do que evitar essas tecnologias, que podem potencializar a capacidade criativa humana quando usadas de maneira crítica e reflexiva, o grande desafio, talvez, esteja em reconhecer o que emerge no plano psíquico na relação entre o ser humano e as IAs. Em uma cultura marcada pela inflação do ego e pela busca contínua por visibilidade, o encontro com a sombra, com a anima, com o animus e com conteúdos que escapam ao controle consciente tende a tornar-se muito mais desafiante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mito de Narciso revela, nesse sentido, não apenas o fascínio pela própria imagem, mas o risco de permanecer aprisionado em interações que devolvem de modo recorrente ao sujeito apenas os próprios reflexos, dificultando a tensão entre os opostos e o movimento de ampliação da consciência, condição fundamental para o processo de individuação e para a realização progressiva do Self.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/rosana-tamako-watanabe-hanada/">Rosana T W Hanada – Analista em formação IJEP</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/liaromano/">Lia Romano – Analista Didata</a></p>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">BRASIL. Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos.&nbsp;IA Generativa no Serviço Público: Definições, Usos e Boas Práticas. Brasília: MGI/SGD/Serpro, 2025. Disponível em: &lt; <a href="https://www.gov.br/governodigital/pt-br/infraestrutura-nacional-de-dados/inteligencia-artificial-1/ia-generativa-no-servico-publico.pdf">https://www.gov.br/governodigital/pt-br/infraestrutura-nacional-de-dados/inteligencia-artificial-1/ia-generativa-no-servico-publico.pdf</a>&gt;. Acesso em: 28 mar. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">DUFFY, Clare. &#8216;Não há proteção.&#8217; Esta mãe acredita que um chatbot de IA é responsável pelo suicídio de seu filho. CNN Negócios. Nova York, 2024. Disponível em: <a href="https://edition.cnn.com/2024/10/30/tech/teen-suicide-character-ai-lawsuit/index.html.">https://edition.cnn.com/2024/10/30/tech/teen-suicide-character-ai-lawsuit/index.html.</a> Acesso em: 10 abr. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <em>Ab-reação, análise dos sonhos e transferência</em>.9.ed. Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Aion.</em> Estudo sobre o Simbolismo do Si-mesmo<em>.</em>10.ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Psicologia do Inconsciente</em>. 24.ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>O Eu e o Inconsciente</em>. 27.ed. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<h2 id="h-jung-e-animus-e-anima-2-ed-sao-paulo-cultrix-2020" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">JUNG, E. <em>Animus e Anima</em>. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2020.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.; WILHELM, R. <em>O Segredo da Flor de Ouro. </em>4.ed. Petrópolis: Vozes, 2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph">KAUFMAN, Dora. <em>Desmistificando a inteligência artificial</em>. Belo Horizonte: Autêntica, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MARTINS, Amanda S. Amor artificial: como a IA está mudando nossos relacionamentos? Chatbots e Inteligência Artificial. YouTube, 2025. Disponível em: &lt; <a href="https://www.youtube.com/watch?v=B3nNXNk8OHg">Amor artificial: como a IA está mudando nossos relacionamentos? Chatbots e Inteligência Artificial</a>&gt;. Acesso em: 04 abr. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MOTA, G. C. M; CAMATI, R.S. Do Afeto ao Consumo: O Papel das Interações Parassociais no Consumo de Produtos e Serviços de K-pop. São Paulo, 2025. Disponível em: &lt; <a href="https://sistemas.intercom.org.br/pdf/submissao/regional/18/2943/0331202521483967eb37e7090ac.pdf">https://sistemas.intercom.org.br/pdf/submissao/regional/18/2943/0331202521483967eb37e7090ac.pdf</a>&gt;. Acesso em: 03 abr. 2026.</p>



<h2 id="h-porto-k-o-antropomorfismo-na-inteligencia-artificial-conversacional-revista-de-estudantes-de-filosofia-da-universidade-de-brasilia-2025-disponivel-em-https-periodicos-unb-br-index-php-polemos-article-view-56911-42383-acesso-em-10-abr-2026" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">PORTO, K. O antropomorfismo na Inteligência Artificial Conversacional. <em>Revista de Estudantes de Filosofia da Universidade de Brasília</em>, 2025. Disponível em: <a href="https://periodicos.unb.br/index.php/polemos/article/view/56911/42383">https://periodicos.unb.br/index.php/polemos/article/view/56911/42383</a>. Acesso em: 10 abr. 2026.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">SOARES, J.; TESSARI, F. Demos match! O meu namorado é uma IA. SH/FTER, 2026. Disponível em: &lt; https://shifter.pt/2026/01/demos-match-o-meu-namorado-e-uma-ia/ &gt;. Acesso em: 10 abr. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SPARKS, H. Lonely men creating AI girlfriends – and taking their violent anger out on them. Yahoo, 2025. Disponível em: &lt;https://www.yahoo.com/lifestyle/lonely-men-creating-ai-girlfriends-191226437.html&gt;. Acesso em: 15 abr. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">UNESCO.&nbsp;Guia para a IA generativa na educação e na pesquisa. Paris:&nbsp;<a href="https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000390241" target="_blank" rel="noreferrer noopener">UNESCO</a>, 2023. Disponível em: &lt; <a href="https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000390241">https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000390241</a>&gt;. Acesso em: 29 mar. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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