Imagem: A “sombra verde” aponta para a necessidade de uma ampliação de consciência que desenvolva a nível coletivo uma profunda compaixão pelas outras espécies animais, assim como pela humanidade.
Resumo: Nem tudo que se esconde na sombra é negativo. O positivo também pode ser encontrado lá. A relação do ser humano com os outros animais é de grande exploração e demonstra uma unilateralidade extrema. A partir disso, surge o veganismo como uma alternativa de compaixão, revelando a dinâmica psíquica da sombra coletiva. Apesar de ser um movimento social, ele convida o indivíduo a olhar para si mesmo, se conscientizar e assumir a responsabilidade pelo bem-estar de todos os animais e o planeta como um todo.
Quando falamos em sombra, pela ótica da psicologia analítica, estamos nos referindo a um aspecto da nossa psique inconsciente que detém conteúdos reprimidos ao longo de nossas vidas. Geralmente, ela é imaginada por um viés negativo, ruim ou até mesmo representando um lado perverso de nossa personalidade. Na realidade, a sombra contém, simplesmente, tudo aquilo que recusamos admitir em nós mesmos e isso pode incluir até sentimentos como compaixão e empatia. Apesar de considerados positivos, lidar com eles pode nos levar a mudanças e sofrimentos indesejáveis. Ou seja, por mais positivo que um conteúdo sombrio pareça ser, olhar para ele será sempre um desafio:
O encontro consigo mesmo significa, antes de mais nada, o encontro com a própria sombra. A sombra é, no entanto, um desfiladeiro, um portal estreito cuja dolorosa exiguidade não poupa quem quer que desça ao poço profundo. (JUNG, 2016, p. 28)
Da mesma forma com que evitamos a nossa própria sombra, a humanidade também evita sua sombra coletiva. Isso fica evidente quando olhamos para a relação humana com os outros animais, que vem se tornando a cada dia mais violenta e exploratória, enquanto considerar o direito deles à vida e ao bem-estar ainda é motivo de grande resistência no mundo todo. Como diz C. G. Jung (2022, p. 161), “em nossa consciência estamos sentados num alto trono e olhamos com desprezo a natureza e os animais.”
O outro lado da sombra
Quando pensamos no outro lado da sombra, naturalmente lembramos da consciência e do ego, este que se identifica com os vários elementos da personalidade e ignora tudo aquilo que julga nela não caber. Essa relação com a sombra gera grande incômodo para o indivíduo que não a reconhece. Jung (2016, p. 322) explica que “a figura da sombra personifica tudo o que o sujeito não reconhece em si e sempre o importuna, direta ou indiretamente, como por exemplo traços inferiores de caráter e outras tendências incompatíveis.”
Porém, aqui, falamos sobre um outro lado em relação ao que geralmente se associa aos conteúdos sombrios da psique. É comum que o indivíduo reprima sentimentos como inveja e raiva ou características perversas. Isso tudo costuma ser mal visto socialmente e no decorrer de seu crescimento, desde a infância até a fase adulta, ele aprende a moldar a si mesmo de maneira a corresponder da melhor forma possível aos anseios externos. É uma busca inconsciente por adaptação e aceitação. Contudo, a humanidade não é feita apenas de sentimentos e atitudes consideradas positivas. Se olharmos à nossa volta, não é difícil enxergar crueldade, injustiça e indiferença. Logo, há também repressão quanto à doçura, generosidade, empatia e outros sentimentos que são muitas vezes vistos como fraquezas ou tolices. Logo, o que se esconde na sombra não são apenas traços negativos:
A sombra, embora seja uma figura negativa per definitionem, deixa entrever muitas vezes traços ou associações positivas, os quais apontam para um cenário de outro tipo. É como se ela escondesse conteúdos significativos sob um invólucro inferior. A experiência confirma a hipótese; aliás as coisas aparentemente ocultas consistem em geral de figuras cada vez mais numinosas. (JUNG, 2016, p. 307)
Se tomarmos como exemplo a relação humana com os outros animais, perceberemos a complexidade dessa questão. Nela, a exploração e a crueldade estão presentes desde a antiguidade, ao mesmo tempo que o carinho e o fascínio. Luz e sombra sempre se manifestaram, variando as características positivas e negativas a depender de cada cultura e o caráter de cada indivíduo. Nas últimas décadas, porém, essa exploração cresceu vertiginosamente e, não por acaso, também a luta pela proteção animal.
A sombra verde
Essa relação exploratória entre seres humanos e os outros animais se dá de diversas formas: na alimentação, na moda, na ciência, no labor e até no entretenimento. Sobre a indústria da carne, a situação chegou a níveis tão absurdos que passou a ser de grande preocupação global, tamanho o impacto ambiental negativo. Para dar uma dimensão do problema, em 2016, foram registradas, no Brasil, cerca de 215 milhões de cabeças de gado, ultrapassando a quantidade de habitantes no país, naquele ano. Esses animais demandam quantidades enormes de alimento, água e espaço para um dia sua carne chegar aos pratos. Eles produzem dejetos que poluem rios e oceanos, além de seus gases serem a principal fonte de gás metano na atmosfera, um dos agentes mais agravantes da crise climática, que a cada dia se torna mais preocupante.
É curioso notar que até a preocupação com o meio ambiente é, muitas vezes, uma preocupação egoísta, um medo de que soframos as consequências da nossa falta de compaixão exacerbada. Onde está a preocupação com os animais indefesos que sofrem com a nossa insensatez? O avanço tecnológico serviu como uma lupa para aumentar e expor toda a capacidade humana de ser cruel e insensível. O planeta inteiro se tornou mero objeto ao dispor do capricho e da ambição sem limites, em nome de um progresso material que não leva em conta que também fazemos parte dessa Terra:
Progresso e desenvolvimento são ideais inegáveis; mas perdem o sentido se o homem chegar a seu novo estado apenas como um fragmento de si mesmo, deixando para trás, na sombra do inconsciente, todo o essencial que constitui seu pano de fundo, a um estado de primitividade, ou até de barbárie. (JUNG, 2016, p. 195)
Se pensarmos em termos junguianos sobre toda essa situação, fica evidente uma unilateralidade extrema da psique coletiva. Quando isso acontece, a tendência é que surja um efeito enantiodrômico para restabelecer a harmonia perdida:
No caso histórico-coletivo, tal como no individual, trata-se de um desenvolvimento da consciência, a qual se liberta gradualmente da prisão da ἀγνοία, ou seja, da inconsciência […] Tal como na forma coletivo-mitológica, a sombra individual também traz em si o germe da enantiodromia, da conversão, em seu oposto. (JUNG, 2016, p. 308-9)
É a partir desse movimento psíquico coletivo que surge o veganismo, vindo das profundezas sombrias da humanidade, que reprimiu a própria compaixão pelas outras espécies animais. Diferente do que muitos ainda acreditam, não se trata apenas de não consumir carnes e outros derivados animais, mas um movimento ético-político pelos direitos e libertação animal. Além disso, como se posiciona contra qualquer tipo de opressão, defende também os direitos humanos.
Assim como qualquer movimento de integração com a sombra gera intensa resistência no indivíduo, fato comum no processo analítico, também a humanidade resiste bravamente à adesão ao veganismo, utilizando-se dos argumentos mais estapafúrdios. A resistência, na realidade, se dá em relação à compaixão, à empatia, ao amor ao próximo, à simples capacidade de enxergar os animais de outras espécies como nossos próximos, ao desapego material, à conexão espiritual com a natureza e o planeta como um todo.
Há, porém, outro fator de resistência que se dá por questões externas da vivência humana: a pressão social. Aderir ao veganismo implica, muitas vezes, em ter que lidar com incompreensão, zombaria, críticas e uma sorte de desafios na relação com outras pessoas. O medo da rejeição e do isolamento social são experiências comuns de quem deseja aderir a essa causa. Por isso, o indivíduo precisa de uma forte convicção ao mesmo tempo em que desenvolve uma resiliência capaz de sustentar de forma tranquila as consequências dessa decisão, sem cair para o lado da raiva e do ressentimento.
Apesar disso, a “sombra verde” já encontrou a luz e o movimento vegano se encontra em pleno crescimento mundial. De acordo com uma pesquisa de março de 2025, feita pelo Instituto Datafolha, 7% da população brasileira se considera totalmente ou parcialmente vegana. Isso significa que por volta de 15 milhões de brasileiros olham com seriedade para a questão. É muita gente! Em muitos outros países, essa tendência se mostra alinhada com o Brasil, o que demonstra ser um movimento global. Parece que quanto mais acirrada fica a relação exploratória entre a humanidade e as outras espécies de animais, mais atrativo o veganismo se torna, justamente o que se esperaria da dinâmica psíquica da sombra.
Um caminho de progresso e compaixão
A sombra não deve ser evitada, pelo contrário, se faz necessário olhar para ela com respeito. Ela, geralmente, indica um caminho mais harmonioso a ser seguido, que se dá através da sua integração à consciência. A psicologia analítica esclarece que, em se tratando de inconsciente, a figura da sombra é a que está mais perto da consciência e, por isso, é a primeira a se manifestar no processo analítico. Ademais, marca o início da individuação. (Cf. JUNG, 2016, p. 308)
É importante destacar que essa integração é uma busca pela totalidade e não pelo outro extremo. No caso do veganismo, o indivíduo precisa ter cuidado para não adentrar um radicalismo que o faça trocar o desprezo pelos outros animais pelo desprezo pelo ser humano. Um dos perigos desse caminho é a inflação do ego, que pode fazê-lo sentir-se superior moral ou espiritualmente às outras pessoas, enquanto se sente igual aos animais de outras espécies, uma grande contradição. Outro perigo que precisa de atenção é a obsessão pela pureza alimentar, a ortorexia, que pode levá-lo a restrições severas, isolamento, ansiedade, culpa e outros efeitos desnecessários.
Integrar significa trazer para si, para perto, aceitar tudo aquilo faz parte de si mesmo e estava escondido. Isso requer compaixão com a própria individualidade. A “sombra verde” aponta para a necessidade de uma ampliação de consciência que desenvolva a nível coletivo uma profunda compaixão pelas outras espécies animais, assim como pela humanidade. A autocompaixão é o primeiro passo dessa jornada, pois nos aproxima da totalidade psíquica, o Self. Dessa forma, essa unilateralidade típica do ser humano atual pode ser desfeita e a vida de todos os animais suavizada:
Esta consciência “deslizante” é inteiramente característica também do homem moderno. A unilateralidade, porém, que ela provoca é removida por aquilo que eu chamei de “percepção da realidade da sombra” […] um processo de tomada de consciência da parte inferior da personalidade, processo este que não deve ser entendido falsamente no sentido de um fenômeno de natureza intelectual, porque se trata de uma vivência e de uma experiência que envolvem a pessoa toda. (JUNG, 2014, p. 167-8)
Essa experiência de conscientização é o que o movimento vegano busca levar às pessoas de todos os cantos do planeta. Infelizmente, só é possível informar e mostrar a questão pelo viés intelectual, mas vez ou outra alguns corações são tocados e, então, o amor pela causa animal é despertado. O que antes era ignorado, de repente parece óbvio e o indivíduo começa a enxergar as outras espécies como iguais e irmãs. Jung (2014, p. 105) cita “o inconsciente coletivo, que, como herança imemorial de possibilidades de representação, não é individual, mas comum a todos os homens e mesmo a todos os animais, e constitui a verdadeira base do psiquismo individual.”
Essa herança em comum fala sobre uma conexão espiritual entre todos os seres vivos e o planeta. Uma ancestralidade que se revela a nível biológico e psíquico, mesmo que o ser humano, de modo geral, se sinta ilusoriamente separado da natureza e superior às outras espécies. Muita ampliação de consciência ainda se faz necessária para sair desse torpor, tanto através de trabalhos de educação das massas quanto do trabalho interno de autoconhecimento. O veganismo convida para ambos, no sentido em que o indivíduo passa a fazer parte de um movimento global ao mesmo tempo em que precisa se responsabilizar individualmente por suas ações. Em uma época em que o ser humano se sente impotente diante de tantas crises mundiais, uma transformação na relação de cada um de nós com os outros animais se mostra de grande impacto positivo:
O homem comum, que é predominantemente o homem da massa, em princípio não toma consciência de nada nem precisa fazê-lo, porque, na sua opinião, o único que pode realmente cometer faltas é o grande anônimo, convencionalmente conhecido como “Estado” ou “Sociedade”. Mas aquele que tem consciência de que algo depende de sua pessoa, ou pelo menos deveria depender, sente-se responsável por sua própria constituição psíquica, e tanto mais fortemente, quanto mais claramente se dá conta de como deveria ser, para se tornar mais saudável, mais estável e mais eficiente. (JUNG, 2014, p. 169)
Assim como a individuação, o veganismo é um chamado coletivo e também uma jornada individual. É um apelo para que nós, seres humanos, despertemos nossa compaixão e abramos os olhos para a extensão dos males que estamos causando em nossa própria casa, a Terra. Enxergar a própria sombra, esteja nela a compaixão ou a crueldade, é o caminho para o verdadeiro progresso e nos aproxima daquilo que nos faz semelhantes a todos os seres:
As pessoas, quando educadas para enxergarem claramente o lado sombrio de sua própria natureza, aprendem ao mesmo tempo a compreender e amar seus semelhantes; pelo menos, assim se espera. Uma diminuição da hipocrisia e um aumento do autoconhecimento só podem resultar numa maior consideração para com o próximo, pois somos facilmente levados a transferir para nossos semelhantes a falta de respeito e a violência que praticamos contra nossa própria natureza. (JUNG, 2014, p. 35)
Leonardo Salek – Analista em formação pelo IJEP
Waldemar Magaldi – Analista Didata do IJEP
Vídeo de apresentação:
Referências:
JUNG, Carl Gustav. Psicologia do inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2013. E-book.
______ A natureza da psique. Petrópolis: Vozes, 2014. E-book.
______ Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2016. E-book.
______ A psicologia da ioga kundalini. Petrópolis: Vozes, 2022. E-book.
Sociedade Vegetariana Brasileira, 2025. Disponível em: <https://svb.org.br/pesquisa-datafolha-revela-que-7-dos-brasileiros-se-consideram-veganos/>. Acesso em: 17 de maio de 2026.
Associação Brasileira de Veganismo, sem data. Disponível em: <https://veganismo.org.br/bovinos/>. Acesso em: 17 de maio de 2026.
Instituto Nina Rosa, 2024. Disponível em: <https://institutoninarosa.org.br/dia-mundial-do-veganismo/>. Acesso em: 17 de maio de 2026.
Instituto Nina Rosa, 2024. Disponível em: <https://institutoninarosa.org.br/o-que-mudou-em-20-anos/>. Acesso em: 17 de maio de 2026.

