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	<title>Arquivos solo - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos solo - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Aspectos psicológicos da relação com a aridez em tempos de emergência climática</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Gabriela Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 10 Jun 2026 18:59:22 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p> Este artigo busca analisar os elos entre os acontecimentos ligados à crise hídrica em tempos de emergência climática e a experiência tão humana e profunda de aridez e sede, aprofundando os paradigmas do combate à seca e da convivência com o Semiárido na psique individual e coletiva, à luz das reflexões da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<h2 id="h-resumo-este-artigo-busca-analisar-os-elos-entre-os-acontecimentos-ligados-a-crise-hidrica-em-tempos-de-emergencia-climatica-e-a-experiencia-tao-humana-e-profunda-de-aridez-e-sede-aprofundando-os-paradigmas-do-combate-a-seca-e-da-convivencia-com-o-semiarido-na-psique-individual-e-coletiva-a-luz-das-reflexoes-da-psicologia-analitica-de-carl-gustav-jung" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><strong>Resumo</strong>: Este artigo busca analisar os elos entre os acontecimentos ligados à crise hídrica em tempos de emergência climática e a experiência tão humana e profunda de aridez e sede, aprofundando os paradigmas do combate à seca e da convivência com o Semiárido na psique individual e coletiva, à luz das reflexões da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-a-aridez-e-um-dos-simbolos-fortes-que-atravessam-o-humano-em-varios-contextos-e-epocas-historicas-e-retorna-vivamente-hoje-diante-da-crise-climatica-em-que-a-propria-onu-declarou-este-ano-ter-o-mundo-entrado-em-uma-falencia-global-de-agua-imagens-de-uma-terra-rachada-sem-vegetacao-da-vida-ameacada-evocam-a-experiencia-da-sede-tao-desesperadora-quanto-profunda-pois-alem-da-literal-quanta-sede-se-vive-interiormente-voce-tem-sede-de-que-canta-o-titas" style="font-size:16px">A aridez é um dos símbolos fortes que atravessam o humano em vários contextos e épocas históricas e retorna vivamente hoje diante da crise climática, em que a própria ONU declarou este ano ter o mundo entrado em uma falência global de água. Imagens de uma terra rachada, sem vegetação, da vida ameaçada evocam a experiência da sede, tão desesperadora quanto profunda, pois, além da literal, quanta sede se vive interiormente. “<strong>Você tem sede de quê</strong>?”, canta o Titãs.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E tantos outros artistas da música, cinema, poesia e vários místicos ao longo da História falaram de formas diferentes da sede e da aridez ou do deserto. “Minha alma tem sede de ti; minha carne desfalece por ti, em uma terra ressequida, esgotada, sem água”, canta o salmista (Sl 63,1).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em 2009 e 2010, vivi em Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, Semiárido mineiro, trabalhando como comunicadora popular em um projeto da Articulação no Semiárido (ASA-Brasil) de captação de água de chuva para a agricultura familiar, voltado para famílias rurais que já possuíam a primeira cisterna, de água de beber. </p>



<p class="wp-block-paragraph">É impossível resumir toda a rica experiência de viver e trabalhar com famílias de vários municípios da região e participar desta articulação da sociedade civil que fazia tantas conquistas em muitos setores ao redor da água, como agroecologia, educação no campo, questões de gênero e outras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mais importante era a mudança de paradigma, do combate à seca, que tanto enriqueceu latifundiários a partir da manutenção e espetacularização da miséria, para a convivência com o Semiárido, que mostrava a possibilidade de vida digna e abundante na especificidade daquela região.</p>



<h2 id="h-hoje-como-psicoterapeuta-vejo-no-proprio-processo-e-em-tantos-que-ja-acompanhei-a-presenca-tambem-dos-dois-paradigmas" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Hoje, como <strong>psicoterapeuta</strong>, vejo no próprio processo e em tantos que já acompanhei a presença também dos dois paradigmas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A princípio, o combate a tudo o que não corresponde ao padrão dominante na consciência. Ao longo do processo, o convite — às vezes aceito — ao aprendizado da convivência entre os vários que nos habitam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diante de tudo isso, o objetivo deste artigo é aprofundar os paradigmas do combate à seca e da convivência com o Semiárido na psique individual e coletiva, à luz das reflexões da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung. Buscar-se-á perceber os elos entre os acontecimentos ligados à crise hídrica em tempos de emergência climática e as experiências de aridez, sede, provações, também com os caminhos de combate e convivência que se apresentam diante delas.</p>



<h2 id="h-do-combate-a-seca-a-convivencia-com-o-semiarido-territorial" class="wp-block-heading" style="font-size:18px"><strong>Do combate à seca à convivência com o Semiárido territorial</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">As terras áridas e semiáridas ocupam mais de um terço (41%) da superfície do planeta, presentes em todos os continentes. Sua principal característica é a baixa precipitação — chove entre 80 e 250 mm por ano —, com a forte presença dos desertos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Semiárido brasileiro, por sua vez, é o mais chuvoso do mundo, com um volume entre 200 e 800 mm anuais. Envolve cerca de 15% do território nacional, compreendendo a maior parte dos Estados do Nordeste, o Norte de Minas Gerais e Vale do Jequitinhonha e o norte do Espírito Santo. Tem dois biomas principais, o Cerrado e a Caatinga, que recebem influência e umidade de biomas vizinhos, daí sua peculiaridade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se o processo de desertização é natural e ocorre de forma lenta e gradativa, o que se discute cada vez mais é a questão da desertificação, uma das grandes ameaças nas mudanças climáticas e fruto da ação humana desordenada. Culmina com a degradação dos solos, dos recursos hídricos, da vegetação e da biodiversidade, reduzindo a qualidade de vida das populações afetadas.</p>



<h2 id="h-o-brasil-viveu-algumas-grandes-secas-ao-longo-de-sua-historia-incrivel-pensar-que-a-mais-severa-de-todas-foi-a-de-2024-sera-que-estamos-atentos-a-isso" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">O Brasil viveu algumas grandes secas ao longo de sua história (incrível pensar que a mais severa de todas foi a de 2024! Será que estamos atentos a isso?).</h2>



<p class="wp-block-paragraph">No geral, sobretudo até o final do século XX, os governos se acostumaram a fazer grandes obras, como açudes e represas, muitas vezes superfaturadas, passando pelas terras de fazendeiros, enquanto a maioria da população dependia de caminhões-pipa e cestas básicas, mantenedores da dependência social e política e geradores de votos. Muitos migravam para as grandes cidades, gerando a ocupação desordenada que até hoje faz vítimas nos desabamentos e enchentes com as chuvas fortes e concentradas.</p>



<h2 id="h-lembro-me-de-crianca-das-imagens-no-noticiario-das-secas-no-nordeste-as-filas-para-conseguir-um-balde-de-agua-os-caminhoes-paus-de-arara-levando-as-familias-dos-migrantes" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Lembro-me de criança das imagens no noticiário das secas no Nordeste, as filas para conseguir um balde de água, os caminhões paus-de-arara levando as famílias dos migrantes&#8230;</h2>



<p class="wp-block-paragraph">E, no Ensino Fundamental, muito me impressionou um livrinho com o título <em>Indústria da seca</em>! Foi a primeira vez que tive contato com este termo cunhado na década de 1960 pelo jornalista Antônio Callado, que mostrou como a seca estava longe de ser mero fenômeno climático, mas era socialmente construída e manipulada para servir aos interesses da elite regional.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No início da década de 1990, ocorreu um processo de mobilização e fortalecimento da sociedade civil, cujo marco foi a ocupação da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). Em 1993, com o objetivo de pautar a convivência com o Semiárido em contraposição à política governamental vigente na época. Em 1999, paralelamente à 3ª Conferência das Partes da Convenção de Combate à Desertificação e à Seca (COP3) da Organização das Nações Unidas (ONU), realizada no Recife (PE), organizações da sociedade civil lançaram a Declaração do Semiárido Brasileiro, marco de fundação da Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA).</p>



<h2 id="h-a-declaracao-afirma-a-viabilidade-do-semiarido-uma-regiao-com-grande-riqueza-natural-e-cultural-e-muitas-possibilidades-com-a-qual-familias-desenvolveram-maneiras-criativas-de-conviver-e-lidar" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">A Declaração afirma a viabilidade do Semiárido, uma região com grande riqueza natural e cultural e muitas possibilidades, com a qual famílias desenvolveram maneiras criativas de conviver e lidar.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A grande diversidade desse território precisa ser levada em consideração nos projetos; grandes soluções uniformes, além de onerosas e de alto risco ambiental e social, não funcionam para a maioria dispersa ao longo desse local.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As propostas da articulação, baseadas nas premissas de conservação, uso sustentável e recomposição ambiental dos recursos naturais e da quebra do monopólio de acesso à terra, água e outros meios de produção, envolvem, entre outros pontos, o fortalecimento da agricultura familiar; o uso de tecnologias e metodologias adaptadas à região e à população; à universalização do acesso à água para beber e cozinhar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como o eixo principal do meu trabalho era a compilação em boletins e programas de rádio das experiências de famílias agricultoras na convivência com o Semiárido, pude sentir o orgulho pelos bancos de sementes crioulas (nativas), as técnicas que empregavam para o manejo da água, como os canteiros econômicos, os intercâmbios de aprendizado visitando a terra uma da outra, a mudança gradativa de olhar para questões complexas como a das mulheres. Ouvi algumas histórias inclusive de retorno ao campo após migração para os grandes centros e conheci a riqueza do trabalho com o barro das artesãs e os vários corais da região.</p>



<h2 id="h-em-suma-o-combate-a-seca-esta-ligado-ao-paradigma-moderno-mecanicista-e-economicista-em-uma-visao-individualista-de-viver-melhor-cuja-busca-e-infinita-e-passa-por-cima-de-tudo-e-de-todos-pelos-proprios-interesses-trazendo-como-consequencia-ultima-a-extincao-do-planeta" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Em suma, o combate à seca está ligado ao paradigma moderno, mecanicista e economicista, em uma visão individualista de “viver melhor”, cuja busca é infinita e passa por cima de tudo e de todos pelos próprios interesses, trazendo como consequência última a extinção do planeta.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A convivência com o Semiárido representa um paradigma emergente baseado na sustentabilidade, segundo o qual a superação da insegurança alimentar não depende apenas de obras hídricas, mas de reforma estrutural, participação social, políticas públicas permanentes e mudança cultural. Sobretudo da transformação do olhar, do “viver melhor” para o “bem viver”, uma visão holística, indígena e coletiva, que busca harmonia permanente com o meio ambiente (Pacha Mama) e o bem comum, rejeitando o consumo desenfreado e o foco no indivíduo.</p>



<h2 id="h-do-combate-a-seca-a-convivencia-com-o-semi-arido-emocional" class="wp-block-heading" style="font-size:18px"><strong>Do combate à seca à convivência com o (semi)árido emocional</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Encontrar-se sedento em terra árida é uma experiência emocional profunda pela qual toda pessoa passa em momentos da vida. Difícil é assumir essa experiência, atravessá-la e aprender com ela, processo com o qual a psicoterapia contribui. Segundo Hollis (1999, p. 12), o objetivo da terapia “não é, portanto, remover o sofrimento, e sim passar através dele em direção a uma consciência ampliada capaz de sustentar a polaridade de opostos dolorosos” (grifos do autor).</p>



<h2 id="h-um-dos-principais-pares-de-opostos-e-limitacao-e-infinitude" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Um dos principais pares de opostos é limitação e infinitude.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Faz parte da angústia característica da condição humana, da porta estreita pela qual se tem que passar no dia a dia, o ter que fazer escolhas diante da infinidade de possibilidades. O que acontece é que cada vez mais recusamos ficar com a angústia, reconhecer a sede, conviver com a insatisfação, olhar simbolicamente para o vazio e a falta permanecendo tempo suficiente no atravessamento desta dor a ponto de perceber que ela se liga exatamente à sede de infinito que carregamos, que é, para Jung, critério decisivo da vida humana.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="line-height:1.3">
<p class="wp-block-paragraph"><em>Para o homem a questão decisiva é esta: você se refere ou não ao infinito? Tal é o critério de sua vida. Se sei que o ilimitado é essencial então não me deixo prender a futilidades e a coisas que não são fundamentais. [&#8230;] Quanto mais o homem acentua uma falsa posse, menos pode sentir o essencial e tanto mais insatisfatória lhe parecerá a vida (JUNG, 2016, p. 387-388).</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-o-doloroso-mas-realizador-processo-mencionado-vai-da-consciencia-da-limitacao-para-a-abertura-ao-infinito-ao-transcendente" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">O doloroso mas realizador processo mencionado vai da consciência da limitação para a abertura ao infinito, ao transcendente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Tomando consciência do que minha combinação pessoal comporta de unicidade, isto é, em definitivo, de limitação, abre-se para mim a possibilidade de conscientizar também o infinito” (Ibid., p. 388).</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta ampliação leva ao reconhecimento do que realmente importa, com o que “os desejos e atitudes se modificam. Finalmente, só valemos pelo essencial e se não acedemos a ele a vida foi desperdiçada”. (Ibid., p. 388) Para Hollis (op. cit., p. 12), trata-se de um amadurecimento psicológico e espiritual, voltado à descoberta do sentido e significado da vida, a necessidade mais profunda do ser humano moderno.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que geralmente ocorre, no entanto, são outras duas vias interligadas, oriundas da busca de segurança do ego infantil e dependente que foge para evitar a todo o custo o sofrimento, e o custo acaba sendo um sofrimento maior pela falta de sentido, pelo dispêndio de energia no combate constante aos “estados sombrios da alma”, ao fluxo e refluxo naturais da vida, na tensão constante por “nunca podermos abandonar o frenético desejo de sermos felizes e despreocupados” (Ibid., p. 14-15). Vejam aí o combate à seca!</p>



<p class="wp-block-paragraph">A primeira via é a identificação ilusória com o ilimitado, que se manifesta na busca do ter mais e poder mais, de posses e <em>status</em>, no consumismo desenfreado e ostentação, tão atuais. É a imagem do ser humano independente, autossuficiente, autodeterminado, cujo motor é “eu quero, eu posso, eu consigo”. Na segunda via, toca-se o vazio, a sede, mas não se suporta ficar um tempo aí até descobrir formas de conviver com a aridez. Foge-se buscando encher o buraco com coisas ou o tempo com afazeres.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essas vias são típicas do espírito da nossa época. Sobre ele, disse o <strong>Papa Francisco</strong> em sua Encíclica <em>Laudato Sí</em>, na qual justamente abordou o “cuidado da casa comum”:</p>



<h2 id="h-muitas-pessoas-experimentam-um-desequilibrio-profundo-que-as-impele-a-fazer-as-coisas-a-toda-a-velocidade-para-se-sentirem-ocupadas-numa-pressa-constante-que-por-sua-vez-as-leva-a-atropelar-tudo-o-que-tem-ao-seu-redor-n-225" class="wp-block-heading" style="font-size:16px"><em>“Muitas pessoas experimentam um desequilíbrio profundo, que as impele a fazer as coisas a toda a velocidade para se sentirem ocupadas, numa pressa constante que, por sua vez, as leva a atropelar tudo o que têm ao seu redor” (n. 225).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Aprofundando as consequências para o meio ambiente e os mais pobres, citou trecho de homilia de Bento XVI que conecta interno e externo: “Os desertos exteriores multiplicam-se no mundo, porque os desertos interiores se tornaram tão amplos” (n. 217).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A desertificação, processo acelerado fruto da ação humana que visa apenas extrair a qualquer custo e de qualquer jeito, ocorre, portanto, tanto externa como internamente. Cada vez que se busca responder à própria inquietação lançando-se com a avidez gerada por ela apenas para fora, para coisas e afazeres, para o ter mais e (a)parecer mais, como se viu, aumenta-se a aridez, em uma sede infinita e destruidora. Ou, quando se foge do vazio buscando preenchê-lo, gera-se mais vazio. É um caminho de combate à seca que, do mesmo jeito que as grandes e onerosas represas, também busca o grande e custoso em apenas um lugar, nos valores dominantes da consciência, gerando ainda mais seca e vazio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na visão de Jung, além do espírito da época, porém, existe o espírito da profundeza, atemporal, que se manifesta no chamado da alma, que continua a gritar em tudo isso e apesar de tudo isso, nem que tenha que encontrar brechas apenas explodindo em sintomas nos indivíduos ou catástrofes no coletivo.</p>



<h2 id="h-jung-teve-a-coragem-de-trilhar-o-caminho-de-seguir-este-chamado-bem-elucidado-no-livro-vermelho-e-a-partir-da-propria-experiencia-gestou-a-psicologia-analitica" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Jung teve a coragem de trilhar o caminho de seguir este chamado, bem elucidado no <em>Livro Vermelho</em>, e a partir da própria experiência gestou a Psicologia Analítica.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:12px">
<p class="wp-block-paragraph"><em>Minha alma leva-me ao deserto, ao deserto de meu próprio si-mesmo. Não pensava que meu si-mesmo fosse um deserto, um deserto seco e quente, poeirento e sem bebida. [&#8230;] Isto é solidão, estar consigo mesmo? Solidão só quando o si-mesmo é um deserto. [&#8230;] Minha alma, o que devo fazer aqui? Mas a minha alma falou-me e disse: “Espera”. (JUNG, 2013, p. 128)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Neste processo dinâmico de espera ativa, “o papel adequado do ego é manter um relacionamento com o Eu e o mundo no qual existe o diálogo. O ego deve permanecer aberto, o mais consciente possível e disposto a negociar” (Hollis, <em>op. cit</em>., p. 15). Ele deve aprender a jornada da convivência com o deserto, o árido, ou com o semiárido — interno e externo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Afinal, o que chamamos de “eu” é apenas uma pequena parte de uma estrutura psíquica muito maior, formada de consciência e inconsciente, com suas várias figuras que não caberia aprofundar aqui, mas que acessamos cotidianamente em experiências das quais afirmamos: “Não parecia eu!”; “eu estava fora de mim!”; “a bruxa estava solta!” etc. A meta da vida humana para a Psicologia Analítica é o processo de individuação, que leva a se ir descobrindo e tornando-se quem se é pela integração dos opostos na multiplicidade de figuras que se manifestam na psique. Figuras com as quais, quando estamos unilateralizados, normalmente combatemos como inimigas, não aprendendo a lidar com elas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para aprender o caminho da convivência, é preciso não correr para as coisas assim que se experimentar a sede, não fugir da aridez migrando para as luzes da cidade e suas promessas; mas descobrir do que se tem sede de fato e cavar exatamente na terra seca e rachada, buscando um poço mais profundo e interior.</p>



<h2 id="h-como-fez-jung-que-ensina" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Como fez Jung, que ensina:</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Não te esqueças de esperar. Não viste como tua força criadora se voltou para o mundo [&#8230;]? Se tua força criadora se voltar agora para o lugar da alma, verás como tua alma vai reverdecer e como seu campo produzirá frutos maravilhosos. Ninguém pode furtar-se ao esperar, e a maioria não conseguirá suportar esse tormento, mas se lançarão outra vez com gula sobre as coisas, pessoas e pensamentos, cujos escravos se tornarão a partir desse momento. [&#8230;] Também aquele cuja alma é um jardim precisa das coisas, pessoas e pensamentos, mas ele é seu amigo e não seu escravo e bufão. (JUNG, 2013, p. 129)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Cavar o próprio poço até o manancial supõe abrir-se ao diálogo entre os vários que nos habitam, acolhendo as imagens do inconsciente que se manifestam em sonhos, sintomas e também nas relações, justamente naquelas situações das quais afirmamos: “Não parecia eu!” Perguntar que mensagem tudo isso traz, de onde quer me tirar, aonde me leva&#8230; É como valorizar as sementes nativas, cultivá-las, fazer canteiros econômicos, acolher um saber ancestral e descobrir formas criativas de conviver com o Semiárido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se interiormente é preciso diálogo, coletivamente parece que apenas o confronto das visões não leva a lugar algum além das polarizações da atualidade. Como é difícil sair do monoteísmo da consciência, parece utópico também pensar no diálogo entre os paradigmas, na busca de alguns consensos para a construção de caminhos possíveis.</p>



<h2 id="h-certo-e-que-a-terra-nao-aguenta-mais" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Certo é que a Terra não aguenta mais!</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Não é fácil sair dos “sambas de uma nota só”, das unilateralidades, mas o chamado do Self parece apontar nesta direção. Afinal, o Self é ao mesmo tempo centro e totalidade da vida psíquica. E o processo de individuação leva não a um fechamento em si, mas à abertura e comunhão cada vez maior com todos e com o Cosmos. E isso traz a verdadeira paz, o <em>shalom</em> hebraico, que significa harmonia das relações nas várias dimensões. Concluindo com o Papa Francisco:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:12px">
<p class="wp-block-paragraph"><em>A paz interior das pessoas tem muito a ver com o cuidado da ecologia e com o bem comum, porque, autenticamente vivida, reflete-se num equilibrado estilo de vida aliado com a capacidade de admiração que leva à profundidade da vida. (FRANCISCO, 2015, n. 225)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong>Tania Pulier — Membro Analista /IJEP</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong>Lilian Wurzba — Analista Didata/IJEP</strong></p>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A BÍBLIA. Tradução ecumênica. São Paulo: Loyola; Paulinas, 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ASA – Articulação Semiárido Brasileiro. <em>Documentário Conviver</em>. Direção de Bruno Xavier, Roger Pires e Yargo Gurjão. 19 set. 2017. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=FnrHrCh4sJI. Acesso em: 26 abr. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FRANCISCO. Carta Encíclica <em>Laudato Si</em>&#8216;: sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Paulus, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HOLLIS, James. <em>Os pantanais da alma</em>: Nova vida em lugares sombrios. São Paulo: Paulus, 1999.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>O Livro Vermelho (</em>Liber Novus<em>)</em>. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______. <em>Memórias, sonhos e reflexões</em>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MAIOR seca da história do Brasil afeta 1.400 cidades no país. <em>Fantástico</em>, G1, 8 set. 2024. Disponível em: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2024/09/08/maior-seca-da-historia-do-brasil-afeta-1400-cidades-no-pais.ghtml. Acesso em: 26 abr. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NAÇÕES UNIDAS BRASIL. As terras áridas são importantes: por quê? <em>Notícia</em>, 16 ago. 2010. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/55696-terras-%C3%A1ridas-s%C3%A3o-importantes-por-que. Acesso em: 26 abr. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">UNU-INWEH. World enters “Era of Global Water Bankruptcy”: scientists formally define new post-crisis reality for billions. <em>News</em>, 20 jan. 2026. Disponível em: https://unu.edu/inweh/news/world-enters-era-of-global-water-bankruptcy. Acesso em: 26 abr. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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