RESUMO: O complexo materno negativo pode dificultar o desenvolvimento da autonomia psíquica ao manter a libido vinculada a relações fusionais e padrões inconscientes de adaptação. A partir da concepção da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, sobre complexo, arquétipo e energia psíquica, discutem-se como determinadas dinâmicas maternas interferem no processo de diferenciação e autonomia do individuo, favorecendo estados de esgotamento, responsabilidade excessiva e limitação da espontaneidade psíquica. A tomada de consciência dessas configurações possibilita a redistribuição da energia anteriormente aprisionada no complexo, abrindo espaço para formas mais autênticas de relação consigo mesmo e com o outro.
Este artigo propõe uma reflexão à luz da Psicologia Analítica, acerca do complexo materno negativo, da redistribuição da energia psíquica e seus impactos no processo de diferenciação psíquica e apropriação de si mesmo.
Algumas experiências psíquicas não se anunciam inicialmente como sofrimento. Ao contrário, organizam-se silenciosamente no interior da vida cotidiana, diluídas no amor, na responsabilidade, na adaptação e também na lealdade e no cuidado. Digo com isso, que o complexo materno negativo não se constitui apenas através de experiências explicitas de rejeição, abandono ou violência. Em muitos casos, ele se organiza precisamente em relações permeadas por forte vinculo e pertencimento, mas que em longo prazo dificultam o desenvolvimento da autonomia psíquica e a diferenciação enquanto individuo.
A força do vinculo materno pode ultrapassar a dimensão do cuidado, transformando-se em um campo emocional, no qual a vida do filho e/ou filha passa a organizar-se em função das necessidades, fragilidades ou expectativas dessa mãe.
É comum nas sessões, relatos de adultos, que trazem na memória a vivência em lares, com um campo psíquico extremamente organizado em torno da adaptação, do controle silencioso e da contenção da vida. Estas mães aparecem como uma figura paradoxal, frágeis externamente, porém destemidas internamente e quase estrategistas – se assim podemos mencionar, com a ressalva de uma dinâmica profundamente inconsciente. A mãe parece pequena, delicada em demasia, mas toda a realidade gira em torno da manutenção de sua estabilidade psíquica.
OS COMPLEXOS
Para Jung (2014) um complexo afetivo é a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e que, além disso, é incompatível com atitude habitual da consciência. Esta imagem, dotada de poderosa coerência interior, com totalidade própria, goza de um grau relativamente elevado de autonomia.
[…] “É dos complexos que depende o bem-estar ou a infelicidade de nossa vida pessoal.” (JUNG,OC VIII/2,§209)
Jung ainda ressalta que os complexos não são totalmente de natureza mórbida, mas manifestação vital próprias da psique seja esta diferenciada ou primitiva. Já a consciência, está invariavelmente convencida de que os complexos são inconvenientes e, por isso, devem ser eliminados de um modo ou de outro.
Os complexos não constituem apenas conteúdos psíquicos isolados, mas núcleos autônomos carregados de energia psíquica. Quando ativados, tendem a capturar a atenção da consciência, distorcer a percepção da realidade e produzir reações automáticas, muitas vezes desproporcionais à situação objetiva. O individuo passa, então, a responder menos ao presente e mais ao conteúdo emocional acumulado em torno do complexo.
O ARQUÉTIPO MATERNO
O arquétipo materno é a base do chamado complexo materno
Como todo arquétipo, o materno também possui uma variedade de aspectos: desde a própria mãe e a avó; a madrasta e a sogra; uma mulher qualquer com a qual nos relacionamos, até em sentido mais amplo, a Igreja, a Terra, a floresta, as águas quietas e em sentido mais restrito, a terra arada, o jardim, a árvore. (JUNG, 2016)
Entre as qualidades desse arquétipo estão a sabedoria profunda, a elevação espiritual, o colo que acolhe, cuida e oferta condições para o crescimento.
Embora a figura da mãe seja Universal, sua imagem muda substancialmente na experiência prática individual. Isto significa que não é apenas da mãe pessoal que provém todas as influências sobre a psique infantil, mas é muito mais o arquétipo projetado na mãe que outorga à mesma um caráter mitológico e com isso lhe confere autoridade e até mesmo numinosidade. Os efeitos traumáticos da mãe estariam divididos em dois grupos: primeiro os que correspondem a atitudes realmente existentes na mãe pessoal e segundo, aqueles que só aparentemente possuem tais características, uma vez que se trata de projeções fantasiosas por parte da criança. (JUNG, 2016)
O complexo materno negativo não se constitui apenas como lembranças da mãe real, mas como uma organização autônoma da psique, formada pela sobreposição entre experiências infantis, fantasias inconscientes e conteúdos arquetípicos vinculados a imagem do arquétipo da Grande Mãe.
Na perspectiva da Psicologia Analítica, o problema não reside na existência do complexo em si – uma vez que os complexos fazem parte da dinâmica natural da psique, mas na condição em que o indivíduo passa a ser dominado por ele, tendo sua consciência parcialmente submetida as reações automáticas, afetos e padrões vinculados à imagem materna internalizada. Nesse estado de possessão psíquica, grande parte da energia libidinal permanece aprisionada na repetição dos conflitos e identificações inconscientes.
SOBRE A LIBIDO
[…] “É mais prudente por isso, ao falarmos de libido, entender com este termo, um valor energético que pode transmitir-se a qualquer área, ao poder, a fome, ao ódio, a sexualidade, a religião etc., sem ser necessariamente um instinto especifico [.”…] (JUNG OC V §197).
Jung, 2016 diz que a libido se expressa na comparação com o Sol, como luz, fogo, sexualidade, fertilidade e crescimento; que a imagem materna é um símbolo da libido.
A GRANDE QUESTÃO
A questão que se coloca, portanto, é: O que ocorre quando o sujeito deixa de ser governado por esse núcleo autônomo, isso é possível? Se sim, para onde se desloca a energia antes investida no complexo?
O complexo materno negativo pode estruturar-se a partir de diferentes configurações da experiência materna: mães invasivas e controladoras, que impedem a diferenciação psíquica do filho; mães frias ou emocionalmente indisponíveis, cuja ausência afetiva produz um sentimento persistente de desamparo; mães negligentes, incapazes de oferecer continência emocional; a mãe narcisista, cuja organização psíquica permanece excessivamente centrada em si mesmo, nas próprias necessidades emocionais e em suas fragilidades inconscientes, dificultando o reconhecimento do filho como um sujeito separado e dotado de individualidade própria, ou ainda figuras profundamente ambivalentes, que alternam cuidados e rejeição, proximidade e afastamento.
Em nosso estudo, porém, vamos nos ater a configurações mais sutis da dinâmica materna, frequentemente mais difíceis de serem reconhecidas, permeadas por um ambiente acolhedor e de pertencimento, como explicado no inicio.
Entretanto, na perspectiva da Psicologia Analítica, o impacto psíquico dessa vivência não se restringe ao campo objetivo da relação com a mãe real. A experiência vivida associa-se às fantasias inconscientes e aos conteúdos arquetípicos ligados à imagem da Grande Mãe, formando um núcleo autônomo carregado de intensa tonalidade afetiva.
A DINÂMICA
Os efeitos psíquicos do complexo materno negativo frequentemente se manifestam por meio de uma dependência emocional persistente ou, em movimento oposto, por uma rejeição radical de tudo aquilo que simbolicamente remeta ao feminino, à vulnerabilidade e ao vínculo.
Em muitos casos, o individuo oscila entre a necessidade inconsciente de aprovação materna e tentativas defensivas de afastamento, sem que consiga estabelecer uma relação verdadeiramente diferenciada com a própria interioridade. Tal dinâmica pode comprometer o desenvolvimento da autonomia psíquica, dificultar escolhas pessoais e afetivas e sabotar o processo de individuação, uma vez que parte significativa da energia permanece aprisionada na repetição dos conflitos vinculados ao complexo.
Além disso, o complexo pode produzir uma relação distorcida com o feminino interno, fazendo com que o cuidado, receptividade, sensibilidade e entrega seja vivida como ameaça, fraqueza ou invasão.
Em vez de constituir uma dimensão integrada da personalidade, o feminino pode ser experimentado de forma defensiva, fragmentada ou excessivamente idealizada. Nesse sentido, o complexo materno negativo não mantém o individuo ligado propriamente a mãe real, mas aprisionado à imagem psíquica dessa mãe, que continua atuando internamente como uma presença autônoma, organizando afetos, vínculos e modos de perceber a si mesmo e o mundo.
No caso do complexo materno negativo, determinadas experiências afetivas, relações amorosas ou figuras de autoridade podem mobilizar intensamente a imagem materna internaliza fazendo com que antigas dinâmicas inconscientes sejam constantemente reatualizadas.
Em símbolos da transformação, Jung, 2016 nos lembra de que a vida chama o indivíduo para a independência, e quem não atender a este chamado, por comodidade e temor infantis, está ameaçado de neurose. E que para a luta da vida é necessária à libido toda.
[…] Quando a libido abandona a claridade do mundo, seja por decisão própria , seja pela diminuição da força vital ou pelo destino, ela volta a seu próprio fundo, para a fonte da qual um dia brotou, e retorna àquela brecha, o umbigo, pela qual um dia penetrou neste corpo. Esta brecha chama-se mãe, pois é dela que nos veio a corrente da vida. Quando se trata de realizar uma grande obra diante da qual o homem recua, duvidando de sua força, sua libido regressa para aquela fonte – e é este o momento perigoso em que se faz a decisão entre destruição e nova vida. Se a libido fica presa no reino maravilhoso do mundo interior, o homem se transforma em sombra para o mundo exterior, ele está como morto ou gravemente doente. Mas se a libido consegue desvencilhar-se e subir à tona, o milagre aparece: a viagem ao submundo é uma fonte de juventude para ela e da morte aparente desperta novo vigor.
Jung, OC V, §449
Nesse sentido, “retirar a energia do complexo” não significa eliminá-lo da psique, uma vez que estes pertencem à própria estrutura do funcionamento psíquico. Trata-se, antes, de um processo de desidentificação, no qual o indivíduo deixa de estar inconscientemente fundido ao complexo e passa a estabelecer uma relação mais consciente com ele.
Ao enfraquecer-se a identificação com a mãe interna, a libido anteriormente fixada na dinâmica do complexo pode tornar-se novamente disponível para o movimento da vida psíquica, favorecendo processos de diferenciação, autonomia, criatividade e individuação.
Aqui é que tudo muda… Esse processo geralmente inicia-se pela percepção dos padrões repetitivos e pelo sofrimento que dele decorrem. Muitas vezes, é a própria intensidade do sofrimento que atua como gatilho para o inicio da transformação, levando o sujeito a confrontar os modos pelos quais permanece aprisionado à dinâmica materna inconsciente. A partir dai, torna-se possível um movimento de diferenciação psíquica, no qual a mãe começa a ser distinguida da imagem psíquica construída em torno dela.
É como se “caísse uma ficha”ao percebermos que nossa reatividade no dia a dia não é sobre o que está acontecendo no agora, mas sim um eco das dores do complexo.
Nesse caminho, o trabalho com os símbolos é fundamental. Os sonhos, a imaginação ativa e a arte viram pontes para acessar e ampliar a consciência a partir do inconsciente.
Paralelamente, ocorre a retirada gradual das projeções: a imagem materna deixa de ser inconscientemente transferida para outras relações marcadas pela dependência afetiva e pela necessidade de aprovação.
Dessa forma, a energia psíquica anteriormente aprisionada no complexo torna-se novamente disponível para o desenvolvimento da autonomia, como se aquela energia que estava trancada no complexo voltasse para as mãos de seu verdadeiro dono.
À medida que essa transformação se consolida, observa-se uma diminuição da reatividade emocional e uma ampliação da capacidade de escolha consciente; ou seja, vai deixando de reagir de maneira automática às antigas feridas emocionais. A relação com a mãe – ou com sua imagem interna – tende a tornar-se mais realista, menos idealizada e menos dominada pelos afetos primitivos do complexo, sem precisar romper com a mãe real.
Esse movimento favorece o desenvolvimento de uma função interna de cuidado, capaz de oferecer sustentação psíquica sem reproduzir a lógica invasiva, negligente ou ambivalente originalmente associada à experiência materna.
Nesse contexto, pode emergir aquilo que simbolicamente pode ser compreendido como uma forma de automaternagem: a capacidade de tornar-se, para si mesmo uma presença suficientemente boa, que nutri, mas não sufoca; que cuida, mas não interdita.
Surge, então, a possibilidade de uma vida psíquica mais própria, no qual o individuo deixa de organizar sua existência em torno da ferida materna. A automaternagem implica uma relação mais madura com as próprias necessidades emocionais, permitindo que o indivíduo desenvolva continência interna, autorregulação afetiva e autocuidado. Agora, a energia psíquica será direcionada para si mesmo, em prol de sua evolução, do seu vir-a-ser.
A mãe deixará de ser um destino psíquico, para ser apenas origem!
Patricia Moura Vernalha – Analista em formação IJEP
Waldemar Magaldi – Analista Didata IJEP
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