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	<title>Arquivos violência - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Mon, 11 May 2026 20:00:54 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos violência - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Sombra, Trauma e Desumanização: Uma leitura Junguiana da Guerra em Gaza a partir do caso Hind Rajab</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/uma-leitura-junguiana-da-guerra-em-gaza/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 11 May 2026 19:57:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[a voz de hind rajab]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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		<category><![CDATA[zweig]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Como somos capazes de nos acostumar com o intolerável? Neste ensaio, guiado pela psicologia de Carl Gustav Jung e pelo impacto do filme A Voz de Hind Rajab, reflito sobre as raízes psicológicas da barbárie em Gaza. O texto investiga como projetamos nossas sombras no outro e faz um chamado necessário: precisamos despertar da nossa letargia ética e resgatar a empatia antes que a perda da humanidade se torne a nossa rotina.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/uma-leitura-junguiana-da-guerra-em-gaza/">Sombra, Trauma e Desumanização: Uma leitura Junguiana da Guerra em Gaza a partir do caso Hind Rajab</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo</strong>: Como somos capazes de nos acostumar com o intolerável? Neste ensaio, guiado pela psicologia de Carl Gustav Jung e pelo impacto do filme A Voz de Hind Rajab, reflito sobre as raízes psicológicas da barbárie em Gaza. O texto investiga como projetamos nossas sombras no outro e faz um chamado necessário: precisamos despertar da nossa letargia ética e resgatar a empatia antes que a perda da humanidade se torne a nossa rotina.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Palavras-chave: Sombra, inconsciente coletivo, guerra</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Escrevo este ensaio movida por um incômodo profundo, daqueles que não nos deixam em paz. Diante do que vemos em Gaza, tentar manter um distanciamento ou pesar as palavras me parece quase uma ofensa: a devastação ordenada de civis, o sofrimento infantil, a repetição atroz de cenas em que hospitais e ambulâncias deixam de ser lugares de cuidado para integrar a paisagem dos escombros. Diante disso, eu me pergunto o que acontece com a alma de uma sociedade quando ela se acostuma ao intolerável. Não recorro a Jung para substituir a análise histórica, política ou jurídica do conflito, mas porque sinto a necessidade de um outro plano de compreensão. Penso que é necessário entender a relação entre aquilo que negamos em nós mesmos e a violência que retorna ao mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste momento penso na frase de Jung em <em>Aion</em>: <em>“quando um fato interior não se torna consciente ele acontece exteriormente, sob a forma de fatalidade”</em> (JUNG, 2013a, § 126). Ela me parece decisiva porque liga a nossa recusa de olharmos para o nosso interior ao desastre histórico. O que não é reconhecido na consciência não desaparece, mas busca uma forma de se manter presente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-guerra-isso-significa-que-medos-agressoes-e-desejos-de-aniquilamento-sao-projetados-sobre-o-outro-o-outro-deixa-de-ser-percebido-como-um-semelhante-e-passa-a-ser-visto-como-ameaca-absoluta" style="font-size:17px">Na guerra, isso significa que medos, agressões e desejos de aniquilamento são projetados sobre o outro. O outro deixa de ser percebido como um semelhante e passa a ser visto como ameaça absoluta.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">É por isso que o caso de Hind Rajab me paralisa. Não estamos falando de um número, mas de uma criança real de aproximadamente 6 anos de idade, presa num carro alvejado, com seus familiares mortos, esperando por um socorro que terminou em mais tragédia. Em 2024, especialistas da ONU alertaram que a morte de Hind, de seus familiares e de dois paramédicos poderia configurar crime de guerra. Investigações particulares da <em>Forensic Architecture</em> sustentaram que a ambulância enviada para resgatá-la foi atingida ao chegar, apontando para fogo de tanque israelense.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A partir desse episódio insuportável, pergunto-me: como conceitos como sombra, projeção e dissociação nos ajudam a compreender a desumanização sem dissolver a responsabilidade de quem aperta o gatilho? E o que essa morte revela sobre a sombra que paira sobre todos nós?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-projecao-do-mal-e-a-fabricacao-do-inimigo"><strong>A projeção do mal e a fabricação do inimigo</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda em <em>Aion</em>, Jung nos adverte contra a tendência confortável de reduzir o mal a uma simples privação do bem. Na experiência psíquica, ele surge de forma densa, como <em>“o oposto do bem”</em> (JUNG, 2013ª, § 75). Essa constatação é central para pensarmos como a desumanização opera. Sempre que uma cultura ou comunidade se imagina plenamente pura ou justa, ela obrigatoriamente precisa despejar a sua negatividade em algum lugar. O inimigo, então, deixa de ser um adversário histórico real e vira o depósito simbólico de tudo aquilo que não suportamos reconhecer em nós mesmos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-isso-nao-e-apenas-fruto-de-uma-estrategia-politica-a-imagem-do-inimigo-absoluto-mobiliza-estruturas-muito-mais-arcaicas-da-nossa-imaginacao" style="font-size:17px">Isso não é apenas fruto de uma estratégia política. A imagem do inimigo absoluto mobiliza estruturas muito mais arcaicas da nossa imaginação.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Em <em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em>, Jung lembra que há uma parte da psique que não deriva da nossa experiência pessoal, formada por conteúdos que <em>“nunca estiveram na consciência”</em> (JUNG, 2014a, § 88). Quando ativamos esses gatilhos, despertamos medos profundos e fantasias de extermínio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É por isso que a constatação de Jung, no prefácio à 1ª edição da<em> Psicologia do inconsciente</em>, soa tão atual e perturbadora: <em>“o homem civilizado ainda é um bárbaro”</em>, e <em>“a psicologia do indivíduo corresponde à psicologia das nações” </em>(JUNG, 2014b). O nosso aprimoramento tecnológico não elimina a barbárie, mas na maioria das vezes, apenas a torna mais justificado. Quando o outro passa a concentrar toda a obscuridade que negamos em nós, ele adquire um efeito <em>“mágico ou demoníaco” </em>(JUNG, 2014b, § 155) sobre nossa percepção. A desumanização nada mais é do que a face política dessa cisão psíquica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-observa-como-o-peso-das-massas-sufoca-o-individuo-e-alerta-para-o-perigo-da-cega-lei-natural-das-massas-em-movimento-jung-2013b-326" style="font-size:17px">Jung observa como o peso das massas sufoca o indivíduo e alerta para o perigo da <em>“cega lei natural das massas em movimento” </em>(JUNG, 2013b, § 326).</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Entendo tal ideia como um alerta para o nosso tempo: o turbilhão das emoções coletivas, somado ao medo e ao ressentimento, funciona como uma anestesia para a nossa consciência moral, substituindo o pensamento crítico por explicações levianas. Nos comportamos frequentemente como animais que inventam inimigos. As guerras funcionam como apavorantes <em>&#8220;dramas da sombra&#8221;</em> onde tentamos trucidar fora o que negamos dentro, amparados na perigosa ilusão dualista de que <em>&#8220;nós somos inocentes; eles são culpados&#8221;</em> (ZWEIG; ABRAMS, 2024). Antes da bala, vem a redução moral. É preciso ensinar uma sociedade a ver certas vidas como menos valiosas e dignas de luto para que se possa matar sem culpa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que mais me atormenta, porém, é que a sombra não pertence só ao outro lado. Ela paira sobre todos nós: sobre nações, religiões, projetos políticos e, também sobre as pessoas que observam distantes, que consomem a dor alheia através de imagens. Reconhecer isso não relativiza a responsabilidade, mas apenas impede a tranquilidade moral de quem acredita estar inteiramente fora do problema por fantasiosamente ser apenas uma boa pessoa.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-voz-da-pequenina-hind-rajab"><strong>A voz da pequenina Hind Rajab</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O que me assombra na morte de Hind Rajab é como ela arranca todas as máscaras da guerra. Nenhuma teoria estratégica ou desculpa de contenção de dano colateral consegue esconder a brutalidade de uma criança pequena, presa entre os cadáveres da própria família, suplicando por socorro ao telefone por horas. Segundo relatos desoladores, os corpos dela e dos paramédicos só foram localizados doze dias depois, um fato que despedaça qualquer justificativa de guerra. Diante dessa espera no escuro, termos técnicos como operação ou alvo soam falsos. O que resta é a materialidade incontornável da dor: como pode uma criança tão pequena ser deixada por tanto tempo entre mortos, implorando por uma ajuda que não chega?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-analista-junguiano-donald-kalsched-nos-oferece-uma-ideia-importante-para-pensar-esse-abismo" style="font-size:17px">O analista junguiano Donald Kalsched nos oferece uma ideia importante para pensar esse abismo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ele define o trauma como uma experiência que causa uma dor psíquica tão insuportável que ameaça quebrar o próprio &#8220;eu&#8221;, forçando a mente a se dissociar para conseguir sobreviver. Citando Jung, Kalsched lembra que o trauma se impõe à consciência <em>&#8220;como um inimigo ou animal selvagem&#8221;</em>. Mas ao trazer essa teoria para cá, me imponho um limite ético: recuso-me a banalizar o sofrimento de Hind transformando-a num mero símbolo clínico. A teoria só tem serventia se nos impedir de desviar o olhar da vítima real. A criança, aqui, não é uma metáfora, é a prova física e real de que toda a linguagem que tenta higienizar e justificar a guerra fracassou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É justamente por essa necessidade de não nos deixarmos cegar que o filme <em>A voz de Hind Rajab</em>, dirigido por Kaouther Ben Hania, ganhou uma dimensão muito maior do que a de uma simples obra cinematográfica. O longa estreou em Veneza, ganhou o Grande Prêmio do Júri e alcançou a indicação ao Oscar 2026 na categoria de Melhor Filme Internacional. O que realmente importa aqui não é o glamour do prêmio, mas a vitrine mundial que ele proporcionou.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-vivemos-um-momento-em-que-boa-parte-da-populacao-global-consome-o-massacre-em-gaza-em-um-estado-de-total-anestesia-moral-pois-as-pessoas-se-acostumaram-com-o-intoleravel" style="font-size:17px">Vivemos um momento em que boa parte da população global consome o massacre em Gaza em um estado de total anestesia moral, pois as pessoas se acostumaram com o intolerável.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse cenário, o filme chegar à maior premiação do cinema atual como um choque de realidade em nossa consciência coletiva. Ao incluir o áudio real das ligações de socorro, o filme nos tranca no carro com Hind. Ele nos obriga a ouvir a voz aguda da menina e o desespero exausto dos atendentes do Crescente Vermelho Palestino. O cinema, nesse caso, arranca o espectador da dormência e o obriga a permanecer no tempo infinito daquela espera, tentando trazer de volta a humanidade que a guerra nos roubou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E é essa mesma imersão na escuta que torna o fracasso do resgate ainda mais revoltante. As investigações sustentam que a ambulância enviada para salvar Hind foi bombardeada ao chegar, um ato que especialistas da ONU apontaram como possível crime de guerra. O que me escandaliza não é apenas a morte, mas a falência total da compaixão humana. Há o pedido de socorro, há o esforço desesperado de adultos para coordenar o resgate, há a ambulância a caminho&#8230; e tudo termina em escombros.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-consigo-olhar-para-isso-sem-ver-a-destruicao-do-proprio-conceito-de-refugio" style="font-size:17px"><strong>Não consigo olhar para isso sem ver a destruição do próprio conceito de refúgio.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">É neste ponto que a sombra deixa de ser um conceito e se revela como a fumaça que paira sobre todos nós: que escuridão tomou conta do mundo se já não somos capazes de paralisar uma guerra diante do choro de uma criança ferida? Talvez a escrita deste ensaio seja apenas a minha forma particular de ecoar o que o filme tenta fazer em grande escala: um alerta mínimo, mas necessário, contra a nossa própria anestesia. A humanidade não pode simplesmente se acostumar ao intolerável.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, para quem assistiu ao filme, permaneçamos com o silêncio ensurdecedor de seu final trágico nada fictício, e com as lágrimas desoladoras que inevitavelmente nos turvam o olhar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-humanidade-precisa-de-esperanca"><strong>A Humanidade precisa de esperança</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Chegar ao fim desta reflexão é ter a certeza de que a barbárie não se inicia no campo de batalha. O processo de desumanização começa muito antes de qualquer disparo ser feito ou de qualquer bomba atingir o chão. Ele nasce na nossa intimidade adoecida, na absoluta incapacidade de lidar com as nossas próprias fragilidades e no hábito perigoso de transferir para o outro a escuridão que negamos em nós mesmos. Quando uma criança indefesa, presa em um carro cercado por escombros, passa a ser tratada pela linguagem oficial como um simples detalhe em um cálculo militar, não estamos lidando apenas com a brutalidade esperada de uma guerra. Estamos diante da destruição completa do nosso próprio vínculo ético e civilizatório.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-duvida-que-me-persegue-incessantemente-e-se-algum-dia-teremos-a-lucidez-de-perceber-a-nossa-propria-sombra-antes-que-ela-se-materialize-em-politicas-de-exterminio" style="font-size:17px">A dúvida que me persegue incessantemente é se algum dia teremos a lucidez de perceber a nossa própria sombra antes que ela se materialize em políticas de extermínio.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A história insiste em nos mostrar que, na grande maioria das vezes, só reconhecemos o tamanho da ruína quando ela já esmagou a vida de quem não tinha como se defender. Por isso, o incômodo visceral que me levou a escrever estas páginas precisa continuar existindo e incomodando. A força destrutiva da violência não recobre apenas aqueles que dão as ordens cruéis ou que puxam os gatilhos. Ela ameaça de forma silenciosa e letal a todos nós que somos apenas observadores distantes. Ela envenena os que buscam justificativas lógicas para o absurdo, os que preferem a segurança da omissão e todos aqueles que, dia após dia, aprendem a olhar para a dor dos outros através de uma tela sem sentir absolutamente nada.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-nossa-tarefa-etica-mais-urgente-portanto-e-a-recusa-ativa-e-constante-dessa-anestesia" style="font-size:17px">A nossa tarefa ética mais urgente, portanto, é a recusa ativa e constante dessa anestesia.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Compreender que a nossa cegueira interior inevitavelmente retorna ao mundo como fatalidade nos impõe um desafio muito duro, que é a coragem de não despejar sobre o próximo os monstros que não queremos encarar no espelho. Não podemos permitir que o excesso de tragédias nos transforme em cúmplices mudos. A nossa humanidade só terá alguma chance de continuar existindo se o desespero de uma menina real, com um nome, um rosto e uma vida brutalmente interrompida, continuar nos ferindo profundamente. A tragédia de Hind Rajab exige de nós o compromisso inegociável de manter viva a indignação e de jamais aceitar o intolerável como rotina.</p>



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<iframe title="SOMBRA, TRAUMA E DESUMANIZAÇÃO: UMA LEITURA JUNGUIANA DA GUERRA EM GAZA A PARTIR DO CASO HIND RAJAB" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/4QIKay5t8Ac?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/fernanda-biscalquim-de-andrade/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/fernanda-biscalquim-de-andrade/">Fernanda Biscalquim de Andrade – Membro Analista em Formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Membro Didata pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>REFERÊNCIAS</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>A Voz de Hind Rajab (The Voice of Hind Rajab)</em>. Direção: Kaouther Ben Hania. Tunísia; França: Mime Films, 2025. 1 vídeo (89 min), son., color. Disponível em: Prime Video. Acesso em: 14 mar. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FORENSIC ARCHITECTURE. <em>The killing of Hind Rajab. 2024.</em> Disponível em: <a href="https://forensic-architecture.org/investigation/the-killing-of-hind-rajab">https://forensic-architecture.org/investigation/the-killing-of-hind-rajab</a> . Acesso em: 18 mar. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>Aion: estudo sobre o simbolismo do si-mesmo.</em> 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________________ Civilização em transição. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________________ <em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em>. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2014a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________________ <em>Psicologia do inconsciente.</em> 24. ed. Petrópolis: Vozes, 2014b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">KALSCHED, Donald. <em>O mundo interior do trauma: Defesas arquetípicas do espírito pessoal. </em>1. ed. São Paulo: Paulus Editora, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ZWEIG, Connie; ABRAMS, Jeremiah. <em>Ao encontro da sombra: um estudo sobre o potencial oculto do lado escuro da natureza humana. </em>1. ed. São Paulo: Cultrix. 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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			</item>
		<item>
		<title>“Minha filha, a cultura muda muito devagar!”</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/minha-filha-a-cultura-muda-muito-devagar/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Tania Pulier Garrido]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Mar 2026 12:40:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Enantiodromia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[avanço]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[desigualdade]]></category>
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		<category><![CDATA[fanatismo]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[preconceito]]></category>
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		<category><![CDATA[violência]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O objetivo deste artigo é apresentar algumas das categorias da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung que contribuem para o aprofundamento de questões que permeiam o par de opostos evolução-retrocesso no tocante à cultura e à sociedade.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/minha-filha-a-cultura-muda-muito-devagar/">“Minha filha, a cultura muda muito devagar!”</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<h2 class="wp-block-heading" id="h-resumo-nbsp-o-objetivo-deste-artigo-e-apresentar-algumas-das-categorias-da-psicologia-analitica-de-carl-gustav-jung-que-contribuem-para-o-aprofundamento-de-questoes-que-permeiam-o-par-de-opostos-evolucao-retrocesso-no-tocante-a-cultura-e-a-sociedade" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>:&nbsp;<strong>O objetivo deste artigo é apresentar algumas das categorias da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung que contribuem para o aprofundamento de questões que permeiam o par de opostos evolução-retrocesso no tocante à cultura e à sociedade</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Eram três da tarde, em uma caminhada com minha mãe pela Av. Afonso Pena, uma das principais do centro de Belo Horizonte, daqui para ali — dentista, mercado, papelaria&#8230; Aos 13 anos, no idealismo adolescente, eu falava sem parar que os direitos dos homens e das mulheres eram iguais, que em sua luta as mulheres já haviam conquistado a divisão das tarefas domésticas e que assim seria quando eu me casasse etc. e tal. De repente, minha mãe parou, colocou a mão sobre os meus ombros, olhos nos olhos, e falou esta frase de forma tão solene que, mesmo que eu não tenha compreendido exatamente na época, jamais esqueci: “Minha filha, a cultura muda muito devagar!”.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Hoje, 35 anos depois, recordo-me constantemente desse ensinamento. A cada notícia de feminicídio; toda vez que escuto uma mulher com estudo e carreira contar o jeito de lidar com o acúmulo de funções — distante da transformação que a Tania adolescente afirmava ter chegado (e não que só deva chegar para essas, mas que se esperaria dessas um posicionamento mais progressista); nos retrocessos nas leis ambientais; a cada invasão de território das comunidades tradicionais; nas lágrimas derramadas por racismo e injúria racial; no retorno declarado da Doutrina Monroe&#8230; Que lista interminável me remete à lentidão da mudança cultural ou às suas idas e vindas!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O objetivo deste artigo é apresentar algumas das categorias da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung que contribuem para o aprofundamento de questões que permeiam o par de opostos evolução-retrocesso no tocante à cultura e à sociedade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-pendulo-cultural-e-a-lei-da-enantiodromia" style="font-size:21px"><strong>O pêndulo cultural e a lei da enantiodromia</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A imagem do pêndulo para falar do vai-e-vem da História não é nova. Vários pensadores usaram-na para tratar dos ciclos das mudanças sociais, da alternância entre extremos, de pares de opostos como ordem e caos, conservador e progressista, entre outros.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung aprofundou a lei da enantiodromia, assim denominada por Heráclito (500 a.C.-450 a.C.), segundo o qual o que existe transforma-se em seu contrário. Segundo o pai da Psicologia Analítica, enantiodromia designa “a oposição inconsciente no decorrer do tempo” (JUNG, 2020b, §795). Para ele, quando a consciência fica unilateralizada em determinada direção, cresce, com o passar do tempo, “uma contraposição inconsciente igualmente forte e que se manifesta, em primeiro lugar, na inibição do rendimento consciente e, depois, na interrupção da direção consciente” (Ibid.).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Este movimento, que acontece na psique individual, ganha força ao se encontrar com acontecimentos exteriores que apresentam os mesmos elementos de conflito (cf. Ibid., §118). Os indivíduos formam a cultura, e a cultura influencia os indivíduos. De fato, na visão da Psicologia Analítica, não há tanta separação entre interior e exterior.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-mesmo-paragrafo-jung-afirma" style="font-size:18px">No mesmo parágrafo, Jung afirma:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se for possível encontrar e reconhecer a conexão entre o problema pessoal e os grandes acontecimentos contemporâneos, haverá uma libertação da solidão puramente pessoal, adquirindo o problema subjetivo a amplitude de uma questão geral da nossa sociedade toda.</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Desde o século XIX as mulheres vêm conquistando pouco a pouco e às custas de muita luta direitos, como de frequentar a escola e depois o acesso à faculdade, de organização política e ao voto, as leis do divórcio. No Brasil, o reconhecimento constitucional da igualdade entre homens e mulheres, a Lei Maria da Penha, a Lei do Feminicídio, a criminalização da importunação sexual, entre outros.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No entanto, se em alguns indivíduos e talvez um ou outro grupo pontual chegou-se perto de um reconhecimento real da igual dignidade — da visão do lar como compromisso compartilhado entre quem nele mora e não como dever da mulher e no máximo ajuda do homem; do cuidado (de filhos menores ou pais idosos) como dever de amor dos que por eles são responsáveis, independente do gênero —, na sociedade como um todo ainda há muito o que conquistar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O boletim do Dieese publicado em 8 de março de 2025, com dados do terceiro trimestre de 2024, mostra, entre outras estatísticas, que as mulheres ganharam em média 22% a menos que os homens; homens não negros ganharam 115% a mais que mulheres negras; as mulheres gastam por ano o equivalente a 21 dias a mais que os homens com os afazeres domésticos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-paradoxalmente-ganha-forca-o-movimento-conservador-das-tradwives-as-esposas-tradicionais-que-defende-o-retorno-aos-antigos-papeis-de-genero" style="font-size:18px">Paradoxalmente, ganha força o movimento conservador das <em>tradwives</em>, as esposas tradicionais, que defende o retorno aos antigos papéis de gênero.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nas redes sociais cresce o número de influenciadoras “belas, recatadas e do lar”, as “esposas perfeitas” que cuidam primorosamente da casa, dos filhos, cozinham belas receitas e estão lindas, arrumadas, com tudo no lugar e um sorriso no rosto na hora que seus maridos retornam do trabalho remunerado.&nbsp; Não se trata aqui de julgar opções individuais, cada uma com seu motivo, mas de lançar um olhar sobre o movimento coletivo tipicamente enantiodrômico. Às custas de tanto sangue, suor e lágrimas foram feitas pequenas conquistas para de repente vir esta força puxando na direção contrária!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Mas quem sabe bater no duro muro do patriarcado provocou esse retrocesso com igual força. Ele pode ser uma reação ao fracasso em grande escala da real transformação, pois, ao ter direito a uma carreira, o que se vê passa longe da igualdade, mas são mulheres exaustas que acumulam múltiplas jornadas de trabalho — profissão, casa, filhos, às vezes pais, planejamento financeiro da família etc. —, com a exigência extra de fazer tudo com bom humor e delicadeza. Isso sem falar das inúmeras que continuam sendo abusadas, violentadas e mortas.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A todo bem corresponde um mal, e não pode entrar no mundo absolutamente nada de bem sem produzir diretamente o mal correspondente. Essa dolorosa realidade torna ilusório o sentimento intenso que acompanha a consciência do presente, ou seja, de sermos o ápice de toda a história humana passada, a conquista e o resultado de milhares e milhares de anos. Na melhor das hipóteses, isso é uma confissão de pobreza orgulhosa, pois somos também a destruição das esperanças e ilusões de milhares de anos. (JUNG, 2018, §154)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Outros exemplos podem ser dados. Tanto questionamos a violência da colonização europeia no Brasil, o massacre dos povos originários, a tomada de suas terras, a imposição de outra religião, o não reconhecimento de sua riqueza, até de sua humanidade&#8230;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-hoje-mais-de-quinhentos-anos-depois-o-que-se-ve" style="font-size:18px">E hoje, mais de quinhentos anos depois, o que se vê?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se por um lado a presidente da Comissão de Anistia pede, de joelhos, um perdão inédito aos povos Krenak e Guarani Kaiowá por perseguições na ditadura militar, por outro os territórios deles retirados não são recuperados, e mesmo os demarcados são constantemente invadidos e saqueados.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Com uma fiscalização ínfima e que varia de governo a governo, esses e outros povos continuam sendo exterminados e tendo suas terras apropriadas por fazendeiros, mineradores e até organizações criminosas, pelos donos do capital, lícito ou ilícito. Se por um lado já há o reconhecimento do saber tradicional, da sabedoria própria, da espiritualidade dos povos originários, por outro esse saber ainda é estereotipado como extravagante e folclórico, e continuamos mais voltados para a Europa e os Estados Unidos do que para nossas próprias raízes.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-de-tantas-outras-pessoas-se-poderia-falar-do-preconceito-racismo-e-violencia-institucionalizada" style="font-size:18px">E de tantas outras pessoas se poderia falar do preconceito, racismo e violência institucionalizada. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Hoje se vê mais rostos negros ocupando cargos no Executivo, Legislativo e Judiciário, como personagens principais de telenovelas e apresentadores de telejornais. No entanto, apesar de somarem mais de 55% da população brasileira, as pessoas negras recebem uma renda equivalente a pouco mais da metade (58%) da que recebem não negros e concentram-se nas menores faixas salariais. Há desigualdades em todos os marcadores sociais. No tocante à violência, jovens negros têm quase três vezes mais chances de serem mortos do que não negros. 76% dos terreiros já sofreram ataques.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-quanta-coisa-continua-a-ser-feita-em-nome-de-deus" style="font-size:18px">E quanta coisa continua a ser feita em nome de Deus!</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Após séculos de guerras religiosas e a entronização da Deusa da Razão na Catedral de Notredame, em Paris, durante a Revolução Francesa, vários Estados garantiram a laicidade em suas constituições. No Brasil, a separação Igreja e Estado vem oficialmente desde a proclamação da República e a Constituição de 1891. No entanto, os ideais da Razão não contiveram a barbárie, e hoje se vê uma nova e terrível mistura entre religião e política. Nela, ganha força um neoconservadorismo, que espalha <em>fakenews</em> negando a Ciência, o que se reflete na queda significativa na cobertura vacinal nos últimos anos e na negação das mudanças climáticas, apesar de todas as evidências. Quantos retrocessos acontecem nessa vertente, como a apelidada “PL da devastação”, que flexibiliza normas de licenciamento ambiental, logo após a COP30, em que tampouco se avançou como deveria nas questões ambientais!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Quando a consciência humana se pretende absoluta, destrona todos os deuses e des-anima o mundo, cresce igualmente e de forma perigosa a autonomia do inconsciente, fazendo frente a esta <em>hybris</em>.</strong> Quão atual então se torna esta frase de Jung (2020a, §142): “Aquele para quem ‘Deus morre’ se torna vítima da ‘inflação’”. E outros deuses se manifestarão com “poder benéfico ou destruidor.”!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-evolucao-possivel" style="font-size:21px"><strong>A evolução possível</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Neste vaivém do pêndulo da História, só existe um círculo vicioso? Ou é possível sonhar com uma real transformação? Para Jung (2018, §177), “as grandes inovações jamais vêm de cima, sempre de baixo, como as árvores que não nascem do céu mas germinam do solo, ainda que suas sementes tenham caído do alto”. E, com a expressão “de baixo”, ele não se refere apenas aos “mais simples e silenciosos da terra”, mas sobretudo a partir da interioridade. Não há mudança no mundo que não comece da transformação de cada pessoa; afinal, “o abalo do nosso mundo e o abalo de nossa consciência são uma e a mesma coisa” (Ibid.).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Trilhar o caminho de dentro para fora, porém, requer coragem, porque passa exatamente por encontrar em si aquilo que mais se rejeita fora, por mergulhar em um mar de lama e podridão em busca dos gérmens de vida nova que estão exatamente aí. Costumamos criar uma linda imagem de nós mesmos e nela viver, chamando-a de “eu”. O que seriam apenas figuras de adaptação externa, chamadas na Psicologia Analítica de personas, tornam-se armaduras quando nos identificamos com elas a ponto de achar que somos apenas isso, tentando a todo custo conter e negar o resto de nós — bem maior, por sinal. Nestas máscaras, que lindos, éticos e bem-sucedidos somos! Aplausos para nós, críticas para todos os demais. “O homem ocidental vive numa espessa nuvem de autoincensação para dissimular seu verdadeiro rosto” (Ibid., §183).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-dissimular-e-projetar-no-outro-o-que-nao-e-tao-digno-de-incenso-e-vangloria-e-o-outro-que-tem-defeitos-vicios-e-pensa-sente-e-comete-atrocidades-o-outro-e-incoerente-e-questionavel" style="font-size:18px">Dissimular e projetar no outro o que não é tão digno de incenso e vanglória. É o outro que tem defeitos, vícios e pensa, sente e comete atrocidades. O outro é incoerente e questionável.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim vivem os indivíduos, bem como os grupos sociais e nações, projetando nas chamadas “minorias” ou nos estrangeiros todo o mal da civilização. A isso Jung denomina como “projetar despudoradamente nossa própria sombra” (Id., 2020a, §140), o que se trata de ilusão e perigo a tomar cuidado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O autoconhecimento começa exatamente pelo que não queremos ver em nós, por isso nos parece repugnante, a sombra, que contém os restos incompatíveis com a imagem que criamos de nós mesmos. Fazer alguma coisa pelo mundo, para Jung, começa por aprender a reconhecer e de alguma forma lidar com a própria sombra, a admitir que o que nos horroriza no mundo também acontece dentro. “Como poderá ver claramente quem não se vê a si mesmo, nem às obscuridades que inconscientemente impregnam todas as suas ações?” (Ibid.)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-pessoal-e-o-coletivo-acontecem-ao-mesmo-tempo" style="font-size:18px">O pessoal e o coletivo acontecem ao mesmo tempo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Tantas características que fazem parte da nossa época nos atravessam e constituem, em um movimento duplo — nós fazemos o espírito do tempo, e ele nos faz. A pressa e a aceleração, o mundo cada vez mais interligado e conectado tecnologicamente, com pessoas viciadas em telas e desconectadas do profundo, desintegradas na falta de sentido, des-animadas e desvinculadas ou com vínculos frágeis entre si&#8230; A ansiedade generalizada. Quanta ânsia nos toma de assalto neste cenário!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ansiamos-por-significado-por-alma-pelo-humano-por-novos-valores-atitudes-e-relacoes-pelo-menos-que-e-mais-o-planeta-nao-aguenta-mais-o-excesso-e-cada-um-de-nos-tambem-nao" style="font-size:18px">Ansiamos por significado, por alma, pelo humano, por novos valores, atitudes e relações, pelo menos que é mais! O planeta não aguenta mais o excesso, e cada um de nós também não!</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Reconhecer o espírito do tempo é perceber para onde a História caminha, o que precisa ser melhorado, mas também o que precisa ser reconhecido, os valores a serem exaltados, os pequenos grandes movimentos que fazem a diferença no mundo. Jung falava do espírito do tempo e do espírito das profundezas, que nos traz uma identidade enquanto humanos, que está por trás e sustenta as mudanças de gerações. “Eu aprendi que, além do espírito dessa época, ainda está em ação outro espírito, isto é, aquele que governa a profundeza de todo o presente” (Id, 2013, p. 109).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É o caminho que ele mesmo trilhou, por volta dos seus 40 anos, como mostra no <em>Livro Vermelho</em>, passando de uma vida na exterioridade, na qual acontecem as projeções, para responder ao apelo que sentia dentro, indo mais fundo, seguindo a trilha do chamado do inconsciente nos sonhos e expressões criativas.</p>



<h2 class="wp-block-heading is-style-large" id="h-estou-cansado-minha-alma-ja-dura-demais-o-meu-caminhar-minha-busca-por-mim-fora-de-mim-andei-durante-muitos-anos-tanto-que-esqueci-que-possuia-uma-alma-ibid-p-119" style="font-size:18px">“Estou cansado, minha alma, já dura demais o meu caminhar, minha busca por mim fora de mim. [&#8230;] Andei durante muitos anos, tanto que esqueci que possuía uma alma” (Ibid., p. 119).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando encontra o divino em si, o caminho de viver a própria vida, assim como Cristo o fez, aí vai acabando a separação interior-exterior; ao encontrar a alma dentro, aí poderá encontrá-la também nas coisas e nas pessoas (cf. ibid., p. 118). O fundo, como dito, é paradoxal, nele está o melhor e o pior, e exatamente no paradoxo se faz o sentido e a plenitude da vida. Aí está a vida criativa e criadora. “O espírito da profundeza possui, desde sempre e pelo futuro afora, maior poder do que o espírito dessa época que muda com as gerações” (Ibid., p. 109).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-caminho-da-vida-e-transformacao-nao-exclusao-nao-se-deve-jogar-fora-nada-mas-integrar" style="font-size:18px">O caminho da vida é transformação, não exclusão. Não se deve jogar fora nada, mas integrar. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Reconhecer tudo o que faz parte, à medida do possível, é que leva à ampliação da consciência. A alma é a porta-voz da totalidade psíquica, é através dela que consciência e inconsciente se comunicam. Por isso é a ponte entre o espírito do tempo e o espírito das profundezas. É aquilo que liga, pode trazer sentido e dar vida ao que conecta essas duas dimensões na nossa vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-existe-um-saber-do-coracao-que-nao-se-encontra-em-livro-algum" style="font-size:18px">Existe um saber do coração, que não se encontra em livro algum.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Daí vem a sabedoria, que permite compreender a alma para viver plenamente a própria vida. É quando se deixa de apenas repetir o que vem de fora, emprestado — pelos pais, avós, ancestralidade&#8230; “Sem alma não há caminho para além deste tempo” (Ibid., p. 118, n.44).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung convida a olhar para o sentido da vida humana, o seu “para quê”, que se encontra no caminho da individuação, do tornar-se si mesmo, um arranjo singular de categorias universais, o que leva a uma abertura cada vez maior aos demais e ao todo. </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Este caminho só se realiza à medida em que se vive a própria vida, desenvolvendo o saber do coração ao se dar ouvido às suas pistas, compreendendo-as não de forma literal, mas simbolicamente, e assim seguindo a sua trilha.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-so-nesta-bela-e-ardua-aventura-ha-possibilidade-de-real-transformacao-e-e-com-ela-que-a-psicoterapia-de-abordagem-junguiana-esta-comprometida" style="font-size:18px">Só nesta bela e árdua aventura há possibilidade de real transformação, e é com ela que a psicoterapia de abordagem junguiana está comprometida.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na reflexão deste artigo foi possível perceber, portanto, a atualidade dos ensinamentos de Jung e sua contribuição para o aprofundamento das questões sociais e culturais que circundam o par de opostos evolução-retrocesso. Não se trata de um olhar apenas teórico, mas de um desejo profundo de mudança, na convicção de que o seu dinamismo é de dentro para fora e começa com cada pessoa.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;Minha filha, a cultura muda muito devagar&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/IazkY3Lvd3g?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/tania-pulier/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/tania-pulier/">Tania Pulier — Membro Analista/IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/lilian/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/lilian/">Dra. Lilian Wurzba — Analista Didata/IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">DIEESE. Mulher chefia mais domicílios, mas segue com menos direitos e oportunidades sem trabalho. Boletim especial 8 mar. 2025. Disponível em: https://www.dieese.org.br/boletimespecial/2025/mulheres2025/index.html?page=1. Acesso em: 19 jan. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>O livro vermelho</em>: edição sem ilustração. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">___. <em>Civilização em transição</em>. 6.ed. Petrópolis: Vozes, 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph">___. <em>Psicologia e religião</em>. 11.ed. Petrópolis: Vozes, 2020a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">___. <em>Tipos psicológicos</em>. 7.ed. Petrópolis: Vozes, 2020b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">OBSERVATÓRIO BRASILEIRO DE DESIGUALDADES. Relatório 2025: Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades. Disponível em: https://combateasdesigualdades.org/wp-content/uploads/2025/08/RELATORIO_2025_AF.pdf. Acesso em: 19 jan. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">VIEIRA, Isabela. Racismo religioso: 76% dos terreiros no Brasil sofreram violências. <em>Agência Brasil</em>, 7 dez. 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2025-12/racismo-religioso-76-dos-terreiros-no-brasil-sofreram-violencias. Acesso em: 19 jan. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/minha-filha-a-cultura-muda-muito-devagar/">“Minha filha, a cultura muda muito devagar!”</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Epidemia psíquica e sombra coletiva: uma leitura junguiana da violência policial no RJ</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/epidemia-psiquica-e-sombra-coletiva-violencia-policial-no-rio-de-janeiro/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Paula Pessanha Lima]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Dec 2025 14:33:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[contágio psíquico]]></category>
		<category><![CDATA[epidemia psíquica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[violência]]></category>
		<category><![CDATA[violência policial]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=11544</guid>

					<description><![CDATA[<p>Por que cenas de morte e violência são recebidas com alívio e não com horror pela população? O que se mobiliza no inconsciente coletivo para que a violência pareça justiça? Neste artigo, eu analiso o recente episódio da violência policial no Rio de Janeiro, que tirou a vida de mais de 120 pessoas, pela lente da psicologia analítica. O objetivo é entender o que está por trás da naturalização da violência no Brasil — e o que podemos fazer para romper esse ciclo.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo: </strong>Por que cenas de morte e violência são recebidas com alívio e não com horror pela população? O que se mobiliza no inconsciente coletivo para que a violência pareça justiça? Neste artigo, eu analiso o recente episódio da violência policial no Rio de Janeiro, que tirou a vida de mais de 120 pessoas, pela lente da psicologia analítica. O objetivo é entender o que está por trás da naturalização da violência no Brasil — e o que podemos fazer para romper esse ciclo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-dia-25-de-outubro-de-2025-rio-de-janeiro-complexo-da-penha-e-do-alemao-duas-comunidades-altamente-populosas-na-cidade-e-dominadas-por-uma-violenta-faccao-criminosa" style="font-size:19px">Dia 25 de outubro de 2025, Rio de Janeiro, Complexo da Penha e do Alemão &#8211; duas comunidades altamente populosas na cidade e dominadas por uma violenta facção criminosa.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Neste dia, uma megaoperação policial deixou mais de uma centena de mortos. Na manhã seguinte, os moradores da comunidade, entre homens, mulheres e até mesmo crianças entraram na mata e resgataram mais de 60 pessoas mortas. A cena dos corpos enfileirados no chão, cobertos de sangue e com mães e mulheres chorando abraçadas a eles não sai da minha cabeça. Sem dúvida nenhuma, foi uma das cenas mais aterrorizantes que vi em toda minha vida.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A violenta operação policial, que resultou nessas mortes com características de execução policial, expôs novamente uma ferida simbólica da sociedade brasileira: a <strong>naturalização da violência e a aprovação popular de ações letais </strong>conduzidas pelo Estado. Segundo pesquisa AtlasIntel, divulgada pelo jornal <em>Valor Econômico</em>,<strong> 55% dos brasileiros — e 62,2% dos cariocas — afirmaram apoiar a operação</strong>.&nbsp; O dado, mais do que estatístico, é sintoma de um <strong>padrão psíquico coletivo</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Por que cenas de morte e brutalidade são recebidas com alívio</strong> <strong>e não com horror? Por que as pessoas não se sensibilizam com as imagens dos corpos resgatados por moradores e expostos em local público? O que se mobiliza no inconsciente coletivo para que a violência pareça justiça?</strong></p>



<h3 class="wp-block-heading" id="h-o-poder-do-inconsciente-coletivo"><a></a><strong>O poder do inconsciente coletivo</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Para a psicologia analítica de Carl Gustav Jung os fenômenos sociais não se explicam apenas por fatores racionais ou políticos, mas também por forças simbólicas, arquetípicas e inconscientes.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Além de todo o repertório apreendido a partir de experiências pessoais e toda a gama de conteúdos do inconsciente que nunca tiveram energia psíquica para alcançar a consciência, há uma camada do inconsciente, mais profunda, a qual Jung chamou de <strong>inconsciente coletivo</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-jung-o-inconsciente-coletivo-e-o-que-nos-faz-igual-a-toda-humanidade" style="font-size:19px">Segundo Jung, o inconsciente coletivo é o que nos faz igual a toda humanidade.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“Eu optei pelo termo ‘coletivo’ pelo fato de o inconsciente não ser de natureza individual, mas universal; isto é, contrariamente à psique pessoal ele possui conteúdos e modos de comportamento, os quais são<em>cum grano salis</em> os mesmos em toda parte e em todos os indivíduos. Em outras palavras, são idênticos em todos os seres humanos, constituindo, portanto, um substrato psíquico comum de natureza psíquica suprapessoal que existe em cada indivíduo.</p><cite>JUNG, 2012, OC 9/1, §3</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A existência do inconsciente coletivo nos mostra que a consciência individual não é totalmente livre, neutra ou autônoma. Pelo contrário: ela é fortemente influenciada por fatores herdados e também pelas condições do ambiente em que vivemos, ou seja, do inconsciente coletivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">As estruturas que compõem o inconsciente coletivo, Jung denominou-as inicialmente de “imagens primordiais” para em seguida chamá-las de arquétipos e instintos. Para a análise do fenômeno em questão, vamos nos ater aqui apenas ao conceito de arquétipo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Arquétipos</strong> são imagens universais que moldam a experiência humana. Existe um arquétipo para cada situação típica da vida. As repetições destas situações ficam gravadas no inconsciente e quando vivemos novamente essas situações, agimos de acordo com a memória que está gravada pelos arquétipos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-explica-esse-fenomeno" style="font-size:19px">Jung explica esse fenômeno:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Como fatores que influenciam o comportamento humano, os arquétipos desempenham um papel em nada desprezível. É principalmente mediante o processo de identificação que os arquétipos atuam alternadamente na personalidade total. Esta atuação se explica pelo fato de que os arquétipos provavelmente representam situações tipificadas da vida.</p><cite>JUNG, 2013,OC 8/2, §254</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Quando constelados por crises, medos ou tensões sociais, esses arquétipos assumem formas culturais específicas e podem dominar o comportamento coletivo — um processo que Jung descreveu como <strong>possessão arquetípica</strong>. Este termo é usado para descrever quando a consciência é tomada por um conteúdo inconsciente, através da sombra expressa pela voz dos complexos.</p>



<h3 class="wp-block-heading" id="h-o-complexo-cultural-da-violencia-redentora"><a></a><strong>O complexo cultural da violência redentora</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A violência policial no Rio de Janeiro, que já é considerada um dos maiores episódios de violações de direitos humanos da história do país, e a aprovação da ação do Estado pela população pode ser compreendida como a constelação de um <strong>complexo cultural da violência redentora</strong> — um padrão emocional e simbólico que associa o uso da força à eliminação do mal. Trata-se de um complexo, alimentado por séculos de desigualdade, escravidão, autoritarismo e exclusão social. Sua narrativa central é simples: “o mal precisa ser eliminado pela força”. Nesse imaginário, o Estado armado é o herói que vence o inimigo (o bandido, o favelado, o marginal). Este tipo de complexo cultural é constelado sempre que a sociedade sente medo e impotência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-o-que-o-e-um-complexo-cultural" style="font-size:19px">Mas o que o é um <strong>complexo cultural</strong>?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Os autores&nbsp; Samuel Kimbles e Thomas Singer criaram a teoria dos Complexos Culturais a partir de uma leitura contemporânea da teoria dos complexos de Jung. Segundo os autores, o complexo cultural é a forma pela qual crenças e emoções profundamente arraigadas atuam tanto na vida de um grupo quanto na psique individual, servindo como mediação entre o sujeito e sua coletividade — seja ela uma comunidade, uma nação ou uma cultura específica (apud Cambray e Carter, 2020, p. 271). Portanto, podemos dizer que os complexos culturais também atuam de forma autônoma, influenciando o inconsciente coletivo do grupo, ao mesmo tempo que é influenciado pelo indivíduo. Esses complexos são constelados pelo <strong>contágio psíquico</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Quando o afeto coletivo domina o indivíduo</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A partir deste triste e violento episódio podemos ver que foi constelado na sociedade, ou seja, emergiram do inconsciente coletivo, algumas emoções arquetípicas, tais como medo, raiva, desejo de vingança e de justiça. Estas emoções, como são coletivas, podem ser contagiosas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-explica-jung" style="font-size:19px">Como explica Jung:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Via de regra, quando o inconsciente coletivo se torna verdadeiramente constelado em grandes grupos sociais, a consequência será uma quebra pública, uma epidemia mental que pode conduzir a revoluções, guerra, ou coisa semelhante. Tais movimentos são tremendamente contagiosos, eu diria inexoravelmente contagiosos, pois, quando o inconsciente coletivo é ativado, ninguém mais é a mesma pessoa.</p><cite>JUNG, 2013, OC 18/1, §93</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O processo pelo qual emoções, ideias e impulsos inconscientes se espalham entre indivíduos, criando uma identificação coletiva inconsciente é chamado de <strong>contágio psíquico.</strong> Nas redes sociais, esse contágio se intensifica. O indivíduo, tomado por esse afeto coletivo, acredita estar pensando com a razão, quando na verdade está identificado com um conteúdo inconsciente. Ele passa de sujeito autônomo para mera massa de manobra política e social.</p>



<h3 class="wp-block-heading" id="h-do-pessoal-para-o-coletivo"><a></a><strong>Do pessoal para o coletivo</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Mas qual mecanismo psíquico que conecta as pessoas ao complexo cultural? Essa identificação pode ser explicada e entendida a partir do complexo pessoal. Cada pessoa possui seus <strong>complexos</strong>, que são conteúdos inconscientes, carregados de afetos, cujos núcleos emocionais são formados por experiências de vida. De acordo com Jung, os complexos são autônomos, podendo atuar sobre a consciência e exercer influência (inconsciente) nas decisões e comportamentos dos indivíduos.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>É a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência. Esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de autonomia, vale dizer: está sujeita ao controle das disposições da consciência até um certo limite e, por isto, comporta-se, na esfera do consciente, como um <em>corpus alienum</em> (corpo estranho), animado de vida própria.</p><cite>JUNG, 2013, OC 8/2, § 201</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-sua-obra-jung-chega-a-dizer-que-os-complexos-se-comportam-como-personalidades-secundarias-ou-parciais-dotadas-de-vida-espiritual-autonoma-oc-11-21" style="font-size:19px">Em sua obra, Jung chega a dizer que os complexos “se comportam como personalidades secundárias ou parciais, dotadas de vida espiritual autônoma&#8221; (OC/11, §21).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>O complexo não é bom, nem ruim, mas sua função é nos mostrar um incômodo inconsciente</strong>. Sendo assim, podemos dizer que os complexos pessoais dos indivíduos que não se sensibilizaram com as imagens das vítimas da megaoperação policial no Rio de Janeiro ressoam com o complexo cultural da violência redentora quando há afinidade afetiva no campo pessoal. Quem cresceu sob um pai autoritário ou ausente tende a admirar o Estado punitivo; quem sentiu impotência ou humilhação por sua condição social encontra na violência uma forma de compensação; e quem teme perder o controle da própria vida projeta o mal no outro, sentindo alívio quando esse outro é eliminado. Estes são apenas alguns exemplos de complexo pessoal, conectados ao complexo cultural constelado. Dessa maneira, o cultural e o pessoal se alimentam mutuamente: a sociedade oferece a narrativa e o indivíduo fornece a emoção reprimida.</p>



<h3 class="wp-block-heading" id="h-a-sombra-coletiva"><a></a><strong>A sombra coletiva</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Sob a luz da psicologia analítica junguiana, a violência aprovada pela maioria pode ser entendida com <strong>a projeção de uma sombra coletiva</strong>. Para Jung, a sombra é composta por partes reprimidas da nossa personalidade. Ele define como “a soma das propriedades ocultas e desfavoráveis das funções mal desenvolvidas e dos conteúdos do inconsciente pessoal” (OC 7/1, §103) e completa:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Todo indivíduo é acompanhado por uma sombra, e quanto menos ela estiver incorporada à sua vida consciente, tanto mais escura e espessa ela se tornará (&#8230;). Se as tendências reprimidas da sombra fossem totalmente más, não haveria qualquer problema. Mas, de um modo geral, a sombra é simplesmente vulgar, primitiva, inadequada e incômoda, e não de uma malignidade absoluta. Ela contém qualidades infantis e primitivas que, de algum modo, poderiam vivificar e embelezar a existência humana; mas o homem se choca contra as regras consagradas pela tradição. </p><cite>JUNG, 1978 OC 11 /1 §131 e 134</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Quando não reconhecemos esses aspectos em nós mesmos — ou seja, quando não nos tornamos conscientes de sua existência —, tendemos a negá-los. Integrar a sombra exige justamente o contrário: reconhecer e aceitar essas partes reprimidas, o que implica assumir nossas imperfeições e enfrentar nossos dilemas éticos e morais. Como esse processo é difícil e muitas vezes doloroso, preferimos projetar nos outros essas qualidades incômodas, numa tentativa inconsciente de eliminá-las de nós.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Assim, transferimos aos outros nossas falhas e responsabilidades, sempre prontos a justificar nossos erros com desculpas externas. Como, por exemplo, esse tipo de justificativa que é tão comum: “Por que você se atrasou? Porque o trânsito estava ruim.”</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tudo-aquilo-que-e-negado-com-muita-veemencia-se-manifesta-na-mesma-intensidade-e-vai-ganhando-corpo" style="font-size:19px">Tudo aquilo que é negado com muita veemência se manifesta na mesma intensidade e vai ganhando corpo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung (OC 7/1, §350) diz “que a sombra personifica o que o indivíduo recusa a reconhecer ou admitir e que, no entanto, sempre se impõe a ele direta ou indiretamente, tais como traços inferiores de caráter ou outras tendências incompatíveis”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ampliando esse conceito para o coletivo, podemos dizer que tudo aquilo que a sociedade nega em si mesma — o ódio, a revolta diante da falta de assistência digna do Estado, a submissão às regras impostas por facções criminosas e a culpa por, de algum modo, participar desse sistema injusto, seja como consumidor de drogas ou como conivente com as desigualdades sociais — é projetado sobre o outro, geralmente o mais vulnerável. O morador da favela, o jovem negro, o “bandido” passam então a encarnar o mal. O extermínio transforma-se em um ritual inconsciente de purificação simbólica — o sacrifício do bode expiatório, tema recorrente nos mitos e na história humana.<strong></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-anestesiamento-social"><strong>Anestesiamento social</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O efeito desse cruel mecanismo social é a <strong>dessensibilização</strong> — a perda da empatia. A capacidade de reconhecer e se conectar à ferida do outro é o que nos torna humanos. A exposição contínua a cenas de brutalidade cotidiana produz um anestesiamento social, um embotamento afetivo que transforma o horror em rotina e a violência em espetáculo. Jung descreve esse processo como uma <strong>regressão do ego</strong>, isto é, um retorno a formas mais primitivas de funcionamento psíquico, em que os instintos dominam a consciência. Nesse estado regressivo, o pensamento crítico e a reflexão ética cedem lugar ao desejo de punição, o prazer inconsciente na destruição do outro e a adesão emocional a narrativas violentas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung adverte que, quando a consciência perde contato com o inconsciente simbólico, com os mitos, por exemplo, “<strong>cria-se uma consciência desenraizada, que não se orienta pelo passado, uma consciência que&nbsp; sucumbe desamparada a todas as sugestões, tornando-se suscetível praticamente a toda epidemia psíquica</strong>” (OC 9/1, §267).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essa “<strong>epidemia psíquica</strong>” é o que vemos na naturalização da violência. Como já vimos anteriormente, uma espécie de contágio emocional coletivo em que o medo, a raiva e o desejo de vingança passam a dominar o campo social. Assim, a repetição das imagens de morte e de exclusão não apenas banaliza o sofrimento, mas <strong>rebaixa o nível de consciência coletiva</strong>, alimentando a sombra social. A violência que se torna hábito é, no fundo, o sinal de uma psique coletiva adoecida, incapaz de conter ou simbolizar seus impulsos destrutivos. </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung via nesses fenômenos não apenas sintomas sociais, mas <strong>avisos do inconsciente coletivo</strong>: quando o humano se desumaniza, é porque a cultura perdeu o vínculo com o eixo do Self. Também chamado de si-mesmo, não é só o centro da consciência, mas também, inclui todo o inconsciente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-jung-o-objetivo-do-nosso-desenvolvimento-psicologico-processo-de-individuacao-e-a-realizacao-do-self" style="font-size:19px">Segundo Jung, o objetivo do nosso desenvolvimento psicológico (processo de individuação) é a realização do Self.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Para Jung, à medida que nossa psique vai se desenvolvendo e o si-mesmo vai emergindo do inconsciente, o indivíduo passa a se preocupar menos com sua individualidade e mais com o coletivo.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Essa consciência ampliada não é mais aquele novelo egoísta de desejos, temores, esperanças e ambições de caráter pessoal, que sempre deve ser compensado ou corrigido por contratendências inconscientes; tornar-se-á uma função de relação com o mundo de objetos, colocando o indivíduo numa comunhão incondicional, obrigatória e indissolúvel com o mundo. As complicações que ocorrem neste estágio já não são conflitos de desejos egoístas, mas dificuldades que concernem à própria pessoa e aos outros. Neste estágio aparecem problemas gerais que ativaram o inconsciente coletivo; eles exigem uma compensação coletiva e não pessoal. É então que podemos constatar que o inconsciente produz conteúdos válidos, não só para o indivíduo, mas para outros: para muitos e talvez para todos.</p><cite>JUNG, OC 7/2, § 275</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-caminho-da-redencao"><strong>O caminho da redenção</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Enquanto continuarmos negando a sombra coletiva, o país seguirá repetindo seus rituais de extermínio — como se a destruição do outro pudesse curar nossas próprias feridas. Mas a violência não redime, apenas se renova. O desafio é imenso e se dá em dois aspectos inseparáveis: o <strong>coletivo</strong>, que exige coragem política e compromisso social, e o <strong>individual</strong>, que demanda autoconhecimento e transformação interior.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No aspecto coletivo, precisamos enfrentar o que é concreto e visível: a desigualdade que empurra vidas para a margem, o racismo cultural que naturaliza quem deve morrer, a necropolítica que discrimina e criminaliza e o medo que autoriza o Estado a matar em nosso nome. É preciso construir políticas que humanizem — que tratem segurança como direito, não como guerra; que substituam o abandono por cuidado e a vingança por justiça. Exige, acima de tudo, dar educação e oportunidades de trabalho para a população carente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No aspecto individual, o trabalho é mais silencioso e talvez mais difícil: olhar para dentro, reconhecer a própria sombra, admitir o ódio, o medo e a indiferença que habitam em nós. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-nos-lembra-que" style="font-size:19px">Jung nos lembra que:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Quanto mais conscientes nos tornamos de nós mesmos através do autoconhecimento, atuando consequentemente, tanto mais se reduzirá a camada do inconsciente pessoal que recobre o inconsciente coletivo. Desta forma, vai emergindo uma consciência livre do mundo mesquinho, suscetível e pessoal do eu, aberta para a livre participação de um mundo mais amplo de interesses objetivos.</p><cite>JUNG, OC 7/2, §275</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Só quando deixamos de projetar o mal no outro é que o ciclo da violência começa a se romper. Transformar o país começa por transformar o nosso olhar interno. A verdadeira redenção não está no extermínio, mas na <strong>consciência</strong>. Somente uma sociedade que encara a própria escuridão — e aprende a nomeá-la — pode, enfim, escolher a luz.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Epidemia psíquica e sombra coletiva uma leitura junguiana da violência policial no RJ" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/E8VFTht6aCY?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/ana-paula-pessanha-lima/">Ana Paula Pessanha Lima &#8211; Membro Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/">Ana Paula Maluf &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">AtlasIntel: 55% aprovam megaoperação que resultou em 121 mortes no Rio de Janeiro &#8211; Valor Econômico, 31 de outubro de 2025. Disponível em: <a href="https://valor.globo.com/politica/noticia/2025/10/31/atlasintel-55percent-aprovam-megaoperacao-que-resultou-em-121-mortes-no-rio-de-janeiro.ghtml">https://valor.globo.com/politica/noticia/2025/10/31/atlasintel-55percent-aprovam-megaoperacao-que-resultou-em-121-mortes-no-rio-de-janeiro.ghtml</a>. Acesso em 02 de novembro de 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CAMBRAY, Joseph, CARTER, Linda (org.) Psicologia analítica – Perspectivas contemporâneas em análise junguiana. Rio de Janeiro, Editora Vozes, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A psicologia do inconsciente. Obras Completas. v 7/1. 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. O eu e o inconsciente. Obras Completas. v 7/2. 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. Obras Completas. v 8/2. 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Obras Completas. v 9/1. 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Psicologia e religião. Obras Completas. v 11/1. 1978.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A vida Simbólica. Obras Completas. v 18/1. 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Tapa de amor dói sim!</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/tapa-de-amor-doi-sim/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Michella Paula Cechinel Reis]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 03 Dec 2025 23:21:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[2025]]></category>
		<category><![CDATA[barba azul]]></category>
		<category><![CDATA[codependência]]></category>
		<category><![CDATA[dependência emocional]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[machismo]]></category>
		<category><![CDATA[Patriarcado]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[violência]]></category>
		<category><![CDATA[violência contra a mulher]]></category>
		<category><![CDATA[violência contra as mulheres no Brasil]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O presente artigo, escrito em duas mãos, traz reflexões sobre a violência relacionada às mulheres no contexto brasileiro. O Brasil é considerado um dos países mais inseguros para as mulheres, ou seja, a violência doméstica, abusos físicos, psíquicos e sexuais, se traduz em medos, inseguranças e traumas. Normalmente, os abusadores são pessoas conhecidas e as violências ocorrem dentro de casa, no ambiente familiar. Relações disfuncionais se refletem no corpo e na alma de todas as mulheres, numa rede inconsciente coletivamente compartilhada, e os complexos e compensações nas relações abusivas impactam a todos. Mudanças legais e sociais estão em curso, com altos e baixos nos palcos sociopolíticos, portanto, o presente artigo é mais que pertinente, é necessário para ampliarmos as discussões atualmente vigentes.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: O presente artigo, escrito em duas mãos, traz reflexões sobre a violência relacionada às mulheres no contexto brasileiro. O Brasil é considerado um dos países mais inseguros para as mulheres, ou seja, a violência doméstica, abusos físicos, psíquicos e sexuais, se traduz em medos, inseguranças e traumas. Normalmente, os abusadores são pessoas conhecidas e as violências ocorrem dentro de casa, no ambiente familiar. Relações disfuncionais se refletem no corpo e na alma de todas as mulheres, numa rede inconsciente coletivamente compartilhada, e os complexos e compensações nas relações abusivas impactam a todos. Mudanças legais e sociais estão em curso, com altos e baixos nos palcos sociopolíticos, portanto, o presente artigo é mais que pertinente, é necessário para ampliarmos as discussões atualmente vigentes.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-violencia-e-noticiada-todos-os-dias-nas-midias-sociais-e-nos-canais-de-telecomunicacao" style="font-size:19px">A violência é noticiada todos os dias nas mídias sociais e nos canais de telecomunicação.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">E parte nos comove e em outra medida nos mostra nossa insensibilidade ou normalização em relação à violência. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (PNS, 2019), no Brasil, um contingente de 29,1 milhões de pessoas sofreu violência física, psicológica ou sexual em 2019; a violência atingiu 19,4% das mulheres e 17,0% dos homens. Companheiros, ex-companheiros ou parentes são os principais agressores das mulheres que sofreram violência física (52,4%), psicológica (32,0%) e violência sexual (53,3%). O domicílio é o principal local da agressão das mulheres. A violência sexual gerou consequências psicológicas (60,2%), físicas (19,4%) e sexuais (5,0%) para as vítimas. A pesquisa mostra&nbsp;que a violência atinge mais as mulheres, os jovens, as pessoas pretas ou pardas e a população de menor rendimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O espírito da época contemporânea é atravessado por recursos tecnológicos e midiáticos que evoluíram sobremaneira nos últimos 50 anos. Isso não significa que os utilizamos de maneira adequada. No Brasil (IBGE, 2021), a sensação de vitimização média a alta para situações que envolvam fotos, vídeos ou conversas divulgadas na internet contra sua vontade foi maior para o grupo etário de 25 a 39 anos. Ou seja, a violência não se restringe a presença do agressor(a) no ambiente físico, virtualmente existem riscos que precisam ser mais bem estudados para aprendermos a nos proteger, criar regulamentações e políticas públicas necessárias. Tudo é novo e ao mesmo tempo velho, pois a violência não é algo novo, mas uma construção histórica e cultural.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-historicamente-a-violencia-contra-as-mulheres-foi-respaldada-pelos-contextos-religiosos-e-patriarcais-conforme-ensina-borges-2020" style="font-size:19px">Historicamente, a violência contra as mulheres foi respaldada pelos contextos religiosos e patriarcais, conforme ensina BORGES (2020):</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>A Idade Média foi considerada por muitos historiadores como a Idade das Trevas, uma época de muita perseguição religiosa, várias doenças e ataques entre povos, porém foi nessa época que as mulheres conquistaram acesso a grande parte das profissões e também ao direito de propriedade, porém subjugadas como podemos destacar no trecho do livro MALLEUS MALEFICARUM:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>[..] convém observar que houve uma falha na formação da primeira mulher, por ter sido ela criada a partir de uma costela recurva, ou seja, uma costela do peito, cuja curvatura é, por assim dizer, contrária à retidão do homem. E como, em virtude dessa falha, a mulher é animal imperfeito, sempre decepciona e mente (KREMER, SPRENGER 1991, pag. 116).</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>As mulheres deste período eram muito desvalorizadas, pois a sociedade era toda centralizada na figura do homem, porém com as guerras, doenças e perseguições a expectativa de vida desse período tornou-se muito baixa. Decorrente desses fatos as mulheres tornavam-se viúvas de forma precoce, assim tinham que assumir como chefe de família. Entretanto, a participação das mulheres durante a Idade Média foi ainda mais concisa por meio de mulheres de destaque que estudaram em universidades e que participaram da vida política da época, exemplos como de Hilda de Whitby que fundou vários mosteiros e conventos pela Europa, da Duquesa da Aquitânia que lecionou e governou o feudo junto ao seu marido, e um dos maiores exemplos da história Joana D’arc.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Joana D’arc é uma das mais ilustres figura da história francesa, nasceu no período da Idade Média, em uma época bastante conturbada e sem muito espaço para manifestação do pensamento feminino. Essa valente figura rompeu com os paradigmas impostos pela sociedade, vestia roupas masculinas e possuía uma forte personalidade.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Diante dos dados expostos, fica evidente que a violência contra as mulheres é muito mais que apenas um problema cultural e localizado, mas uma inferência de que o corpo feminino é menos valioso que o masculino.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-patente-que-a-mulher-vem-sendo-diminuida-enquanto-ser-humano-por-ser-taxada-de-suja-fragil-emocional-esses-dados-remontam-como-visto-acima-uma-trajetoria-de-milhares-de-anos" style="font-size:19px">É patente que a mulher vem sendo diminuída enquanto ser humano, por ser taxada de “suja”, “frágil”, “emocional”. Esses dados remontam, como visto acima, uma trajetória de milhares de anos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A persistência da violência contra as mulheres no Brasil segue sendo uma das expressões mais alarmantes das desigualdades de gênero no país. Em mais um ano, os dados do sistema de saúde revelam números elevados de homicídios femininos e de agressões a mulheres, evidenciando a continuidade desse fenômeno estrutural. A despeito das políticas públicas implementadas nas últimas décadas e dos avanços normativos – como a atualização da Lei do Feminicídio (Lei nº 14.994), em 2024 –, a letalidade feminina, especialmente daquelas em situação de maior vulnerabilidade, segue como um problema público grave, e que, só em 2023, matou quase 4 mil mulheres (IPEA, 2025). Isso representa 4 mulheres mortas diariamente em consequência do feminicídio.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-historia-de-conquista-feminina-no-pais-com-as-normativas-de-lei-do-feminicidio-e-lei-maria-da-penha-sao-muito-atuais-sendo-promulgadas-em-2006-e-2015-respectivamente" style="font-size:19px">A história de conquista feminina no país com as normativas de Lei do Feminicídio e Lei Maria da Penha são muito atuais, sendo promulgadas em 2006 e 2015, respectivamente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Isso significa que, anteriormente a 2006, essas violências não eram tratadas como uma violência direcionada à mulher pelo simples fato de ser mulher. Infelizmente, o Brasil ainda é um país com muitas subnotificações, tornando os dados aproximados com relação aos abusos sofridos e às marcas deixadas ao longo dos anos. Cabe ainda, relembrar que durante o período escravista no Brasil, a Lei do Ventre Livre, que estabelecia que os filhos nascidos de mães escravas seriam livres foi promulgada em 28 de setembro de 1871, apenas 17 anos antes do fim da escravidão.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-quando-falamos-de-uma-populacao-mais-vulneravel-falamos-especialmente-de-mulheres-pretas-ou-pardas-com-baixos-salarios-poucos-direitos-trabalhistas-acesso-a-bens-e-servicos-restritos-a-sua-condicao-economica-como-mulheres-nessas-condicoes-sao-assistidas-quando-em-condicoes-de-violencia-domestica-e-abusos-spivak-celebre-autora-argumenta-se-o-subalterno-pode-falar-se-ele-a-tem-voz-para-spivak-2010-p-13-14-o-termo-subalterno-refere-se-as-camadas-mais-baixas-da-sociedade-constituidas-pelos-modos-especificos-de-exclusao-de-mercados-da-representacao-politica-e-legal-e-da-possibilidade-de-se-tornarem-membros-plenos-no-estrato-social-dominante" style="font-size:19px">Quando falamos de uma população mais vulnerável, falamos especialmente de mulheres pretas ou pardas com baixos salários, poucos direitos trabalhistas, acesso a bens e serviços restritos a sua condição econômica. Como mulheres nessas condições são assistidas quando em condições de violência doméstica e abusos? Spivak, célebre autora, argumenta se o subalterno pode falar, se ele(a) tem voz? Para Spivak (2010, p. 13-14) o termo subalterno refere-se “às camadas mais baixas da sociedade constituídas pelos modos específicos de exclusão de mercados, da representação política e legal, e da possibilidade de se tornarem membros plenos no estrato social dominante”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-atlas-da-violencia-2025-fornece-um-retrato-alarmante-e-preciso-da-violencia-de-genero-no-brasil-mulheres-continuam-sob-grave-ameaca-especialmente-dentro-de-casa-com-impacto-diferenciado-sobre-mulheres-negras-e-jovens" style="font-size:19px">O <em><strong>Atlas da Violência 2025</strong></em> fornece um retrato alarmante e preciso da violência de gênero no Brasil: mulheres continuam sob grave ameaça, especialmente dentro de casa, com impacto diferenciado sobre mulheres negras e jovens.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A combinação entre violência letal, formas não letais e subnotificação aponta para a urgência de ações políticas, legais e sociais mais eficazes, ampliando o alcance da proteção e atuando na prevenção desde o ambiente familiar até o contexto estrutural (IPEA, 2025).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Entre os mamíferos, os chimpanzés e humanos regularmente matam adultos de sua própria espécie. Também compartilham outros males, como assassinatos políticos, espancamentos e estupros. O estupro é um ato comum aos orangotangos machos e gorilas machos matam bebês com muita frequência, embora essa atitude não seja exclusiva dos primatas (Wrangham e Peterson, 1996).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-pergunta-se-se-ha-algo-com-os-primatas-que-os-predispoe-a-violencia-e-aos-seres-humanos" style="font-size:19px">Pergunta-se se há algo com os primatas que os predispõe a violência? E aos seres humanos?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-wrangham-e-peterson-1996-p-181-no-livro-o-macho-demoniaco-mostram-que-os-ataques-violentos-dos-chimpanzes-machos-contra-as-femeas-e-um-aspecto-sistematico-e-comum-os-autores-comparam-o-comportamento-dos-humanos-e-dos-chimpanzes-da-seguinte-forma-1-ambos-sao-casos-de-violencia-de-machos-contra-femeas-ou-homens-contra-mulheres-no-caso-humano-2-ambos-sao-exemplos-de-violencia-no-relacionamento-os-machos-conhecem-as-femeas-a-muito-tempo-membros-da-sua-comunidade-e-nao-havia-um-contexto-como-falta-de-comida-ou-aliancas-a-outros-grupos-para-justificar-o-comportamento-3-fatores-superficiais-desencadeiam-a-reacao-mas-a-questao-subjacente-e-o-controle-ou-a-dominacao-da-femea-pelo-macho" style="font-size:19px">Wrangham e Peterson (1996, p. 181) no livro “<strong>O macho demoníaco</strong>” mostram que os ataques violentos dos chimpanzés machos contra as fêmeas é um aspecto sistemático e comum. Os autores comparam o comportamento dos humanos e dos chimpanzés da seguinte forma: <strong>1)</strong> ambos são casos de violência de machos contra fêmeas, ou homens contra mulheres no caso humano; <strong>2)</strong> ambos são exemplos de violência no relacionamento &#8211; os machos conhecem as fêmeas a muito tempo, membros da sua comunidade e não havia um contexto como falta de comida ou alianças a outros grupos para justificar o comportamento; <strong>3)</strong> fatores superficiais desencadeiam a reação, mas a questão subjacente é o controle ou a dominação da fêmea pelo macho.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Os autores, pautados nas pesquisas com primatas, buscaram a associação entre a violência do macho/homem como fator biológico, instintivo e social. Entretanto, os próprios autores admitem que a complexidade do tema é maior que uma herança geracional, genética ou modulação de comportamentos ao longo da história. Se temos a maldição de um temperamento masculino demoníaco e uma capacidade maquiavélica para expressá-lo, somos também abençoados com uma inteligência que é capaz, através da sabedoria, afastar-nos do passado de grande primata. Se a inteligência é capaz de enxergar, a sabedoria é capaz de ouvir e ver ao longe, ou seja, a sabedoria é a perspectiva futura (WRANGHAM e PETERSON, 1996, p. 315).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-machismo-estrutural-resultado-do-patriarcado-e-a-subordinacao-da-mulher-as-necessidades-dos-homens-ao-longo-de-milenios-e-uma-base-importante-para-atitudes-violentas-e-possessivas-em-relacao-aos-corpos-femininos" style="font-size:19px">O machismo estrutural, resultado do patriarcado, e a subordinação da mulher às necessidades dos homens ao longo de milênios, é uma base importante para atitudes violentas e possessivas em relação aos corpos femininos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essa construção de força masculina está mais vinculada à força física. Através da força, homens e animais machos imprimem abusos físicos, psicológicos e sexuais ao sexo oposto. Pensando na imagem arquetípica do masculino, esse seria o lado demoníaco do arquétipo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-oc-7-2-245-254-menciona-em-sua-obra-a-persona-como-um-fragmento-da-psique-coletiva-comportamentos-ou-papeis-esperados-em-determinado-tempo-e-epoca-incluindo-os-papeis-de-homens-e-mulheres" style="font-size:19px"><strong>Jung</strong> (OC 7/2, § 245-254) menciona em sua obra a <strong>persona</strong>, como um fragmento da psique coletiva, comportamentos ou papéis esperados em determinado tempo e época, incluindo os papéis de homens e mulheres.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Esses papéis são construções sociais, influenciados pela história humana e sua evolução ao longo dos séculos. À medida que aumenta a influência do inconsciente coletivo, a consciência perde seu poder de liderança, e passa a se mover como uma peça de xadrez, à mercê do inconsciente. Esse colapso da consciência e domínio do inconsciente é desastroso ao indivíduo, ele perde o chão, desenraiza. Essa inundação pode ser refletida em paranoia e esquizofrenia, em excentricidade e atitude infantil, apartando-o da sociedade, ou entrando em um processo de restauração regressiva da persona.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung, em seu livro “<strong>Aspectos do drama contemporâneo</strong>”, descreve as guerras europeias do século XX como uma onda de primitividade e violência, que seriam a manifestação de &#8220;poderes obscuros&#8221; que se intensificaram durante a Primeira Guerra e atingiram o auge na Segunda, em movimentos como o Nazismo e o Fascismo. Ele afirma que o &#8220;caos e a desordem do mundo&#8221; se refletem de forma semelhante na mente de cada pessoa, e que essa ausência de direção é equilibrada no inconsciente pelos &#8220;arquétipos da ordem&#8221;. A integração dos conteúdos inconscientes é apresentada como uma ação individual de concretização, compreensão e julgamento ético, que exige uma grande responsabilidade moral (§ 449-451).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-diante-do-exposto-muitas-perguntas-ficam-em-suspenso" style="font-size:19px">Diante do exposto, muitas perguntas ficam em suspenso:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Quais complexos estão envolvidos nessa construção coletiva, que incide em diferentes tipos de violências? A violência e a necessidade de dominação podem ser atreladas a uma necessidade compensatória, busca-se dominar o outro na tentativa de se sentir superior? </strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ousamos dizer que um estudo sobre o assunto seria muito rico e beneficiaria sobremaneira a humanidade. Entender essa necessidade de poder, especialmente em relação às mulheres.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Uma pesquisa sobre o perfil dos agressores presos em flagrante mostra que são homens adultos jovens em maior percentual, com baixa escolaridade, possuíam uma ocupação e havia relato de passagens pela polícia anteriormente em aproximadamente 30% dos casos, incluindo a própria violência doméstica. É interessante que o tipo de violência se caracteriza de forma distinta em relação ao consumo de substâncias: os agressores que consumiram somente álcool praticam mais violência física (39,7%); os que ingeriram álcool e drogas associados perpetraram mais violência psicológica (30%); e os usuários de drogas isoladas cometeram mais a psicológica (75%) &#8211; (MADUREIRA, et. al., 2014).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Estudo feito no Maranhão observou que os atos violentos foram praticados majoritariamente por indivíduos que não têm mais relações afetivas com as vítimas e entre as motivações para a violência destacam-se o inconformismo com o fim da relação, ciúmes, dentre outros (BEZERRA e RODRIGUES, 2021). Em grande parte dos casos, as violências contra a mulher são cometidas no ambiente doméstico, na frente dos filhos, gerando impactos na saúde emocional e psíquica de toda a família (LEITE, et. al., 2015).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-existe-um-ditado-popular-que-diz-violencia-gera-mais-violencia" style="font-size:19px">Existe um ditado popular que diz “<strong>violência gera mais violência</strong>”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em ciclos repetitivos de vitimização e agressão, com trocas de papéis ao longo da vida e a reprodução de padrões de conduta, de forma sistêmica. Enquanto não ocorre uma quebra, um repensar, não há mudanças significativas. A relação entre vítima e agressores gera polaridades, e movimentos internos compensatórios se manifestam.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-um-conto-brilhante-que-trabalha-essa-questao-chama-se-barba-azul" style="font-size:19px">Um conto brilhante que trabalha essa questão chama-se Barba Azul. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O <strong>Barba Azul</strong> seduz mulheres, casa com elas e depois as mata, jogando seus restos mortais no porão.Sua tática de sedução, afinal ele não é tão atraente assim, é o poder e dinheiro. Ele conquista a moça e sua família mostrando suas propriedades, seu conforto e o padrão de vida que a moça terá sob sua tutela.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Até que um dia ele avisa que tem uma única sala que não pode ser aberta, senão a mataria. E não por acaso, ele entrega todas as chaves da casa para ela enquanto viaja (intencional? Perverso?). Quando volta e descobre que o porão foi aberto num arroubo de curiosidade da mulher, avisa que ela irá morrer. Ela, espertamente, usa de suas habilidades para enrolar o Barba Azul enquanto chama seus irmãos para ajudá-la.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No fim, Barba Azul é morto e despedaçado, e seus pedaços espalhados pelos cantos do mundo. Note que ele nunca é eliminado de vez, ele fica espalhado, com menos energia psíquica, mas está lá, em algum lugar internamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Estudos observam que o manejo do trauma ocorre de maneira mais eficiente para pessoas que usaram de suas habilidades para escapar, se salvar ou resolver a situação</strong>. Quando entram em estado mais passivo ou letárgico, o trauma se instala com uma profundidade maior (LEVINE, 2022). Essa é a ideia do conto do Barba Azul. A única esposa que sobreviveu foi a que teve uma atitude, que lutou para sobreviver com inteligência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Cabe observar ainda, que nesse conto, demonstra-se uma dinâmica psíquica de agressor-vítima, em que a vítima em determinado momento passa a se identificar com o agressor, de forma a permanecer no relacionamento ainda que seja abusivo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-esse-assunto-kast-2022" style="font-size:19px">Sobre esse assunto, Kast (2022):</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Tal &#8220;identificação com o agressor&#8221; é também um conhecido mecanismo de defesa ou de enfrentamento: quando temos medo de alguém, podemos assumir seu ponto de vista, traindo a nós mesmos no processo e assim estabilizando temporariamente nossa autoestima, pois fingimos estar de acordo com o mais forte – nós nos identificamos com o agressor.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-compele-se-dizer-que-as-razoes-que-mantem-as-vitimas-em-relacionamentos-sao-muitas-a-principal-delas-e-a-falta-de-independencia-financeira-contudo-o-agressor-se-nutre-do-medo-da-vitima-numa-tentativa-de-manter-o-controle-em-uma-relacao-desigual" style="font-size:19px">Compele-se dizer que as razões que mantém as vítimas em relacionamentos são muitas. A principal delas é a falta de independência financeira. Contudo, o agressor se nutre do medo da vítima, numa tentativa de manter o controle em uma relação desigual.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-outro-ponto-significativo-para-pensarmos-essa-questao-seria-a-relacao-de-codependencia-que-se-estabelece-entre-agressores-e-vitimas" style="font-size:19px">Outro ponto significativo para pensarmos essa questão seria a relação de codependência que se estabelece entre agressores e vítimas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Muitas pessoas incorporam uma entidade <strong>salvadora</strong>, capaz de redimir o outro(a) de seus desvios de conduta, como se o seu amor fosse suficiente para a mudança do outro(a). Na verdade, estamos em nossa jornada de autoconhecimento e precisamos nos ver com nossos aspectos sombrios, que nos atravessam para nos ensinar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-que-temos-em-jogo-sao-carencias-afetivas-e-complexos-constelados-que-nos-aprisionam-a-situacoes-que-nao-sao-saudaveis" style="font-size:19px">O que temos em jogo são carências afetivas e complexos constelados que nos aprisionam a situações que não são saudáveis.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em relação aos homens, o que não pertence à consciência masculina (o não “eu”) é sentido como se não pertencesse ao eu, por isso, a imagem da <em>anima</em> (contraparte feminina) é projetada nas mulheres. Os índices de divórcios cada vez maiores apontam que essa projeção no sexo oposto, ocasiona relacionamentos complicados (JUNG, 9/1, § 61).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A <strong><em>anima</em> </strong>é o arquétipo do significado ou sentido, o arquétipo da vida (JUNG, 9/1, § 66). Um homem que se priva de entrar em contato com seu aspecto psíquico feminino está desalmado e sem vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-ideia-de-poder-esta-muito-vinculada-a-imagem-de-homem-em-uma-sociedade-patriarcal-que-estabeleceu-ha-milhares-de-anos-uma-relacao-de-subordinacao-do-corpo-feminino-e-sua-capacidade-reprodutiva" style="font-size:19px">A ideia de poder está muito vinculada à imagem de homem em uma sociedade patriarcal, que estabeleceu há milhares de anos uma relação de subordinação do corpo feminino e sua capacidade reprodutiva.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Construiu-se uma divisão sexual, social e do trabalho entre homens e mulheres, delegando às mulheres os trabalhos tido como inferiores e menos valorizados, simbolizando seu papel na hierarquia social (BOURDIEU, 2024). Esse complexo cultural que atravessa gerações permeia o inconsciente coletivo traçando relações injustas entre os dois sexos ainda nos dias de hoje. Em nossa sociedade o que faz um homem ser considerado forte? Ter dinheiro, poder e mulheres, ou seja, ele precisa “possuir”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Por outro lado, os homens expõem sua vulnerabilidade e sentimentos com muito mais facilidade para as mulheres do que entre os amigos. É compreensível que a população mais vulnerável estude sobre os seus “opressores”, para entender melhor o fenômeno e traçar formas de resistência. Isso significa que as mulheres estavam muito mais atentas aos homens do que o inverso, por uma questão de necessidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-ideia-de-submissao-das-mulheres-e-construida-ao-longo-de-todo-um-trabalho-de-socializacao-um-trabalho-que-tende-a-diminui-las-nega-las-fazem-parte-das-virtudes-negativas-da-abnegacao-resignacao-e-do-silencio-feminino" style="font-size:19px">A ideia de submissão das mulheres é construída ao longo de todo um trabalho de socialização. Um trabalho que tende a diminuí-las, negá-las, fazem parte das virtudes negativas da abnegação, resignação e do silêncio feminino.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ao mesmo tempo, aprisionam os homens em uma <em>persona</em> de domínio e os obrigando a afirmar sua virilidade. A virilidade entendida como a capacidade reprodutiva, sexual e social, aptidão ao combate e ao exercício da violência são uma carga ou cilada. Às mulheres fica relegada a fragilidade, a astúcia diabólica e a magia. Como a honra e a vergonha estão ligadas a virilidade masculina, práticas sexuais violentas como visita coletiva a bordeis, estupros coletivos realizados por adolescentes são formas de provar sua condição de homem (BOURDIEU, 2024, p. 86-91).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Bourdieu explana que o que chamamos de coragem tem suas raízes na covardia ou medo de ser excluído do mundo dos homens tidos como fortes, e para comprová-lo, atos como matar, torturar e violentar, a vontade de dominação, de exploração ou de opressão estão relacionados. A virilidade é uma noção relacional, construída diante dos outros homens, para os homens e contra a feminilidade, em uma espécie de medo do feminino, construída dentro de si mesmo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-violencia-contra-mulheres-e-feminicidio-provocados-pelos-homens-nos-dias-atuais-podem-ser-um-reflexo-dessa-persona-coletiva-de-um-masculino-toxico-e-ferido-em-sua-construcao-social-de-virilidade" style="font-size:19px">A violência contra mulheres e feminicídio provocados pelos homens nos dias atuais podem ser um reflexo dessa persona coletiva de um masculino tóxico e ferido em sua construção social de virilidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">É comum esse tipo de ato ocorrer após o término de um relacionamento ou durante a tentativa de finalizar um ciclo de violência já estabelecido na família.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Atualmente, observamos uma crise do masculino, não coincidentemente após a legalização e aumento dos divórcios e o aumento de mulheres no mercado de trabalho, garantindo recursos financeiros e independência. Em consequência, ocorre um fenômeno sem precedentes: o aumento de mulheres chefiando os lares brasileiros.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-grafico-01-numero-de-domicilios-pelo-sexo-do-responsavel-brasil" style="font-size:16px"><strong>Gráfico 01:</strong> Número de domicílios pelo sexo do responsável, Brasil.</h2>



<figure class="wp-block-image size-full is-resized"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="884" height="500" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1.png" alt="" class="wp-image-11518" style="aspect-ratio:1.768018416858509;width:552px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1.png 884w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1-300x170.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1-768x434.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1-150x85.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1-450x255.png 450w" sizes="(max-width: 884px) 100vw, 884px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Fonte: IBGE, <a href="https://sidra.ibge.gov.br/tabela/6788">Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua</a>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-estrutura-patriarcal-aprisiona-mulheres-e-homens-criando-expectativas-personas-a-serem-alcancadas-gerando-empecilhos-para-um-crescimento-e-amadurecimento-mutuo-em-relacoes-mais-equitativas-e-menos-opressoras-para-ambos" style="font-size:20px">Essa estrutura patriarcal aprisiona mulheres e homens, criando expectativas (personas) a serem alcançadas, gerando empecilhos para um crescimento e amadurecimento mútuo, em relações mais equitativas e menos opressoras para ambos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Não se questiona os papéis se não houver um atravessamento ou incômodo por alguma das partes. Entretanto, mudanças não ocorrem de forma unilateral. Precisam envolver diversos atores, homens e mulheres em trabalho conjunto. O mundo está mudando porque as pessoas mudam e se transformam. As imagens de homens e mulheres estão sendo revistas, gerando conflitos entre os que querem conservar o que se entende por imagem de família, apegados a estruturas que não funcionam mais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-arriscariamos-dizer-que-a-base-dos-conflitos-politicos-atuais-estao-calcados-nessa-polaridade-o-desejo-de-mudanca-e-conservacao-coexistindo-e-em-confronto-ao-mesmo-tempo-felizmente-os-movimentos-e-mudancas-sociais-estao-em-constante-fluxo-nao-conseguimos-impedir-o-curso-da-vida-e-da-alma" style="font-size:20px">Arriscaríamos dizer que a base dos conflitos políticos atuais estão calcados nessa polaridade: o desejo de mudança e conservação coexistindo e em confronto ao mesmo tempo. Felizmente, os movimentos e mudanças sociais estão em constante fluxo. Não conseguimos impedir o curso da vida e da alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Como mulheres e como analistas junguianas, não podemos ignorar as questões sociais de nosso tempo. A violência não é um fenômeno isolado — ela é coletiva, sistêmica, e nos atravessa em múltiplos níveis. Quando uma mulher sofre abusos físicos, psicológicos ou patrimoniais, todo o sistema ao seu redor é afetado. Somos parte de uma grande psique coletiva, que se manifesta em nossas individualidades. Cada ferida aberta em uma mulher reverbera em todas nós.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-michella-cechinel-reis-analista-em-formacao-pelo-ijep" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/michellacechinel/">Michella Cechinel Reis &#8211; Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/paula-penas/"><strong>Paula de Azevedo Bernardi Peñas</strong> &#8211; <strong>Analista em formação pelo IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/"><strong>Dra. E. Simone Magaldi</strong> &#8211; <strong>Analista Didata do IJEP</strong></a></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Tapa de amor dói sim!" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/x36klunNvN0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:19px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">BEZERRA, A.R.; RORIGUES, Z.M.R. Violência contra as mulheres: o perfil da vítima e do agressor em São Luís-MA. Revista do Departamento de Geografia, v. 41, e176806, 2021. Disponível em: [https://revistas.usp.br/rdg/article/view/176806]. Acesso em: [12/08/2025].</p>



<p class="wp-block-paragraph">BORGES, José Carlos. A mulher e suas concepções históricas. 2020. RC:52704. Disponível em: <a href="https://www.nucleodoconhecimento.com.br/historia/concepcoes-historicas">https://www.nucleodoconhecimento.com.br/historia/concepcoes-historicas</a>. Acesso em: 10.nov.2025</p>



<p class="wp-block-paragraph">BOURDIEU, P. A dominação masculina: a condição feminina e a violência simbólica. 23 ed. Rio de Janeiro: Difel, 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2019). Pesquisa Nacional de Saúde: acidentes, violências, doenças transmissíveis, atividade sexual, características do trabalho e apoio social. Brasil / IBGE, Coordenação de Trabalho e Rendimento, [Ministério da Saúde].</p>



<p class="wp-block-paragraph">Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2021). Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: vitimização &#8211; sensação de segurança. Brasil / IBGE, Coordenação de Trabalho e Rendimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CERQUEIRA, Daniel; BUENO, Samira (coord.). Atlas da Violência 2025. Brasília: Ipea; FBSP, 2025. Disponível em:<a href="https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/publicacoes/290/atlas-da-violencia-2025"> </a><a href="https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/publicacoes/290/atlas-da-violencia-2025">https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/publicacoes/290/atlas-da-violencia-2025</a>. Acesso em: 10 ago. 2025.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-c-g-o-eu-e-o-inconsciente-dois-escritos-sobre-psicologia-analitica-27-ed-rio-de-janeiro-vozes-2015" style="font-size:16px">JUNG, C.G. O eu e o inconsciente: dois escritos sobre psicologia analítica. 27 ed. Rio de Janeiro, Vozes, 2015.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. Aspectos do drama contemporâneo: civilização em mudança. 5 ed. Rio de Janeiro, Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 11 ed. Petropolis, RJ: Vozes, 2014, reimpressão 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph">KAST, Verena. Abandonar o papel de vítima: Viva sua própria vida. Ed. Vozes, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">LEITE, F. M. C. et al. Violência contra a mulher: caracterizando a vítima, a agressão e o autor. Revista de Pesquisa Cuidado é Fundamental Online, v. 7, n. 1, p. 2181-2191, 2015. Disponível em: [https://www.redalyc.org/pdf/5057/505750945029.pdf]. Acesso em: [12/08/2025].</p>



<p class="wp-block-paragraph">LEVINE, P.A. O despertar do tigre: curando o trauma. 5 ed. São Paulo, Summus, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MADUREIRA, A.B.; et. al. Perfil de homens autores de violência contra mulheres detidos em flagrante: contribuições para o enfrentamento. Esc Anna Nery 2014;18(4):600-606. DOI: 10.5935/1414-8145.20140085.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">WRANGHAM, R.; PETERSON, D. O macho demoníaco: as origens da agressividade humana. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 1996.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>
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		<title>Apatia e Violência contemporâneas na realidade mundial e brasileira</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/apatia-e-violencia-contemporaneas-na-realidade-mundial-e-brasileira/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 Jul 2022 03:13:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Não Categorizado]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[apatia]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[ditadura]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[violência]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=5437</guid>

					<description><![CDATA[<p>C. G. Jung, nos permite a compreensão de que a agressividade é simultaneamente um instinto, do ponto de vista biológico, e um arquétipo, diante das questões da alma.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Estamos vivendo uma época de estranha apatia! Parece que a raça humana está paralisada frente às barbáries violentas que este modelo capitalista/consumista está fazendo com o planeta.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">No Brasil, atualmente a apatia é ainda maior, porque estamos nas mãos de governantes e políticos espúrios, sem caráter, corruptos e ocupados única e exclusivamente com a manutenção das suas garantias de poder e patrimônio, destruindo o pouco de dignidade e benefícios sociais que tínhamos. Isso nos faz refletir a respeito deste momento histórico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sera-que-a-raca-humana-jogou-a-toalha-aceitando-um-fim-catastrofico-tanto-nas-questoes-ambientais-quanto-nas-sociais-com-mais-exclusao-e-violencia" style="font-size:20px"><strong>Será que a raça humana &#8220;jogou a toalha&#8221;, aceitando um fim catastrófico tanto nas questões ambientais quanto nas sociais, com mais exclusão e violência?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">C. G.<strong> Jung</strong>, nos permite a compreensão de que a agressividade é simultaneamente um instinto, do ponto de vista biológico, e um arquétipo, diante das questões da alma. Na realidade, sem a agressividade dirigida, toda expressão de vida fica ameaçada. Ela está presente em toda vitalidade e é necessária no dia a dia das pessoas. Sem agressividade não levantamos da cama, não fazemos sexo, não trabalhamos, não conquistamos nossos ideais, entre outras atividades, ameaçando nossa biosobrevivência. Porém, parece que houve um processo de &#8220;demonização&#8221; para essa capacidade humana e a consequência disso é esta realidade apática que estamos vivenciando. Entretanto, na psicologia analítica de Jung, somos estimulados a lidar com as polaridades e, neste caso, o contraponto da apatia é a violência. Porque trabalhamos com a dinâmica compensatória entre o consciente e o inconsciente. Quando uma está na luz a outra fica na sombra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com isso, toda agressividade reprimida, ou mal dirigida, pode virar patológica, na forma de violência externa, com atos delinquenciais, como está sendo a atitude da maioria dos nossos políticos, e de muitos cidadãos, que diante das iniquidades e total exclusão social, partem para a violência e até o crime, muitas vezes identificados com os delinquentes do colarinho branco! Por outro lado, quando a violência não é exteriorizada, ela tende a virar sintomas de adoecimento, produzindo câncer, infarto e uma infinidade de doenças. Por isso, podemos afirmar que a violência ou a apatia são polaridades na forma de excrescências da exacerbação da agressividade mal utilizada para a evolução humana, associada aos conteúdos sombrios e complexos patológicos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quando-a-violencia-e-manifestada-para-fora-surge-o-movimento-de-apatia-para-dentro-inviabilizando-inclusive-o-autoconhecimento" style="font-size:19px">Quando a violência é manifestada para fora, surge o movimento de apatia para dentro, inviabilizando inclusive o autoconhecimento.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">De forma inversa, quando a apatia é manifesta para fora, como está acontecendo atualmente, na falta de atitude do povo brasileiro diante dessa corja de corruptos que domina o país, temos a violência voltada para dentro, produzindo sintomas de adoecimento ou de relacionamento, como podemos constatar nas relações truculentas, radicais e polarizadas nas mídias sociais, conflitos interpessoais até no amago das famílias, com falta de tolerância, geralmente em defesa cega de algum lado da corrupção. Porém, pontualmente, diante da atual realidade brasileira, temos uma outra razão para a apatia, que é a falta de perspectiva. Ninguém se sente minimamente representado e também não conseguimos vislumbrar nenhuma liderança que possa produzir um alento. Só vemos bandidos corruptos brigando entre si!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Acredito e espero que essa situação chegue numa condição de exaustação, onde a apatia social possa ser transformada num movimento revolucionário, quando o povo, sabiamente, decida por não reeleger nenhum político, independente do partido. Assim, todos esses bandidos possam ir para a justiça comum, e os novos eleitos possam fazer a reforma política acabando com o voto obrigatório, fazendo o casamento da data de todas as eleições a cada quatro anos, para evitar essa bandalheira de conchavos partidários a cada dois anos. E que não exista mais nenhum tipo de financiamento de campanha e que cada político tenha fidelidade com seu construto ideológico e partidário e, caso isso seja descumprido, que ele perca o mandado por traição!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-com-perplexidade-vejo-a-passividade-do-povo-e-ate-o-apoio-de-alguns-perante-determinadas-monstruosidades-que-estao-des-governando-e-destruindo-nosso-futuro-neste-planeta" style="font-size:17px">Com perplexidade vejo a passividade do povo, e até o apoio de alguns, perante determinadas monstruosidades que estão des-governando, e destruindo nosso futuro neste planeta!</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Esses líderes nefastos confundem obscurantismo com conservadorismo! Parece que esse bando que está em busca do poder é composto por indivíduos que, por serem medíocres, incultos e ignorantes, sentiam-se inferiores e oprimidos &#8211; apesar de já estarem flertando com o poder praticando ilegalidades.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso, quando conseguem assumir o poder, por vingança, inveja dos antecessores e medo de serem descobertos e punidos pelos delitos praticados até então, tornam-se opressores, persecutórios. E, como todo fascista, usam abusivamente de poderes superiores, como o do Estado, ditatorialmente, e o da Religião, de forma fanática, ambos atrelados à teologia da prosperidade, que prostituiu tudo e todos para servirem o Mercado, que está falindo, devido seu atual modelo econômico insustentável, por estar destruindo a humanidade, visando apenas poder, lucro e acúmulo, gerando mais exclusão e desigualdades, até aniquilar tudo e todos!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-precisamos-com-urgencia-nos-salvar-do-que-esta-por-vir">Precisamos, com urgência, nos salvar do que está por vir!</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Está chegando a hora de, novamente, transgredirmos o establishment, comendo o fruto proibido, que agora são os livros, principalmente os de história, para ampliar nossa consciência, com capacidade crítica e reflexiva, e salvar o Amor das garras do poder! Porque a história já nos mostrou onde iremos chegar com essa passividade diante deste obscurantismo!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vibro minhas energias para que esse sonho utópico possa se concretizar e torço para que todo cidadão brasileiro e do planeta reflita a respeito disso, porque a doença somos nós e está cada vez mais presente na nossa realidade!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas como, na concepção da psicossomática junguiana, todo sintoma é uma expressão simbólica que, de forma violenta, viola e revela possibilidades de cura ou destruição, acredito que por conta desta crise eminente surja a revelação do nosso potencial amoroso e criativo. Servindo para nos salvar tanto destes malditos políticos quanto das consequências dos crimes ambientais, autorizadas e até incentivadas por eles, visando única e exclusivamente os interesses das grandes potências econômicas, que não são países, mas grupos de acionistas espalhados pelo mundo, sem nenhuma ética e espiritualidade, agindo predatoriamente para a manutenção do poder e, consequentemente, negação do amor!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ou seja, precisamos aprender a integrar Ares com Afrodite, o deus da guerra com a deusa do amor. Para, assim, conquistarmos a harmonia, que é dinâmica e assertiva, por fazer a consonância dos dissonantes, usando a agressividade para a evolução criativa e amorosa.</p>



<h4 class="wp-block-heading" id="h-waldemar-magaldi-filho-15-06-2019"><strong><em><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi Filho &#8211; 15/06/2019</a></em></strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Psicólogo, especialista em Psicologia Junguiana, Psicossomática e Homeopatia. Mestre e doutor em Ciências da Religião. Autor do livro: &#8220;Dinheiro, Saúde e Sagrado&#8221;, Ed. Eleva Cultural, coordenador dos cursos de especialização em Psicologia Junguiana, Psicossomática, Arteterapia e Expressões Criativas do IJEP (www.ijep.com.br), oferecidos em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Acesse nosso site: <a href="https://www.ijep.com.br/">IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a></p>
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