RESUMO: No século XII, em plena Idade Média, período em que às mulheres cabiam o silêncio e a obediência aos maridos, além de serem proibidas de estudar e ter acesso aos livros, viveu uma mulher que ganhou grande notoriedade. Santa Hildegarda de Bingen se destacou em teologia, filosofia, música e medicina, entre outras áreas. Respeitada como profetiza e visionária, Hildegarda deixou registrado em sua obra um vasto conhecimento sobre medicina integrativa. Seu tratamento compreendia aliar remédios a partir de plantas medicinais a um estilo de vida mais harmônico, tanto consigo mesmo, quanto com a natureza e com o divino. Até os dias atuais, podemos perceber sua influência em movimentos ecológicos, pacifistas, naturalistas e até feministas. Sua visão, que integrava corpo, mente e alma, não faria dela uma psicossomatista em plena Idade Média? Esse artigo traz um pouco de sua incrível história e se debruça sobre sua faceta de curadora de corpos e almas.
INTRODUÇÃO
Meu primeiro contato com a história de Hildegarda de Bingen aconteceu durante minhas pesquisas sobre as curandeiras da Idade Média e me cativou de imediato, tanto quanto me intrigou. Em uma época em que às mulheres era negado o acesso aos livros e ao estudo, as curandeiras transmitiam entre si o conhecimento que obtinham através da observação e interpretação da natureza, formando uma sabedoria ancestral que englobava o uso de plantas, animais e minerais no preparo de remédios, infusões, emplastos, banhos, assim como talismãs e encantamentos.
Elas atuavam tanto no campo físico, concreto, quanto no invisível, espiritual. Em meio a essas mulheres que, no final da Idade Média, foram desacreditadas, acusadas e perseguidas, existiu uma que se sobressaiu em diversas áreas: filosofia, teologia, música, astronomia, botânica e medicina, deixando obras escritas relevantes para muitas delas. Essa mulher fascinante que conseguiu, em um momento histórico de silenciamento e apagamento do feminino, ser conhecida e respeitada como visionária e profetisa, influenciando personalidades notáveis como o imperador Frederico Barbarossa e o Papa Eugênio III, foi chamada de primeira médica da Alemanha (Cf. NOGUEIRA; VASCONCELOS, 2022, p.58).
Além de sua notória contribuição na área médica, ela foi a primeira mulher a ser considerada uma autoridade em assuntos teológicos, a única mulher medieval a quem se concedeu o direito de pregar a doutrina cristã em público, a única a ser lembrada como compositora de uma vasta obra musical e dramaturga não anônima do Século XII, e a primeira autora a escrever sobre sexualidade e ginecologia sobre o ponto de vista feminino (Cf. VASCONCELOS, 2022).
Nesse sentido, infelizmente, o percentual de mulheres que conseguiam ser aceitas no meio cultural, intelectual e de produção de conhecimento era extremamente reduzido. Portanto, o legado intelectual de Hildegarda, surpreendente nos dias de hoje, é mais impressionante ainda por ter sido realizado por uma figura feminina na época medieval. (MARTINS, 2022, p. 44)
Mas afinal, quem foi Hildegarda de Bingen? E como ela conseguiu tanta notoriedade nesse período histórico em que, segundo a sentença de Paulo de Tarso (1, Tim. 2,12), as mulheres não podiam ensinar, aprender e transmitir conhecimento, podendo elas apenas obedecer ao marido e ficar em silêncio (Cf. MARTINS, 2019, p.30)? Nesse artigo vamos conhecer um pouco de sua história, dando uma maior atenção à sua faceta médica naturalista, que promovia a cura do ser humano, tanto do corpo como da alma, através de sua visão integralista.
UMA BREVE HISTORIA DE SUA VIDA
Hildegarda nasceu em 1098, na cidade de Bermersheim, próxima ao Rio Reno, na atual região da Alemanha. Filha de família nobre, aos 8 anos foi confiada aos cuidados de Jutta von Sponheim, abadessa de um convento beneditino para homens e mulheres, como meio de receber instruções. Jutta a ensinou a ler e escrever, cantar salmos, trabalhos manuais, música e botânica. Ainda criança, Hildegarda começou a ter visões espiritualistas, que continham mensagens divinas, e a acompanharam por toda a sua vida. Suas visões, já na vida adulta, foram reconhecidas como autênticas pelo Papa Eugenio III, lhe rendendo o Privilegia, documento quelhe concedeu a emancipação civil e eclesiástica, garantindoautonomia para sua escrita. Essas visões foram registradas, juntamente com algumas de suas lindas ilustrações das visões e de mandalas, em seu livro Scivitas; sua única obra com tradução para o português até os tempos atuais (Cf. ESTEVAM, 2020, p.18).
Por volta dos quinze anos, fez votos religiosos para se tornar monja beneditina, passando a cuidar dos enfermos que procuravam por ajuda médica e espiritual nos mosteiros. Aprendeu então a fazer emplastos, decocções, banhos e unguentos a partir de plantas, assim como receitar dietas alimentares e a utilização de amuletos. Quando Jutta faleceu, Hildegarda estava com 38 anos e foi eleita para assumir a posição de abadessa do convento. Alguns anos mais tarde, conseguiu permissão para criar um convento exclusivamente feminino em Bingen, longe da autoridade jurídica, financeira e espiritual dos monges, que se desdobrou em litígio por parte do abade do seu antigo mosteiro.
Em Bingen, pôde se dedicar a seu trabalho de terapeuta, médica, conselheira espiritual e profetiza, recebendo cada vez mais peregrinos e pessoas em busca do seu dom.
Foi nesse período em que produziu boa parte de sua obra, baseada toda ela em suas visões divinas. Apesar de se apresentar como iletrada, em seus textos podemos perceber sua erudição: era bem informada sobre as discussões de pensadores de seu tempo, como Hugo de São Vitor e Constantino Africano, e teve acesso a autores clássicos como Isidoro de Sevilha, Celso e Galeno. Em sua obra Physica, composta de nove livros, ela descreveu e classificou os elementos da natureza e indicou os remédios que podem ser obtidos de cada planta ou órgão animal, compondo uma verdadeira enciclopédia: são cerca de 300 plantas, 61 tipos de aves e animais voadores, e 41 tipos de mamíferos. “Atribui-se a esse livro o estatuto de ter sido o primeiro livro de ciências naturais do Sacro Império Romano-Germânico e de ter sido a base para o estudo da Botânica durante toda a Baixa Idade Média na Europa (sécs. XI ao XV) até o século XVI” (MARTINS, 2019, p.163). Outra obra de muita importância é Causae et Curae, que compreende cinco livros, que tratam desde a Criação do mundo, astros e natureza, há sonhos, causas e tratamento das doenças.
Em 10 de maio de 2012, o Papa Bento XVI completou o processo de canonização de Hildegarda, iniciado ainda no século XIII. Em seguida, em 7 de outubro de 2012, o mesmo Papa concedeu-lhe o título de Doutora da Igreja Católica Romana, consagrando-a como a quarta mulher a receber esse título, ao lado de Catarina de Siena, Teresa de Ávila e Teresa de Lisieux.
A MEDICINA DE HILDEGARDA
Hildegarda, que também era conhecida como Sibila do Reno, considerava o ser humano como um sistema complexo interligado entre corpo, mente e espírito (alma): “ela acreditava que a saúde resultava do equilíbrio desses elementos, e que as doenças surgiam quando esse equilíbrio era perturbado” (Antunes, 2024, p.10), considerando dessa forma que o sistema de cura deveria atuar nesses três níveis.
Sua medicina, consequentemente, envolvia práticas ao mesmo tempo mágicas, religiosas e científicas.
Para ela, o humano era reflexo do macrocosmos composto do Divino e da Natureza, e o desequilíbrio trazido pela doença podia ser corrigido de volta ao eixo com um estilo de vida mais harmônico, com uma alimentação mais leve e saudável, com a purificação dos humores, a reconexão com o divino e com a ordem natural. Ou seja, uma vida de moderação que promovesse a conexão com Deus e com a Natureza.
Os tratamentos prescritos combinavam o uso de ervas e plantas medicinais com conselhos espirituais e práticas de purificação da mente e da alma, como oração, contemplação da natureza, cantos e leituras, a reforma nos hábitos alimentares, e serviços comunitários. Ela ensinava que a mente tinha a capacidade de influenciar o corpo e a alma e defendia que práticas como meditação e oração ajudavam a cultivar uma vida de virtude, fortalecer a mente, a saúde e a conexão com o espiritual (Cf. ANTUNES, 2024, p.43, p.99).
Em sua obra, a abadessa registrou uma compreensão de que quase todas as doenças são causadas por um apagão espiritual da personalidade interior: ela reconhecia os efeitos do estresse, da ansiedade e das emoções negativas na saúde e no bem-estar geral, o que implicava em uma perda de vitalidade, ou de viriditas. Esse era o termo usado por ela para designar as forças curativas transmitidas por Deus para as plantas e animais, representando a energia da fecundidade, da renovação, do crescimento e da regeneração que permeia todas as coisas vivas.
Sua medicina é baseada no princípio de que todos os processos internos nas pessoas podem ser rastreados até sua origem bioquímica. A substância que faz alguém triste e que desempenha uma regra em todas as enfermidades sérias, ela chama de bile negra. (STREHLOW; WEIGHARD, 2023, p. 30)
Emoções reprimidas e a Bile Negra
A teoria dos humores foi criada por Hipócrates (século V a.C.) e desenvolvida posteriormente por Galeno (século II d.C.). Acreditava-se que a saúde dependia do equilíbrio dos quatro fluidos corporais: sangue, bílis amarela, pituíta (muco/fleuma) e atrabílis (bile negra). Hildegarda relacionava ainda cada humor a uma qualidade dos elementos aristotélicos: quente, frio, seco e úmido, empregando medicamentos de qualidades opostas no tratamento. Ela atribuiu muitas doenças ao desequilíbrio no nível dos quatro humores básicos do organismo: quanto maior fosse o grau de desarmonia entre esses líquidos, mais grave seria a doença.
Para ela, essas alterações bioquímicas nos fluidos corporais tinham raízes espirituais e emocionais; ela entendia que os humores podiam sofrer alterações quando despertadas as paixões, a ira, a tristeza ou a raiva. Para Hildegarda, a química do sangue sofria uma grande mudança como resultado de influências negativas. Por exemplo, se alguém não resistisse à ira e explodisse, a bile se acalmava. Porém, se a ira continuasse, a escuridão da bile negra formava uma névoa que envolvia a vesícula biliar, liberando um fluxo completamente amargo, tornando a pessoa triste. A ira contida ativaria um ingrediente no sangue que levaria a um tipo de auto envenenamento (Cf. STREHLOW; WEIGHARD, 2023, p.129).
Um corpo intoxicado por emoções não processadas, segunda ela, sobrecarregava o fígado, tornando-o inchado e obstruído.
Ela descrevia esse órgão como um filtro que remove os resíduos prejudiciais e poluentes e transforma em substâncias não venenosas para que os rins possam secretar. O excesso de bile produzida pelo fígado é armazenado na vesícula biliar, se tornando concentrado. A bile negra seria o resultado dessa concentração, contaminando o sangue e causando um humor denso e nocivo. Seu excesso levaria à tristeza profunda, perda de vitalidade, isolamento afetivo e à melancolia. Uma pessoa envenenada pela bile negra sofreria de depressão, febre emocional e problemas estomacais. Segundo Hildegarda, o excesso de bile negra era, dessa forma, uma oportunidade para que a pessoa revisse seu estilo de vida, como um sinal de que algo precisava ser curado e alguma emoção precisava ser libertada. A pessoa estava sendo chamada a reencontrar com o seu centro e se curar.
Uma das maiores contribuições da medicina de Hildegarda é o uso de remédios que neutralizam a melancolia. Seu tratamento envolvia unir alimentação e uso de plantas medicinais, que ajudavam na digestão e circulação do sangue, com orações, contemplação e contato com a natureza, meditação para aquietar a mente e se reconectar com o divino e a beleza que há na vida. A música também era uma parte importante do tratamento para aliviar a melancolia, pois ela acreditava que o fígado podia ser influenciado pela audição, e a música, como afirmava, tinha o poder de unir o corpo à alma.
“Numa época em que não era comum as mulheres participarem das decisões políticas e religiosas, Hildegarda fez-se ouvir”[1]
A partir da segunda metade do século XX, os escritos de Hildegarda começaram a serem traduzidos em várias línguas. Suas cartas, mais de 400, puderam lançar luz à aspectos do seu cotidiano, revelando os traços de sua personalidade e como lidava com os problemas administrativos da sua comunidade, como se posicionava e reagia às repercussões das suas obras e como percecionava o contexto social da sua época.
Delas emerge a figura de uma mulher apaixonada, de convicções firmes, eloquente e destemida, audaz no trato com os poderosos mas possuidora de grande tato diplomático quando necessário, cuidadosa e atenta às necessidades das suas monjas e daqueles que a ela recorriam em busca de conselho. Não hesitou em usar a sua aura de profetisa para fazer valer as suas ideias e conquistar os seus objetivos, por vezes ameaçando os seus destinatários em nome de Deus (VASCONCELOS, 2022).
O pensamento holístico de Hildegarda é considerado moderno até nos tempos atuais. Podemos notar sua influência em movimentos ecológicos, pacifistas, naturalistas e até feministas. Ela se tornou um ícone para muitos que querem viver um estilo de vida mais simples e ligado à natureza (Cf. VASCONCELOS, 2022). Sua visão integral do ser humano, que associa corpo, mente e alma e entende o homem como elemento constituinte da natureza e do divino, me faz pensar na Santa Hildegarda de Bingen como uma psicossomatista junguiana em plena Idade Média. Podemos encontrar em seus textos uma série de outras ideias semelhante àquelas que tão bem conhecemos no universo junguiano. Mas isso será assunto para o meu trabalho de conclusão de curso da Psicossomática.
Beatriz Assumpção: Analista em formação IJEP
Lia Romano: Analista Didata IJEP
REFERÊNCIAS:
ANTUNES, Priscila. O mínimo sobre a medicina de Santa Hildegarda. 1.ed. Campinas: O Minimo, 2024.
ESTEVAM, Maria Terezinha. Um estudo sobre o Physica, de Hildegarda de Bingen: as virtudes curativas de algumas plantas. Dissertação (Mestrado em História da Ciência), PUCSP, São Paulo, 2020
MARTINS, Maria Cristina da Silva. O Livro de Plantas de Hildegarda de Bingen. Rónai – Revista de Estudos Clássicos e Tradutórios. Juíz de Fora. vol.10, n.1, p. 26-49, 2022.
______ Hildegarda de Bingen: Physica e Causae et Curae. Cadernos de Tradução, Porto Alegre, Numero especial, p.165-177, 2019.
NOGUEIRA, Maria Simone Marinho; VASCONELOS, Ana Rachel G.C. Ciência e fé em Hildegard von Bingen. Basilíade – Revista de filosofia, Curitiba, v.4, n.8, jul/dez, p.57-72, 2022.
STREHLOW, Weighard; HERTZKA, Gottfried. A medicina de Santa Hildegarda. 1.ed. Bela Vista do Paraíso: Calvariae Editorial, 2023.
VASCONCELOS, Teresa. Santa Hildegarda, mulher de Deus em tempos medievais. https://setemargens.com/santa-hildegarda-mulher-de-deus-em-tempos-medievais/ , 08/01/2022. Acesso em: 23 de abr. 2026
[1] VASCONCELOS, 2022.

