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	<title>Leonardo Lopes de Lima Salek, Autor em Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Thu, 09 Jul 2026 19:20:46 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Leonardo Lopes de Lima Salek, Autor em Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>O Veganismo e a Sombra Coletiva</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-veganismo-e-a-sombra-coletiva/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Lopes de Lima Salek]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Jul 2026 18:27:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[animais]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nem tudo que se esconde na sombra é negativo. O positivo também pode ser encontrado lá. A relação do ser humano com os outros animais é de grande exploração e demonstra uma unilateralidade extrema. A partir disso, surge o veganismo como uma alternativa de compaixão, revelando a dinâmica psíquica da sombra coletiva. Apesar de ser um movimento social, ele convida o indivíduo a olhar para si mesmo, se conscientizar e assumir a responsabilidade pelo bem-estar de todos os animais e o planeta como um todo.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-veganismo-e-a-sombra-coletiva/">O Veganismo e a Sombra Coletiva</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>Imagem: A “sombra verde” aponta para a necessidade de uma ampliação de consciência que desenvolva a nível coletivo uma profunda compaixão pelas outras espécies animais, assim como pela humanidade.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo:</strong> Nem tudo que se esconde na sombra é negativo. O positivo também pode ser encontrado lá. A relação do ser humano com os outros animais é de grande exploração e demonstra uma unilateralidade extrema. A partir disso, surge o veganismo como uma alternativa de compaixão, revelando a dinâmica psíquica da sombra coletiva. Apesar de ser um movimento social, ele convida o indivíduo a olhar para si mesmo, se conscientizar e assumir a responsabilidade pelo bem-estar de todos os animais e o planeta como um todo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando falamos em sombra, pela ótica da psicologia analítica, estamos nos referindo a um aspecto da nossa psique inconsciente que detém conteúdos reprimidos ao longo de nossas vidas. Geralmente, ela é imaginada por um viés negativo, ruim ou até mesmo representando um lado perverso de nossa personalidade. Na realidade, a sombra contém, simplesmente, tudo aquilo que recusamos admitir em nós mesmos e isso pode incluir até sentimentos como compaixão e empatia. Apesar de considerados positivos, lidar com eles pode nos levar a mudanças e sofrimentos indesejáveis. Ou seja, por mais positivo que um conteúdo sombrio pareça ser, olhar para ele será sempre um desafio:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph" style="line-height:1.4"><strong>O encontro consigo mesmo significa, antes de mais nada, o encontro com a própria sombra. A sombra é, no entanto, um desfiladeiro, um portal estreito cuja dolorosa exiguidade não poupa quem quer que desça ao poço profundo</strong>. (JUNG, 2016, p. 28)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Da mesma forma com que evitamos a nossa própria sombra, a humanidade também evita sua sombra coletiva. Isso fica evidente quando olhamos para a relação humana com os outros animais, que vem se tornando a cada dia mais violenta e exploratória, enquanto considerar o direito deles à vida e ao bem-estar ainda é motivo de grande resistência no mundo todo. Como diz C. G. Jung (2022, p. 161), “em nossa consciência estamos sentados num alto trono e olhamos com desprezo a natureza e os animais.”</p>



<h2 id="h-o-outro-lado-da-sombra" class="wp-block-heading"><strong>O outro lado da sombra</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando pensamos no outro lado da sombra, naturalmente lembramos da consciência e do ego, este que se identifica com os vários elementos da personalidade e ignora tudo aquilo que julga nela não caber. Essa relação com a sombra gera grande incômodo para o indivíduo que não a reconhece. Jung (2016, p. 322) explica que “a figura da sombra personifica tudo o que o sujeito não reconhece em si e sempre o importuna, direta ou indiretamente, como por exemplo traços inferiores de caráter e outras tendências incompatíveis.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porém, aqui, falamos sobre um outro lado em relação ao que geralmente se associa aos conteúdos sombrios da psique. É comum que o indivíduo reprima sentimentos como inveja e raiva ou características perversas. Isso tudo costuma ser mal visto socialmente e no decorrer de seu crescimento, desde a infância até a fase adulta, ele aprende a moldar a si mesmo de maneira a corresponder da melhor forma possível aos anseios externos. É uma busca inconsciente por adaptação e aceitação. Contudo, a humanidade não é feita apenas de sentimentos e atitudes consideradas positivas. Se olharmos à nossa volta, não é difícil enxergar crueldade, injustiça e indiferença. Logo, há também repressão quanto à doçura, generosidade, empatia e outros sentimentos que são muitas vezes vistos como fraquezas ou tolices. Logo, o que se esconde na sombra não são apenas traços negativos:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph" style="line-height:1.4"><strong>A sombra, embora seja uma figura negativa per definitionem, deixa entrever muitas vezes traços ou associações positivas, os quais apontam para um cenário de outro tipo. É como se ela escondesse conteúdos significativos sob um invólucro inferior. A experiência confirma a hipótese; aliás as coisas aparentemente ocultas consistem em geral de figuras cada vez mais numinosas.</strong> (JUNG, 2016, p. 307)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Se tomarmos como exemplo a relação humana com os outros animais, perceberemos a complexidade dessa questão. Nela, a exploração e a crueldade estão presentes desde a antiguidade, ao mesmo tempo que o carinho e o fascínio. Luz e sombra sempre se manifestaram, variando as características positivas e negativas a depender de cada cultura e o caráter de cada indivíduo. Nas últimas décadas, porém, essa exploração cresceu vertiginosamente e, não por acaso, também a luta pela proteção animal.</p>



<h2 id="h-a-sombra-verde" class="wp-block-heading"><strong>A sombra verde</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Essa relação exploratória entre seres humanos e os outros animais se dá de diversas formas: na alimentação, na moda, na ciência, no labor e até no entretenimento. Sobre a indústria da carne, a situação chegou a níveis tão absurdos que passou a ser de grande preocupação global, tamanho o impacto ambiental negativo. Para dar uma dimensão do problema, em 2016, foram registradas, no Brasil, cerca de 215 milhões de cabeças de gado, ultrapassando a quantidade de habitantes no país, naquele ano. Esses animais demandam quantidades enormes de alimento, água e espaço para um dia sua carne chegar aos pratos. Eles produzem dejetos que poluem rios e oceanos, além de seus gases serem a principal fonte de gás metano na atmosfera, um dos agentes mais agravantes da crise climática, que a cada dia se torna mais preocupante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É curioso notar que até a preocupação com o meio ambiente é, muitas vezes, uma preocupação egoísta, um medo de que soframos as consequências da nossa falta de compaixão exacerbada. Onde está a preocupação com os animais indefesos que sofrem com a nossa insensatez? O avanço tecnológico serviu como uma lupa para aumentar e expor toda a capacidade humana de ser cruel e insensível. O planeta inteiro se tornou mero objeto ao dispor do capricho e da ambição sem limites, em nome de um progresso material que não leva em conta que também fazemos parte dessa Terra:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px;line-height:1.4"><strong>Progresso e desenvolvimento são ideais inegáveis; mas perdem o sentido se o homem chegar a seu novo estado apenas como um fragmento de si mesmo, deixando para trás, na sombra do inconsciente, todo o essencial que constitui seu pano de fundo, a um estado de primitividade, ou até de barbárie</strong>. (JUNG, 2016, p. 195)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Se pensarmos em termos junguianos sobre toda essa situação, fica evidente uma unilateralidade extrema da psique coletiva. Quando isso acontece, a tendência é que surja um efeito enantiodrômico para restabelecer a harmonia perdida:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph" style="line-height:1.4"><strong>No caso histórico-coletivo, tal como no individual, trata-se de um desenvolvimento da consciência, a qual se liberta gradualmente da prisão da ἀγνοία, ou seja, da inconsciência [&#8230;] Tal como na forma coletivo-mitológica, a sombra individual também traz em si o germe da enantiodromia, da conversão, em seu oposto.</strong> (JUNG, 2016, p. 308-9)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">É a partir desse movimento psíquico coletivo que surge o veganismo, vindo das profundezas sombrias da humanidade, que reprimiu a própria compaixão pelas outras espécies animais. Diferente do que muitos ainda acreditam, não se trata apenas de não consumir carnes e outros derivados animais, mas um movimento ético-político pelos direitos e libertação animal. Além disso, como se posiciona contra qualquer tipo de opressão, defende também os direitos humanos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim como qualquer movimento de integração com a sombra gera intensa resistência no indivíduo, fato comum no processo analítico, também a humanidade resiste bravamente à adesão ao veganismo, utilizando-se dos argumentos mais estapafúrdios. A resistência, na realidade, se dá em relação à compaixão, à empatia, ao amor ao próximo, à simples capacidade de enxergar os animais de outras espécies como nossos próximos, ao desapego material, à conexão espiritual com a natureza e o planeta como um todo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há, porém, outro fator de resistência que se dá por questões externas da vivência humana: a pressão social. Aderir ao veganismo implica, muitas vezes, em ter que lidar com incompreensão, zombaria, críticas e uma sorte de desafios na relação com outras pessoas. O medo da rejeição e do isolamento social são experiências comuns de quem deseja aderir a essa causa. Por isso, o indivíduo precisa de uma forte convicção ao mesmo tempo em que desenvolve uma resiliência capaz de sustentar de forma tranquila as consequências dessa decisão, sem cair para o lado da raiva e do ressentimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar disso, a “sombra verde” já encontrou a luz e o movimento vegano se encontra em pleno crescimento mundial. De acordo com uma pesquisa de março de 2025, feita pelo Instituto Datafolha, 7% da população brasileira se considera totalmente ou parcialmente vegana. Isso significa que por volta de 15 milhões de brasileiros olham com seriedade para a questão. É muita gente! Em muitos outros países, essa tendência se mostra alinhada com o Brasil, o que demonstra ser um movimento global. Parece que quanto mais acirrada fica a relação exploratória entre a humanidade e as outras espécies de animais, mais atrativo o veganismo se torna, justamente o que se esperaria da dinâmica psíquica da sombra.</p>



<h2 id="h-um-caminho-de-progresso-e-compaixao" class="wp-block-heading"><strong>Um caminho de progresso e compaixão</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A sombra não deve ser evitada, pelo contrário, se faz necessário olhar para ela com respeito. Ela, geralmente, indica um caminho mais harmonioso a ser seguido, que se dá através da sua integração à consciência. A psicologia analítica esclarece que, em se tratando de inconsciente, a figura da sombra é a que está mais perto da consciência e, por isso, é a primeira a se manifestar no processo analítico. Ademais, marca o início da individuação. (Cf. JUNG, 2016, p. 308)</p>



<p class="wp-block-paragraph">É importante destacar que essa integração é uma busca pela totalidade e não pelo outro extremo. No caso do veganismo, o indivíduo precisa ter cuidado para não adentrar um radicalismo que o faça trocar o desprezo pelos outros animais pelo desprezo pelo ser humano. Um dos perigos desse caminho é a inflação do ego, que pode fazê-lo sentir-se superior moral ou espiritualmente às outras pessoas, enquanto se sente igual aos animais de outras espécies, uma grande contradição. Outro perigo que precisa de atenção é a obsessão pela pureza alimentar, a ortorexia, que pode levá-lo a restrições severas, isolamento, ansiedade, culpa e outros efeitos desnecessários.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Integrar significa trazer para si, para perto, aceitar tudo aquilo faz parte de si mesmo e estava escondido. Isso requer compaixão com a própria individualidade. A “sombra verde” aponta para a necessidade de uma ampliação de consciência que desenvolva a nível coletivo uma profunda compaixão pelas outras espécies animais, assim como pela humanidade. A autocompaixão é o primeiro passo dessa jornada, pois nos aproxima da totalidade psíquica, o <em>Self</em>. Dessa forma, essa unilateralidade típica do ser humano atual pode ser desfeita e a vida de todos os animais suavizada:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph" style="line-height:1.4"><strong>Esta consciência “deslizante” é inteiramente característica também do homem moderno. A unilateralidade, porém, que ela provoca é removida por aquilo que eu chamei de “percepção da realidade da sombra” [&#8230;] um processo de tomada de consciência da parte inferior da personalidade, processo este que não deve ser entendido falsamente no sentido de um fenômeno de natureza intelectual, porque se trata de uma vivência e de uma experiência que envolvem a pessoa toda</strong>. (JUNG, 2014, p. 167-8)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Essa experiência de conscientização é o que o movimento vegano busca levar às pessoas de todos os cantos do planeta. Infelizmente, só é possível informar e mostrar a questão pelo viés intelectual, mas vez ou outra alguns corações são tocados e, então, o amor pela causa animal é despertado. O que antes era ignorado, de repente parece óbvio e o indivíduo começa a enxergar as outras espécies como iguais e irmãs. Jung (2014, p. 105) cita “o inconsciente coletivo, que, como herança imemorial de possibilidades de representação, não é individual, mas comum a todos os homens e mesmo a todos os animais, e constitui a verdadeira base do psiquismo individual.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa herança em comum fala sobre uma conexão espiritual entre todos os seres vivos e o planeta. Uma ancestralidade que se revela a nível biológico e psíquico, mesmo que o ser humano, de modo geral, se sinta ilusoriamente separado da natureza e superior às outras espécies. Muita ampliação de consciência ainda se faz necessária para sair desse torpor, tanto através de trabalhos de educação das massas quanto do trabalho interno de autoconhecimento. O veganismo convida para ambos, no sentido em que o indivíduo passa a fazer parte de um movimento global ao mesmo tempo em que precisa se responsabilizar individualmente por suas ações. Em uma época em que o ser humano se sente impotente diante de tantas crises mundiais, uma transformação na relação de cada um de nós com os outros animais se mostra de grande impacto positivo:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph" style="line-height:1.4"><strong>O homem comum, que é predominantemente o homem da massa, em princípio não toma consciência de nada nem precisa fazê-lo, porque, na sua opinião, o único que pode realmente cometer faltas é o grande anônimo, convencionalmente conhecido como “Estado” ou “Sociedade”. Mas aquele que tem consciência de que algo depende de sua pessoa, ou pelo menos deveria depender, sente-se responsável por sua própria constituição psíquica, e tanto mais fortemente, quanto mais claramente se dá conta de como deveria ser, para se tornar mais saudável, mais estável e mais eficiente</strong>. (JUNG, 2014, p. 169)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Assim como a individuação, o veganismo é um chamado coletivo e também uma jornada individual. É um apelo para que nós, seres humanos, despertemos nossa compaixão e abramos os olhos para a extensão dos males que estamos causando em nossa própria casa, a Terra. Enxergar a própria sombra, esteja nela a compaixão ou a crueldade, é o caminho para o verdadeiro progresso e nos aproxima daquilo que nos faz semelhantes a todos os seres:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph" style="line-height:1.4"><strong>As pessoas, quando educadas para enxergarem claramente o lado sombrio de sua própria natureza, aprendem ao mesmo tempo a compreender e amar seus semelhantes; pelo menos, assim se espera. Uma diminuição da hipocrisia e um aumento do autoconhecimento só podem resultar numa maior consideração para com o próximo, pois somos facilmente levados a transferir para nossos semelhantes a falta de respeito e a violência que praticamos contra nossa própria natureza</strong>. (JUNG, 2014, p. 35)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/leonardo-lopes-de-lima-salek/">Leonardo Salek &#8211; Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 id="h-video-de-apresentacao" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><strong>Vídeo de apresentação:</strong></h2>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📃Artigo novo: &quot;O Veganismo e a Sombra Coletiva&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/RIOxa2Eh4tI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" id="h-video-referencias"><strong>Referências:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Psicologia do inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2013. E-book.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ A natureza da psique. Petrópolis: Vozes, 2014. E-book.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2016. E-book.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ A psicologia da ioga kundalini. Petrópolis: Vozes, 2022. E-book.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sociedade Vegetariana Brasileira, 2025. Disponível em: &lt;<a href="https://svb.org.br/pesquisa-datafolha-revela-que-7-dos-brasileiros-se-consideram-veganos/">https://svb.org.br/pesquisa-datafolha-revela-que-7-dos-brasileiros-se-consideram-veganos/</a>&gt;. Acesso em: 17 de maio de 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Associação Brasileira de Veganismo, sem data. Disponível em: &lt;<a href="https://veganismo.org.br/bovinos/">https://veganismo.org.br/bovinos/</a>&gt;. Acesso em: 17 de maio de 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Instituto Nina Rosa, 2024. Disponível em: &lt;<a href="https://institutoninarosa.org.br/dia-mundial-do-veganismo/">https://institutoninarosa.org.br/dia-mundial-do-veganismo/</a>&gt;. Acesso em: 17 de maio de 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Instituto Nina Rosa, 2024. Disponível em: &lt;<a href="https://institutoninarosa.org.br/o-que-mudou-em-20-anos/">https://institutoninarosa.org.br/o-que-mudou-em-20-anos/</a>&gt;. Acesso em: 17 de maio de 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>
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			</item>
		<item>
		<title>A Matrix e o arquétipo do iluminado</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-matrix-e-o-arquetipo-do-iluminado/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Lopes de Lima Salek]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Feb 2026 14:36:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filmes e Séries]]></category>
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		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
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		<category><![CDATA[simbolismo em Matrix]]></category>
		<category><![CDATA[Trinity]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Não basta perceber a Matrix, é necessário enxergá-la. Para tal, o indivíduo precisa enxergar a si mesmo, compreender quem ele é de fato. A clareza da visão interior transformará radicalmente a sua visão do mundo. Ele precisa se iluminar para trazer luz à humanidade que padece pelas trevas da ilusão coletiva. Este artigo analisa o arquétipo do iluminado a partir do filme Matrix, sucesso de bilheteria e de grande profundidade filosófica. Nele, o caminho do herói é demonstrado de forma bem elaborada, enquanto conversa com a individuação proposta por C. G. Jung e a sabedoria oriental.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo: </strong>Não basta perceber a <em>Matrix</em>, é necessário enxergá-la. Para tal, o indivíduo precisa enxergar a si mesmo, compreender quem ele é de fato. A clareza da visão interior transformará radicalmente a sua visão do mundo. Ele precisa se iluminar para trazer luz à humanidade que padece pelas trevas da ilusão coletiva. Este artigo analisa o arquétipo do iluminado a partir do filme <em>Matrix</em>, sucesso de bilheteria e de grande profundidade filosófica. Nele, o caminho do herói é demonstrado de forma bem elaborada, enquanto conversa com a individuação proposta por C. G. Jung e a sabedoria oriental.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Poucos filmes, na história, influenciaram tanto o imaginário coletivo quanto <strong>Matrix</strong>. Lançado em 1999, o filme foi o primeiro de uma trilogia e é considerado por muitos não apenas o melhor dentre os três, mas também uma obra-prima atemporal. Na verdade, podemos dizer ainda que é um filme a cada dia mais atual, por mais estranho que pareça. O crescente interesse pelo autoconhecimento e a insatisfação com o sistema político-econômico vigente a cada dia mais acirrada produzem interpretações que se aprofundam com o passar dos anos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-veus-da-ilusao" style="font-size:19px"><strong>Os véus da ilusão</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em <strong>Matrix</strong>, os seres humanos vivem em uma realidade virtual que simula a vida real. Ela é tão realista que a esmagadora maioria nem sequer desconfia de que vivem uma vida ilusória. A pergunta que surge é: será que a nossa vida é tão diferente assim?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Na filosofia védica há um conceito chamado de <em>Véu de Maya</em>, que se refere à nossa incapacidade de enxergar a realidade do mundo. Esse véu que cobre nossos olhos, na realidade, é de natureza espiritual e, portanto, nos impede de enxergar a nossa própria natureza, de descobrir quem realmente somos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Mas o que acontece quando alguém desconfia da realidade das coisas? O que acontece quando se tenta enxergar por detrás do véu? No filme, muitos personagens desconfiaram e então despertaram para a vida real, com a ajuda de outros já despertos. A realidade dura de um mundo controlado pelas máquinas é o preço a ser pago pela liberdade. Para agravar a angústia, a humanidade se encontra escravizada e em sono profundo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nas-palavras-de-morpheus-para-neo-assim-como-todo-mundo-voce-nasceu-em-um-cativeiro-preso-em-uma-cela-que-voce-nao-pode-sentir-provar-ou-tocar-uma-prisao-para-sua-mente-matrix-1999" style="font-size:19px">Nas palavras de Morpheus para Neo: “<em>Assim como todo mundo, você nasceu em um cativeiro, preso em uma cela que você não pode sentir, provar ou tocar. Uma prisão para sua mente</em>” (MATRIX, 1999).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Quando Carl Gustav Jung aborda essa busca pela natureza da alma, o centro da psique, ele explica que o ego passa a ocupar uma posição periférica, ou seja, não tão importante na percepção da própria identidade (Cf. JUNG, 2013a, p. 68-9). É o que acontece quando Neo descobre que vivia na <em>Matrix</em> e quase nada do que vivera antes poderia definir quem ele era, pois vivera uma vida fictícia até então. Isso é ilustrado pela cena em que ele volta para a <em>Matrix</em> pela primeira vez após o despertar e vê o restaurante que costumava frequentar, com certa melancolia, pois percebe que ele próprio já não é o mesmo e nenhuma daquelas lembranças realmente aconteceu.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-segue-entao-para-o-questionamento-do-que-e-ilusao-visto-que-ainda-se-costuma-considerar-os-fatores-inconscientes-como-ilusorios-e-a-vida-consciente-como-realidade" style="font-size:19px"><strong>Jung segue, então, para o questionamento do que é ilusão, visto que ainda se costuma considerar os fatores inconscientes como ilusórios e a vida consciente como realidade:</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>“Será que existe algo dentro da alma que possa ser chamado de “ilusão”? Quem sabe se essa ilusão é para a alma a forma mais importante e indispensável de vida, como o oxigênio para o organismo? Aquilo que chamamos de “ilusão” é, talvez, uma realidade psíquica de suprema importância.” (JUNG, 2013a, p. 68)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Já sobre o mundo externo do consciente ele diz que, “infelizmente, hoje ainda se costuma dogmatizar, como se aquilo que chamamos de realidade também não fosse ilusório” (JUNG, 2013a, p. 69). Morpheus também levanta essa questão ao responder sobre a realidade virtual:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>“O que é real? Como você define o &#8216;real&#8217;? Se você está falando sobre o que você pode sentir, o que você pode cheirar, o que você pode saborear e ver, o real são simplesmente sinais elétricos interpretados pelo seu cérebro” (MATRIX, 1999).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Portanto, a ilusão é um fator psíquico que nos atinge a todos, logo arquetípico, e nos ludibria desde a infância sobre a realidade do mundo e de nós mesmos sem que a grande maioria desconfie. Para Jung (2015, p. 18), “é um fator inconsciente que trama as ilusões que encobrem o mundo e o próprio sujeito”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No filme, esse fator inconsciente é evidente, uma vez que as pessoas estão literalmente dormindo e o sonho, que é a própria <em>Matrix</em>, é gerenciado pelas máquinas para manter a humanidade sob controle. Essa metáfora nos faz pensar o quanto estamos sonhando, inconscientes de nós mesmos e do controle imposto por aqueles que detém o poder. Quem são as “máquinas” desse mundo “real” que forçam a humanidade ao consumismo, à competição, à normalização da miséria, da violência e da desigualdade social? Essas ferramentas de controle não só nos distraem da busca pelos caminhos de libertação, como ainda nos transformam em defensores da ordem estabelecida. Nas palavras de Morpheus: </p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>“Você precisa entender, a maioria dessas pessoas não está preparada para ser desplugada. E muitas delas estão tão inertes, tão desesperançosamente dependentes do sistema, que irão lutar para protegê-lo” (MATRIX, 1999).</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-arquetipo-do-iluminado" style="font-size:19px"><strong>O arquétipo do iluminado</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Vale ressaltar que essa relação com o sistema é inconsciente e acontece porque o indivíduo se identifica intensamente com ele. Isso faz com que enxergue a realidade através da ótica desse sistema, que traz consigo toda uma carga histórico-cultural de certo e errado, de comportamento, de moralidade, de relação interpessoal e com a natureza. Mesmo aqueles com algum senso crítico não são capazes de enxergar a si próprios separados dessa simulação construída.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Pela visão da psicologia analítica, o indivíduo se identifica com o sistema porque, primeiramente, ele se identifica com a <em>persona</em>. Ele acredita que a sua própria identidade é essa “máscara” que foi forjada pela sociedade e para a sociedade. Ele olha no espelho e acredita que aquilo é tudo que ele é. Por isso, o caminho que leva à iluminação passa pelo abandono dos apegos quanto a essas falsas noções de identidade, tanto pessoais quanto coletivas. Segundo Jung (2014, p. 68), “a meta da individuação não é outra senão a de despojar o si-mesmo dos invólucros falsos da persona, assim como do poder sugestivo das imagens primordiais”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-desapego-e-iluminacao-alan-watts-explica" style="font-size:19px">Sobre desapego e iluminação Alan Watts explica:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>“Desapego significa não ter arrependimentos pelo passado nem temores pelo futuro; significa deixar a vida seguir seu curso sem tentar interferir em seu movimento e mudança, sem tentar prolongar o estado de coisas agradáveis nem acelerar a partida de coisas desagradáveis. Fazer isso é seguir o ritmo da vida, estar em perfeita harmonia com sua constante mudança, e a isso se dá o nome de Iluminação. Em resumo, é desapegar-se do passado e do futuro e viver no eterno Agora.” (WATTS, 2020, p. 23)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Já o protagonista possui uma profunda falta de pertencimento em relação à <em>Matrix</em>. Ele não se identifica com aquele mundo e sente uma estranheza que não é capaz de explicar. Vive uma vida dupla: por um lado é um funcionário de uma respeitada empresa, por outro é um hacker famoso, como forma de rebeldia. Essa vida de hacker parece uma tentativa de viver uma vida mais real por detrás da máscara social. Mas, ainda sim, por mais que se aproxime um pouco de quem ele realmente é, continua sendo uma <em>persona</em> que pertence à <em>Matrix</em>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nas-palavras-de-trinity-a-matrix-nao-pode-lhe-dizer-quem-voce-e-matrix-1999" style="font-size:19px">Nas palavras de Trinity: “A Matrix não pode lhe dizer quem você é” (MATRIX, 1999).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Com esse importante desconforto, o caminho do herói de Neo se inicia. Ele representa o novo, a possibilidade de uma nova era de paz para a humanidade, o arquétipo do redentor. Desde o início dessa jornada, Morpheus deixa claro que acredita ser ele o Escolhido, aquele que libertará a humanidade do jugo das máquinas: um peso enorme para alguém que ainda está tentando entender onde está, quem é e o que é real.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-com-isso-a-caminhada-comeca-cheia-de-duvidas-e-crises" style="font-size:19px">Com isso, a caminhada começa cheia de dúvidas e crises.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No primeiro contato entre os dois, Neo se vê em uma situação perigosa em que precisa tentar escapar dos agentes e, então, se desespera: “<strong><em>Isso é loucura! Por quê está acontecendo comigo? O que eu fiz? Eu não sou ninguém. Eu não fiz nada. Eu vou morrer</em></strong>” (MATRIX, 1999).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em outro momento decisivo de dúvida em que Neo pensa em desistir, Trinity pede que ele confie nela. Quando ele pergunta o porquê, ela responde: “<strong><em>Porque você já esteve lá. Você conhece essa rua. Você sabe exatamente onde ela termina. E eu sei que não é onde você quer estar</em></strong>” (MATRIX, 1999).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A crise final se expressa em total desespero ao ser informado sobre do que se trata a <em>Matrix</em> de fato e qual a verdadeira situação atual da humanidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-heroi-sente-o-peso-de-sua-responsabilidade" style="font-size:19px"><em>O herói sente o peso de sua responsabilidade.</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A partir desse momento, Neo se resigna e começa a buscar autoconhecimento e contribuir com seus parceiros. Ele está pronto para seguir seu destino, mesmo não acreditando nele. A conversa com o Oráculo o deixa convicto de não ser o Escolhido. Mais adiante, ele decide sacrificar a própria vida para salvar a de Morpheus. Ele sabia que morreria. Por pensar que não era o Escolhido, ele agiu como tal: salvou seu mestre, fez o que ninguém pensaria em fazer, agiu heroicamente. Seu altruísmo e sua capacidade de ação acima da média foram revelados. Ainda sim ele morreu, como previsto pelo Oráculo, mas ressuscitou de forma inesperada.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Morpheus tinha certeza de que Neo era o Escolhido, mas assim como todos os outros não fazia ideia de que forma isso se revelaria. Como mestre, ele só poderia mostrar o caminho: “<strong><em>Estou tentando libertar sua mente, Neo. Mas eu só posso lhe mostrar a porta. É você quem tem que atravessá-la</em></strong>” (MATRIX, 1999).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Só uma coisa seria capaz de dar a certeza que o protagonista precisava para renascer e assumir o seu papel na existência: o armor. Quando Trinity o beija e releva seu amor, toda dúvida desaparece. O amor é a força mais poderosa do universo e não deixa espaço para dúvidas. Tudo se encaixou, de repente, e as palavras do Oráculo fizeram sentido: “<strong><em>Ser o Escolhido é como estar apaixonado. Ninguém pode lhe dizer que você está apaixonado. Você apenas sabe</em></strong>” (MATRIX, 1999).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-apos-a-duvida-e-o-altruismo-a-terceira-fase-da-jornada-chega-de-maneira-arrebatadora-a-certeza" style="font-size:19px">Após a dúvida e o altruísmo, a terceira fase da jornada chega de maneira arrebatadora: a certeza.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Neo se levanta e tem agora certeza de quem ele é. Ser o Escolhido era só uma ideia. Agora, ele enxerga sua própria natureza espiritual e, da mesma forma, enxerga a <em>Matrix</em> exatamente como ela é, com todos seus códigos e programações. Ele se iluminou e, como é dito sobre os iluminados, possui domínio sobre a natureza e sua vontade se manifesta no mundo. Com isso, ele derrota facilmente os agentes, que nada mais são do que programas de inteligência artificial. Essa experiência transformadora foi destacada por Jung como de grande importância:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>“Experimentar e vivenciar esse si mesmo é a meta mais nobre da ioga indiana. Por este motivo, será bom para a psicologia do si mesmo que nos familiarizemos com os tesouros do saber indiano. Tanto aqui como na Índia, a experiência do si mesmo nada tem a ver com intelectualismo, mas é uma experiência vital e profundamente transformadora. O processo que conduz a ela foi por mim denominado processo de individuação.” (JUNG, 2013a, p. 129)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O arquétipo do iluminado é, em grande parte, uma herança do Oriente. Algumas tradições espirituais como o budismo, o taoísmo e o hinduísmo, em suas múltiplas vertentes, há milênios cultuam a figura do iluminado como modelo de perfeição humana e guia para todos aqueles que desejam sinceramente conhecer a si próprios. Suas histórias e vivências deram origem a livros sagrados, contos mitológicos, doutrinas religiosas e, principalmente, a fé de que o potencial da iluminação espiritual reside na alma de cada ser humano.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-swami-abhedananda-os-iogues-da-india-sao-um-bom-exemplo-do-que-estamos-tratando" style="font-size:19px">Para Swami Abhedananda, os iogues da Índia são um bom exemplo do que estamos tratando:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>“Desde os tempos antigos, houve muitos desses verdadeiros yogues na Índia e em outros países. As descrições de suas vidas e ações são, além disso, tão notáveis e autênticas quanto a vida e os atos daquele ilustre Filho do Homem, que pregou na Galileia há quase dois mil anos. Os poderes e as obras deste pacifico, gentil e abnegado homem divino, que é reverenciado em toda a cristandade como a encarnação ideal de Deus e o Salvador da humanidade, provaram que era um tipo perfeito de quem é chamado na Índia de verdadeiro yogue.” (ABHEDANANDA, 2024, p. 78)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-tambem-se-utiliza-da-figura-de-jesus-para-relacionar-a-alma-humana-com-o-brilho-dos-iluminados" style="font-size:19px"><strong>Jung também se utiliza da figura de Jesus para relacionar a alma humana com o brilho dos iluminados:</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>“No que precede, tentei mostrar em que espécie de matrix (matriz) a figura de Cristo foi recebida ao longo dos séculos. Se não houvesse uma afinidade (“magneto”!) entre a figura do Redentor e certos conteúdos do inconsciente, jamais uma mente humana teria podido enxergar a luz em Cristo e abraçá-la com toda a intensidade do coração. O elo entre os dois é o arquétipo do Homem-Deus; de um lado, este tornou-se realidade histórica em Cristo, e, de outro, domina a alma na sua condição de existente “eterno”, como totalidade superior, o si-mesmo.” (JUNG, 2015, p. 251)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-iluminado-volta-para-a-matrix" style="font-size:19px"><strong>O iluminado volta para a <em>Matrix</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No filme, Neo incorpora esse Homem-Deus, representado especialmente pela última cena, em que ele voa pelos céus afora, simbolizando a liberdade total, que é a grande promessa da iluminação (<em>moksha</em> na ioga). Para isso ser possível, muitos personagens cumpriram seu papel na trama, principalmente Morpheus como seu mestre ou guru (como é chamado na Índia). Figura essencial no Oriente, ele é aquele que aponta o caminho e transmite confiança ao discípulo. O profundo respeito de Neo por ele o colocou diante do enfrentamento final: a sombra coletiva, representada pelos agentes. Cada ser humano inconsciente é um agente em potencial, capaz de exercer um poder destrutivo e controlador na sociedade. Sozinho, diante de seus maiores medos, Neo descobre que o verdadeiro mestre está dentro dele mesmo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-de-acordo-com-jung-2013b-p-202-esse-mestre-que-lhe-e-superior-nao-e-outra-coisa-senao-o-si-mesmo" style="font-size:19px">De acordo com Jung (2013b, p. 202), “<em>esse mestre que lhe é superior não é outra coisa senão o si-mesmo.</em>”</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essa cena do vôo demonstra, também, que o protagonista permaneceu na <em>Matrix</em>. Ele agora se sente completamente à vontade nela e já não tem porque fugir. O que era um incômodo inconsciente, passou a ser uma aversão consciente, até se transformar em paz supraconsciente. No budismo, existe um antigo ditado que diz:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>“Para aquele que nada sabe sobre o budismo, montanhas são montanhas, águas são águas e árvores são árvores. Depois de ler as escrituras e compreender um pouco da doutrina, as montanhas para ele não são mais montanhas, as águas não são mais águas e as árvores não são mais árvores. Mas quando ele está completamente iluminado, então as montanhas são outra vez montanhas, as águas, águas e as árvores, árvores.” (WATTS, 2020, p. 146-7)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Porém, a permanência de Neo não está ligada apenas a como ele se sente em relação a si mesmo, mas também em relação à humanidade. A iluminação não tem propósito egoísta, pelo contrário, é uma desidentificação com ego e uma síntese do eu com o inconsciente coletivo (JUNG, 2013b, p. 127). Ele se iluminou pelo amor e para o amor. O iluminado se sente um com a humanidade e com a própria <em>Matrix</em>, portanto continua no mundo com um grande propósito: servir.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-aborda-esse-tema-ao-comparar-individualismo-com-individuacao" style="font-size:19px">Jung aborda esse tema ao comparar individualismo com individuação:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>“Contrapondo-se a isso, o processo da individuação natural produz uma consciência do que seja a comunidade humana, porque traz justamente à consciência o inconsciente, que é o que une todos os homens e é comum a todos os homens. A individuação é o “tornar-se um” consigo mesmo, e ao mesmo tempo com a humanidade toda, em que também nos incluímos.” (JUNG, 2013a, p. 137)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Por fim, gostaria de destacar que, por mais misteriosa que seja a experiência da iluminação, é uma experiência fundamentalmente humana. Neo é o novo eu que anseia nascer em cada um de nós. O <em>Self</em> não é exclusivo dos escolhidos, mas herança psíquica de toda a humanidade. Jung deixa isso claro quando comenta sobre o satori, como é chamada a iluminação no Budismo Zen:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>“Não tenho dúvidas de que a experiência do satori ocorra também no Ocidente, pois entre nós existem igualmente pessoas que entreveem finalidades últimas e não recuam diante de nenhuma fadiga ou trabalho para se aproximarem delas. Mas se calam a respeito das próprias experiências, não por pudor, mas porque estão conscientes de que é inútil qualquer tentativa de comunicá-las aos outros.” (JUNG, 2013c, p. 105)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Leonardo Salek &#8211; Membro Analista em formação pelo IJEP</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">ABHEDANANDA, Swami. <em>Como tornar-se yogue.</em> São Paulo: Ajna, 2024. E-book.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>A prática da psicoterapia.</em> Petrópolis: Vozes, 2013a. E-book.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Ab-reação, análise dos sonhos e transferência.</em> Petrópolis: Vozes, 2013b. E-book.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Psicologia e religião oriental.</em> Petrópolis: Vozes, 2013c. E-book.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>O eu e o inconsciente.</em> Petrópolis: Vozes, 2014. E-book.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Aion.</em> Petrópolis: Vozes, 2015. E-book.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WATTS, Alan. <em>Torne-se o que você é.</em> Petrópolis: Vozes, 2020. E-book.</p>



<figure class="wp-block-image size-full is-resized"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="960" height="540" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Pos-graduacoes-IJEP-1-2.png" alt="" class="wp-image-11905" style="width:640px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Pos-graduacoes-IJEP-1-2.png 960w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Pos-graduacoes-IJEP-1-2-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Pos-graduacoes-IJEP-1-2-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Pos-graduacoes-IJEP-1-2-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Pos-graduacoes-IJEP-1-2-450x253.png 450w" sizes="(max-width: 960px) 100vw, 960px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Matrículas abertas: <a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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