Resumo: Você já ouviu a expressão “dedo podre” para os relacionamentos? Ela sugere que fazemos escolhas ruins, caindo sempre no mesmo padrão, como se fosse carma ou má sorte. Mas, na verdade, as nossas escolhas, inclusive as amorosas, tendem a comunicar quem somos e como aprendemos a nos relacionar.
O que popularmente chamamos de ‘dedo podre’ nas escolhas amorosas é, na verdade, resultado de programações inconscientes. Essas programações nos levam a repetir comportamentos aprendidos com nossos cuidadores e em nossas primeiras relações, geralmente buscando aquilo que nos é familiar. A psicologia analítica explica que essas escolhas são influenciadas por disposições psíquicas internas, conhecidas como arquétipos da Anima e do Animus. Esses arquétipos funcionam como contrapontos do gênero predominante na personalidade de cada indivíduo. Ao compreendermos esses arquétipos, ganhamos uma visão mais profunda de nós mesmos e das dinâmicas que moldam nossas escolhas e relacionamentos.
Em sua busca por complementaridade, o ser humano anseia por se unir amorosamente a um outro. No entanto, as escolhas de parceiros não são regidas apenas por fatores conscientes. Muitas pessoas se tornam reféns de padrões inconscientes de relacionamento que não condizem com o que acreditam desejar.
As forças dos Arquétipos na psique esclarecem as motivações ocultas por trás dessas escolhas amorosas e a insistência em padrões afetivos pouco construtivos.
Para compreendermos as escolhas amorosas, é fundamental ampliarmos nossa visão sobre o próprio amor. O amor, essa força divina que conecta o ser humano à emanação sagrada, é um grande mistério. Segundo Jung, ele representa a maior força construtora do universo. O amor não é apenas um sentimento, mas algo que se revela e se torna perceptível através dele. Nesse sentido, a busca por um parceiro amoroso é uma das mais significativas formas de manifestação desse amor, permitindo-nos experienciá-lo plenamente no contato com o outro.”
A psicologia analítica nos ensina que a psique se divide em consciente e inconsciente. Em nosso inconsciente residem aspectos desconhecidos que podem vir à tona através da projeção que fazemos no outro durante os relacionamentos. Assim, no convívio com o outro, reconhecemos o que é nosso e aprendemos mais sobre nós mesmos. Somente ao nos relacionarmos é que conseguimos experimentar a vida em sua totalidade.
Jung enfatiza que não há individuação sem a relação com o outro.
É nesse atrito relacional que entramos em contato com nossas partes desconhecidas, possibilitando integrá-las e, assim, realizar nosso desenvolvimento psicológico. O amor, nesse contexto, é uma força construtora que se manifesta no ficar, no compromisso e na construção conjunta – diferente do êxtase momentâneo.
Tendemos a buscar nas relações uma felicidade intensa, um sentimento alucinante, que chamamos de paixão. Embora surja com grande intensidade, a paixão é temporária e não gera crescimento duradouro. Ela pode ser entendida como a projeção de nossos elementos internos – a Anima e o Animus – sobre outra pessoa. Esse fogo se apaga, pois ninguém consegue sustentar a projeção de um arquétipo complementar por muito tempo. Com o convívio e a intimidade, o outro deixa de ser a ‘metade da nossa laranja.
Somos, em essência, seres inteiros em uma experiência parcial. A complementariedade que buscamos reside em nosso inconsciente, não em um parceiro externo. A Anima e o Animus são arquétipos complementares, moldados pela convivência com a mãe e primeiras relações significativas. Cada arquétipo possui seus lados positivo e negativo, sendo preenchidos por nossas experiências pessoais e pela influência das pessoas que moldaram nossa formação. Portanto, no Animus/Anima, encontramos tanto luz quanto sombra.
Na psique humana, o feminino que se manifesta conscientemente encontra seu contraponto no inconsciente com o Animus, auxiliando na vivência de aspectos masculinos. Inversamente, quando o masculino predomina na consciência, a Anima, figura feminina inconsciente, se apresenta. Em uma relação amorosa, é comum que nos sintamos atraídos por pessoas que exibem características de nosso próprio Animus ou Anima. Essa atração gera um sentimento de completude, pois o outro parece carregar aspectos de nós que ainda não acessamos ou reconhecemos.
No estado de apaixonamento, projetamos essas características inconscientes no outro. No entanto, a pessoa real não se resume apenas a essas projeções.
Com a convivência, descobrimos que ela também possui traços que podem não nos agradar. É nesse momento que, muitas vezes, o encantamento se desfaz, pois estávamos apaixonados pela imagem idealizada que projetamos, e não pela pessoa em sua totalidade e complexidade.
É essencial nos perguntarmos, durante o apaixonamento: O que estou projetando no outro? O que espero que ele(a) viva por mim? Uma relação madura se constitui pela capacidade de olhar para o outro além da nossa projeção, e então poder escolher conscientemente se queremos continuar nessa relação. Para isso, é preciso desenvolver o autoconhecimento, tendo ao menos uma noção de quem somos, para então conseguir nos relacionar verdadeiramente com o outro.
Portanto, mais importante do que simplesmente saber quem sou, é conhecer e compreender o que eu sou, reconhecendo ativamente meus complexos e aspectos sombrios.
Caso contrário, minhas relações tenderão a refletir esses dinamismos internos que se tornam autônomos, agindo à revelia da minha vontade e do meu desejo por escolhas saudáveis. O Animus/Anima influencia nossas escolhas amorosas como uma força atrativa, levando-nos a buscar um determinado padrão de relacionamento, muitas vezes na tentativa de reparar ou transformar as relações primais. Dependendo das características inconscientes em nossa configuração arquetípica, somos impelidos a buscar repetidamente o mesmo tipo de parceiro.
Como exemplo desse dinamismo, consideremos a história de uma mulher cuja mãe era afetivamente dependente e o pai, emocionalmente ausente. Essa configuração familiar pode influenciar a formação de seu Animus, levando-a a se expressar na vida de maneiras que buscam compensar essa carência. Assim, ela pode se sentir atraída por parceiros indisponíveis ou emocionalmente fortes, projetando neles a segurança e a presença que não experimentou em sua infância. Essa dinâmica, operando inconscientemente, pode moldar suas escolhas amorosas.
Pessoas que não se sentiram amadas e valorizadas na infância tendem a associar o amor à dor e a uma necessidade constante de provar seu valor.
Essa dinâmica gera relações marcadas por instabilidade emocional, uma verdadeira montanha-russa, onde a pessoa se torna viciada nessa intensidade. Relações curtas e intensas são preferidas, pois o vínculo e a segurança são percebidos como ameaçadores. Como resultado, uma relação mais amorosa e estável, fundamentada em afinidades genuínas, pode parecer desinteressante e pouco atrativa, uma vez que o prazer e o amor foi, de certa forma, condicionado à dor e à insegurança.
A convivência com o outro pode trazer valiosos elementos para nosso desenvolvimento. Contudo, é essencial não buscarmos uma fusão, esperando que o parceiro realize o que não conseguimos em nós mesmos.
A complementaridade genuína reside em nosso próprio interior, e não na outra pessoa. Numa relação amorosa, o parceiro pode servir de espelho, inspirar e estimular o desenvolvimento de nossas potencialidades desconhecidas, auxiliando, assim, em nosso processo de nos tornarmos inteiros.
Em suma, a repetição de padrões amorosos insatisfatórios, o chamado ‘dedo podre’, não representa um destino fatalista, mas sim um convite à introspecção. Nossas escolhas, frequentemente guiadas por forças inconscientes e pela busca do familiar, revelam nossos condicionamentos, desequilíbrios internos e a busca por reparação das relações primárias. Relacionamentos baseados nessa busca por reparação ou fuga do vínculo genuíno não possibilitam o desenvolvimento do amor autêntico. É fundamental reconhecer que a complementariedade e a capacidade de reparar nossas dores e integrar nossos aspectos sombrios residem em nós mesmos, e não na projeção sobre o outro. Ao buscarmos o autoconhecimento para compreender quem somos para além das influências arquetípicas e dos padrões aprendidos, conquistamos a capacidade de fazer escolhas mais conscientes e de construir relacionamentos que honrem nossa integralidade e impulsionem nosso processo de individuação.
Caroline Costa – Analista em formação IJEP/ @carolinecosta.terapeuta
Waldemar Magaldi – Analista Didata IJEP
Vídeo de apresentação:

