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	<title>Arquivos sexo - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Thu, 12 Mar 2026 17:01:37 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos sexo - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Vício em pornografia e o exílio da intimidade do masculino</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/vicio-em-pornografia-e-o-exilio-da-intimidade-do-masculino/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniela Aimar Euzebio]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Mar 2026 16:43:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[anima/animus]]></category>
		<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[amor e sexo]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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		<category><![CDATA[vício em pornografia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este ensaio nasce da reflexão do desencontro e do desenlace entre o erotismo, as projeções (tantas vezes sombrias) e da solidão humana, culminando no vício em pornografia do masculino. </p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/vicio-em-pornografia-e-o-exilio-da-intimidade-do-masculino/">Vício em pornografia e o exílio da intimidade do masculino</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px"><em>Resumo:</em><strong><em> </em></strong><em>Vivemos numa época em que o sexo circula com facilidade, imagens se oferecem explicitamente e sem resistência, e o prazer parece ao alcance das mãos facilitado pela projeção das telas. Um excesso de auto estímulo e de facilidades faz com que algo nos encontros reais se perca. Há um esvaziamento de Eros. Este ensaio nasce da reflexão do desencontro e do desenlace entre o erotismo, as projeções (tantas vezes sombrias) e da solidão humana, culminando no vício em pornografia do masculino.</em></p>



<p style="font-size:18px"><em>Num flerte entre a Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung e a filosofia contemporânea de Byung-Chul Han, o texto infere no vício em pornografia como fenômeno psíquico e cultural. Desnudamos Narciso, sombra, anima e projeção como cena imagética para revelar como a excitação compulsiva e compulsória pode coexistir com a dor e desconexão da alma, e o empobrecimento da intimidade (minha e do outro). Um convite para pensar o desejo desejante que se retroalimenta como sofrimento e a tela como extensão projetiva da dor psíquica que aponta o que está oculto no inconsciente.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sexo-e-bom-e-muita-gente-gosta" style="font-size:20px">Sexo é bom e muita gente gosta.</h2>



<p style="font-size:18px">O erotismo faz parte da saúde sexual, emocional, mental e afetiva. “Transar”, fazer amor, “pegar alguém” faz parte do cotidiano e não deveria ser um tabu na contemporaneidade. Quando estamos num relacionamento, nos sentimos conectados e desejados, a sexualidade surge como uma linguagem natural da intimidade. Quando fluído e consensual, uma vida sexual ativa ajuda na melhora da autoestima, na reconexão com o prazer e afetos, alivia o estresse, melhora a criatividade e sensação de bem-estar.</p>



<p style="font-size:18px"><strong>Rita Lee</strong>, em sua música <strong>Amor e Sexo</strong>, traz uma reflexão sobre este tema tão desejado, e ressalta com beleza poética a diferença complementar entres esses dois mundos: <strong>Amor é um livro / Sexo é esporte / Sexo é escolha / Amor é sorte</strong>. E se o sexo é esporte, a masturbação surge como braço integrante desta mesma sinfonia. É quando nos tornamos, ao mesmo tempo, amante e amado; em que descobrimos o ritmo do próprio desejo e a autonomia sobre o prazer. Neste autoerotismo saudável, aprendemos a habitar a nossa própria pele antes de nos entregar à pele do outro.</p>



<p style="font-size:18px">No entanto, é justamente na fronteira entre o conhecer-se e o perder-se que o cenário contemporâneo nos impõe um novo desafio. Quando o toque deixa de ser uma exploração dos sentidos para se tornar um refúgio mecânico diante de uma tela, o que era para ser descoberta pode se transformar em uma perda sombria.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-dados-divulgados-pelo-site-pornhub-o-brasil-ocupa-o-4º-lugar-entre-os-paises-que-mais-acessam-conteudo-pornografico-no-mundo-a-frente-aparecem-estados-unidos-mexico-e-filipinas-que-compoem-o-top-tres-global-fonte-correio-brasiliense-2025" style="font-size:18px">Segundo dados divulgados pelo site Pornhub, o Brasil ocupa o 4º lugar entre os países que mais acessam conteúdo pornográfico no mundo. À frente aparecem Estados Unidos, México e Filipinas, que compõem o top três global (Fonte: Correio Brasiliense, 2025).</h2>



<p style="font-size:18px">Se a masturbação pode ser compreendida como ensaio do prazer, a pornografia assume o papel da projeção da fantasia. As imagens oferecem roteiros prontos, intensificam estímulos e prometem facilitar o acesso ao gozo, reorganizando o ritmo do desejo em torno da rapidez, da repetição e da escalada visual. A pornografia permite acessar o inconfessável, a experimentar o prazer indizível, revela aquilo que é mais obscuro e até incompreendido do ser. Estimular-se usando as fantasias pornográficas passa a ser problema quando o consumo se torna compulsivo e interfere na economia psíquica, ao deslocar o erotismo da vivência para uma relação predominantemente imagética e solitária.</p>



<p style="font-size:18px">A compulsão por pornografia é entendida como uma manifestação do Transtorno do Comportamento Sexual Compulsivo (TCSC), caracterizada pelo consumo repetitivo, excessivo e incontrolável de conteúdo pornográfico, resultando em prejuízos significativos para o funcionamento psicológico, social, profissional ou ocupacional da pessoa (WERY; BILLIEUX, 2017). </p>



<p style="font-size:18px">Diferente do uso recreativo, o vício se revela quando o prazer dá lugar a um padrão persistente e fora de controle, onde a vontade de parar não encontra eco na ação, e as horas se perdem na solidão do quarto e no brilho da tela. Essa condição se distancia da ludicidade pelo seu caráter de prisão, e se manifesta na tentativa frustrada de silenciar o hábito, no tempo excessivo e na insistência em um caminho que o próprio indivíduo já reconhece como prejudicial, mas do qual não consegue mais se desviar sozinho.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-cada-vez-mais-cedo-criancas-e-adolescentes-entram-em-contato-com-pornografia-impulsionados-pela-facilidade-da-internet-e-ausencia-efetiva-de-barreiras-etarias-no-ambiente-digital" style="font-size:18px">Cada vez mais cedo, crianças e adolescentes entram em contato com pornografia impulsionados pela facilidade da internet e ausência efetiva de barreiras etárias no ambiente digital.</h2>



<p style="font-size:18px">Dados da pesquisa TIC Kids Online Brasil indicam que uma significativa parcela das crianças iniciou o uso da internet aos 6 anos de idade ou antes (CETIC.br, 2023). Essa precocidade amplia a exposição a riscos digitais, entre eles experiências ofensivas ou perturbadoras, relatadas por uma proporção expressiva de usuários entre 9 e 17 anos, conforme apontam os indicadores da pesquisa (CETIC.br, 2023). Nesse contexto, o primeiro contato com a sexualidade tende a ser desassistida e incide com maior frequência sobre meninos. Aquilo que deveria ser sustentado pela família, escola e sociedade no campo da educação sexual é substituído por um acesso clandestino a encenações exageradas, de relações performáticas e esvaziadas de afeto, sem erotismo saudável.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-luz-da-psicologia-analitica-o-consumo-pornografico-adquire-densidade-simbolica-quando-entendido-como-meio-de-projecao-do-inconsciente" style="font-size:18px">À luz da Psicologia Analítica, o consumo pornográfico adquire densidade simbólica quando entendido como meio de projeção do inconsciente.</h2>



<p style="font-size:18px">Jung (OC 6, §554) define projeção como <em>“um fato inconsciente, não submetido a controle consciente</em>”, um mecanismo pelo qual conteúdos psíquicos são deslocados para objetos externos, passando a ser percebidos como qualidades do outro e não como pertencentes ao próprio sujeito (OC 6; §862). Também afirma que certas projeções “pertencem à esfera da sombra, isto é, o lado obscuro da própria personalidade” (OC 9/2, §19). Importante ressaltar que, para Jung (OC 9/2, §14), “a sombra constitui um problema de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-entao-ousamos-dizer-que-quando-a-pornografia-se-torna-a-unica-maneira-possivel-de-se-chegar-ao-orgasmo-dialogamos-com-um-comportamento-narcisista" style="font-size:18px">Então ousamos dizer que, quando a pornografia se torna a única maneira possível de se chegar ao orgasmo, dialogamos com um comportamento narcisista.</h2>



<p style="font-size:18px">Essa provocação se ancora no mito de Narciso que, ao permanecer fixado na contemplação do seu reflexo na água, acaba se afogando em sua projeção. Nesse contexto, a pornografia funciona como uma muleta do autoerotismo, na qual o indivíduo só consegue alcançar o gozo por meio das imagens projetadas nas cenas, deslocando a experiência erótica da relação com o outro para um circuito autorreferenciado.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-isso-e-importante-entender-a-especificidade-da-busca-compulsiva-do-tema-pornografico-e-qual-a-simbologia-esta-contida-por-tras-da-cena-pois-ela-oferece-uma-superficie-imagetica-que-acolhe-os-conteudos-sombrios" style="font-size:18px">Por isso é importante entender a especificidade da busca compulsiva do tema pornográfico e qual a simbologia está contida por trás da cena, pois ela oferece uma superfície imagética que acolhe os conteúdos sombrios.</h2>



<p style="font-size:18px">A objetificação do corpo, fantasias agressivas, impulsos de dominação, desejos dissociados do afeto, intensidades pulsionais e tantos outros fetiches encontram neste palco uma forma de expressão deslocada, ou seja, a pessoa é afetada pelas imagens porque algo de sua própria psique foi ali projetada. Entretanto, essa revelação ocorre de modo literal e empobrecido, sem elaboração simbólica, fixada em roteiros repetitivos e estereotipados, reforçando papéis de gênero, violências e ausência de afeto.</p>



<p style="font-size:18px">Para exemplificarmos, segundo dados divulgados pelo site Pornhub, as buscas que apresentam crescimento expressivo são termos como “sexo em grupo” (aumento de 544%), “punheta trans” (488%), “coroa gostosa transando” (442%) e “lésbicas tesoura” (231%) (Fonte: Correio Brasiliense, 2025). Chama atenção que “punheta trans” esteja no topo do campo de pesquisa pois, segundo o dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), o Brasil liderou em 2024 pelo 16º ano consecutivo, os maiores índices globais de assassinatos contra essa população. Grande parte das vítimas são mulheres trans, jovens, negras e nordestinas, e os crimes são marcados por extrema violência (Fonte: CNN Brasil, 2025), ao mesmo tempo que os direitos sociais dessas pessoas estão sempre em fragilidade institucional. Também é interessante observar que o aumento do “conservadorismo” traz a reboque o aumento de buscas de sexo em grupo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-abordar-a-relacao-do-sujeito-com-sua-anima-a-dinamica-psiquica-revela-um-grau-ainda-mais-sensivel-de-complexidade" style="font-size:18px">Ao abordar a relação do sujeito com sua anima, a dinâmica psíquica revela um grau ainda mais sensível de complexidade.</h2>



<p style="font-size:18px">Jung compreende a anima como o arquétipo da face feminina na psique masculina, cuja função consiste em mediar a relação entre consciência e inconsciente, atuando como ponte entre o mundo interior e a experiência relacional (JUNG, OC 9/2, §27). Ela personifica tendências psicológicas associadas à vida afetiva, à intuição e à sensibilidade, que frequentemente permanecem à margem da personalidade consciente. Quando essa função não encontra reconhecimento e elaboração, a anima tende a ser projetada em figuras externas. A pornografia oferece um campo imagético vasto e incessante, ao apresentar figuras femininas esvaziadas de subjetividade, reduzidas a corpos destinados a submissão da fantasia e do prazer unilateral do outro.</p>



<p style="font-size:18px">Nessa configuração, a <strong>anima</strong> perde sua dimensão simbólica e passa a ser vivenciada como imagem disponível ao consumo, deslocando o erotismo à objetificação. Essa dinâmica encontra um paralelo mítico na ação de Nêmesis, deusa da justa retribuição e do equilíbrio moral, que pune Narciso fazendo com que o amor recusado ao outro retorne sob a forma de um fascínio autorreferido pela própria imagem.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-adverte-que-a-projecao-da-anima-empobrece-gravemente-a-capacidade-de-vinculo-pois-substitui-o-encontro-com-a-alteridade-real-por-uma-relacao-distorcida-na-qual-o-outro-e-apenas-suporte-para-conteudos-inconscientes-nao-elaborados-jung-oc-7-2-339" style="font-size:18px">Jung adverte que a projeção da anima empobrece gravemente a capacidade de vínculo, pois substitui o encontro com a alteridade real por uma relação distorcida, na qual o outro é apenas suporte para conteúdos inconscientes não elaborados (JUNG, OC 7/2, §339).</h2>



<p style="font-size:18px">O erotismo, que em sua dimensão simbólica convoca transformação, risco e reciprocidade, é reduzido a excitação visual controlável, onde tudo está sob o domínio das mãos. A experiência erótica deixa de ser um espaço de encontro e passa a operar como circuito fechado de autoestimulação, no qual o sujeito se relaciona consigo mesmo e com suas projeções.</p>



<p style="font-size:18px">Esse deslocamento convida a uma mudança de perspectiva clínica e teórica. O debate ganha profundidade quando se afasta de diálogos moralizantes e se aproxima do campo simbólico, pois a pornografia revela menos sobre desvios do desejo e mais sobre processos de dissociação entre imagem e corpo vivido, excitação e afeto, fantasia e relação, numa espécie de “afastamento da alma”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-cisao-tambem-se-inscreve-em-uma-ampla-logica-cultural-marcada-pela-hiperexposicao-aceleracao-do-consumo-e-pelo-esvaziamento-da-experiencia-do-outro-como-presenca" style="font-size:18px">Essa cisão também se inscreve em uma ampla lógica cultural, marcada pela hiperexposição, aceleração do consumo e pelo esvaziamento da experiência do outro como presença.</h2>



<p style="font-size:18px">É nesse ponto que a reflexão de Byung-Chul Han ilumina o modo como a sociedade contemporânea transforma o erotismo em desempenho e a alteridade em superfície disponível, aprofundando a ruptura entre desejo, vínculo e experiência simbólica.</p>



<p style="font-size:18px">No caso do vício em pornografia, viver imerso nas projeções leva o indivíduo a um autoerotismo de maneira quase literal. A energia erótica é direcionada a imagens projetadas de si e se enovela numa relação consigo mesmo de uma maneira compulsiva, levando ao esgarçamento das relações principalmente afetivo-sexuais pois, diante do outro, tem-se dificuldade da troca com aquele que sente, reage e exige uma dedicação libidinal.</p>



<p style="font-size:18px">Por meio dos dados de buscas e temas em relevância, a pornografia pode evidenciar uma sombra moral, pois as procuras chamam a atenção pelo contraste com os temas destacados na vida pública das redes sociais. Este vício pode ser entendido como uma perseguição pela satisfação eterna de algo que não chega, pois existe o desejo desejante que jamais se sacia.</p>



<p style="font-size:18px">Essa cisão também se inscreve em uma lógica cultural mais ampla, marcada pela hiperexposição, pela aceleração do consumo e a substituição progressiva da experiência do outro por superfícies disponíveis ao olhar e à apropriação imediata.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-agonia-do-eros-byung-chul-han-2017-p-56-faz-uma-provocacao-ao-dizer-que-a-pornografizacao-do-mundo-se-realiza-como-sua-profanacao-ela-profana-o-erotismo-e-a-profanacao-se-realiza-como-desritualizacao-e-dessacralizacao-han-2017-p-61" style="font-size:18px">Em <strong>Agonia do Eros</strong>, Byung-Chul Han (2017, p. 56) faz uma provocação ao dizer que “<em>a pornografização do mundo se realiza como sua profanação. Ela profana o erotismo”, e “a profanação se realiza como desritualização e dessacralização</em>” (HAN, 2017, p. 61).</h2>



<p style="font-size:18px">Continua ao descrever a erosão contemporânea do Eros como consequência direta de uma cultura que transforma o desejo em desempenho, e o encontro em mera positividade. Han (2017) acredita que o Eros só se constitui plenamente quando a relação envolve diferença e imprevisibilidade, pois a experiência erótica exige que o outro não seja reduzido a objeto de satisfação porque o desejo se sustenta justamente naquilo que escapa e se mantém como alteridade. É essa assimetria entre o eu e o outro que introduz risco, tensão e abertura ao desconhecido, elementos indispensáveis à vitalidade do Eros. Quando essa alteridade é dissolvida, o erotismo perde sua força transformadora e se converte em estímulo previsível e consumível.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-pornografia-se-insere-neste-escancaramento-descrito-por-han-no-qual-tudo-deve-estar-exposto-sem-zonas-de-misterio-ou-negatividade-para-ele-o-erotico-nao-esta-desprovido-de-misterio-han-2017-p-60" style="font-size:18px">A pornografia se insere neste “escancaramento” descrito por Han, no qual tudo deve estar exposto sem zonas de mistério ou negatividade. Para ele “o erótico não está desprovido de mistério” (HAN, 2017, p. 60).</h2>



<p style="font-size:18px">O corpo pornográfico é um corpo sem segredos e interioridade, oferecido ao olhar como mercadoria erótica, cuja função é responder imediatamente ao desejo, sem frustração ou elaboração simbólica. Nesse cenário, o Eros passa a funcionar como excitabilidade técnica, organizada segundo a lógica da escalada sensorial, o que empobrece tanto a experiência do prazer quanto a capacidade de vínculo.</p>



<p style="font-size:18px"><strong>Han</strong> observa que a sociedade contemporânea desloca o desejo para o campo do desempenho individual, transformando a sexualidade em um espaço de autoexploração, no qual o sujeito acredita exercer liberdade enquanto se submete a circuitos compulsivos de repetição. Essa leitura encontra ressonância direta na compreensão junguiana do narcisismo, pois a libido, impedida de se orientar em direção ao outro como alteridade viva, retorna ao próprio sujeito e se fixa em imagens que funcionam como espelhos ampliados de suas fantasias inconscientes. O resultado é uma economia libidinal autorreferida, na qual o prazer se intensifica ao mesmo tempo em que se esvazia de sentido.</p>



<p style="font-size:18px">Nesse ponto, a pornografia revela sua afinidade profunda com a lógica narcísica descrita tanto pelo mito quanto pela clínica. Assim como Narciso se apaixona por uma imagem que o reflete e o captura, o sujeito contemporâneo se vê enredado em imagens que prometem satisfação infinita e entregam repetição compulsiva, num movimento que conduz à saturação do desejo e ao empobrecimento do encontro.</p>



<p style="font-size:18px">Byung-Chul Han descreve esse processo como a transformação do Eros em pornografia, entendida como um regime no qual a exposição total substitui a tensão erótica, e a proximidade excessiva elimina a distância necessária à experiência amorosa. O desaparecimento do outro é a agonia do Eros (HAN, 2017, p. 74).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-do-ponto-de-vista-junguiano-esse-cenario-pode-ser-compreendido-como-um-colapso-da-funcao-simbolica-da-anima-cuja-mediacao-entre-consciencia-e-inconsciente-se-fragiliza-quando-o-feminino-psiquico-e-reduzido-a-condicao-de-imagem-erotizada-e-consumivel" style="font-size:18px">Do ponto de vista junguiano, esse cenário pode ser compreendido como um colapso da função simbólica da anima, cuja mediação entre consciência e inconsciente se fragiliza quando o feminino psíquico é reduzido à condição de imagem erotizada e consumível.</h2>



<p style="font-size:18px">Jung adverte que a anima, quando projetada de maneira não elaborada, aprisiona o sujeito em fantasias que impedem o amadurecimento da relação e a integração dos afetos (JUNG, OC 7/2, §339). A pornografia intensifica esse processo ao oferecer imagens prontas e roteiros estereotipados, pois cristaliza a projeção em cenas fixas, repetidas e empobrecidas, impedindo que o conteúdo inconsciente seja simbolizado e transformado.</p>



<p style="font-size:18px">Han (2017) acrescenta que o desaparecimento da alteridade conduz a uma forma de gozo solitário, no qual o sujeito se relaciona apenas consigo mesmo, ainda que sob a ilusão de multiplicidade de parceiros e experiências. Essa dinâmica ilumina o paradoxo contemporâneo do vício em pornografia: quanto maior a oferta de imagens e estímulos, mais restrito se torna o campo do desejo, que passa a girar em torno dos mesmos temas, das mesmas cenas e das mesmas intensidades, produzindo um fechamento progressivo da vida erótica e afetiva.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-assim-o-vicio-em-pornografia-pode-ser-compreendido-como-uma-busca-incessante-por-satisfacao-total-que-jamais-se-cumpre-pois-esta-fundada-na-eliminacao-da-alteridade-e-na-recusa-da-vulnerabilidade-inerente-ao-encontro-erotico" style="font-size:18px">Assim, o vício em pornografia pode ser compreendido como uma busca incessante por satisfação total que jamais se cumpre, pois está fundada na eliminação da alteridade e na recusa da vulnerabilidade inerente ao encontro erótico.</h2>



<p style="font-size:18px">Trata-se de um desejo que se intensifica ao mesmo tempo em que se esvazia, pois cada nova imagem promete preencher uma falta que se reinscreve imediatamente após o gozo, reproduzindo a lógica de todo comportamento compulsivo. Nesse sentido, a pornografia revela muito mais que conteúdos sombrios individuais, ela expressa uma sombra cultural marcada pela dificuldade coletiva de sustentar o Eros como experiência simbólica e transformadora.</p>



<p style="font-size:18px">Diante desse fenômeno, a clínica é convocada a oferecer um espaço onde o sujeito possa reencontrar a dimensão imagética do desejo, reconhecendo os fragmentos da sua anima, sombra e de conflitos não elaborados projetados nas telas.</p>



<p style="font-size:18px">Sustentar essa travessia implica recolocar o erotismo no campo da alteridade. Relacionar-se com o outro implica sustentar o risco das dores e amargores relativo ao encontro, condição que restitui ao Eros sua potência de transformação, pois é no reflexo do olhar deste outro onde existe a possibilidade da quebra da autorreferenciação e solidão.</p>



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<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/daniela/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/daniela/">Me. Daniela Euzebio – Didata em formação IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/maurosoave/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/maurosoave/">Me. Mauro Soave – Didata em formação IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px">Referências:</h2>



<p>BRASIL é o país que mais mata pessoas trans e travestis, aponta dossiê. CNN Brasil, [s. l.], 29 jan. 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/brasil-e-o-pais-que-mais-mata-pessoas-trans-e-travestis-aponta-dossie/. Acesso em: 16 jan. 2026;</p>



<p>COMITÊ GESTOR DA INTERNET NO BRASIL (CGI.br). Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br). Disponível em: https://cetic.br/pt/pesquisas/. Acesso em: 16 jan. 2026;</p>



<p>CORREIO BRAZILIENSE. Brasil é o 4º maior consumidor de pornografia no mundo. Correio Braziliense, Brasília, 30 dez. 2025. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2025/12/7316169-brasil-e-o-4-maior-consumidor-de-pornografia-no-mundo.html. Acesso em: 16 jan. 2026;</p>



<p>HAN, Byung-Chul. A agonia de Eros. Petrópolis: Vozes, 2017;</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Aion &#8211; Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 2013 (Obras completas v. 9/2);</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2016 (Obras completas v. 7/2);</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 2013 (Obras completas v. 6);</p>



<p>WERY, A.; BILLIEUX, J. Problematic cybersex: Conceptualization, assessment, and treatment. Addictive Behaviors, v. 64, p. 238-246, 2017</p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/vicio-em-pornografia-e-o-exilio-da-intimidade-do-masculino/">Vício em pornografia e o exílio da intimidade do masculino</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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		<item>
		<title>O lugar da fantasia e dos desejos pessoais diante dos papéis e convenções num relacionamento íntimo</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-lugar-da-fantasia-e-dos-desejos-pessoais-diante-dos-papeis-e-convencoes-num-relacionamento-intimo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marcella Ferreira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 29 Jun 2021 22:55:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Casamento]]></category>
		<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Felicidade]]></category>
		<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[desejos sexuais]]></category>
		<category><![CDATA[falta de tesão]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamento]]></category>
		<category><![CDATA[sexo]]></category>
		<category><![CDATA[tesão]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O que difere um relacionamento de amizade de um relacionamento íntimo como o casamento é o sexo. Muito se fala sobre sexo, algumas vezes de forma extremamente mecânica e cheio de regras, quase que um protocolo a se seguir, porém, resultando em julgamentos e ações de pouca intimidade de fato.&#160; E antes de desenvolver minha [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>O que difere um relacionamento de amizade de um relacionamento íntimo como o casamento é o sexo. </strong>Muito se fala sobre sexo, algumas vezes de forma extremamente mecânica e cheio de regras, quase que um protocolo a se seguir, porém, resultando em julgamentos e ações de pouca intimidade de fato.&nbsp;</p>



<p>E antes de desenvolver minha ideia sobre o tema, gostaria de fazer algumas pontuações importantes, para que os recortes dados neste artigo possam ser compreendidos por todos: ao usar a palavra ‘<strong>casamento</strong>’&nbsp;também considerarei qualquer tipo de relacionamento íntimo estável. Como as referências citadas usam como ilustração de casal um homem e uma mulher, manterei pela norma, mas peço para que considerem também outras possibilidades de união, afinal, a dinâmica psíquica no <strong>relacionamento</strong> que abordarei neste texto é do ser humano, logo, respeita toda forma de <strong>amor</strong>.</p>



<p>Entre inúmeros fatores que podem atrapalhar a questão sexual num casamento como estresse, cobranças, autoestima, etc., pouco se fala sobre o papel da <strong>fantasia</strong> e dos desejos diante da dinâmica de um casal. E é este o ponto que eu quero trazer para reflexão neste artigo. <strong>Qual é o lugar da fantasia e dos desejos mais íntimos diante dos papéis e convenções que o casamento pode aflorar?</strong></p>



<p>Segundo <strong>Jung</strong>, em um <strong>casamento</strong> encontramos a experiência individual de duas pessoas atuando concomitantemente com a parte que cabe a cada um no próprio relacionamento. Desta forma, devemos considerar e analisar a “psicologia do relacionamento e não apenas psicologia de um indivíduo isolado. É até&nbsp;difícil separar o que são partes individuais das partes que pertencem ao relacionamento”. (JUNG, 1991, 602s) Ou seja, além de olhar para os conteúdos que cada pessoa vivencia na relação, precisamos também notar como o próprio casamento vai se desenhando, qual forma ele toma, com quais características, necessidades e sombras. Pois, tomando o lugar de um ‘terceiro elemento’ atuando, o casamento em si também precisa ser contemplado na dinâmica da intimidade.&nbsp;</p>



<p>E talvez seja este ponto que nos impacta tanto. O casamento até então como relacionamento ou união de pessoas que se amam e desejam compartilhar uma história em comum se torna uma instituição casamento, carregado de tradições, regras, exigências, carregado de conteúdos simbólicos que se sobrepõem a própria experiência compartilhada do casal. Podemos então considerar que o casamento em si vem acompanhado de um conteúdo arquetípico que acaba influenciando a psique individual. Jung cita que:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>(&#8230;) todos nós somos casados assim, de acordo com antiquíssimas regras, ideias consagradas, tabus, etc. O casamento é um sacramento com leis irrevogáveis; devemos criticar os costumes, não as pessoas individualmente. (JUNG, 1991, 91)&nbsp;&nbsp;</p></blockquote>



<p>Por mais que o casamento tenha uma influência arquetípica,&nbsp;“em períodos históricos diferentes, casamento e família também tiveram significados diferentes. Todas as instituições sociais, inclusive casamento e família, estão continuamente se modificando”. (GUGGENBUHL-CRAIG, 1980, p.21) Agora, é curioso como mesmo tendo muitas possibilidades de reescrever a história desta vivência, continuamos olhando para o casamento como um grande sacrifício que exige dos parceiros dedicação e confronto constante diante dos anseios pessoais e também coletivos do casal. E de fato, é algo inerente ao casamento a constante reavaliação, entrega e ponderação entre os parceiros que desejam usar esta experiência como uma oportunidade de autoconhecimento e ampliação da consciência. Como tudo na nossa vida, a experiência do casamento também é um grande paradoxo.&nbsp;</p>



<p>Para que se tenha uma troca saudável entre os parceiros é preciso que duas pessoas inteiras – e não perfeitas, vale lembrar – estejam disponíveis para a relação. Quando o <strong>casamento</strong> como uma instituição se torna maior ou mais importante do que a vivência em si, perdemos a qualidade do relacionamento e, consequentemente, a qualidade da sexualidade entre o casal.&nbsp;</p>



<p>Da mesma forma, quando os conteúdos individuais são deixados de lado para vivenciar apenas os protocolos da relação, o casal acaba priorizando os papéis e as funções e, como Jung explica, “(&#8230;) A vontade própria que mantém o “eu” é rompida, a mulher torna-se mãe, o homem torna-se pai e assim ambos são privados da liberdade e transformados em instrumentos da vida que continua. (JUNG, 2013, §330). Quando isto acontece, a sexualidade é fortemente prejudicada e consequentemente, a espontaneidade dos parceiros em compartilhar todos os desejos íntimos se enfraquece, isso quando não se perde totalmente no contexto das funções.&nbsp;</p>



<p>Importante também diferenciar sexualidade do sexo. Tecnicamente falando, sexualidade e genitalidade devem ser olhados como algo distinto. Nem sempre o casal que tem uma prática sexual ativa tem uma sexualidade saudável, que garante conexão, prazer, intimidade e troca entre os parceiros. Quando os papéis se tornam maiores do que as individualidades num casamento, percebemos primeiramente o enfraquecimento da sexualidade com consequente perda na qualidade e prazer no ato sexual.&nbsp;</p>



<p>Neste sentido, como podemos então entender a sexualidade? Sua atuação dentro de um relacionamento íntimo&nbsp;é muito mais ampla, “implica necessariamente o envolvimento de quatro dimensões: afetividade, emoção, comunicação e prazer” (NORONHA, LOPES e MONTGOMERY, 1993, p.48)</p>



<p>O <strong>sexo</strong> enquanto experiência natural e cultural se transformou ao longo dos anos em sexualidade, ou seja, foi capaz de assumir qualidades e significados além do ato sexual e da penetração, como também na parte <strong>emocional, afetiva, social, erótica, e se resgatou seu caráter espiritual.&nbsp;</strong></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>(&#8230;) o sexual não é redutível ao genital. Assim, sexualidade não designa apenas as atividades e o prazer que dependem do funcionamento do aparelho genital, mas envolve toda série de excitações e de atividades presentes desde a infância, que proporcionam prazer irredutível à satisfação de uma necessidade fisiológica fundamental (como respiração, fome) e que estão, a título de componentes, na chamada forma normal do amor sexual (TEDESCO e CURY, 2007, p.28)</p></blockquote>



<p>É&nbsp;no&nbsp;âmbito da sexualidade que o desejo e admiração entre o casal se tornam evidentes pois fazem parte da manutenção da libido sexual, do autoconhecimento e do jogo erótico de sedução dos parceiros. Quando o casal se perde nos papéis e convenções, as funções acabam tomando o lugar do erótico, tão vital para a exploração e cumplicidade no relacionamento. É comum vermos queixas que ao longo dos anos o casal perde o toque, o beijo, o olhar para o outro e também para si próprio. A sexualidade afetiva acaba se tornando também uma função, até mesmo no ato sexual; em muitos casos com mais obrigações do que prazer.&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>A fusão sexual expressa a ponte que une, em nós, todas as incompatibilidades e oposições predominantes. Até certo ponto, o homem e a mulher completam um ao outro, e até certo ponto não estão, de forma alguma, sincronizados um ao outro. No ato de amor, toda polaridade e fragmentação do ser é superada. Aí está seu fascínio (&#8230;) O ato de amor é, acima de tudo, muito mais que uma expressão de relacionamento pessoal entre um certo homem e uma certa mulher. É um símbolo que vai além do relacionamento pessoal. (GUGGENBUHL-CRAIG, 1980, p.103)</p></blockquote>



<p>Se pensarmos que o sexo é algo natural e ligado aos nossos instintos, o que nos desperta prazer e desejo é&nbsp;também algo ligado a individualidade de cada um. A variedade das fantasias e vivências sexuais são tão múltiplas quanto a variedade psíquica. No universo das <strong>fantasias</strong> podemos olhar para nós como um outro, podemos nos experimentar em diferentes peles e situações, podemos, inclusive, nos aproximar de possibilidades que não necessariamente bancaríamos (ou precisaríamos) viver no mundo concreto.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>A sexualidade entendida como uma forma de relacionamento interpessoal entre um homem e uma mulher também não abrange a totalidade do fenômeno. A maioria das fantasias sexuais são vividas independentemente do relacionamento humano; estão ligadas às pessoas com as quais dificilmente se pode ter qualquer relacionamento ou com quem um relacionamento seria impossível (GUGGENBUHL-CRAIG, 1980, p.91)</p></blockquote>



<p>Se olharmos para as fantasias como algo vivo e dinâmico da nossa intimidade, conseguimos compreender tantos outros elementos simbólicos que nos afetam e também influenciam nossas relações. Ao invés de vivenciarmos esses desejos como algo sombrio, poderíamos viver ou ao menos olhar para esses aspectos como parte da nossa totalidade psíquica. No livro “O casamento está morto. Viva o casamento!”&nbsp;Guggenbuhl-Craig propõe o exercício de olharmos para a sexualidade e fantasias como parte do processo de individuação, pois, sendo também essencial para o relacionamento íntimo, ajudaria os próprios parceiros a lidar com as questões não olhadas na psique. Se uma das tarefas do processo de individuação&nbsp;é trazer para a consciência parte dos conteúdos da sombra &#8211; tanto pessoal quanto coletiva e também arquetípica -, as fantasias seriam também porta de acesso a esses conteúdos, e talvez por isto, as pessoas tenham tanto temor em entrar em contato com seus desejos íntimos.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>A individuação necessita de símbolos vivos. Mas onde, hoje em dia, encontramos símbolos vivos atuantes? Símbolos que sejam tão vivos e efetivos como os Deuses da antiga Grécia ou do processo alquímico? Exatamente neste ponto um novo entendimento da sexualidade se nos revela. Ela não é idêntica à reprodução e seu significado não é exaurido nas relações humanas ou na experiência do prazer. A sexualidade, com todas as suas variações, pode ser entendida como uma fantasia de individuação, uma fantasia cujos símbolos são tão vivos e tão efetivos que podem até mesmo influenciar nossa psicologia. E, desta forma, os símbolos não são propriedade exclusiva de uma elite acadêmica, mas de todas as pessoas. (GUGGENBUHL-CRAIG, 1980, p.94)&nbsp;</p></blockquote>



<p>Ainda explorando esta ideia, o autor destaca sobre a sexualidade dentro de um relacionamento íntimo&nbsp;“(&#8230;) este poderoso acontecimento no qual o homem e a mulher se tornam um, física e psicologicamente, deve ser entendido como um símbolo vivo do&nbsp;<em>mysterium coniunctionis</em>, a meta do caminho da individuação”. (p. 103) E, sendo um símbolo vivo, nos convida periodicamente a confrontar com nossos conteúdos inconscientes, inclusive nos dando oportunidades de entrarmos em contato com a nossa ânima/ânimus:&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>&nbsp;Quais são as possibilidades para um homem de chegar a um acordo com o feminino? Uma possibilidade pode estar no relacionamento com uma mulher, como por exemplo, num casamento; outra pode consistir em fantasias sexuais, incluindo as homossexuais, &#8211; onde o feminino pode ser experimentado com outro homem cuja meta não é reprodução, relacionamento humano ou prazer, mas a confrontação com a anima, com o feminino. Outra possibilidade existe num relacionamento para um ajustamento para a mulher. (GUGGENBUHL-CRAIG, 1980, p.94)&nbsp;</p></blockquote>



<p>Quando nos permitimos ampliar o olhar para os nossos desejos e encontrar no casamento um campo seguro, livre e protegido para compartilhar nossas conteúdos psíquicos, perdemos o receio de mostrar todas as nossas fantasias, até&nbsp;porque será um acordo entre o casal colocá-las em prática ou então apenas poder olhar e imaginá-las. Caberá ao casal delimitar a atuação desses desejos na prática sexual, reforçando a cumplicidade na exposição desses conteúdos. Quando o casal atinge este estágio de intimidade, sofre menos pressão do coletivo refletido nas condutas da sociedade e também nos questionamentos sobre a moralidade.&nbsp;&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>(&#8230;) Ainda assim, existem casais cuja sexualidade é constringida por certas pressões para a normalidade. Cada parceiro permite-se revelar ao outro apenas dentro de certos limites, e cada um se contém naquilo que acredita não ser permitido. Por conseguinte, raramente um marido e uma mulher satisfazem completamente um ao outro. Ao invés de cada um encorajar o outro a expressar e relatar suas fantasias sexuais mais secretas e peculiares, um certo medo de anormalidade domina a cena, até mesmo uma tendência à condenação moralista de qualquer coisa que não pertença, incondicionalmente, a um dos parceiros. (GUGGENBUHL-CRAIG, 1980, p.112)</p></blockquote>



<p>Evoluímos tanto como sociedade, mas ainda somos impactados por preceitos impostos ao longo das gerações. Ainda temos medo de olhar para o nosso universo interior e descobrir nossos segredos. Receamos sermos julgados pelos outros, tendo nossos valores roubados por meros preconceitos. Aceitamos os papéis, mas esquecemos de quem dá vida a esses papéis. Nos distanciamos dos nossos parceiros justamente quando eles seriam os melhores companheiros para a troca das nossas verdades. Aqui, não importa o quão conservador ou não cada pessoa é. O que importa é o quanto nos sentimos livres para nos olharmos como uma totalidade e, com isso, nos conhecermos cada vez mais dentro dos universos pessoais e coletivos. O quanto permitimos que o nosso relacionamento se aprofunde, evitando relações rasas e falsas.&nbsp;</p>



<p>Fica claro que o casamento como oportunidade de autoconhecimento não&nbsp;é fácil. A confrontação com a sombra no casamento nunca termina, é preciso encarar nossos céus e infernos juntamente com os do parceiro; tanto psicologicamente quanto no mundo das fantasias. Mas é somente cuidando da forma como esta dinâmica&nbsp;é vivenciada que se torna possível o fortalecimento dos parceiros como casal e também o amadurecimento psíquico individual.&nbsp;</p>



<p>Assim como não&nbsp;é&nbsp;possível esgotar os conteúdos inconscientes da psique, também não podemos nos enganar que todas, extremamente todas as fantasias e todos os desejos serão compartilhados com o parceiro. Por mais que a troca seja essencial para um relacionamento, é preciso também sempre cuidar para que uma parte da individualidade seja preservada. Isso é extremamente saudável, afinal, só conseguimos evoluir em uma relação se a nossa condição individual for mantida, com seus conteúdos positivos e negativos.&nbsp;</p>



<p>Quando as individualidades se abrem para o relacionamento, transformam a experiência do casamento em um agente ativo e atuante do processo de individuação, com energia suficiente para a transformação individual e do próprio relacionamento em si.&nbsp;</p>



<p>Que saibamos dar voz ao nosso inconsciente também através da <strong>vida dos desejos e fantasias</strong>, proporcionando um relacionamento maduro e uma sexualidade saudável. Que saibamos usufruir deste processo com leveza, alegria e diversão, já que o mundo dos desejos e fantasias nos permite uma boa dose de humor. Olhar para essas questões com naturalidade é extremamente sadio. Isso é respeitar nossos limites e também respeitar nosso parceiro também em sua intimidade. Isso nos liberta e nos protege. Isso nos transforma.&nbsp;</p>



<p><strong>Marcella Helena Ferreira</strong><strong></strong></p>



<p>Analista Junguiana em formação, com especialização em Psicossomática e Terapeuta Ayurveda</p>



<p>marcellahlferreira@gmail.com</p>



<p><strong>Maria Cristina Guarnieri</strong><strong></strong></p>



<p>Analista Didata&nbsp;responsável</p>



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<p><strong>Referências Bibliográficas</strong><strong></strong></p>



<p>GUGGENBUHL-CRAIG Adolf, O casamento está morto. Viva o casamento!,2d. São Paulo, SP: Símbolo, 1980.</p>



<p>JUNG Carl Gustav; O desenvolvimento da personalidade, 14 ed. Vol.17. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013a</p>



<p>____________ TRAUMANALYSE. Segundo anotações dos seminários de 1928-1930. Editado por William McGuire; traduzido do inglês por Brigitte Stein. Olten/Freiburg i. Br. 1991.</p>



<p>NORONHA, Decio Teixeira, Gerson Pereira LOPES, e Malcom MONTGOMERY. Tocoginecologia Psicossomática. São Paulo, SP: Almed, 1993</p>



<p>TEDESCO, J. Julio A., e Alexandre Faisal CURY. Ginecologia Psicossomática. São Paulo: Atheneu, 2007</p>
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		<item>
		<title>Sexo casual ou fricção genital?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sexo-casual-ou-friccao-genital/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[José Luiz Balestrini Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 19 Jun 2019 19:28:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Casamento]]></category>
		<category><![CDATA[Homem]]></category>
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		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Uma das espécies de chimpanzé, que mais se assemelha ao ser humano em termos de comportamento e fisiologia, é a dos bonobos. Além de possuir um índice de mais de 98% de igualdade com o código genético humano, uma das principais características que os aproximam de nós é a dissociação do sexo com a sua [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Uma das espécies de chimpanzé, que mais se assemelha ao ser humano em termos de comportamento e fisiologia, é a dos bonobos. Além de possuir um índice de mais de 98% de igualdade com o código genético humano, uma das principais características que os aproximam de nós é a dissociação do sexo com a sua função reprodutora. O comportamento sexual dos bonobos, além de abundante, é de extrema importância para manter sua estrutura social. Fora o sexo em si, os bonobos possuem uma grande variedade de comportamentos relacionados que não caracterizam o coito, como por exemplo a fricção genital que pode acontecer num contexto fêmea-fêmea e fêmea-macho, a fricção anal e a esgrima peniana que acontecem entre machos.</p>



<p>A observação científica do comportamento sexual dos bonobos indica que essa espécie utiliza o sexo e suas variantes, principalmente por sua função conciliadora. Em muitos contextos diferentes, o sexo, ou um dos comportamentos relacionados, surge para apaziguar humores evitando conflitos, facilitando a divisão de comida entre os membros de um mesmo grupo, e até mesmo para diminuir a ansiedade e estresse de indivíduos que estejam passando por uma situação adversa.</p>



<p>Do ponto de vista da sobrevivência da espécie, os bonobos mantém esse comportamento porque ele foi importante na sua adaptação ao mundo, garantindo a sua reprodução e perpetuação até agora &#8211; hoje eles estão ameaçados de extinção. Apesar do comportamento altamente sofisticado dessa espécie, não podemos afirmar que exista em sua vasta gama comportamental qualquer coisa que se assemelhe, em termos de refinamento cognitivo e intelectual, à reflexão e à função simbólica humana. Foi exatamente o simbolismo, a capacidade de abstração e a possibilidade da crença em ideias, que nos levaram ao que somos hoje, em termos de organização social, cultural e tecnológica. Por isso, para o ser humano, o sexo não é apenas sexo, apesar de muita gente dizer e querer que o contrário fosse verdade. A grande diferença entre as duas espécies, apesar das muitas similaridades, é que, enquanto que para os bonobos os comportamentos sexuais têm funções biológicas e sociais diferentes da reprodução, para os humanos, além de tudo isso, o sexo é simbólico.</p>



<p>Não é difícil encontrar motivos para que, no meio científico, e até mesmo entre muitos grupos que não estejam diretamente ligados à essa área, a explicação das causas dos mais variados comportamentos humanos seja reduzida à pulsões sexuais. Somadas às vontades sexuais naturais que obviamente influenciam nossas ideias, estão as teorias psicanalíticas freudianas clássicas, que tiveram, sem dúvida nenhuma, um papel de extrema importância na luta contra a repressão sexual, e que invadiram, não só o meio científico, mas também círculos não acadêmicos. O problema, muitas vezes apontado por Jung em vários momentos em sua obra, é que não é possível reduzir a expressão da alma humana, explicando-a com uma teoria da libido puramente sexual.</p>



<p>Como acontece com qualquer comportamento humano, a prática sexual que é instintiva, e, por enquanto, ainda fundamental para a reprodução da nossa espécie, se torna símbolo. Com isso, comportamentos conectados à prática sexual também se tornam simbólicos e sempre dizem mais do que aparentam na superficialidade. O ser humano pratica sexo por prazer, e apesar dessas sensações de prazer estarem diretamente conectadas com a função reprodutiva do ato, isso obviamente não é suficiente para explicar os desvios comportamentais ligados à prática sexual: sadismo, masoquismo, pedofilia, fetichismos diversos, onanismo exagerado, disfunções eréteis, frigidez, vaginismo, e etc. Poderia citar um número muito grande de disfunções sexuais, porém, o mais importante aqui é entender que, individualmente ou socialmente, estamos falando de sintomas psicossomáticos. Jung diz sobre a sexualidade:</p>



<p>&#8220;A sexualidade não é apenas um instinto, mas ela é também, sem dúvida alguma, uma força criativa, que não é só a causa fundamental da nossa vida individual, mas também um fator a ser levado a sério em nossa vida psíquica. Hoje conhecemos sobejamente as consequências preocupantes acarretadas pelas perturbações da sexualidade. Poderíamos chamar a sexualidade de porta voz dos instintos, e é por isso que o ponto de vista espiritual nela vê seu principal adversário; não porque o desregramento sexual seja mais imoral do que a voracidade, a bebedeira, a cobiça, a tirania e o vício do esbanjamento, mas porque o espírito antevê na sexualidade uma contraparte de natureza igual e até análoga a ele.&#8221; (Jung, 2013, p. 107)</p>



<p>Nos livramos, principalmente com o advento da psicanálise, de amarras da repressão da sexualidade, da falsa moralidade, dos sentimentos falsos e exagerados, dos valores hipócritas da família tradicional e da religiosidade superficial e institucional. Mas, passamos por isso para nos tornar seres de uma cultura literal, induzindo-nos para a completa desconexão com a vida simbólica? Ao invés de aproveitarmos essa chance para encontrar o equilíbrio, simplesmente corremos para o outro extremo: o hedonismo. Vivemos uma busca desenfreada pelo prazer a qualquer custo, refletida no uso indiscriminado de drogas (lícitas ou não) com o consequente anestesiamento do ser, com a prática sexual completamente desconectada de sentimentos, parceria e companheirismo.</p>



<p>Podemos fazer um paralelo entre o comportamento relacional afetivo da pessoa humana contemporânea com outras esferas do viver. Tudo é rápido demais nos dias de hoje, não existe tempo para a reflexão. Na lenta conversa com si mesmo perguntas são feitas, dúvidas aparecem, e, de acordo com a sociedade e a cultura do consumo, do trabalho semiescravo e da vida digital e da informação superficial, o indivíduo nunca pode ter dúvidas. Elas ameaçam o controle, a ordem e a segurança &#8211; meras fantasias na verdade que só servem para manter as pessoas longes de si mesmas e de relações verdadeiras.</p>



<p>Essa tendência à inércia e à falta de reflexão e aprofundamento está em nossas relações sociais, familiares, laborais, e mostra também, claramente, seus sintomas na vida amorosa e sexual dos indivíduos. Como bonobos, &#8220;transamos&#8221; casualmente sem real conexão com o outro para nos esconder das relações verdadeiras e trabalhosas que exigem dedicação e compreensão e reconhecimento de si e do outro. Nos escondemos atrás do sexo casual para tentar diminuir nossa ansiedade, evitar a violência, e nos afastar da nossa sombra não integrada. É claro que, na falta de uma real integração dos nossos aspectos sombrios, talvez o sexo casual seja uma saída razoável para que não nos matemos uns aos outros por qualquer motivo pífio, brigas de trânsito ou por acreditar em deuses diferentes. Porém, a satisfação somente dessa nossa parte reptiliana não completa a falta de uma relação verdadeira e de vínculos, e nem a angústia humana de ser diverso, ambíguo e simbólico. Estamos agindo como bonobos, mas não somos chimpanzés. Para a pessoa humana, a falta da vida simbólica acarretará, inevitavelmente, em sintomas.</p>



<p>Até alguns anos atrás eram somente os homens que somavam números de &#8220;transas&#8221; para se gabar aos amigos. Muitas mulheres agora assumem esse comportamento machista com o discurso de que os direitos devem ser iguais. Frases como: &#8220;porque só homem pode trair?&#8221;; &#8220;quero sexo casual também&#8221;, &#8220;transo com um diferente por noite&#8221; são muito comuns para quem defende esse tipo de comportamento para as mulheres. E parece que fica cada vez mais difícil perceber que o comportamento errático masculino não deveria ser objetivo da mulher. O homem é que deveria olhar com mais carinho e seriedade para as suas relações, e não o contrário, com a mulher buscando se comportar cada vez mais daquela maneira.</p>



<p>A expressão sexual criativa e livre só pode acontecer se estivermos conectados com o outro e conosco. Do contrário, na minha opinião, só estaremos praticando fricção genital, o que pode ser prazeroso, mas não nos leva de maneira alguma à resolução da nossa busca teleológica pela&nbsp;coniunctio oppositorum.</p>



<p>&#8220;Pois tal como o espírito quer subordinar a sexualidade assim como todos os demais instintos à sua forma, a sexualidade também reivindica um direito antigo sobre o espírito, que no passado estava nela contido &#8211; no ato da concepção, da gravidez, nascimento e infância -, e de cuja paixão, o espírito não pode prescindir em suas criações.&#8221; (Jung, 2013, p. 107)</p>



<p>Como diz claramente Jung, o espírito não pode prescindir da sexualidade em suas criações. Portanto, desconectá-la da nossa vida amorosa e criativa cria um vazio na alma que nunca será preenchido com o simples anestesiamento hedonista da vida humana. Será essa a tão discutida diferença entre amor e sexo?</p>



<p>Jose Luiz Balestrini Junior, ser humano, psicólogo, especialista em psicologia junguiana pelo IJEP, analista junguiano em formação pelo IJEP e Sifu (mestre) de Kung Fu, e-mail:&nbsp;balestrini@lungfu.com.br.&nbsp;Atende e dá aulas na Zona Sul de São Paulo. Av. Ibijau, 236 &#8211; Moema &#8211; Fone: (11) 98207-7766</p>



<p>Referências</p>



<p>Jung, C.G. A energia psíquica. Vol. 8/1. Petrópolis, Vozes. (2013)</p>



<p>Harari, Y. N. Sapiens, uma breve história da humanidade. Porto Alegre, L&amp;PM. (2017)</p>



<p>De Waal, F. B. M., Bonobo sex and society. Scientific American Special Editions 16, 3s, 14-21 (June 2006)</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Jose Luiz Balestrini Junior</em></strong></h4>
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		<item>
		<title>Amor e sexo no japão: uma sombra que paira sobre o país do sol nascente?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/amor-e-sexo-no-japao-uma-sombra-que-paira-sobre-o-pais-do-sol-nascente/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Dulce Kurauti]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 16 Jun 2019 12:17:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
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<p>A queda da taxa de natalidade no Japão, levando a inversão da pirâmide demográfica e a índices negativos de crescimento da população, tem sido motivo de preocupação para o governo japonês há algum tempo. Dada a longevidade do seu povo, o topo da pirâmide tem se alargado enquanto sua base tem se estreitado, o que implica em ter menos pessoas em idade produtiva gerando um déficit que ameaça a sustentabilidade da previdência do país. Outro efeito, mais direto, é o saldo negativo entre o número de mortes e nascimentos, atualmente o país decresce 200 mil habitantes por ano e segundo projeções de especialistas até 2060 essa perda chegará a 30% do tamanho atual, levando o total de 127 milhões a cair para 87 milhões de habitantes.</p>



<p>Essa situação pode ser explicada em parte porque os homens japoneses se sentem inseguros e desencorajados para casar e constituir família, pois perderam a certeza de estabilidade no emprego após uma crise financeira nos anos noventa e também porque as mulheres japonesas estão cada vez menos dispostas a trocar suas carreiras pela maternidade, pois é costume no país que elas deixem de trabalhar ao se tornarem mães, 70% das mulheres deixam de trabalhar após a primeira gravidez.</p>



<p>Outras estatísticas também indicam motivos que contribuem significativamente para o número baixo de nascimentos no país: a queda de 30% no número de casamentos nos últimos 30 anos e o baixo índice de filhos fora do casamento, apenas 2% comparado aos 58% da França, por exemplo. Apesar de não ser um fator diretamente ligado à taxa de natalidade, como o casamento é uma condição praticamente necessária para os japoneses se tornarem pais, entender porque eles têm se casado cada vez menos passa a ser essencial para reverter o encolhimento populacional do Japão.</p>



<p>Antigamente os casamentos eram arranjados, ou seja, os casais eram formados independentemente dos sentimentos dos envolvidos, levando-se em consideração principalmente a opinião e a conveniência das famílias, dificilmente os diretamente envolvidos podiam opinar. Esse costume se tornou antiquado e agora as pessoas têm que encontrar sua cara metade por conta própria, porém apenas abandonar um velho costume não foi suficiente para que eles conseguissem exercer a arte natural, instintiva, da conquista, eles têm dificuldade e se sentem muito inseguros em deixar de ser meros expectadores e passar para o papel de protagonistas dessa busca.</p>



<p>Para os japoneses demonstrar carinho ou interesse por alguém é considerado um comportamento bastante inapropriado, ou seja, eles se sentem muito envergonhados com situações banais aos nossos olhos como cumprimentar alguém trocando beijos, andar d e mãos dadas com o namorado ou a namorada, dirigir a palavra ou trocar telefones com uma pessoa desconhecida do sexo oposto.</p>



<p>As carências decorrentes dessas inibições se tornaram uma boa oportunidade para criação de negócios que chamam a atenção pela forma impessoal com que tratam de questões tão pessoais. No &#8220;Café do abraço&#8221;, onde um rapaz paga por alguns momentos de aconchego, como ser abraçado por uma moça vestida com uniforme de empregada, deitar a cabeça em seu colo ou receber massagem nos ombros por cima da roupa, sendo que nenhum contato mais íntimo é permitido. Moças que nunca dirigiram a palavra a um rapaz desconhecido e que querem ter aulas de sedução recorrem ao &#8220;Namorado de aluguel&#8221; para contratar um rapaz que faz as vezes de um namorado, levando-a para passear de mãos dadas, ato quase que ousado para ela, dividindo um sorvete no parque e outras situações de casal para que ela se sinta a vontade na presença de um homem e que também dá dicas de como agir quando quiser se aproximar de alguém por quem esteja interessada. Mulheres estressadas pela pressão do trabalho podem contratar um &#8220;Ikemeso danshii&#8221;, serviço que consiste em enviar homens considerados atraentes para o escritório das clientes, assistirem juntos vídeos tristes para que elas possam chorar e descarregar suas tensões através do choro com um ombro amigo e ter suas lágrimas enxugadas por esses rapazes, ponto alto do serviço.</p>



<p>A fantasia também é uma forma que os japoneses encontraram de lidar com sua inabilidade em se relacionar. Mulheres que querem viver o sonho de uma cerimônia de casamento, mas que ainda não tem um noivo, contratam os serviços de uma realizadora de eventos para que elas possam ter a experiência com tudo a que têm direito, um lindo vestido, maquiagem, buquê, limusine e um álbum de fotos torne eterno esse momento, apesar de se oferecer um ator para posar como noivo, essa opção não é bem aceita entre as noivas solitárias. As heroínas dos videogames e mangás são as mulheres dos sonhos.</p>



<p>&nbsp;&#8220;A projeção é um mecanismo inconsciente que usamos sempre que é ativado um traço ou característica da nossa personalidade que não está relacionado com a consciência. Como resultado da projeção inconsciente, observamos esse traço pessoal nas outras pessoas e reagimos a ele. Vemos nos outros algo que é parte de nós, mas que deixamos de ver em nós.&#8221;</p>



<p>Dulce Ayako kurauti, Membro Analista do IJEP,</p>



<p><a href="mailto:dulce_kurauti@hotmail.com">dulce_kurauti@hotmail.com</a></p>



<h1 class="wp-block-heading">Bibliografia</h1>



<p>ZWEIG, C.; ABRAMS, J.&nbsp;Ao encontro da sombra. São Paulo: Cultrix, 2006.</p>



<p><a href="http://epocanegocios.globo.com/Inspiracao/Empresa/noticia/2015/09/servico-oferece-homens-atraentes-para-secar-lagrimas-de-clientes.html">http://epocanegocios.globo.com/Inspiracao/Empresa/noticia/2015/09/servico-oferece-homens-atraentes-para-secar-lagrimas-de-clientes.html</a></p>



<p><a href="https://www.dailymotion.com/video/x5p0s2f">http://www.dailymotion.com/video/x5p0s2f</a></p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Dulce Ayako kurauti&nbsp;</em></strong></h4>
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