RESUMO: As avós trazem em si algo que as diferem das demais mulheres, e lhes concede habilidade para o acolhimento, aconselhamento, transmissão dos saberes ancestrais, e tudo isso com temperos que atravessaram os tempos nos chás, sopas, conversas com o tempo acontecendo em um compasso mais lento, mas assertividade garantida.
INTRODUÇÃO
Era um momento de curso de Desenvolvimento da Personalidade, em que se falava didaticamente sobre o desenvolvimento do ego e suas fases. A professora do curso começou a exemplificar a teoria com o desenvolvimento dos netos. O tempo tomou outra dimensão, e começou a passar mais lentamente, respeitando o prazer do relato daquela que alinhavava conhecimento técnico com a felicidade de ser avó. Aconteceu algo mágico, naquele momento, todo seu corpo se iluminava. Através da tela, eu que já a conhecia, fui apresentada a uma pessoa belíssima, de olhos brilhantes, de fala cheia de vida, de movimentos livres, que falava dos netos.
Fiquei pensando sobre o que ocorre na nossa mente quando evocamos esses seres tão especiais? O que faz deles serem tão especiais? Como lembrar deles ou de suas peripécias faz as vovós sorrirem sozinhas?
PERSONA DA AVÓ
Inicialmente, toda avó é essencialmente uma mãe, que de acordo com o arquétipo Materno acionado pode ter aspectos negativos e positivos (nutridora, protetora, mas também controladora e devoradora). Do ponto de vista da Persona, maneira social de desempenhar o papel materno ou de avó, pode apresentar inúmeras máscaras diante do mundo: a avó sábia, a matriarca da família, dentre outros.
A Persona da avó é uma das várias facetas que é mais adequada àquele momento de interação com o ambiente externo no qual se encontra. E há uma grande facilidade de usufruir desta Persona pelo acolhimento social dado a avó, representando um complexo de emoções acolhedoras e ao mesmo tempo de sabedoria trazida da ancestralidade.
A professora e avó quando, transbordando felicidade, se refere aos netos no decorrer de uma aula, lembrando que as filhas tinham comportamento semelhante a eles, está usufruindo das emoções maternais em paralelo ao raciocínio lógico, e do prazer especial de reviver o tempo infantil das próprias filhas.
ARQUÉTIPO DO VELHO SÁBIO
O Velho Sábio é um arquétipo que contempla tanto homens quanto mulheres, e pode aparecer nelas como o Animus positivo, uma força auxiliadora e escondida de sabedoria, que transforma e cria. (Cf. HOPCKE, 2024, p. 136)
Ser avó é um exercício do princípio Feminino ampliado a partir daquele de ser mãe, porque exige mais experiência e resiliência. Atravessando o tempo e caminhando sobre obstáculos inusitados, aprendendo caminhos alternativos, ressignificando experiências dolorosas, valorizando a sabedoria dos que lhe precederam, fortalecendo-se para quando os complexos do medo e da insuficiência surgirem, a avó possa convidá-los para partilhar da jornada e seguir em frente integrando os mesmos.
Para Jung o Velho representa, por um lado, o saber, o conhecimento, a reflexão, a sabedoria, a inteligência e a intuição e, por outro, também qualidades morais como benevolência e solicitude, as quais tornam seu caráter “espiritual”. Uma vez que o arquétipo é um conteúdo autônomo do inconsciente[…] (OC 9/1, §406).
Aqui ele nos convida a refletir sobre o Velho como o espírito que aparece nos contos de fadas quando o herói está em situação desafiadora, e ele se apresenta para acolher e orientar.
No cotidiano quantas são às vezes que as avós são evocadas, mesmo que somente à memória para aliviar uma tensão ou para imaginar o que elas diriam ou fariam numa determinada situação, para encontrar as melhores saídas?
A avó se relaciona com os netos de forma salutar, quando reconhece que neles está um condensado de inúmeros anos da sua própria história. Neles há a representação de sua origem étnica, das expressões de religiosidade, dos prazeres alimentares, das formas de interagir com o mundo de maneira peculiar a ambos. Justificando o reconhecimento de semelhanças entre os netos e os que lhe precederam, como também entre traços de comportamentos dos netos e aqueles feitos pelas filhas; como foi exemplificado em aula.
Quando a avó professora exemplifica assuntos técnicos através de experiências afetivas com os netos, ela demonstra que as informações se transformam em conhecimento quando são vivenciadas na prática, e que quando temperadas com amor e carinho este processo é muito mais prazeroso e suave; sendo inclusive muito mais fácil de fixar.
Ser uma grande avó significa ensinar os caminhos do amor e da compreensão aos mais novos… porque os conselhos e advertências da avó com frequência podem ajudar a impedir deslizes dos mais jovens; e, caso não tornem os mais jovens de imediato mais sábios, conseguem ajudar a extrair sentido daqueles deslizes quando resultam em desnorteamento ou tristeza. (ESTÉS, 2023, p.58)
Estar com os netos e viver a oportunidade de acolher suas dificuldades permite a avó o exercício de todo seu conhecimento acumulado, além de demonstrar na prática que o caminho do amor e da compaixão pode ser trilhado com suavidade e firmeza.
“A avó aparece como uma figura arquetípica ancestral, representando o feminino profundo, a sabedoria encarnada, a hospitalidade da alma.” (MARTINEZ, 2025)
Este princípio Feminino profundo é acionado no acolhimento daquele bebê que precisa de amparo para se manter sentadinho e com apoio para a pesada cabeça, ensinando que muitas outras oportunidades virão em que a avó estará próxima para sustentá-lo no braço, assim como para facilitar a experimentação dos alimentos, abrindo um mundo de possibilidades de sabores e texturas, também ensinando que os relacionamentos são feitos com pessoas de diversos perfis, e que se não for muito satisfatória essa experiência relacional, a vovó estará atenta para ceder o ombro, ouvidos e carinho para que as emoções pulsantes possam escorrer seguras.
As ferramentas mágicas que a avó arquetípica usa para a transformação não muda há milhares de anos. A mesa da cozinha. A luz do lampião. Uma única vela. A música. O ritual. O insight. A intuição. A sopa. O chá. A história. A conversa. O longo passeio. A confissão. A mão amorosa. O sorriso brincalhão. A sensualidade bem resolvida. O senso de humor malicioso. A capacidade de examinar os outros e ler sua alma. A palavra gentil. O provérbio. O coração atento. A perspicácia para, quando necessário, proporcionar aos outros a experiência angustiante do “olhar”.” (ESTÉS, 2023, pp. 58 e 59).
É impossível não relacionar de imediato as “ferramentas mágicas” citadas acima que nossas avós, e outras que conhecemos, usavam para acalmar nosso coração que se despedaçou nas primeiras experiências amorosas, ou nas dúvidas diante das escolhas profissionais, quando perdemos o primeiro emprego, ou quando as coisas não saíram exatamente como planejamos. Eram chás, doces, comidinhas especiais que só elas sabiam fazer, e conversas com o tempo que passava mais devagar para que coubesse toda a nossa angústia e o acolhimento delas.
Mesmo hoje, sinto dificuldade em conceituar o sentimento que ocorria quando chegava à casa da minha avó e atravessava o seu portal; era como atravessar o portal do tempo: a luz era diferente, o som da casa ecoava de forma única, as plantas eram mais simples e bonitas, e sempre a encontrava me esperando para passarmos o dia juntas. Havia doce de leite feito para me esperar, sendo aquele que mais gosto.
Quando Jung diz que há “Três aspectos essenciais de mãe, isto é, sua bondade nutritiva e dispensadora de cuidados, sua emocionalidade orgástica e a sua obscuridade subterrânea” (OC 9/1, §158), creio que ele está se referindo a essa generosidade e permissão para sentir a emoção que aflora, para praticar o acolhimento sem que haja limite de tempo ou motivação, semelhante ao cuidado necessário a uma planta tão sensível como a avenca. Ela exige receber água, calor, claridade, vento, mas nada pode ser em excesso, nada pode ser escasso, senão ela morre. Quanto a obscuridade e subterrânea, é possível que sejam as pedras e tropeços que foram imperiosos e superados no caminhar para chegar ao destino, e suas representações simbólicas quando as mães, que se tornam avós, aludem nas conversas sobre suas trajetórias.
Ser avó é participar de uma faixa da humanidade que agrega a ancestralidade e a possibilidade de transmitir tudo que ela representa, envolvendo sentimentos, lembranças e emoções que a moldaram e a trouxeram até o hoje.
Quando a professora avó, durante a aula, trouxe o exemplo dos netos para explicar os conhecimentos técnicos sobre o desenvolvimento da personalidade, ela evocou sua ancestralidade, elaborou os saberes científicos específicos e se expressou com falas transbordantes de afetividade. Foi a mestra avó que tomou lugar naquele momento.
E foi fantástico!
Dayse de Araújo Raphael – Analista em Formação IJEP
Lia Rachel B Romano – Analista Didata IJEP
Vídeo de apresentação:
REFERÊNCIAS:
ESTÉS. Clarissa Pinkola. A ciranda das mulheres sábias. Ser jovem enquanto velha, velha enquanto jovem. Ed Rocco, RJ, 2023
HOPCKE. Robert H. Guia para a obra completa de C. G. Jung, Petrópolis: Vozes, 2024
JUNG, Carl Gustav. Símbolos da Transformação. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 2022.
______ Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2022.
______ Psicologia do inconsciente. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2022.
______ A natureza da psique. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2022.
MAGALDI, Simone. A importância do passado a construção da psique infantil. Blog do IJEP junho/2019.
MARTINEZ, Monica. Do surfista sagrado à avó ancestral: análise de um sonho à luz da jornada da heroína. Blog do IJEP, agosto/2025.

