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	<title>Daniel Gomes, Autor em Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Mon, 23 Mar 2026 21:41:52 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Daniel Gomes, Autor em Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>O filho de mil homens: A crise no meio da vida e o grito ouvido no silêncio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Daniel Gomes]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Mar 2026 20:47:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filmes e Séries]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[análise junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[análise simbólica]]></category>
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		<category><![CDATA[Psique]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Há um tempo que me ocupo com produções literárias e cinematográficas. Já falei sobre os filmes Sete Minutos Depois da Meia-Noite, Oblivion, O Pequeno Príncipe e Divertida Mente, além de livros de Hermann Hesse e Khalil Gibran. Devo confessar, no entanto, que nunca me senti tão tocado quanto pelo filme O Filho de Mil Homens. As críticas já destacavam que o filme superou brilhantemente o livro homônimo de Valter Hugo Mãe.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-filho-de-mil-homens-a-crise-no-meio-da-vida-e-o-grito-ouvido-no-silencio/">O filho de mil homens: A crise no meio da vida e o grito ouvido no silêncio</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Há um tempo que me ocupo com produções literárias e cinematográficas. Já falei sobre os filmes Sete Minutos Depois da Meia-Noite, Oblivion, O Pequeno Príncipe e Divertida Mente, além de livros de Hermann Hesse e Khalil Gibran. Devo confessar, no entanto, que nunca me senti tão tocado quanto pelo filme <strong>O Filho de Mil Homens</strong>. As críticas já destacavam que o filme superou brilhantemente o livro homônimo de Valter Hugo Mãe.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-sempre-recorreu-as-obras-literarias-e-artisticas-para-observar-os-fenomenos-psiquicos-compreendendo-que-a-alma-nao-pode-ser-apreendida-apenas-no-castelo-seguro-da-especialidade-mas-precisa-ser-perseguida-em-todos-os-dominios-em-que-se-manifesta-entre-eles-a-literatura-a-arte-e-a-poesia-cf-jung-2011" style="font-size:18px">Jung sempre recorreu às obras literárias e artísticas para observar os fenômenos psíquicos, compreendendo que a alma não pode ser apreendida apenas no “castelo seguro” da especialidade, mas precisa ser perseguida em todos os domínios em que se manifesta, entre eles a literatura, a arte e a poesia (Cf. JUNG, 2011).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Por isso, cultivo esse hábito e, assim como nós analistas, também incentivo clientes a assistirem filmes que possam servir de apoio à atividade clínica, pois o cinema oferece uma via privilegiada para acompanhar a expressão do inconsciente e dos arquétipos na contemporaneidade. Uma das questões centrais deste texto é a história de Crisóstomo – aliás, foi ao buscar o sentido de seu nome que tudo começou.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Fiz uma pequena pesquisa: “<strong>Crisóstomo</strong>” é de origem grega (<em>chrysos</em> = ouro; <em>stoma</em> = boca), significando “boca de ouro”, expressão que remete tanto à habilidade oratória quanto à figura de São João Crisóstomo, célebre por seus sermões. Ironia: o personagem de Rodrigo Santoro, Crisóstomo, fala sobretudo no silêncio; é um homem solitário, em torno dos quarenta anos, que se vê confrontado com a própria solidão</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Seu boneco funciona como suporte projetivo: é, ao mesmo tempo, a imagem do filho que nunca teve e a personificação de sua criança interior. Em algumas cenas, essa duplicidade simbólica se torna visível quando surge uma criança com roupas em cores semelhantes às do boneco, sugerindo a sobreposição entre o filho imaginado e a dimensão infantil do próprio Crisóstomo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-relacao-de-crisostomo-com-o-boneco-e-com-as-imagens-internas-aproxima-o-filme-do-campo-que-jung-descreve-quando-pensa-a-arte-e-a-poesia-como-expressoes-da-psique" style="font-size:18px">Essa relação de Crisóstomo com o boneco e com as imagens internas aproxima o filme do campo que Jung descreve quando pensa a arte e a poesia como expressões da psique:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A arte, em sua manifestação, é uma atividade psicológica e, como tal, pode e deve ser submetida a considerações de cunho psicológico, pois, sob este aspecto, ela, como toda atividade humana oriunda de causas psíquicas, é objeto da psicologia. (JUNG, 2011, p. 42)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Penso com frequência em como a anamnese se constrói no consultório: um processo que se consolida ao longo do tempo. Nem sempre os clientes têm consciência de sua própria história; à medida que escutamos, eles se escutam, resgatando narrativas esquecidas e ampliando o campo da experiência consciente. No filme, Crisóstomo, além de enfrentar a crise do meio da vida em torno dos quarenta anos, apresenta-se como alguém profundamente conectado ao inconsciente – que poderíamos, num primeiro momento, associar ao mar, mas cuja ligação simbólica se dá, sobretudo, pela concha e pela brincadeira infantil de escutar o barulho do mar ao aproximá-la do ouvido.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-crisostomo-se-volta-para-as-imagens-internas-para-desejos-e-anseios-que-parecem-ja-prefigurados-em-seu-mundo-interior" style="font-size:18px">Crisóstomo se volta para as imagens internas, para desejos e anseios que parecem já prefigurados em seu mundo interior.​</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No filme, essa escuta de si acontece em um momento decisivo: Crisóstomo se encontra precisamente em torno do meio da vida, ponto em que a curva biográfica deixa de ser apenas expansão e começa a confrontar o limite. Jung aponta que, a partir do meio da vida, quando a pessoa se recusa a seguir o movimento da própria existência, tende a endurecer internamente, agarrando‑se ao passado com medo da morte e, assim, perdendo contato real com o presente. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-descreve-a-virada-da-meia-idade-da-seguinte-forma" style="font-size:18px">Jung descreve a virada da meia-idade da seguinte forma:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A vida natural é o solo em que se nutre a alma. Quem não consegue acompanhar essa vida, permanece enrijecido e parado em pleno ar. [&#8230;] Do meio da vida em diante, só aquele que se dispõe a morrer conserva a vitalidade, porque na hora secreta do meio-dia da vida se inverte a parábola e nasce a morte. (JUNG, 2011b, §800).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em Crisóstomo, essa “hora secreta do meio-dia da vida” ganha forma simbólica: é a partir do encontro com a própria solidão e com as imagens internas que ele deixa de se petrificar e passa a tornar-se eixo de transformação para outras figuras marginalizadas do filme.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O aspecto talvez mais interessante do personagem de Santoro é aquilo que podemos relacionar à imaginação ativa, tal como trabalhada na psicologia junguiana: um modo de se colocar em contato genuíno com as imagens do inconsciente, sem submetê-las de imediato ao controle racional.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-destaca-que-na-imaginacao-ativa-o-material-produzido-em-estado-consciente-e-mais-completo-do-que-a-linguagem-dos-sonhos" style="font-size:18px">Jung destaca que, na imaginação ativa, o material produzido em estado consciente é mais completo do que a linguagem dos sonhos:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">         Desde que na imaginação ativa o material é produzido em estado consciente, sua estrutura é bem mais completa do que a linguagem precária dos sonhos. E contém muito mais que os sonhos; por exemplo, os valores sentimentais lá estão e podem ser julgados através do sentimento. Com frequência, os pacientes sentem que certos materiais apresentam tendências para a visualização. É comum que digam: ‘Aquelas imagens eram tão expressivas que, se eu soubesse pintar, tentaria reproduzir a sua atmosfera’. Ou então sentem que certas ideias deveriam ser expressas não racionalmente, mas por meio de símbolos. Ou, ainda, sentem-se dominados por uma emoção que, se tomasse forma, seria plenamente explicável. E assim começam a pintar, modelar e algumas mulheres começam a tecer. Tive mesmo duas clientes que dançavam suas figuras inconscientes. Logicamente o material também pode ganhar formas através da escrita. (JUNG, 2015, §400).​</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-cada-individuo-encontra-o-seu-caminho-nesse-dialogo-com-o-inconsciente" style="font-size:18px">Cada indivíduo encontra o seu caminho nesse diálogo com o inconsciente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Crisóstomo o faz por meio de um ritual em que, ao confrontar uma dor, volta-se para esse espaço interno e criativo, figurado pela luz que emerge de seu órgão genital e ascende até o umbigo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em um desses momentos de disponibilidade ao mundo interno, ele escreve o bilhete “pai sem filho procura filho sem pai” e se coloca simbolicamente no lugar daquele que assume sua falta e a oferece ao outro.​</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A forma como esse bilhete chega às mãos da mulher que levará Camilo até Crisóstomo pode ser pensada à luz da <strong>sincronicidade</strong>: não como simples cadeia causal, mas como encontro significativo entre um gesto interior e um acontecimento externo que parece responder a ele. Jung descreve a sincronicidade como um princípio de conexão acausal entre eventos internos e externos, unidos pelo sentido mais do que pela causa material (Cf. JUNG, 2011b). Nesse sentido, Camilo é a própria imagem viva dessa resposta do inconsciente, um “filho sem pai” que encontra o “pai sem filho” no exato momento em que este se dispõe a acolher a própria falta.​</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em contraste com o discurso contemporâneo que muitas vezes submete a decisão de ter filhos apenas à lógica do cálculo financeiro e da produtividade, o gesto de Crisóstomo rompe com a contabilidade capitalista do “custo de um filho” e se ancora em outra economia: a da disponibilidade afetiva e simbólica. Sua escolha não se apoia na garantia de oferecer “o melhor” em termos de consumo, mas na coragem de oferecer-se como pai a partir da própria incompletude.​</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A presença de Camilo intensifica o processo já em curso em Crisóstomo: ao acolher o menino, ele é convocado a revisitar a própria história e a colocar em relação aquilo que antes vivia quase só no interior – o silêncio, a simplicidade, o cuidado atento. Nada do que Camilo diz passa despercebido por Crisóstomo; na cena em que é questionado sobre ter uma namorada, responde “mas não estamos inteiros”, ao que o menino devolve “mas pode ser o dobro”, abrindo simbolicamente a possibilidade de uma família fundada não na completude ideal, mas na partilha das faltas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-longo-do-filme-surgem-outros-personagens-que-condensam-dores-familiares-e-coletivas" style="font-size:18px">Ao longo do filme, surgem outros personagens que condensam dores familiares e coletivas. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Isaura é apresentada como a mulher “carregada de ferida no meio das pernas”, segundo a mãe que percebe o amor como problema, enquanto o pai o entende como espera; entre essas duas visões, a filha passa a encarnar as projeções e frustrações amorosas dos pais. Isaura vive, de forma aguda, aquilo que Jung descreve como complexo ligado às figuras parentais: um conjunto de imagens emocionais que continua atuando como unidade viva da psique e tende a ser projetado para além da relação concreta com pai e mãe (Cf. JUNG, 2011b).​​</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O mesmo ocorre com Antonino, o jovem sensível que experimenta a marginalização dentro da própria casa, submetido à tirania materna que evidencia um ponto nevrálgico: a homofobia que se inaugura no âmbito doméstico e revela a dificuldade de acolher a alteridade no seio da família. As dores que explodem no espaço social aparecem, aqui, como desdobramentos de <strong>complexos</strong> formados na intimidade das relações primárias; conteúdos rejeitados e não elaborados tornam‑se sombra e são projetados sobre o outro, de modo que aquilo que permanece inconsciente em nós é encontrado e combatido no vizinho (Cf. JUNG, 2011b).​​</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Crisóstomo, a “boca de ouro” que fala sobretudo no silêncio, torna‑se uma espécie de eixo para que esses personagens possam se aproximar de suas feridas e dar nome ao que estava recalcado. É justamente aquele que menos fala quem cria as condições para que os outros encontrem palavras, lágrimas e gestos para aquilo que, muitas vezes, foi mantido no fundo da alma – gritos contidos, lágrimas engolidas, experiências varridas para “debaixo do tapete”, mas preservadas no inconsciente sob a forma de complexos.​</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O movimento que se desenha é o da passagem da repressão à expressão: à medida que cada um entra em contato com o que foi reprimido, elementos deixados para trás são simbolicamente resgatados. No desfecho, a família que se constitui é a dos excluídos, e é precisamente essa comunidade dos que carregam a marca da exclusão social que consegue atravessar e integrar sombras com as quais a sociedade mais ampla não sabe lidar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-alerta-de-spoiler-se-voce-ainda-nao-assistiu-ao-filme-e-recomendavel-interromper-a-leitura-aqui-ver-a-obra-e-entao-retornar-ao-texto-para-preservar-a-experiencia-afetiva-que-o-desfecho-oferece" style="font-size:18px"><strong>Alerta de spoiler:</strong> se você ainda não assistiu ao filme, é recomendável interromper a leitura aqui, ver a obra e, então, retornar ao texto, para preservar a experiência afetiva que o desfecho oferece.​</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O final apresenta, de forma contundente, que a transformação pessoal não se restringe ao indivíduo, mas reverbera na comunidade: ao lidar com dores, sombras e complexos – especialmente aquilo que o núcleo familiar não conseguiu elaborar – abre-se espaço para uma mudança que também é coletiva, num movimento que dialoga com a experiência de Jung narrada em&nbsp;Memórias, Sonhos, Reflexões. Quando Crisóstomo ensina Camilo a se conectar ao inconsciente, o filme insinua a cura da “criança divina”, imagem que remete ao arquétipo da criança como possibilidade de renovação e futuro psíquico.​</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A cena em que diversas pessoas se reúnem atrás de Crisóstomo e Camilo sugere uma configuração ampliada do campo psíquico, quase como se a comunidade inteira participasse do processo de individuação ali encenado. Nesse contexto, ganha relevo a formulação de que o ego, longe de dominar o inconsciente, deve aprender a servir à sua realização simbólica; enquanto as dores permanecem recalcadas, a vida não se cumpre em sua plenitude.​</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao propor uma família formada pelos excluídos e feridos, o filme lembra que somos co‑criadores e co‑curadores de nossa própria história e, em alguma medida, da história do mundo que habitamos. A convocação final é ética e imaginal: tornar‑se a transformação que se deseja ver passa por olhar para dentro, acolher o que impede o caminhar com presença e coragem e confiar que, embora tudo o que é necessário já esteja em nós, é preciso ousar encontrá‑lo.</p>



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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/daniel/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/daniel/">Daniel Gomes &#8211; Membro Analista IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>JUNG, C. G. O espírito na arte e na ciência. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2011.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>JUNG, C. G. A natureza da psique. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2011b</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>JUNG, C. G. A vida simbólica. Petrópolis: Vozes, 2015.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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			</item>
		<item>
		<title>A Sombra da Inexistência do Terapeuta</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-sombra-da-inexistencia-do-terapeuta/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniel Gomes]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 17 Mar 2025 23:20:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Setting Terapeutico]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Estava refletindo sobre algo que me atravessou recentemente: a sensação de não existir para além do consultório. Tudo começou quando ouvi o relato de uma colega durante a supervisão. Ela falava sobre a morte de uma paciente sua e o impacto que isso teve nela. O que mais a afetava não era apenas a perda, [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Estava refletindo sobre algo que me atravessou recentemente: a sensação de <strong>não existir para além do consultório</strong>. Tudo começou quando ouvi o relato de uma colega durante a supervisão. Ela falava sobre a morte de uma paciente sua e o impacto que isso teve nela.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O que mais a afetava não era apenas a perda, mas o fato de que, depois de anos acompanhando aquela pessoa, ela simplesmente desapareceu. Nenhum familiar entrou em contato, nenhuma explicação. O silêncio. A única notícia que chegou foi através das redes sociais, como se o vínculo entre terapeuta e paciente, tão intenso e profundo, se desfizesse no ar assim que a vida do paciente terminasse.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Isso me fez pensar: <strong>e eu? Será que existo além da sala de atendimento?</strong> O terapeuta é alguém que escuta, acolhe, acompanha, testemunha processos profundos… Mas quando esse processo acaba, seja porque o paciente vai embora ou porque a vida se impõe, o que sobra de nós? Essa pergunta me pegou de jeito.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Percebi que, muitas vezes, o terapeuta <strong>não é um sujeito para além do consultório, mas uma função</strong>. Uma representação. Ele existe ali, naquela dinâmica, mas fora dela? Para quem ele é? Isso me fez questionar o quanto estamos, talvez, <strong>apegados à persona de terapeutas</strong> e o quanto podemos estar nos identificando excessivamente com esse papel.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-fala-que" style="font-size:19px">Jung fala que:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>A persona é um complicado sistema de relação entre a consciência individual e a sociedade; é uma espécie de máscara destinada, por um lado, a produzir um determinado efeito sobre os outros e, por outro lado, a ocultar a verdadeira natureza do indivíduo. Só quem estiver totalmente identificado com a sua persona até o ponto de não conhecer-se a si mesmo poderá considerar supérflua essa natureza mais profunda.&nbsp;</p><cite>(Jung, 2014, p. §305)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">E se essa sensação de &#8220;não existência&#8221; for, na verdade, um confronto com nossa própria sombra? E se o que realmente assusta não for o fato de sermos esquecidos pelo paciente, mas sim <strong>o medo de não saber quem somos além desse papel</strong>?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Neste artigo, quero explorar essa ideia: a existência do terapeuta dentro e fora do consultório, as armadilhas da identificação com a função, e como essa dinâmica pode afetar não só nossa prática, mas nossa própria individuação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-nos-tornamos-inteiros-quando-parte-do-que-somos-so-existe-na-relacao-com-o-outro" style="font-size:19px">Como nos tornamos inteiros quando parte do que somos só existe na relação com o outro?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Esse é um convite para uma reflexão mais profunda sobre nosso papel e nossa identidade. Porque, no fim das contas, o terapeuta é um guia para o paciente, mas será que estamos conscientes do nosso próprio caminho?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O terapeuta veste um papel. Isso é um fato. No consultório, assumimos uma postura, um tom de voz, um jeito de olhar, de escutar, de acolher. E essa construção não é um acaso, ela faz parte de algo muito maior: a persona. Jung descreve a persona como a máscara que usamos para interagir com o mundo, um arquétipo que organiza nossos papéis sociais e nos permite navegar nas relações​. Mas o problema começa quando nos esquecemos de que a persona não é quem realmente somos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Quando me deparei com a ideia de que posso não existir para além do consultório, percebi o quanto essa persona pode ser traiçoeira. Se eu me identifico demais com ela, começo a acreditar que sou apenas aquilo: <strong>aquele que escuta, aquele que compreende, aquele que sabe ler as respostas do inconsciente</strong>. Mas o que acontece quando essa máscara cai? O que sobra quando a relação terapêutica acaba?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Talvez seja por isso que, quando um paciente morre, desaparece ou simplesmente encerra a terapia sem aviso, sentimos um certo vazio. Se, inconscientemente, estávamos apegados à imagem de terapeuta, perder um paciente pode ser sentido como <strong>perder a nós mesmos</strong>. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-sera-que-essa-perda-e-real-ou-sera-que-e-so-um-confronto-com-o-fato-de-que-nosso-papel-por-mais-importante-que-seja-nao-nos-define-por-completo" style="font-size:19px">Mas será que essa perda é real? Ou será que é só um confronto com o fato de que nosso papel, por mais importante que seja, não nos define por completo?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Essa reflexão me levou a um incômodo maior: será que estou existindo de forma plena fora da terapia? Será que sei quem sou além do profissional que exerce essa função? Ou será que, sem perceber, minha identidade está tão amarrada ao papel de terapeuta que, quando ele não é mais necessário, me sinto inexistente?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A persona é necessária, mas ela não pode ser tudo o que somos. Se nos agarramos demais a ela, acabamos caindo na armadilha de projetar nossa identidade apenas nesse espaço profissional. E quando esse espaço desaparece, nos vemos sem chão.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Essa percepção me levou a outra questão: e se essa necessidade de &#8220;ser importante para o paciente&#8221; for um sintoma de algo ainda mais profundo? Algo que não tem a ver com a relação terapêutica em si, mas com nossas próprias sombras…</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-se-a-persona-e-a-mascara-que-usamos-para-existir-no-mundo-a-sombra-e-tudo-aquilo-que-fica-escondido-atras-dela-nbsp-nao-podemos-nos-esquecer-que-para-jung" style="font-size:19px">Se a persona é a máscara que usamos para existir no mundo, a sombra é tudo aquilo que fica escondido atrás dela. &nbsp;Não podemos nos esquecer que para Jung:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>A sombra constitui um problema de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo, pois ninguém é capaz de tomar consciência desta realidade sem dispender energias morais. Mas nesta tomada de consciência da sombra trata-se de reconhecer os aspectos obscuros da personalidade, tais como existem na realidade. Este ato é a base indispensável para qualquer tipo de autoconhecimento e, por isso, em geral, ele se defronta com considerável resistência.&nbsp;</p><cite>(Jung, 2015, p. §14)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-foi-exatamente-esse-confronto-com-a-sombra-que-senti-quando-me-deparei-com-a-ideia-de-nao-existir-para-alem-do-consultorio" style="font-size:19px">E foi exatamente esse confronto com a sombra que senti quando me deparei com a ideia de não existir para além do consultório.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O que acontece quando percebemos que nossa importância na vida do paciente é limitada? Que, uma vez encerrada a terapia, muitas vezes desaparecemos sem deixar rastros? Se isso nos incomoda, talvez seja porque projetamos parte de nossa identidade nessa função. Se o terapeuta existe apenas no espaço do consultório, o que acontece com ele fora dali?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">É aqui que entra o perigo do apego ao papel profissional. Se nos identificamos demais com a função de terapeuta, podemos acabar usando esse papel como uma forma de evitar nossos próprios vazios. O consultório se torna um lugar onde nos sentimos relevantes, necessários, validados. Mas e quando a porta se fecha? Quem somos quando não estamos escutando alguém?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Esse apego pode ser um reflexo de uma necessidade inconsciente de ser significativo para o outro. Pode ser um sintoma de uma dinâmica interna que não resolvemos, de uma busca por pertencimento ou reconhecimento. E é exatamente aí que a sombra se manifesta.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A sombra pode nos fazer acreditar que o valor do nosso ser está no que oferecemos ao outro, e não em quem somos de fato. Se nos enxergamos apenas como guias, podemos nos esquecer de que também precisamos nos guiar. Jung alertava que <em>aquilo que não reconhecemos em nós mesmos acaba nos controlando de forma inconsciente​.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Então, se a ideia de não existir além do consultório nos perturba, talvez seja hora de perguntar:</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-que-dentro-de-mim-teme-essa-ausencia-o-que-estou-projetando-na-relacao-terapeutica-que-na-verdade-pertence-a-mim" style="font-size:19px"><strong><em>O que dentro de mim teme essa ausência? O que estou projetando na relação terapêutica que, na verdade, pertence a mim?</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Se sentimos um vazio quando um paciente desaparece ou encerra a terapia, pode ser um sinal de que <strong>algo nosso estava projetado nessa relação</strong>. Será que estávamos nos alimentando da posição de guia? Será que, de alguma forma, precisávamos ser significativos para o outro para validar nossa própria identidade?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A verdade é que, muitas vezes, o terapeuta se torna um arquétipo dentro da psique do paciente​. Ele pode ser um mentor, um sábio, um curador, mas nunca é visto como um ser humano completo. E essa é uma armadilha perigosa: se nos identificamos demais com esse papel simbólico, podemos perder de vista quem realmente somos. Jung nos alerta que:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Projeções de natureza arquetípica envolvem uma dificuldade particular para o analista. Toda profissão tem seus entraves, e o da análise é de tornar-se infeccionada de projeções e transferências, principalmente das de natureza arquetípica, quando o paciente supõe que o analista é o preenchimento dos seus sonhos, não um médico comum, mas um herói espiritual e uma espécie de salvador; é evidente que o terapeuta dirá: &#8216;Mas que bobagem! Isso é doentio, não passa de um exagero histérico&#8217;. Não obstante, esse endeusamento é uma tentação; a coisa parece ser boa demais.&nbsp;</p><cite>(Jung, 2015, p. §353)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-isso-e-fundamental-refletirmos-estamos-conscientes-das-projecoes-que-recaem-sobre-nos-estamos-diferenciando-o-que-e-nosso-e-o-que-e-do-outro" style="font-size:19px">Por isso, é fundamental refletirmos: estamos conscientes das projeções que recaem sobre nós? Estamos diferenciando o que é nosso e o que é do outro?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O terapeuta precisa ser um espelho para o paciente, mas não pode esquecer de olhar para o próprio reflexo. Caso contrário, pode acabar se perdendo na imagem que o outro vê.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Essa reflexão começou com uma pergunta simples, mas profunda: <strong>será que eu existo para além do consultório?</strong>. O relato da minha colega sobre a morte de sua paciente me fez perceber que, em muitos momentos, o terapeuta pode ser reduzido a uma função, a um papel que desaparece assim que o paciente se vai.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Mas essa sensação de inexistência pode ser um convite para algo maior. Se nos sentimos perdidos quando deixamos de ser &#8220;o terapeuta&#8221;, é porque ainda há partes nossas esperando para serem reconhecidas. A sombra pode estar nos dizendo que há algo dentro de nós que precisa ser integrado, algo que não pode ser preenchido apenas pela validação do outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Ser terapeuta é uma parte importante da nossa identidade, mas <strong>não pode ser a única</strong>. Se nos identificamos demais com essa persona, nos arriscamos a esquecer quem somos quando não estamos no papel de guias.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">No final, talvez a questão não seja sobre nossa existência para os outros, mas sobre nossa existência para nós mesmos. Se conseguimos nos ver como seres inteiros, que transitam entre diferentes papéis sem perder a essência, então o que acontece no consultório se torna apenas um reflexo de algo muito maior: <strong>a nossa própria jornada de individuação</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">E essa é uma jornada que, assim como a do paciente, nunca acaba.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📜Artigo novo: A Sombra da Inexistência do Terapeuta" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/Wf_OXyCYUvc?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/daniel/"><strong>Daniel Gomes – Membro Analista</strong> &#8211;<strong> IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Membro Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:20px"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Jung, C. G. (2014). O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Ed. Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Jung, C. G. (2015). A vida simbólica. Petrópolis: Ed. Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Jung, C. G. (2015). Aion – Estudos sobre o Simbolismo do Si-mesmo. Petrópolis: Ed. Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:24px"><strong>Canais IJEP:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Saiba mais sobre nossos Cursos, Congressos e Pós-graduações</strong>&nbsp;com inscrições abertas: Psicologia Analítica, Psicossomática, Arteterapia e Expressões Criativas, matrículas abertas –&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/">www.ijep.com.br</a></p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="533" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/03/image-2-1024x533.png" alt="" class="wp-image-10295" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/03/image-2-1024x533.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/03/image-2-300x156.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/03/image-2-768x400.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/03/image-2-150x78.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/03/image-2-450x234.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/03/image-2-1200x624.png 1200w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/03/image-2.png 1536w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



<h1 class="wp-block-heading" id="h-nbsp">&nbsp;</h1>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Os Desafios da Transformação Pessoal: Uma Perspectiva Junguiana</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/os-desafios-da-transformacao-pessoal/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniel Gomes]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 10 May 2024 16:06:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nos últimos tempos, um fenômeno intrigante tem dominado minhas reflexões: a transformação pessoal sob a ótica das perspectivas junguianas, especificamente a tensão entre o mundo externo e o interno. Essa reflexão surge não apenas como um eco das interações diárias, mas como uma investigação profunda das dinâmicas que moldam nossa existência.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.6">Nos últimos tempos, um fenômeno intrigante tem dominado minhas reflexões: a transformação pessoal sob a ótica das perspectivas junguianas, especificamente a tensão entre o mundo externo e o interno. Essa reflexão surge não apenas como um eco das interações diárias, mas como uma investigação profunda das dinâmicas que moldam nossa existência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.6">No âmbito da psicologia junguiana, a distinção entre o mundo externo e o mundo interno é fundamental para entender a jornada do autoconhecimento e da transformação pessoal. O mundo externo, em sua essência, representa o domínio da consciência. É o espectro da nossa experiência direta, compreendendo tudo o que percebemos, pensamos e agimos de forma consciente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-o-palco-onde-nossas-interacoes-sociais-decisoes-e-comportamentos-manifestam-se-moldados-por-nossa-percepcao-consciente-da-realidade" style="font-size:20px">É o palco onde nossas interações sociais, decisões, e comportamentos manifestam-se, moldados por nossa percepção consciente da realidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.6">Contrapondo-se a isso, o mundo interno é o reino do inconsciente. Uma vasta e profunda camada da psique que abriga nossos desejos reprimidos, memórias esquecidas, impulsos e as partes de nós mesmos que ficam fora do alcance da consciência direta. Este mundo interno é um reservatório de símbolos, sonhos e imagens arquetípicas que influenciam profundamente nosso comportamento e atitudes, muitas vezes de maneiras que não compreendemos plenamente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-a-partir-desta-falta-de-compreensao-que-podemos-observar-o-inconsciente-se-comportando-de-forma-compensatoria-como-esclarece-jung" style="font-size:19px">É a partir desta falta de compreensão que podemos observar o inconsciente se comportando de forma compensatória, como esclarece Jung.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>A experiência no campo da psicologia analítica nos tem mostrado abundantemente que o consciente e o inconsciente raramente estão de acordo no que se refere a seus conteúdos e tendências. Esta falta de paralelismo, como nos ensina a experiência, não é meramente acidental ou sem propósito, mas se deve ao fato de que o inconsciente se comporta de maneira compensatória ou complementar em relação à consciência. (JUNG, 2011e, p. 13)</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.6">A relação entre esses dois mundos é dinâmica e interativa. O inconsciente não é um mero depósito de conteúdos esquecidos ou reprimidos. Ele é, também, uma fonte de sabedoria e criatividade, influenciando a maneira como nos relacionamos com o mundo externo e moldando nossa consciência através de processos simbólicos e projetivos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.6">A consciência, por sua vez, pode servir como uma lente que seleciona, interpreta e dá significado às informações que emergem do inconsciente. Integrando-as em nossa percepção de nós mesmos e do mundo. Este diálogo contínuo entre o interno e o externo é o que possibilita o crescimento psicológico e a individuação. Permitindo que nos tornemos seres mais completos e integrados, conscientes tanto das luzes quanto das sombras que residem em nosso ser.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.6">Um aspecto particularmente fascinante da transformação pessoal é a interação dinâmica entre mudanças internas e suas manifestações no mundo externo. Essa relação evidencia-se claramente na jornada de alterar hábitos ou padrões de vida. Quando decidimos, por exemplo, abandonar o sedentarismo em busca de uma vida mais ativa, essa mudança interna desencadeia uma série de reações no ambiente externo, muitas vezes resistindo à nova direção que escolhemos seguir.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.6">Esta resistência do externo não é simplesmente um obstáculo físico. Ela ressoa profundamente com nossas próprias resistências internas, trazendo à superfície conflitos e tensões que talvez não estivéssemos prontos para enfrentar. O círculo de amigos que compartilhava dos nossos hábitos sedentários pode não apenas deixar de apoiar nossa nova escolha de vida, mas também agir, ainda que conscientemente, como um espelho das dúvidas e hesitações que carregamos internamente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-dinamica-revela-um-dos-desafios-mais-profundos-na-terapia-junguiana-o-confronto-com-os-pares-de-opostos" style="font-size:20px">Essa dinâmica revela um dos desafios mais profundos na terapia junguiana: o confronto com os pares de opostos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.6">Representados alternadamente pelo mundo interno e pelo externo, e vice-versa. A mudança interna provoca uma transformação no externo, que por sua vez, desperta novas resistências internas. Estamos, portanto, em um ciclo contínuo de ação e reação. Onde cada mudança interna desafia o status quo do nosso ambiente externo, e cada resistência externa nos força a reavaliar e fortalecer nossas convicções internas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-jung-nao-pode-haver-totalidade-enquanto-nao-existir-interacao-justa-entre-os-dois-mundos" style="font-size:20px">Para Jung, não pode haver totalidade enquanto não existir interação justa entre os dois mundos:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Consciência e inconsciente não constituem uma totalidade quando um é reprimido e prejudicado pelo outro. Se eles têm de combater-se, que se trate pelo menos de um combate honesto, com o mesmo direito de ambos os lados. Ambos são aspectos da vida. A consciência deveria defender sua razão e suas possibilidades de autoproteção, e a vida caótica do inconsciente também deveria ter a possibilidade de seguir o seu caminho, na medida em que o suportarmos. Isto significa combate aberto e colaboração aberta ao mesmo tempo. Assim deveria ser, evidentemente, a vida humana. É o velho jogo do martelo e da bigorna. O ferro que padece entre ambos é forjado num todo indestrutível, isto é, <em>num individuum</em>. (JUNG, 2012c, p. 288)</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.6">Navegar por essa dinâmica requer uma conscientização profunda e uma vontade genuína de crescer. Na terapia junguiana, aprendemos a reconhecer esses ciclos não como barreiras intransponíveis, mas como oportunidades para um aprofundamento da nossa jornada pessoal. Ao enfrentarmos essas resistências, internas e externas, abrimos caminho para uma transformação mais integral e significativa, onde o interno e o externo, em vez de se oporem, começam a dançar em harmonia, refletindo um ao outro em um processo contínuo de crescimento e autoconhecimento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-este-mergulho-no-interior-nao-e-menos-desafiador" style="font-size:20px">Este mergulho no interior não é menos desafiador.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.6">Conforme voltamos para dentro, somos confrontados com nossas próprias sombras. Aquelas partes de nós que frequentemente preferimos não ver, afinal para Jung, ela “<strong>personifica tudo o que o sujeito não reconhece em si e sempre o importuna, direta ou indiretamente, como por exemplo traços inferiores de caráter e outras tendências incompatíveis</strong>” (JUNG, 2012c, p. 284).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.6">O processo de autoconhecimento e transformação pessoal, portanto, requer uma coragem imensa para enfrentar não apenas o que o mundo nos apresenta, mas também o que nós mesmos trazemos à tona.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.6">A interação com o externo, por sua vez, revela-se um terreno fértil para projeções. Quantas vezes atribuímos aos outros qualidades ou defeitos que, na realidade, residem em nós? Reconhecer e aceitar essa projeção não é um exercício de culpa, mas de liberação. Ao assumir a responsabilidade por nossas projeções, iniciamos o processo de reintegração, trazendo à consciência aspectos de nós mesmos anteriormente negados ou desconhecidos e neste sentido, Jung esclarece que:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.6">À medida que a sombra representa a figura mais próxima da consciência e a menos explosiva, ela constitui também aquele aspecto da personalidade que, na análise do inconsciente, é o primeiro a manifestar-se&nbsp;(JUNG, 2012c, p. 273)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.6">A verdadeira transformação, ocorre não no isolamento de uma sala de terapia, mas no teatro da vida diária. É no enfrentamento de nossos medos, na aceitação de nossas sombras e na celebração de nossas luzes que começamos a reconfigurar não apenas nossa percepção de nós mesmos, mas também nossa interação com o mundo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-talvez-o-mais-desafiador-neste-processo-seja-a-integracao-dos-opostos" style="font-size:20px">Talvez, o mais desafiador neste processo seja a integração dos opostos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.6">A sabedoria junguiana nos ensina que dentro de cada um de nós existem polaridades &#8211; masculino e feminino, luz e sombra, consciente e inconsciente. </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.6">O importante é observar estes conceitos não como uma luta, mas como uma dança, buscando harmonia entre esses aspectos aparentemente contraditórios, nas palavras do próprio Jung, “<strong>Sem a vivência dos opostos não há experiência da totalidade</strong>” (JUNG, 2011g, p. 32)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.6">Em conclusão, a jornada de transformação pessoal é um convite não apenas para mudar, mas para se tornar. Tornar-se mais autêntico, mais inteiro, mais verdadeiramente humano. É um caminho marcado por desafios e descobertas, dor e alegria, perda e ganho. É o caminho do fogo dos afetos, segundo Jung esse conflito: &nbsp;</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>[&#8230;] gera o fogo dos afetos e emoções e, como todo fogo, este também tem dois aspectos, ou seja, o da convulsão e o da geração da luz. A emoção é por um lado o fogo alquímico, cujo calor traz tudo à existência e queima todo o supérfluo <em>(omnes superfluitates comburit)</em>. Por outro lado a emoção é aquele momento em que o aço ao golpear a pedra produz uma faísca: emoção é a fonte principal de toda tomada de consciência. Não há transformação de escuridão em luz, nem de inércia em movimento sem emoção. (JUNG, 2012c, p. 102)</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.6">E, embora a caminhada seja profundamente pessoal, ela ressoa com uma verdade universal: <strong>somos todos viajantes em busca de significado, conexão e, finalmente, transformação</strong>.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Os Desafios da Transformação Pessoal: Uma Perspectiva Junguiana" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/UV5G6fRGvMA?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/daniel/">Daniel Gomes &#8211; Analista em Formação IJEP</a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi &#8211; Analista Didata IJEP</a></p>



<h1 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:21px">Referências:</h1>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. (2011e). <em>A natureza da psique</em> (8 ed., Vol. 8/2). Petrópolis: Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. (2011g). <em>Psicologia e alquimia</em> (Vol. 12). Petrópolis: Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. (2012c). <em>Os arquetipos e o inconsciente coletivo</em> (8 ed., Vol. 9/1). Petrópolis: Vozes.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Aproveite para nos acompanhar no YouTube:&nbsp;<a href="https://www.youtube.com/channel/UCrbwUrT0W4Tp-swBxAVwX5Q">Canal IJEP – Bem vindos(as)! (youtube.com)</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Acesse nosso site e conheça nossos cursos e pós-Graduações:&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/">IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a></p>



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<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><img decoding="async" width="1024" height="1024" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2024/05/0-2-1024x1024.png" alt="" class="wp-image-9035" style="width:417px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/05/0-2-1024x1024.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/05/0-2-300x300.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/05/0-2-150x150.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/05/0-2-768x768.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/05/0-2-450x450.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/05/0-2.png 1080w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>A morte e os sonhos compensatórios dos que ficam</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/morte-e-sonhos-compensatorios/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniel Gomes]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 07 Mar 2024 23:02:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Morte]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=8849</guid>

					<description><![CDATA[<p>No meu texto, exploro a capacidade compensatória da psique diante da morte, especialmente na abordagem terapêutica junguiana. Destaco a relevância da terapia nesses momentos críticos, revelando o caminho compensatório do inconsciente. Compartilho um caso clínico ao analisar uma sequencia de seus sonhos, percebo a busca do inconsciente por significados e a representação simbólica da morte. Destaco a necessidade de paciência na prática junguiana, respeitando os processos individuais. O último sonho revela um momento de aceitação e continuidade da vida após a perda, destacando a função compensatória e pedagógica dos sonhos. Concluo ressaltando a importância dessas experiências na reflexão dos caminhos futuros.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo: </strong>No meu texto, exploro a capacidade compensatória da psique diante da morte, especialmente na abordagem terapêutica junguiana. Destaco a relevância da terapia nesses momentos críticos, revelando o caminho compensatório do inconsciente. Compartilho um caso clínico ao analisar uma sequencia de seus sonhos, percebo a busca do inconsciente por significados e a representação simbólica da morte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Destaco a necessidade de paciência na prática junguiana, respeitando os processos individuais. O último sonho revela um momento de aceitação e continuidade da vida após a perda, destacando a função compensatória e pedagógica dos sonhos. Concluo ressaltando a importância dessas experiências na reflexão dos caminhos futuros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quero trazer uma reflexão sobre a capacidade compensatória e reparadora que existe em nossa psique, principalmente em momentos de grande tensão como a partida repentina de um ente querido. <strong>Em muitos momentos, a morte acontece de forma abrupta e inesperada, de tal forma que o acontecimento nos deixa sem chão</strong>. O trabalho no consultório nos oferece uma abertura não só para vivenciar o caminho compensatório que o inconsciente escolhe para ajudar a pessoa, como também testa o próprio analista em sua fé diante das incertezas com as quais precisamos lidar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-e-possivel-oferecer-uma-certeza-para-quem-procura-a-terapia-junguiana-mas-e-possivel-oferecer-um-caminhar-junto-e-torcer-para-que-o-melhor-possa-acontecer-durante-esse-caminhar" style="font-size:17px">Não é possível oferecer uma certeza para quem procura a terapia junguiana, mas é possível oferecer um caminhar junto e torcer para que o melhor possa acontecer durante esse caminhar. </h2>



<p class="wp-block-paragraph">Von Franz, ao acompanhar alguém diante do final da vida, destaca que o inconsciente continua sua busca pelo desenvolvimento e explica que:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>A única coisa que se podia notar era que o inconsciente insistia ainda mais implacavelmente do que antes sobre a verdade interior, como se então fosse realmente urgente desapegar-se de todas as ilusões e de todos os autoenganos neuróticos (VON FRANZ, 1995, p. 80).</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">A história que quero trazer para essa reflexão foi vivenciada no contexto analítico na minha prática clínica. Um jovem de 24 anos chegou ao consultório muito abalado por conta da morte da ex-namorada. Apesar de fazer algumas mudanças para preservar a identidade do cliente, também tenho sua permissão para trazer sua experiência na elaboração deste luto neste artigo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há trinta dias, tinha recebido a notícia da morte da ex-namorada após o término da relação. Ele não se sentia feliz e, por isso, resolveu terminar. Esse é o primeiro problema, pois um dos questionamentos era: e se eu não tivesse terminado, a morte poderia não ter acontecido? Eu lhe expliquei um pouco a forma como eu trabalho e, por isso, sugeri que passasse a anotar seus sonhos. Na semana seguinte, chegou com o seguinte sonho:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:14px">
<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Do alto de um morro eu vejo minha ex-namorada caminhando em direção a um campo de trigo, logo atrás um objeto incandescente ia queimando o campo até que ela desaparece junto com todo campo, me desespero e choro como uma criança.&#8221;</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-aquele-sonho-mexeu-muito-com-ele-apenas-o-colocou-mais-ainda-intensamente-diante-daquela-dor">Aquele sonho mexeu muito com ele, apenas o colocou mais ainda intensamente diante daquela dor </h2>



<p class="wp-block-paragraph">E as reflexões foram várias diante deste sonho, mas a pergunta que mais mexeu com ele era sobre <strong><em>qual parte dele estava sendo representada naquele sonho</em></strong>. Dentro de uma visão mais religiosa, ficaríamos apenas com o entendimento de que poderia ser uma possível mensagem de quem já partiu, o que até poderia ser de fato, se isso faz sentido para o indivíduo, mas dentro da visão junguiana precisamos considerar qual é a intenção do inconsciente. Por que a psique dele estava usando aquela imagem? Von franz analisa um sonho parecido e cita Jung para explicar algo que pode nos dar uma chave para entendermos o sentido destes sonhos:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não foi nenhuma mera coincidência o fato de o inconsciente escolher a imagem de uma floresta para descrever a destruição do corpo mortal. Segundo Jung, a floresta simboliza aquela região da psique inconsciente onde essa derradeira instância se funde com os processos fisiológicos no corpo.</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p>&#8220;Todavia, a vegetação também possui um indomável desejo de vida. Sua capacidade de regeneração na natureza é sempre surpreendente&#8221; (VON FRANZ, 1995, p. 84).</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-entendia-que-o-inconsciente-nao-se-importava-com-a-morte-pois-lidava-com-a-morte-como-se-nada-tivesse-acontecido"><strong>Jung entendia que o inconsciente não se importava com a morte, pois lidava com a morte como se nada tivesse acontecido</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda sobre o sonho, não podemos nos esquecer da explicação dada por Von Franz, que “Osíris, o deus egípcio da morte, com quem todos os mortos se fundem após o fim, chamava-se ‘trigo’” (VON FRANZ, 1995, p. 85).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Imediatamente em seguida foram muitos sonhos com a ex-namorada, sonhos que retratavam uma vida normal, como se nada tivesse acontecido, o que eu quero dizer é que para mim a ex ainda continuava viva, pelo menos dentro dele. De certa forma, isso lhe trouxe conforto e abriu espaço para se trabalhar outras coisas importantes, que diziam respeito exclusivamente à sua vida, à forma como ele estava se vendo diante do mundo. Foi preciso olharmos para a relação com os pais, com o irmão, sua relação com o trabalho e como ele iria viver a vida daqui para frente. Durante semanas, os sonhos se repetiam com o mesmo conteúdo onde ele continuava a namorar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sao-momentos-como-estes-que-aprendemos-a-ter-paciencia-a-confiar-que-existe-algo-acontecendo-que-esta-muito-alem-dos-nossos-olhos" style="font-size:21px">São momentos como estes que aprendemos a ter paciência, a confiar que existe algo acontecendo que está muito além dos nossos olhos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A prática junguiana é um processo colaborativo. <strong>O analista e o paciente trabalham juntos para entender a psique do paciente</strong>. O analista fornece orientação e apoio, mas o paciente é o responsável pelo seu próprio processo de desenvolvimento. O que nos cabe é ser um espelho menos deformado possível. O analista precisa ser capaz de suportar as suas incertezas e incapacidades, pois não se trata de ser um indivíduo super capacitado e perfeito, trata-se de ser um ser humano com as mesmas dores que qualquer outro. Precisamos confiar e nos esforçar para respeitar os sonhos, Jung explica que:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>A compensação inconsciente de um estado neurótico da consciente contém todos os elementos que quando conscientes, isto é, quando compreendidos e integrados como realidades na consciência[&#8230;] No tratamento esforçamo-nos, por conseguinte, por compreender e respeitar, na medida do possível, os sonhos e demais manifestações do inconsciente; por um lado, para evitar a formação de uma posição inconsciente, que com o passar do tempo, pode tornar-se perigosa, e por outro, paralisar, na medida do possível, o fator curativo da compensação.(JUNG,2012,p.123)</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-ponto-alto-deste-processo-todo-foi-o-ultimo-sonho-desta-serie-que-eu-passo-a-reproduzir-aqui-na-integra" style="font-size:19px">O ponto alto deste processo todo foi o último sonho desta série que eu passo a reproduzir aqui na íntegra:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>&#8220;Eu me encontrava com minha ex-namorada, ela pega em minha mão e me leva por uma viagem, passamos em todos os lugares que havíamos planejado, mas não tivemos tempo de realizar, nesta viagem fizemos coisas que deixamos de fazer, passamos pelos lugares mais belos, de repente começamos a voltar até que em um determinado momento da viagem ela diz: Agora eu posso seguir. Neste momento ela larga minha mão e automaticamente me vejo junto com a minha família, feliz. Imediatamente fui tomado por uma grande emoção e entendo que a minha vida tinha que continuar.&#8221;</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Quando ele termina de contar esse sonho, ficamos parados em silêncio por um longo período, durante um tempo ninguém tinha coragem de pronunciar uma palavra sequer, mas dentro, pelo menos, dentro de mim, um turbilhão de emoções me tomava. Não conseguia deixar de pensar no belo trabalho que o inconsciente produziu. <strong>O que fica claro para mim é que precisamos permitir e dar espaço para que o inconsciente faça sua parte, porque é ele que irá possibilitar a nossa verdadeira realização</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez essa seja uma metáfora que podemos usar da alquimia, nós precisamos ser o mestre de obra que constrói o laboratório para que este grande mestre alquimista chamado self possa fazer suas operações.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-este-e-um-exemplo-de-como-a-psique-humana-em-momentos-de-profunda-dor-e-perda-busca-meios-simbolicos-para-lidar-com-a-complexidade-da-existencia-e-da-morte" style="font-size:18px">Este é um exemplo de como a psique humana, em momentos de profunda dor e perda, busca meios simbólicos para lidar com a complexidade da existência e da morte.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Cada sonho, cada imagem, torna-se uma tela onde o inconsciente pinta seus próprios quadros, tecendo significados e ressignificando a vida daquele que fica. Essa vivencia serve para confirmar o quanto que os sonhos, além de compensatórios, possuem características pedagógicas e de possibilitar a reflexão dos caminhos futuros.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/daniel/">Daniel Gomes – Analista em formação pelo IJEP</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi – Analista Didata IJEP</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. (2012). Psicologia do inconsciente. Petrópolis: Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">VON FRANZ, M. L. (1995). A morte a luz da psicologia. São Paulo: cultrix</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Acesse nosso site e conheça nossas Pós-Graduações:&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/">IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a></p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Vem aí</strong>: IX Congresso Junguiano do IJEP: “Arteterapia e Expressões Criativas na Psicologia Analítica”. Inscreva-se já:&nbsp;<a href="https://ijep.pages.net.br/ix-congresso-ijep-arteterapia">congresso.ijep.com.br</a></p>



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		<item>
		<title>A Transformação do Homem através da Anima: Reflexões a partir do Mito de Percival e a Psicologia de Jung e Johnson</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/transformacao-do-homem/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniel Gomes]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 28 Feb 2024 19:31:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
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		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O artigo explora a transformação masculina através da anima, com base no Mito de Percival e nas teorias de Jung e Johnson. Destaca-se a importância da anima como uma força primitiva que desafia abstrações, enfatizando sua natureza complexa. A dualidade, confronto com obstáculos externos, e a necessidade de cura interna são abordados, assim como o papel do mito na busca pela totalidade. A influência duradoura da figura materna é analisada através do mito do dragão. Em conclusão, destaca-se o processo de integração como essencial para a realização pessoal. O artigo oferece uma exploração profunda da jornada do homem em busca de autenticidade através da transformação da anima.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Explore a jornada de transformação do homem através da anima, analisando o Mito de Percival e as teorias psicológicas de Jung e Johnson. Descubra como a dualidade interna, confrontos externos e a cura interna são fundamentais para a consolidação da masculinidade e realização pessoal.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-uma-camada-primitiva-na-psicologia-do-homem-que-segundo-jung-e-representada-pela-anima"><strong>Há uma camada primitiva na psicologia do homem que, segundo Jung, é representada pela anima</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Em sua essência, a psicologia primitiva rejeita abstrações, e as línguas primitivas têm poucos conceitos. Nesse contexto, <strong>a anima emerge como uma força primitiva</strong>, resistindo à mera noção abstrata. Jung destaca que o entendimento da anima como um complexo que se comporta quase como uma pessoa é crucial. A anima não é apenas uma abstração científica, para <strong>Jung</strong>:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:16px"><blockquote><p>O termo científico nada transmite e a mera noção abstrata da anima também não transmite nada, quando você pressupõe que a anima é quase pessoal, mas um complexo que se comporta exatamente como se ela fosse simples pessoa, ou as vezes como se fosse uma pessoa uma muito importante, logo você entende isso quase que corretamente. (JUNG, 2019, p.221)</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Robert A. Johnson</strong>, em seu livro &#8220;He&#8221;, explora a dualidade do universo e destaca que para compreender a unicidade é necessário a percepção da dualidade e sua respetiva diferenciação. Johnson ressalta a importância de diferenciar o mundo interior do exterior, e a verdadeira atuação na unidade só é possível quando essa distinção é clara. É possível ter uma percepção clara desta dualidade nas projeções da vida cotidiana Jhonson capta bem esse problema ao apontar que o problema deste sofrimento e desta que:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:16px"><blockquote><p>O homem é muitas vezes levado a fazer coisas estúpidas na tentativa de curar a ferida e suavir o desespero que sente. É como se buscasse uma solução inconsciente, fora de si próprio, queixando-se do seu trabalho, do casamento ou do lugar que tem no mundo. Pode até nessa fase, tentar encontrar uma outra mulher (JOHNSON, 1992, p. 21).</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Para<strong> Johnson</strong>, &#8220;Nenhum esforço exterior é possível se nossa capacidade interior está ferida&#8221; (JOHNSON, 1992, p. 25), destaca a necessidade de cura interna antes de qualquer empreendimento externo eficaz. Esta perspectiva ecoa a jornada de Parsifal, onde a busca por algo no interior, que corresponda à idade e mentalidade do momento da ferida, é essencial para a cura.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-mito-de-persifal-johnson-destaca-a-necessidade-de-despertar-o-parsifal-no-homem">No mito de Persifal, Johnson destaca a necessidade de despertar o &#8220;Parsifal&#8221; no homem.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O despertar não apenas traz alegria à parte anteriormente incapaz de felicidade, mas também infunde vida. A dualidade presente no homem, representada pelo lado violento que precisa ser dominado, é uma jornada em direção à integração consciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O confronto com obstáculos externos é fundamental para consolidar a masculinidade, desafiando a vontade e identidade do homem. Isto porque desde a infância precisa aprender a dominar o instinto violento de sua natureza, que sem a conscientização pode vir a se tornar dominado por essa sombra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Johnson também ressalta a importância do papel paterno na vida do <strong>adolescente</strong>, sugerindo que, nos dias de hoje, a intimidade entre pai e filho muitas vezes é perdida, tornando-se necessário um mentor, um guia masculino, para continuar o processo de treinamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando esse processo de desenvolvimento não acontece de forma satisfatório o homem pode cair no encantamento do dragão &#8211; que contém representação de uma variação da imago da mãe-, Johnson descreve a dinâmica psicológica não resolvida que os homens mantêm com o complexo materno desde a infância. Esse &#8220;dragão&#8221; é uma representação da relação complexa e ao permanecer não resolvida, tal figura acaba influenciando suas vidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Concluindo, Johnson destaca que o verdadeiro trabalho do homem na fase final da vida é o processo de trazer elementos do inconsciente e integrá-los ao consciente</strong>. Essa integração, segundo ele, é essencial para a totalidade e realização do indivíduo (cf JOHNSON, 1992, p. 82).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-aprofundando-a-jornada-interior-explorando-as-fases-da-transformacao-masculina"><strong>Aprofundando a Jornada Interior: Explorando as fases da Transformação Masculina</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ao nos aprofundarmos na jornada de transformação delineada por Jung e Johnson, é imperativo explorar as várias fases dessa busca interior. Ao sofrer, o homem muitas vezes procura soluções externas para aliviar seu desespero, manifestando-se em reclamações sobre vários aspectos de sua vida. Essa busca inconsciente por soluções fora de si mesmo destaca a necessidade premente de cura interna antes de qualquer empreendimento externo. <strong>A jornada de Parcifal nos mitos aponta para a necessidade de se realizar uma colaboração entre o mundo interno e externo</strong> (cf. Johnson).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A dualidade inerente ao homem, simbolizada pelo lado violento que requer domínio, revela-se como um caminho em direção à integração consciente.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">A consolidação da masculinidade, requer o enfrentamento de obstáculos externos. Esse confronto desafia a vontade e a identidade do homem, sendo fundamental para seu desenvolvimento. O mito do dragão, que encanta as pessoas, assume uma nova dimensão ao ser interpretado como a dinâmica psicológica não resolvida que os homens mantêm com o complexo materno.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O <strong>acesso de mau humor</strong>, frequentemente manifestado como uma resposta inconsciente a essa dinâmica não resolvida, destaca a influência duradoura da figura materna nas vidas dos homens (cf. JOHNSON, 1992, p. 29).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao final da jornada, Johnson aponta que o verdadeiro trabalho do homem na fase final da vida é o processo de <strong>trazer elementos do inconsciente e integrá-los ao consciente</strong>. Essa integração é uma etapa essencial para alcançar a totalidade e a realização pessoal.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-consideracoes-finais"><strong>Considerações finais</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">À luz das reflexões proporcionadas por Jung e Johnson, a jornada do homem em direção à transformação é uma exploração multifacetada da psique.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A <strong>anima</strong>, como uma força primitiva, desafia as noções convencionais e exige uma compreensão profunda. A <strong>dualidade</strong>, representada nos mitos e nas obras de Johnson, é uma realidade que requer diferenciação e consciência para a busca efetiva da unicidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-busca-por-solucoes-externas-em-momentos-de-desespero-ressalta-a-urgencia-da-cura-interna">A busca por soluções externas em momentos de desespero ressalta a urgência da cura interna.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O mito de Parsifal, com seu chamado para despertar esta imagem interior, revela-se como um caminho em direção à integração consciente, exigindo a superação do lado violento inerente. A consolidação da masculinidade, através do confronto com obstáculos externos, destaca a importância do papel de um guia na jornada do homem. Tais dinâmicas não resolvidas com a imago materno, personificada pelo mito do dragão, continua a exercer uma influência significativa, moldando as respostas inconscientes dos homens.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No final, o processo de trazer elementos do inconsciente para o consciente, é vital para a busca contínua pela totalidade e realização pessoal. A transformação do homem através da anima é uma jornada que transcende o tempo, uma exploração constante das profundezas da psique masculina em busca de autenticidade e totalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo Jung, o confronto com a sombra é obra de amador diante do confronto com a anima, porém, enquanto a sombra não tiver sido integrada, a expressão da anima será absolutamente tingida por ela. Ao invés dela funcionar como um psicopompo que vai levar ele para relação com o si-mesmo que é a sua centelha divina ela o levará para as profundezas mais tenebrosas e assustadoras.</p>



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<iframe title="Artigo Novo: &quot;A Transformação do Homem através da Anima&quot; #anima  #psicologiajunguiana" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/NoCmGg_Ung4?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Daniel Gomes – Analista em formação pelo IJEP</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Waldemar Magaldi – Analista Didata</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-bibliografia">Bibliografia:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. (2019). Aspectos do masculino. Petrópolis: Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JOHNSON, R. A. (2013). He: Compreendendo a Psicologia Masculina. São Paulo: Mercuryo</p>



<p class="wp-block-paragraph">JOHNSON, R. A. (1994). Homem: A chave do entendimento dos três níveis da consciência masculina. São Paulo: Mercuryo</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Imagem por por Pixabay</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Acesse nosso site e conheça nossas Pós-Graduações:&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/">IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a></p>



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		<title>O mundo moderno e a falta de tempo</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-mundo-moderno-e-a-falta-de-tempo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniel Gomes]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 20 Sep 2022 18:48:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Mercado de Trabalho]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>É muito comum nos depararmos com o problema da falta de tempo e tudo o que ele nos provoca, apesar de toda tecnologia do mundo moderno, parece que cada vez mais estamos submersos na falta de tempo. Estamos sempre em busca de ser mais eficiente em qualquer tarefa, buscamos por soluções rápidas que possam agilizar o dia a dia. Uma eterna busca de mais tempo para ser consumido pela nossa falta de tempo. Mas, você já se perguntou por que isso tem acontecido? A proposta deste novo artigo é refletir sobre esse questionamento e tantos outros que acabam surgindo a respeito do mesmo problema.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Há não muito tempo atrás &#8211; para ser mais preciso há trinta anos &#8211; quando a minha maior preocupação era apenas a escola, as férias de julho e a chegada do mês de dezembro, porque além dos presentes de natal eu teria muito tempo para brincar, esses intervalos entre um período de férias e o final do ano pareciam levar uma eternidade para acontecer. As férias de julho nunca chegavam, mas quando eram anunciados os vinte e poucos dias duravam quase dois meses, a chegada do final de ano e o fim do ano letivo pareciam ter muito mais que dois meses para acabar. Essa percepção que eu tinha do mundo quando criança foi gradativamente diminuindo e hoje eu tenho a mesma sensação que muitas pessoas dizem ter – o tempo está passando muito mais rápido.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A cada dia parece que o ser humano tem uma percepção mais nítida da escassez do tempo. Quem nunca brincou pedindo um tempo além das 24 horas normais de um dia? O mundo moderno e as condições a que nos submetemos parecem piorar mais ainda essa relação. Estamos sempre em busca de conseguir mais tempo, aplicativos que nos ajudam a diminuir o tempo no trânsito, cursos que prometem melhorar nossa administração e organização do tempo, busca por soluções mágicas que resolvam nossos problemas emocionais de forma rápida e sem muito esforço. Não é raro alguém chegar no consultório fazendo as seguintes perguntas:&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quanto tempo leva a terapia?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quantas sessões precisam para resolver o meu problema?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, por que estamos vivenciando esse fenômeno? Por que parece que as vinte e quatro horas do dia não são mais suficientes e por que antigamente a nossa relação com o tempo parecia acontecer de outra forma? Essas são as perguntas que me provocaram e me fizeram refletir sobre a nossa relação com o tempo na contemporaneidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma das coisas mais brilhantes que a psicologia junguiana nos ofereceu é a possibilidade de usar as nossas experiências como meio de observações e pesquisa. Por isso, tudo que nos acontece também pode ser um caminho para o estudo junguiano. Pode parecer estranho o caminho que vou tomar para tentar explicar essa falta de tempo, porém ele pode ser uma possibilidade de investigação.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por volta dos meus 13 anos, quando eu teria que deixar de morar com meus avós, porque haviam decidido que seria melhor deixar a cidade grande, fiz uma promessa para mim mesmo – Um dia voltaria a morar naquele mesmo lugar. Depois de 17 anos a promessa foi cumprida e eu voltei a morar naquele lugar tão importante para minha infância. Hoje, quando me recordo deste momento, algo chama a minha atenção, sempre que estava caminhando pelo bairro os vizinhos pareciam ter a mesma cara do tempo da promessa, eu tinha a nítida impressão de que eles não tinham envelhecido nada, parecia que ali o tempo não havia passado. Isso ficou apenas como uma impressão equivocada e nada mais, porém Jung parece fazer a mesma observação no livro memórias, sonhos, reflexões.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Refletindo sobre a vida depois da morte Jung associou a nossa relação de espaço/tempo de um lado com a relação consciência/inconsciente de outro.&nbsp;&nbsp;Para ele não havia como contestar que a existência psíquica se caracterizava por sua relatividade com o espaço e o tempo, contudo, quando&nbsp;<em>nos “afastamos da consciência, esta relatividade parece se elevar até ao não espacial e a uma intemporalidade absoluta”&nbsp;</em>(Jung, 2015a, p.302) e fez a seguinte observação:</p>



<p class="wp-block-paragraph">As figuras do inconsciente são também &#8220;ininformadas&#8221; e têm necessidade do homem ou do contato com a consciência para adquirir o saber. Quando comecei a me ocupar com o inconsciente, as &#8220;figuras imaginárias&#8221; de Salomé e de Elias desempenharam um grande papel.<br>Em seguida passaram a um segundo plano para reaparecer cerca de dois anos mais tarde. Para meu grande espanto elas não tinham sofrido a menor mudança; falavam e se comportavam como se nesse ínterim absolutamente nada tivesse ocorrido. Entretanto, os acontecimentos mais inauditos tinham-se desenrolado em minha vida. Foi-me necessário, por assim dizer, recomeçar desde o início para lhes explicar e narrar tudo o que se passara. De início fiquei bastante espantado. Só mais tarde compreendia o que tinha acontecido: As figuras de Salomé e Elias haviam nesse meio-tempo soçobrado no inconsciente e em si próprias – poder-se ai também dizer, fora do tempo. Elas ficaram sem contato com o eu e suas circunstâncias variáveis e “ignoravam” por essa razão o que se passará no mundo da consciência. (Jung, 2015, p.303s)</p>



<p class="wp-block-paragraph">O analista junguiano Donald kalsched (2013) em seu trabalho que analisa as defesas que se levantam diante de um episódio traumático, nos oferece um entendimento interessante a respeito destes acontecimentos psíquicos. Kalsched explica que essa parte da psique que sofreu o trauma é separada do restante da psique que continua seu desenvolvimento enquanto a parte dissociada é paralisada no tempo. É justamente por esse mecanismo de defesa da psique, que na tentativa de proteger a integridade do eu consciente, faz com que os episódios do passado sejam vivenciados equivocadamente através de projeções e transferências de sentimentos no momento presente, apesar das defesas, o inconsciente anseia por se tornar conhecido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim como aqueles vizinhos que pareciam congelados no tempo, as percepções do próprio Jung a respeito dos conteúdos, que não estavam em contato com a consciência e não tinham conhecimento dos acontecimentos atuais, foram percebidos congelados no passado. Com isso, com o trabalho de Kalsched sobre o trauma, talvez possamos tomar como possibilidade que a falta de tempo que estamos vivenciando hoje seria um excesso de consciência em detrimento da falta de contato com o inconsciente, e consequentemente consigo mesmo. Porém isto nos levanta outro problema.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim como o crescimento e o amadurecimento precisam de tempo para acontecer, o processo de cura também precisa, mas este só pode acontecer no tempo presente diante do confronto consigo mesmo. E este estar presente é um problema antigo que Blaise Pascal já refletia em outra época:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não ficamos nunca no tempo presente. Antecipamos o futuro como demasiado lento para vir, como para apressar o seu curso; recordamos o passado, para pará-lo, como demasiado pronto: tão imprudentes que erramos nos tempos que não são nossos e não pensamos só no que nos pertence; e tão vãos que sonhamos com os que não são mais nada e evitamos sem reflexão o único que subsiste. É que o presente de ordinário nos fere. Ocultamo-lo à nossa vista, porque nos aflige; e, se nos é agradável, arrependemo-nos de vê-lo escapar. Tratamos de sustentá-lo pelo futuro, e pensamos em dispor as coisas que não estão em nosso poder para um tempo que não temos nenhuma certeza de alcançar. (Pascal, p. 88)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez a falta de tempo tão presente no mundo contemporâneo tenha se tornado a nossa melhor desculpa para evitar a relação entre aquilo que se encontra fora no mundo exterior e aquilo que se encontra em nosso interior.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Acredito que a relação que a humanidade tinha com o tempo em um passado não muito distante tem uma relação com a vida simbólica muito mais rica, nossa consciência não era estimulada o tempo inteiro. Jung quando construiu a torre de Bollingen estava atrás de uma vida mais primitiva, propositalmente ele se colocou ausente de luz elétrica e qualquer facilidade que o mundo moderno pudesse lhe oferecer a fim de possibilitar mais contato com o inconsciente. Jung em suas viagens fora da Europa, visitando povos primitivos, percebeu que não havia muita diferença entre o mundo interno e externo, a vida tinha total relação com a natureza, cada época do ano tinha um significado próprio, cada estação do ano era vivenciada intimamente através de ritualísticas que marcavam cada passagem em direção ao novo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não podemos esquecer que é no inconsciente, neste mundo interior que as novas possibilidades podem surgir, que a criatividade tem seu ponto de partida, assim como as potencialidades de autorrealização.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">De nada adianta uma consciência que se volta apenas para fora, para um autodesenvolvimento que tenta resolver todos os problemas da alma de maneira rápida e sem muito esforço. A pergunta a respeito do tempo de terapia hoje pode ter uma resposta diferente, porque ele está relacionado com a capacidade do indivíduo de lidar consigo mesmo e com o confronto com o inconsciente. E conforme Verena diz:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Podemos até ter as nossas agendas, e nossos compromissos parecem aumentar em número com o passar do tempo e determinar cada vez mais a estrutura do nosso dia a dia; mas existem muitas coisas que não se importam com a nossa agenda. Não posso dizer à minha árvore o quanto ela deve crescer neste ano. Posso apenas desejá-la. (Kast, 2016, p.12)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez o que esteja faltando neste mundo moderno não seja necessariamente o tempo, mas sim a disposição para lidar com nós mesmos. Todas as facilidades que o mundo moderno nos oferece tem nos transformado em máquinas sem nenhum tipo de experiência profunda onde não temos nem mesmo consciência da própria consciência como diz o Prof. Waldemar Magaldi.</p>



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</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Daniel Gomes – Analista em formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Waldemar Magaldi – Analista Didata</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bibliografia</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, C. G. (2015). Memórias, Sonhos, Reflexões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Kalsched, Donald (2013). O mundo interior do Trauma – Defesas arquetípicas do espírito pessoal. São Paulo: Ed. Paulus.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pascal, Blaise. Pensamentos &#8211; Edição eletrônica: Ed Ridendo Castigat Mores.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Kast, Verena (2016). A alma precisa de tempo. Petrópolis: Ed Vozes.</p>
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		<title>A política como espaço de manifestação da sombra</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-politica-como-espaco-de-manifestacao-da-sombra/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniel Gomes]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 28 Apr 2022 15:01:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Ética]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Totalitarismos]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sombra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A política nos últimos anos se tornou o grande tema de discussões acaloradas, o Brasil encontra-se amplamente polarizado. Acusações de ambas as partes sem o menor sinal de racionalidade que possa se apresentar como uma possível integração de cada um dos lados. É neste contexto que a política no Brasil e no mundo pode se tornar um espaço ideal de manifestação das nossas sombras, de tudo aquilo que não reconhecemos em nos mesmos. Neste artigo convido a todos para uma reflexão a respeito da política como espaço de manifestação da sombra.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Nunca nos encontramos tão polarizados diante das questões políticas como nos dias de hoje, lembro bem dos meus pais e avós perguntando uns aos outros em quem votariam. Não existia um receio de se apontar para um candidato ou para outro, naquela época eu tinha a impressão de que todos buscavam fazer a coisa certa com o seu voto. Essa cena hoje em dia me causa saudades, apesar de fazer mais de 30 anos. O fato é que as coisas mudaram e de forma muito rápida, depois desta época. Quando eu já tinha idade suficiente para votar, não queria saber de política, não me interessava quem seria o governador ou presidente, ninguém era honesto o suficiente, a questão importante aqui é a projeção deste pensamento direcionada no político.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O último pleito para presidente no Brasil se tornou o grande marco da polarização que se consolidou. Uma consolidação que talvez há muito tempo já estava em curso, porém apenas de modo inconsciente. Afinal, precisamos ter em mente que qualquer mudança social que presenciamos hoje é fruto de uma movimentação inconsciente que leva anos, e que a priori se manifesta na individualidade de cada um, porém fica mais evidente em um espaço coletivo onde a liberdade e a força do ego se encolhem diante da massificação.&nbsp;<em>Quando se trata do movimento da massa e não mais do indivíduo, cessam os regulamentos humanos e os arquétipos passam a atuar.&nbsp;</em>(Jung, Vol10/2 §395s)</p>



<p class="wp-block-paragraph">É preciso lembrar que não são apenas as mudanças que levam anos e anos para se manifestar, o que se encontra reprimido também. Quando Jung fez uma análise do que estava acontecendo na Alemanha, um pouco antes de estourar a segunda guerra, percebeu a emergência de uma figura arquetípica na imagem de Wotan, com o despertar deste deus germânico no eminente conflito que estava surgindo. Para se ter uma ideia do tempo que se leva para um conteúdo arquetípico atravessar as linhas do inconsciente coletivo, Richard Wagner intuiu a necessidade da transformação da cultura alemã, que foi de certa forma representada no ciclo de 4 óperas conhecidas como “O anel de Nibelungo”. O detalhe é que essas ideias estavam sendo desenvolvidas quase 60 anos antes da primeira guerra mundial e lá já aparece a manifestação desta potencialidade destrutiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez atualmente as repressões não levem tanto tempo assim com o advento tecnológico das redes sociais, a verdadeira face daquilo que se reprime encontrou um caminho de manifestação para além dos sonhos, hoje a constelação de um complexo se manifesta ao vivo e em cores. Basta um celular conectado à internet para se presenciar a sombra de um sujeito emergir em meio a uma guerra, naquele momento o opressor (guardado a sete chaves) encontrava seu verdadeiro espaço entre os oprimidos. Um complexo não escolhe nem hora nem lugar, ele apenas constela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como Jung já demonstrou, a constelação de um complexo pode alcançar tal força que o ego perde sua autonomia, parecendo mais um passageiro de um carro desgovernado. O mundo tecnológico não é único lugar que abre espaço para essas manifestações, a política acaba se tornando um espaço para as manifestações de mesma ordem, porém no âmbito coletivo. Edward Edinger explica que a falta de um espaço que possa comportar as imagens arquetípicas acaba encontrando um caminho na política ou movimentos seculares quando:</p>



<p class="wp-block-paragraph">[…] o valor supra pessoal projetado, que foi retirado do seu recipiente religioso, seja reprojetado em algum movimento secular ou político. Mas os propósitos seculares jamais constituem um recipiente adequado para conteúdos religiosos. Quando a energia religiosa é aplicada a um objeto secular, temos diante de nós algo que se pode descrever como adoração de ídolos – uma forma espúria e inconsciente de religião. O atual exemplo destacado de reprojeção é o conflito entre o capitalismo e comunismo. (Edinger, p.104)</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que Edinger está falando neste recorte pode muito bem nos ajudar a entender melhor o que estamos assistindo na política brasileira, nos últimos 4 anos em específico. O messias que um dia foi tão aguardado como o salvador do mundo me parece que foi reprojetado no Jair Messias. O que estamos assistindo hoje no meio político não pode ser estudado através da particularidade de uma única pessoa na figura do político, o que devemos fazer neste cenário é se perguntar o que o político A, B ou C trazem como representação do coletivo, porque a psicopatologia de massa tem suas raízes na psicopatologia individual. (Jung 10/2 §445). O que estamos assistindo na política é a verdadeira guerra de opostos representados pela esquerda e pela direita, mas que na realidade é entre a democracia, que pode ser de direita ou de esquerda, e padrões autoritários e ditatoriais. É no teatro do inconsciente que Edinger ampliou bem essa ideia:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando o valor do Si-mesmo é projetado por grupos opostos entre si, em ideologias políticas conflitantes, temos uma situação semelhante à da quebra da totalidade original do Si-mesmo em fragmentos antiéticos que lutam entre si. Nesse caso, as antinomias do Si-mesmo ou Deus passam a atuar na história. Ambos os lados de um conflito partidário derivam sua energia da mesma fonte, o Si-mesmo comum, mas inconscientes disso, eles estão condenados a viver o conflito trágico na própria vida. O próprio Deus é enredado nas malhas do conflito sombrio. (Edinger, pág.104)</p>



<p class="wp-block-paragraph">A ideia dos lados opostos entre si no Brasil não é tão recente, na década de 30 existiu um movimento no Brasil chamado integralismo, a frente deste movimento estava um Plínio Salgado, que levou o movimento da extrema-direita com ideias muito similares ao que vigora nos tempos atuais. Naquele tempo Plínio queria um país voltado para o nacionalismo através do movimento conhecido como “Ação integralista brasileira” o AIB. O movimento estava em busca de recuperar valores nacionais. Não seria também a base do atual governo, uma recuperação de valores, do amor à pátria, à família tradicional com um Deus acima de todos. Nas palavras de Pedro Doria,&nbsp;<em>a história sempre ilumina aquilo que vivemos.&nbsp;</em>A história demonstra para nós que alguns movimentos similares entre si se repetem, e assim vejo também o mesmo acontecendo do inconsciente para consciência coletiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A política e os movimentos políticos/sociais acabam se tornando um grande espaço de manifestação de conteúdos sombrios que muitas vezes não são reconhecidos, como acabamos de ler acima. Tudo que age a partir do inconsciente vai aparecer projetado no outro (Jung, Vol 8/1 §99), as vezes nos reconhecemos, as vezes repudiamos como algo totalmente fora de cogitação por padrões éticos ou morais, mas não na política. Quaisquer possibilidades de censura entram em cena a bandeira da imunidade parlamentar ou qualquer outra lei que de legitimidade aos atos do indivíduo representante de uma determinada facção política, e neste caso do coletivo também, porque uma pessoa neste espaço não carrega uma ideia particular, mas sim a ideia vendida para um coletivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É preciso lembrar que o sistema psíquico está sempre em busca de autorregulação, em outras palavras, compensação. Qualquer parte da consciência que houver uma desordem encontraremos no inconsciente um movimento simbólico com a representação de ordenamento, para qualquer injustiça a justiça, para violência a paz ou uma violência mais exagerada ainda. Jung observou esse fenômeno acontecendo na Alemanha nazista, e explicou que:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando essa espécie de movimento compensatório do inconsciente não consegue ser absorvido pela consciência individual, pode gerar uma neurose ou até mesmo uma psicose, e o mesmo vale para o coletivo. É evidente que para se produzir um movimento compensatório desse tipo é preciso que algo esteja fora de ordem na atitude consciente; algo deve estar invertido ou fora de proporções, pois somente uma consciência desequilibrada pode provocar um movimento contrário no inconsciente. (Jung, Vol 10/2 §448s)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como Jung deixa claro, o que vale para o individual também vale para o coletivo, o problema não resolvido na psique pessoal agregará pessoas em torno da mesma ideia, e assim nascerá o movimento de massa que poderá eleger alguém como o representante de tudo que não foi possível transformar no campo pessoal, porém sem sucesso, pois essa atitude de mudança não pode depender do campo coletivo. Não se pode esperar que o político mude a vida de uma nação sem que isso aconteça também campo pessoal e Jung entendeu bem essa questão:</p>



<p class="wp-block-paragraph">A integração de conteúdos inconscientes consiste num ato individual de realização, compreensão e valoração moral. Trata-se de uma tarefa extremamente difícil que exige um alto grau de responsabilidade ética. Somente de poucos indivíduos pode se esperar a capacidade para tal desempenho, e esses não são absolutamente os líderes políticos, mas os líderes morais da humanidade. (Jung, Vol 10/2, §451)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso é possível entender que hoje a política representa o espaço de manifestação de tudo que não conseguimos lidar no individual e não podemos esperar que neste espaço aconteça a salvação tão esperada, pois nele encontramos apenas a sombra. É por isso que todo processo na psicoterapia junguiana busca o fortalecimento adequado do Ego para enfrentar aquilo que não possível aceitar abertamente, até ponto que seja possível reconhecer e aprender que nem toda a sombra abrigará o mal, que dentro egoísmo também é possível encontrar o amor ao próximo. É neste espaço interno que o confronto com o si-mesmo deve acontecer, resultando na compressão de que a paz poderá voltar, mas somente quando a derrota e a vitória perderem sua importância (Jung, Vol10/2, §455). Krishnamurti também percebeu a mesma a coisa:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando cada indivíduo leva em conta o bem-estar da comunidade, então pode haver verdadeira cooperação.&nbsp;<strong>Agora não há cooperação porque vocês estão sendo meramente compelidos em uma ou outra direção, à maneira de ovelhas</strong>.&nbsp;<strong>Seus líderes os oprimem, tratando-os como instrumentos para a realização de interesses</strong>. E vocês são explorados porque seu inteiro modo de pensar, sua inteira estrutura, visa à autopreservação, às custas de todas as outras pessoas. E eu digo que pode haver autopreservação, segurança verdadeira, em termos mundiais, quando vocês, como indivíduos, destruírem tudo aquilo que mantém as pessoas separadas, lutando entre si em guerras incessantes, as quais são resultado da existência de nacionalidades e governos soberanos. Eu lhes asseguro, vocês não terão paz, vocês não terão felicidade, enquanto essas coisas existirem. Tudo isso apenas ocasiona mais e mais discórdia, mais e mais guerras, mais e mais calamidades, sofrimento e dor. Tais coisas foram criadas por indivíduos, e como indivíduos vocês precisam começar a derrubá-las, a se libertar delas, pois somente assim vocês descobrirão o êxtase da vida.&nbsp;(Krishnamurti,1934 – grifos meus).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto não assumirmos a responsabilidade do que acontece na política, nada poderá ser transformado.&nbsp;Porque para transformarmos o mundo externo é necessário que essa transformação aconteça, primeiramente, em nosso íntimo. Por isso Jung afirma que a política reflete a psicologia do povo! Ou seja, precisamos ser a mudança que desejamos!</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Daniel Gomes – Analista em formação IJEP</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Didata responsável – Waldemar Magaldi</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Daniel Gomes &#8211; 28/04/2022</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Referência Bibliografias</p>



<p class="wp-block-paragraph">Edinger, F. Edward, 2006, São Paulo,&nbsp; Editora Cultrix</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung. C. G., (2011a) Aspectos do drama contemporâneo 12/2, Petrópolis, Rio de Janeiro: Editora Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Doria, Pedro, (2020) Fascismo à brasileira, São Paulo, Ed. Planeta</p>



<p class="wp-block-paragraph">Krishnamurti, Jiddu,&nbsp;Segunda palestra no Town Hall &#8211; Auckland, Nova Zelândia &#8211; 01/04/1934)</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Imagem:</strong>&nbsp;&#8220;A morte de Júlio César&#8221; &#8211; Vincenzo Camuccini</p>



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<iframe title="A POLÍTICA COMO ESPAÇO DE MANIFESTAÇÃO DA SOMBRA" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/Ddcsv87osr0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph"><a href=""></a></p>
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		<title>Influência da vida dos pais em seus filhos</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/influencia-da-vida-dos-pais-em-seus-filhos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniel Gomes]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 30 Nov 2021 12:58:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Logo após Jung estudar sua arvore genealógica colocou em dúvida o caminho que sua vida tomou, se estava realmente vivendo sua vida ou se estava respondendo a algo que foi negligenciado por parte de sua família. Este questionamento que Jung se fez nos oferece um caminho para lidar com o mesmo problema que surge na experiencia humana observada no consultório. Isso nos traz a seguinte questão: O que este individuo está vivenciando é algo pessoal ou do coletivo familiar? São questões como essas que este artigo reflete.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Logo após Jung estudar sua árvore genealógica, colocou em dúvida o caminho que sua vida tomou, se estava realmente vivendo sua vida ou se estava respondendo a algo que foi negligenciado por parte de sua família. No vol. 17 sobre o desenvolvimento da personalidade ele nos alerta a respeito do mesmo problema, já que a criança se encontra envolvida pelo inconsciente dos pais.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Tenho a forte impressão de estar sob a influência de coisas e problemas que foram deixados incompletos e sem resposta por parte de meus pais, de meus avós e de outros antepassados. Muitas vezes parece haver numa família um carma impessoal que se transmite dos pais aos filhos. Sempre pensei que teria de responder a questões que o destino já propusera a meus antepassados, sem que estes lhes houvessem dado qualquer resposta; ou melhor, que deveria terminar ou simplesmente prosseguir, tratando de problemas que as épocas anteriores haviam deixado em suspenso.&nbsp;(Jung, 2015e, p. 234)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Diante da questão levantada por Jung acredito que seja importante uma reflexão sobre o peso carregado pelos filhos em virtude de falta de consciência dos pais. Desejo refletir também a respeito da dificuldade da tomada de consciência dos sentimentos que a criança vivencia como seus, por influência do inconsciente dos pais e a falta de autenticidade dos próprios sentimentos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Trabalhar essas questões que muitas vezes são dos pais apresenta um grau maior de dificuldade na exploração e tomada de consciência a respeito de suas origens. Não é de se espantar que em muitos casos existe uma ausência de momentos marcantes que possam ser tomadas como possíveis raízes das neuroses e complexos, tornando um trabalho enfadonho até mesmo para os analistas mais experientes. As queixas levantadas em análise pelos indivíduos quase sempre são vagas e sem grande objetividade já que o problema em si é muito mais do coletivo que do pessoal, segundo Jung:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[&#8230;]É difícil saber se tais problemas são de natureza pessoal ou de natureza geral (coletiva). Parece-me ser este último o caso. Enquanto não é reconhecido como tal um problema coletivo toma sempre a forma pessoal e provoca, ocasionalmente a ilusão de uma certa desordem no domínio da psique pessoal.&nbsp;(Jung, 2015e, p. 234)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">É importante ficar claro que o coletivo, a que Jung faz referência nesta última citação, é o coletivo familiar, afinal de contas os primeiros momentos de vida de uma criança são totalmente envolvidos pelos pais. Todo o cuidado, todo o carinho e atenção necessários estão voltados para esse pequeno ser. Neste estágio da vida não existe experiência pessoal, apenas a experiência do coletivo ao seu redor. Seriam então os complexos formados a partir dos complexos dos pais, seriam esses complexos na criança a neurose inconsciente dos pais? Na história humana podemos encontrar essas referências em muitos lugares e culturas, da bíblia a filosofia budista. Por isso a preocupação de Jung com a importante tarefa dos pais e dos educadores de se trabalharem e desenvolverem psiquicamente é de extrema importância, já que “a criança se encontra de tal modo ligada e unida à atitude psíquica dos pais, que não é de causar espanto se a maioria das perturbações nervosas verificadas na infância devam sua origem a algo de perturbado na atmosfera psíquica dos pais.”&nbsp;(Jung, 2012f, §80)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Posto isso, fica claro que para algumas questões apresentadas pelas crianças, quando levadas para um trabalho terapêutico, são na verdade apenas expressão dos problemas dos pais, os verdadeiros neuróticos. Essas crianças passam a repetir em suas vidas tudo aquilo que não foi vivido por seus pais, tudo aquilo que não foi possível de se tornar consciente. Quando na vida adulta, tudo que não foi vivido de forma genuína e consciente, somado no que pertence ao campo da experiencia pessoal, torna-se combustível para que os velhos problemas sejam vivenciados pelas gerações seguintes como novos problemas. Por isso, a atitude de alteridade é o caminho inicial para conseguir distinguir o que é meu e o que é do outro, neste caso, o que pertence a história dos pais e a de si próprio. Essa é uma das tarefas mais importantes na vida, conforme explica Johnson:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>A tarefa mais importante em nossos anos de maturidade é viver nossa vida não vivida, o que deve ser alcançado muito antes que uma tragédia nos abale profundamente ou que cheguemos ao nosso leito de morte. Viver nossa vida não vivida é tornarmo-nos realizados; é trazer propósito e significado para nossa existência.&nbsp;(Johnson &amp; Ruhl, 2011, p. 13)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;A partir da reflexão a respeito do viver a vida não vivida é que podemos abordar a questão da autenticidade dos próprios sentimentos, afinal de contas, se podemos chegar ao ponto de viver o que não nos pertence, então poderíamos afirmar que os sentimentos decorrentes destas experiencias também não nos pertencem. Tal pensamento não teria valor para nós, porque mesmo sendo ou não nossos os sentimentos, eles foram experimentados, em algum momento foram vivenciados e precisam ser conscientizados.&nbsp; Jung deixa claro essa ideia quando está falando do valor da ab-reação, de que nada adianta apenas reviver, porque é preciso reviver diante do outro, na figura do médico/terapeuta. e reconhecer todas a possibilidades contidas na conscientização destes conteúdos:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>O paciente deve ser capaz, não só de reconhecer a causa e a origem de sua neurose, mas também de enxergar a meta a ser atingida. A parte doente não pode ser simplesmente eliminada, como se fosse um corpo estranho, sem o risco de destruir ao mesmo tempo algo de essencial que deveria continuar vivo. Nossa tarefa não é destruir, mas cercar de cuidados e alimentar o broto que quer crescer até tornar-se finalmente capaz de desempenhar o seu papel dentro da totalidade da alma.&nbsp;(Jung, 2011a,&nbsp; §293)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">O que precisamos oferecer para nossos clientes é o suporte necessário para conseguir tomar consciência dos reais sentimentos e emoções de forma autêntica, nesta ampliação de consciência é preciso vencer o medo que surge quando o indivíduo se questiona.&nbsp;<strong>Se esses sentimentos não são meus, então quais são, o que é real na minha vida se o que eu sentia não era meu?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso mesmo que a atitude do analista é parte integrante das possíveis transformações que podem surgir a partir deste enfrentamento. Mais do que nunca, é preciso estar claro que “o objetivo mais nobre da psicoterapia não é colocar o paciente num estado impossível de felicidade, mas sim possibilitar que adquira firmeza e paciência filosóficas para suportar o sofrimento.”&nbsp;(Jung, 2011d, §185)&nbsp;Precisamos estar prontos e preparados para ajudar nossos clientes no desenvolvimento desta atitude, para que tenha condições de enfrentar o medo da desconstrução e ao mesmo tempo se colocar aberto para uma autêntica construção do que é real no seu ser. Somente desta forma esse indivíduo pode continuar seu caminho de desenvolvimento mais conhecido no meio junguiano como o processo de individuação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Daniel Gomes – Analista em formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Waldemar Magaldi – Analista Didata</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências</p>



<p class="wp-block-paragraph">Johnson, R. A., &amp; Ruhl, J. M. (2011). Viver a vida não vivida. Petrópolis: Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, C. G. (2011a). Ab-reação, análise dos sonhos e transferência (Vol. 16/2). Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, C. G. (2011d). A prática da psicoterapia (Vol. 16/1). Petrópolis: Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, C. G. (2012f). O desenvolvimento da personalidade (Vol. 17). Petrópolis: Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, C. G. (2015e). Memórias, Sonhos, Reflexões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.</p>



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<iframe title="INFLUÊNCIA DA VIDA DOS PAIS EM SEUS FILHOS" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/tNrbi89GCWs?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
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<h4 class="wp-block-heading" id="h-daniel-gomes-30-11-2021"><strong><em>Daniel Gomes &#8211; 30/11/2021</em></strong></h4>
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		<title>Os desafios da clínica junguiana diante dos grandes traumas</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/os-desafios-da-clinica-junguiana-diante-dos-grandes-traumas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniel Gomes]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 08 Sep 2021 11:46:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Setting Terapeutico]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>As primeiras vezes que Jung falou sobre trauma, foi a partir da perspectiva de Freud, já que naquele momento ele estava envolvido nas pesquisas e defesa das ideias postuladas pela escola freudiana. Naquele momento se tinha a ideia de que a partir do trauma se desenvolvia a histeria, contudo eles, tanto Freud quanto Jung, começaram a observar que, a priori, o trauma emergia em virtude de alguma predisposição.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">As primeiras vezes que Jung falou sobre trauma, foi a partir da perspectiva de Freud, já que naquele momento ele estava envolvido nas pesquisas e defesa das ideias postuladas pela escola freudiana. Naquele momento se tinha a ideia de que a partir do trauma se desenvolvia a histeria, contudo eles, tanto Freud quanto Jung, começaram a observar que, a priori, o trauma emergia em virtude de alguma predisposição.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O advento da primeira guerra mundial exigiu dos médicos técnicas para tratar os traumas psíquicos causados no campo de batalha. Neste período Jung faz alguns comentários sobre as críticas de William McDougal a respeito das ideias de William Brown no artigo&nbsp;<strong>The revival of emotional memories and its therapeutic value.&nbsp;</strong>Neste artigo Brown defende<strong>&nbsp;</strong>o tratamento dos traumas através da repetição dramática do momento traumático – ab-reação,<s>&nbsp;</s>que consistia basicamente em uma recapitulação emocional em estado desperto ou sob hipnose. O objetivo era oferecer para o indivíduo a oportunidade de relembrar dos acontecimentos de forma segura e consciente, até que as fortes emoções pudessem perder a força. Jung concorda com as críticas de McDougal a respeito do valor da ab-reação:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Infelizmente, porém, esta interpretação, tão clara e simples na aparência, corresponde tão pouco à realidade quanto outras explicações igualmente simples, mas falaciosas – como observa McDougall com toda razão. Posições como estas são muitas vezes defendidas com veemência, e até com fanatismo, como se fossem dogmas. Isto, porque elas não resistem a uma análise fenomenológica. McDougall afirma, portanto, com toda razão, que em inúmeros casos a ab-reação não é só inútil, como até prejudicial.&nbsp;(Jung, 2011a, p. 13)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Aqui se a presenta o nosso primeiro desafio dentro da clínica, porque na própria anamnese, em certa medida, já estamos relembrando os acontecimentos marcantes, e apesar da falta de lembrança, é possível que um incomodo se apresente inconscientemente, ou em outras palavras, um complexo pode constelar com toda a autonomia que lhe é característica. Mesmo que aconteça um esforço por parte do cliente, na tentativa de reprimir o incomodo, o ego aqui não goza de toda sua autonomia, conforme Jung reforça:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[&#8230;] o complexo se manifesta independentemente da vontade, pode inclusive mostrar-se diretamente antagônico às tendências conscientes. O complexo impõe-se à consciência com força tirânica. A explosão de fundo afetivo é comparável a uma investida global contra a personalidade: o indivíduo é como que atacado por um inimigo ou um animal selvagem. Tenho observado, não raro, que o afeto traumático típico é representado no sonho sob forma de feras selvagens e perigosas – o que ilustra adequadamente sua natureza autônoma, quando cindido da consciência.&nbsp;(Jung, 2011a, p. 14)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando falamos nestes complexos, que surgem a partir de um evento traumático na vida, estamos nos referindo também de uma porção da personalidade que separou, formando uma outra personalidade dissociada e desconhecida para a própria consciência, que nada conhece deste outro. E isso se torna um grande desafio para o analista, no papel de médico da alma, que precisa apresentar ao cliente esta outra personalidade autônoma, geralmente projetada ou negada:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estas coisas só podem existir na repressão. Mas elas existem e têm uma existência separada; constituem um estado dentro de um estado, uma personalidade dentro de uma personalidade. Em outras palavras: estão presentes duas consciências, mantidas separadas por fortes barreiras emocionais. Uma não pode e não deve saber da outra.&nbsp;(Jung, 2011b, p. 358)</p>



<p class="wp-block-paragraph">E somente após um vínculo saudável é que o analista poderá apresentar este aspecto sombrio a seu cliente, portanto é sempre importante lembrar que&nbsp;<em>o terapeuta não deve esquivar-se das próprias dificuldades, como se ele mesmo não as tivesse, apenas porque está tratando das dificuldades de outrem.</em>&nbsp;(Jung, 2011d, p. 88)</p>



<p class="wp-block-paragraph">As vezes a dissociação que existe em nós é tão forte que ela mesmo passa a nos atacar, como se estivesse lutando pela própria vida, pelo direito de existir. Todos carregam em si o medo da morte, da finitude da existência, e isso também está presente nos outros que existem em nós – os complexos, porque eles também carregam o mesmo medo do fim. Por isso, sempre que o ego sinta sua autonomia ameaçada por um complexo e tenta se defender, eles também irão reagir defensivamente e a neurose se instala. É justamente neste momento que personalidade do médico faz total diferença no processo analítico, é nesta porção minimamente adaptada que o cliente pode se agarrar como um ponto de suporte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um dos grandes desafios, se não o maior, dentro da clínica é o enfrentamento das partes dissociadas, principalmente os que surgem a partir de fortes cargas emocionais vivenciadas na infância. E vale a pena também deixar claro que este enfrentamento não é apenas para quem está em terapia, a dificuldade é também para o terapeuta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu gosto de usar a seguinte analogia para esta questão. A porção da personalidade dissociada se encontra trancafiada em uma torre, que por sua vez é guardada por um grande dragão. O cliente é aquele herói que busca a libertação desta personalidade bem guardada, porém sempre que se aproxima desta torre o dragão lança sua ira por toda terra e destrói todos os caminhos construídos até a torre. O analista por sua vez é aquele que vai ao lado do herói, trabalhando e criando condição para enfrentar essa luta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando observamos com atenção, sempre que é alcançado o ponto central para tomada de consciência, as resistências inconscientes se levantam. Jung observa ao explicar que&nbsp;<em>a liberdade do eu cessa onde começa a esfera dos complexos, pois esses são potencias psíquicas cuja natureza mais profunda ainda não foi alcançada.</em>&nbsp;(Jung, 2011c, p. 51)&nbsp;As vezes o incomodo é tão grande que a análise pode ser interrompida. Todo tipo de coisa passa a acontecer, são dores de cabeça, agitações podem começar em todo o corpo, falta de memória a respeito de fatos relevantes que estão diretamente relacionados com assunto em questão, situações da vida social que passam a ganhar mais espaço que a própria análise, pesadelos em que o ego onírico é atacado e assim por diante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O próprio Jung relata um atendimento onde ele enfrenta a mesma resistência, sua cliente tinha espasmos e contrações na região da barriga que a incomodavam muito, ao final sempre falava que era a última sessão, pois teria que parar em virtude de outros compromissos, mas acabava voltando para próxima sessão. Jung nos demonstra uma percepção muita acertada sobre essas resistências:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando necessário falham no paciente não só o interesse e a simpatia pelo médico, mas também o pensar, a memória e finalmente inclusive a fala. Mas são precisamente estes mecanismos específicos de defesa que revelam o complexo. No experimento de associações começam aparecer a hesitação, a reprodução deficiente e o distúrbio característico quando o complexo é atingido, assim também na análise começam a aparecer as dificuldades quando estamos perto de chegar ao complexo.&nbsp;(Jung, 2011b, p. 349)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Donald Kalsched, em seu livro&nbsp;<strong>O mundo interior do trauma</strong>, nos oferece uma visão muito bem-vinda para a análise destes traumas, e podemos notar essas defesas que se levantam sempre que nos aproximamos do complexo. Como sabemos, os complexos são partes da psique, como personalidades autônomas, e se encontram dissociados da consciência. Kalsched explica essa fragmentação da seguinte forma:</p>



<p class="wp-block-paragraph">[..]quando o trauma atinge a psique em desenvolvimento de uma criança, tem lugar uma fragmentação da consciência na qual as diferentes “partes” (Jung as chamava de psiques fragmentadas ou complexas) se organizam de acordo com certos padrões arcaicos e típicos (arquetípicos), mais comumente díades ou sizígias formadas por “seres” personificados. Tipicamente, uma das partes do ego regressa ao período infantil, e outra parte progride, isto é, cresce rápido demais.&nbsp;(Kalsched, 2013, p. 15)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando, junto ao paciente, começamos a enfrentar esses materiais traumáticos, fica claro que a situação originária está sempre se repetindo e reafirmando a grande dificuldade, ao ponto de parecer que existe uma conspiração da vida contra o próprio indivíduo. Essa repetição se torna o próprio entrave para o andamento do processo. O sentimento e o pensamento que começam a emergir na terapia é o medo da constatação de que o sofrimento irá acontecer novamente como sempre aconteceu no mundo lá fora. O próprio consultório passa a comportar as projeções inconscientes e só a atitude de chegar no consultório ou ligar sua câmera, passa a ser a possibilidade de sentir a repetição ao vivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Conforme o próprio Jung constatou, não basta apenas esse reviver a experiencia sem nenhuma consciência, pois isso é vivenciado o tempo todo, porém apenas reativamente. Em outras palavras, a situação traumática e seus efeitos são vivenciados apenas no espaço interno, todo desconforto, todo incomodo e sentimento são partes do enredo inconsciente. Enquanto o resultado da constelação do complexo permanecer oculto e projetado, não há transformação porque o eu ainda está culpando o mundo externo em detrimento do seu mundo interno.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sem a consciência que só pode surgir no processo do trabalho emocional, o mundo do trauma, com os seus processos defensivos arquetípicos, se duplica na vida exterior [&#8230;] em um padrão que Freud apropriadamente chamou de daimônico. Na terminologia de Jung, poderíamos dizer que a situação traumática original apresentava um perigo tão grande para a sobrevivência da personalidade que não foi retida na forma pessoal relembrável, mas somente na forma arquetípica daimônica. Essa é a camada coletiva ou “mágica” do inconsciente e não pode ser assimilada pelo ego enquanto não for ‘encarnada” na interação humana.&nbsp;(Kalsched, 2013, p. 55)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mais uma vez precisamos evocar o pensar de Jung quando diz que é a personalidade do médico que faz a diferença. A interação humana capaz de demonstrar um caminho de transformação para o paciente se apresenta a partir da projeção, mas é preciso lembrar que é a partir da mesma que se caracteriza os riscos da transferência e da contratransferência. O médico precisa ser capaz de conseguir suportar essa projeção sem ser sugado pelo trauma do paciente. A falta de consciência do analista passa a fazer parte do conjunto da obra das defesas arquetípicas. No pior dos casos o analista passa a ser o integrante do próprio trauma do cliente. Tal constatação se confirma com a reafirmação do trauma no paciente &#8211; “<em>Meu caso não tem jeito mesmo</em>”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso a análise junguiana não pode ser tratada de forma leviana e infantil. Quando a personalidade do médico – analista – é evocada, não se trata apenas da profundidade em que este chegou, mas sim da capacidade de se questionar a todo momento. Nos grandes traumas que enfrentamos na clínica essa exigência passa a ser a grande chave de transformação, que ocorre em ambos os indivíduos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que estou querendo trazer como reflexão é a raiz das repetições dos traumas que parecem nunca chegar a um desfecho. Assim como Sísifo que ao chegar ao topo da montanha a pedra rola para baixo novamente e seu trabalho recomeça, esse ciclo repetitivo de um trauma acontece pela própria dinâmica do inconsciente que pode ser representado na figura do dragão uróboros que devora a si mesmo. Da mesma forma que deus busca se conhecer através de nós e os complexos se revelam em nossas projeções e sonhos, me parece que os traumas também buscam serem resolvidos, porém ao mesmo tempo as defesas psíquicas se levantam mantendo o indivíduo, ele se torna, simultaneamente, vítima e algoz de si-mesmo, e o maior de todos os desafios é alcançar a paz, conciliando esses dois aspectos, porém só é possível quando vencer e perder deixarem de ter importância.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Daniel Gomes &#8211; Analista em Formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Waldemar Magaldi &#8211; Analista Didata</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, C. G. (2011a).&nbsp;<em>Ab-reação, análise do sonhos e transfêrencia</em>&nbsp;(Vol. 16/2). Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, C. G. (2011b).&nbsp;<em>Estudos Experimentais</em>&nbsp;(Vol. 2). Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, C. G. (2011c).&nbsp;<em>A Natureza da psique</em>&nbsp;(Vol. 8/2). Petrópolis: Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, C. G. (2011d).&nbsp;<em>A prática da psicoterapia</em>&nbsp;(Vol. 16/1). Petrópoles: Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Kalsched, D. (2013).&nbsp;<em>O mundo interior do trauma.</em>&nbsp;São Paulo: Paulus.</p>



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<iframe title="Os desafios da clínica junguiana diante dos grandes traumas" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/LrRsBW_LH48?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
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<h4 class="wp-block-heading" id="h-daniel-gomes-08-09-2021"><strong><em>Daniel Gomes &#8211; 08/09/2021</em></strong></h4>
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		<title>Coronavírus: uma visão junguiana diante do distanciamento social</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/coronavirus-uma-visao-junguiana-diante-do-distanciamento-social/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniel Gomes]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Mar 2020 12:18:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">O momento que estamos vivendo no Brasil e no mundo tem nos colocado em confinamento em nossas casas, um verdadeiro bigbrother da vida real. Não existe câmera, não existe bigfone, mas nossas projeções e sombras se encontram aí neste confinamento. Mais que isso, esse isolamento deixa evidente a dimensão dos opostos em nossa vida através dos nossos sentimentos e suas duplicidades, como o medo de estar infectado ou na crença de que não está, o medo de algum parente próximo em situação de risco estar infectado ou não e assim por diante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Toda essa experiência que estamos vivenciando de um jeito ou de outro nos coloca diante de nós mesmos e de muitos pensamentos fantásticos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Historicamente, é sobretudo em épocas profundamente marcadas por dificuldades físicas, políticas, econômicas e espirituais que o ser humano volta seus olhos angustiados para o futuro e se multiplicam então as antecipações, utopias e visões apocalíticas.(JUNG,2011)&nbsp;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Com isso fica evidenciado a negação do problema no pensamento mágico,&nbsp;<em>isso não chega em mim</em>. Não é preciso muito esforço para encontrar este tipo de pensamento, principalmente na mais humilde massa trabalhadora, influenciada pelo mesmo pensamento fantástico do nosso excelentíssimo presidente quando afirma: “<strong>ISSO É SÓ UMA GRIPINHA”</strong>. Desde segunda feira estou confinado em casa, trabalhando duramente para reorganizar minha dupla jornada no mundo corporativo e no consultório, para que seja possível a continuidade dos atendimentos através dos recursos online. Contudo, ainda vejo pessoas em bares, indo para os seus encontros sociais, aglomerados de famílias inteiras no supermercado e açougues de forma totalmente inconsequente, como se nada estivesse acontecendo no mundo. Em alguns é possível notar o medo estampado na cara, talvez porque não tenham auxílio de família ou de vizinhos. Por outro lado, podemos ver também o poder da solidariedade pelo mundo, com simples gestos de colaboração, solidariedade e cuidado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É natural que em momentos de crise, a primeira atitude que nos ocorre é a negação. Existe uma certa inflação nesta negação, uma vontade de ser um super herói a ponto de acreditar que tudo que está acontecendo não pode chegar perto, ou mesmo uma projeção em problemas externos a ponto de acreditarmos que existe uma conspiração econômica ou qualquer outro tipo de problema com um objetivo de buscar um culpado no hostil mundo selvagem, como tem feito a família dissimulada que esta poder. A segunda atitude que nos acomete é a ansiedade, ficamos em uma tentativa mágica de saber o que vai acontecer, pensamos nos parentes, nos mais velhos da minha família, nas questões financeiras que talvez teremos de enfrentar no futuro. A terceira e mais consciente atitude é a aceitação, não gostamos do que está acontecendo, do medo que insiste em não sair dos pensamentos, porém podemos aceitar sem sair do aqui e agora, vivenciando o presente como ele é.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A falta de compreensão gerada pelas projeções compromete justamente o amor pelos outros homens. (JUNG,2011)</p>



<p class="wp-block-paragraph">O fato é que muitos ainda não conseguem sair da negação ou da ansiedade, não aceitam o momento de crise, uma atitude que talvez possa apenas representar a falta de relação com o mundo interno, que nos possibilita olhamos para dentro e a tomada consciência do que está acontecendo aqui no meu mundo interno e externo ao mesmo tempo. Tudo isso nos coloca diante da incapacidade de contar ao outro o que está acontecendo conosco, nos coloca como reféns muito mais de uma crise interna.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A grande possibilidade que temos agora é aceitar tudo que está acontecendo, aceitar que corremos risco, e mais que isso, aceitar podemos ser o meio pelo qual outras pessoas também correm riscos. Precisamos colocar para fora nossa ansiedade, falar sobre permitir que o outro possa se expressar e desabafar também. Precisamos ser realistas com tudo, podemos dar espaço para nossa imaginação, o exercício de imaginar coisas que eu gostaria de fazer, de se ver fazendo elas. A imaginação abre espaço para o mundo interior e para a criatividade. A capacidade de imaginar pode também ser uma grande proteção contra o vírus, porque pode melhorar nossa maneira de lidar com as coisas, pode ajudar a melhorar nossa imunidade. Eu gosto da ideia colocada pelo Analista italiano Stefano Carpini, de que essa crise é uma grande possibilidade de transformação da maneira que a sociedade do ego estava construindo o mundo, excessivamente baseado em luxúria e satisfação imediata.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse vírus, de um jeito ou de outro, nos coloca diante de um mundo que a muito tempo ignoramos, o mundo interno, o mundo da sombra, o mundo da nossa alma. Outra grande possibilidade oferecida por essa crise talvez seja a oportunidade para que as economias mundiais transformem a maneira como estão atuando diante do menos favorecidos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O momento que estamos vivendo está oferecendo uma grande chance ao mundo de vivenciar a globalização de maneira mais integral, onde o único inimigo no momento é o mesmo em todos os países, e mesmo que seja por pouco tempo o mundo se encontra em uma única direção, buscando colaborações que possam ajudar a mitigar os riscos o mais rápido possível.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Este vírus é a oportunidade que o Brasil poderia ter para se tonar menos dividido, menos de esquerda ou de direita, e se deus quiser mais brasileiro, um povo brasileiro contra o coranavírus. É o momento de tomarmos consciência de que precisamos resgatar nossa integralidade e união como um povo capaz de refletir nossos futuros líderes. Hoje não precisamos de um líder que acusa, mas de um líder que agregue, não precisamos de um presidente que busca por culpados, e sim de um presidente que busque por soluções.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que vivemos hoje nos oferece a grande oportunidade de assumir, ainda mais, nossa responsabilidade perante a vida, o avanço do desta calamidade pública não depende mais dos governantes, depende de cada um de nós.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Podemos sentir o medo da morte, mas também podemos sentir a vontade de viver, a vontade pela vida. A atitude de exageros e do prazer imediato, típico da sociedade atual, pode começar abrir espaço para aprendermos a viver com o suficiente, com o necessário, com a solitude, a solidariedade e assim, quem sabe, aprender que no futuro podemos manter essa grande lição.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Daniel Gomes</p>



<p class="wp-block-paragraph">Psicoterapeuta junguiano &#8211; Membro analista em formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">dgterapia@gmail.com</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências Bibliográficas</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. Presente e futuro vol. 10/1 Ed. Vozes, 2011</p>



<p class="wp-block-paragraph">Foto de cottonbro no&nbsp;<a href="https://www.pexels.com/pt-br/foto/asiatico-oriental-consciencia-percepcao-3951616/?utm_content=attributionCopyText&amp;utm_medium=referral&amp;utm_source=pexels">Pexels</a></p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Daniel Gomes</em></strong></h4>
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