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	<title>Silvana Gomes Venâncio, Autor em Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Silvana Gomes Venâncio, Autor em Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Como se preparar para viver na segunda metade da vida: as contribuições de Santo Agostinho e Carl Jung</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Silvana Gomes Venâncio]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 27 Oct 2026 19:13:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
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		<category><![CDATA[crise da meia idade]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[santo agostinho]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este texto é um convite a refletir sobre os desafios e as possibilidades da segunda metade da vida. A partir de Jung, James Hollis e Santo Agostinho, proponho pensar sobre a crise da meia-idade, o tempo, o envelhecimento e a necessidade de reorientar a alma. Mais do que uma fase de perdas, esse período pode ser uma oportunidade de ressignificar a vida, abandonar o que já não faz sentido e aprender a estar mais presente no tempo que nos é dado.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: Este texto é um convite a refletir sobre os desafios e as possibilidades da segunda metade da vida. A partir de Jung, James Hollis e Santo Agostinho, proponho pensar sobre a crise da meia-idade, o tempo, o envelhecimento e a necessidade de reorientar a alma. Mais do que uma fase de perdas, esse período pode ser uma oportunidade de ressignificar a vida, abandonar o que já não faz sentido e aprender a estar mais presente no tempo que nos é dado.</p>



<h2 id="h-e-se-existisse-uma-escola-para-pessoas-que-estao-na-segunda-metade-da-vida" class="wp-block-heading" style="font-size:20px">E se existisse uma escola para pessoas que estão na segunda metade da vida?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Uma escola que tivesse um currículo que nos ensinasse a lidar com os novos desafios, que nos ajudasse a entender o que está acontecendo com o nosso corpo e com as nossas emoções. As crianças entram na escola para aprender a socializar, para aprender a ler, escrever e a ter outras habilidades. Adolescentes e adultos que passaram dos 45 anos, 50 anos ou mais, ficam desamparados, ninguém nos ensina a lidar com as mudanças e aprender sozinhas é muito mais complicado.</p>



<h2 id="h-na-ausencia-de-uma-escola-para-maiores-a-alternativa-e-sempre-a-analise-olha-o-que-carl-jung-diz-sobre-isso" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Na ausência de uma escola para maiores, a alternativa é sempre a análise. Olha o que Carl Jung diz sobre isso:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Entramos totalmente despreparados na segunda metade da vida, e, pior do que isto, damos este passo, sob a falsa suposição de que nossas verdades e nossos ideais continuarão como dantes. Não podemos viver a tarde de nossa vida segundo o programa da manhã, porque aquilo que era muito na manhã, será pouco na tarde, e o que era verdadeiro na manhã, será falso no entardecer. (C. G. Jung. OC 8/2 , § 784)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Eu quero introduzir nesse artigo, o problema do tempo e como isso se relaciona com a segunda metade da vida e com a crise da meia idade. Quando nos deparamos com o tempo e com a realidade da morte, isso pode ser uma sentença ou um momento de ressignificação.</p>



<h2 id="h-podemos-paralisar-diante-dessa-ideia-ou-podemos-dar-novos-sentidos-para-a-vida-a-medida-que-ela-caminha-para-um-fim" class="wp-block-heading" style="font-size:18px"><strong>Podemos paralisar diante dessa ideia ou podemos dar novos sentidos para a vida, à medida que ela caminha para um fim</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O jovem vive como se não houvesse amanhã, e sua autoimagem é repleta de vigor e de força. Com a sensação de ter uma vida pela frente, o jovem acredita que tudo é possível, e isso é uma grande verdade. À medida que o tempo passa, principalmente depois dos 28 anos, a astrologia chama de primeiro retorno de Saturno, o senhor do tempo, brotam os questionamentos, perguntas, medos, frustrações e a consciência do tempo. Para Carl Jung só vamos vencer o assombro diante da realidade da morte, quando não deixarmos que a vida se petrifique.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>A imagem do mundo pode mudar a qualquer tempo, da mesma forma como o conceito que temos de nós próprios também pode mudar. Cada nova descoberta, cada novo pensamento pode imprimir uma nova fisionomia ao mundo. É preciso termos isto diante dos olhos, senão, de repente, ver-nos-emos em um mundo antiquado, que é, ele próprio, um resto ultrapassado de níveis inferiores da consciência. Todos nós um dia haveremos de morrer, mas é do interesse da vida adiar o mais que possível este momento; mas só conseguiremos isto se jamais permitirmos que a imagem que formamos do mundo se petrifique. (C. G. Jung. OC 8/2, § 700)</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-o-mundo-esta-sempre-em-mudanca-nao-ha-como-conter-o-fluxo-da-vida-a-unica-realidade-imutavel-numa-perspectiva-hireclatiana-e-a-mudanca" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">O mundo está sempre em mudança, não há como conter o fluxo da vida, a única realidade imutável, numa perspectiva hireclatiana é a mudança.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Toda mudança traz medos, desafios, e por causa disso existe uma sensação de desamparo ainda maior na segunda metade da vida. Sabemos como chegamos até aqui, pode ser a trancos e barrancos, pode ter sido uma vida como pouca autoconsciência, não importa, sabemos alguma coisa e confiamos nesse saber.</p>



<h2 id="h-na-segunda-metade-da-vida-isso-que-conhecemos-fazemos-e-pensamos-passa-a-nao-ter-mais-sentido-e-deixa-de-ser-suficiente-para-o-que-precisamos-viver-daqui-pra-frente" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Na segunda metade da vida, isso que conhecemos, fazemos e pensamos, passa a não ter mais sentido e deixa de ser suficiente para o que precisamos viver daqui pra frente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O que nos trouxe até aqui não consegue responder a novas perguntas, aos novos desafios, a sensação é de falta de sentido e de vazio.  O corpo já não é tão atraente e os mais jovens vão ocupando os espaços nos locais de entretenimento e na vida profissional. Algumas amigas e amigos vão desistir de viver mais ativamente nesse mundo ou vão se ocupar com os netos. E quem deseja continuar vivendo da mesma forma vai enfrentar uma crise.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-james-hollis-percebe-a-crise-da-meia-idade-como-a-passagem-do-meio" style="font-size:18px"><strong>James Hollis</strong> percebe a crise da meia idade como a passagem do meio. Uma crise que convida a um momento de ressignificação e de reorientação da alma. Dois movimentos importantes que podem ser percebidos quase como sinônimos, mas que exigem atitudes diferenciadas. Eu proponho a realização de um caminho de ressignificação do tempo e de  reorientação da alma.</p>



<h2 id="h-a-passagem-do-meio-tambem-pode-ser-compreendida-como-metanoia" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">A passagem do meio também pode ser compreendida como metanóia.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A palavra metanoia no grego, significa mudança de mente, mudança de direção. Se estávamos indo numa direção, a vida pede ajustes, para mudarmos de postura diante da vida, pois o modo como vivemos até esse processo se instalar na alma, passa a não fazer mais sentido.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>A passagem do meio é a ocasião de redefinirmos e reorientarmos a personalidade, um rito de passagem entre a adolescência prolongada da primeira idade adulta e o nosso inevitável encontro com a velhice e a mortalidade. Aqueles que passam conscientemente pela transição trazem mais significado à sua vida. Os que não passam permanecem prisioneiros da infância, não importa o sucesso aparente que possam ter na vida. (HOLLIS, 2020, p. 9)</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-essa-passagem-da-primeira-metade-da-vida-adulta-para-a-segunda-metade-esse-rito-de-passagem-como-afirma-hollis-nao-acontece-sem-dor-e-sem-sofrimento" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Essa passagem da primeira metade da vida adulta para a segunda metade, esse rito de passagem, como afirma Hollis, não acontece sem dor e sem sofrimento.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A tentação é fingir que nada está acontecendo, se negando parar e ouvir o que esse novo estágio da vida está pedindo, deixando-se ser levada pela inconsciência e pelas distrações. A consequência dessa negação é o desembocar em um amontoado de sintomas que vão desde a ansiedade à depressão. Se até aqui, na curva do meio da vida, ainda não nos perguntamos pelo que a alma deseja e nem nos deparamos com a realidade da finitude, não é mais tempo para isso, é preciso uma mudança de atitude.</p>



<h2 id="h-sem-consciencia-a-pessoa-se-perde-no-vazio-na-falta-de-sentido-sem-saber-porque-perdeu-o-sabor-da-vida-e-como-recupera-lo" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Sem consciência a pessoa se perde no vazio, na falta de sentido sem saber porque perdeu o sabor da vida e como recuperá-lo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quem acreditava, por exemplo, que o sucesso profissional daria sentido, se ressente porque não sente mais nada. Quem acreditava que o vigor da juventude, um belo corpo era tudo, se desmorona com a realidade de não ser mais jovem. Aquelas que acreditavam que o amor romântico as salvariam do seu vazio, acumulam frustrações e um amontoado de relacionamentos mal sucedidos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Sem consciência, como afirma Hollis, ficaremos presas a um infantilismo que nos faz acreditar que se não olharmos para aquilo que nos incomoda, esse algo desaparecerá. As crianças fecham os olhos, e contam até que o monstro projetado na sombra desapareça. </p>



<h2 id="h-permanecer-neste-estado-de-infantilismo-sem-enfrentar-os-desafios-da-meia-idade-so-aumenta-o-sofrimento" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Permanecer neste estado de infantilismo, sem enfrentar os desafios da meia idade, só aumenta o sofrimento.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na passagem do meio, eu quero me apropriar da letra da canção do <strong>Belchior</strong>:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:12px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.3">Não quero o que a cabeça pensa</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.3">Eu quero o que a alma deseja</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.3">Arco-íris, anjo rebelde, eu quero o corpo</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.3">Tenho pressa de viver</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Eu quero o que a alma deseja, eu tenho pressa e preciso de calma para viver. Na segunda metade da vida, a pressa está na necessidade de reorientação e ressignificação. Não dá mais tempo de se perder nas distrações, de um trabalho que não faz mais sentido, nas distrações de se envolver demais com os problemas dos outros, nas distrações de colecionar contatinhos de amores vazios. Mas também, a vida pede calma. Para falar de calma eu quero me valer dos versoes de outra canção, agora do <strong>Lenine</strong>:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.3">Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.3">Até quando o corpo pede um pouco mais de alma </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.3">A vida não para</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.3">Enquanto o tempo acelera e pede pressa</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.3">Eu me recuso, faço hora, vou na valsa</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.3">A vida é tão rara</p>
</blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:18px;line-height:1.2"></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Eu costumo dizer que depois dos 50 anos, devemos fazer tudo com calma, sem pressa. Temos pouco tempo daqui pra frente, a vida pede calma, para saborear o tempo presente. Se o que fazia sentido, deixou de fazer, o melhor a fazer é ressignificar o tempo.</p>



<h2 id="h-o-que-e-o-tempo" class="wp-block-heading" style="font-size:22px"><strong>O que é o tempo?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Será que o tempo existe? Se ele existe, qual o tempo da alma? Para Santo Agostinho o tempo não é uma realidade física, mas uma extensão da própria alma. O bispo de Hipona, pergunta a si mesmo e ao mesmo tempo responde:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>O que é, então, o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; se eu quiser explicar a quem pergunta, eu não sei; no entanto, afirmo corajosamente que sei que, se nada passou, o tempo passado não foi; e se nada veio, o tempo vindouro não foi; e se nada foi, o tempo presente não foi. (De Hipona, Agostinho, p. 246)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para ele, quando dizemos “muito tempo” ou “pouco tempo” é sempre em relação a algo passado ou ao futuro, no presente não é possível medir o tempo. Eis o que ele diz nesta citação:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Vejamos, pois, ó alma do homem, se o tempo presente pode ser longo, porque a ti é dado sentir e medir a duração do tempo. O que você me responderá? Cem anos, quando presentes, são muito tempo? Veja primeiro se cem anos podem ser presentes. Pois, se o primeiro desses anos for atual, ele é presente, mas os outros noventa e nove estão por vir e, portanto, ainda não são. Mas se o segundo ano for atual, um já passou, outro é presente e o restante está por vir. E assim, se considerarmos que qualquer ano do meio dessa centena é presente, todos os anteriores a ele são passados; todos os posteriores a ele são futuros; portanto, cem anos não podem ser presentes. (De Hipona, Agostinho. Confissões de Santo Agostinho, p. 247-248)</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-na-filosofia-agostiniana-o-tempo-so-existe-como-memoria-visao-e-como-nbsp-expectativa-o-tempo-nao-pode-ser-quantificado-ele-e-percebido-na-alma" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Na filosofia agostiniana o tempo só existe como memória, visão e como&nbsp; expectativa. O tempo não pode ser quantificado, ele é percebido na alma.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>O que agora está claro e evidente é que nem as coisas futuras nem as passadas existem. Tampouco se diz adequadamente: “Há três tempos, passado, presente e futuro”; no entanto, talvez se possa dizer adequadamente: “Há três tempos: um presente de coisas passadas; um presente de coisas presentes; e um presente de coisas futuras”. Pois esses três existem de alguma forma na alma, mas em outros lugares eu não os vejo. O presente das coisas passadas, memória; o presente das coisas presentes, visão; e o presente das coisas futuras, expectativa. Se assim nos for permitido falar, eu vejo três vezes e confesso que são três. Seja dito também que “há três tempos: passado, presente e futuro” em nossa maneira incorreta. (De Hipona, Agostinho. Confissões de Santo Agostinho, p. 251).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Santo Agostinho nasceu no século IV da nossa era, foi bispo, teólogo e filósofo cristão</strong>. Muitos estudiosos afirmam que o bispo de Hipona foi responsável por batizar o platonismo e torná-lo cristão. Isso significa o que já sabemos, que o berço da civilização Ocidental é fruto da filosofia Grega com o seu casamento com a cultura judaica-cristã. Apesar disso, nem tudo o que somos pode se resumir a isso, o ser humano na sua dimensão de abertura ao inconsciente coletivo é portador de múltiplas influências psíquicas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em diversas culturas e modelos filosóficos o tempo pode ser visto como linear, circular e há até mesmo a ideia de que o tempo não existe. Em Agostinho é possível perceber que o tempo como memória daquilo que já passou, a visão do que estamos vivendo no momento ou na espera, a expectativa do que virá. O presente é o tempo da eternidade, transcendente, ele não pode ser medido, ele só pode ser percebido na alama. É aquela sensação de que o tempo parou, quando estamos realmente presentes em um instante e contemplamos a vida.</p>



<h2 id="h-na-segunda-metade-da-vida-e-preciso-dar-passos-para-reorientar-a-alma-para-ficar-no-tempo-presente-da-entrega-o-tempo-que-nunca-tem-fim-se-nos-detivermos-nele" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Na segunda metade da vida, é preciso dar passos para reorientar a alma, para ficar no tempo presente, da entrega, o tempo que nunca tem fim se nos detivermos nele.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim sendo, ficar no passado, muito tempo, tentando entender todas as causas ou transferindo a vida para o futuro, como se a felicidade estivesse sempre lá na frente, é ter menos vida. A ideia: “quando os meus filhos forem independentes financeiramente, então eu irei olhar pra mim; “quando encontrar um parceiro/ parceira, eu serei feliz”; “quando eu me aposentar, aí  sim, encontrarei a felicidade”, só adia a felicidade e o sentido de presença. </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Quase todas as tradições religiosas nos alertam sobre essa fuga da vida, quando nos tornamos prisioneiras do passado e iludidas com o futuro</strong>. A vida só pode ser vivida um instante de cada vez, um dia de cada vez. Se eu e você aprendemos isso, seremos muito mais felizes. E como o diz o provérbio: “quando a morte nos encontrar, que nos encontre vivos&#8221;. Esse é o caminho para que possamos ter prontidão para viver o entardecer da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/silvana-venancio/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/silvana-venancio/">Silvana Venancio &#8211; Doutora em Teologia e Analista Junguiana em Formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/">Ana Paula Maluf &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



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<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">HOLLIS. James. A Passagem do Meio. Petrópolis: Vozes, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung, C. G.. A Natureza da Psique. In Obras completas de C. G. Jung, (Vol.&nbsp; 8/2). Petrópolis: Vozes. Originalmente publicado em alemão em 1946.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">De Hipona, Agostinho. Confissões de Santo Agostinho &#8211; Edição de Luxo (Portuguese Edition) (pp. 247-248). Editora Garnier. Edição do Kindle)</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/congressosjunguianos">Congressos Junguianos IJEP: Gravados e Online &#8211; Acesso Imediato</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>A relação entre símbolo, intolerância e dúvida no movimento evangélico brasileiro</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-relacao-entre-simbolo-intolerancia-e-duvida-no-movimento-evangelico-brasileiro/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Silvana Gomes Venâncio]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 05 Nov 2025 13:38:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ciências da Religião]]></category>
		<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Numinoso]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Eu sou protestante há mais de 40 anos e sempre gostei de me apresentar como evangélica, no entanto, eu tenho repensado essa identificação e vou explicar o porquê. Para o professor Luiz Longuini Neto, evangélico seria uma forma de identificar parte da cristante como adepta da fé protestante, ou seja, não católica. “Evangelical ou evangélico [...]</p>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Eu sou protestante há mais de 40 anos e sempre gostei de me apresentar como evangélica, no entanto, eu tenho repensado essa identificação e vou explicar o porquê. Para o professor Luiz Longuini Neto, evangélico seria uma forma de identificar parte da cristante como adepta da fé protestante, ou seja, não católica. “<em>Evangelical ou evangélico equivaleria à totalidade dos cristãos que se identificam com a Reforma Protestante do século 16</em>” (LONGUINI, p 21).</p>



<figure class="wp-block-pullquote" id="h-no-brasil-os-cristaos-nao-catolicos-passaram-a-auto-identificar-se-como-evangelicos-o-mesmo-ocorre-com-as-igrejas-evangelicas-os-proprios-catolicos-passada-a-epoca-de-antagonismos-e-principalmente-por-causa-do-movimento-ecumenico-aceitaram-essa-identificacao-naturalmente-os-catolicos-ao-identificarem-os-cristaos-nao-catolicos-como-evangelicos-contornam-o-designativo-de-protestante-carregado-de-preconceitos-no-brasil-ja-que-no-auge-dos-conflitos-entre-protestantes-e-catolicos-aqueles-eram-designados-por-estes-como-os-que-protestavam-contra-deus-mendonca-1990-p-15-16" style="font-size:20px"><blockquote><p>No Brasil, os cristãos não católicos passaram a auto-identificar-se como evangélicos, o mesmo ocorre com as Igrejas evangélicas. Os próprios católicos, passada a época de antagonismos, e principalmente por causa do movimento ecumenico, aceitaram essa identificação. Naturalmente, os católicos, ao identificarem os cristãos não-católicos como evangélicos, contornam o designativo de “protestante”, carregado de preconceitos no Brasil já que, no auge dos conflitos entre protestantes e católicos, aqueles&nbsp; eram designados por estes como “os que protestavam contra Deus”. </p><cite>(MENDONÇA, 1990, p 15,16)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-uso-do-termo-protestante-para-evangelicos-sempre-foi-mais-usado-por-historiadores-e-sociologos-e-num-momento-ou-outro-algumas-pessoas-de-igrejas-historicas-como-presbiterianos-metodistas-anglicanos-e-luteranos-se-diziam-protestantes" style="font-size:20px">O uso do termo protestante para evangélicos sempre foi mais usado por historiadores e sociólogos e num momento ou outro, algumas pessoas de igrejas históricas, como presbiterianos, metodistas, anglicanos e luteranos se diziam protestantes.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">No livro, <em>Introdução ao Protestantismo no Brasil</em>, que foi escrito na década de 90, se tornou um clássico, os professores Antônio Gouvêa Mendonça e Prócoro Velasques Filho, retratam de modo brilhante as ramificações do protestantismo brasileiro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-quem-sao-os-evangelicos-no-brasil-hoje-antes-de-responder-a-esta-pergunta-quero-falar-da-necessidade-humana-de-se-expressar-religiosamente" style="font-size:20px"><strong>Mas quem são os evangélicos no Brasil hoje?</strong> Antes de responder a esta pergunta, quero falar da necessidade humana de se expressar religiosamente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">É claro que uma religião também é um fenômeno sociológico e por esse mesmo motivo pode perder-se de si mesma. Mas para Carl G. Jung, a religião é “(&#8230;) <em>uma das expressões mais antigas e universais da alma humana (&#8230;) além de ser um fenômeno sociológico ou histórico, é também um assunto importante para grande número de indivíduos</em>” (C. G. Jung, OC 11/1 &#8211; §1).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>Carl Jung trata desse assunto do ponto de vista psíquico e empírico, se abstendo de uma abordagem metafísica ou filosófica do problema religioso</strong>. Para ele, existe uma função religiosa no inconsciente que é demonstrada nos símbolos religiosos. C. Jung dá esse exemplo: “<em>quando a psicologia se refere, por exemplo, ao tema da concepção virginal, só se ocupa da existência de tal ideia, não cuidando de saber se ela é verdadeira ou falsa, em qualquer sentido</em>”. Ele continua dizendo:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>a ideia é psicologicamente verdadeira, na medida em que existe. A existência psicológica é subjetiva, porquanto uma ideia só pode ocorrer num indivíduo. Mas é objetiva, na medida em que mediante um consensus gentium é partilhada por um grupo maior. </p><cite>(C. G. Jung. OC 11/1&nbsp; &#8211; § 4).</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-sentido-junguiano-toda-religiao-e-verdadeira-e-por-este-motivo-nao-e-simplesmente-criada-por-individuos-ela-irrompe-na-consciencia-individual" style="font-size:20px"><strong>No sentido junguiano, toda religião é verdadeira e por este motivo não é simplesmente criada por indivíduos, ela irrompe na consciência individual</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">C. Jung percebe o caráter&nbsp; numinoso da experiência religiosa, a partir do pensamento de <strong>Rudolf Otto</strong>.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>Religião é — como diz o vocábulo latino <em>religere </em>— uma acurada e conscienciosa observação daquilo que Rudolf Otto acertadamente chamou de &#8220;<strong>numinoso</strong>&#8220;, isto é, uma existência ou um efeito dinâmico&nbsp; não causados por um ato arbitrário. Pelo contrário, o efeito se apodera e domina o sujeito humano, mais sua vítima do que seu criador.&nbsp; Qualquer que seja a sua causa, o numinoso constitui uma condição do&nbsp; sujeito, e é independente de sua vontade.</p><cite>(C. G. Jung. OC 11/1 &#8211; § 6).</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-c-jung-o-numinoso-pode-ser-capturado-por-um-objeto-visivel-ou-um-influxo-invisivel-que-produz-modificacao-na-consciencia-cf-jung-oc-11-1-6" style="font-size:20px"><strong>Segundo C. Jung, o numinoso pode ser capturado por um objeto visível ou um influxo invisível que produz modificação na consciência</strong> (Cf. JUNG, OC 11/1 &#8211; § 6). </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Rudolf Otto fala de uma experiência profunda de anulação, “<em>a estranha e profunda resposta da psique à experiência do numinoso, a qual propusemos chamar de “experiência de criatura”, constituído pelas sensações de afundar, de apoucar-se e ser anulado</em>” (OTTO, 2007, p 90). De acordo com o teólogo <strong>Paul Tillich</strong>, essa experiência é a de estar possuído por aquilo que toca o ser humano incondicionalmente.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>O sentimento de ser aniquilado pela presença do divino é o que expressa mais profundamente a relação em que se encontra o homem diante do sagrado. E esse sentimento perpassa todo o ato de fé legítimo e de todo estar possuído em última instância.</p><cite>(TILLICH, 2002, p 13)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-problema-religioso-se-manifesta-nos-seres-humanos-com-a-sua-aproximacao-do-numinoso" style="font-size:20px"><strong>O problema religioso se manifesta nos seres humanos com a sua aproximação do numinoso</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Por isso, vale lembrar, que este só pode ser capturado pelo visível, no símbolo, sendo assim, a experiência religiosa não pode ser de forma alguma algo inflexível, nem mesmo quando se refere a Deus.&nbsp; Para Carl Jung,<strong> Deus é uma realidade psíquica</strong>, embora numa polêmica com Martin Buber, ele diga que nunca afirmou que Deus seja apenas uma realidade psicológica.&nbsp; “<em>Além disso, eu jamais tive a pretensão de enfraquecer o significado dos símbolos; pelo contrário, se deles me ocupei foi por estar convencido de seu valor psicológico</em>” (C. G. Jung. OC 11/2- § 170). Segundo C. Jung, o dogma da trindade é um dos símbolos mais sagrados do Cristianismo, por exemplo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Paul Tillich afirma que o símbolo é fundamental, para aquilo que nos toca incondicionalmente é Deus (Cf. TILLICH, 2002, p 34). Segundo o teólogo alemão, “<strong>Deus é símbolo para Deus</strong>”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-p-tillich-a-preocupacao-incondicional-e-um-dos-elementos-responsaveis-pela-integracao-da-pessoa" style="font-size:20px">Segundo <strong>P. Tillich</strong>, a preocupação incondicional é um dos elementos responsáveis pela integração da pessoa:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>Uma&nbsp; preocupação incondicional se manifesta em todas as áreas da realidade e em todas as expressões de vida da pessoa. Isso porque o incondicional não é um objeto entre outros, e sim a base e origem de todo o ser, e como tal, o centro unificador da pessoa.</p><cite>TILLICH, 2002, p 69</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esse-elemento-unificador-do-incondicional-se-segundo-p-tillich-pode-se-manifestar-na-vida-artistica-nbsp-na-atuacao-etica-na-politica-na-pesquisa-cientifica-entre-outros-aspectos-da-vida" style="font-size:20px">Esse elemento unificador do incondicional se segundo P. Tillich, pode se manifestar na vida artística,&nbsp; na atuação ética, na política, na pesquisa científica, entre outros aspectos da vida.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>Nós mostramos como a <strong>fé</strong> dá forma e une a todos os elementos intelectuais, emocionais e corporais da pessoa e como ela representa a força integradora como tal. Essa imagem do poder da fé contém, porém, apenas as cores alegres e não os aspectos sombrios da desagregação e do mórbido, que podem impedir a fé de criar uma vida integral da personalidade, mesmo naquelas pessoas em que a força da fé se manifesta de modo mais visíveis: nos santos, místicos e profetas. O homem nunca vive exclusivamente a partir do centro da vida. Em todos os âmbitos de seu ser atuam forças corruptoras.&nbsp; </p><cite>TILLICH, 2002, p 70</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Esse aspecto sombrio e mórbido da relação do ser humano com a fé, precisa ser considerado e observado na experiência religiosa dos evangélicos. Essa dimensão sombria aparece ao meu ver na dificuldade de lidar com a <strong>dúvida</strong>, pois a intolerância mora na dificuldade de lidar com as incertezas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tanto-para-paul-tillich-quanto-para-carl-g-jung-a-experiencia-da-fe-deveria-dar-lugar-para-a-duvida" style="font-size:20px">Tanto para Paul Tillich quanto para Carl G. Jung, a experiência da fé deveria dar lugar para a<strong> dúvida</strong>.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>Nem a fé pode desaparecer na dúvida, nem a dúvida na fé, se bem que cada uma das duas se pode perder quase que completamente na vida da fé. Mas uma vez que nenhum ser humano é capaz de viver sem uma preocupação última, tanto na fé como dúvida sempre estão por natureza presentes no homem.&nbsp;</p><cite>TILLICH, 2002, p 66</cite></blockquote></figure>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>Nas pessoas que clamam ter uma fé inabalada, o farisaísmo e o fanatismo são frequentemente a prova infalível de que a dúvida provavelmente foi reprimida ou de fato ainda está atuando secretamente. A dúvida não é superada pela repressão, e sim pela coragem. A coragem não nega que a dúvida está aí, mas ela aceita a dúvida como expressão da finitude humana e se confessa, apesar da dúvida, àquilo que toca incondicionalmente. A coragem não precisa de segurança de uma convicção inquestionável. Ela engloba o risco, sem o qual não é possível qualquer vida criativa.&nbsp;</p><cite> TILLICH, 2002, p 66</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">O educador e teólogo <strong>Rubem Alves</strong>, reforça essa ideia, em seu livro <em>Religião e Repressão,</em> ao afirmar que qualquer dúvida, ou questionamento são vistas, em determinadas vertentes do protestantismo, como uma atitude suspeita, embora a&nbsp; dúvida seja radicalmente inerente à fé.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>Pensada de forma radical, a experiência da fé se revela como irmã gêmea da dúvida. Não, de forma alguma estou sugerindo que falta alguma coisa à fé, que a fé seja incompleta por estar ainda assombrada pela dúvida. </p><cite>ALVES, Rubem. 2005, p. 107</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Em outro livro, <em>Dogmatismo e Tolerância</em>, R. Alves, reitera que: &#8220;<em>A fé chegou mesmo a se identificar com a adesão intelectual a um certo número de proposições dogmáticas, que, pretendia-se, expressavam o ‘sistema de doutrinas’ contidas na Bíblia, e que eram necessárias para a salvação</em>.&#8221; (ALVES, Rubem. 2004, p. 71)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-carl-jung-o-ser-nbsp-humano-exposto-a-duvida-nao-deveria-projeta-las-ao-acreditar-que-aqueles-que-pensam-e-refletem-sobre-as-doutrinas-da-fe-sao-inimigos" style="font-size:20px">Para Carl Jung, o ser&nbsp; humano exposto à dúvida não deveria projetá-las ao acreditar que aqueles que pensam e refletem sobre as doutrinas da fé, são inimigos.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>O homem que apenas crê e não procura refletir esquece-se de que é alguém constantemente exposto à dúvida, seu mais íntimo inimigo, pois onde a fé domina, ali também a dúvida está sempre à espreita. Para o homem que pensa, porém, a dúvida é sempre bem recebida, pois ela lhe serve de preciosíssimo degrau para um conhecimento mais perfeito e mais seguro. As pessoas que são capazes de crer deveriam ser mais tolerantes para seus semelhantes, que só sabem pensar. A fé, evidentemente, antecipa-se na chegada ao cume que o pensamento procura atingir mediante uma cansativa ascensão. O crente não deve projetar a dúvida, seu inimigo habitual, naqueles que refletem sobre o conteúdo da doutrina, atribuindo-lhes intenções demolidoras.</p><cite>C. G. Jung. OC 11/2 &#8211; § 170</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-fiel-cheio-de-certezas-se-organiza-no-mundo-reconhecendo-aliados-e-projetando-suas-duvidas-gerando-inimigos-que-devem-ser-combatidos-a-duvida-nao-assumida-e-projetada-gera-cristaos-evangelicos-intolerantes-donos-da-verdade" style="font-size:20px">O fiel cheio de certezas se organiza no mundo, reconhecendo aliados e projetando suas dúvidas, gerando inimigos que devem ser combatidos. A dúvida não assumida e projetada, gera cristãos evangélicos intolerantes, <strong>donos da verdade</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Uma verdade única que exclui todo aquele que pensa e vive diferente.<strong> Esse diferente é alguém que deve ser combatido e ser retirado o seu direito à voz.</strong> Assim sendo, para responder a pergunta quem são os evangélicos hoje, é necessário olhar para a <strong>repressão da dúvida </strong>e também para as alianças políticas de algumas denominações evangélicos com setores da política brasileira, representada pela bancada evangélica, identificada na sigla&nbsp; BBB (bala, bíblia e boi).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-nao-e-possivel-viver-num-mundo-de-certezas-o-fiel-vai-buscar-no-discurso-politico-conservador-o-meio-ideal-para-idealizar-um-mundo-onde-as-diferencas-as-duvidas-e-a-pluralidade-sejam-silenciadas" style="font-size:20px">Como não é possível viver num mundo de certezas, o fiel vai buscar no discurso político conservador o meio ideal para idealizar um mundo onde as diferenças, as dúvidas e a pluralidade sejam silenciadas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Neste sentido, ser evangélico hoje deixou de ser apenas um ramo do protestantismo, para representar uma ideologia social e política, com um projeto político muito bem definido, para impor a sua visão religiosa, cultural e política. A dúvida pertence ao ser humano, sem lugar interno para ela, estamos diante de um grande complexo cultural que tenta dominar o cenário político brasileiro travestido de ideias religiosas.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;A relação entre símbolo, intolerância e dúvida no movimento evangélico brasileiro&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/s6DrBC-TINM?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/silvana-venancio/">Silvana Venancio – Membro Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/">Ana Paula Maluf &#8211; Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>Bibliografia:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">ALVES, Rubem. <em>Dogmatismo e Tolerância</em>. São Paulo: Loyola, 2004.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">________.ALVES, Rubem. Religião e Repressão. São Paulo: Loyola, 2005.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">JUNG, Carl. (1978). <em>Psicologia e Religião</em>. In Obras completas de C. G. Jung, (Vol.&nbsp; 11/1). Petrópolis: Vozes. Originalmente publicado em inglês em 1938.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">________. (2013). <em>Interpretação Psicológica do Dogma da Trindade</em>. In Obras&nbsp; completas de C. G. Jung, (Vol. 11/2). Petrópolis: Vozes. Originalmente publicado em&nbsp; alemão em 1942.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">LONGUINI, Luiz. <em>O novo rosto da missão.</em> Viçosa: Ultimato, 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">MENDONÇA, Antonio G.; VELASQUES. Prócoro Filho. <em>Introdução ao Protestantismo no Brasil</em>. São Paulo, Edições Loyola, 1990.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">OTTO, Rudolf. <em>O Sagrado</em>. São Leopoldo: Sinodal/EST; Petrópolis: Vozes, 2007.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">TILLICH, Paul. <em>Dinâmica da fé</em>. 7. ed. Trad. de Walter. Schlupp. São Leopoldo: Sinodal, 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:21px"><strong><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>
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			</item>
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		<title>Cinema, Solidão e criatividade para viver na meia idade</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/cinema-solidao-e-criatividade-para-viver-na-meia-idade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Silvana Gomes Venâncio]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 Aug 2025 19:26:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filmes e Séries]]></category>
		<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=11046</guid>

					<description><![CDATA[<p>Ao iniciar esse texto, três filmes vem à minha cabeça: Nossas Noites, protagonizados por Jane Fonda e Robert Redford, A Substância, dirigido belamente por Coralie Fargeat e estrelado por Demi Moore. A diretora francesa dirigiu outro filme que me chamou atenção, Vingança, que mostra, assim como no filme A Substância, como o mundo pode ser [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4"><em>Ao iniciar esse texto, três filmes vem à minha cabeça: Nossas Noites, protagonizados por Jane Fonda e Robert Redford, A Substância, dirigido belamente por Coralie Fargeat e estrelado por Demi Moore. A diretora francesa dirigiu outro filme que me chamou atenção, Vingança, que mostra, assim como no filme A Substância, como o mundo pode ser violento com as mulheres. O vermelho, o horrendo é ressaltando, tudo ali é dor e violência. Num filme, uma mulher jovem vinga a violência que sofreu, no outro, uma mulher mais velha se mutila. Em Nossas Noites, a maravilhosa e deslumbrante Jane Fonda convida o vizinho para dormir com ela, literalmente dormir. O terceiro filme será dirigido pela atriz e diretora Bárbara Paz. O filme gira em torno do personagem do carismático Willem Dafoe, um “profissional do afeto”, alguém que oferece conforto platônico a pessoas solitárias.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esses-filmes-falam-de-solidao-e-da-sensacao-de-abandono-viver-e-dor-o-sofrimento-faz-parte-da-vida-humana-mas-existem-dores-que-parecem-que-doem-mais-pois-elas-sao-as-dores-da-alma" style="font-size:20px">Esses filmes falam de solidão e da sensação de abandono. Viver é dor, o sofrimento faz parte da vida humana, mas existem dores que parecem que doem mais, pois elas são as dores da alma.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Essas dores podem deixar marcas no corpo. Elas mutilam a alma e mutilam o corpo, quando não tratadas ou olhadas com profundidade, independente do medo. Esses filmes abordam a solidão, a dor de ser esquecida e as tentativas de lidar com elas. No filme <em>A Substância </em>há uma contradição dos opostos, de uma forma gritante e sufocante, entre a juventude desejada e a velhice, que se aproxima sem dó e sem piedade, anunciando o caminho para o&nbsp; fim. Esses dois estágios da vida só podem conviver juntos de modo simbólico e ressignificado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5"><strong>Qualquer tentativa de unir os dois, de modo concreto literal, só irá causar mais danos à Psique</strong>. Quando o otimismo da juventude, com a garra de conquistar o&nbsp; mundo, junto com a ideia de que há um futuro pela frente, cessa com a velhice, tudo isso somado à consciência da realidade da morte, pode ser uma experiência sufocante.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nas-palavra-de-carl-jung" style="font-size:20px">Nas palavra de <strong>Carl Jung</strong>:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px;line-height:1.4"><blockquote><p>O otimismo com que julgamos a juventude fracassa nessa hora. Temos, naturalmente, um repertório de conceitos apropriados a respeito da vida, que ocasionalmente ministramos aos outros, tais como: “Todo mundo um dia vai morrer”, “ninguém é eterno” etc., mas quando estamos sozinhos e é noite, e a escuridão e o silêncio são tão densos, que não escutamos e não vemos senão os pensamentos que somam e subtraem os anos da vida, e a longa série daqueles fatos desagradáveis que impiedosamente nos mostram até onde os ponteiros do relógio já chegaram, e a aproximação lenta e irresistível do muro de trevas que finalmente tragarão tudo o que eu amo, desejo, possuo, espero e procuro; então toda a nossa sabedoria de vida se esgueirará para um esconderijo impossível de descobrir, e o medo envolverá o insone como um cobertor sufocante.</p><cite>C. G. Jung. OC 8_2 &#8211; A Natureza da psique &#8211; § 796</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">No filme <em><strong>A Substância</strong> </em>essa oposição é exposta de um modo muito doloroso. Para uma existir, a outra precisa sair de cena. Elas não podem conviver no mesmo espaço. Uma dá lugar a outra, mas não sem dor. Existe inveja, raiva, competição. A consciência não consegue unir os opostos, ou se é jovem ou velha e o filme mostra muito bem isso. Nenhuma das duas consegue ceder e doar nada a outra, sabedoria, jovialidade, tempo,&nbsp; vontade de viver.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Quem assistiu o filme <em>A Substância</em>, sabe como essa história termina. Quando a alma não se prepara para esse momento não há como unir o que Cronos separou. Será que é possível essa preparação? Talvez seja necessária muita criatividade e o cultivo da espiritualidade para que todas as fases da vida sejam bem-vindas, acolhidas como ciclos da natureza. No entanto, deixamos de ser natureza há muito tempo. O mundo ocidental não tolera o velho, o fraco, o declínio.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-talvez-seja-por-causa-desse-racionalismo-utilitarista-que-so-valoriza-algo-para-um-determinado-fim-que-as-mulheres-com-mais-de-50-anos-se-tornam-invisiveis" style="font-size:20px">Talvez seja por causa desse racionalismo utilitarista, que só valoriza algo para um determinado fim, que as mulheres com mais de 50 anos se tornam invisíveis.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Somos invisíveis para o mercado de trabalho e para o “mercado” de relacionamentos. “A mulher tem data de validade”, muitos usam essa frase. O perigo é quando acreditamos nela. A personagem de Demi Moore deixou de ser atraente para seus empregadores, assim como muitas mulheres deixam de receber os olhares nas ruas, deixando de ser “paqueradas”, no sentido de um olhar de brilho. Muitas mulheres moram sozinhas, sem a presença dos filhos, de amigas ou de parceiros sexuais e afetivos. É aí que tudo termina, iniciando ou uma corrida para recuperar a juventude perdida ou uma reclusão solitária, sem que haja um olhar atento para novos modelos de vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">A solidão das mulheres pode ser gerada por&nbsp; uma fala silenciosa que diz: “fica em casa com a sua velhice ou pareça jovem”. Isso fica visível no filme de Carolie Fargeat, a personagem de Demi Moore fica em casa se entupindo de comida e de programas fúteis na televisão, e a jovem, vive experiências sem vida, sem sentido, numa corrida desesperada por novas emoções. Duas atitudes opostas que não se entrelaçam. Talvez a aceitação para o envelhecimento e a realidade da finitude, seja a consciência de que nem a juventude e nem a velhice tragam tudo o que precisamos para ter uma vida mais consciente. É necessário encarar os medos, da vida e da morte, além de sentir que envelhecer é um privilégio de quem viveu e esse momento pode significar a plenitude da vida, de uma fase mais madura, com inteireza e aceitação.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>Tenho observado que aqueles que mais temem a vida quando jovens, são justamente os que mais têm medo da morte quando envelhecem.</p><cite>C. G. Jung. OC 8/2, A Natureza da psique, §797</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-medo-e-paralisante-petrifica-a-consciencia-e-dualista-excludente-e-isso-ou-aquilo-nao-ha-espaco-para-dualidades-e-sim-para-dualismos-dicotomias-abismos-e-separacoes" style="font-size:20px">O medo é paralisante, petrifica. A consciência é dualista, excludente, é isso ou aquilo, não há espaço para dualidades e sim para dualismos, dicotomias, abismos e separações.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>A natureza da consciência é de concentrar-se em poucos conteúdos, seletivamente, elevando-os a um máximo grau de clareza. A consciência tem como consequência necessária e condição prévia a exclusão de outros conteúdos igualmente passíveis de conscientização. Esta exclusão causa inevitavelmente uma certa unilateralidade dos conteúdos conscientes. </p><cite>C. G. Jung, OC 9/1, Os arquétipos e o inconsciente coletivo, §276</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-medo-da-vida-esconde-o-medo-da-morte-e-vice-e-versa-um-medo-exclui-a-consciencia-do-outro-estamos-diante-da-face-de-uma-mesma-moeda" style="font-size:20px">O medo da vida esconde o medo da morte e vice e versa, um medo exclui a consciência do outro, estamos diante da face de uma mesma moeda.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">No entanto, o Self é criativo, une realidades, permitindo a função transcendente, o símbolo que une, que transforma a realidade excludente. Por isso, é possível que haja muitas mortes na juventude e muita vida na velhice.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>“A vida é teleológica <em>par excellence</em>, é a própria persecução de um determinado fim, e o organismo nada mais é do que um sistema de objetivos prefixados que se procura alcançar. O termo de cada processo é o seu objetivo.” </p><cite>C. G. Jung, OC 8/2, A Natureza da psique, §798</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Todas as etapas de uma vida estão contidas em outras. Neste sentido, a juventude nada mais é do que um estágio intermediário para a maturidade. O medo da vida, de assumir riscos, de sofrer, será o prenúncio do medo da morte. Só os vivos podem morrer. Quem na juventude vive, avança etapas, dá passos na vida, mesmo experienciando momentos de muitas dores, decepções, torna-se apto a uma velhice com mais criatividade e sabedoria.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">O filme <em><strong>Nossas Noites</strong></em> sugere uma saída criativa para a solidão dos personagens. Os atores Jane Fonda e Robert Redford tinham quase 80 anos no lançamento do filme em 2017. Dois velhos, que moram sozinhos. Assim como, que eu também, moro sozinha e tenho muitas amigas que moram sós e poucos amigos na mesma condição. Existem mais mulheres em instituições de longa permanência e isso só reforça o problema&nbsp; da solidão das mulheres. Talvez uma forma de lidar com esta questão esteja mais em outro filme protagonizado também por Jane Fonda, E <em>Se Vivêssemos todos juntos? </em>Ou na série <em>Grace and Frankie</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">O interessante aqui é a forma inusitada trazida pelo filme <em>Nossas Noites</em>, com temas sobre a solidão e a sexualidade de quase octogenários. No fundo, o filme <em>Nossas Noites </em>não trata somente de relacionamentos amorosos, mas de amizade, de busca de afeto e de companheirismo. Ao invés de se sentir infeliz, remoendo escolhas, ressentida com uma juventude que se foi, a personagem de Jane Fonda sai do seu lugar e bate à porta.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>Mas o impulso teleológico da vida não cessa quando se atinge o amadurecimento e o zênite da vida biológica. A vida desce agora montanha abaixo, com a mesma intensidade e a mesma irresistibilidade com que a subia antes da meia idade, porque a meta não está no cume, mas no vale, onde a subida começou. A curva da vida é como a parábola de um projétil que retorna ao estado de repouso, depois de ter sido perturbado no seu estado de repouso inicial. </p><cite>C. G. Jung. OC 8/2, A Natureza da psique, §798</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-aceitar-a-descida-na-nbsp-curva-da-vida-na-meia-idade-nao-e-uma-tarefa-facil-mas-e-libertadora" style="font-size:20px">Aceitar a descida na&nbsp; curva da vida, na meia idade não é uma tarefa fácil, mas é libertadora.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">A vida que eu vivi até aqui foi uma preparação para esse momento. Costumo dizer, que depois dos 50 anos tudo deve ser mais lento, saboreado, há menos tempo pela frente. Se eu for mais rápido, mais rápido eu chego ao destino final. No entanto, há uma pseudo contradição nessa fala, ao mesmo tempo que a vida pede calma, ela pede urgência para tomar algumas decisões. Em <em>Nossas Noites</em>, a personagem de Jane Fonda não perde tempo, bate à porta e convida o vizinho para partilhar suas noites, sua cama. Uma solução criativa para algo que a incomodava profundamente. Essa atitude está longe do convencional, não houve uma aproximação com o intuito de formar um relacionamento, mas algo direto, firme, inovador.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>Do meio da vida em diante, só aquele que se dispõe a morrer conserva a vitalidade, porque na hora secreta do meio-dia da vida se inverte a parábola e nasce a morte. A segunda metade da vida não significa subida, expansão, crescimento, exuberância, mas morte, porque o seu alvo é o seu término. A recusa em aceitar a plenitude da vida equivale a não aceitar o seu fim. Tanto uma coisa como a outra significam não querer viver. E não querer viver é sinônimo de não querer morrer. A ascensão e o declínio formam uma só curva. </p><cite>C. G. Jung, OC 8/2, A Natureza da psique, §800</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Não sei qual será a abordagem do filme da Bárbara Paz, protagonizado por Willem Dafoe, mas o fato de falar de um “profissional do afeto”, é bem interessante. Cerca de 31% dos divorcios ocorrem entre mulheres com mais de 50 anos, sem contar com as que se divorciaram antes disso, sendo assim, teremos um número grande de mulheres sozinhas. Os “profissionais do afeto” seriam a solução para a solidão das mulheres? Creio que não. Carl Jung fala de aceitação para ter mais vitalidade. Será que é possível ter uma vida com vitalidade sozinha? Acredito que não.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Viver sozinha não diz respeito a relacionamentos amorosos ou a idade, mas estar disposta a se expor, a abrir a vida para o novo, para novas relações, para construção de boas amizades. É sobre ter novos projetos. <strong>Aceitar a morte, e o declínio é abraçar a vida com toda força, com tudo o que ela traz. Somente as mulheres que aceitam sua idade, sua nova condição de vida, terão a vitalidade, a força, e a criatividade para inventar novas formas de viver</strong>.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Cinema, Solidão e criatividade para viver na meia idade" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/M4Lmbetb5zo?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/silvana-venancio/">Silvana Venâncio &#8211; Membro Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>*Jornalista, licenciada em Filosofia, Arteterapeuta, Doutora em Teologia e Analista Junguiana em Formação</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/anapaulamaluf/">Ana Paula Maluf &#8211; Membro Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-bibliografia" style="font-size:20px">Bibliografia:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">C. G. Jung. OC 9/1 &#8211; Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2017.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________ OC 8/2 &#8211; A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>O nascimento do Si-mesmo no simbolismo de Maria</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-nascimento-do-si-mesmo-no-simbolismo-de-maria/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Silvana Gomes Venâncio]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Dec 2024 18:02:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[Ciências da Religião]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>
		<category><![CDATA[mãe de deus]]></category>
		<category><![CDATA[maria]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Este artigo aborda as perspectivas junguianas do dogma da Assunção de Maria, proclamado em 1950, tendo em vista as considerações psicológicas da recepção de Maria na câmara nupcial celeste. A ideia de Maria como esposa de Deus, segundo Carl Jung, já estava presente desde o Antigo Testamento, na personificação de Sofia. O casamento sagrado, [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em><strong>Resumo</strong>: Este artigo aborda as perspectivas junguianas do dogma da Assunção de Maria, proclamado em 1950, tendo em vista as considerações psicológicas da recepção de Maria na câmara nupcial celeste. A ideia de Maria como esposa de Deus, segundo Carl Jung, já estava presente desde o Antigo Testamento, na personificação de Sofia. O casamento sagrado, simboliza a união dos opostos, no processo de individuação. Maria como a esposa divina, dá à luz ao Deus encarnado, símbolo do Si-mesmo, se tornando portanto a mãe do Si-mesmo.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Maria é o tabernáculo de Deus, é aquela que a tradição cristã chamou de Mãe de Deus (<em>Theotókos</em>). Para Carl Gustav Jung, os dogmas marianos correspondem a um clamor do inconsciente coletivo, uma necessidade psicológica para expressar o feminino de Deus. O Deus dos cristãos que é sempre projetado, percebido, retratado nas artes e nos relatos bíblicos como uma figura patriarcal, recebe uma esposa, uma consorte, a personificação da sabedoria, como Jung expressa em<strong> <em>Resposta a Jó</em></strong>. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-teologia-o-dogma-da-maternidade-divina-de-maria-e-um-dos-mais-antigos" style="font-size:17px">Na teologia, o dogma da maternidade divina de Maria, é um dos mais antigos:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:16px"><blockquote><p>O primeiro dogma … é o da maternidade Divina de Maria, por ser o mais antigo dos que encontraram lugar na proclamação oficial da igreja. O termo grego que se sintetiza o mistério da fé contido no dogma &#8211; <em>THEOTÓKOS</em> &#8211; Mãe de Deus &#8211;  data do Concílio de Éfeso (431 DS 251),  porém, podemos encontrar o desenvolvimento da Teologia Marial da maternidade Divina ao longo de três grandes Concílios da antiguidade: Constantinopla I (381); Éfeso (431), Calcedônia (451). Em nossos dias, o Vaticano II (1962-65) retomou a doutrina desses Concílios e lhes deu Nova luz.</p><cite>GEBARA: BINGEMER, 1978, p.110</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Maria ocupa um lugar especial no imaginário do cristão católico, ela é a Mãe, e representa para muitos teólogos, o rosto feminino de Deus</strong>.  Maria reflete o feminino de Deus e preenche essa lacuna no cristianismo. No entanto, para nós protestantes o vácuo é ainda maior. O Deus protestante, masculino, herdeiro da modernidade, carece de uma imagem feminina. Como protestante, foi na formação teológica, numa Universidade Católica, que Maria se apresentou para mim. E como junguiana, ela ocupa esse lugar simbólico de mãe de Deus e geradora do Si-mesmo.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:17px"><blockquote><p>A tradição da fé concentrou o feminino em Maria, mãe de Jesus. Ali viu realizadas todas as possibilidades numinosas e luminosas do feminino a ponto de ela ser simplesmente a <em>Nossa Senhora</em>: ela é virgem, é mãe, é esposa, é viúva, é rainha, é a sabedoria, o tabernáculo de Deus etc.  </p><cite>BOFF,  1979, p. 15</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-consorte-de-jave-segundo-carl-jung-ja-estava-presente-no-inconsciente-religioso-desde-o-antigo-testamento-na-ideia-de-sofia-que-estava-junto-de-deus-na-criacao-do-mundo-nbsp" style="font-size:17px">A consorte de Javé, segundo Carl Jung, já estava presente no inconsciente religioso, desde o Antigo Testamento, na ideia de Sofia, que estava junto de Deus na criação do mundo.&nbsp;</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:16px"><blockquote><p>No livro da Sabedoria de Salomão, apócrifo de época bastante posterior (100 -50a.C.), a natureza pneumática da Sofia e seu caráter de plasmadora do universo se projetam de modo ainda mais claro como ‘maia’. “E, de fato, a Sabedoria é um espírito amigo dos homens”, a “artífice de todas as coisas”. “Existe nela um espírito santo intelectivo” (πνεῦμα νοετὸν ἄγιον), uma “exalação (ἀτμίς) do poder divino”, um “eflúvio (ἀπόρροια) da glória do Todopoderoso”, um “resplendor da luz eterna , um reflexo da divina obra”, um ser constituído de matéria sutil, que tudo penetra com sua presença. Está em íntima união com o Deus (συμβίωσιν ἔχουσα), e o Senhor de todas as coisas (πάντων δεσπότης) a ama. </p><cite>JUNG, 1952/2013, § 613</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nos-dogmas-marianos-sofia-e-atualizada-na-personificacao-da-mae-divina-maria-a-consorte-de-deus" style="font-size:17px">Nos dogmas marianos, Sofia é atualizada na personificação da mãe divina, Maria, a consorte de Deus.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:17px"><blockquote><p>Maria é um nome composto de duas raízes, uma egípcia e outra hebraica. Myr em egípcio significa amada e <em>yam</em> em hebraico constitui uma das abreviações da Javé (<em>ya</em> ou <em>yam</em>). Maria o Miryám quer dizer, então, a amada da Javé, a bem-amada de Deus. </p><cite>BOFF, 1980, p. 35</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Maria ganha definitivamente esse lugar de consorte de Deus, para Carl Jung, no <strong>dogma da Assunção</strong>. Que além de representar um clamor do povo, é a introdução do feminino de corpo e alma na divindade cristã.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:16px"><blockquote><p>Há muito tempo se sabia que um profundo desejo despertar no coração das massas no sentido de que a intercessora e mediatriz dos homens ocupasse seu devido lugar junto à Santíssima Trindade e fosse recebida “como rainha do céu e esposa na corte celeste.</p><cite>JUNG, 1952/2013, §748</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com Carl Jung, o dogma proclamado pelo Papa Pio XII, no dia 1º de novembro de 1950, demonstra a coragem do Pontífice de ir contra a razão moderna. “Sob o ponto de vista psicológico é de importância para os nossos dias que a esposa Celeste tenha sido associada a seu esposo no ano de 1950.” (JUNG, 1952/2013, §748).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com a entrada de Maria na corte celeste, acontece na concepção junguiana, a união dos opostos. Do masculino com o feminino, do divino com o humano, tornando-se o símbolo dos demais pares de opostos. No casamento sagrado, o <strong><em>numinoso </em></strong>se manifesta, como um problema religioso.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-carl-jung-entende-a-religiao-como-a-atitude-particular-de-uma-consciencia-transformada-pela-experiencia-do-numinoso-jung-1938-1978-9" style="font-size:17px">Carl Jung entende a religião como, “a atitude particular de uma consciência transformada pela experiência do <em>numinoso</em>” (JUNG, 1938/1978, §9).</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:17px"><blockquote><p>A transformação da Assunção de Maria em dogma aponta para a realização do hierógamos no pleroma, por sua vez, se refere como já foi dito, ao futuro nascimento do menino divino que, em virtude da tendência divina a encarnar-se, escolherá o homem empírico para nele se realizar. Este acontecimento metafísico é conhecido pela psicologia do inconsciente como processo de individuação.</p><cite>JUNG, 1952/2013, § 755</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Os dogmas marianos, de Theotókos e da Assunção formam o palco celeste para o nascimento do menino divino, a partir de uma realidade transcendente. Para o junguiano Edward Edinger, a encarnação representa simbolicamente, o movimento do do Si-mesmo para encarnar num ego individual.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:17px"><blockquote><p>A vida de Cristo, entendida em termos psicológicos, representa as vicissitudes em sua encarnação num ego individual, bem como as vicissitudes do ego no processo de participação nesse drama Divino. Em outras palavras, a vida de Cristo representa o processo de individuação.</p><cite>EDINGER, 1987, p. 15</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">O casamento sagrado, a união dos opostos é representada pela entrada de Maria na corte celeste, como esposa de Deus, como&nbsp; personificação da mãe divina. Esse drama cósmico, representa no processo de individuação, a necessidade que a consciência tem de se confrontar com o inconsciente, no sentido de promover um equilíbrio entre os opostos. Assim sendo, com o desenvolvimento da função transcendente, o inconsciente produz símbolos, que ampliados pela consciência, segundo Jung, tornam visíveis a união irracional dos contrários.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:17px"><blockquote><p>Mas, para que se tome consciência do processo de individuação, é preciso que a consciência seja confrontada com o inconsciente e se chegue a um equilíbrio entre os opostos. Como isto é logicamente impossível, necessitam-se de símbolos que sirvam para tornar visível a união irracional dos contrários. Estes símbolos são produzidos espontaneamente pelo inconsciente e ampliados pela consciência. Os símbolos centrais deste processo descrevem o si-mesmo, isto é, a totalidade do homem, de um lado, por meio daquilo que lhe é consciente e, de outro, por meio do conteúdo inconsciente. O simesmo é τέλειος ἄνθρωπος, o homem completo, cujos símbolos são o menino divino ou seus sinônimos.</p><cite>JUNG, 1952/2013, § 755</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">A totalidade religiosa de Deus clama pela presença do feminino na divindade. Com o dogma da Assunção, Maria é oficialmente admitida&nbsp; na divindade ao lado da Trindade, formando umaquaternidad<em>e</em>. Ela ocupa o lugar de Mãe de Deus, como uma pessoa divina, ela se torna a mãe do Si-mesmo. No entanto, é importante ressaltar que com o dogma da Assunção, Maria não alcançou o status de Deusa no sentido dogmático.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:17px"><blockquote><p>Como totalidade, o si-mesmo é sempre, <em>per definitionem</em>, um <em>complexio oppositorum</em> e seu modo de aparecer é tanto mais obscuro e ameaçador, quanto mais a consciência reivindica para si uma natureza luminosa, alimentando consequentemente pretensão de uma autoridade moral.</p><cite>JUNG, 1952/2013, § 716</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Carl Jung acreditava que o arquétipo da totalidade se aproximava&nbsp; da imagem de Deus. “A competência da psicologia enquanto ciência empírica não vai além da possibilidade de constatar, à base de uma pesquisa comparativa, se o tipo encontrado na alma pode ou não ser designado como uma “imagem de Deus” (JUNG, 1944/2011, § 15). No entanto, em <em>Resposta a Jó</em>, ele alerta&nbsp; que embora o arquétipo da totalidade possa ser aproximado da&nbsp; imagem de Deus, ele não pode ser confundido com o inconsciente em si:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:17px"><blockquote><p>“feito acima, sobre o caráter indiferenciável da imagem de Deus no inconsciente: a imagem de Deus não coincide propriamente com o inconsciente em si, mas com o conteúdo particular deste último, isto é, com o arquétipo de si-mesmo. Este último já não podemos separar, empiricamente, da imagem de Deus;</p><cite> JUNG, 1952/2013, § 757</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">A entrada da Mãe de Deus na Câmara nupcial do céu, nos convida a pensar no fruto desse encontro, entre o humano e o divino, entre o femnino e o masculino. Embora Maria seja humana, logo no início da tradição cristã, ela ganha um caráter especial de mulher divina.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-livro-apocrifo-proto-evangelho-de-tiago-tambem-chamado-de-natividade-de-maria-ela-tambem-tem-um-nascimento-milagroso" style="font-size:17px">No livro apócrifo<em> Proto Evangelho de Tiago</em>, também chamado de “Natividade de Maria” , ela também tem um nascimento milagroso.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Eis que se lhe apresentou o anjo de Deus, dizendo-lhe:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>— Ana, Ana, o Senhor escutou teus rogos! Conceberás e darás à luz e de tua prole se falará em todo o mundo. Ana respondeu:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>— Viva o Senhor meu Deus, que, se chegar a ter algum fruto de bênção, seja menino ou menina, levá-lo-ei como oferenda ao Senhor e estará a seu serviço todos os dias de sua vida. Então vieram a ela dois mensageiros com este recado:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>— Joaquim, teu marido, está de volta com seus rebanhos, pois que um anjo de Deus desceu até ele e lhe disse que o Senhor escutou seus rogos e que Ana, sua mulher, vai conceber em seu ventre. Tendo saído Joaquim, mandou que seus pastores lhe trouxessem dez ovelhas sem mancha. Disse ele:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>— Estas serão para o Senhor. Mandou, então separar doze novilhas de leite, dizendo:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>— Estas serão para os sacerdotes e para o sinédrio. Finalmente, mandou apartar cem cabritos para todo o povoado. Ao chegar Joaquim com seus rebanhos, estava Ana à porta e, ao vê-lo chegar, pôs-se a correr e atirou-se ao seu pescoço dizendo:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>— Agora vejo que Deus me bendisse copiosamente, pois, sendo viúva, deixo de sê-lo e, sendo estéril, vou conceber em meu ventre. Então Joaquim repousou naquele dia em sua casa. No dia seguinte, ao ir oferecer sua dádivas ao Senhor, dizia para consigo mesmo:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>— Saberei se Deus me vai ser favorável se eu chegar a ver o éfode do sacerdote. Ao oferecer o sacrifício, observou o éfode do sacerdote, quando este se acercava do altar de Deus, e, não encontrando pecado algum em sua consciência, disse:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>— Agora vejo que o Senhor houve por bem perdoar todos os meus pecados. Desceu Joaquim justificado do templo e foi para casa. O tempo de Ana cumpriu-se e no nono mês deu à luz. Perguntou à parteira:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>— A quem dei à luz? A parteira respondeu:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>— Uma menina.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Então Ana exclamou:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em> — Minha alma foi enaltecida — e reclinou a menina no berço.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-fim-do-tempo-marcado-pela-lei-ana-purificou-se-deu-o-peito-a-menina-e-pos-lhe-o-nome-de-maria-pro-evangelho-de-tiago" style="font-size:17px">Ao fim do tempo marcado pela lei, Ana purificou-se, deu o peito à menina e pôs-lhe o nome de Maria” (Pro Evangelho de Tiago).</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Como como protestante, Maria não faz parte oficialmente do meu imaginário religioso, no entanto como diz Jung:  “<strong>A necessidade religiosa reclama a totalidade, e é por isso que se apodera das imagens da totalidade oferecidas pelo inconsciente, que emergem das profundezas da natureza psíquica independentemente da ação da consciência</strong>” (JUNG, 1952/2013, § 757).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim sendo, Maria como mãe do Si-mesmo, como mãe de Deus ocupa um lugar especial na minha vida religiosa. Como aquela que representa o acolhimento, a face doce de Deus. Mas existe um lado sombrio que necessita ser abarcado. O <em>numinoso</em> provoca transformação, e não está na ordem do controle, por isso a sombra, o inconsciente, o medo.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:17px"><blockquote><p>Qualquer que seja a sua causa, o numinoso constitui uma condição do sujeito, e é independente de sua vontade.</p><cite>JUNG, 1938/1978, §6</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-maria-na-anunciacao-e-envolvida-pela-sombra-de-deus" style="font-size:17px">Maria, na Anunciação, é envolvida pela sombra de Deus.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:16px"><blockquote><p>Respondeu-lhe o anjo: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra;” (Lucas 1:35).  Segundo Edinger, “a expressão ‘te cobrirá com a sua sombra’ (<em>episkiazo</em>) refere-se ao ser envolvido numa nuvem pela presença divina.</p><cite>EDINGER, 1987, p. 22)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Maria é o tabernáculo de Deus envolvido pela nuvem de Javé. A nuvem aparece no deserto, Moisés foi envolvido pela nuvem, no templo de Salomão a nuvem também aparece. Ela simboliza&nbsp; o aspecto sombrio (Cf.: EDINGER,1987, pp. 22-23), do nascimento suspeito da criança divina, representando os aspectos sombrios da alma que necessitam ser integrados.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Maria mãe de Deus, mãe dos pobres, símbolo da Terra e do feminino de Deus. A trajetória mariana possui um lugar especial como símbolo do processo de individuação. O drama do  nascimento de Jesus, e a maneira como Maria obedece às ordens do anjo, simboliza o ego servindo ao Self.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Maria é toda de Deus, transcendendo o ser humano, e entra na esfera do Sagrado definitivamente com o Dogma da Assunção. Admitir isso, não está na ordem da razão, mas do Sagrado, do <em>numinoso</em>, da alma. Assim como o nascimento do Deus encarnado simboliza o nascimento do Si-mesmo, Maria com a mãe de Deus é a mãe do Si-mesmo.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: O nascimento do Si-mesmo no simbolismo de Maria" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/yV6ZKmLggQM?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em><strong>Silvana Venancio &#8211; Analista em formação IJEP</strong> e Doutora em Teologia</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><strong><em><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/anapaulamaluf/">Ana Paula Maluf &#8211; Analista Didata IJEP</a></em></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:17px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">BOFF,  Leonardo.<em> O rosto materno de Deus: ensaio interdisciplinar sobre o feminino e suas formas religiosas. </em>Petrópolis: Vozes 1979.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">BOFF,  Leonardo. <em>A Ave Maria o Feminino e o Espírito Santo. </em>Petrópolis: vozes, 1980.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">EDINGER, Edward. <em>O Arquétipo Crsutão: um comentário junguiano sobre a vida de Cristo</em>. São Paulo: Cultrix, 1987.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">GEBARA, Ivone, BINGEMER, Maria Clara. <em>Maria, Mãe de Deus e Mãe dos Pobres &#8211; Um ensaio a  partir da mulher e da América Latina. </em>Petrópolis: Vozes, 1978.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">JUNG, Carl.&nbsp; (1978). <em>Psicologia e Religião</em>. In Obras completas de C. G. Jung, (Vol. 11/1). Petrópolis: Vozes. Originalmente publicado em inglês em 1938.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">________.  (2013). <em>Resposta a Jó</em>. In Obras completas de C. G. Jung, (Vol. 11/4). Petrópolis: Vozes. Originalmente publicado em alemão em 1952.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



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