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	<title>Arquivos xi congresso junguiano - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos xi congresso junguiano - Blog IJEP</title>
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		<title>ENTRE O EXCESSO E A ESSÊNCIA: reflexões sobre o que realmente conta</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Isa Carvalho]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 26 Aug 2026 13:03:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O que é suficiente para uma vida humana? Essa questão, aparentemente simples, atravessa diferentes tradições do pensamento ocidental e ressurge, em cada época, como uma crítica às diversas formas de excesso que caracterizam a experiência humana. Para Sêneca, tratava-se do excesso de desejos e da dependência dos bens exteriores; para os transcendentalistas, do afastamento da natureza e da simplicidade; para Jung, da identificação com a persona e da perda de contato com o Si-mesmo. Embora formuladas em contextos distintos, essas perspectivas convergem na compreensão de que o sofrimento humano não decorre apenas da escassez, mas também do acúmulo: de posses, de papéis, de expectativas e de tudo aquilo que obscurece a experiência do essencial.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/entre-o-excesso-e-a-essencia-reflexoes-sobre-o-que-realmente-conta/">ENTRE O EXCESSO E A ESSÊNCIA: reflexões sobre o que realmente conta</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: O que é suficiente para uma vida humana? Essa questão, aparentemente simples, atravessa diferentes tradições do pensamento ocidental e ressurge, em cada época, como uma crítica às diversas formas de excesso que caracterizam a experiência humana. Para Sêneca, tratava-se do excesso de desejos e da dependência dos bens exteriores; para os transcendentalistas, do afastamento da natureza e da simplicidade; para Jung, da identificação com a persona e da perda de contato com o Si-mesmo. Embora formuladas em contextos distintos, essas perspectivas convergem na compreensão de que o sofrimento humano não decorre apenas da escassez, mas também do acúmulo: de posses, de papéis, de expectativas e de tudo aquilo que obscurece a experiência do essencial.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Este artigo está sendo escrito na sequência da realização e participação no <a href="https://www.institutojunguiano.com.br/xi-congresso-junguiano-alquimia-e-ecologia" data-type="link" data-id="https://www.institutojunguiano.com.br/xi-congresso-junguiano-alquimia-e-ecologia">XI Congresso Junguiano do IJEP</a><a href="#_ftn1" id="_ftnref1"> [1]</a>, quando foram apresentadas inúmeras palestras que trataram de um tema tão emergente quanto perturbador: como podemos transmutar a consciência para que seja possível regenerar nosso castigado e exaurido planeta Terra?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Pesquisando para a minha apresentação, realizada junto com a analista-didata, Lilian Wurzba, e a colega, Tania Pulier Garrido, deparei-me com vários exemplos da atual cultura do acúmulo e do excesso e, imediatamente, emergiu das profundezas, daquele lugar onde ficam armazenadas as boas ideias e iniciativas que parecem ter sido esquecidas, a seguinte pergunta: o que é suficiente para uma vida humana?</p>



<h2 id="h-essa-questao-aparentemente-simples-atravessa-diferentes-tradicoes-do-pensamento-ocidental-e-ressurge-em-cada-epoca-como-uma-critica-as-diversas-formas-de-excesso-que-caracterizam-a-experiencia-humana" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Essa questão, aparentemente simples, atravessa diferentes tradições do pensamento ocidental e ressurge, em cada época, como uma crítica às diversas formas de excesso que caracterizam a experiência humana.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para Sêneca, tratava-se do excesso de desejos e da dependência dos bens exteriores; para os transcendentalistas, do afastamento da natureza e da simplicidade; para Jung, da identificação com a persona e da perda de contato com o Self. Embora formuladas em contextos distintos, essas perspectivas convergem na compreensão de que o sofrimento humano não decorre apenas da escassez, mas também do acúmulo: de posses, de papéis, de expectativas e de tudo aquilo que obscurece a experiência do essencial.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez hoje em dia não se fale tanto de movimentos como o minimalista, mas desde que algumas de suas ideias começaram a circular e a conquistar simpatizantes na filosofia, na arte, na estética, na arquitetura, na espiritualidade, nos costumes, na moda, nos estilos de vida e na alimentação, em meados do século XX, o minimalismo tem sido um dos poucos movimentos abertamente críticos aos princípios devoradores do capitalismo pós-industrial que tomou de assalto o planeta, principalmente após a Segunda Guerra.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Não é possível afirmar que o movimento tenha “desaparecido”, mas nem que esteja “atuante” enquanto ideal de vida, já que se encontra, considerando nossos tempos neoliberais e excessivamente consumistas, em um estado próximo do “agonizante”, cercado pela bruma do esquecimento, ou melhor dizendo: “fora das mídias sociais”. O que testemunhamos hoje, principalmente após a queda do muro de Berlim em 1989, é uma aparente escassez de iniciativas que sejam capazes de contrastar a hegemonia do sistema capitalista, que assumiu uma versão jamais imaginada devido ao avanço da tecnologia digital.</p>



<h2 id="h-mas-sera-que-e-assim-mesmo" class="wp-block-heading" style="font-size:20px">Mas será que é assim mesmo?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Não muito tempo atrás, as ideias minimalistas provocavam debates acalorados, onde expressões como “menos é mais”; “menos dependência material = mais liberdade”; ou “simplifique, simplifique!” – atribuídas a Mies van der Rohe, aos estoicos e a Henry David Thoreau, respectivamente – “viralizavam” (mais devagar do que hoje em dia, claro) nos jornais, revistas e livros, alguns impressos, outros já digitais. Em torno dos anos 2000-2010, o movimento tentou ressuscitar e atuar como um último grito contra o iminente perigo do hiperconsumo, da cultura digital e do esgotamento de recursos em níveis globais resultantes da produção acelerada de bens. Mas, aparentemente, sem muito sucesso.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O presente artigo não tem a intenção de ser pessimista, mas apenas demonstrar que, muito provavelmente, o minimalismo perdeu a batalha, mas, quem sabe, não a guerra, visto que ainda encontramos iniciativas importantes que tentam resgatar os ideais do movimento. Veremos algumas dessas ideias contemporâneas ao final do artigo, mas, antes, talvez seja importante conhecer as bases do minimalismo. Não todas, pois não caberiam em um artigo, mas especificamente dois de seus pilares: <strong>o estoicismo e o transcendentalismo</strong>. Após apresentar as ideias-chave dos dois movimentos, o artigo buscará traçar paralelos entre estas e alguns conceitos da psicologia junguiana, no sentido de entrelaçar e apontar interseções entre ideais de vida coletiva e dinâmicas psíquicas individuais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Sêneca (Lúcio Aneu Sêneca) nasceu no ano I d.C., em Córdoba, na Espanha que, na época, pertencia ao império romano. De família abastada &#8211; que se transferiu para Roma quando Sêneca tinha 5 anos &#8211; estudou com o estoico Átalo e com dois neopitagóricos, Sótion de Alexandria e Papírio Fabiano, que professavam uma doutrina que combinava o estoicismo e o pitagorismo. Sendo um dos maiores representantes do estoicismo, Sêneca, ironicamente, também foi um dos homens mais ricos de sua época. Acumulou posses e viveu cercado de intrigas políticas, ambições e lutas pelo poder. Talvez exatamente por isso tenha tido a necessária clareza ao desenvolver sua crítica e afirmar: “A vida não é curta, mas sim desperdiçada” (SÊNECA, 2017, p.1).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em torno de seus 62 anos, tendo sido preceptor do imperador Nero, Sêneca solicitou um afastamento das atividades públicas, pedido que lhe foi negado. No entanto, alegando idade avançada e saúde precária, conseguiu uma licença para se dedicar ao <em>Otium</em> (ócio), que significava se envolver apenas com atividades de leitura e escrita. Nessa época, escreve um tratado em forma de carta filosófica intitulado <em>Sobre a brevidade da vida</em>. Nesta, Sêneca dirige-se a um funcionário público, Paulino, um homem sempre ocupado, sobrecarregado de deveres e obrigações, que simbolizava o indivíduo que vive para todas as coisas exteriores menos para si mesmo e sua interioridade. Uma vida corrida, voltada para as conquistas materiais e de poder, de cargos e promoções, status social e acúmulo de bens, mas que sempre adia a própria vida.</p>



<h2 id="h-ja-no-primeiro-paragrafo-da-carta-filosofica-seneca-escreve" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Já no primeiro parágrafo da carta filosófica, Sêneca escreve:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">I. A maior parte dos mortais, Paulino, queixa-se da malignidade da natureza, porque somos gerados para uma curta existência, porque esse espaço de tempo que nos é dado transcorre tão veloz, tão rápido, que, com exceção de bem poucos, os demais a vida os deixa exatamente nos preparatórios para a vida. E não é, conforme opinam, só a massa de insensatos que deplorou esse mal comum: esse sentimento provocou queixas também de homens ilustres. Daí aquela conhecida frase do maior dos médicos: “A vida é breve, a arte é longa”<a href="#_ftn2" id="_ftnref2">[2]</a> (SÊNECA, 2017, p. 1).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Sêneca, no trecho acima, não fala da quantidade de anos, mas da qualidade de presença e de sentido que damos à vida. Também menciona o quanto a nossa vida é “roubada” e que esses “ladrões” muitas vezes nem são reconhecidos como tal. Manifestam-se na forma da avareza, da ambição, do empenho em tarefas inúteis, dos vícios, da inércia, da preguiça, da dependência de aprovação, do medo de julgamentos, da necessidade de status, do desejo irrefreável de consumir, comerciar, lucrar, conquistar. “É diminuta a parte da vida que vivemos” (2017, p. 2) escreve Sêneca ao seu colega.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Um retrato triste da Roma antiga e também da nossa sociedade contemporânea. Sêneca, em <em>Sobre a brevidade da vida</em>, dirige-se a nós, indivíduos do século XXI. Quase dois mil anos depois, ele está falando “de” e “para” nós. Está falando dos nossos desejos incessantes com mais atualidade do que gostaríamos de admitir, especialmente quando escreve:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nunca lhes é possível voltar-se para si mesmos. Se alguma vez lhes advém casualmente algum repouso, agitam-se, tal como em alto-mar, onde mesmo depois dos ventos, subsiste a turbulência, e jamais se veem desocupados de seus desejos. (SÊNECA, 2017, p. 2).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Sobre a brevidade da vida</em> é uma reflexão filosófica densa e profunda e um alerta sobre o perigo de uma vida longa e vazia baseada em uma “turvação das mentes humanas” diante das tentações dos infindáveis desejos: &#8220;Tendes medo de tudo como mortais, desejais tudo como imortais” (2017, p. 3). Não é difícil imaginar, lendo essas citações, o porquê do estoicismo representar um dos pilares do minimalismo, pois uma das ideias centrais do movimento é o reconhecimento do quanto de suor, desgaste, estresse e destruição comporta o vertiginoso crescimento vertical apregoado pelo sistema capitalista/neoliberal e o quanto de sofrimento isso representa para o indivíduo, a sociedade e o planeta.</p>



<h2 id="h-e-quanto-ao-transcendentalismo-do-que-se-trata" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">E quanto ao transcendentalismo, do que se trata?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Trata-se de um movimento nascido nos Estados Unidos no século XIX que influenciou fortemente o minimalismo existencial, sendo que este último emergiu em meados do século XX. A pergunta central de ambos os movimentos poderia ser resumida em: “Afinal, do que realmente precisamos para viver bem?”. Essa questão central do transcendentalismo nos remete a alguns princípios básicos tanto do minimalismo quanto do estoicismo, o que demonstra o entrelaçamento entre as três correntes: redução ao essencial; autonomia; clareza; desapego; silêncio e vazio; desaceleração; moderação e liberdade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nascido em 12 de julho de 1817, na região da Nova Inglaterra, nos Estados Unidos, Henry David Thoreau destacou-se como ensaísta, poeta, filósofo e observador atento da natureza. Como jovem inserido no ambiente intelectual e reformista de seu tempo, estudou em Harvard e chegou a atuar como professor, profissão que abandonou por se opor aos métodos disciplinares baseados em punição física. Próximo de Ralph Waldo Emerson, Thoreau tornou-se uma das principais vozes do transcendentalismo, corrente que valorizava a intuição, a espiritualidade e a reconexão entre o ser humano e a natureza. Sua obra mais conhecida, <em>Walden</em> (1854), transformou a experiência de vida simples em meio natural numa reflexão filosófica sobre liberdade, essencialidade e crítica à sociedade materialista.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Entre 1845 e 1847, Henry David Thoreau retirou-se para uma pequena cabana erguida por ele próprio nas proximidades do Lago Walden, em uma propriedade pertencente ao amigo Ralph. Mais do que um isolamento voluntário, a experiência representou uma tentativa concreta de experimentar uma vida simples, consciente e autônoma, reduzida ao indispensável. Dessa vivência nasceu <em>Walden</em>, obra que ultrapassou o relato autobiográfico, consolidando-se como um dos textos fundadores do pensamento ecológico moderno.</p>



<h2 id="h-walden-e-uma-obra-lirica-e-filosofica-que-analisa-temas-universais-envolvendo-a-busca-pelo-significado-a-autodeterminacao-a-autenticidade-e-a-essencialidade" class="wp-block-heading" style="font-size:18px"><em>Walden</em> é uma obra lírica e filosófica que analisa temas universais envolvendo a busca pelo significado, a autodeterminação, a autenticidade e a essencialidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nela vemos descrições detalhadas da natureza e da relação do homem com seus ritmos e tempos, levando o leitor a questionar as prioridades e necessidades da vida moderna acelerada e sem sentido. O livro nos convoca a uma reflexão profunda: “o que seria ter uma existência e uma vida realmente plenas?” Nas palavras de Thoreau (2010, p. 9): “Não pretendo escrever uma ode à melancolia, e sim trombetear vigorosamente como um galo ao amanhecer, no alto de seu poleiro, quando menos para despertar meus vizinhos”.</p>



<h2 id="h-mesmo-separados-por-quase-dois-mil-anos-os-autores-assumem-estilos-fragmentarios-e-meditativos-muito-semelhantes" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Mesmo separados por quase dois mil anos, os autores assumem estilos fragmentários e meditativos muito semelhantes:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Thoreau escreve em primeira pessoa, em forma de relato das suas experiências e reflexões cotidianas; Sêneca escreve na terceira pessoa do singular e do plural, em forma epistolar e argumentativa, a partir de uma posição íntima, indiretamente (mas claramente) falando de si mesmo. Ambos se colocam dentro da narrativa, misturando filosofia, experiência e aconselhamento. Há um tom confessional e ensaístico muito forte nas duas obras. Em vez de construírem tratados sistemáticos, escrevem quase como quem conversa com o leitor, conduzindo-o a uma revisão da própria vida.</p>



<h2 id="h-ha-tambem-nas-duas-obras-uma-inquietacao-parecida-diante-do-excesso" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Há também nas duas obras uma inquietação parecida diante do excesso.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Sêneca observa homens que atravessam a vida ocupados demais para realmente vivê-la; sufocados por ambições, distrações, luxos e pela eterna sensação de que o tempo nunca basta. Henry David Thoreau enxerga algo semelhante na América industrializante, onde o trabalho incessante e o acúmulo transformam os indivíduos em estrangeiros de si mesmos. Em épocas distantes, ambos percebem a mesma ferida: uma humanidade tão absorvida pelo ruído do mundo que já não consegue ouvir a própria essência.</p>



<h2 id="h-tambem-se-encontram-na-defesa-de-uma-liberdade-interior-que-nasce-da-simplicidade" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Também se encontram na defesa de uma liberdade interior que nasce da simplicidade. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para Sêneca, pertencer a si mesmo é talvez a maior forma de riqueza e para Thoreau, a verdadeira liberdade começa quando diminuímos as necessidades inventadas e reaprendemos a habitar o silêncio e a própria presença. Nesse sentido, <em>Sobre a Brevidade da Vida</em> e <em>Walden</em> antecipam muito do que seria incorporado pelo pensamento minimalista em meados do século XX. Ainda que separados por séculos, os dois textos convergem numa mesma recusa ao excesso, sugerindo que existe uma verdade escondida sob o acúmulo e que viver talvez represente um exercício de retirada dessas camadas de distração.</p>



<h2 id="h-muitas-das-reflexoes-de-seneca-e-thoreau-podem-ser-posicionadas-em-categorias-tematicas-proximas-de-alguns-conceitos-desenvolvidos-por-carl-g-jung" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Muitas das reflexões de Sêneca e Thoreau podem ser posicionadas em categorias temáticas próximas de alguns conceitos desenvolvidos por Carl G. Jung.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No entanto, para o psiquiatra suíço nascido no século XIX &#8211; que desenvolve grande parte de seus conceitos e ideias ao longo do século XX &#8211; o excesso deixa de ser apenas material, moral, estético, social ou econômico e passa a ser também psíquico. Para Jung, o excesso pode significar um caminho de afastamento do centro da psique, do Self, o núcleo mais profundo e autêntico da personalidade, isto é, da essência. Os papéis sociais, a produtividade, o consumo, a adaptação excessiva às exigências e aos valores coletivos fazem com que a essência se perca na aparência, sendo que esta última é implacável e insaciável em seus desejos e necessidades.</p>



<h2 id="h-jung-tambem-fala-da-pos-modernidade-como-produtora-de-individuos-inflados-de-exterioridade-e-carentes-de-sentido" class="wp-block-heading" style="font-size:20px">Jung também fala da pós-modernidade como produtora de indivíduos “inflados” de exterioridade e “carentes” de sentido.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O culto à eficiência e ao status, o distanciamento da natureza, do inconsciente, dos valores e símbolos da espiritualidade, o incentivo ao acúmulo material e o excesso de ruído psíquico acabam dando primazia e extrema importância ao ego, à persona e suas consequentes fragmentações e inflações:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao analisarmos a persona, dissolvemos a máscara e descobrimos que, aparentando ser individual, ela é no fundo coletiva; em outras palavras, a persona não passa de uma máscara da psique coletiva. No fundo, nada tem de real; ela representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade, acerca daquilo que “alguém parece ser: nome, título, ocupação, isto ou aquilo”. De certo modo, tais dados são reais; mas, em relação à individualidade essencial da pessoa, representam algo de secundário, uma vez que resultam de um compromisso no qual outros podem ter uma quota maior do que a do indivíduo em questão. A persona é uma aparência, uma realidade bidimensional, como se poderia designá-la ironicamente (JUNG, 2014, p.246).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O movimento oposto a essa cacofonia psíquica seria o envolvimento do sujeito com seu processo de individuação, isto é, a lenta reaproximação de sua essência através do exercício de escuta e troca com o inconsciente, normalmente colocados em prática a partir da observação dos sonhos, da contemplação, do silêncio, da vida simbólica, da espiritualidade e do contato com a natureza, com as artes, com a imaginação. Jung, através da famosa torre de Bollingen, que lembra, de certo modo, a cabana de Thoreau, promove uma retirada do excesso civilizatório da modernidade para que se abra espaço para um reencontro com a própria interioridade. Assim como Sêneca critica o homem consumido pelas ocupações e Thoreau denuncia a vida absorvida pelo acúmulo, Jung percebe o perigo de uma existência inteiramente organizada em torno da persona, isto é, da máscara social necessária, mas potencialmente alienante e vazia de sentido:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A questão decisiva para o homem é: ele está se colocando em relação com algo infinito ou não? Tal é o critério de sua vida. [&#8230;] Quanto mais o homem acentua uma falsa posse, menos pode sentir o essencial e tanto mais insatisfatória lhe parecerá a vida. Sente-se limitado porque suas intenções são cerceadas e disso resulta inveja e ciúme. Se compreendermos e sentirmos que já nesta vida temos uma ligação com o infinito, nossos desejos e atitudes se modificam. Em última análise, só valemos pelo essencial que encarnamos; e, se não acedemos a ele, a vida foi desperdiçada. (JUNG, 1978, p. 281).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Sendo fiel à proposta inicial do artigo, isto é, a de não ser pessimista em relação à presença de movimentos que sejam capazes de contrastar a hegemonia do sistema capitalista contemporâneo, apresento algumas iniciativas e ideias que emergiram e que possuem suas fontes no movimento minimalista, isto é, vimos o que veio antes e agora veremos o que emergiu depois.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na Roma Antiga, com Sêneca e o estoicismo; quase dois mil anos depois, no século XIX, com Thoreau e o transcendentalismo; e no século XX com o movimento minimalista, assistimos ao surgimento de vozes que defendiam uma vida mais simples e mais próxima da própria natureza. Já no século XXI, redescobrimos essa necessidade com novas roupagens. Das <em>tiny houses</em> ao minimalismo digital, do <em>slow living/food</em> à economia circular, multiplicam-se iniciativas que procuram reduzir o ruído do excesso, no entanto, gostaria de destacar um movimento intitulado <em>degrowth</em> (decrescimento), por identificar em seus princípios algumas possibilidades de expansão e continuidade dos ideais minimalistas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><a>Serge Latouche (1940-), filósofo e economista francês, um dos principais divulgadores do movimento <em>degrowth</em> e autor de dois livros que se propõem a lançar as bases do movimento e de seus desdobramentos práticos – <em>Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno</em> e <em>A Aposta pelo Decrescimento</em> – parte de uma crítica contundente à ideia de crescimento econômico ilimitado. Como afirma, “nosso crescimento econômico excessivo choca-se com os limites da finitude da biosfera (&#8230;) e a capacidade de regeneração da Terra já não consegue acompanhar a demanda” (LATOUCHE, 2009, p. 27). O autor relaciona ainda essa expansão à desigualdade na apropriação dos recursos naturais, apontando para a insustentabilidade tanto ecológica quanto social do modelo de crescimento.</a></p>



<h2 id="h-latouche-propoe-uma-sociedade-de-decrescimento-que-priorize-a-reducao-do-consumo-a-relocalizacao-da-producao-e-a-redefinicao-do-bem-estar-alem-dos-indicadores-de-produto-interno-bruto-pib" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Latouche propõe uma “sociedade de decrescimento” que priorize a redução do consumo, a relocalização da produção e a redefinição do bem-estar além dos indicadores de produto interno bruto (PIB).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O economista também desafia o paradigma dominante da economia de mercado e sugere uma reorganização dos valores culturais e econômicos. Sua obra é referência nos debates sobre sustentabilidade e economia ecológica, apresentando uma alternativa ao capitalismo globalizado e ampliando a discussão para os planos social e cultural quando levanta a ideia de uma sociedade baseada na suficiência e no abandono da obsessão pelo crescimento econômico vertical ilimitado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Outros autores e obras sobre o movimento <em>degrowth</em> seriam importantes de serem citados, tais como, Tim Jackson, filósofo e economista ecológico, com seu livro <em>Prosperidade sem Crescimento: economia para um planeta finito</em>; George Kallis, economista ecológico e político, com sua obra <em>Decrescimento</em>; e Federico Demaria, economista ecológico e pesquisador, organizador, junto com Kallis, da obra <em>Decrescimento: vocabulário para um novo mundo</em><em>.</em> Todos os autores colaboram entre si e mantém um diálogo bastante profícuo sobre o tema, o que demonstra que muito tem sido produzido em termos de alternativas ao atual estado lamentável para o qual a frenética economia capitalista neoliberal e globalizada nos conduziu.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Logo abaixo, nas referências, será possível encontrar mais detalhes sobre as obras citadas acima. Leituras fortemente recomendadas, pois nos apresentam reflexões e evidências para aqueles que não acreditam na possibilidade de desaceleração da economia sem recessão. O que nos levanta outra questão fundamental: afinal, o que significa “recessão” quando a vida no planeta está ameaçada? O que significa “recessão” para uma terra exaurida e infértil? O que significa “recessão” para uma sociedade pautada pela desigualdade social e pelo acúmulo absurdo de bens e riquezas que permanecem concentrados nas mãos de uma assustadora minoria? Já estamos vivendo na tal “recessão” há, pelo menos, alguns séculos, se considerarmos os valores humanos e ecológicos, e não apenas os valores econômicos.</p>



<h2 id="h-sob-a-perspectiva-da-psicologia-analitica-de-jung-uma-crise-coletiva-nunca-e-apenas-uma-crise-das-instituicoes-sejam-elas-economicas-politicas-ou-sociais-ela-tambem-expressa-um-estado-da-psique-coletiva" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Sob a perspectiva da psicologia analítica de Jung, uma crise coletiva nunca é apenas uma crise das instituições, sejam elas econômicas, políticas ou sociais: ela também expressa um estado da psique coletiva.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A lógica do crescimento ilimitado, da acumulação sem fim e da busca incessante por expansão pode ser compreendida psicologicamente como uma manifestação da inflação do ego, isto é, da fantasia de autonomia absoluta que rompe seus vínculos com os limites da natureza, do corpo e da própria condição humana.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Concluo o presente artigo com mais perguntas do que respostas, porque, para que as alternativas sejam consideradas, é preciso, antes de tudo, questionar profundamente o modelo de crescimento econômico infinito, do tipo que pode chegar aos trilhões concentrados na mão de um único indivíduo. Somente uma economia baseada na total ausência de sentido de vida é capaz de produzir tamanha aberração, principalmente, quando este indivíduo declara já possuir “alternativas” para a vida fora do planeta Terra, mas que, infelizmente, todas elas serão apenas para os poucos milionários privilegiados, afinal, “para quem pode pagar, sempre haverá mundos”, propõem os capitalistas do século XXI (AMARAL, 2026).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/isacarvalho/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/isacarvalho/">Isa Carvalho &#8211; Membro Analista IJEP</a><strong> </strong>&nbsp; / &nbsp;</strong>isafvc@gmail.com</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/lilian/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/lilian/"><strong>Lilian Wurzba</strong> &#8211; <strong>Analista Didata IJEP</strong></a></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📃Artigo novo: &quot;ENTRE O EXCESSO E A ESSÊNCIA: Reflexões sobre o que realmente conta&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/ImvkEonEH2w?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:18px"><strong>REFERÊNCIAS:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">AMARAL, M. <em>Elon Musk: o trilionário extremista que quer apagar as estrelas do céu</em>. Revista Online Publica – <a href="https://apublica.org/2026/06/elon-musk-o-trilionario-extremista-que-quer-apagar-as-estrelas-do-ceu/">https://apublica.org/2026/06/elon-musk-o-trilionario-extremista-que-quer-apagar-as-estrelas-do-ceu/</a> &#8211; Acesso em : 19 de junho de 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">D&#8217;ALISA, G.; DEMARIA, F.; KALLIS, G. (orgs.). <em>Decrescimento: vocabulário para um novo mundo</em>. Porto Alegre: Tomo Editorial, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JACKSON, T. <em>Prosperidade sem Crescimento: economia para um planeta finito</em>. São Paulo: Planeta Sustentável, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <em>Memórias, Sonhos e Reflexões</em>. 5.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>O eu e o inconsciente</em>. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">KALLIS, G. <em>Decrescimento</em>. São Paulo: Elefante, 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph">LATOUCHE, S. <em>Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno</em>. São Paulo: Martins Fontes, 2009.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SÊNECA, C. A. <em>Sobre a brevidade da vida; Sobre a firmeza do sábio</em>.São Paulo: Cia. das Letras, 2017.</p>



<p class="wp-block-paragraph">THOREAU, H. D. <em>Walden: A vida nos bosques.</em> Porto Alegre: L&amp;PM, 2010.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a> Ver <a href="https://www.institutojunguiano.com.br/congressosjunguianos">https://www.institutojunguiano.com.br/congressosjunguianos</a> &#8211; Palestra: “De repente deserto: a árida desumanização na busca incessante por mais”.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref2" id="_ftn2">[2]</a> Frase atribuída a Hipócrates, “Ars longa, vita brevis”.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/entre-o-excesso-e-a-essencia-reflexoes-sobre-o-que-realmente-conta/">ENTRE O EXCESSO E A ESSÊNCIA: reflexões sobre o que realmente conta</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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