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	<title>Arquivos sindrome do impostor - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Wed, 13 Dec 2023 18:03:28 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos sindrome do impostor - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>A síndrome do impostor e a sombra do sucesso</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-sindrome-do-impostor-e-a-sombra-do-sucesso/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gilmara Alves]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 15 Jun 2023 21:17:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[complexo]]></category>
		<category><![CDATA[sindrome do impostor]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=7756</guid>

					<description><![CDATA[<p>O propósito deste artigo é provocar uma reflexão sobre um termo já estudado há algum tempo, mas que vem tomando mais espaço principalmente no mundo trabalho: A Síndrome do Impostor. Este fenômeno fala sobre as pessoas que apesar de atingirem reconhecimento, prestígio e sucesso se veem como impostoras, como uma fraude, não sentindo-se merecedoras de tamanho reconhecimento. Como a psicologia analítica pode contribuir para o entendimento deste sentimento? O quanto esta sensação de ser uma fraude, está relacionado com aspectos negados e, portanto, sombrios da personalidade destas pessoas? O quanto o nosso modelo atual de trabalho contribuiu para isto? Estas são provocações para ampliarmos a visão deste fenômeno sobre a ótica da psicologia de Carl Gustav Jung. </p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-sindrome-do-impostor-e-a-sombra-do-sucesso/">A síndrome do impostor e a sombra do sucesso</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">O presente artigo propõe uma reflexão, à luz da psicologia analítica, acerca da Síndrome do Impostor e a sombra do sucesso.</p>



<p class="has-text-align-center wp-block-paragraph" style="font-size:14px"><strong><em>POEMA</em></strong></p>



<p class="has-text-align-center wp-block-paragraph" style="font-size:14px"><em>A poesia está guardada nas palavras – é tudo que</em><em></em></p>



<p class="has-text-align-center wp-block-paragraph" style="font-size:14px"><em>eu sei.</em><em></em></p>



<p class="has-text-align-center wp-block-paragraph" style="font-size:14px"><em>Meu fado é </em><em>o de n</em><em>ão saber quase tudo.</em><em></em></p>



<p class="has-text-align-center wp-block-paragraph" style="font-size:14px"><em>Sobre o nada eu tenho profundidades.</em><em></em></p>



<p class="has-text-align-center wp-block-paragraph" style="font-size:14px"><em>Não tenho conexão com a realidade.</em><em></em></p>



<p class="has-text-align-center wp-block-paragraph" style="font-size:14px"><em>Poderoso para mim nã</em><em>o </em><em>é aquele que descobre ouro.</em><em></em></p>



<p class="has-text-align-center wp-block-paragraph" style="font-size:14px"><em>Para mim poderoso é aquele que descobre as</em><em></em></p>



<p class="has-text-align-center wp-block-paragraph" style="font-size:14px"><em>insignific</em><em>âncias (do mundo e as nossas).</em><em></em></p>



<p class="has-text-align-center wp-block-paragraph" style="font-size:14px"><em>Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.</em><em></em></p>



<p class="has-text-align-center wp-block-paragraph" style="font-size:14px"><em>Fiquei emocionado e chorei.</em><em></em></p>



<p class="has-text-align-center wp-block-paragraph" style="font-size:14px"><em>Sou fraco para elogios.</em><em></em></p>



<p class="has-text-align-center wp-block-paragraph" style="font-size:14px"><em>Manuel de Barros</em><em></em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quem-nunca-se-sentiu-incompetente-incapaz-ou-nao-merecedor-de-um-reconhecimento-recebido">Quem nunca se sentiu incompetente, incapaz ou não merecedor de um reconhecimento recebido? </h2>



<p class="wp-block-paragraph">Este tipo de sentimento tem se tornado bastante comum nos últimos tempos. O perceber-se como uma <strong>fraude</strong> é sentido em diversas fases e aspectos da vida: mulheres que trabalham fora e fazem a chamada jornada dupla, jovens estudantes, artistas, cientistas e pessoas reconhecidamente capazes por feitos grandiosos em suas áreas de atuação. Há um vasto campo de percepção deste <strong>fenômeno,</strong> e o intuito deste artigo é focar nos aspectos ligados ao mercado de <strong>trabalho</strong> e à <strong>carreira</strong> das pessoas que passam por esta situação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O repórter Bruno Vaiano da revista Você S/A, na edição de maio/23, escreveu uma matéria sobre a <strong>Síndrome de Impostor</strong>, onde comenta que “o <strong>fenômeno</strong> consiste na sensação crônica, recorrente, de que você não fez por merecer o cargo que ocupa, o salário que ganha o diploma que tem ou outras conquistas.” (VAIANO, 2023, p. 38).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A chamada <strong>Síndrome de Impostor</strong> foi um termo criado em 1978 pelas psicólogas Pauline R. Clance e Suzane A. Imes, em uma pesquisa com 150 mulheres, intitulada “O <strong>fenômeno</strong> da <strong>impostura</strong> em mulheres de grande <strong>sucesso</strong>: dinâmica e intervenção terapêutica”. Elas descrevem o quadro como “uma experiência interna de <strong>fraude</strong> intelectual, apesar das qualificações alcançadas, das honras acadêmicas e dos altos resultados em testes padronizados, do reconhecimento de elogios profissionais por parte de colegas e respeitadas autoridades&#8230; Elas não têm a sensação íntima do <strong>sucesso</strong> considerando-se impostoras” (MANN, 2021, p. 13). As autoras comentam que o <strong>sucesso</strong> alcançado, é atribuído há erros nos processos seletivos e por terem suas capacidades superestimadas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-a-sindrome-do-i-mpostor"><strong>Sobre a Síndrome do </strong>I<strong>mpostor</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O que se sabe sobre o tema? Apesar da pesquisa inicial datar de 1978, este tema vem se popularizando desde 2010, por meio das redes sociais, onde pessoas famosas, consideradas ícones em suas áreas,  passaram a compartilhar mais as suas vidas e rotinas e a relatar que sofrem desta percepção de que são uma <strong>fraude</strong>. Houve, a partir de 2013, uma crescente de publicações e estudos acadêmicos sobre o tema, mas nada ainda muito profundo e esclarecedor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que temos até o momento são associações com as gerações &#8211; pessoas nascidas entre 1980 e 1999, os <em>millenials. </em>Há também uma associação deste <strong>fenômeno</strong> com o crescente número de aumento de casos de depressão, stress e ansiedade gerados pelas cobranças do mundo do <strong>trabalho</strong> e pelo modelo atual de vida em nossa sociedade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo Clance e Imes, há uma incidência equivalente entre homens e mulheres. Contudo, na matéria publicada por Bruno Vaiano, ele comenta que estudos mais recentes apontando para uma prevalência maior entre mulheres do que homens, “e outros grupos que sofrem discriminação no mercado de <strong>trabalho</strong> e no mundo acadêmico, como minorias étnico-raciais.” (VAIANO, 2023, p. 33)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sindrome-ou-fenomeno">Síndrome ou Fenômeno?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Há uma questão sobre o tema que é relevante ressaltar: Apesar de ter sido inicialmente denominado como “<strong>síndrome</strong>” este não se classifica como doença ou distúrbio mental. Por isso, as autoras do estudo preferiram chamá-lo de “<strong>fenômeno</strong>”, uma vez que &#8216;condição’ e ‘<strong>síndrome</strong>’ sugerem doença mental, ao passo que a experiência da <strong>impostura</strong> é na verdade muito mais pedestre do que isso, muito mais comum. Algo que, segundo Clance, ‘quase todo mundo enfrenta’ (MANN, 2021, p. 13).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Vaiano</strong> concorda com esta posição e acrescenta que se você é de fato tratado como <strong>impostor</strong>, uma vez que condições sociais e econômicas favorecem este processo, isto não pode ser visto como uma doença individual, mas sim como um <strong>sintoma</strong> gerado por posição e valores sociais doentios.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O autor da matéria aponta ainda para o risco de distorções sobre o tema devido ao uso do termo de forma vulgar e fora do contexto, ocasionando a banalização do conceito e o distanciando do momento socioeconômico que estamos vivendo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Mann</strong> (2021) nos remete para fatores relacionados ao <strong>fenômeno</strong> da <strong>impostura</strong>, tendo o núcleo familiar um destaque central neste processo, sendo este o lugar  onde a criança tem suas primeiras experiências de compensação e reconhecimento. Dentre as dinâmicas familiares citadas pela autora, temos a condição da criança prodígio – aquela que gera uma alta expectativa sobre seus pais e educadores, não podendo falhar nunca, de modo que em seus primeiros <strong>fracassos</strong> ou erros aparecem os sentimentos de <strong>impostura</strong>: ela não é tão boa assim.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-uma-outra-dinamica-possivel-trata-de-um-contexto-em-que-ha-um-filho-que-se-destaca-mais-tornando-o-sucesso-inalcancavel-para-os-outros" style="font-size:20px">Uma outra dinâmica possível, trata de um contexto em que há um filho que se destaca mais, tornando o <strong>sucesso</strong> inalcançável para os outros.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Neste caso, quando o filho menos prodigioso tem <strong>sucesso</strong>, ele acredita ser por algum infortúnio e não por mérito. Estes sentimentos vão se consolidando ao longo do crescimento, na escola, nos esportes, nos grupos de convívio e reproduzidos depois no mundo adulto, em seus futuros <strong>trabalhos</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim também se dá com as minorias, que por preconceito e discriminações das mais diversas, são menos favorecidas e não reconhecidas socialmente por razões como: deficiências, classe social, etnia, gênero. Em todos os casos, o <strong>sucesso</strong> não é compreendido como resultado de um talento e há um sentimento recorrente de ser uma <strong>farsa</strong>. Um comportamento comum presente nestas pessoas é a sabotagem: costumam diminuir o valor de seu alcance, ou diminuem a complexidade daquilo que fizeram. Desenvolvem atitudes como: medo de errar, não aceitam não saber tudo, não podem aceitar ajuda. Tudo isso de alguma forma pode fazer com que seu <strong>sucesso</strong> seja desmerecido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os meios sociais são fonte de grande sofrimento para estas pessoas. Pois trazem modelos e influências de pessoas de grande <strong>sucesso</strong>, que pela manobra das mídias não demonstram o quanto tiveram de dificuldades para chegar a determinadas posições. Como o <strong>impostor</strong> busca referências externas para justificar e sabotar seu <strong>sucesso</strong>, as comparações são inevitáveis. O resultado deste processo são pessoas sofrendo de medos difusos, ansiedade, stress e até mesmo depressão.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-compreendendo-o-fenomeno-do-i-mpostor-a-luz-da-psicologia-analitica" style="font-size:22px"><strong>Compreendendo o Fenômeno do </strong>I<strong>mpostor à </strong>luz<strong> da psicologia analítica </strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nos relatos sobre o <strong>fenômeno</strong> da <strong>impostura</strong>, é comum que a pessoa se refira ao alcance daquele resultado, como se fosse um feito de “um outro nele”, &#8211; ou seja, alguém que ele não reconhece sendo ele próprio; ou mesmo um outro externo – a pessoa atribui o resultado a um mentor, ou um possível herói nas suas histórias – ‘o mérito desta conquista é de fulano’. Analisando estas questões sob a ótica da <strong>psicologia analítica</strong>, temos aqui a manifestação psíquica de componentes bastante estudados neste campo: a <strong>sombra</strong> e o mecanismo de <strong>projeção</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A sombra aparece aqui como um contraponto da persona</strong>. Esta atua junto à consciência individual para que o indivíduo possa se adaptar, da maneira mais adequada que conseguir, ao seu meio social. No <strong>trabalho</strong>, os papéis a que somos chamados a realizar dá à nossa persona o tom necessário para que esta adaptação ocorra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O ponto é que para que não haja uma rejeição, o ego quando usa de muita racionalidade e é capturado pelos apelos do mundo externo, adota uma postura rígida e afasta da consciência possíveis interferências à pseudo estabilidade que atingiu respondendo de maneira literal e racional às demandas do ambiente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-projecao-da-sombra">Projeção da sombra</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A <strong>sombra</strong> toma uma proporção equivalente à atitude egóica e se afasta da função consciente, podendo dominar o complexo do ego, e deixar o indivíduo em uma situação de grande fragilidade (apesar da aparente superioridade provocada pela atuação da persona e a inflação do ego) e estará formado um canal propicio para o surgimento dos sentimentos de <strong>impostura</strong>, como também para demais sintomas e doenças das mais variadas espécies.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O fato é que a <strong>sombra</strong> precisa se manifestar e, neste caso, a <strong>projeção</strong> é um recurso para que esta manifestação aconteça. A <strong>projeção</strong> é um mecanismo natural do nosso psiquismo, até que não tenhamos consciência dos nossos conteúdos inconscientes. A questão é quando este processo projetivo nos tira a oportunidade de ampliarmos nosso autoconhecimento, para reconhecer e integrar aspectos sombrios.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-dai-ele-se-transforma-em-um-mecanismo-neurotico-whitmont-1999-nos-diz" style="font-size:18px">Daí, ele se transforma em um mecanismo neurótico, <strong>Whitmont</strong> (1999) nos diz:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>Quando ocorre uma projeção de sombra, não somos capazes de diferenciar entre a realidade da outra pessoa e nossos próprios complexos. Não conseguimos distinguir entre fato e fantasia. Não conseguimos ver onde começamos e onde o outro termina. Não conseguimos ver o outro; nem a nós mesmos. </em></p>
<cite>(WHITMONT, 1999, p. 37)</cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">É sabido que vivemos em uma sociedade onde o <strong>trabalho</strong> cobra cada vez mais resultados de alta performance e lidar com <strong>fracassos</strong> e frustrações torna-se bastante complicado. Questões como: realização pessoal, felicidade, pensamento positivo, são mandatórios e qualquer circunstância que retire a pessoa deste lugar idealizado, deve ser veementemente refutada. Ou seja, vivemos uma polarização, com um racionalismo contundente sobre como devemos viver a vida. Neste contexto, o homem então se distancia da sua natureza dual e, consequentemente, da possibilidade de viver uma relação sadia com suas manifestações inconscientes.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-a-natureza-da-psique-jung-traz-a-seguinte-fala" style="font-size:19px">Em A natureza da psique, <strong>Jung </strong>traz a seguinte fala:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>[&#8230;] Se o indivíduo estiver suficientemente preparado, a passagem para uma atividade profissional pode efetuar-se de maneira suave. Mas se ele se agarra a ilusões que colidem com a realidade, certamente surgirão problemas. Ninguém pode avançar na vida sem apoiar-se em determinados pressupostos.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Às vezes estes pressupostos são falsos, isto é, não se coadunam com as condições externas com as quais o indivíduo se depara. Muitas vezes, são expectativas exageradas, subestima das dificuldades externas, injustificado otimismo ou uma atitude negativista. Poderíamos mesmo organizar toda uma lista de falsos pressupostos que provocam os primeiros problemas conscientes.</em></p>
<cite>(JUNG, 2000, § 761)</cite></blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-dito-por-jung-nossos-pressupostos-sao-falsos" style="font-size:18px">Como dito por <strong>Jung</strong>, nossos pressupostos são falsos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">São guiados hoje por um materialismo que nos afasta do nosso sentido de vida e do que James <strong>Hillman</strong> denominou de <em>daimon</em>, ou fruto do carvalho – que é o nosso vir a ser. Vivemos mecanicamente buscando respostas em um contexto externo confuso, raso, inconstante, incessantemente cansativo e sem sentido. Na fala de <strong>Hillman</strong>:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>Vivemos em meio a uma multidão de invisíveis que nos governam: Valores Familiares, Autodesenvolvimento, Relações Humanas, Felicidade Pessoal, e ainda um conjunto de figuras míticas mais impiedosas chamadas Controle, Sucesso, Custo-benefício e (o invisível maior e mais presente) a Economia.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Estivéssemos nós na Florença do Renascimento, na Roma ou na Atenas da Antiguidade, nossos invisíveis dominantes seriam estátuas e altares, ou pelo menos pinturas, como os invisíveis florentinos, romanos e atenienses chamados Fortuna, Esperança, Amizade, Graça, Modéstia, Persuasão, Fama, Feiura, Esquecimento&#8230; Mas nossa tarefa aqui não é reconstituir todos os invisíveis, mas sim distingui-los, prestando atenção àquele que já foi chamado de seu daimon ou gênio, às vezes de sua alma ou sorte, e agora de seu fruto do carvalho. </em></p>
<cite>(HILLMAN, 1997, p. 107)</cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">O citado autor complementa esta visão com a provocação de que a realidade psíquica faz parte deste universo invisível, mas que é ignorada. “<strong>Está em tudo, embora continuemos insistindo em dizer que é invisível</strong>” (HILLMAN, 1997, p. 109).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nestas circunstâncias, seguimos criando e alimentando na <strong>sombra</strong> um monstro, pronto para apertar o botão vermelho a qualquer momento, o que na realidade psíquica poderá sim, nos destruir. Esta <strong>farsa</strong> sentida pelo <strong>impostor</strong> pode ser compreendida, portanto, como a falta de espaço e de legitimidade que a <strong>sombra</strong> possui de se integrar à função consciente como parte do processo de realização e também dos resultados e conquistas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-dinamica-unilateral-esquecemos-que-a-dualidade-faz-parte-da-natureza-humana-e-por-isso-a-tememos" style="font-size:20px">Na dinâmica unilateral esquecemos que a dualidade faz parte da natureza humana e, por isso, a tememos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Todo <strong>sucesso</strong> contém o <strong>fracasso</strong>. A aniquilação do <strong>fracasso</strong> como uma possibilidade, faz com que o ego se defenda, desenvolvendo uma série de sintomatologias e de comportamentos que já foram acima citados. Cada vez mais o processo de inflação egóica se estabelece e faz com que os nossos próprios processos inconscientes sejam estranhos a nós mesmos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Daí a <strong>farsa,</strong> a sabotagem, a falta de segurança e de conhecimento de nossos próprios talentos, bem como a <strong>projeção</strong> de nossas capacidades em heróis externos para “culpar” por nossos resultados e realizações. Neste contexto, pode se estabelecer um paradoxo, onde <strong>trabalho</strong> e <strong>carreira</strong> correm o risco de torna-se polaridades, a <strong>sombra</strong> um do outro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-que-fazer-com-tudo-isso"><strong>O que fazer com tudo isso?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Pelo que vimos até aqui, um resultado individual, comprovado por feitos significativos e validado por profissionais de referência, são percebidos por seu idealizador como <strong>fraude</strong>, sorte, ou interferência externa. Algo que tem tudo para ser bom é visto e sentido com angustiante e negativo. Falando até certo ponto de modo simplista &#8211; pelo entendimento da <strong>psicologia anal</strong><strong>í</strong><strong>tica</strong> – é o resultado de uma <strong>projeção</strong> de <strong>sombra</strong>, por uma visão turva de si mesmo, que não considera erros, <strong>fracassos</strong> e frustrações como parte do processo de alcance de <strong>sucesso</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No caso, certamente há caminhos possíveis para que o indivíduo possa lidar com estes sentimentos de forma mais propositiva. Um dos passos importantes é reconhecer que persona, com sua função social não sintetiza quem somos. A identificação com a persona, assumindo-a como a própria individualidade, faz com que o ego deixe de lado outros aspectos importantes da personalidade total ocasionando assim, uma inflação do ego, sendo dado a este um valor superdimensionado. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-aponta-para-o-risco-desta-identificacao"><strong>Jung</strong> aponta para o risco desta identificação:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>O cargo que ocupo representa certamente minha atividade particular; mas é também um fator coletivo, historicamente condicionado pela cooperação de muitos e cuja dignidade depende da aprovação coletiva. Portanto, se identificar-me com meu cargo ou título, comportar-me-ei como se fosse o conjunto complexo de fatores sociais que tal cargo representa, ou como se eu não fosse apenas o detentor do cargo, mas também, simultaneamente, a aprovação da sociedade. Dessa forma me expando exageradamente, usurpando qualidades que não são minhas, mas estão fora de mim. &#8220;L&#8217;état, c&#8217;est moi&#8221;, é o lema de tais pessoas. </em></p>
<cite>(JUNG, 2016, § 227)</cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Diante desta fala, entende-se que não há espaço para ser alguém falível e surge o seguinte paradoxo: por meio da inflação do ego a unilateralidade vivenciada pelo indivíduo fragiliza a possibilidade de acesso aos conteúdos sombrios, que estão no centro do complexo afetivo.  Para lidar com as manifestações dos complexos é necessário que haja uma possibilidade de simbolizar, de entender o que esta manifestação está apresentando para a consciência que o ego não permite ver. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Em resumo, o ego quando se coloca em uma condição de unidade e superioridade numa tentativa de controle e domínio da situação ele infla e se fragiliza, deixando espaço para ser “derrotado” pela <strong>sombra</strong>, que esta mesma condição de inflação formou no inconsciente. O que parecia força vira fraqueza. “<strong>Sucesso</strong>” se transforma em “<strong>fracasso</strong>” – o <strong>impostor</strong> assume o comando.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma outra forma de olhar para o <strong>fenômeno</strong> da <strong>impostura</strong> é pensar que esta figura do <strong>impostor</strong> pode estar na <strong>sombra,</strong> ocultando ou reprimindo um potencial e até mesmo o destino vocacional, que as pessoas teimam em buscar no ambiente externo, que é tão sedutor e que desequilibra a possibilidade de conversa entre as instâncias consciente e inconsciente. Desse modo, este sentimento de <strong>fraude</strong> pode estar dizendo muito mais do que sobre um simples resultado de um <strong>trabalho</strong> ou um reconhecimento que não parece legítimo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-vital-se-aproximar-desta-porcao-fraude-da-personalidade-e-entender-o-que-nao-e-genuino">É vital se aproximar desta porção <strong>fraude</strong> da personalidade e entender o que não é genuíno.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Esta reflexão poderá gerar possíveis respostas para os males e reveses impostos pela contradição criada pelas polaridades: <strong>sombra</strong> / persona; <strong>trabalho</strong> (mundo externo de realizações por meio de obrigações e sanções) / <strong>carreira</strong>, (mundo interno de realizações por meio do atendimento da alma e do chamado). O espaço que esta polaridade cria, passa a ser um desafio, um teste de resistência para o indivíduo, que quanto mais se apega à realidade para tentar compreender e escapar da angústia que esta gera, mais cresce a <strong>sombra</strong> e o embate. <s></s></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-hillman-ouvir-esta-voz-interna-e-responder-de-forma-adequada-a-ela-fala-sobre-o-carater-do-individuo-nao-que-seja-uma-missao-simples-ou-facil-mas-e-sem-duvidas-necessaria" style="font-size:19px">Para <strong>Hillman</strong>, ouvir esta voz interna e responder de forma adequada a ela fala sobre o caráter do indivíduo. Não que seja uma missão simples ou fácil, mas é, sem dúvidas, necessária. </h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>A vocação torna-se uma vocação para a vida, em vez de ser imaginada em conflito com a vida. Vocação para a honestidade em vez de para o sucesso, para o amor e o acasalamento, para servir e lutar para viver. Esta perspectiva oferece uma revisão da vocação não apenas na vida das mulheres ou no enfoque das mulheres. Oferece outra ideia de vocação, na qual a vida é o trabalho [&#8230;] enquanto considerarmos as pessoas em termos de aquisição de poder ou experiência, não vemos seu caráter. Nossa lente foi preparada de acordo com uma receita média que é ideal para localizar o que não se enquadra no padrão. </em></p>
<cite>(HILMANN, 1997, p.274)</cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Para concluir a reflexão proposta neste artigo, penso que a <strong>carreira</strong> é um dos caminhos que temos para a realização e o desenvolvimento de nossa personalidade e de nosso estar no mundo. Por meio de nossa realização profissional podemos deixar nossa marca e nossa assinatura, conhecemos e nos tornamos conhecidos. Será que quem nos vê, vê o que pensamos que somos? A <strong>fraude</strong> está na realização ou na jornada? Ao não dar a devida atenção a isto, que padrão coletivo estamos perpetuando? Quanto mais próximos de nossa “invisível” realidade psíquica estivermos, mais legitimo será este caminho. Concluo com mais algumas palavras provocativas de <strong>Hillman</strong>:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem pode determinar onde o fruto do carvalho aprende mais ou onde a alma põe você à prova? [&#8230;] Haverá o <em>daimon</em> de querer o caminho que escolhemos? [&#8230;]&nbsp; Se o sucesso no teste pode ser uma confirmação, a reprovação pode ser a maneira como o <em>daimon </em>nos mostra que estávamos no rumo errado. (HILMANN, 1997, p. 117)</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/gilmaraalves/"><strong>Analista em Formação</strong> – Gilmara Marques Fadim Alves</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/cristinaguarnieri/"><strong>Analista Didata</strong> – Maria Cristina Mariante Guarnieri</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Palavras-chave</strong>: síndrome, impostor, impostura, fraude, fracasso, farsa, fenômeno, sucesso, psicologia analítica, trabalho, carreira, Jung, Hillman.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias-bibliograficas"><strong>Referências Bibliográficas</strong>:</h2>



<ol class="wp-block-list" style="list-style-type:1">
<li>HILLMAN, J. <em>O código do ser. Uma busca do cará</em><em>ter e da voca</em><em>ção pessoal.</em> 2ª ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 1997.</li>



<li>JUNG, C. G. <em>&nbsp;O eu e o inconsciente</em>. 27ª ed. Vol. VII/2. Petrópolis: Vozes, (1934) 2016.</li>



<li>JUNG, C. G. <em>&nbsp;A natureza da Psique</em>. 5ª ed. Vol. VIII/2. Petrópolis: Vozes, (1971) 2000.</li>



<li>MANN, S. <em>A Síndrome do Impostor. Como entender e superar esta inseguranç</em><em>a.</em> 1ª ed. Petrópolis: Vozes, Nobilis. 2021</li>



<li>VAIANO, B. <em>Síndrome do impostor</em>. In: Revista Você S/A. Ed. Maio/2023. São Paulo. Editora Abril.</li>



<li>WHITMONT, E. C. <em>A evolução da sombra</em>. In: ZWEIG,C &amp; ABRAMS, J. (orgs.). <em>Ao encontro da sombra</em>. São Paulo: Cultrix, 1999</li>
</ol>



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