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	<title>Luciana Gimenes Branco, Autor em Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Tue, 11 Aug 2026 16:52:40 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Luciana Gimenes Branco, Autor em Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Artemis, Emma, Tamara e muitas outras mulheres</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/artemis-emma-tamara-e-muitas-outras-mulheres/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luciana Gimenes Branco]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 11 Aug 2026 16:29:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
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		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O trecho de carta de Emma Jung para Neumman, apresentado pela analista junguiana e professora Cris Guarnieri em aula, não parou de ecoar em mim. Emma diz suspeitar que toda mulher contém um componente não relacional, ao qual chamou de componente Artemis. Ao observar experiências de mulheres contemporâneas a mim e as minhas próprias experiências, encontro exemplos que ampliam e confirmam a suspeição de Emma.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/artemis-emma-tamara-e-muitas-outras-mulheres/">Artemis, Emma, Tamara e muitas outras mulheres</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>RESUMO: </strong>O trecho de carta de Emma Jung para Neumman, apresentado pela analista junguiana e professora <a href="https://blog.ijep.com.br/author/cristinaguarnieri/">Cris Guarnieri</a> em aula, não parou de ecoar em mim. Emma diz suspeitar que toda mulher contém um componente não relacional, ao qual chamou de componente Artemis. Ao observar experiências de mulheres contemporâneas a mim e as minhas próprias experiências, encontro exemplos que ampliam e confirmam a suspeição de Emma.</p>



<h2 id="h-cenas-reais-e-contemporaneas-me-interessam" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Cenas reais e contemporâneas me interessam.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Os filhos viajaram com o pai e a mulher revela a amiga, num riso um tanto perverso, que ficar em casa sozinha é o que entende, agora, como “férias de luxo”. A amiga, que trabalha com viagens de alto padrão, concorda sem hesitar.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A mãe chama uma reunião com os filhos 40+, depois que um deles, após uma separação, voltou a morar com ela. A matriarca anuncia que está disposta a colaborar com todos ao longo da vida, mas que ninguém mais, depois da recente experiência, pode voltar a morar na casa dela.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Às vésperas de completar 50 anos, amigas imaginam uma viagem de bicicleta pelo sul da França em comemoração. Uma delas, enfática, busca logo influenciar a turma: “Sem maridos e filhos, né?!”. A concordância é geral em meio a risos, que avançam para a sugestão à beira do inconfessável: “para a festa em família, um bolinho e brigadeiro tá ótimo!”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Projeções do banco Morgan Stanley revelam que 45% das mulheres entre 25 e 44 anos serão solteiras até 2030 — a maior porcentagem da história.&nbsp;Muitas, por opção.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Enxergadas com lentes de um passado recente, tais cenas, declarações e dados podem ser compreendidos com uma perspectiva de fracasso da ideia de um feminino estruturalmente criado para as relações, especialmente, as relações familiares.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A perspectiva junguiana, porém, nos convida para mergulhar neste fenômeno emergente com as lentes do que o poeta e dramaturgo francês Antonin Artaud chamou de &#8220;os inumeráveis estados do ser&#8221;, expressão replicada pela psiquiatra brasileira Nise da Silveira como convite a enxergar de forma não patologizante as infinitas possibilidades de experiências psíquicas do ser humano. Podemos ser muitas.</p>



<h2 id="h-em-marco-de-1950-em-carta-a-neumann-emma-jung-afirma" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Em março de 1950, em carta a Neumann, Emma Jung afirma:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Em minha opinião, toda mulher tem um elemento dentro de si que talvez possa ser chamado de componente Artemis: algo natural, livre, algo que deseja não ser relação – ser suficiente para si mesma, algo que deseja não ser nem filha, nem esposa, nem mãe. Na maioria das vezes isso é muito oculto e inconsciente, porque, conscientemente, as mulheres são, na maioria das vezes, completamente voltadas para o relacionamento: mas estou convencida de que, em algum grau, isso está presente em todas”.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Artemis</strong> – Filha de Zeus e Leto, irmã gêmea de Apolo, nasceu em uma terra suspensa (nem ilha, nem continente) para que sua mãe pudesse estar protegida da vingança de Hera. Assim que nasceu, já auxiliou a mãe no parto de seu irmão gêmeo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Aos três anos, sentada no colo do pai, pediu para conceder-lhe seis desejos: manter-se sempre virgem; ter muitos nomes para diferenciá-la de seu irmão Apolo; ser a portadora da luz; ter um arco e flecha; uma túnica na altura do joelho para que ela pudesse caçar e ter sessenta &#8220;filhas&#8221;, todas com nove anos de idade conhecidas como &#8220;as caçadoras de Ártemis&#8221;, para ser uma de suas companheiras, a ninfa, mortal, ou semideusa deverá fazer um voto de castidade eterno com a própria Ártemis, assim ganhando a imortalidade e a benção da deusa.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ela desejou não ter nenhuma cidade dedicada a ela, mas para governar as montanhas e ter a capacidade de ajudar as mulheres em dores de parto.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>A sensação de ser um erro</strong> – Sejam nas cenas contemporâneas narradas, nos dados de pesquisas, na carta de Emma a Neumann ou no mito de Artemis, parece que algo está fora do lugar quando uma mulher escolhe estar só. Soa como rebeldia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A velejadora Tamara Klink levou essa experiência ao extremo, ao se propor uma invernagem no Ártico. A jovem com então 26 anos, partiu da Europa em seu barco batizado de Sardinha 2 e passou oito meses a bordo, quatro deles, presa no mar congelado da Groenlândia sem contato com nenhum ser humano.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No recém-lançado “Bom dia, inverno”, Tamara descreve experiências psíquicas que podem ser ampliadas como um sonho compensatório da psique feminina para a integração deste componente inconsciente proposto por Emma Jung.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:18px">
<p class="wp-block-paragraph"><em>“Acabou o estado permanente de dúvida. Não preciso justificar para mais ninguém o desejo inexplicável de estar aqui. Não preciso de mais conselhos, não tenho que tranquilizar os outros. Cheguei. Estou cercada apenas por pedras, gelo e rastros de animais — todos igualmente perigosos para qualquer bípede sem pelos como eu. Meu gênero não é mais um multiplicador de perigos. Grito o mais alto que posso, sem medo de incomodar os outros. Fico acordada a noite toda procurando constelações. Caminho até as pernas doerem. Parei de tentar parecer alguma coisa para, simplesmente, ser” (Bom dia, Inverno, p. 68)</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-a-versao-brasileira-de-artemis-que-atende-pelo-sobrenome-klink-segue-em-reflexoes-possiveis-para-quem-ousa-experimentar-a-vida-de-uma-forma-singular" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">A versão brasileira de Artemis que atende pelo sobrenome Klink segue em reflexões possíveis para quem ousa experimentar a vida de uma forma singular:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Não imaginei que me sentiria completa sozinha. Que, no escuro, encontraria beleza. Que encontraria nos perigos a liberdade. O acidente com o gelo podre me fez recordar que a vida só existe com o corpo. E entender como ela é frágil nos ensina a amá-la. Pois o amor não está em prêmios, objetos, prestígio, números numa conta, listas de países viajados. Ele mora nas sensações”. (Bom dia, Inverno, p. 195)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Integração</strong> &#8211; Quando Artemis pede a Zeus muitos nomes, para diferenciá-la de seu irmão Apolo, estaria ela pedindo a possibilidade de existir de muitas formas? Quando pede um arco e flexa e uma túnica na altura do joelho para que pudesse caçar, estaria ambicionando a autonomia pela própria sobrevivência?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando Emma Jung trata de animus em seu <em>Animus e Anima</em>, busca explicar que a integração deste aspecto inconsciente masculino é fundamental para o encontro da espiritualidade feminina. Ela diz que quando o logos da mulher está ordenado no ser e na vida da mulher, é possível que uma ação conjunta e harmônica possa existir sem que nenhuma parte seja relegada à sombra.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Uma primeira etapa no caminho para isso significa, como foi dito, a retirada da projeção, em que esta é reconhecida como tal e desligada de seu objeto; portanto, um primeiro ato da diferenciação que, parecendo tão simples, representa ainda assim um encargo pesado e muitas vezes uma renúncia dolorosa. Por meio dessa retirada da projeção, reconhecemos que não temos que lidar com algo que está fora de nós, mas com uma grandeza interior, e nos vemos diante da tarefa de aprender a conhecer a natureza e a atuação dessa grandeza, desse ‘homem em nós’, para depois podermos, mais uma vez, diferenciá-lo de nós mesmas.</em></p>
</blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" id="h-quando-nao-se-faz-isso-tornamo-nos-iguais-ao-animus-ou-somos-possuidas-por-ele-um-estado-que-produz-os-efeitos-mais-funestos" style="font-size:18px"><em>Quando não se faz isso, tornamo-nos iguais ao animus ou somos possuídas por ele, um estado que produz os efeitos mais funestos.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Pois quando o feminino é assim dominado pelo animus e forçado para o segundo plano, surgem facilmente depressões, insatisfação geral, perda da sensação de vida, sintomas compreensíveis para o fato de que uma metade da personalidade tem sua vida quase roubada pela usurpação do animus”. (Animus e Anima, p. 30)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A integridade em uma mulher contemporânea pode ainda ser vista com estranhamento para alguns, mas planta a semente de um mundo bastante novo, no qual o homem precisará também buscar sua integridade psíquica, seu feminino, por assim dizer, a fim de que, sem projeções, possam surgir relacionamentos com respeito à alteridade. Encontros de duas laranjas inteiras.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Da solidão</strong> – No ensaio “Da formação da personalidade” (OC 17), Jung aborda que o caminho a ser percorrido, necessariamente, passa pela diferenciação da massa, pelo estranhamento, pelo o que podemos chamar de solidão.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“A expressão: ‘Muitos são os chamados, e poucos os escolhidos’, é válida neste caso como em nenhum outro, pois o desenvolvimento da personalidade, desde seu começo até à consciência completa, é um carisma e ao mesmo tempo uma maldição: como primeira consequência, o indivíduo, de maneira consciente e inevitável, se separa da grande massa, que é indeterminada e inconsciente. Isto significa isolamento, e para indicá-lo não existe nenhuma palavra mais consoladora. Nada evita isto, nem a adaptação bem-sucedida, nem mesmo a incorporação sem o menor atrito ao meio ambiente, nem a família, nem a sociedade, nem a posição social. O desenvolvimento da personalidade é uma tal felicidade que se deve pagar por ela um preço elevado. Fala-se muito no desenvolvimento da personalidade, mas pensa-se pouco nas consequências, as quais podem atemorizar profundamente os espíritos dotados de menos vigor”. (OC 17 § 294/295)</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-como-consolo-ao-que-pode-parecer-estranho-e-ameacador-jung-aponta-o-desenvolvimento-da-personalidade-encerra-mais-do-que-o-simples-temor-de-algo-monstruoso-e-anormal-ou-do-isolamento-indica-tambem-fidelidade-a-sua-propria-lei-oc-17-295" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Como consolo ao que pode parecer estranho e ameaçador, Jung aponta: “<strong>O desenvolvimento da personalidade encerra mais do que o simples temor de algo monstruoso e anormal ou do isolamento, indica também: fidelidade à sua própria lei</strong>”. (OC 17 § 295)</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao longo do período em que ficou no Ártico, após o completo isolamento, Tamara fez amizades com diversos pescadores e caçadores locais. E parece que, após a invernagem, ao integrar seu masculino em si, por meio desta experiência radical, pode enxergar de forma compassiva o que pode faltar também no outro. Assistindo a um filme com alguns amigos feitos na expedição, ela acolhe:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“No filme, os homens fortes isolados no gelo sonham com as mulheres que deixaram para trás. Pode parecer frio, e deve ser, mas não sinto o mesmo. Não gostaria de ter que esperar por alguém meses a fio. E penso que, se soubessem como me sinto bem comigo mesma, eles talvez digam que enlouqueci”. (Bom dia, Inverno, p. 228)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O inverno acabou, Tamara – certamente não a mesma – retornou a família, ao namorado, à querida e ousada avó. E espalha, como quem enxergou (e viveu) muito além das convenções, sementes de integridade para mulheres e homens. Espalha críticas a uma sociedade adoecida pelo consumo, pelo plástico. Espalha a certeza de que é mesmo possível ter férias sozinha em casa e que talvez, felicidade mesmo, só exista após a solidão escolhida e saboreada.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Desde pequena, a gente aprende que ficar sozinha é ruim — mas essa é a escolha das bruxas que usam a vassoura para voar, não para varrer. Se muitas pessoas dependem dos seus cuidados, finjam que morreram e se afastem por um mês. Uma solidão voluntária, querida. Solidão escolhida, não a imposta, virtual, acidental, na qual nos sentimos carentes, abandonadas, exaustas em meio aos outros. A solidão que nos liberta, que nos abriga, que nos aproxima de nós mesmas. Solidão escolhida é amor-próprio”. (Bom dia, Inverno, p. 70)</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-la-do-amor-proprio-de-tamara-parece-que-so-brota-poesia" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Lá do amor-próprio de Tamara, parece que só brota poesia.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Inverno, amo você. Adoro suas cores, seu silêncio, adoro quem sou quando estamos a sós. Amo a liberdade que você me dá, a força que me faz sentir, a alegria, o medo e a coragem que redescobri graças a você. Adoro ser apenas um ser vulnerável, sedenta por continuar vivendo, apesar de todos os limites que você me impõe, de todo o mal que me faz sem eu perceber”. (Bom dia, Inverno, p. 230)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/luciana-branco/">Luciana Branco &#8211; Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi Filho &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Vídeo de apresentação:</p>



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<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:20px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-klink-tamara-bom-dia-inverno-1º-edicao-sao-paulo-editora-companhia-das-letras-2026">KLINK, Tamara. <em>Bom dia, inverno </em>1º edição. São Paulo. Editora Companhia das Letras, 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-jung-emma-animus-e-anima-2ª-edicao-sao-paulo-editora-cultrix-2020">JUNG, Emma. <em>Animus e Anima</em> 2ª edição. São Paulo. Editora Cultrix, 2020</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-jung-c-g-desenvolvimento-da-personalidade-o-c-17-9ª-edicao-petropolis-editora-vozes-2012">JUNG, C.G.<em> Desenvolvimento da Personalidade O/C 17.</em> 9ª edição. Petrópolis: Editora Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/artemis-emma-tamara-e-muitas-outras-mulheres/">Artemis, Emma, Tamara e muitas outras mulheres</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>O que fazer com um sonho frustrado?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-que-fazer-com-um-sonho-frustrado/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luciana Gimenes Branco]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 May 2026 21:58:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[Sonho]]></category>
		<category><![CDATA[caetano veloso]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[devaneios]]></category>
		<category><![CDATA[ego]]></category>
		<category><![CDATA[frustrações]]></category>
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		<category><![CDATA[Persona]]></category>
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		<category><![CDATA[sonhos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Neste artigo, busco refletir sobre a frustração dos sonhos não realizados e convido você a fantasiar uma sociedade que sustentasse o fracasso, em vez do samba-exaltação ao ego contemporâneo, que acredita poder tudo o que quer.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-que-fazer-com-um-sonho-frustrado/">O que fazer com um sonho frustrado?</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo</strong>: Neste artigo, busco refletir sobre a frustração dos sonhos não realizados e convido você a fantasiar uma sociedade que sustentasse o fracasso, em vez do samba-exaltação ao ego contemporâneo, que acredita poder tudo o que quer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Olhadas com alguma doçura, as Neurociências nos contam que biologia é poesia. Os mesmos circuitos neuronais ativados quando sonhamos dormindo estão também ativos, idênticos, quando sonhamos acordados, no mais puro devaneio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No descanso da consciência, sono, tudo pode nos ocorrer. Símbolos surreais contam histórias aparentemente desconexas, frequentemente imorais e magicamente reveladoras, quando observadas com algum interesse, curiosidade e insistência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-deixarei-hoje-os-sonhos-sonhados-na-escuridao-da-noite-livres-de-ampliacoes-para-me-render-aqueles-que-alimentamos-a-luz-de-uma-pretensa-consciencia-que-insiste-em-se-acreditar-capaz-de-realiza-los" style="font-size:16px">Deixarei hoje os sonhos sonhados na escuridão da noite livres de ampliações, para me render àqueles que alimentamos à luz de uma pretensa consciência que insiste em se acreditar capaz de realizá-los.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Sonhamos. Desde pequenos podemos fantasiar vidas para nós mesmos. A profissão, a casa, os amigos, as viagens, o amor. Sonhamos uma família, o almoço de domingo, a noite de Natal. Inventamos nomes para os filhos, vestidos para o casamento, casas para a praia, malas para as viagens, escritório para a empresa, uniformes para o servir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O tempo passa e nem sempre as invenções despudoradas se manifestam na vida entendida como real. Podem seguir nos ocorrendo todas as noites, entre a fronha do travesseiro e a cabeça pesada pelas tentativas incessantes de compreender os motivos das frustrações e, ainda, pelos esforços de esquecer o sonho, a fim de não fazê-lo doer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por muitas vezes ao longo da vida de muitas vidas não adiantou sonhar, imaginar, sentir no corpo a sensação de que aquelas ideias se realizariam. Para cada sonho também há, na vida, a contraparte perfeita de sua frustração.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-o-que-fazer-com-essa-parte-sombria-da-qual-tentamos-fugir-pesados-pela-vergonha-da-nao-realizacao-em-uma-epoca-em-que-se-acredita-tudo-poder" style="font-size:17px">E o que fazer com essa parte sombria, da qual tentamos fugir, pesados pela vergonha da não-realização, em uma época em que se acredita tudo poder?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez valha antes de mais nada aceitar que, diferente do que podemos acreditar, o sonho sonhado na vigília também é fruto do inconsciente. No texto <em>Criptomnésia, de Estudos Psiquiátricos, </em>Jung nos lembra que “O inconsciente premedita todos os novos pensamentos e combinações. E quando a consciência se aproxima do inconsciente com um desejo, foi o inconsciente que previamente lhe inspirou este desejo”. (<em>OC 1 </em><strong>§ </strong>172)</p>



<p class="wp-block-paragraph">O verso do fracasso não entra no samba-exaltação do ego contemporâneo, que acredita que pode tudo o que quer, ritmado pela tríade “força, foco e fé”. A exclusão do verso triste da canção, talvez, faça a falta da realização doer ainda mais pois a torna pretensamente invisível.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não é raro ver que o sambista sente no corpo a dor do que não realizou, mesmo tentando calar sua batida ou buscando reinventá-la criativamente. Os sonhos, agora sim, os sonhados no mais profundo da noite, tendem a revelar compensatoriamente aquilo que a consciência não dá conta de sentir, pois frustrada.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-onde-nao-queres-nada-nada-falta-diz-caetano-veloso-em-o-quereres-sera" style="font-size:17px">“E onde não queres nada, nada falta”, diz Caetano Veloso em <em>O Quereres</em>. Será?</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px;line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph" style="line-height:1.6"><em>“Talvez a maioria dos histéricos que frui plenamente de seus sentidos seja doente porque possui grande massa de recordações, dotada de muita emoção e, por isso, profundamente arraigada no inconsciente; já não pode ser controlada e tiraniza a consciência e a vontade do doente. Em mulheres trata-se às vezes de esperança frustrada de amor ou de um casamento infeliz; em certos homens pode ser uma posição insatisfatória ou méritos não reconhecidos. Os doentes procuram excluir suas emoções da vida diária; por isso, de noite elas os atormentam com sonhos ruins, e de dia os importunam com repentinos ataques de ansiedade precordial, inibem as forças de ação, levam as pessoas a procurar as seitas, produzem dor de cabeça que desafia todos os curandeiros, todos os meios mágicos da eletricidade, banhos de sol e dietas alimentares. Também o gênio tem que carregar o peso da superioridade de um complexo psíquico; se o conseguir, ele o fará com prazer; se não o conseguir, ele o fará com sofrimento. Terá que executar as ‘ações sintomáticas’ que seu talento lhe inspira; colocará na poesia, na pintura, na composição musical o seu sofrimento”.&nbsp; (C.G. Jung, OC 1 §176)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez um gesto de rebeldia contemporânea seja assumir a si mesmo e depois ao mundo seus fracassos. Como complexos cheios de afeto, ao serem vividos com o sabor da frustração percam a potência, mas se manteriam vivos no potencial de realização. A não realização de um sonho não deveria matá-lo na tentativa de esquecê-lo. Se foi do inconsciente que surgiu, não caberia a consciência domesticá-lo, calá-lo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma sociedade que sustentasse a frustração poderia ler epitáfios assim: “Tentou, bravamente, mas não conseguiu dançar”. Num outro, poderia estar escrito: “Chamaria Luiza, a filha que não teve”. E ainda: “Morreu acreditando que amaria e seria amada”. Ou “Preparou todos os domingos o almoço para a família que não vinha”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-lapides-talhadas-a-partir-do-compromisso-com-a-honestidade-de-pessoas-que-ousaram-uma-vida-vivida-na-plenitude-sem-disfarces-sustentados-por-personas-bem-sucedidas-e-sombras-amarguradas" style="font-size:17px">Lápides talhadas a partir do compromisso com a honestidade de pessoas que ousaram uma vida vivida na plenitude, sem disfarces sustentados por Personas bem-sucedidas e Sombras amarguradas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Não seriam lápides criadas na unilateralização do sucesso, da conquista, do amor e da alegria. Tais frases revelariam, com frustração, a insistência no sonho: o homem que queria dançar, a mulher que desejou ser mãe, a que queria um amor recíproco, a que perdoou a família todas as vezes que foram necessárias.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Eu queria querer-te e amar o amor<br>Construirmos dulcíssima prisão<br>E encontrar a mais justa adequação<br>Tudo métrica e rima, e nunca dor</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Mas a vida é real e de viés<br>E vê só que cilada o amor me armou<br>Eu te quero e não queres como sou<br>Não te quero e não queres como és”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Jung </strong>nos explica que a palavra <em>criptomnésia </em>provém da literatura científica francesa. “Criptomnésia significa <em>‘<strong>recordações não reconhecidas como tais</strong></em>’”. Assim como os sonhos que, frustrados, deixam de ser sonhados.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Uma parte da cura para uma sociedade tão adoecida poderia ser a sustentação do fracasso. “<em>Do querer que há e do que não há em mim</em>”, conclui o poeta.</strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/luciana-branco/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/luciana-branco/">Luciana Branco &#8211; Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi Filho &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-jung-c-g-estudos-psiquiatricos-o-c-1-9ª-edicao-petropolis-editora-vozes-2012" style="font-size:16px">JUNG, C.G.<em> Estudos Psiquiátricos O/C 1.</em> 9ª edição. Petrópolis: Editora Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">VELOSO, Caetano. <em>O Quereres. </em>Salvador, Philips/PolyGram (atual Universal Music), 1984.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/xi-congresso-junguiano-alquimia-e-ecologia"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-1024x576.jpg" alt="" class="wp-image-12921" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-1024x576.jpg 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-300x169.jpg 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-768x432.jpg 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-1536x864.jpg 1536w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-150x84.jpg 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-450x253.jpg 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-1200x675.jpg 1200w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2.jpg 1920w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



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		<title>Algo do feminino se tornou inconsciente na mulher contemporânea?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/algo-do-feminino-se-tornou-inconsciente-na-mulher-contemporanea/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luciana Gimenes Branco]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Mar 2026 20:03:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[anima/animus]]></category>
		<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[animus]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Muita coisa mudou nos últimos 100 anos nas vidas das mulheres ocidentais, especialmente aquelas que vivem nas grandes cidades. Algo do aspecto masculino (Animus) tornou-se bastante consciente e ativo, usando muito da energia psíquica das mulheres. Será que, de forma compensatória, teria algo do feminino nas mulheres foi tornado inconsciente, criando uma “nova” Anima? </p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo: </strong>Muita coisa mudou nos últimos 100 anos nas vidas das mulheres ocidentais, especialmente aquelas que vivem nas grandes cidades. Algo do aspecto masculino (Animus) tornou-se bastante consciente e ativo, usando muito da energia psíquica das mulheres. Será que, de forma compensatória, teria algo do feminino nas mulheres foi tornado inconsciente, criando uma “nova” Anima? </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-ultimo-seculo-e-marcado-por-mudancas-profundas-nas-vidas-das-mulheres-que-nasceram-e-vivem-no-ocidente-especialmente-nas-grandes-cidades" style="font-size:18px">O último século é marcado por mudanças profundas nas vidas das mulheres que nasceram e vivem no Ocidente, especialmente, nas grandes cidades.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Não tenho como me propor a refletir sobre as mulheres que nasceram e vivem no Oriente, por isso estabeleço o recorte a partir de minha própria experiência na vida e, mais recentemente, no que tenho experimentando no consultório, como analista em formação pelo IJEP.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A mulher conquistou direitos civis e políticos. O direito ao voto em Appenzell Innerrhoden, último cantão da Suíça de Jung, por exemplo, tornou-se realidade por decisão judicial em 1990 – e não por voto popular. O sufrágio universal feminino em Portugal ocorreu em 1976, após a Revolução dos Cravos. Nos Estados Unidos em 1920, na França em 1944 e no Brasil, em 1946, para citar alguns exemplos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Neste último século, as mulheres passaram a ter acesso massivo ao ensino superior, entraram no mercado de trabalho formal, especialmente após as guerras, e assim&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; passaram a conquistar independência econômica. Segundo o Censo do IBGE de 2022, 49,1% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">As ideias do casamento e da maternidade como principais destinos da vida de uma mulher vêm sendo esvaziadas, não sem dúvida e sofrimento. Desde 1977, o Brasil conta com a Lei do Divórcio, que pode ser solicitado por qualquer um dos cônjuges, até de forma unilateral, mesmo que litigiosa.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Muitas mudanças também vêm acontecendo no território do corpo da mulher. Com acesso à contracepção (a pílula anticoncepcional é invenção dos anos 60), a sexualidade feminina ganhou dimensão para além da maternidade. O prazer feminino e o aborto tornaram-se assuntos frequentes na grande imprensa. A moda tornou possível &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;corpos expostos, silhuetas marcadas, peitos e bundas à mostra.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-a-toa-esta-condicao-feminina-contemporanea-ganhou-novas-expressoes-e-coros-tambem-na-cultura-pop-de-formas-inimaginaveis-na-suica-de-jung" style="font-size:18px">Não à toa, esta condição feminina contemporânea ganhou novas expressões e coros também na cultura pop, de formas inimagináveis na Suíça de Jung.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Coro &#8211;</strong> Após cansar-se do sofrimento gerado pelo pouco cuidado que o namorado lhe dava, incrementado por traições, a musicista americana Miley Cyrus canalizou um hino da independência afetiva feminina que alcançou bilhões de streamings nos últimos dois anos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Com <em><strong>Flowers</strong></em>, Cyrus ganhou seu primeiro Grammy, o prêmio máximo da música, aos 31 anos e protagonizou cena inesquecível na cultura pop na noite em que recebeu a honraria.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-do-ponto-de-vista-junguiano-o-refrao-da-musica-pode-ser-visto-simbolicamente-como-uma-conversa-olho-no-olho-com-um-aspecto-do-animus" style="font-size:18px">Do ponto de vista junguiano, o refrão da música pode ser visto, simbolicamente, como uma conversa olho no olho com um aspecto do Animus.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“I can buy myself flowers</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>(Eu posso comprar flores para mim mesma)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Write my name in the sand</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>(Escrever meu nome na areia)</em><em><br>Talk to myself for hours</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>(Conversar comigo mesma por horas)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Say things you don&#8217;t understand</em><em><br>(Dizer coisas que você não entende)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>I can take myself dancing</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>(Eu posso me levar para dançar)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>And I can hold my own hand</em><em><br>(E eu posso segurar minha própria mão)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Yeah, I can love me better than you can”</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>(Sim, eu posso me amar melhor do que você pode)</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Anima e Animus &#8211;</strong> Jung pensou a dimensão das forças inconscientes feminina e masculina a partir dos conceitos de Anima e Animus. A analista junguiana e esposa do autor Emma Jung, em seu <em>Animus e Anima</em>, buscou trazer uma explicação objetiva para o tema, a partir do olhar de uma mulher.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“São características femininas no homem e masculinas na mulher que normalmente estão sempre presentes em determinada medida, mas que são incômodas para a adaptação externa ou para o ideal existente, não encontrando espaço algum no ser voltado para o exterior” </em><em>(Página 16)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se para Jung, uma pessoa identificada conscientemente como mulher mantém no inconsciente a dimensão do masculino (Animus), a mulher contemporânea ocidental, que experimenta aspectos do masculino na vida prática, ou seja, na consciência, tem colocado a teoria à prova ou, ao menos, demandado novas leituras atualizadas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-emma-jung-cuja-escrita-pode-por-vezes-assustar-a-mulher-contemporanea-devido-ao-tom-conservador-segue" style="font-size:18px"><strong>Emma Jung, cuja escrita pode, por vezes, assustar a mulher contemporânea devido ao tom conservador, segue:</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“O problema da mulher atual me parece estar muito mais na postura em relação ao logos do animus, em relação ao espiritual-masculino no sentido estrito”.</em></p>
</blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“&#8230;uma determinada quantidade de espírito masculino amadureceu na consciência das mulheres e deve encontrar em suas personalidades seu lugar e sua atuação. Conhecer essas grandezas, ordená-las para que possam agir de maneira adequada é uma parte importante do problema do animus” (Página 20)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Tais fatos trazem para a conversa aspecto fundamental da psicologia analítica. Se o inconsciente coletivo também é fruto da história de todos os tempos, as vivências contemporâneas o influenciam e, assim, se tornam parte do inconsciente e buscam se manifestar. Com aquele sorriso amedrontado, ouso dizer que não à toa a psicologia também é chamada de complexa.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“A verdade eterna precisa da linguagem humana que se modifica de acordo com o espírito do tempo. As imagens primordiais são susceptíveis de transformações infinitas, mas nem por isso deixam de ser sempre as mesmas. No entanto só serão compreendidas de novo se renovarem a forma de se apresentarem. Elas requerem constantemente novas interpretações, se não quisermos que, devido a uma conceituação obsoleta, elas percam seu poder de atração”. (O/C </em><em>16/ 2 parágrafo 396) </em><em></em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Dúvida &#8211;</strong> Na minha vida e no consultório enxergo mulheres navegando de forma natural nas dimensões do aspecto masculino arquetípico. Pessoas com força de realização, com segurança na tomada de decisões, altamente hábeis na capacidade analítica. Mulheres que desejam, planejam e realizam sonhos, famílias, viagens, propriedades. Que criam e desenvolvem vínculos afetivos com amigos, familiares e amores.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-ainda-assim-algo-falta-nessas-mulheres-algo-tem-nos-faltado" style="font-size:20px"><strong>Mas ainda assim, algo falta nessas mulheres. Algo tem nos faltado.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“&#8230;pode-se muito bem supor que, em grande parte, as formas mais primitivas da masculinidade já foram assimiladas pela mulher. Falando-se de maneira geral, elas há muito encontraram sua utilização na vida feminina, pois já faz tempo que</em><em> existem mulheres cuja força de vontade, objetividade, atividade e capacidade de atuação serviram como forças úteis em suas vidas, vividas por outro lado de forma completamente feminina.” (Página 20)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Será que, após termos integrado o aspecto masculino (Animus) na dimensão consciente da vida, algo do feminino arquetípico tornou-se inconsciente de forma compensatória, fazendo de nós mulheres contemporâneas seres que precisam agora dialogar com aspectos de uma nova Anima (um feminino arquetípico)?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-simbolicamente-os-sintomas-podem-estar-nos-dizendo-que-sim" style="font-size:21px"><strong>Simbolicamente, os sintomas podem estar nos dizendo que sim.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se Jung afirma que “O inconsciente é a Natureza e a Natureza nunca mente”, a liberdade conquistada pelo uso de hormônios contraceptivos ou que mascaram os sintomas da menopausa, por exemplo, pode resultar, em sua dimensão oposta complementar, na prisão de um corpo que silencia os ciclos da Natureza que, consequentemente, vai dar um jeito de se fazer ouvir, como é hábito do inconsciente por esta perspectiva.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Mãe de cinco e que interrompeu a vida sexual com o marido por um período, evitando novas gestações, Emma Jung afirma que “&#8230;com a possibilidade de controle de natalidade, uma significativa quantidade de libido fica livre. Duvido que até mesmo a própria mulher possa avaliar de maneira correta quão grande é essa quantidade, que até então era utilizada para a constante preparação interior e estava consolidada” (Página 22).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-de-novo-e-sempre" style="font-size:18px"><strong>De novo e sempre</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na introdução do clássico pós-junguiano <em>Mulheres que correm com os lobos</em>, que já vendeu mais de 2,7 milhões de cópias globalmente, a analista Clarisse Pinkola Estés diz que as terras espirituais da Mulher Selvagem, durante o curso da história, foram saqueadas ou queimadas. “Com seus refúgios destruídos e seus ciclos naturais transformados à força em ritmos artificiais para agradar os outros”, completa.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A Organização Mundial da Saúde (OMS) indica um crescimento significativo no número de casos de câncer de mama no mundo até 2050. Dez por cento das mulheres em idade reprodutiva no planeta sofrem de endometriose, uma doença que inverte a tendência de parte do fluxo menstrual e faz com que a menstruação ocorra —&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; simbolicamente —&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;na cavidade abdominal da mulher, causando terríveis dores e até infertilidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez por procurarem mais ajuda, talvez por estarem mais adoecidas, as mulheres têm cerca de duas vezes mais diagnósticos de depressão do que os homens. <strong>Emma</strong> afirma: “<em>para ela, tornar-se consciente significa a perda de um poder especificamente feminino</em>”. (Página 44)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-prefacio-de-seu-best-seller-estes-lanca-a-seta-sem-temer" style="font-size:18px"><strong>No prefácio de seu <em>best seller</em>, Estés lança a seta sem temer:</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Todas nós temos anseio pelo que é selvagem. Existem poucos antídotos aceitos por nossa cultura para esse desejo ardente. Ensinaram-nos a ter vergonha desse tipo de aspiração. Deixamos crescer o cabelo e o usamos para esconder nossos sentimentos. No entanto, o espectro da Mulher Selvagem ainda nos espreita de dia e de noite. Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem decididamente quatro patas.”</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-arquetipo-como-instinto-uma-parte-do-feminino-foi-tornado-inconsciente-pela-influencia-do-espirito-do-tempo-em-nossos-corpos-no-ultimo-seculo-no-ocidente-o-masculino-vivido-como-patriarcado-que-busca-dominar-tudo-ate-mesmo-a-forma-de-ser-mulher-contemporanea" style="font-size:18px">O arquétipo como instinto. Uma parte do feminino foi tornado inconsciente pela influência do espírito do tempo em nossos corpos no último século, no Ocidente. O masculino vivido como patriarcado que busca dominar tudo, até mesmo a forma de ser mulher contemporânea.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez seja a hora de, novamente, buscarmos o novo de novo. Um novo equilíbrio entre o feminino e o masculino que nos habitam, algo que poderia ser facilitado pelo desenvolvimento e a transformação psíquica mais acelerada dos homens com os quais, inevitavelmente, convivemos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Porque apesar de todas as conquistas comportamentais, ainda sinto e vejo no consultório e também nas conversas com as amigas que algo de uma alma arquetípica permanece. Talvez parte das mulheres ainda queira conciliar o “sexo frágil” ao que “não foge à luta” e ainda ousar buscar suas formas únicas de ser mulher por inteiro, afinal, como canta <strong>Rita Lee:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Toda mulher quer ser amada</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Toda mulher quer ser feliz</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Toda mulher se faz de coitada</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Toda mulher é meio Leila Diniz”</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/luciana-branco/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/luciana-branco/">Luciana Branco &#8211; Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi Filho &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">CYRUS, Miley. <em>Flowers.</em> <em>Los Angeles, Columbia Records e Smiley Miley Inc</em>, 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Emma. <em>Animus e Anima</em>. 2ª edição. São Paulo: Cultrix, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.Ab-reação, análise dos sonhos e transferência O/C 16//2. 9ª edição. Petrópolis: Editora Vozes, 2012. </p>



<p class="wp-block-paragraph">ESTÉS, Clarissa Pinkola. <em>Mulheres que correm com os lobos</em>. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



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		<title>Inconsciente Coletivo: A perspectiva com potencial de Integrar o Mundo</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/inconsciente-coletivo-a-perspectiva-com-potencial-de-integrar-o-mundo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luciana Gimenes Branco]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 21 Nov 2025 13:36:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>RESUMO: Em 1925, nas conferências de Tavistock, Carl Gustav Jung afirmou que o inconsciente é a natureza, e a natureza nunca mente. “Lá está o ouro, a coisa preciosa, o grande valor”. No adoecimento contemporâneo, a visão de que a psique nasce no emaranhado coletivo pode ser o caminho único de responsabilização individual para a [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>RESUMO: </strong>Em 1925, nas conferências de Tavistock, Carl Gustav Jung afirmou que o inconsciente é a natureza, e a natureza nunca mente. “<em>Lá está o ouro, a coisa preciosa, o grande valor</em>”. No adoecimento contemporâneo, a visão de que a psique nasce no emaranhado coletivo pode ser o caminho único de responsabilização individual para a criação de soluções curativas para o Todo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-mundo-nos-parece-de-acordo-com-o-lugar-pelo-qual-o-enxergamos" style="font-size:20px">O mundo nos parece de acordo com o lugar pelo qual o enxergamos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Olhado por uma criança de dentro de um apartamento no centro de São Paulo, o mundo pode parecer cinza, barulhento de ruídos, povoado, habitado também por outros humanos que, por motivos incompreensíveis e inaceitáveis para alguns, moram nas calçadas das ruas pelas quais essa mesma criança passa para ir à escola. Por pessoas que se alimentam do lixo gerado por sua própria família.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Olhado por uma outra criança que vive numa comunidade quilombola à beira do rio São Francisco, em Pernambuco, o mundo pode parecer familiar. Barulhento de pássaros, cachorros e barcos. As histórias desta cidade são as histórias de sua família: a tia planta, o avô passa o café, a avó, a mãe e as primas dançam no meio da praça o <em>Samba de Véio</em> para preservar uma tradição que lhes é cara e que hoje ainda ajuda a pagar contas, por meio das apresentações aos turistas que, vira e mexe, aparecem de barco, comem peixe, tomam cerveja e tentam sambar junto.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><em>“De onde?<br>De onde vem?<br>De onde vem a canção?<br>Quando do céu despenca<br>Quando já nasce pronta<br>Quando o vento é que inventa<br>De onde vem a canção?”</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Músico consagrado, compositor premiado, especialista em orquídeas,<strong> Lenine</strong> expõe em “<em>De onde vem a canção?</em>” a dúvida que permeia quem é arrebatado por conteúdos prontos e que, simplesmente, encontram canais humanos para se revelar. Na música, ele duvida da própria inspiração e entrega à Natureza a força criativa.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-de-onde-vem-esse-mundo-de-possibilidades-que-simplesmente-nos-acontece-seja-nas-cidades-seja-a-margem-do-rio-sao-francisco-seja-na-musica-de-lenine" style="font-size:20px">De onde vem esse mundo de possibilidades que simplesmente nos acontece, seja nas cidades, seja à margem do rio São Francisco, seja na música de Lenine?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Carl Gustav Jung (1875 – 1961) nos propôs que esse mundo de possibilidades vem do inconsciente coletivo. Esse poço sem fim de histórias, símbolos e significados inatos que contém toda a existência, de todas as vidas, em todos os tempos. Para Jung, o ser humano já nasce cheio de conteúdos inconscientes, coletivos e familiares.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">A perspectiva junguiana que enxerga a partir do inconsciente coletivo é, ao meu ver,&nbsp; ao lado das cosmovisões dos povos originários e da cultura umbandista, capaz de transformar a lamentável realidade contemporânea, majoritariamente branca, capitalista e ocidental, inspirada no olhar que nos adoece: aquele que acredita no indivíduo antes do Todo, no individual antes do coletivo. Essa perspectiva hegemônica da qual brotam inúmeras versões do <em>self-made-man</em>: do vitorioso, do premiado, do melhor, do único, a despeito de tudo e de todos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-sua-autobiografia-memorias-sonhos-e-reflexoes-jung-expoe-logo-de-cara-sua-experiencia-que-transcende-em-muito-seus-proprios-desejos-individuais-minha-vida-e-a-historia-de-um-inconsciente-que-se-realizou-tudo-o-que-nele-repousa-aspira-a-tornar-se-acontecimento-ele-conta" style="font-size:20px">Em sua autobiografia, “<strong>Memórias Sonhos e Reflexões</strong>”, Jung expõe, logo de cara, sua experiência que transcende, em muito, seus próprios desejos individuais: “<em>Minha vida é a história de um inconsciente que se realizou. Tudo o que nele repousa aspira a tornar-se acontecimento</em>”, ele conta.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Se ao ler esta frase, formos tomados pela ideia do <em>self-made-man,</em> podemos acreditar na farsesca ideia do “foco, força e fé”, infinitamente vendida em cursos, em igrejas, em canais no Instagram e que, mesmo ao fomentar os bilhões da indústria da saúde mental, segue nos deixando adoecidos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Mas a leitura atenta da Obra Completa de Jung e o acolher compassivo das sofridas experiências descritas pelo autor em <em>O Livro Vermelho</em> revela muito mais. Releva o destino humano do rendimento a algo que é infinitamente maior que si mesmo, que existe há milhões de anos antes e seguirá existindo a outros milhares de anos, depois da possível e provável destruição auto forjada pela espécie humana no planeta.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">“De onde vem a canção?<br>Quando se materializa<br>No instante que se encanta<br>Do nada se concretiza<br>De onde vem a canção?”</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Em 20 de novembro de 2025, viveremos no Brasil a inauguração da exposição <em><strong>A alma humana, você e o universo de Jung</strong></em>, que o Museu da Imagem e do Som –<strong> MIS</strong> aceitou receber já na primeira conversa com o diretor André Sturm.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-de-onde-veio-a-exposicao" style="font-size:20px"><strong>De onde veio a exposição?</strong> </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Como ideia, a exposição já nasceu pronta, despencou do céu, foi inventada pelo vento, quando eu estava em <em>shavasana</em>, a posição do cadáver, no yoga, depois de uma sofrida sessão de análise.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Como prática, nasce da redenção do ego ao inconsciente, à ideia que nasceu pronta, que me aconteceu. “<em><strong>O ego pertence à alma e sua maior realização é servi-la</strong></em>”, diz o analista junguiano <strong>Waldemar Magaldi Filho</strong>, em <em>Fundamentos da Psicologia Junguiana</em>, e que, ao lado de <strong>Simone Magaldi</strong>, assina a curadoria da mostra.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Em <em>Fundamentos da Psicologia Analítica,</em> que contém a série de encontros que Jung realizou no <em>Institute of Medical Psychology</em>, em <em>Tavistock,</em> o pensador suíço apresenta os preceitos de sua visão a médicos, em 1925:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>O inconsciente é a natureza, e a natureza nunca mente. Lá está o ouro, a coisa preciosa, o grande valor. Se tivesse havido oportunidade, eu teria ido mais longe e dito alguma coisa sobre esse tesouro e os meios de assegurá-lo. E os senhores veriam a justificação do método que capacita o indivíduo a manter-se em contato com as imagens impessoais.</p><cite>OC 18/1 §376</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-ideia-de-uma-psicologia-que-nasce-do-coletivo-embora-quase-centenaria-e-fundamental-para-esta-contemporaneidade-adoecida-na-unilateralidade-de-eus-do-singular-a-despeito-do-coletivo" style="font-size:20px">A ideia de uma psicologia que nasce do coletivo, embora quase centenária, é fundamental para esta contemporaneidade adoecida na unilateralidade de “eus”, do singular a despeito do coletivo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Assim como em Tavistock será necessário tempo para que o visitante se renda ao inconsciente coletivo ao longo da exposição no MIS. Buscamos reunir saberes, olhares e estéticas para mostrar que tudo e todos nascemos de um mesmo lugar, do inconsciente coletivo que nos unifica. De onde viemos e para onde vamos, iguais, mesmo que nossas existências se dêem em tempos, culturas e condições distintas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-realizacao-da-exposicao-a-alma-humana-voce-e-o-universo-de-jung-explicita-que-nada-se-faz-sozinho" style="font-size:20px">A realização da exposição <em><strong>A alma humana, você e o universo de Jung</strong></em> explicita que nada se faz sozinho.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">A ideia pode ter-me ocorrido naquele tapetinho de yoga (e esta ocorrência me enche de responsabilidade e honra), porém nada tomaria a realidade em 20 de novembro sem o olhar intuitivo de André Sturm, diretor do MIS, empolgado pela possibilidade desde o momento primeiro, a Waldemar Magaldi Filho e Simone Magaldi por embarcarem com generosidade neste sonho, aos destemidos Naiclê Leônidas, Camila Whitaker e Flavio Vieira, produtora executiva e artistas com os quais trabalhei ao longo dos últimos dois anos. E todos os demais artistas que embarcaram neste mistério do qual todos são íntimos.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">“Pra onde vai a canção<br>Quando finda a melodia?<br>Onde a onda se propaga?<br>Em que espectro irradia?<br>Pra onde ela vai quando tudo silencia?<br>Depois do som consumado<br>Onde ela existiria?”</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">De onde vem, para onde vai, tudo seguirá sendo o mistério batizado de inconsciente coletivo por <strong>Jung</strong>, <strong>pensador considerado o maior do século pela revista TIME</strong>, e, para mim, altamente necessário para nos ajudar a compreender a contemporaneidade e seus devaneios individualistas e unilateralistas que podem nos matar.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;Inconsciente Coletivo: A perspectiva com potencial de Integrar o Mundo&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/WngO7IEZMZc?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/luciana-branco/"><strong>Luciana Branco &#8211; Membro Analista em formação IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">LENINE, Oswaldo. <em>De onde vem a canção?</em>. São Paulo: Casa 9, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.<em> Memórias Sonhos e Reflexões.</em> 20ª impressão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1975.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Fundamentos da Psicologia Analítica</em><em>.</em> 1ª edição. Petrópolis: Editora Vozes, 2017.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MAGALDI, W.&nbsp;<em>Fundamentos da Psicologia Analítica</em>. São Paulo: Eleva Cultura, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.almahumana.com.br"><strong>https://www.almahumana.com.br</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>A falácia da supremacia da consciência</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-falacia-da-supremacia-da-consciencia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luciana Gimenes Branco]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 16 Sep 2025 14:33:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Ao apostarmos todas as fichas na consciência, o ego também ganha posto nobre na falsa ideia de que precisa ser realizado. Assim, se enrijece e, ora acredita ser o senhor de tudo (dando origem a tirânicos exemplares laranjas do self-made man, que acreditam e agem em prol de seus próprios desejos), ora torna-se todo [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4"><strong>Resumo: Ao apostarmos todas as fichas na consciência, o ego também ganha posto nobre na falsa ideia de que precisa ser realizado. Assim, se enrijece e, ora acredita ser o senhor de tudo (dando origem a tirânicos exemplares laranjas do <em>self-made man</em>, que acreditam e agem em prol de seus próprios desejos), ora torna-se todo o mal, numa busca igualmente fantasiosa por sua morte, em prol da iluminação espiritual.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Você tem razão. Te contaram que era preciso aprender, entender, conhecer, dominar. Agir em prol de seus desejos. Te estimularam a fazer de tudo para receber reconhecimento, conquistar uma promoção, comprar uma casa, um carro, fazer uma viagem, casar-se, separar-se, ter filhos biológicos, não ter filhos, adotá-los. Te explicaram porque viver a não-monogamia é essencial e também porque apenas a monogamia é digna dos humanos. Te venderam cursos nos quais você poderia aprender os passos necessários para ser tudo aquilo que se espera de você.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">E você teve força, foco e fé. Foi lá e fez.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-o-vazio-mesmo-ao-alcancar-o-objetivo-imposto-o-desejo-comprado-e-a-ideia-alheia-o-vazio-se-faz-presente-silencioso-e-incomodo-pois-dificilmente-contornavel-a-angustia-que-nao-tem-onde-nem-porque-o-aperto-no-peito-a-falta-de-significado" style="font-size:20px"><strong>Mas o vazio</strong>&#8230; <strong>Mesmo ao alcançar o objetivo imposto, o desejo comprado e a ideia alheia, o vazio se faz presente</strong>. Silencioso e incômodo pois dificilmente contornável. A angústia que não tem onde nem porquê. O aperto no peito. A falta de significado.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Aos questionamentos sobre suas escolhas, uma vasta lista de explicações razoáveis, perfeitamente sustentadas em dados, fatos, citações ocupam rápida e violentamente todo o espaço que poderia ser deixado para a dúvida. Mas ela está lá. A dúvida, em forma de tristeza, de falta de significado, da incapacidade de se estar em silêncio sem ter explicações, de viver na sobriedade. A dúvida como sintoma, como sonho esquecido, como desenho que apavora.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-classico-a-paixao-segundo-gh-clarice-lispector-descreve-a-sensacao-da-entrega-ao-desconhecido-da-duvida" style="font-size:20px">No clássico <em>A</em> <em>Paixão Segundo GH</em>, Clarice Lispector descreve a sensação da entrega ao desconhecido da dúvida:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>Entregar-me ao que não entendo será pôr-me à beira do nada. Será ir apenas indo, e como uma cega perdida num campo. Essa coisa sobrenatural que é viver. O viver que eu havia domesticado para torná-lo familiar. Essa coisa corajosa que será entregar-me, e que é como dar a mão à mão mal-assombrada do Deus, e entrar por essa coisa sem forma que é um paraíso. Um paraíso que não quero! (pág. 16)</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-diz-james-hillman-no-radical-o-codigo-da-alma-ha-algo-a-mais-na-vida-humana-do-que-nossas-teorias-permitem-saber" style="font-size:20px">Como diz James Hillman, no radical <em>O Código da Alma</em>: “Há algo a mais na vida humana do que nossas teorias permitem saber”.</h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-nao-compreensao" style="font-size:22px"><strong>A não-compreensão</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">A inexperiência em sustentar o não entendimento, o mistério, a dúvida e as possibilidades que ela contém, talvez seja a maior das angústias contemporâneas. E como sugere a cosmovisão junguiana que sustenta opostos, a mesma inexperiência pode conter, simultaneamente, o desconhecido caminho da rendição ao diálogo com símbolos do inconsciente, seus desígnios e o sentido maior da vida de todas as vidas.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>Quando analisamos – ou melhor, sentimos – essa noção de solidão mais de perto, descobrimos que é formada por diversos elementos: nostalgia, tristeza, silêncio e uma imaginação que deseja ‘algo mais’ que não está nem aqui nem agora. Para que esses elementos e imagens apareçam, é preciso primeiro nos concentrarmos neles e não em remédios para ficarmos literalmente sozinhos. O desespero só piora quando buscarmos saídas para acabar com ele. </p><cite>(O Código da Alma, pág. 75)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-a-natureza-da-psique-jung-despudoradamente-afirma-que-e-ao-crescimento-da-consciencia-que-devemos-a-existencia-dos-problemas-eles-sao-o-presente-de-grego-da-civilizacao" style="font-size:20px">Em <em><strong>A Natureza da Psique</strong></em>, Jung despudoradamente afirma que “<em><strong>É ao crescimento da consciência que devemos a existência dos problemas; eles são o presente de grego da civilização</strong></em>”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Com essa frase radical, o pensador ousou questionar a mais valiosa das virtudes que deveria desenvolver a humanidade:<strong> a lógica ocidental</strong>, o cientificismo pretensamente capaz de dar conta de 13,8 bilhões de anos de história do universo desde o Big Bang, ignorando saberes ancestrais, culturas primitivas, rejeitando o inexplicável.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-uma-sociedade-altamente-racionalista-os-individuos-sao-desencorajados-a-enxergar-e-dialogar-com-o-mundo-dos-simbolos-dos-sonhos-das-fantasias-possibilidade-intrinseca-a-todos-os-seres-humanos-em-todos-os-tempos" style="font-size:20px">Em uma sociedade altamente racionalista, os indivíduos são desencorajados a enxergar e dialogar com o mundo dos símbolos, dos sonhos, das fantasias, possibilidade intrínseca a todos os seres humanos, em todos os tempos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">A ideia de se saborear um livro, sem intenção de aprender algo “<strong>útil</strong>” é considerada perda de tempo, assim como a reverência a versos e melodias de uma música. O olhar contemporâneo viciado no rolamento de feeds das redes sociais já tem dificuldade de se perder nas cores de uma tela por mais de alguns minutos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Neste contexto, o mundo das imagens é considerado supérfluo e, sobre este, o poeta irlandês <strong>Oscar Wild</strong> já ensinou: “<em><strong>Deem-me o supérfluo, pois o necessário qualquer um pode ter</strong>&#8220;</em>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-consciencia-e-ego" style="font-size:22px"><strong>Consciência e ego</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Vale retomar aqui a origem da consciência, segundo Jung. Para ele, a consciência nasce a partir do inconsciente coletivo, poço de histórias e significados inatos. Nasce em uma vida até outrora mantida pela energia arquetípica, instintiva, e vai se tornando mais e mais complexa e multidimensional com o desenvolvimento físico, mental, social, espiritual e psíquico do indivíduo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Por essa perspectiva, <strong>o ego é a estrutura central da consciência</strong>, que surge a partir da mesma e está altamente identificado com o corpo, tendo em vista que seu desenvolvimento se dá pelo caminho da propriocepção (a percepção corporal). Para que o desenvolvimento psíquico transcorra de forma plena, o ego precisa ser flexível a ponto de administrar conteúdos conscientes e inconscientes (sejam oriundos do inconsciente pessoal, familiar ou coletivo) ao longo da vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-apostarmos-todas-as-fichas-na-consciencia-o-ego-tambem-ganha-posto-nobre-na-falsa-ideia-de-que-precisa-ser-realizado" style="font-size:20px">Ao apostarmos todas as fichas na consciência, o ego também ganha posto nobre na falsa ideia de que precisa ser realizado.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Assim, se enrijece e, ora acredita ser o senhor de tudo (dando origem a tirânicos exemplares laranjas do <em>self-made man</em>, que acreditam e agem em exclusivamente prol de seus próprios desejos), ora torna-se todo o mal, numa busca igualmente fantasiosa por sua morte, em prol da iluminação espiritual.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Como escreve o professor e analista junguiano Waldemar Magaldi Filho, em <em>Fundamentos da Psicologia Analítica</em> (2022, pág.130): “<strong><em>O ego pertence à alma e sua maior realização é servi-la</em></strong>”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-estudos-alquimicos-jung-sintetiza-a-ideia-do-que-chamou-de-monoteismo-da-consciencia" style="font-size:20px">Em <em>Estudos Alquímicos,</em> Jung sintetiza a ideia do que chamou de monoteísmo da consciência:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>A dessacralização de nossa época tão profana é devida ao nosso desconhecimento da psique inconsciente e ao culto exclusivo da consciência. Nossa verdadeira religião é o monoteísmo da consciência, uma possessão da consciência que ocasiona uma negação fanática da existência de sistemas parciais autônomos.</p><cite> (O/C 13 § 51)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-uma-vida-arida" style="font-size:22px"><strong>Uma vida árida</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Assim, o infinito conteúdo inconsciente que adquire energia suficiente para emergir e cruzar a linha da consciência é ignorado sistematicamente. Desta forma, perde-se, individual e coletivamente, a chance de simbolizar tais conteúdos, por meio da ampliação dos sonhos, das expressões artísticas, da associação de palavras e das sincronicidades. Perde-se também a chance de permanecer na dúvida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Ignorado, o <strong>inconsciente selvagem</strong>, que contém ideias arquetípicas desvinculadas dos julgamentos morais do espírito de nossa época, encontra formas cada vez mais enfáticas, senão violentas, para se realizar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nem-apenas-inconsciente-nem-so-consciencia-e-ego-a-existencia-humana-integral-necessita-das-estruturas-psiquicas-em-interdependencia" style="font-size:20px">Nem apenas inconsciente, nem só consciência e ego, a existência humana integral necessita das estruturas psíquicas em interdependência.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Os vislumbres dos símbolos do inconsciente precisam e devem ser tratados com a mesma reverência da consciência capaz de discernir e de um ego forjado a realizar tarefas em prol da manifestação do arquétipo central da psique, o Si-mesmo, que serve ao individual e ao coletivo num só tempo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4"><strong>Em um contexto global altamente sintomático, no qual o tempo para os sonhos é roubado por jornadas de trabalho desumanas, os sintomas são calados com medicações para tudo, a criatividade desvinculada de metas estéticas e performáticas não é estimulada, em um sistema que desmerece o mistério, a revisão da ideia da supremacia da consciência nunca foi tão urgente</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/luciana-branco/"><strong>Luciana Branco &#8211; Analista em Formação</strong> <strong>pelo IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi Filho &#8211; Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">HILLMAN, James. <em>O Código da Alma</em>. São Paulo: Goya, 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, CG. <em>A Natureza da psique.</em> 10ª edição. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Estudos Alquímicos. </em>1ª edição. Petrópolis: Vozes, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">LISPECTOR, Clarice. A Paixão Segundo GH. 1ª edição. Rio de Janeiro: Rocco, 2020.<strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br"><strong>www.ijep.com.br</strong></a></p>
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		<title>Também pelo corpo à alma: caminhos destemidos no desenvolvimento psíquico</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/tambem-pelo-corpo-a-alma/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luciana Gimenes Branco]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 18 Jun 2025 16:47:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filmes e Séries]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[filmes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Não é apenas com ideias que se recria uma vida. Transformar padrões psíquicos requer o enfretamento de sombras e complexos, a exposição das vulnerabilidades, o risco de se experimentar novas experiências para que, no tempo das coisas, uma nova atitude em vida possa emergir. Neste artigo, cenas interpretadas no cinema, narradas em consultório e [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Resumo</strong>: Não é apenas com ideias que se recria uma vida. Transformar padrões psíquicos requer o enfretamento de sombras e complexos, a exposição das vulnerabilidades, o risco de se experimentar novas experiências para que, no tempo das coisas, uma nova atitude em vida possa emergir. <strong>Neste artigo, cenas interpretadas no cinema, narradas em consultório e mitológicas buscam inspirar processos terapêuticos</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A vida, esse tempo entre mistérios, é – na perspectiva junguiana – uma experiência psíquica. Isso significa que para cada indivíduo, a vida acontece nas dimensões das ideias, das emoções, das sensações, das intuições, de forma singular, integrada e em diferentes intensidades. Acontece em movimentos de interesse para fora e para dentro, sempre conduzida de forma invisível pela alma, imoral (<strong>Bonder</strong>, 1998).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nessa-experiencia-vivida-multidimensionalmente-a-palavra-fracassa-como-disse-nise-da-silveira-a-vida-precisa-ser-experimentada-e-expressada-com-as-palavras-e-para-alem-delas" style="font-size:19px">Nessa experiência vivida multidimensionalmente, “a palavra fracassa”, como disse Nise da Silveira. A vida precisa ser experimentada e expressada, com as palavras e para além delas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Deitado em uma maca, na qual vive em decorrência da poliomielite que se estendeu ao tronco desde os seis anos de idade, o poeta americano Mark O&#8217;brien confessa ao padre da cidade seu desejo de experimentar a sexualidade e pergunta se isso estaria errado. Depois de pensar alguns minutos em frente ao altar, o padre responde que não, afinal, conclui ele, as pessoas costumam exclamar “<em>oh my God</em>” no clímax sexual.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Minutos depois de conhecer o profissional do sexo, Leo Grande, Nancy Stokes, uma professora de histórico conservador, que acaba de se aposentar, confessa que, apesar de ter sido casada por décadas, nunca experimentou o prazer sexual. O que era para ser um encontro único com Leo, tornam-se sessões guiadas por uma lista de experiências sexuais inéditas para ela, entre conversas e danças, nas quais, ambos deixam vazar suas vulnerabilidades.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Casada há décadas com um cara aparentemente gente boa, mãe de dois adolescentes comuns, a super CEO controladora Romy encontra-se de quatro num quarto de hotel vulgar, tomando leite em uma gamela colocada no chão pelo estagiário da companhia que comanda e com o qual vive encontros sexuais de dominação que colocam sua família e carreira em risco.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Pelas redes sociais, as investidas de um cara casado, que começou com <em>emojis</em> dúbios, convida uma mulher para a criação em dupla de cenas eróticas, nas quais sentimentos singelos descritos percorrem os corpos arrepiados pelas fantasias reveladas pelas palavras. Desde o início das trocas, nunca se encontraram pessoalmente, mas sabem que, pela ficção que inventaram, conhecem intimamente aspectos um do outro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-universal" style="font-size:21px"><strong>Universal</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Em <em><strong>Eros e Psiquê</strong></em>, a jovem bela, desenganada do amor e perseguida pela inveja de Afrodite, é sacrificada pelos pais no alto de um rochedo. Por conta de um vento muito forte, Psiquê é jogada ao vale, onde cai e dorme exausta. Ao acordar, encontra-se num castelo e percebe a presença de seu novo e desconhecido marido que, apesar de ser extremamente carinhoso, colocou a ela uma única condição: jamais poderia vê-lo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Com o passar do tempo, apesar da satisfação que vivia no casamento, começou a sentir falta de sua família e pediu ao marido permissão para visitá-la. Ao revelar às irmãs Inveja e Discórdia sua felicidade, foi inundada por questionamentos e dúvidas sobre a identidade do cônjuge e encorajada a descumprir o acordo matrimonial e encará-lo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">De volta à casa, Psiquê aguarda o sono profundo de seu amante e, com a luz de uma lamparina, vê a perfeição de Eros revelada. O encantamento é tamanho que ela não percebe a gota de óleo que cai sobre o peito do marido, que acorda assustado, encarando a traição, o que o faz desistir do casamento. Ambos seguem vagando perdidos e tristes pelo mundo, quando Eros suplica a redenção de Zeus, que depois de cumprir quatro diferentes tarefas, faz da mortal Psiquê uma imortal e, assim, passam a viver eternamente juntos no Olímpo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Seja no mito, sejam nas histórias fictícias ou nas narrativas dos consultórios, em cada uma dessas cenas pulsa o desejo erótico de ultrapassar a própria borda, de encontrar o desconhecido, de fundir-se ao que é incontornável da existência humana. Longe das regras e do que se pode esperar dos personagens descritos e de seus contextos. <strong>A alma é imoral e busca realizar-se</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-corpo-como-caminho" style="font-size:21px"><strong>O corpo como caminho</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Atrás do medo pode estar escondido o que se deseja experimentar em vida. É preciso investir energia e agir com coragem para se servir do que está colocado à mesa da existência humana. A tarefa passa também pelo corpo, pela experiência sensorial que não deve ser subvalorizada em detrimento da razão ou da espiritualidade. Assim como também não precisa ser supervalorizada, com os excessos dopaminérgicos contemporâneos.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-pratica-da-ioga-ensina-que-e-por-meio-da-repeticao-dos-asanas-as-posturas-da-ioga-que-se-pode-conhecer-se-a-si-e-eventualmente-alcancar-o-todo-e-possivel-a-analogia-com-o-processo-analitico-em-a-psicologia-da-ioga-kundalini-jung-afirma" style="font-size:19px">A prática da ioga ensina que é por meio da repetição dos <em>asanas</em> (as posturas da ioga) que se pode conhecer-se a si e, eventualmente, alcançar o Todo. É possível a analogia com o processo analítico. Em <em>A <strong>psicologia da ioga kundalini</strong></em>, Jung afirma:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“Hoje, em vez de mar ou de leviatã, nós falamos em ‘análise’, que é igualmente perigosa. A pessoa mergulha na água, se familiariza o leviatã que ali habita e isso se transforma em fonte de regeneração ou de destruição”. </p><cite>(Jung, 2022, p. 99)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-processo-analitico-aspectos-sao-regenerados-enquanto-outros-de-fato-destruidos" style="font-size:19px">No processo analítico aspectos são regenerados enquanto outros, de fato, destruídos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Em <em><strong>Ab-reação, análise dos sonhos e transferência</strong></em>, Jung reflete sobre a vida instintual, aspecto intimamente ligado à dimensão corpórea:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>&#8220;O instinto não é coisa isolada, nem pode ser isolado na prática. Ele sempre traz consigo conteúdos arquetípicos de caráter espiritual que, por um lado, o fundamentam e, por outro, o limitam. Em outras palavras, o instinto se apresenta sempre e inevitavelmente junto com uma espécie de visão de mundo, por mais arcaica, imprecisa e crepuscular que ela seja. O instinto nos dá o que pensar, e se não pensarmos nele livremente, então surgirá um pensamento compulsório, pois os dois pólos da alma, o fisiológico e o espiritual, estão ligados um ao outro, indissoluvelmente. Por isso, não existe uma liberação unilateral do instinto, da mesma forma que o espírito, desligado da esfera instintual, está condenado ao ponto morto. Não se deve imaginar, contudo, que a sua ligação com a esfera instintual seja necessariamente harmoniosa. Muito pelo contrário, ela é cheia de conflitos e significa sofrimento. Eis por que o objetivo mais nobre da psicoterapia não é colocar o paciente num estado impossível de felicidade, mas sim possibilitar que adquira firmeza e paciência filosóficas para suportar o sofrimento. A totalidade, a plenitude da vida exige um equilíbrio entre sofrimento e alegria.&#8221; </p><cite>(OC 16/1 § 185)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Bhagwan Sherr Rajneesh</strong>, o controverso guru indiano Osho, diz em <em><strong>Tantra: sexo e espiritualidade</strong></em>, que sentimos muito medo de duas coisas: do sexo e da morte.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“<em>Ambos são básicos. Aquele que se propõe a encarar a religião com seriedade irá ao encontro dos dois. Experimentará o sexo para saber de que se trata, pois conhecer o sexo é conhecer a vida. E gostará também de saber o que é a morte, pois a menos que se saiba o que ela é, não se poderá saber o que é vida eterna</em>”.</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Na busca pela experiência sexual, de vida, Mark morreu, assim como morreram Nacy, Leo, Romy, o estagiário, o homem casado, a amiga dele. Morreram Eros e Psiquê. De forma simbólica, todos aceitaram a morte de aspectos psíquicos para poderem experimentar novos aspectos da vida na carne e além dela.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-alem-do-corpo" style="font-size:21px"><strong>Além do corpo</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Não aconteceria algo simbolicamente semelhante a tudo isso também na prática da psicoterapia? Analista e analisando encontrando-se, revelando-se, confessando-se, saltando em locais misteriosos, integrando-se, fazendo morrer aspectos para que novos possam nascer e se relevar? Talvez a prática da entrega na clínica (como analista e analisando) possa ser um bom treino para novas entregas na vida, sem disfarces.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Afinal, enxergar, confessar, se relacionar com um padrão psíquico e depois disso distanciar-se dele por meio de uma nova atitude na vida é o grande desafio de um processo terapêutico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-alem-da-coragem-para-render-se-a-alma-imoral-e-preciso-tempo-e-pratica" style="font-size:19px">Além da coragem para render-se à alma imoral é preciso tempo e prática.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Mark, Nacy, Leo, Romy, o estagiário, o homem, a mulher, Eros, Psiquê, analista, analisando, todos vivem, encontro a encontro, a persistência e a espera do tempo certo para que as mortes simbólicas aconteçam. Para que novas vidas possam se revelar. &#8220;La petite mort”. Não é apenas o gozo e é o gozo também.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-best-seller-e-blockbuster-comer-rezar-e-amar-fomos-apresentados-a-musica-e-ao-conceito-de-attraversiamo" style="font-size:19px">No <em>best-seller</em> e <em>blockbuster</em> “Comer, Rezar e Amar” fomos apresentados à música e ao conceito de <em>Attraversiamo</em>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Em italiano, <em>Attraversiamo </em>é uma expressão que indica um chamado para se aventurar, deixar a zona de conforto, enfrentar o medo e os desafios. A escritora Elizabeth Gilbert, autora dessa autoficção,&nbsp;precisou repetir várias vezes a palavra para aprender a falá-la sem sotaque e, mais ainda, para compreendê-la. Não há pílula mágica para quem deseja pegar a vida com as próprias mãos. É preciso atravessá-la à despeito de tudo e de todos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-funeral-de-mark-o-brien-a-terapeuta-sexual-cheryl-cohen-greene-le-o-poema-escrito-por-ele-e-entregue-anonimamente-apos-suas-sessoes-e-fim-do-processo-terapeutico-chama-se-o-poema-de-amor-para-ninguem-em-especial" style="font-size:19px">No funeral de Mark O&#8217;brien, a terapeuta sexual Cheryl Cohen Greene lê o poema escrito por ele e entregue anonimamente após suas sessões e fim do processo terapêutico. Chama-se o “Poema de amor para ninguém em especial”:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:0.6"><em>Deixe-me tocá-la com minhas palavras</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:0.6"><em>Pois minhas mãos inertes pendem</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:0.6"><em>como luvas vazias</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:0.6"><em>Deixe minhas palavras acariciarem seu cabelo</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:0.6"><em>deslizar tuas costas abaixo</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:0.6"><em>e brincar em teu ventre</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:0.6"><em>pois minhas mãos,</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:0.6"><em>de voo leve e livre como tijolos</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:0.6"><em>ignoram meus desejos</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:0.6"><em>e teimosamente se recusam a tornar realidade</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:0.6"><em>minhas intenções mais silenciosas</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:0.6"><em>Deixe minhas palavras entrarem em você</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:0.6"><em>carregando lanternas</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:0.6"><em>aceite-as voluntariamente em seu ser</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:0.6"><em>para que possam te acariciar devagarinho</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:0.6"><em>por dentro.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Por falta de palavras diante de tamanha beleza, roubo aqui as dos compositores Lô Borges e Márcio Borges, que <strong>Milton Nascimento</strong> eternizou com sua voz de Deus: “<strong>será que isso quer dizer amor, a estrada de fazer, o sonho acontecer?</strong>”. O amor, por si mesmo, pelo outro, pelo mundo. O amor destemido que busca expandir a existência, por meio das experiências que a vida faz acontecer.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Em um dos shows de sua turnê de despedida dos palcos, encarando seu próprio fim, <strong>Gilberto Gil </strong>afirmou: “<strong><em>A morte não é difícil. Difícil é aprender a amar</em></strong>”, que o caminho simbólico da análise possa nos ensinar a viver o amor na prática.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/luciana-branco/">Luciana Branco &#8211; Analista em Formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">BONDER, Nilton. <em>A Alma Imoral</em>. São Paulo: Rocco,1989.</p>



<p class="wp-block-paragraph">LEWIN, Ben. <em>As Sessões</em>. 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HYDE, Sophie. Boa Sorte, Leo Grande. 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">REIJN, Halina. Babygirl. 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.<em> A psicologia da ioga kundalini.</em> 1ª edição. Petrópolis: Vozes, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Ab-reação, análise dos sonhos e transferência</em><em>.</em> 18ª edição. Petrópolis: Editora Vozes, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">RAJNEESH, Bhagwan Sherr. <em>Tantra: sexo e espiritualidade</em>. São Paulo: Ágora, sem data.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MURPHY, Ryan. Comer, Rezar, Amar. 2010.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="1024" height="576" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-5-1024x576.png" alt="" class="wp-image-10659" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-5-1024x576.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-5-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-5-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-5-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-5-450x253.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-5.png 1200w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Matrículas abertas</strong>:&nbsp;<a href="http://www.ijep.com.br/"><strong>www.ijep.com.br</strong></a></p>



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		<title>Diagnóstico: destino ou símbolo?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/diagnostico-destino-ou-simbolo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luciana Gimenes Branco]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 07 Mar 2025 15:54:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Não Categorizado]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=10272</guid>

					<description><![CDATA[<p>Resumo: O aumento do número de diagnósticos psiquiátricos e o consequente tratamento especializado não deveria resultar em melhores índices de saúde mental no mundo? Os diagnósticos não deveriam servir de caminho para a cura e libertação? Para que têm servido tantos diagnósticos? E ainda, para quem? Neste artigo, a analista em formação Luciana Branco costura [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: O aumento do número de diagnósticos psiquiátricos e o consequente tratamento especializado não deveria resultar em melhores índices de saúde mental no mundo? Os diagnósticos não deveriam servir de caminho para a cura e libertação? Para que têm servido tantos diagnósticos? E ainda, para quem? Neste artigo, a analista em formação Luciana Branco costura aspectos da cosmovisão de Carl Gustav Jung com músicas de <strong>Arnaldo Antunes</strong>, livro de Emmanuel Carrère e a forma de se pensar doença da medicina ocidental.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>“Peste bubônica, câncer, pneumonia<br>Raiva, rubéola, tuberculose, anemia<br>Rancor, cisticercose, caxumba, difteria<br>Encefalite, faringite, gripe, leucemia<br><strong>O pulso ainda pulsa</strong>”</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-eu-tinha-doze-anos-quando-em-1989-os-titas-lancaram-esses-versos-que-como-bom-simbolo-ganham-cada-vez-mais-significado-em-minha-vida" style="font-size:19px">Eu tinha doze anos quando, em 1989, os Titãs lançaram esses versos que, como bom símbolo, ganham cada vez mais significado em minha vida.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Se quando menina, ouvia com espanto a brincadeira cantada com doenças (e, ainda, com as doenças misturadas com sentimentos), agora na meia idade e alimentada pela cosmovisão de Carl Gustav Jung, “<strong>O pulso</strong>” me maravilha por escutá-la como um <strong>convite à vida</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Com menos poesia, mas com provável paixão semelhante, pouco mais de um século antes da canção, em 1893, o médico e estatístico francês <strong>Jacques Bertillon</strong>, também listou doenças e, com a lista, criou a &#8220;Classificação Internacional das Causas de Morte&#8221;, que continha aproximadamente 161 categorias. Mais tarde, em 1948, tal classificação tornou-se responsabilidade da Organização Mundial da Saúde e foi rebatizada em CID – Classificação Internacional de Doenças.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Tal lista é atualizada regularmente. A mais recente é a CID-11, lançada oficialmente em 2019, e que contém 55 mil códigos únicos, abrangendo condições médicas, doenças, síndromes, lesões, causas externas, e outros aspectos relacionados à saúde, embora o nome da classificação indique: são listadas como doenças.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-cada-uma-das-10-revisoes-da-cid-tornou-a-classificacao-mais-abrangente-e-detalhada-acompanhando-os-avancos-do-conhecimento-da-medicina-ocidental" style="font-size:19px">Cada uma das 10 revisões da CID tornou a classificação mais abrangente e detalhada, acompanhando os avanços do conhecimento da medicina ocidental.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O desenvolvimento da ciência amplia a diferenciação das doenças e categoriza as condições humanas, com o nobre objetivo de entender globalmente o que faz as pessoas adoecerem e morrerem, a fim de evitar sofrimento e salvar vidas. &#8220;A CID é um produto do qual a OMS realmente se orgulha&#8221;, disse Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da instituição em canal oficial.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:22px"><strong>Consciência</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A visão integrativa junguiana, obviamente, valoriza o desenvolvimento da consciência e os frutos deste desenvolvimento, como a ciência e os feitos civilizatórios. Não descarta, porém, o mal que este bem pode causar, quando experimentado de forma unilateralizada, ou seja, sem as nuances da dúvida.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“A natureza determinada e dirigida da consciência é uma aquisição extremamente importante que custou à humanidade os mais pesados sacrifícios, mas que, por seu lado, prestou o mais alto serviço à humanidade. Sem ela a ciência, a técnica e a civilização seriam simplesmente impossíveis, porque todas elas pressupõem persistência, regularidade e intencionalidade fidedignas do processo psíquico.” </p><cite>JUNG, OC 8/2 §135</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O pensador, no entanto, ao longo de toda Obra Completa, não hesita em convidar o leitor à reflexão sobre como a consciência, vivida de forma unilateralizada &#8211; quando aspectos simbólicos e intuitivos da experiência humana são desvalorizados &#8211; pode acarretar em cisão e consequente adoecimento psíquico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-ao-crescimento-da-consciencia-que-devemos-a-existencia-dos-problemas-eles-sao-o-presente-de-grego-da-civilizacao-oc-8-2-750" style="font-size:19px">“<strong>É ao crescimento da consciência que devemos a existência dos problemas; eles são o presente de grego da civilização</strong>.” (OC 8/2 §750)</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em pouco mais de um século, a visão materialista da medicina ocidental ampliou a capacidade de tratamento das doenças. Isso é fato e merece ser celebrado. Porém, simultaneamente, como face da mesma moeda, o ser humano passou a ser olhado de forma fragmentada, como se as partes não compusessem o todo, mas fossem engrenagens mecânicas que precisam funcionar separadamente. Os potenciais “defeitos” em cada estrutura ganharam, ao longo das últimas décadas de forma acelerada, nomes científicos e drogas aprovadas cientificamente que podem restaurá-los para que voltem (os órgãos e as pessoas) a operar o mais rapidamente possível, na melhor potência produtiva em um sistema que não pode parar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Com isso, pelo olhar junguiano, perde-se a possibilidade de <strong>simbolizar</strong> a doença. De dialogar com os sintomas que são expressões do inconsciente desejoso de se manifestar. Desta forma, exclusivamente materialista, a intrínseca condição humana de altos e baixos é patologizada, criando-se a ideia de que existe uma forma única e “correta” de se existir saudavelmente. E, ainda, que a única vida que vale ser vivida é a que está de acordo com essas convenções.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-um-cid-pra-chamar-de-meu" style="font-size:22px"><strong>UM CID pra chamar de meu</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No mesmo ano em que a neurótica “O Pulso” era lançada no Brasil, o termo “<strong>neurose</strong>” foi abolido do CID-10.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A justificativa para tal fato foi a ambiguidade conceitual, já que o termo “neurose” era considerado vago e abrangente, referindo-se a uma ampla gama de transtornos psicológicos e sem critérios diagnósticos claros.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O desenvolvimento da psiquiatria contemporânea também é fator determinante da suspensão do termo e os transtornos anteriormente agrupados em “neurose” foram redistribuídos em categorias mais específicas como, <strong>Transtornos de ansiedade, Transtorno obsessivo-compulsivo, Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), Fobias específicas, Transtorno somatoforme,</strong> entre outros. Todos sintomas tratáveis, por essa mesma perspectiva, de forma medicamentosa.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-jung-a-causa-da-neurose-e-a-discrepancia-entre-a-atitude-consciente-e-a-tendencia-inconsciente" style="font-size:20px">Para Jung, a causa da neurose é a discrepância entre a atitude consciente e a tendência inconsciente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Pouco mais de 50 anos antes da suspensão do termo “neurose” no CID, na conferência <em>Princípios básicos da prática da psicoterapia</em>, realizada na Associação de Medicina de Zurique, em 1935 e transcrita em <em>A prática da psicoterapia</em> (OC 16/1), Jung afirma:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“As neuroses ainda são consideradas, erroneamente, como doenças sem gravidade, principalmente por não serem tangíveis nem corporais. As neuroses não matam &#8211; como se numa doença física sempre existisse a ameaça de um fim letal. No entanto, o que se esquece por completo &#8211; e nisso diferem da doença física &#8211; é que elas podem ser extremamente deletérias em suas consequências psíquicas e sociais, muitas vezes piores que as psicoses que, como tais, geralmente levam o doente ao isolamento social, tornando-o, portanto, inofensivo.” (OC 16/1§ 37) </p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>E o psiquiatra segue:</strong></p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“Infelizmente, as Faculdades de Medicina têm dado pouca importância ao fato de ser grande o número das neuroses existentes e enorme a incidência das implicações psíquicas em doenças orgânicas, que são justamente a causa da sobrecarga do médico que clínica, ainda que não o perceba. O currículo das faculdades não o prepara para enfrentar esse seríssimo problema, e muitas vezes o médico nem chega a ter a menor oportunidade de receber alguma orientação nessa área que, na prática, é tão importante.” (OC 16/1 § 38)</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tempo-e-cura" style="font-size:22px"><strong>Tempo e cura</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">É fato que permanecer diante de sintomas sem um diagnóstico que justifique o mal estar, seja ele físico ou psíquico, é angustiante. Então, na pressa por respostas, a tristeza, que por vezes demora a passar, é chamada de depressão. A falta de interesse num cotidiano desinteressante, batizada de angústia. O estresse em longas jornadas de trabalho sem significado, seguidas por horas de vida gastas no trânsito das grandes cidades vira <em>burnout</em>. A falta de tesão dentro de um relacionamento tóxico é queda hormonal. O vazio. A inveja. A raiva. A solidão.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A não-medicalização precoce exige mudança de comportamento e custa tempo do indivíduo, o mesmo tempo dedicado exaustivamente a manter o sistema em funcionamento. A tal da jornada 6&#215;1.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Se enxergados como símbolos, os sintomas podem, antes do silêncio ocasionado pela medicalização, servir de oráculo para uma vida que pede para ser modificada rumo à realização do arquétipo do si-mesmo. Sem diagnósticos que determinem um destino único, inevitável e doloroso (bipolar, maníaco-depressivo, <em>borderline</em>, TDAH&#8230;), o ser humano é convidado à auto responsabilidade de agir em prol da própria integração dos sintomas e compreensão dos significados desses símbolos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No espetacular livro “Ioga”, de Emmanuel Carrère, a personagem Erica o questiona sobre o que fazer com uma sombra insistente que ela enxerga a sua esquerda, ligeiramente nas costas: “<strong>A Sombra, Emmanuel&#8230; O que eu faço com ela? Você não consegue imaginar como é terrível, essa Sombra que está o tempo todo aqui e que eu não vejo. É tão terrível</strong>&#8230;&#8221;.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-o-autor-autobiografico-segue" style="font-size:19px">E o autor, autobiográfico, segue:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“Escuto Erica, entendo muito bem o que ela está dizendo, terrivelmente bem. A minha Sombra é uma linda marina de Raoul Dufy (NA: referindo-se a um quadro que via no hospital psiquiátrico onde esteve internado), e ela é tão terrível quanto a de Erica. Todo mundo deve ter a sua, ela apenas fica um pouco mais sensatamente atrás das costas da maioria das pessoas, enquanto que a outros, como Erica e eu, ela ameaça mais de perto: ‘A família lamentável e magnífica dos neuróticos’, dizia Proust, e ele dizia também que nós somos o sal da terra, nós, os neuróticos, os melancólicos, os bipolares, nós que passamos nossas vidas nos debatendo contra esses ‘cães negros’ de que fala um outro grande deprimido, Winston Churchill.” (Ioga, p. 204)</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Se ousássemos viver sem diagnósticos precoces, mais distantes de classificações assépticas, sem tratar os sintomas como batatas quentes das quais precisamos urgentemente nos livrar, se fizéssemos dos sintomas símbolos com possibilidades de significados distintos, talvez destinos com mais inteireza pudessem ser construídos. <strong>Talvez a cura, como a integração de opostos complementares, pudesse ser vislumbrada</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ainda-na-mesma-conferencia-principios-basicos-da-pratica-da-psicoterapia-jung-afirma-que-cura-significa-transformacao" style="font-size:19px">Ainda na mesma conferência <em>Princípios básicos da prática da psicoterapia</em>, Jung afirma que cura significa transformação.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“…o médico deve deixar aberto o caminho individual da cura, e neste caso o processo terapêutico não acarretará nenhuma transformação da personalidade, mas será um processo, chamado de individuação. Isto significa que o paciente se torna aquilo que de fato ele é. Na pior das hipóteses poderá chegar a aceitar a sua neurose, porque entendeu o sentido da sua doença. Vários doentes me confessaram que aprenderam a ver com gratidão os seus sintomas neuróticos, pois estes, como um barômetro, sempre lhes mostraram quando e onde se tinham desviado do seu caminho individual, ou quando e onde coisas importantes tinham ficado inconscientes.” (OC 16/1 § 11)</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Quando tratado como apenas um caso entre bilhões a ser catalogado, o indivíduo perde a oportunidade de existir singularmente, realizando e dando significado único à própria existência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Afinal, embora encantador, maravilhoso, miraculoso, prazeroso, perfeito, quando literalizado, “O corpo ainda é pouco”, sugere <strong>Arnaldo Antunes </strong>que em outra canção, “Socorro”, dá a letra para tempos de hiper patologização:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p><em>“Socorro<br>Alguma alma mesmo que penada<br>Me empreste suas penas<br>Já não sinto amor, nem dor<br>Já não sinto nada</em><br><em>Socorro, alguém me dê um coração<br>Que esse já não bate nem apanha<br>Por favor!<br>Uma emoção pequena, qualquer coisa!</em><br><em>Qualquer coisa que se sinta<br>Tem tantos sentimentos<br>Deve ter algum que sirva”</em></p></blockquote></figure>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/luciana-branco/">Luciana Branco &#8211; Analista em Formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:19px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">ANTUNES, Arnaldo. <em>O Pulso</em>. São Paulo: Warner Music Brasil,1989.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">_______<em>O Pulso</em>. São Paulo: Warner Music Brasil,1994.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">JUNG, C.G.<em> A Natureza da psique.</em> 10ª edição. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">______ <em>A prática da psicoterapia.</em> 16ª edição. Petrópolis: Editora Vozes, 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">CARREÈRE, Emmanuel. Ioga. São Paulo: Editora Alfaguara, 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:24px"><strong>Canais IJEP:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Saiba mais sobre nossos Cursos, Congressos e Pós-graduações</strong>&nbsp;com inscrições abertas: Psicologia Analítica, Psicossomática, Arteterapia e Expressões Criativas, matrículas abertas –&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/">www.ijep.com.br</a></p>



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			</item>
		<item>
		<title>Crise da meia idade: você ousa sair da cápsula?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/crise-da-meia-idade-voce-ousa-sair-da-capsula/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luciana Gimenes Branco]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 29 Nov 2024 21:47:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecer]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[meia idade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Uma pesquisa realizada com mais de 730 mil pessoas ao redor do mundo, de diferentes faixas etárias, apontou que a pior qualidade do sono do ser humano ocorre dos 33 aos 53 anos. Considerando que a expectativa média de vida das pessoas no mundo é de 72 anos, os 36 anos podem ser considerados [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em><strong>Resumo</strong>: Uma pesquisa realizada com mais de 730 mil pessoas ao redor do mundo, de diferentes faixas etárias, apontou que a pior qualidade do sono do ser humano ocorre dos 33 aos 53 anos. Considerando que a expectativa média de vida das pessoas no mundo é de 72 anos, os 36 anos podem ser considerados o início da “meia idade” – evidentemente, isso varia de acordo com o país e a condição socioeconômica do indivíduo.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Trechos do texto d’O Livro Vermelho indicam que Jung viveu sua crise da meia idade de forma profunda e criativa, nas madrugadas insone, o que resultou na grande obra deixada pelo pensador.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>As noites mal dormidas talvez possam encontrar sentido, na ampliação do sintoma. “Não há tempo para dormir, se você não encontra tempo durante o dia para permanecer na obra”, Jung relata ter ouvido da própria alma.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Estava tudo certo e combinado. Ele cresceria, seguiria sendo o bom aluno da classe, se formaria em uma boa faculdade, encontraria um bom emprego, um bom casamento. Faria uma boa pós-graduação. Teria filhos e uma boa família. Fariam juntos boas viagens nas férias, nas quais visitariam bons restaurantes, comprariam roupas e alguns <em>souvenirs</em> que ajudariam a recontar a história. O celular seria do último modelo, assim como o carro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-havia-algo-naquela-boa-vida-que-nao-soava-bem" style="font-size:18px">Mas havia algo naquela boa vida que não soava bem.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Aos 45 anos, ele era tomado por uma tristeza inexplicável. Sempre que tentava compartilhar de seu sentimento com amigos, precisava ouvir recitada a lista de tudo o que compunha a boa vida dele, como quem escuta uma lista de pecados. “Você não tem do que reclamar”, precedia, invariavelmente, a bronca fraternal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas a tristeza estava lá, assim como uma inexplicável impossibilidade de encontrar um novo emprego e uma insuperável falta de tesão pela mulher e até pelas amantes. Nem nas prostitutas encontrava seu desejo. As contas não paravam de aumentar, enquanto ele via as reservas financeiras serem consumidas, a fim de manter a vida do jeito que sempre foi. Havia o álcool para distrai-lo todas as noites. E também as maratonas do streaming, suspensas apenas para receber o delivery da sobremesa. Havia o telefone de um médico que poderia receitar algo que o tiraria de vez daquela tristeza inexplicável. Não sabia chamá-la de angústia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estava lá também uma insônia recorrente. Todas as noites, ela o acordava com a mesma pergunta, repetida como eco: “<strong>e agora?</strong>”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-insonia-como-simbolo"><strong>Insônia como símbolo</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Como afirma Jung no ensaio <em>Etapas da Vida Humana</em>, em <em>A natureza da psique </em>(OC 8/2): “<strong>Só o ser humano adulto é que pode ter dúvidas a seu próprio respeito e discordar de si-mesmo</strong>.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">O estudo <em>Sleep duration reveals segmentation of the adult life-course into three phases</em> (livremente traduzido como <em>A duração do sono revela a segmentação do curso da vida adulto em três fases</em>) publicado, em 2022, na revista <em>Nature Communications</em>, envolvendo 730.187 participantes em 63 diferentes países, buscou revelar o padrão do sono ao longo da vida de pessoas de diferentes idades.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A pesquisa foi feita por cientistas da Universidade College London (UCL), da Universidade de East Anglia (UEA) e da Universidade de Lyon. Segundo o trabalho, a pior qualidade de sono dos adultos se dá na faixa de idade que vai dos 33 aos 53 anos. Considerando que a expectativa média de vida das pessoas no mundo é de 72 anos, os 36 anos podem ser considerados o início da “meia idade” – evidentemente, isso varia de acordo com o país e a condição socioeconômica do indivíduo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Embora saibamos que um sintoma tende a ser multifatorial, a partir da cosmovisão de Carl Gustav Jung (1875 – 1961), a insônia na meia idade pode representar, simbolicamente, o <strong>chacoalhar da alma</strong>, buscando acordar o indivíduo para a Vida que precisa ser vivida. Para que ele possa despertar e se responder a pergunta: “e agora?”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-5-de-janeiro-de-1922-jung-entao-com-47-anos-teve-um-dialogo-contundente-com-sua-propria-alma-retratado-pelo-especialista-sonu-shamdasani-na-introducao-d-o-livro-vermelho" style="font-size:17px">Em 5 de janeiro de 1922, Jung, então com 47 anos, teve um diálogo contundente com sua própria alma, retratado pelo especialista Sonu Shamdasani, na Introdução d’<em>O Livro Vermelho.</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Incomodado com noites mal dormidas, já em conversa com o sintoma, Jung escuta sua <strong>alma</strong> dizer: “&#8230;você devia ter percebido que eu estava perturbando seu sono há muito tempo&#8230;”, complementando a orientação dada por ela antes de que não era tempo de dormir, mas de ficar acordado e preparar coisas importantes no trabalho noturno. Ao ser questionada por Jung qual trabalho seria esse, a alma respondeu sem rodeios: “A obra precisa ser feita agora. É uma obra imensa e difícil. Não há tempo para dormir, se você não encontra tempo durante o dia para permanecer na obra”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-questionar-a-propria-alma-qual-era-a-sua-vocacao-jung-escuta-assustado-a-resposta-a-nova-religiao-e-sua-proclamacao-apud-shamdasani-2010-p-211" style="font-size:17px">Ao questionar à própria alma qual era a sua vocação, Jung escuta assustado a resposta: “A nova religião e sua proclamação”. (<em>apud </em>SHAMDASANI, 2010, p. 211)</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nesta conversa, fica evidente a função de um sintoma como a insônia na meia idade. Outros trechos do texto d’<em>O Livro Vermelho</em> indicam que este foi um período de bastante sofrimento para o pensador. Jung estava em crise. Na meia idade, Jung também estava em crise.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Foi a partir desta crise vivida profunda e criativamente nas madrugadas que resultou a grande obra deixada pelo pensador. Na introdução de <em>O Livro Vermelho</em>, a psicóloga e pensadora junguiana Marie-Louise von Franz afirma que a produção presente no livro foi feita &#8220;com o coração&#8221;, enquanto a <em>Obra Completa</em> de Jung foi escrita &#8220;com a cabeça&#8221;. Von Franz, colaboradora próxima do autor, destaca que <em>O Livro Vermelho</em> é um trabalho muito mais pessoal e expressivo, revelando o processo interno e emocional de Jung, enquanto sua <em>Obra Completa</em> reflete uma abordagem mais intelectual e sistematizada de seus conceitos psicológicos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-duvida-como-caminho"><strong>Dúvida como caminho</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A partir da perspectiva da Psicologia Analítica, pode-se afirmar que a crise da meia idade convida o indivíduo para o que Jung chamou de caminho de individuação, cujo sentido é permitir que o arquétipo do si-mesmo se realize em prol de si e à serviço da Humanidade. Se até o meio da vida, costuma-se existir com foco no ter, a partir deste momento há de haver uma morte simbólica deste indivíduo, a fim de que o ego possa existir em função do ser (do <em>self</em>) e do servir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em uma sociedade que valoriza demasiadamente a razão e os prazeres, as ondas de dúvidas intrínsecas à meia idade e que quebram os castelos de areia da vida construída até a metade da experiência humana costumam ser bastante angustiantes.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:17px"><blockquote><p>Cada um de nós espontaneamente evita encarar seus problemas, enquanto possível; não se deve mencioná-los, ou melhor ainda, nega-se sua existência. Queremos que nossa vida seja simples, segura e tranquila, e por isto os problemas são tabu. Queremos certezas e não dúvidas; queremos resultados e não experimentos, sem entretanto, nos darmos conta de que as certezas só podem surgir através da dúvida, e os resultados através do experimento. Assim, a negação artificial dos problemas não gera a convicção; pelo contrário, para obtermos certeza e claridade, precisamos de uma consciência mais ampla e superior.</p><cite>OC 8/2 §751</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Como conquistar uma consciência mais ampla e superior sem encarar de frente as ondas de dúvida contidas na insistente pergunta: “E agora?”? Esta atormentadora questão insone pode conter, mesmo que inconscientemente, a certeza psíquica do fim de um corpo que envelhece e de que é necessário agir antes deste término, para se realizar “a grande obra”. Deixar emergir o arquétipo do si-mesmo, o motivo, a finalidade de cada existência em prol do Todo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-agora-que-ja-nao-ha-mais-tanto-tempo-e-agora-que-ja-nao-posso-mais-fingir-continuar-gostando-do-que-ou-de-quem-deixei-de-gostar-e-agora-que-ja-nao-me-reconheco-como-sempre-fui-e-agora-que-percebo-que-minhas-certezas-ja-nao-sao-tao-certas-assim" style="font-size:17px">“E agora que já não há mais tanto tempo?” “E agora que já não posso mais fingir continuar gostando do que (ou de quem) deixei de gostar?” “E agora que já não me reconheço como sempre fui?” “E agora que percebo que minhas certezas já não são tão certas assim?”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda em <em><strong>Etapas da Vida Humana</strong></em>, Jung faz uma analogia simbólica bastante didática sobre o que representa a metade da vida e sua crise, comparado a existência humana ao nascer a ao por do Sol. Se na primeira metade do dia, o Sol emerge e tende ao ápice, sem ao certo saber onde este local de superioridade se localiza, já no primeiro minuto após o cume inicia-se a decadência, a queda, rumo à escuridão. “Precisamente ao meio-dia, o Sol começa a declinar e esse declínio significa uma inversão de todos os valores e ideias cultivados durante a manhã. O Sol, então, torna-se contraditório consigo mesmo.” (OC 8/2 §778)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta contradição, porém, é, do ponto de vista psíquico, absolutamente coerente. A Vida vivida em cada um sabe que a existência do corpo tem fim, embora o indivíduo contemporâneo ocidental e subjulgado ao sistema capitalista de consumo desenfreado seja convidado a acreditar no contrário.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-evolucao-como-fim"><strong>Evolução como fim</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O mercado “ageless” vende rostos sem marcas, músculos definidos, vende hormônios, implantes capilares e dentes embranquecidos. A alma sabe o que a razão e o consumo tentam negar. Mas ela, a alma, sempre encontra formas de se fazer notar pelos sintomas, pelos sonhos, pelas sincronicidades que tendem a ganhar intensidade na meia idade, já que é tempo de despertar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O <em>homo sapiens</em> busca a evolução da consciência há mais de 200 mil anos, a despeito do capitalismo, este jovem sistema econômico de pouco mais de 200 anos, que busca o crescimento sem fim e sem significado de indústrias que enriquecem poucos, ao escravizar bilhões no consumo ou no trabalho.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quanto-mais-desconectado-do-principio-arquetipico-da-evolucao-espiritual-mais-contundentes-serao-os-chamados-da-alma-na-metade-da-vida-quando-a-psique-tende-a-indicar-que-nem-tudo-esta-bem-por-meio-da-angustia-manifestada-de-diferentes-formas" style="font-size:17px">Quanto mais desconectado do princípio arquetípico da evolução espiritual, mais contundentes serão os chamados da alma na metade da vida, quando a psique tende a indicar que nem tudo está bem, por meio da angústia manifestada de diferentes formas.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Se a vida psíquica fosse constituída de evidências naturais &#8211; como acontece ainda no estágio primitivo &#8211; poderíamos nos contentar com um empirismo decidido. Mas a vida psíquica do homem civilizado é cheia de problemas, e não pode ser concebida senão em termos de problema. Grande parte de nossos processos psíquicos são constituídos de reflexões, dúvidas, experimentos &#8211; coisas que a psique instintiva e inconsciente do homem primitivo desconhece quase inteiramente. É ao crescimento da consciência que devemos a existência de problemas; eles são o presente de grego da civilização.</p><cite>OC 8/2 § 750</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Com consciência do sentido espiritual da vida, a meia idade pode se tornar um portal para a realização de tudo aquilo que sempre esteve, porém ainda não foi manifestado. Indivíduos alinhados aos seus talentos e missões, podem enxergar a meia idade e o envelhecimento de forma inspiradora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A partir dos anos 2000, o multiartista britânico <strong>David Bowie</strong> (1947 &#8211; 2016) passou a tratar de assuntos como envelhecimento e autoconhecimento nas entrevistas que concedia ao redor do mundo. É atribuída a ele a frase “<strong>Envelhecer é extraordinário: você se torna a pessoa que sempre deveria ter sido</strong>”, embora não se encontre literalmente essas palavras em entrevistas pesquisadas. Porém, de inegável autoria de Bowie, a canção <em>Space Oddity</em> (1969), convoca: “<em>Now it’s time to leave the capsule if you dare</em>” (em livre tradução, “Agora é hora de deixar a capsula, se você ousar”). Parece que ele falava a partir e sobre o <em>self</em>, o si-mesmo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>E você, ousa sair da cápsula?</strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="ARTIGO NOVO: &quot;Crise da meia idade: você ousa sair da cápsula?&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/QWRPoIwx7gE?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Luciana Branco &#8211; Analista em Formação IJEP</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">COUTROT, A., Lazar, A.S., Richards, M.&nbsp;<em>et al.</em>&nbsp;Reported sleep duration reveals segmentation of the adult life-course into three phases.&nbsp;<em>Nat Commun</em>&nbsp;<strong>13</strong>, 7697 (2022). https://doi.org/10.1038/s41467-022-34624-8</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">JUNG, C.G.<em> A Natureza da psique.</em> 10ª edição. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">______ <em>O Livro Vermelho.</em> 1ª edição. Petrópolis: Editora Vozes, 2010.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">BOWIE, David. <em>Space Oddity</em>. Londres: Philips Records,1969.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Aproveite para nos acompanhar no YouTube:&nbsp;<a href="https://www.youtube.com/channel/UCrbwUrT0W4Tp-swBxAVwX5Q">Canal IJEP – Bem vindos(as)! (youtube.com)</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Acesse nosso site e conheça nossos Cursos e&nbsp;<strong>Pós-Graduações</strong>&nbsp;com&nbsp;<strong>Matrículas Abertas</strong>:&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/">IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>*Psicossomática</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>*Psicologia Analítica</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>*Arteterapia e Expressões Criativas</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Conheça os <strong><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/congressosjunguianos">Congressos Junguianos do IJEP</a></strong>, Online e Gravados, com acesso imediato.</p>
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