Resumo: Este texto é um convite a refletir sobre os desafios e as possibilidades da segunda metade da vida. A partir de Jung, James Hollis e Santo Agostinho, proponho pensar sobre a crise da meia-idade, o tempo, o envelhecimento e a necessidade de reorientar a alma. Mais do que uma fase de perdas, esse período pode ser uma oportunidade de ressignificar a vida, abandonar o que já não faz sentido e aprender a estar mais presente no tempo que nos é dado.
E se existisse uma escola para pessoas que estão na segunda metade da vida?
Uma escola que tivesse um currículo que nos ensinasse a lidar com os novos desafios, que nos ajudasse a entender o que está acontecendo com o nosso corpo e com as nossas emoções. As crianças entram na escola para aprender a socializar, para aprender a ler, escrever e a ter outras habilidades. Adolescentes e adultos que passaram dos 45 anos, 50 anos ou mais, ficam desamparados, ninguém nos ensina a lidar com as mudanças e aprender sozinhas é muito mais complicado.
Na ausência de uma escola para maiores, a alternativa é sempre a análise. Olha o que Carl Jung diz sobre isso:
Entramos totalmente despreparados na segunda metade da vida, e, pior do que isto, damos este passo, sob a falsa suposição de que nossas verdades e nossos ideais continuarão como dantes. Não podemos viver a tarde de nossa vida segundo o programa da manhã, porque aquilo que era muito na manhã, será pouco na tarde, e o que era verdadeiro na manhã, será falso no entardecer. (C. G. Jung. OC 8/2 , § 784)
Eu quero introduzir nesse artigo, o problema do tempo e como isso se relaciona com a segunda metade da vida e com a crise da meia idade. Quando nos deparamos com o tempo e com a realidade da morte, isso pode ser uma sentença ou um momento de ressignificação.
Podemos paralisar diante dessa ideia ou podemos dar novos sentidos para a vida, à medida que ela caminha para um fim.
O jovem vive como se não houvesse amanhã, e sua autoimagem é repleta de vigor e de força. Com a sensação de ter uma vida pela frente, o jovem acredita que tudo é possível, e isso é uma grande verdade. À medida que o tempo passa, principalmente depois dos 28 anos, a astrologia chama de primeiro retorno de Saturno, o senhor do tempo, brotam os questionamentos, perguntas, medos, frustrações e a consciência do tempo. Para Carl Jung só vamos vencer o assombro diante da realidade da morte, quando não deixarmos que a vida se petrifique.
A imagem do mundo pode mudar a qualquer tempo, da mesma forma como o conceito que temos de nós próprios também pode mudar. Cada nova descoberta, cada novo pensamento pode imprimir uma nova fisionomia ao mundo. É preciso termos isto diante dos olhos, senão, de repente, ver-nos-emos em um mundo antiquado, que é, ele próprio, um resto ultrapassado de níveis inferiores da consciência. Todos nós um dia haveremos de morrer, mas é do interesse da vida adiar o mais que possível este momento; mas só conseguiremos isto se jamais permitirmos que a imagem que formamos do mundo se petrifique. (C. G. Jung. OC 8/2, § 700)
O mundo está sempre em mudança, não há como conter o fluxo da vida, a única realidade imutável, numa perspectiva hireclatiana é a mudança.
Toda mudança traz medos, desafios, e por causa disso existe uma sensação de desamparo ainda maior na segunda metade da vida. Sabemos como chegamos até aqui, pode ser a trancos e barrancos, pode ter sido uma vida como pouca autoconsciência, não importa, sabemos alguma coisa e confiamos nesse saber.
Na segunda metade da vida, isso que conhecemos, fazemos e pensamos, passa a não ter mais sentido e deixa de ser suficiente para o que precisamos viver daqui pra frente.
O que nos trouxe até aqui não consegue responder a novas perguntas, aos novos desafios, a sensação é de falta de sentido e de vazio. O corpo já não é tão atraente e os mais jovens vão ocupando os espaços nos locais de entretenimento e na vida profissional. Algumas amigas e amigos vão desistir de viver mais ativamente nesse mundo ou vão se ocupar com os netos. E quem deseja continuar vivendo da mesma forma vai enfrentar uma crise.
James Hollis percebe a crise da meia idade como a passagem do meio. Uma crise que convida a um momento de ressignificação e de reorientação da alma. Dois movimentos importantes que podem ser percebidos quase como sinônimos, mas que exigem atitudes diferenciadas. Eu proponho a realização de um caminho de ressignificação do tempo e de reorientação da alma.
A passagem do meio também pode ser compreendida como metanóia.
A palavra metanoia no grego, significa mudança de mente, mudança de direção. Se estávamos indo numa direção, a vida pede ajustes, para mudarmos de postura diante da vida, pois o modo como vivemos até esse processo se instalar na alma, passa a não fazer mais sentido.
A passagem do meio é a ocasião de redefinirmos e reorientarmos a personalidade, um rito de passagem entre a adolescência prolongada da primeira idade adulta e o nosso inevitável encontro com a velhice e a mortalidade. Aqueles que passam conscientemente pela transição trazem mais significado à sua vida. Os que não passam permanecem prisioneiros da infância, não importa o sucesso aparente que possam ter na vida. (HOLLIS, 2020, p. 9)
Essa passagem da primeira metade da vida adulta para a segunda metade, esse rito de passagem, como afirma Hollis, não acontece sem dor e sem sofrimento.
A tentação é fingir que nada está acontecendo, se negando parar e ouvir o que esse novo estágio da vida está pedindo, deixando-se ser levada pela inconsciência e pelas distrações. A consequência dessa negação é o desembocar em um amontoado de sintomas que vão desde a ansiedade à depressão. Se até aqui, na curva do meio da vida, ainda não nos perguntamos pelo que a alma deseja e nem nos deparamos com a realidade da finitude, não é mais tempo para isso, é preciso uma mudança de atitude.
Sem consciência a pessoa se perde no vazio, na falta de sentido sem saber porque perdeu o sabor da vida e como recuperá-lo.
Quem acreditava, por exemplo, que o sucesso profissional daria sentido, se ressente porque não sente mais nada. Quem acreditava que o vigor da juventude, um belo corpo era tudo, se desmorona com a realidade de não ser mais jovem. Aquelas que acreditavam que o amor romântico as salvariam do seu vazio, acumulam frustrações e um amontoado de relacionamentos mal sucedidos.
Sem consciência, como afirma Hollis, ficaremos presas a um infantilismo que nos faz acreditar que se não olharmos para aquilo que nos incomoda, esse algo desaparecerá. As crianças fecham os olhos, e contam até que o monstro projetado na sombra desapareça.
Permanecer neste estado de infantilismo, sem enfrentar os desafios da meia idade, só aumenta o sofrimento.
Na passagem do meio, eu quero me apropriar da letra da canção do Belchior:
Não quero o que a cabeça pensa
Eu quero o que a alma deseja
Arco-íris, anjo rebelde, eu quero o corpo
Tenho pressa de viver
Eu quero o que a alma deseja, eu tenho pressa e preciso de calma para viver. Na segunda metade da vida, a pressa está na necessidade de reorientação e ressignificação. Não dá mais tempo de se perder nas distrações, de um trabalho que não faz mais sentido, nas distrações de se envolver demais com os problemas dos outros, nas distrações de colecionar contatinhos de amores vazios. Mas também, a vida pede calma. Para falar de calma eu quero me valer dos versoes de outra canção, agora do Lenine:
Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
A vida não para
Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso, faço hora, vou na valsa
A vida é tão rara
Eu costumo dizer que depois dos 50 anos, devemos fazer tudo com calma, sem pressa. Temos pouco tempo daqui pra frente, a vida pede calma, para saborear o tempo presente. Se o que fazia sentido, deixou de fazer, o melhor a fazer é ressignificar o tempo.
O que é o tempo?
Será que o tempo existe? Se ele existe, qual o tempo da alma? Para Santo Agostinho o tempo não é uma realidade física, mas uma extensão da própria alma. O bispo de Hipona, pergunta a si mesmo e ao mesmo tempo responde:
O que é, então, o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; se eu quiser explicar a quem pergunta, eu não sei; no entanto, afirmo corajosamente que sei que, se nada passou, o tempo passado não foi; e se nada veio, o tempo vindouro não foi; e se nada foi, o tempo presente não foi. (De Hipona, Agostinho, p. 246)
Para ele, quando dizemos “muito tempo” ou “pouco tempo” é sempre em relação a algo passado ou ao futuro, no presente não é possível medir o tempo. Eis o que ele diz nesta citação:
Vejamos, pois, ó alma do homem, se o tempo presente pode ser longo, porque a ti é dado sentir e medir a duração do tempo. O que você me responderá? Cem anos, quando presentes, são muito tempo? Veja primeiro se cem anos podem ser presentes. Pois, se o primeiro desses anos for atual, ele é presente, mas os outros noventa e nove estão por vir e, portanto, ainda não são. Mas se o segundo ano for atual, um já passou, outro é presente e o restante está por vir. E assim, se considerarmos que qualquer ano do meio dessa centena é presente, todos os anteriores a ele são passados; todos os posteriores a ele são futuros; portanto, cem anos não podem ser presentes. (De Hipona, Agostinho. Confissões de Santo Agostinho, p. 247-248)
Na filosofia agostiniana o tempo só existe como memória, visão e como expectativa. O tempo não pode ser quantificado, ele é percebido na alma.
O que agora está claro e evidente é que nem as coisas futuras nem as passadas existem. Tampouco se diz adequadamente: “Há três tempos, passado, presente e futuro”; no entanto, talvez se possa dizer adequadamente: “Há três tempos: um presente de coisas passadas; um presente de coisas presentes; e um presente de coisas futuras”. Pois esses três existem de alguma forma na alma, mas em outros lugares eu não os vejo. O presente das coisas passadas, memória; o presente das coisas presentes, visão; e o presente das coisas futuras, expectativa. Se assim nos for permitido falar, eu vejo três vezes e confesso que são três. Seja dito também que “há três tempos: passado, presente e futuro” em nossa maneira incorreta. (De Hipona, Agostinho. Confissões de Santo Agostinho, p. 251).
Santo Agostinho nasceu no século IV da nossa era, foi bispo, teólogo e filósofo cristão. Muitos estudiosos afirmam que o bispo de Hipona foi responsável por batizar o platonismo e torná-lo cristão. Isso significa o que já sabemos, que o berço da civilização Ocidental é fruto da filosofia Grega com o seu casamento com a cultura judaica-cristã. Apesar disso, nem tudo o que somos pode se resumir a isso, o ser humano na sua dimensão de abertura ao inconsciente coletivo é portador de múltiplas influências psíquicas.
Em diversas culturas e modelos filosóficos o tempo pode ser visto como linear, circular e há até mesmo a ideia de que o tempo não existe. Em Agostinho é possível perceber que o tempo como memória daquilo que já passou, a visão do que estamos vivendo no momento ou na espera, a expectativa do que virá. O presente é o tempo da eternidade, transcendente, ele não pode ser medido, ele só pode ser percebido na alama. É aquela sensação de que o tempo parou, quando estamos realmente presentes em um instante e contemplamos a vida.
Na segunda metade da vida, é preciso dar passos para reorientar a alma, para ficar no tempo presente, da entrega, o tempo que nunca tem fim se nos detivermos nele.
Assim sendo, ficar no passado, muito tempo, tentando entender todas as causas ou transferindo a vida para o futuro, como se a felicidade estivesse sempre lá na frente, é ter menos vida. A ideia: “quando os meus filhos forem independentes financeiramente, então eu irei olhar pra mim; “quando encontrar um parceiro/ parceira, eu serei feliz”; “quando eu me aposentar, aí sim, encontrarei a felicidade”, só adia a felicidade e o sentido de presença.
Quase todas as tradições religiosas nos alertam sobre essa fuga da vida, quando nos tornamos prisioneiras do passado e iludidas com o futuro. A vida só pode ser vivida um instante de cada vez, um dia de cada vez. Se eu e você aprendemos isso, seremos muito mais felizes. E como o diz o provérbio: “quando a morte nos encontrar, que nos encontre vivos”. Esse é o caminho para que possamos ter prontidão para viver o entardecer da vida.
Silvana Venancio – Doutora em Teologia e Analista Junguiana em Formação IJEP
Ana Paula Maluf – Analista Didata IJEP
Referências:
HOLLIS. James. A Passagem do Meio. Petrópolis: Vozes, 1995.
Jung, C. G.. A Natureza da Psique. In Obras completas de C. G. Jung, (Vol. 8/2). Petrópolis: Vozes. Originalmente publicado em alemão em 1946.
De Hipona, Agostinho. Confissões de Santo Agostinho – Edição de Luxo (Portuguese Edition) (pp. 247-248). Editora Garnier. Edição do Kindle)

Congressos Junguianos IJEP: Gravados e Online – Acesso Imediato

