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	<title>Arquivos xamanismo - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos xamanismo - Blog IJEP</title>
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		<title>Modernos Xamãs: o analista e os desafios do processo de cura</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/modernos-xamas-o-analista-e-os-desafios-do-processo-de-cura/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leila Montanha]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 19 Jul 2022 15:35:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Numinoso]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo teve como ponto de partida minha reflexão sobre o processo de formação como analista junguiana e as práticas iniciáticas existentes tanto no Xamanismo como nas religiões Afro-Brasileiras, em especial na Umbanda, onde me formei como sacerdote (Babá), realizando as iniciações que a formação exigia à época. &#160;O objetivo desse artigo é propor um [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Este artigo teve como ponto de partida minha reflexão sobre o processo de formação como analista junguiana e as práticas iniciáticas existentes tanto no Xamanismo como nas religiões Afro-Brasileiras, em especial na Umbanda, onde me formei como sacerdote (Babá), realizando as iniciações que a formação exigia à época. &nbsp;O objetivo desse artigo é propor um paralelo entre os dois caminhos de iniciação, a psicológica e a religiosa, e refletir sobre a forma como o inconsciente nos convida a viver essa jornada, de tornar-se analista, convocando-nos a participar junto de um outro, nosso cliente, de um processo de cura que tem mão dupla, pois nunca acontece numa direção exclusiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os xamãs foram descritos por Mircea Eliade (2002, pg.19) como &#8220;os grandes especialistas da alma humana&#8221;. Von Franz (1997, pg.85) os aponta, inclusive, como precursores da moderna psicoterapia. O &#8220;chamado&#8221; para a jornada de cura começa com uma série de eventos estranhos, normalmente sonhos e doenças, as mais diversas. E os sintomas são revertidos à medida em que se iniciam suas atividades como xamã.&nbsp; Estes relatos se parecem muito com o &#8220;chamado&#8221; para a mediunidade, vivido também por pessoas que se iniciam nas práticas religiosas mediúnicas. É bastante comum e usual que as pessoas procurem os Centros Espíritas ou Terreiros de Umbanda devido a doenças repentinas e inexplicáveis, apresentando dificuldades tanto na dimensão física quanto psicológica, financeira ou social. Normalmente, são orientados nos Centros ou Terreiros a dar início a sua preparação para a prática mediúnica e, na medida que o fazem, os sintomas também desaparecem. Os médiuns, como os xamãs, buscam auxiliar na cura de quem os procuram através do mundo espiritual, um &#8220;locus&#8221; onde os espíritos de pessoas mortas &#8220;vivem&#8221;, e, através de suas emanações, influenciam os vivos, seja auxiliando na cura ou atrapalhando suas vidas, fazendo com que fiquem doentes, por exemplo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Von Franz (Idem, pg.85) descreve a doença que antecede ao chamado dos xamãs como &#8220;um rapto por um pássaro que leva o indivíduo para o chamado mundo inferior&#8221;. Lá, ele fica aprisionado, sendo desmembrado pelos espíritos ou sofrendo torturas. Como Osíris, o futuro Xamã renasce, volta ao mundo dos seres humanos, desperto, e passa a ter o poder de cura. A preparação de um médium, especialmente nas religiões afro-brasileiras, como a Umbanda, também passa por diversos rituais e iniciações, sendo que a última é a entrada no reino de Exu, Orixá mais próximo da esfera terrestre e, portanto, do ser humano, associado muitas vezes ao diabo. Como Hermes, Exu personifica o psicopompo, aquele que faz a intermediação entre vários reinos: o mundo humano, o mundo dos Orixás e o das entidades superiores e o charco, conhecido também como o inferno.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas o que xamãs e médiuns tem a ver com a psicoterapia? A relação se estabelece pelo fato de ambos lidarem com o desconhecido, com o mundo dos &#8220;espíritos&#8221;, dimensões que se aproximam, analogamente, ao inconsciente &#8211; termo do campo da psicoterapia, utilizando o acesso a esse espaço como instrumento de cura. A analogia entre o mundo dos &#8220;espíritos&#8221; e o inconsciente foi proposta por Jung em sua conferência &#8220;Os fundamentos psicológicos da crença nos espíritos&#8221; (JUNG, 2013, pg.254).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Von Franz (1997, pg. 89) coloca um &#8220;surpreendente paralelismo&#8221; nesta forma de contato com o &#8220;mundo dos espíritos&#8221;, o inconsciente, na vida de Jung, mas é claro que ela se atinha a questão dos xamãs ao fazer tal discussão. A autora nos conta que durante o período da meia-idade, Jung &#8220;teve sonhos cujo tema recorrente era o renascimento dos mortos do passado histórico ou de uma pomba, que se transformava em uma garotinha, vindo a ele como mensageira do mundo dos mortos&#8221;, algo que se assemelhava muito ao transe dos xamãs. Ampliando para a experiência mediúnica, especialmente na Umbanda, que me é conhecida, este paralelo se enquadra igualmente. Zélio de Moraes, médium que deu início à Umbanda no Brasil, foi acometido por uma doença que o deixou de cama, incapaz de andar, até dar início a sua jornada na criação desta nova religião (TRINDADE, 2014).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Von Franz (idem, pg. 17) conta que certa vez apontou para Jung que sua atitude para com o inconsciente parecia idêntica a dos indivíduos que praticavam religiões mais arcaicas, citando o xamanismo ou a religião dos índios Naskapi. Estes seguiam seus próprios sonhos, sem sacerdotes ou rituais, acreditando que os sonhos vinham de uma força superior, de um &#8220;grande homem imortal do coração&#8221;. Jung, ela diz, respondeu com um sorriso: &#8220;Bem, não há do que se envergonhar. É uma honra!&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não posso afirmar que todos os analistas tenham passado pela experiência do &#8220;chamado&#8221;, mas certamente algo despertou dentro de cada um de nós para iniciarmos o caminho da psicologia profunda. O processo de formação é uma forma de iniciação, o mergulho na própria sombra, que permite ampliar o potencial de cura.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há uma diferença, porém, nos processos de cura utilizados pelo Xamã e pelos médiuns: em ambos os casos a jornada ao inconsciente para a busca da cura é feita de forma indireta. O cliente, adoecido, é neste caso um elemento passivo do processo. Digo isso sem menosprezar, de forma alguma, a parte que lhe é devida, a fé necessária, a abertura e a confiança para que o processo ocorra. Porém, não é ele quem entra diretamente em contato com o &#8220;mundo dos espíritos&#8221;, o inconsciente. Na análise, a cura vem pelo mergulho também do cliente em seu mundo anímico, onde irá se encontrar com seu curador interno, e através dele reestabelecer a saúde, seja em qualquer um desses níveis: físico, financeiro, psicológico, social&#8230; É uma jornada conjunta vivida por analista e cliente, onde ambos estão em contato com o &#8220;mundo dos espíritos&#8221;, explorando o inconsciente, acionando o &#8220;poder do Exu&#8221;, do psicopompo, para transitar pelos diversos níveis da psique, a fim de que a cura possa ocorrer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Leila Cristina Montanha</p>



<p class="wp-block-paragraph">Economista, Sacerdote de Umbanda e Analista Junguiana em Formação pelo IJEP.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências:</p>



<p class="wp-block-paragraph">ELÍADE, Mircea&nbsp;O Xamanismo e as técnicas arcaicas do êxtase. São Paulo:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Martins Fontes, 2002</p>



<p class="wp-block-paragraph">JAFFÉ, Aniela.&nbsp;Ensaios sobre a Psicologia de C.G.Jung. 10ª ed. São Paulo: Cultrix, 1995</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;A Natureza da Psique. 10ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013</p>



<p class="wp-block-paragraph">TRINDADE, Diamantino Fernandes.&nbsp;História da Umbanda no Brasil. Limeira: Ed. do Conhecimento, 2014</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Leila Cristina Montanha&nbsp;</em></strong></h4>
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