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	<title>Arquivos Ansiedade - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Thu, 02 Nov 2023 01:06:12 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos Ansiedade - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Reflexões Junguianas sobre o Serviço e o Concurso Público no Brasil</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/reflexoes-junguianas-sobre-o-servico-e-o-concurso-publico-no-brasil/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Mauro Angelo Soave Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 30 Aug 2023 18:05:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ansiedade]]></category>
		<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Mercado de Trabalho]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[concurseiro]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Entrar no serviço público é uma meta na vida de muitos brasileiros. A estabilidade proporcionada por esse tipo de emprego frente às incertezas do mercado de trabalho é um dos principais atrativos. Nesse artigo refletimos sobre as subjetividades e objetividades envolvidas no processo de aprovação no concurso público, escolha da vaga e suas consequências.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/reflexoes-junguianas-sobre-o-servico-e-o-concurso-publico-no-brasil/">Reflexões Junguianas sobre o Serviço e o Concurso Público no Brasil</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">O serviço público é visto como uma meta de vida para muitos brasileiros. No imaginário de muitos, garante àqueles que passarem em um concurso estabilidade e benesses vitalícias. A questão é que nem sempre é assim. O serviço público, ao qual o concurso é um meio de acesso, não é esse <strong>éden</strong> de estabilidade, pouco trabalho e despreocupação com o futuro; muitas vezes se torna uma prisão autoimposta que impede a autorrealização ou ao menos a dificulta, porém, ainda assim é uma alternativa muito atraente de emprego diante de um mercado de trabalho cada vez mais instável e precarizado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O acesso a uma vaga no serviço público se dá pela participação em concursos. Desde a constituição de 1988 e a garantia de estabilidade à maioria daqueles que passarem, é uma espécie de esperança, pessoal e muitas vezes familiar, de um emprego minimamente digno e garantidamente “eterno”. Também é visto como uma das formas mais justas de seleção, uma vez que leva em conta os conhecimentos do concursando, ao contrário das arbitrariedades de um processo seletivo na iniciativa privada.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-estabilidade">Estabilidade</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Diante de cenários econômicos cada vez mais instáveis, a promessa de <strong>estabilidade</strong>, ou seja, emprego garantido, com certeza se apresenta como uma oportunidade de ouro (RIBEIRO e MANCEBO, 2009; ANJOS e MENDES, 2015; ROCHA, 2019).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa característica da iniciativa pública contrasta com o trabalho precarizado da iniciativa privada, uma vez que a presença do desemprego estrutural permite às empresas privadas oferecerem cada vez menos e cobrarem cada vez mais dos seus trabalhadores (ANJOS; MENDES, 2015).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estes acabam se sujeitando às condições impostas uma vez que o cenário não permite que tenham escolhas e contribui para a disseminação de fatores que geram a insegurança, tais como as elevadas taxas de desemprego (ROCHA, 2019).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-instabilidade-a-grande-vila"><strong>Instabilidade, a grande vilã</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com <strong>Albrecht</strong> e <strong>Krawulski</strong> (2011), em um estudo realizado em Florianópolis/SC, a maior parte dos concurseiros (aqueles que se dedicam ao estudo para aprovação em concursos), têm em vista a estabilidade e a remuneração como fatores de peso na hora de decidir se dedicar aos estudos e ao serviço público. Tais achados são semelhantes aos de Rocha (2019) e fazem eco às reflexões de Ribeiro e Mancebo (2009), que observa:</p>



<p class="wp-block-paragraph">O candidato ao serviço público, quando prioriza a busca de segurança e qualidade de vida, pode na realidade estar mais interessado em se esquivar do clima tenso e inseguro da iniciativa privada, do que em fazer uma carreira aliada à realização profissional no setor público.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse trabalhador tem consciência de que as empresas privadas impõem geralmente um ritmo intenso ao exercício das atividades laborais. Situação que normalmente ultrapassa os muros da organização, impregnando as relações pessoais, familiares e sociais. Ele constata que, na busca contínua pela empregabilidade e na luta diária para conter o fantasma do desemprego, é quase sempre a qualidade de vida que fica comprometida (Ribeiro e Mancebo, 2009).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-processo-de-aprovacao-em-um-concurso-publico-foi-se-tornando-cada-vez-mais-dificil-ao-longo-dos-anos" style="font-size:21px">O processo de aprovação em um concurso público foi se tornando cada vez mais difícil ao longo dos anos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Uma vez que tivemos um aumento na educação da população, incluindo cursos superiores, o número de pessoas aptas a prestar um concurso aumentou e, como consequência, a concorrência pelas vagas. Não raro, os concurseiros passam anos das suas vidas em uma rotina de estudos dedicada a um ou mais certames e raramente são aprovados numa primeira tentativa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A busca por aprovação em concursos públicos é uma jornada desafiadora que pode ter diversos impactos na saúde mental dos concurseiros. Enquanto alguns podem enfrentar o processo com determinação e resiliência, outros podem experimentar dificuldades emocionais e psicológicas significativas devido às pressões envolvidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">São comuns relatos de cobranças pelo desempenho não satisfatório para aprovação. Também são cobrados direta ou indiretamente dos parentes e amigos, que quando se encontram perguntam pelo desempenho e pelas razões da não aprovação até o momento (ANJOS E MENDES, 2015). </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-comparacao-e-pressao">Comparação e pressão</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Além disso, a <strong>comparação</strong> entre os outros concorrentes, adiamentos de concursos, reprovação, pressão financeira e social tornam os concurseiros pessoas suscetíveis a uma gama diversificada de transtornos mentais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa pressão é, conforme levantado por<strong> Rocha</strong> (2019), reforçada pelas mídias sociais, grupos de conversa de concurseiros e pela pesada propaganda dos cursinhos preparatórios – <em>estude enquanto eles dormem </em>&#8211; que insere os concurseiros numa corrida intensa e sem previsão de fim, e numa disputa constante entre si e consigo mesmos. Não é raro, em Brasília, onde vivo, ouvir que fulano não está participando de eventos sociais ou saindo de casa porque está estudando para concurso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dessa forma, o concurseiro ao longo do tempo muitas vezes desiste do seu “cargo dos sonhos” e começa a se enveredar por vagas com editais em aberto ou que sejam mais fáceis de passar. Dessa forma, conforme ilustrado no texto de Ribeiro e Mancebo e em acordo dos achados de Rocha (2019):</p>



<p class="wp-block-paragraph">O objetivo definido foi alcançado. Entretanto, na ânsia de se protegerem das oscilações do mercado de trabalho, não se permitiram realizar uma escolha mais cuidadosa, analisando criteriosamente se as características da organização e do cargo para o qual prestaram exame eram compatíveis com seus interesses e projetos de vida (Ribeiro e Mancebo, 2009).</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Passei! E agora?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Sim, o emprego público é um oásis diante de uma precarização cada vez maior das vagas abertas à ampla concorrência do mercado e da instabilidade dos empregos no setor privado. No entanto, que outras subjetividades aparecem, passado o momento da aprovação no tão esperado concurso?</p>



<p class="wp-block-paragraph">O serviço público é vendido, na maioria das vezes como objetivo final e não como etapa da vida. A remuneração e as benesses seriam um prêmio pela aprovação e não uma recompensa pelo trabalho a ser realizado. A utilização publicitária de luxo, riqueza e consumo sem dúvidas desperta desejos que não apenas estimulam a estudar &#8211; e a procurar um cursinho para isso -, mas reforçam a crença de que a aprovação é o caminho para a conquista da felicidade (ROCHA, 2019).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eis que entra em cena a realidade: trabalhar em algo muitas vezes desligado de qualquer vocação, prazer ou interesse; aprovação em cargos em que se é mais qualificado que o necessário, subutilizando seu potencial; constantes mudanças de acordo com a mudança de gestão, as nomeações e conchavos políticos e inclusive a corrupção. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso pode gerar um descontentamento com relação as atividades que realiza no órgão e contribuir para o florescimento de uma vontade de mudança. Uma busca por algo que possa suprir a falta de realizar uma atividade por afinidade e prazer (BAZZO, 1997; ANJOS e MENDES, 2015; ROCHA, 2019).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ai-chegamos-em-jung">Aí chegamos em<strong> Jung</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Observando o cenário descrito anteriormente, podemos inferir que uma parte dos concursados entram em conflito interno pois, ao passarem no concurso, enfrentam a angústia de trabalhar em algo muitas vezes sem significado interior. Nesse sentido Jung dizia:</p>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-modern has-small-font-size"><blockquote><p><em>O homem deve ser levado a adaptar-se em dois sentidos diferentes, tanto à vida exterior – família, profissão, sociedade – quanto às exigências vitais de sua própria natureza. Se houve negligência em relação a qualquer uma dessas necessidades, poderá surgir a doença.</em> </p><cite>JUNG, 2014b, v. 17, §172</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">A doença, nesse caso, pode se manifestar pelas crises de ansiedade, depressão, pânico entre outras, tem sido cada vez mais relevante no número de afastamentos e ausências no serviço público, evidenciando um problema a ser enfrentado tanto na esfera coletiva quanto individual. Coletiva, no sentido de se pensar melhores métodos de seleção e qualidade do trabalho desenvolvido no serviço público, e individual no momento de se ponderar se a estabilidade propiciada pelo cargo vale a desadaptação ao Eu.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O sofrimento no serviço público não vem de hoje</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Em 1997, <strong>Bazzo</strong> publicou uma reflexão sobre esse tema, de onde se extrai:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:15px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px"><em>Quem tivesse a iniciativa de escrever a história da saúde mental no universo do funcionalismo público brasileiro, digamos, nos últimos 30 anos, chegaria a dados estarrecedores e não teria dúvidas de que a atual Organização do Trabalho dentro da &#8220;máquina pública&#8221; é, literalmente, uma máquina a serviço do desprazer, da depressão e da insanidade. E essa realidade pode ser facilmente confirmada, verificando o número de consultas médicas comparece mensais a que cada funcionário. </em></p>
<cite>BAZZO, 1997</cite></blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-quero-dizer-que-o-servico-publico-e-apenas-uma-armadilha-aos-incautos">Não quero dizer que o serviço público é apenas uma armadilha aos incautos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Há gente feliz e realizada de poder trabalhar servindo ao seu país, uma vez que, estando inserido nesse lugar é possível colocar em prática seus propósitos, uma coisa não impede a outra. É possível sim que o seu propósito de vida seja trabalhar no setor público e isso não torne a adaptação um martírio. Uma vez que, conforme dito acima, as condições de trabalho são atraentes e melhores que em muitas outras esferas do mercado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A proposta aqui é que, ao considerar a decisão de se dedicar a um concurso público, é fundamental lembrar que Jung enfatizava a integração de elementos individuais e coletivos para alcançar a felicidade e o propósito. A busca por segurança e contribuição à sociedade pode ser alinhada com sua visão de realização.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele ressaltava que a busca pela felicidade estava enraizada na integração das várias facetas da personalidade e na conexão com um propósito. Ao escolher um caminho profissional, é importante considerar tanto as vantagens materiais e sociais quanto a capacidade de expressão pessoal, autonomia e satisfação interior. Novamente trazendo <strong>Jung</strong>:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>É claro que como <strong>individualidade </strong>ninguém pode adaptar-se por completo a essas expectativas; daí a necessidade inegável de construir-se uma personalidade artificial. As exigências do decoro e das boas maneiras se incumbem do resto, para incitar ao uso de um tipo de máscara adequada. Atrás desta última, forma-se então o que chamamos de “vida particular”. A separação da consciência em duas figuras que às vezes diferem uma da outra de um modo quase ridículo é um fato bastante conhecido e constitui uma operação psicológica decisiva, que não deixa de ter consequências sobre o inconsciente. </em></p>
<cite>JUNG, 2014a, §305</cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">O sofrimento muitas vezes apresentado pelos concurseiros-concursados-servidores está em renunciar à tão sonhada e almejada estabilidade em busca da realização profissional. Quando se depara com a realidade pós-portal da aprovação, pode se frustrar com o preço dessa estabilidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Considerações finais</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Vale lembrar que já na escolha da profissão, quando adolescentes, muitas pessoas não têm tanta escolha sobre o seu futuro trabalho. Pressões familiares, condições sociais desfavoráveis, condições financeiras, entre outros aspectos, muitas vezes tornam a escolha de uma formação profissional uma não-escolha. A felicidade muitas vezes é depositada numa suposta estabilidade profissional e financeira em detrimento da realização de uma atividade laboral que proporcione satisfação pessoal e espiritual. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Além disso, como dito por Jung, muitas vezes os filhos são empurrados a viver a vida não vivida dos pais, que sonharam com uma vida de concursado. Mas, por alguma razão, isso não foi possível ou ainda, se identificam com os mesmos e seguem o caminho do serviço público sem pensar se esse é seu verdadeiro propósito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Torna-se urgente, pois, a investigação e análise dos impactos dessa (in)sensata corrida por um emprego seguro na saúde [&#8230;] também sobre os riscos de banalização e negligenciamento de um processo tão importante, como o de escolha profissional, alertando que “a adaptação a qualquer preço é a porta de entrada do conformismo – que é a antessala do mundo sem sentido.” (SOARES, 2002, p.16–17, apud RIBEIRO e MANCEBO, 2009). Contribui Jung:</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essas-identificacoes-com-o-papel-social-sao-fontes-abundantes-de-neuroses">Essas identificações com o papel social são fontes abundantes de neuroses.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O homem jamais conseguirá desembaraçar-se de si mesmo, em benefício de uma personalidade artificial. A simples tentativa de fazê-lo desencadeia, em todos os casos habituais, reações inconscientes: caprichos, afetos, angústias, ideias obsessivas, fraquezas, vícios etc. O “homem forte” no contexto social é, frequentemente, uma criança na “vida particular”, no tocante a seus estados de espírito.  (JUNG, 2014a, §307)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Também sofrem aqueles que por sentirem sua autorrealização sacrificada em nome de um cargo com estabilidade, muitas vezes veem como opção apenas voltar aos bancos dos cursinhos preparatórios ou sacrificar horas da sua vida em busca de uma nova colocação no serviço público.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A <strong>instabilidade</strong> do emprego na iniciativa privada, somada às cada vez mais frequentes crises do capitalismo, empurra cada vez mais os brasileiros em direção a um emprego que garante estabilidade, algo só encontrado no emprego público.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A <strong>estabilidade</strong> não livra os concursados da angústia e do sofrimento quando estes estão em descompasso com seus propósitos e potenciais internos, assim como em qualquer trabalho, no entanto, a solidez proporcionada pela estabilidade muitas vezes se torna uma barreira na busca por autorrealização.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/maurosoave/">MsC. Mauro Angelo Soave Junior</a> – membro analista em formação do IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi</a> – Analista didata do IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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<h2 class="wp-block-heading"><strong>Referências</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">ALBRECHT, P. A. T. e KRAWULSKI. Concurseiros e a busca por um emprego estável: reflexões sobre os motivos de ingresso no serviço público. Cadernos de Psicologia Social do Trabalho, vol. 14, n. 2, pp. 211-226. 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ANJOS, F. B.; MENDES, A. M. A Psicodinâmica do não-Trabalho. Estudo de caso com concurseiros. R. Laborativa, v. 4, n. 1, abr., p. 35-55. <a href="http://ojs.unesp.br/index.%20php/rlaborativa.%202015">http://ojs.unesp.br/index. php/rlaborativa. 2015</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">BAZZO, E. F. Algumas considerações sobre a saúde mental dos funcionários públicos. Psicologia Ciência e Profissão, 17 (1), 41-44. 1997.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. O desenvolvimento da personalidade; tradução de Frei Valdemar do Amaral; revisão técnica de Dora Ferreira da Silva. – Petrópolis. Vozes, 2014a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______________. O eu e o inconsciente; tradução de Dora Ferreira da Silva. – Petrópolis, Vozes, 2014b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">RIBEIRO, C. V. dos S. e MANCEBO, Deise. Concurso público, uma alternativa sensata frente às turbulências do mundo do trabalho? Trabalho &amp; Educação – vol.18, nº 1 – jan./abr. de 2009</p>



<p class="wp-block-paragraph">ROCHA, Bianca Gomes Lima da. Entre o sofrimento e o (in)cansável movimento: as tensões vivenciadas por concursados-concurseiros à luz da contemporaneidade e da gestão gerencialista. Dissertação (Mestrado) &#8211; Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Programa de Pós-graduação em Administração, Curitiba, 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SILVA, R. B e BUENO, H. P. V. A saúde mental e os principais motivos de afastamento do servidor público brasileiro. Trabalho de conclusão do curso de pós-graduação lato sensu à distância em Saúde Mental pela UCDB/Portal Educação. 20xx</p>
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			</item>
		<item>
		<title>A dor é inevitável, a forma de sofrer é opcional</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-dor-e-inevitavel-a-forma-de-sofrer-e-opcional/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 Jul 2022 10:44:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ansiedade]]></category>
		<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
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		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
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		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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		<category><![CDATA[psicossomática]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo reflete a respeito do ditado popular: "A dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional", com intuito de promover o autoconhecimento, à luz da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, neste contexto cultural, onde o materialismo e o imediatismo hedônico e inconsequente estão imperando.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Muitas vezes ouvimos que a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional. Nossa cultura, cada vez mais materialista, nega constantemente a dimensão anímica e espiritual do universo e entende que a dor, por ser física, é inevitável &#8211; mas, para ela, temos os analgésicos. O sofrimento, porém, é da alma e é melhor que não ocorra, porque, na realidade, nada pode aliviá-lo de fato. Sua origem é a angústia diante do mistério da vida, na maioria das vezes acrescida da falta de significado existencial. Ainda assim, a frase parece posicionar o indivíduo saudável como aquele que consegue negar, controlar ou evitar o sofrimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Qualquer padrão vibracional contém informações trafegando na sua frequência de onda, que atua sinergicamente na totalidade do seres e coisas (independente das aparentes limitações de tempo e espaço da nossa mente, que tende a ser reducionista, causal e limitada ao tempo e ao espaço). Então, no caso da vida biológica, o padrão vibracional da homeopatia, da Medicina Antroposófica, dos Florais, dos pensamentos, das emoções, da potencialidade imaginal, das cores, sons, aromas, sabores, experiências estéticas, eventos numinosos, entre outros afetos carregados de informações, podem interferir e alterar o binômio psicossomático.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A <a href="https://ijep.com.br/cursos/show/psicologia-junguiana">prática da Análise Junguiana</a> e da <a href="https://ijep.com.br/cursos/show/arteterapia-e-expressoes-criativas">Arteterapia</a>, nesta mesma abordagem, por óbvio, também possuem este poder de interferir na frequência vibracional do indivíduo e são capazes de promover ou restabelecer a saúde, modificando padrões de pensamentos e emoções, dependendo da resultante vetorial do afeto que foi desencadeado no encontro psicoterapêutico! Mas não podemos deixar de levar em consideração que <strong>os estímulos tanto podem curar o indivíduo quanto desarmonizar e gerar degradação psíquica e ou biológica</strong>. Isso exige conscientização, respeito e responsabilidade para quem pretende aventurar-se na profissão, missionária, de curador. <a href="https://blog.sudamar.com.br/o-sentido-da-analise-na-psicoterapia-junguiana/">Por isso é urgente a análise do analista e do profissional de saúde.</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">O medo do contágio psíquico, para o profissional de ajuda que ainda não se conhece, transforma os rótulos psicopatológicos em proteções! Assim, iludidamente, ele acredita que sua alma não será &#8220;contaminada&#8221; pelo outro, que passa ser apenas uma classificação psiquiátrica, com um esquema psicofarmacológico para promover comportamentos &#8220;adequados&#8221;, ou adestrados. Neste sentido, Jung diz: Quanto mais débil é a consciência do &#8220;eu&#8221;, tanto menos importa considerar quem propriamente foi afetado, e igualmente tanto menos está o indivíduo em condição de proteger-se contra o contágio geral. Esta proteção apenas poderia ser atenuante se alguém fosse capaz de dizer: &#8220;Tu é que estás excitado ou furioso, e não eu, pois eu não sou tu&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os rótulos psiquiátricos (bipolaridade, psicopatia, esquizofrenia, depressão, entre outros) são apenas diretórios e pastas que pretendem conter o que está incomodando a norma vigente, sendo categorizado como comportamento errado numa determinada perspectiva sócio cultural. De qualquer modo, cada indivíduo é único, complexo e criativo, mesmo que esteja estereotipado em determinada categoria classificatória, não podemos deixar de compreende-lo como um ser, de corpo e alma, em busca de cura e que, os pretensos curadores, tratam pessoas ávidas pela saúde, e não de patologias em busca de condicionamentos!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Da mesma forma, os arquétipos, são vasos que contém as imagens arquetípicas e, por isso mesmo, apesar do arquétipo ser universal e estar presente na psique de todos, cada indivíduo tem sua resultante arquetípica simbólica e imaginal. Então, por exemplo, o <a href="https://blog.sudamar.com.br/complexo-materno-relacao-transferencial-e-o-puer-puela-aeternus/">complexo materno que me têm é único</a>, customizado para mim e por mim! Dependendo de como a energia psíquica está configurada, esse complexo pode estar funcionando de forma mais saudável ou patológica, <strong>apesar que isso também é relativo, porque o que podemos compreender como patológico para uns pode ser saudável para outros</strong>. Apesar disso, saber dos rótulos nos dá amplitude para o atendimento, mas se eu ver apenas um psicopata na minha frente, é melhor indicar para outro profissional que veja um indivíduo em conflito com sua alma. <strong>Deixando claro que a cura não exclui a morte e que a morte ideal e saudável é a de um indivíduo curado, em ataráxia que significa a condição serena, consciente e livre das perturbações e inquietações mentais, em estado de felicidade por saber que cumpriu o seu destino</strong>. No livro de C. G. Jung: &#8220;O desenvolvimento da personalidade &#8220;§171 temos:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;É evidente que o escopo e a razão de ser mais profunda desta nova psicologia são de natureza tanto médica como pedagógica. Uma vez que cada indivíduo constitui uma combinação nova e única de elementos psíquicos, a pesquisa da verdade deve recomeçar com cada novo caso, pois cada &#8220;caso&#8221; é individual e não pode ser derivado de fórmulas genéricas e pressupostas. Cada indivíduo é um novo experimento da vida em sua mudança contínua e uma tentativa de nova solução e nova adaptação. Erraríamos quanto ao sentido de uma psique individual se quiséssemos interpretá-la na base de opiniões preconcebidas, ainda que estejamos muito inclinados a fazê-lo. Para o médico isso significa o estudo individual de cada caso, para o educador o estudo individual de cada educando.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Quando falo em cura me refiro a integralidade, inteireza e consistência do Ser, onde o Ego aprendeu a reconhecer e relacionar-se com a Sombra e, consequentemente, com Anima ou Animus e o Self, abrindo mão da ilusão das certezas, da unilateralidade e da literalidade</strong>! Ou seja, na visão junguiana, a cura acontece quando o processo de individuação se torna presente no cotidiano profano e ordinário, em busca da consciência unitiva e ao chamado de servir ao Self e toda expressão senciente da natureza, cuidando e amando. Não podemos deixar de lembrar que o Ego é o sujeito que sofre a experiência e que todo processo evolutivo da vida nos impõe a vivência dolorosa da: diferenciação, separação, superação e integração. Essa sequência não pode ser imposta como um leito de Procusto, mas ela está presente da embriogenese à filogênese e desta à ontogênese. <strong>A jornada heroica que o ego precisa fazer para sair dos instintos e aceitar o chamado dos arquétipos, também segue por etapas sequenciais e ascendentes, num contínuo processo de aprimoramento evolutivo.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">O desenvolvimento, que significa sair de um envolvimento primitivo para outro mais complexo e evolutivo, é condição inexorável da natureza. Existe uma teleologia em tudo e parece que cada vez mais esse processo evolutivo está acelerando. A velocidade da diferenciação e separação das espécies até chegarmos no homus sapiens sapiens é evidente e é reproduzida na essência biológica e psíquica de todos os seres humanos.&nbsp;Por isso, apesar da impressão de estarmos impondo um projeto desenvolvimentista sequencial e ascendente,&nbsp;ele parece ser arquetípico e inquestionável, ainda que, historicamente e na realidade, todo processo evolutivo, assim como a vida, sempre acontece de forma imprevisível e sem linearidade, na maioria das vezes, surge na forma de saltos gerando espanto e crises.&nbsp;Em C. G. Jung, no livro a Natureza da Psique § 798 temos:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&#8220;A vida é teleológica par excellence, é a própria persecução de um determinado fim, e o organismo nada mais é do que um sistema de objetivos prefixados que se procura alcançar. O termo de cada processo é o seu objetivo. Todo processo energético se assemelha a um corredor que procura alcançar sua meta com o máximo esforço e o maior dispêndio possível de forças. A ânsia do jovem pelo mundo e pela vida, o desejo de consumar altas esperanças e objetivos distantes constituem o impulso teleológico manifesto da vida que se converte em medo da vida, em resistências neuróticas, depressões e fobias, se fica preso ao passado, sob algum aspecto, ou recua diante de certos riscos sem os quais não se podem atingir as metas prefixadas. Mas o impulso teleológico da vida não cessa quando se atinge o amadurecimento e o zênite da vida biológica. A vida desce agora montanha abaixo, com a mesma intensidade e a mesma irresistibilidade com que a subia antes da meia idade, porque a meta não está no cume, mas no vale, onde a subida começou. A curva da vida é como a parábola de um projétil que retorna ao estado de repouso, depois de ter sido perturbado no seu estado de repouso inicial.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Por isso, na vida, a dor é inevitável, mas a forma com que sofremos as experiências dolorosas é optativa</strong>, podendo variar entre as condições doentias onde a energia psíquica fica paralisada na atitude de vitimização ou na sua atitude oposta que é a de expiação. Na primeira condição a culpa é projetada para fora e na segunda a culpa é assumida pelo indivíduo, que vive buscando sua redenção sacrificial. Outra atitude paralisante e estéril, que aliás é a mais praticada e estimulada pela sociedade de consumo,  incluindo a atual medicina da patologização  e medicalização da realidade, é a de oferecer mecanismos de defesa para as dores e seus respectivos sofrimentos, aprimorando a fobia e a negação da dualidade vida e morte, por meio de mecanismos anestesiantes da angústia, ofertando excessos de consumo, incentivando compulsões, obsessões, uso de substancias psicoativas &#8211; lícitas ou ilícitas, que funcionam como amortecedores ou anestésicos da dor. <strong>Tudo parece ser válido para manter o Ego iludido e muito ocupado, apesar de cada vez mais alienado, evitando que a dimensão da alma e do Self venham à tona.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Porém, ainda nos resta a condição saudável, daquele que se entrega ao processo da vida, lidando com a dor como oportunidade de aprendizado e aprimoramento, por meio da coragem do enfrentamento da angústia e do sofrimento, em busca de ressignificação e transcendência, usando a experiência como oportunidade transformadora e evolutiva, obviamente para que uma nova experiência angustiante e dolorosa apareça, num contínuo espiral tridimensional, evolutivo e ascendente rumo ao processo de individuação, ou caminho de iluminação. Onde o Ego, na sua atitude saudável, possibilita que a energia psíquica flua nas seis direções: à frente e atrás &#8211; no eixo temporal do futuro e do passado; para dentro e para fora &#8211; no eixo vital promovendo a adaptação intrapsíquica e extra psíquica e biológica; abaixo e acima &#8211; no eixo espiritual que vai do imanente ao transcendente, do sombrio ao numinoso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Promover a reflexão dos afetos, nestas seis direções, sem perder a perspectiva do aqui e agora, possibilita a ativação da função transcendente e o surgimento do potencial criativo e integrador das dicotomias existenciais. É obvio que o exercício da reflexão gera angústia, mas é o que vai impedir o Ego ficar unilateralizado e monotemático, evitando os acontecimentos enantiodrômicos compensatórios, em decorrência dos excessos e da inflação do Ego, que as convicções cegas, as certezas absolutas e a ilusão do poder e do controle produzem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mesmo um indivíduo que atingiu a cura por meio da iluminação ou santidade, continuará, apesar de sua condição muito parecida com a individuação, vivenciando as experiências de dores e delícias, tristezas e alegrias que a vida e o viver proporcionam para que o aprender a morrer aconteça continuamente. Neste sentido, tanto a sombra, e os complexos, quanto o Self, podem atuar como o Skandalon, a pedra de tropeço, que produz dores e, dependendo da forma que sofremos essa nova oportunidade evolutiva, podemos cair com sintomas, tragédias e crises. Tudo isso pode parecer ao ego como demoníaco, e despertar o desejo mágico ou místico. <strong>O mágico busca a eliminação da queixa, sem o sacrifício do autoconhecimento, compreensão do daimon e serviço da alma</strong>. O místico, por sua vez, aceita o mistério, reconhecendo na dor o chamado para o autoconhecimento, com significado e propósito existencial. Por isso, o chamado ou a providência do Self pode ser percebido pelo Ego como desastre, tragédia, crise, castigo, possessão, azar, conversão, arrebatamento, libertação, êxtase, depressão, psoríase, infarto, sonho, criatividade, sincronicidade, insight, etc. Tudo irá depender do modo que cada um encare as dores da vida! Na carta de Jung em 30/06/1961, ele cita o demônio quando o<a href="https://blog.sudamar.com.br/daimon-e-o-destino/"> ego se distancia do Daimon</a>, da Alma ou do Self:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Estou firmemente convencido de que o princípio do mal que prevalece no mundo conduz às necessidades espirituais, que, quando negadas, levam à perdição se ele não é contrabalanceado por uma experiência religiosa ou pelas barreiras protetoras das comunidades humanas. Um homem comum, desligado dos planos superiores, isolado de sua comunidade, não pode resistir aos poderes do mal, muito propriamente chamado de Demônio. Mas o uso de tais palavras nos leva a enganos; por isso, temos de nos manter afastados delas, tanto quanto possível.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Podemos optar pela forma de sofrer as experiências dolorosas geradoras de desconforto corajosamente, agindo com o coração encarando o medo do porvir, porque esse enfrentamento nos tira da ilusão do controle e da acomodação. <strong>Então, aceitar a dor como uma oportunidade de aprendizado e ressignificação é uma benção alcançada</strong>, assim como aconteceu na via dolorosa de Jesus, onde em cada uma das 12 passagens da via sacra houve a aquisição de um conhecimento para a próxima, até capacita-lo à transcendência final após a crucificação. Claro que estou usando essa referência metaforicamente e que nossa vida pode ser plena de felicidade e alegrias, apesar dos espinhos na carne, que servem para lembrar de nossa humanidade, finitude material e evitar o risco da hybris, que <strong>devido a inflação do ego, pode nos fazer confundir com um deus.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>*WALDEMAR MAGALDI FILHO</strong>. Psicólogo, especialista em Psicologia Junguiana, Psicossomática e Homeopatia. Mestre e doutor em Ciências da Religião. Autor do livro: &#8220;Dinheiro, Saúde e Sagrado&#8221;, Ed. Eleva Cultural, coordenador dos cursos de especialização em Psicologia Junguiana, Psicossomática, Arteterapia e Expressões Criativas do IJEP (www.ijep.com.br), oferecidos em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.</p>
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		<title>A arte da cura, apesar da medicalização da vida e negação dos ritmos.</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-arte-da-cura-apesar-da-medicalizacao-da-vida-e-negacao-dos-ritmos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 11 Jul 2022 18:58:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ansiedade]]></category>
		<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicopatologia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Psiquiatria]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[Medicalização]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Tempos de tragédia, conflito, incertezas e medo nos fazem ficar paralisados. Principalmente quando perdemos a ilusão de que tínhamos controle e poder e que para qualquer problema sempre encontraríamos um remédio para resolver. Essa arrogância nos fez provocar muita desarmonia psíquica, social e ambiental e perdermos a conexão com o sagrado que habita nosso íntimo. Agora precisamos de cura, que significa integridade e amor.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Somos gerados e gestados de forma natural, em sintonia com a mãe natureza e no ritmo da dimensão lunar, como toda expressão de vida do planeta. Porém, o processo de socialização acaba tornando-nos “normais” e, em função da nossa disfuncionalidade sociocultural e econômica, que está exageradamente patriarcal e solar, na realidade ficamos normóticos, muito propensos para negar, e até destruir, nossa natureza interna e, consequentemente, a externa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesta sociedade competitiva, consumista e cumulativa, Gaia é desrespeitada, abusada e reprimida. Mas, como a natureza não pode ser controlada, começam a surgir os pruridos, as “coceiras” existenciais, por conta da desconexão com a finalidade existencial, que a homeopatia chama de Psora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Gaia, a mãe terra, deseja e necessita trocar livremente. Dar, receber e retribuir, de forma harmoniosa e circumambular, em sintonia com o Sol e com a Lua, no ritmo eterno da espiral tridimensional e evolutiva do <em>Unus Mundus</em>. Infelizmente, o antropoceno está, como fez Urano no passado, interditando esta dança cósmica do planeta Terra, conspurcando a pericorese divina.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Parece que estamos reproduzindo, arquetipicamente, relatos históricos da mitologia greco-romana, presente em nosso inconsciente coletivo, quando Urano, criado por Gaia com o propósito de estabelecer com ela uma união saudável, criativa e harmoniosa, assume o poder e aprisiona toda criação no ventre dela, nas suas entranhas, para continuar eternamente no controle e no poder.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Depois de algum tempo, Gaia surpreendeu Urano com o surgimento de seu filho Cronos já adulto, também conhecido por Saturno, que castrou seu pai com sua foice, libertando toda criação do ventre da sua mãe Gaia. Porém, como o poder patriarcal é inebriante, assumindo o lugar do pai, ele passa a devorar seus filhos para evitar futuros competidores. E assim a história segue, passando por Zeus até chegarmos nos tempos modernos, em que ainda sofremos com os reflexos de Saturno nas atitudes e ideologias presentes nas camadas dominantes e materialmente mais ricas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta realidade gera muita desigualdade, exclusão e desconforto existencial. Mantendo a maioria das pessoas alienadas de si mesmas, atuando preponderantemente na manutenção da vida, em busca de biosobrevivência, matando para não morrer, comendo para não ser comida, muitas vezes literalmente. Mesmo assim, neste estado reptiliano que transforma a maioria dos seres humanos em bem de produção, o Self tenta contribuir para que alguma possibilidade criativa venha à tona, para resgatar a humanidade e a restabelecer a conexão com alma, o universo inconsciente que aspira realização, como Carl Jung nos ensinou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os meios mais usuais, naturais e espontâneos que o Self utiliza para essa religação são os sonhos, as ocorrências de sincronicidade, as produções criativas que nos atravessam, e quando nada disso funciona, começam surgir os sintomas, com mal-estar, desconfortos e outros transtornos de humor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Caso esses pequenos desconfortos não sejam suficientes para que o indivíduo, aquele é indivisível – apesar de ser múltiplo, complexo, único, criativo e plural – encontre sua integralidade e reconecte-se ao&nbsp;Self&nbsp;e a Grande Mãe, os desconfortos vão se agravando, individual e coletivamente, até surgirem as tragédias, os desastres, os sintomas de adoecimento, que chamamos de intercorrências psicossomáticas, e as neuroses como meios para tentar restaurar,&nbsp;enantiodromicamente, os ritmos negados, para que o processo de individuação possa ser acionado e vivenciado conscientemente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A hipertrofia do patriarcado produz o monoteísmo da razão, a egolatria, o egoísmo, a rigidez hierárquica, o&nbsp;territorialismo&nbsp;exagerado, a competição desenfreada e desumanizada. Retornamos, arquetipicamente, na dimensão do Saturno devorador, e dos excessos das divindades greco-romanas&nbsp;Héstia, Ares e Hermes, respectivamente fazendo-nos defensores amedrontados e obcecados daquilo que imaginamos ser nossa propriedade territorial, lutadores parciais e violentos,&nbsp;crédulos consumidores de bugigangas e informações rasas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa realidade estimula a unilateralidade. Porém, na teoria da psicologia junguiana sabemos que a Psique é bipolar por excelência e quanto mais rejeitamos isso, tentando manter apenas um no inconsciente, abrindo mão do modo simbólico, em detrimento do diabólico, compensatoriamente, o Self irá se encarregar de fazer o contraponto opositivo, de forma tranquila, por meio de expressões criativas ou sonhos, ou de forma violenta, por meio de sintomas, como já foi dito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Todas as dinâmicas individuais, familiares e culturais, expressas na consciência, possuem seus contrapontos opositivos no inconsciente. Desta forma, quando um lado fica muito potencializado, o outro também fica provocando projeções ou identificações sombrias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesta situação atípica que estamos vivenciando, os polos podem ficar mais exacerbados, os complexos mais ativados e até autônomos, e a sombra potencializada, projetada no entorno relacional ou assumida no próprio indivíduo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No âmbito familiar tudo isso fica mais exagerado ainda, porque o núcleo familiar, devido as questões trasngeracionais, somadas com as expectativas depositadas multilateralmente, irá sintonizar todos os membros em complexos e sombra, presentes no inconsciente familiar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estudando a dinâmica do Self familiar, fica evidente que todos os membros, consciente ou inconscientemente, sabem onde fica o “botão” do pânico dos demais parentes. Desta forma, se o grupo familiar conseguir estabelecer, respeitosamente, a prática do diálogo, com transparência e socialização das emoções, conscientes da necessidade de criar meios de equidade entre todos, surgirão transformações surpreendentemente saudáveis, deixando todos mais predisponentes a seus processos de individuação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na individuação, que é uma meta utópica, chegamos na consciência unitiva da não dualidade. Neste caso, acaba a dimensão opositiva entre Ego e Sombra, Persona e Anima/us, Instintos e Arquétipos. Mas, quem é ou foi individuado? Apenas na condição de ataraxia e aponia, que é a condição da morte dos deuses gregos, que saberemos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Egoicamente deveríamos saber que não somos nada e, quando a experiência deste estado de não ser e de nada saber afloram, podemos vislumbrar reflexos do Tudo e do Todo. Apenas alguns fragmentos da pluralidade e diversidade do Self já possibilitam que aquilo que chamamos de Eu reconheça sua finitude diante da infinitude de Deus, ou Self.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como somos adestrados exageradamente para o dinamismo patriarcal, tendemos a ficar literais, materialistas, hierárquicos, competitivos, cumulativos, consumistas, rasos, superficiais, negando e fugindo desesperadamente do mundo interior, assumindo cada vez mais atribulações, compromissos e ocupações, ficando insones, compulsivos e obsessivos, até recebermos o diagnóstico de depressão, quando não surgem doenças auto imunes e outras psicossomatizações ainda mais graves.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Depressão deveria ser compreendida como uma oportunidade para descermos no “poço” para resgatar a relação com a nossa Psique ou alma. É o momento em que a energia psíquica deixa de fluir na dinâmica de progressão e adaptação ao mundo externo, voltando-se para as demandas do mundo interno, o âmbito do inconsciente, deixando de ficar direcionada exclusivamente para frente, para fora e para cima, passando para a direção regressiva, que equivale a ir para trás, para dentro e para baixo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A regressão da energia psíquica serve para que o ego possa reconhecer, servir e contemplar o Self, que tem equivalência à <em>Imago Dei</em> em nós, podendo ressacralizar nossa existência. Infelizmente, a regressão da energia psíquica, que é natural, rítmica e muitas vezes necessária para compensar unilateralidades e monotemáticas do ego, que tendem para a inflação e o monoteísmo da consciência, foi transformada em patologia e é amplamente medicalizada, para ser negada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A depressão virou um grande guarda-chuva abarcando outros movimentos da energia psíquica, com suas respectivas emoções, num senso comum que acabou com a diferenciação dela entre angústia, tristeza, melancolia, ansiedade ou medo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa narrativa reducionista e patologizante dos movimentos rítmicos da energia psíquica nega e desrespeita os mais variados ritmos, que nos atravessam consciente ou inconscientemente. Ritmos que deveriam ser aceitos como as estações do ano, onde na primavera e verão tudo fica mais colorido, quente, alegre, florido e expansivo, enquanto no outono e inverno mais cinza, frio, triste, incubado e introspectivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A mais provável razão para esse reducionismo patológico dos ritmos, movimentos e direções da energia psíquica, que são naturais e necessários, é a falta de sentido e significado existencial onde o ego sucumbe aos condicionamentos, códigos de conduta sociais ou adaptações a traumas ou micro traumas, mantendo-se aprisionado na sua miserabilidade egoísta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Este estado de negação e distanciamento do si mesmo faz com que seja negada tanto a multiplicidade psíquica, quanto a diversidade e pluralidade humana, produzindo ressentimentos ou culpas pelo passado, medo e ansiedade pelo futuro, e dificuldade de reconhecer a infelicidade comum em nós mesmos e na maioria das pessoas, que fogem da experiencia de estar presentes no presente, por conta do estado neurótico da normose materialista, competitiva e cumulativa, deixando de vivenciar o aqui e o agora como uma eterna oportunidade de aprendizado e expansão da consciência. O eterno presente do presente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A indiferenciação e a psicopatologização das emoções humanas ou estados de espírito, geralmente reduzidas na vala comum da depressão, impediu que as variações de humor, que são naturais e podem servir para anunciar as demandas do Self e nossas reações frente aos diferentes afetos que nos acometem estimulou, ainda mais, a medicalização da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A angústia, é o aperto pela falta de sentido existencial. Pode ser mais uma excelente oportunidade para o a percepção e o questionamento do mal-estar e a busca de um propósito existencial, acabou associada a depressão. A tristeza, que serve para digerirmos perdas de algo ou o fracasso, um luto a ser vivenciado, o nojo necessário para lidarmos com a efemeridade da vida, que consome vida para não ser consumida por outra vida, também virou depressão e é medicalizada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A melancolia, que também virou depressão, é a nigredo que serve para propiciar a percepção da sombra, apesar do medo do negrume da noite escura da alma, pode apresentar e anunciar a numinosidade do Eros, e nos ensinar amar estar amando de forma altruísta universal e incondicional.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A ansiedade expressa a falta de paciência, a falta e o vazio, o descontentamento pela inexistência de conteúdo, o descontentamento. Por fim, medo, que é um instrumento necessário para preservar a vida, quando fica ausente, transforma-se em loucura, e quando fica exagerado, impede a vida, mas quando suficiente e saudável pode nos proporcionar a coragem, que é a ação do coração para criarmos, transgredirmos a normose e seguirmos adiante a serviço do Self. Por isso, Jung sempre aponta para a arte, como instrumento de transcendência e ressignificação da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Cruel, obscena, egoísta, imoral, indômita, eternamente selvagem, a arte é a superioridade humana – acima dos preceitos que se combatem, acima das religiões que passam, acima da ciência que se corrige; embriaga como a orgia e como o êxtase.&#8221; (Raul Pompeia – O Ateneu)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para que as expressões criativas aflorem, a alma precisa de tempo, a anergia psíquica precisa fazer seu caminho regressivo, para que o Ego possa resgatar a criança divina, a representante da função transcendente, que pode propiciar a união mística da transmutação simbólico do chumbo em ouro, na metáfora alquímica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para isso, precisamos nos libertar das dívidas contraídas pela persona dominante, renunciar à ilusão do poder e reconhecer nossa vulnerabilidade e compreender que o mal é uma realidade presente, que precisa ser vigiado constantemente, e que a cura é a verdadeira arte. E aceitarmos que a felicidade depende de vivenciarmos e aceitarmos integralmente e conscientemente o sofrimento do nosso existir, com alegrias e tristezas, amarguras e doçuras, beldades e fealdades, ganhos e perdas, atrações e repulsões, prazeres e dores, nascimentos e mortes! Porque só encontramos a verdadeira luz depois do reconhecimento da sombra e de fazermos a união simbólica das partes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Waldemar Magaldi Filho &#8211; Psicólogo, especialista em Psicologia Junguiana, Psicossomática, Arteterapia e Homeopatia. Mestre e doutor em Ciências da Religião. Autor do livro: &#8220;Dinheiro, Saúde e Sagrado&#8221;, Ed. Eleva Cultural, coordenador dos cursos de especialização em Psicologia Junguiana, Psicossomática, Arteterapia e Expressões Criativas do IJEP &#8211; Instituto junguiano de Ensino e Pesquisa (www.ijep.com.br), oferecidos em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.</p>
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		<title>O tolo de ouro (ou “o homem que não enxergou ninguém”)</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-tolo-do-ouro-ou-o-homem-que-nao-enxergou-ninguem/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[José Luiz Balestrini Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Jun 2022 14:57:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ansiedade]]></category>
		<category><![CDATA[Depressão]]></category>
		<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Felicidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=4288</guid>

					<description><![CDATA[<p>O ouro é um dos símbolos mais marcantes que representam o si-mesmo, ou seja, a totalidade da psique. Partindo dessa afirmação, trago no presente texto uma ampliação simbólica de uma pequena história chinesa de autoria atribuída ao filósofo chinês Lao Tsé entitulada “O homem que não enxergou ninguém”. </p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-tolo-do-ouro-ou-o-homem-que-nao-enxergou-ninguem/">O tolo de ouro (ou “o homem que não enxergou ninguém”)</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Da janela digital do meu computador observo atentamente a busca inconsciente quase desesperada das pessoas por <strong>sentido</strong> e <strong>significado</strong> em suas vidas. Talvez, numa época em que a transparência exagerada não fosse algo tão presente no cotidiano do ser humano, fosse mais difícil perceber tal comportamento. Mas assim, com tudo exposto, publicado, compartilhado e reproduzido de maneira massificada na internet o tempo todo, a dificuldade é não ver. No entanto, <strong>paradoxalmente</strong>, o mais difícil é o que acaba acontecendo na prática: a maioria das pessoas passa de uma imagem para outra sem prestar a menor atenção no que elas representam em suas camadas mais profundas. A vitória é dos algoritmos, representantes fiéis da sociedade do consumo e da cultura de massas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; C. G. Jung encontrou no texto alquímico chinês chamado <em>O segredo da flor de ouro</em> a correspondência simbólica para os processos de transformações psíquicas que ele mesmo vivia em seu mundo interior; a partir daí, continuou ampliando e amplificando as imagens alquímicas encontradas nos mais variados tratados. O ouro, que já aparece inclusive no título desse texto chinês, é um dos <strong>símbolos</strong> mais marcantes que representam o <strong>si-mesmo</strong>, a totalidade e o resultado da transformação psicológica que leva à criação de consciência e ao <strong>processo de individuação</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Podemos entender o ouro como o germe do “s<em>er-um-só”, </em>é o <em>aurum philophosorum</em>, a semente que dará origem à totalidade e da qual nascerá a ave de <em>Hermes</em> que pode ser comparada a uma fênix, símbolo do constante ciclo de morte e renascimento que precisamos experienciar de maneira repetida durante nossa existência terrena. Essa ave é formada a partir dos vapores que surgem do elixir do <em>lápis philosophorum </em>que pode transformar tudo em ouro. O ouro é a meta de toda <strong><em>opus </em>alquímica</strong> (JUNG, 2011a). Ele carrega a ideia de perfeição; é como se a <strong>numinosidade arquetípica</strong> se manifestasse em sua luz celeste e divina. Em chinês o ouro é chamado de <em>Kin</em>, que etimologicamente indica algo que seria produto de uma gestação lenta, de uma transformação e do aperfeiçoamento de algo. Encontramos o mesmo princípio na <strong>alquimia</strong> ocidental: “A transmutação é uma redenção, é a transformação do homem, por meio de Deus, em Deus” (CHEVALIER; GHEERBRANT, 1990, p. 669).</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A partir da ideia do ouro como representante <strong>simbólico</strong> do <strong>si-mesmo</strong>, vamos dar atenção à uma pequena história chinesa de autoria atribuída ao filósofo Lao Tsé:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>O homem que não enxergou ninguém<a href="#_ftn1" id="_ftnref1"><sup><strong><sup>[1]</sup></strong></sup></a></em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Havia um homem no estado de Qi que desejava possuir ouro. Numa manhã ele se vestiu com sua melhor roupa e foi até o mercado local. Chegando na banca do comerciante de ouro, ele agarrou uma peça e correu como louco.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>O policial que o prendeu perguntou: “Porque você roubou o ouro na frente de tantas pessoas?”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Ele respondeu: “Quando eu peguei o ouro eu não enxerguei ninguém. Tudo o que eu vi foi o ouro”. </em>(YANG, 1957, p. 21)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Impressiona como um texto que data do século V a.C. ainda conte muito sobre o comportamento do ser humano contemporâneo, parece que aprendemos muito pouco durante esse tempo. Num breve exercício de ampliação, podemos brincar com a imagem dessa narrativa e encontrar correspondência com a vida da maioria das pessoas nos dias de hoje. A força <strong>arquetípica</strong> do ouro que, supostamente deveria ser encontrada de maneira simbólica no mundo interior, acaba projetada de maneira literal no mundo <strong>concreto</strong>. A peça de ouro que o personagem da história deseja possuir pode ser compreendida como a projeção do si-mesmo no mundo externo. Me parece que é exatamente esse o tipo de atitude que podemos observar em grande parte da população da sociedade contemporânea. Para além disso, nos dias de hoje, o ouro é transformado e confundido com as mais diversas conquistas que podem ser materiais ou até mesmo digitais. Podemos pensar em muitos exemplos, mas de uma maneira geral, mesmo os objetivos que podemos classificar como superficiais, têm por trás o desejo de <strong>poder</strong>, seja ele financeiro, econômico, social ou político.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Retomando a imagem da história, o homem, cego pelo desejo, não enxergou ninguém quando agarrou a peça de ouro. Aqui cabe a provocação: qual é ouro em nossas próprias vidas? O que temos como objetivo que nos cega fazendo com que não enxerguemos as pessoas à nossa volta? Será o dinheiro? O reconhecimento? Será o número de seguidores ou de visualizações nas redes sociais? Em qual &#8211; ou quais &#8211; objeto está projetado aquilo que só o verdadeiro autoconhecimento pode fazer surgir de maneira luminosa em nosso caminho? O ser humano se esconde atrás de valores ditados pela <strong>sociedade do consumo</strong>; encontra facilmente justificativas para as atitudes que o mantém longe do conflito ético e moral que precisa enfrentar para encontrar o verdadeiro caminho para o si-mesmo. “Esse é o meu ouro, tenho certeza!” diz a pessoa para esconder, na verdade, sua preguiça e seu medo de enfrentar o desconhecido e o sombrio que existem na sua própria psique. Quando desfazemos as <strong>projeções</strong>, somos obrigados a lidar com a realidade do mundo interior; só podemos fazer isso com disposição, prontidão e atitude para empreitar a <em>opus</em> de que tanto falaram os alquimistas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para a sociedade, nada é mais alienante e devastador do que esse comodismo e essa irresponsabilidade moral e, por outro lado, nada é mais provocante para a compreensão e a aproximação do que o abandono das projeções. Essa correção necessária requer autocrítica, uma vez que não se pode obrigar a alguém a entender suas projeções (JUNG, 2011b, p. § 577).</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Diferentes comportamentos ilustram essa busca literal por algo que deveria ser uma <strong>transformação</strong> simbólica e mostram o absurdo, o exagero, o descomedimento e o desespero do qual eu falava no início desse texto me referindo à transparência exagerada, patológica e muitas vezes falsa da vida digital e digitalizada. Algumas pessoas chegam ao ponto de pagar valores exorbitantes para literalmente comer o metal. Através de uma busca simples na internet, podemos encontrar as mais diferentes receitas que levam ouro em seu preparo; encontramos desde cobertura de sorvete decorada com fios de ouro até churrasco folheado com o metal. As informações são as mais diversas e confusas sobre se isso faz bem ou não ao organismo, a maioria das pesquisas mostra que, aparentemente, ingerir o metal não tem efeito fisiológico algum, nem para o bem, nem para o mal. Porém, o mais importante para a nossa <strong>análise</strong> <strong>psicológica</strong> do fenômeno é que isto serve como mais um exemplo da <strong>literalização</strong> inconsciente em busca do si-mesmo e da imortalidade que esse metal representa: o ouro, por ser um metal que não oxida, é símbolo da vida eterna; condição almejada, simbolicamente, pelos alquimistas taoistas. Para aqueles de menor poder aquisitivo, que não podem se alimentar de ouro, resta tentar a sorte em outras projeções: no trabalho incessante e compulsivo; na esperança de ganhar, de uma hora para outra, uma grande quantidade de dinheiro; na atitude de roubar o ouro literal de outros etc. Obviamente, esses comportamentos não são exclusivos daqueles que não possuem poder financeiro para ingerir ouro, na sociedade de hoje, parece que a maioria age da mesma maneira, procurando compulsivamente fora algo que poderia ser encontrado dentro. Na minha visão, um comportamento que pode ser visto como um dos maiores expoentes dessa projeção se revela no vício nas redes sociais, onde, paradoxalmente, as pessoas perseguem a imortalidade em imagens mortas dos outros e de si mesmas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O homem que busca o ouro fora de si torna-se um ladrão que rouba de si mesmo a possibilidade de transformação; a obtenção concreta do metal precioso não é o objetivo buscado pelos verdadeiros alquimistas porque, se a argila pode ser transmuta em ouro, então as duas coisas são uma só. Somos argila e ouro e através do processo alquímico que leva à <strong>transformação</strong> e à <strong>transmutação</strong> podemos transitar entre as duas condições. A matéria é ambivalente, portanto o próprio ouro é ambivalente, assim como <em>Hermes</em>:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hermes, o iniciado, o condutor de almas, o mensageiro divino e o deus do comércio, é também o deus dos ladrões, significando assim a ambivalência do ouro” (CHEVALIER; GHEERBRANT, 1990, p. 671).</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Hermes é o deus do comércio e dos ladrões! Na história de que tratamos parece que ele tomou o partido do comerciante, mas talvez estivesse agindo à serviço da totalidade mostrando, através do revés, que algo precisava se tornar consciente na vida do larápio. Podemos dizer que a negação da possibilidade da experiência simbólica explicita na cegueira desejosa e literal do homem enfureceu o deus que o leva ao aparente infortúnio. Ele apanha o <strong>ouro</strong>, cego pela possibilidade de supostamente encontrar o si-mesmo, mas como não leva em conta a coletividade &#8211; não enxerga ninguém &#8211; acaba preso. Ora, sabemos que a jornada do herói só é completa quando o elixir mágico, ou seja, o tesouro conquistado, é oferecido para a coletividade. Do contrário o aventureiro não é herói, é apenas mais um ser identificado com o monoteísmo da consciência. Para o <strong>processo de individuação</strong> acontecer é preciso que seja oferecido uma contrapartida para a <strong>coletividade</strong> e tudo isso caracteriza um movimento contínuo que precisa ser repetido sempre e de novo. Afinal, falamos aqui de um processo dinâmico que não alcança a estase enquanto estivermos aprisionados em nossa dimensão corpórea, até a morte será preciso lidar com a sombra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Para encerrar esse pequeno ensaio, retomo a provocação proposta anteriormente: será que aquilo que buscamos em nosso cotidiano é uma expressão verdadeira do <strong>mito</strong> do nosso <strong>significado</strong> individual, ou será que somos apenas tolos correndo atrás de algum ouro enquanto não enxergamos as pessoas à nossa volta?</p>



<p class="wp-block-paragraph">José Balestrini &#8211; Membro Analista do IJEP; Analista Didata em Formação do IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Analista Didata Responsável &#8211; Waldemar Magaldi</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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<p class="wp-block-paragraph">Imagem utilizada para fins educacionais segundo a licença: HBR, CC BY 3.0 &lt;https://creativecommons.org/licenses/by/3.0&gt;, via Wikimedia Commons; pode ser encontrada em: <a href="https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Chinesischer_Goldbarren.JPG">https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Chinesischer_Goldbarren.JPG</a></p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref1" id="_ftn1"><sup>[1]</sup></a> Essa é uma tradução livre do autor; o texto original em inglês pode ser encontrado no livro citado nas referências.</p>
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		<title>O não reconhecimento do sofrimento psíquico</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-nao-reconhecimento-do-sofrimento-psiquico-2/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Tania Pulier Garrido]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 21 Mar 2022 11:40:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ansiedade]]></category>
		<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Burnout]]></category>
		<category><![CDATA[Depressão]]></category>
		<category><![CDATA[Diagnóstico Psicológico]]></category>
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		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Sofrimento]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Apesar de o debate sobre a importância da saúde mental ter aumentado nos últimos dois anos, com o confinamento provocado pela pandemia de Covid-19, o sofrimento psíquico continua sendo pouco reconhecido e legitimado não apenas no senso comum, mas também nos ambientes de trabalho e políticas públicas. O objetivo deste artigo é, mostrando vários ângulos [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Apesar de o debate sobre a importância da saúde mental ter aumentado nos últimos dois anos, com o confinamento provocado pela pandemia de Covid-19, o sofrimento psíquico continua sendo pouco reconhecido e legitimado não apenas no senso comum, mas também nos ambientes de trabalho e políticas públicas. O objetivo deste artigo é, mostrando vários ângulos deste não reconhecimento, dar relevo ao papel da psique na saúde integral, a partir da visão da Psicossomática que dialoga com a Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo o relatório mundial da Saúde de 2001 da Organização Mundial da Saúde, que trouxe como tema a saúde mental (cf. WHO, 2001), já no início do século XXI uma em cada quatro pessoas sofreria com alguma doença mental em determinada fase de sua vida, e até 2030 a depressão se tornaria a doença mais comum do mundo e a maior causa de perdas para a população em termos de saúde pública. Entre outras ações, o relatório pede programas de acompanhamento e cuidado nas comunidades, mais profissionais preparados, apoio à pesquisa e sensibilização da população quanto à importância do cuidado com a saúde mental.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não obstante, o novo Atlas da Saúde Mental da própria OMS, que reuniu dados de 171 países durante o ano de 2020, revelou que, apesar de ter havido um aumento de programas de promoção e prevenção na área da saúde mental (de 41% dos Estados-membros em 2014 para 52% em 2020), sua eficácia é questionável, por falta de investimentos humanos e financeiros. As metas propostas não foram alcançadas e há um déficit de financiamento, mesmo com a necessidade crescente dele devido à pandemia da Covid-19 (cf. Opas, 2021).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com a pandemia, de fato, vários alertas têm sido feitos a respeito dos abalos para a saúde mental gerados por toda a situação de insegurança sanitária, social e econômica, confinamento prolongado e perdas. No Brasil, o Ministério da Saúde (2021) alertou sobre o agravamento dos transtornos que já afetavam a população (mais de 18 milhões de brasileiros sofriam de ansiedade mesmo antes da pandemia e mais de um terço dos fatores de incapacitação de pessoas nas Américas devia-se a transtornos mentais). Retomou os termos “fadiga pandêmica” e “definhamento”, usados pela OMS para trazer relevância aos sintomas de cansaço, esgotamento físico e mental, falta de propósito, desesperança, desmotivação que antecedem a pandemia, mas foram agravados e muito por ela. Soma-se a isso o luto em grandes proporções de pessoas que sofreram várias perdas e sequer puderam vivenciar os rituais fúnebres como gostariam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Que o tema da saúde mental tem sido mais tratado é indiscutível. Isso significa, porém, que o sofrimento psíquico já seja reconhecido? Nas Olimpíadas de Tóquio (2021), assistimos com perplexidade à desistência da ginasta estadunidense Simone Biles de disputar a final de solo e outras provas, alegando questões de saúde mental diante da pressão. No início de 2022, foi a vez do brasileiro Gabriel Medina desistir da Liga Mundial de Surfe para cuidar da saúde mental. Se sobre os famosos as opiniões já se dividem, e há quem considere a decisão luxo ou frescura, jogada midiática ou covardia, para os simples mortais, então, os “veredictos” costumam ser mais duros, e continua-se a ouvir com frequência expressões como “isso é só psicológico” ou “é coisa da sua cabeça”.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Real, legítimo e com potencial transformador</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No texto “Da formação da personalidade”, da conferência intitulada “A voz do íntimo”, de 1934, Jung fala dos que têm a coragem de trilhar seu próprio caminho e assim desenvolver a personalidade, para além da coação e proteção do grupo, a partir da necessidade (por acontecimentos internos ou externos), da decisão moral e da escuta e confiança na voz do íntimo que os impele a emancipar-se das convenções sociais. Neste contexto, utiliza a expressão “Isso nada mais é do que psicologia”, da parte dos que se opõem com preconceitos a este caminho (JUNG, 2020, §302). É interessante a semelhança com o julgamento do senso comum, mesmo na atualidade, sobre o sofrimento psíquico, sobretudo quando compreendemos, a partir do olhar da Psicologia Analítica, que os sintomas são manifestação do inconsciente e mesmo chamado da alma que aponta na direção do processo de individuação, do tornar-se si mesmo, neste caso como oportunidade de rever o que pode estar unilateralizado e por isso levando ao adoecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A essas reflexões caberiam todas as expressões citadas por Jung no mesmo texto, que dizem respeito ao julgamento de quem ousa afastar-se da voz do grupo social para ouvir a voz do íntimo que designa a tomar outro rumo na vida: “tal coisa nem existe”; “se existir, será naturalmente algo ‘doentio’ e, além disso, sem finalidade”; “é ‘uma pretensão descabida pensar que uma coisa dessas tenha importância’”. Lembro-me de uma vizinha que precisou ser afastada do trabalho para tratar de uma depressão. Para melhorar e mesmo como primeiros sinais de melhora, ia tomar sol, mas evitava que os colegas soubessem, pois dizia: “Vir aqui é um esforço que faço para ficar bem, mas qualquer um que me visse assim julgaria minha licença como folga enganosa. Seria tão mais fácil ter quebrado a perna! De um gesso não se duvidaria.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Reconheço angústia semelhante nos relatos que leio no livro de Psicossomática que não por acaso tem o título “Isso é coisa da sua cabeça” (cf. O’SULLIVAN, 2016). Neles, as pessoas afetadas por sintomas ou transtornos graves sem causa orgânica passam de especialista em especialista, desejando que alguém descubra uma doença clínica para explicar seu sofrimento, pois a eles a origem psíquica parece uma humilhação que não legitima a sua dor. É como se lhes dissessem “Você inventou na imaginação o seu mal e pode pará-lo a qualquer momento”, o que não é bem assim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A psique é muito mais ampla do que a consciência que, quando inflada, acredita ter o controle de todas as coisas, bem na linha dos parâmetros sociais atuais, que nos apontam o ideal da pessoa independente, autodeterminada, influenciadora, conectada, com o corpo perfeito segundo padrões bem estabelecidos, a “saúde de ferro” e o “pensamento positivo que tudo alcança”. Parece que somos todos “desviados”; a maioria, porém, lutando quixotescamente para aproximar-se o máximo possível desse estabelecido e ignorar ou combater o seu oposto. Que atualidade têm os seguintes apontamentos de Jung feitos há quase um século!</p>



<p class="wp-block-paragraph">A gente quase se sente um mágico que por suas artes manipula o que é psíquico e lhe dá a forma caprichosa que deseja. Nega-se o que é incômodo, sublima-se o que é indesejável, afasta-se com explicações o que é angustiante, corrige-se o que se julga um erro; e tem-se por fim a impressão de ter colocado tudo na mais perfeita ordem. (JUNG, 2020, §302)</p>



<p class="wp-block-paragraph">É na base da negligência de tantos outros elementos que eles mais cedo ou mais tarde cobram a conta, seja por um infarto, uma falência, uma síndrome do pânico ou uma crise de ansiedade. Enquanto vemos os limites dos outros — mais porque projetamos, sem reconhecer os nossos, do que por não os ter —, nos indignamos com o que parece “bobagem”, “frescura” ou “moleza” e nossos conselhos vão nesta linha: “levante-se!”; “tenha força de vontade!”; “dê a volta por cima!”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando ocorrem conosco, sofremos e queremos ser compreendidos, mas muitas vezes nós mesmos continuamos a não nos compreender, uma vez que não acolhemos nossos outros lados e seguimos com a visão unilateral, achando que deveríamos estar na linha reta estabelecida e buscando de curandeiros a remédios mirabolantes ou entorpecentes para tentar a todo custo retomá-la. Julgamos os outros ou nós mesmos como se tudo dependesse apenas do “eu”. “Mas nisso tudo foi esquecido o mais importante: que o psíquico não se identifica nem de longe com a consciência [&#8230;]. A maior parte do psíquico consta de fatos inconscientes que [&#8230;] podem desabar sobre nós a qualquer momento”. (JUNG, 2020, §302)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O sintoma acontece exatamente como um sinal de alerta de que algo em nós entrou em cisão e oposição com o padrão dominante da consciência. Um complexo foi constelado, ou seja, uma imagem de forte carga afetiva que toma a vontade da pessoa quase como uma personalidade autônoma, em torno de um conteúdo que une uma imagem arquetípica (imagens formadas pelo inconsciente coletivo ao longo da vivência da humanidade, como mãe, pai, criança, bruxa, bem, mal etc.) a experiências pessoais cuja memória ativa emoções (Cf. JUNG, 2018, §198). Esse conflito chama à ampliação da consciência para um novo jeito de viver.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Chama, convida, mas também pode obrigar. Isso porque o adoecimento não é um evento pontual que surge de repente, mas um processo, que começa com algo que incomoda, uma tensão que podemos escolher ignorar. Podem ocorrer disfunções, como insônia, dor de cabeça, alergias; distúrbios, quando estes se tornam mais fortes e recorrentes; alterações, que começam a aparecer nos exames; até chegar à doença, manifestada mais no físico (uma destruição celular) ou no emocional, mas nunca num único nível. Geralmente, há um fator desencadeante, que se liga com a memória do coração, ou seja, com eventos de vida que se aglomeraram a partir de um princípio difícil de precisar, e que num dado momento eclode, sobretudo se as fases silenciosas foram ignoradas. E apenas neste sentido somos responsáveis — podemos dar ouvidos ou não aos vários chamados que nos são feitos pelos fatos de vida ou pelos primeiros sintomas ou incômodos; não no sentido de se tratar de “coisas da nossa cabeça” que da forma como criamos podemos eliminar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Percebe-se nessa leitura uma visão integral do humano, biopsicosocioespiritual. Como explica Jung (2018, §418), “há não só a possibilidade, mas até mesmo uma certa probabilidade de que a matéria e a psique sejam dois aspectos diferentes de uma só e mesma coisa”. Sendo assim, o sofrimento psíquico é tão legítimo como o físico, até porque estão ligados e nenhum acontece isoladamente, apenas com formas diferentes de manifestação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ele nos ensina que precisamos rever nossa imagem de mundo limitada e unilateralizada que reduz o real ao material, aos objetos percebidos pelos sentidos, como se o imaterial fosse irreal (até o pensamento o seria, dessa forma). Ora, “aquilo que age, que atua, é real.” (JUNG, 2018, §742) Se nos afeta, se produz efeito em nós, é real. Aliás, à própria realidade material, só temos acesso indiretamente, pelas imagens formadas em nossa consciência por processos complexos do sistema nervoso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Longe, portanto, de ser um mundo material, esta realidade é um mundo psíquico que só nos permite tirar conclusões indiretas e hipotéticas acerca da verdadeira natureza da matéria. Só o psíquico possui uma realidade imediata, que abrange todas as formas do psíquico, inclusive as ideias e os pensamentos ‘irreais’, que não se referem a nada de ‘exterior’. Podemos chamá-las de imaginação ou ilusão; isto não lhes tira nada de sua realidade. [&#8230;] A realidade do psíquico, isto é, a realidade psíquica, aquela única realidade que podemos experimentar diretamente, acha-se entre as essências desconhecidas do espírito e da matéria. (JUNG, 2018, §747)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Apenas com o reconhecimento da realidade, legitimidade e mesmo importância do sofrimento psíquico — o seu potencial criativo e transformador como chamado da alma — é que se poderá tratá-lo como é devido, com atenção, interesse, respeito e tempo, e com os investimentos humanos, profissionais e financeiros previstos nos projetos públicos, que geralmente ficam nos papéis. Se insistirmos, porém, em nossa miopia de enxergar apenas o material, talvez os números, já alarmantes, precisem ficar catastróficos para percebermos que algo real e sério está acontecendo quanto à saúde.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tania Pulier — Analista em formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Lilian Wurzba — Analista didata/IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências:</p>



<p class="wp-block-paragraph">BRASIL. Ministério da Saúde. Realidade imposta pela pandemia pode gerar transtornos mentais e agravar quadros existentes, 10 out. 2021. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2021-1/outubro/realidade-imposta-pela-pandemia-pode-gerar-transtornos-mentais-e-agravar-quadros-existentes. Acesso em: 17 fev. 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG.&nbsp;<em>A natureza da psique</em>. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_____.&nbsp;<em>O desenvolvimento da personalidade</em>. 14. ed. Petrópolis: Vozes, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O’SULLIVAN, Suzanne.&nbsp;<em>Isso é coisa da sua cabeça</em>: histórias verdadeiras sobre doenças imaginárias. Rio de Janeiro: Best Seller, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE (Opas). Relatório da OMS destaca déficit global de investimentos em saúde mental, 8 out. 2021. Disponível em: https://www.paho.org/pt/noticias/8-10-2021-relatorio-da-oms-destaca-deficit-global-investimentos-em-saude-mental. Acesso em: 17 fev. 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Saúde mental: nova concepção, nova esperança, 2001. Disponível em: https://www.who.int/whr/2001/en/whr01_po.pdf. Acesso em: 17 fev. 2022.</p>



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<iframe title="O não reconhecimento do sofrimento psíquico" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/BunAyHRcuQw?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h4 class="wp-block-heading" id="h-tania-pulier"><strong><em>Tania Pulier</em></strong></h4>
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		<item>
		<title>A Sociedade da Gula</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-sociedade-da-gula/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[José Luiz Balestrini Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 04 Mar 2022 10:52:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ansiedade]]></category>
		<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[compulsão]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Partindo de uma leitura simbólica da gula como resultado do ato de alimentar indiscriminadamente e exageradamente os instintos até transformá-los em compulsões, o presente artigo levanta questões e reflexões sobre como estamos agindo individualmente e coletivamente para manter a ordem do que chamamos a sociedade da gula. A manutenção de comportamentos compulsivos parece ser um dos principais fatores que causam o afastamento do indivíduo da alma e consequentemente do processo de individuação. Talvez uma das chaves para encontrarmos um caminho harmônico para a progressão da libido esteja na possibilidade de se experienciar saudavelmente as diferentes qualidades de fome que se apresentam em nossa vida, tanto de maneira literal, quando simbólica.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-sociedade-da-gula/">A Sociedade da Gula</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://www.ijep.com.br/img/artigos/artigo_424.jpeg" alt="A SOCIEDADE DA GULA Psicologia Junguiana"/></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Pensando em como a grande maioria das pessoas hoje mantem padrões de comportamentos compulsivos direcionados às mais diferentes possibilidades que a sociedade contemporânea oferece para tal fim, o objetivo do presente artigo é propor uma discussão do que podemos entender nos dias atuais. Tanto do ponto de vista literal, quanto do simbólico, como a sociedade da gula.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-isso-faz-se-necessario-uma-pequena-revisao-daquilo-que-jung-diz-sobre-o-funcionamento-dos-instintos-e-sua-relacao-com-a-energia-psiquica">Para isso, faz-se necessário uma pequena revisão daquilo que Jung diz sobre o funcionamento dos instintos e sua relação com a energia psíquica.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Mesmo anteriormente ao seu contato com <strong>Freud</strong>, Jung já desenvolvia suas próprias ideias sobre o funcionamento da psique. Entre concordâncias e discordâncias, Jung afasta-se da teoria psicanalítica ortodoxa com relação à sua concepção de energia psíquica ou libido. <strong>Ele utiliza o instinto da fome como exemplo de uma pulsão que surge anteriormente à sexual</strong> e que não pode simplesmente ser confundida ou igualada à esta última. Diz<strong> Jung</strong>:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na fase da lactância, pelo contrário, só conhecemos a função da nutrição e cujo caráter sexual só pode ser afirmado por via da petitio principii, porque os fatos nos mostram que o primeiro causador de prazer é o ato de nutrição e não a função sexual. A obtenção de prazer não é, de forma alguma, o mesmo que sexualidade. </p>
<cite>(JUNG, 2011a § 241)</cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Nossa intenção nesse texto não é explorar com profundidade a diferença entre o que disseram Jung e Freud sobre a sexualidade como instinto mais básico. Apenas concordamos com o primeiro quando aquele afirma que, anterior à sexualidade, a pulsão pela nutrição parece surgir primeiro no desenvolvimento biológico do ser humano.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E como ele deixa claro no parágrafo acima e em outros escritos, isso não quer dizer que o ato da nutrição não possa estar conectado com o prazer. Na verdade o está, sendo talvez parte importante do erro que Freud comete quando confunde logo de início sexualidade com prazer sensual. Porém, mesmo o instinto da fome faz parte de uma ênfase que a vida coloca naquilo que é necessário para a adaptação, sobrevivência e propagação da espécie a que pertence o indivíduo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nas-palavras-do-proprio-jung-e-obvio-que-na-natureza-nao-existe-esta-separacao-artificial-nela-so-encontramos-um-instinto-vital-continuo-uma-vontade-de-conservacao-do-individuo-jung-2011a-280" style="font-size:18px">Nas palavras do próprio Jung: “<strong>É óbvio que na natureza não existe esta separação artificial. Nela só encontramos um instinto vital contínuo, uma vontade de conservação do indivíduo</strong>” (JUNG 2011a, § 280)</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Essa concepção determina a maneira como Jung enxerga e define a libido como sendo a energia psíquica que se manifesta através de valor psicológico causador de determinados efeitos e comportamentos no indivíduo</strong> (JUNG, 2013 § 869). Falando novamente sobre o desenvolvimento da criança, podemos resumir dizendo que a energia psíquica, que foi primeiramente direcionada para a saciação do instinto da fome, acaba sendo direcionada de maneira gradual para o instinto sexual  (JUNG, 2011a § 290).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A partir dessas ideias podemos formular as seguintes perguntas: será a partir desse fato que a maneira como a fome foi tratada durante a fase mais básica de nutrição influencia na conversão da libido em outro tipo de pulsão? Poderíamos dizer que a libido carregaria uma memória energética de como foi tratada, empregada e saciada durante suas manifestações anteriores, antes de ser aplicada à sexualidade e mais tarde em outros tantos aspectos da vida?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Parece razoável levantar a hipótese de que, seguindo o modelo proposto por Jung, algo como uma memória libidinal ou energética estaria envolvida na maneira como o desenvolvimento da energia psíquica acontece. Obviamente, tal memória não teria início na fase da<strong> nutrição</strong>, sendo essa apenas um momento da evolução energética que já acontecia anteriormente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-seria-impossivel-determinar-um-marco-inicial-para-essa-historia-e-devemos-inclusive-descartar-a-possibilidade-de-que-isso-ocorra-no-momento-da-concepcao-do-individuo" style="font-size:17px">Seria impossível determinar um marco inicial para essa história e devemos, inclusive, descartar a possibilidade de que isso ocorra no momento da concepção do indivíduo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Como qualquer outro órgão formador da psique, a energia deve estar carregada de memórias arquetípicas e transgeracionais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Da mesma maneira que ocorre a formação de um complexo afetivo, poderíamos dizer que a libido carregaria em sua memória uma quantidade de energia arquetípica que estaria revestida com conteúdos culturais e familiares, estes por sua vez seriam atualizados pelas experiências do próprio indivíduo. Essas ideias necessitam de aprofundamento e isso não é possível e nem é objetivo do presente artigo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Retornando para o foco principal do presente texto, vamos lembrar que Jung, citando Agostinho, afirma que a libido é um <em>appetitus, </em>e que a a volúpia é a expressão de um desejo que se sente na própria carne, um apetite por ela mesma (JUNG, 2018).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-gula-e-a-fome">A gula e a fome</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Do ponto de vista simbólico, nos parece que esse é o mesmo mecanismo da <strong>gula</strong>: uma fome insaciável que o indivíduo sente, autônoma e compulsoriamente, e que aumenta conforme a busca torna-se cada vez mais voltada para o mundo exterior ao invés de ser direcionada para o mundo interior, o si-mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sabemos bem que de acordo com a teoria junguiana esse vazio nunca poderá ser preenchido através da projeção de conteúdos que são, na verdade,  pertencentes às camadas mais profundas da psique do indivíduo. O centro (self), que se prova empiricamente uma verdade psicológica, aparece projetado em diferentes objetos, mas somente porque a pessoa está afastada de seu mundo interior (BONAVENTURE, 1975). <strong>A busca pela nutrição da alma acaba tomando forma de compulsões literais que crescem à medida que são alimentadas</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O filósofo <strong>Vilém Flusser</strong> faz um resgate interessante do pensamento oriental com relação às compulsões quando afirma que “(…) <strong>enquanto nós ocidentais matamos a fome comendo, os sábios orientais ensinariam que quanto mais se come, tanto mais faminto se estará, pois a fome é um desejo e os desejos crescem quando são satisfeitos</strong>” (BAITELLO JR, 2010, p. 14).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em suas reflexões, <strong>Flusser </strong>preocupa-se em abarcar esse fenômeno de vários pontos de vista, levando em conta como esse comportamento compulsivo pode se manifestar nas diferentes áreas da vida humana.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-ideia-parece-concordar-diretamente-com-jung-quando-este-ja-apontava" style="font-size:18px">Essa ideia parece concordar diretamente com <strong>Jung</strong>, quando este já apontava:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O estado físico de excitação chamado <em>fome</em> pode ser inconfundível, mas as consequência <em>psíquicas </em>dele resultantes podem ser múltiplas e variadas. Não somente as reações à fome ordinária podem ser as mais variadas possíveis, como a própria fome pode ser “desnaturada&#8221; e mesmo parecer como algo metafórico.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Podemos não somente usar a palavra “fome” nos seus mais diversos sentidos, mas a própria fome pode assumir os mais diversos aspectos, em combinação com outros fatores. A determinante, originalmente simples e unívoca, pode se manifestar como cobiça pura e simples ou sob as mais variadas formas, tais como a de um desejo e uma insaciabilidade incontroláveis, como, por exemplo, a cupidez do lucro ou a ambição sem freios.</p>
<cite>(JUNG, 2011b, §236)</cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph"> Nos parágrafos acima estão as chaves para o entendimento da nossa reflexão. Jung deixa claro que o resultante psíquico de um estado fisiológico pode tomar as mais diferentes formas. Em sua relação, ambas dimensões do fenômeno se retroalimentam e agem diretamente e mutuamente sobre suas transformações, um influenciando o outro e vice versa. O desenvolvimento psicológico caminha lado a lado com o biológico; não existe aqui uma ordem determinada de como as coisas acontecem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um biólogo de visão limitada poderia argumentar que a fome, do ponto de vista fisiológico, estaria na base desse processo. No outro extremo, um psicólogo poderia adotar a mesma atitude unilateralizada e afirmar que tudo teria origem na psique sendo a fome originalmente uma pulsão. Porém, se observarmos o fenômeno com verdadeira atitude científica, não é possível afirmar que tal coisa acontece dessa maneira: a expressão psicológica da fome surge no mesmo exato momento em que sua forma física aparece no corpo do indivíduo. E, mesmo levando essas duas dimensões em consideração, estariam faltando outros elementos, como por exemplo a atitude social perante a fome.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-falamos-aqui-portanto-de-recortes-possiveis-que-podemos-fazer-com-relacao-ao-fenomeno-que-na-verdade-se-prova-hipercomplexo" style="font-size:19px">Falamos aqui, portanto, de recortes possíveis que podemos fazer com relação ao fenômeno que na verdade se prova hipercomplexo</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Jung usa a expressão “desejo e insaciabilidade incontroláveis” para mostrar como pode ocorrer a conversão da pulsão instintiva em comportamentos compulsivos.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Nossa intenção não é reduzir a compulsão que aparece de forma clara nos mais diversos comportamentos contemporâneos, como por exemplo na necessidade incessante de produzir e consumir, marca do capitalismo predatório, à uma conversão patológica do instinto da fome. Queremos somente indicar que esse é um dos fatores formadores desse fenômeno.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-podemos-afirmar-entao-que-entres-outras-denominacoes-possiveis-vivemos-a-sociedade-da-gula" style="font-size:18px"><strong>Podemos afirmar então que, entres outras denominações possíveis, vivemos a sociedade da gula</strong>. </h2>



<p class="wp-block-paragraph">Além disso, não podemos deixar de levar em conta o outro extremo dessa balança patológica. Porque se, de um lado, encontramos grupos que possuem condições suficientes para alimentar indiscriminadamente e exageradamente sua fome, transformando-a em gula, do outro, iremos encontrar pessoas morrendo de fome, literalmente lutando por sua mera sobrevivência biológica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse sentido acreditamos que nosso papel como pensadores de uma psicologia transformadora seja não só o de refletir sobre o assunto, mas também agir para que seja possível uma distribuição mais igualitária de recursos. <strong>Isso passa por uma etapa de autocrítica, quando é necessário que observemos para onde encontram-se direcionadas as nossas próprias compulsões, a nossa própria gula</strong>. O quê, em nosso cotidiano, fazemos em exagero? Somos ávidos por livros, viagens, bebidas, comida, festas, clientes, aulas, dinheiro? A fome é do estômago, da alma, ou do estômago da alma?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-partir-da-nossa-reflexao-individual-mudando-habitos-compulsivos-conseguimos-dar-espaco-para-que-aqueles-que-estao-a-nossa-volta-tambem-atuem-com-mais-liberdade" style="font-size:18px">A partir da nossa reflexão individual, mudando hábitos compulsivos, conseguimos dar espaço para que aqueles que estão à nossa volta também atuem com mais liberdade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Se agimos assim, as pessoas que nos cercam também têm chance de escapar de uma dinâmica onde as relações são normalizadas e reduzidas à disputas que espelham uma vida restrita às nossas necessidades reptilianas de sobrevivência: Quem come mais? Quem ganha mais? Quem chega na frente? Quem sabe mais? Presos nessa dimensão da vida, não sobra espaço e tempo para que os indivíduos possam procurar e estar abertos para o estabelecimento de vínculos verdadeiros e amorosos. Muito menos para exercer sua capacidade simbólica que pode permitir o acesso à transformação espiritual necessária para uma ampliação de consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Jung</strong> afirma muitas vezes que o primeiro passo precisa ser dado por cada um de nós e, uma vez que estejamos traçando esse caminho de autoconhecimento, torna-se responsabilidade moral e ética agir para que aqueles que nos cercam possam também se manifestar em relações que promulguem trocas verdadeiras entre os indivíduos. Portanto, nossa mudança de comportamento pode levar não só ao nosso desenvolvimento individual, mas também ao social e cultural. Precisamos encarar o problema da gula de diferentes pontos de vista: o físico e o psicológico; o literal e o simbólico; o individual e o social.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-fome-de-que">Fome de quê?</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Arnaldo Antunes</strong>, <strong>Marcelo Fromer </strong>e<strong> Sérgio Britto</strong> perguntaram em sua música entitulada <strong>Comida:</strong> “<strong>Você tem fome de quê</strong>?” Essa mesma pergunta me foi feita um dia pelo meu analista logo no início de uma sessão. Cheguei em sua sala e já sentado em frente a ele comento “estou com fome” enquanto levo a mão à barriga para reforçar a literalidade do ato. Ele, sem poder contentar-se apenas com o literal, me pergunta: “Você está com fome de quê? Será de Eros? Ou será de Logos?”</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Talvez o ideal seja que consigamos viver a pluralidade da fome e não apenas uma</strong>. Se alimentarmos apenas uma delas, estaremos unilateralizados e agindo compulsivamente em busca de uma coisa só, deixando de lado a potencialidade da multiplicidade daquilo que podemos viver e experienciar enquanto indivíduos e coletividade. Numa tentativa de ampliar o que disse Vilém Flusser, deixo a seguinte questão: <strong>será a gula então, a fome alimentada de uma coisa só</strong>? Os três compositores respondem à essa questão, mesmo que apenas em parte, noutros versos da mesma música citada anteriormente:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">A gente não quer só comer</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">A gente quer comer e quer fazer amor</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">A gente não quer só comer</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">A gente quer prazer pra aliviar a dor</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">A gente não quer só dinheiro</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">A gente quer dinheiro e felicidade</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">A gente não quer só dinheiro</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">A gente quer inteiro e não pela metade</p>
</blockquote>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-4-3 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Música e Trabalho: Comida (Titãs)*" width="814" height="611" src="https://www.youtube.com/embed/n30hqe5lSKE?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/balestrini/">José Balestrini &#8211; Membro Analista do IJEP; Analista Didata em Formação do IJEP</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Analista Didata Responsável &#8211; Waldemar Magaldi</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Imagem</strong>: <em>Sin Esperanza, Frida Kahlo, 1945 &#8211; permitido o uso para fins educacionais e de pesquisa. Disponível em https://www.wikiart.org/en/frida-kahlo/without-hope-1945</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">BAITELLO JR, N. A serpente, a maçã e o holograma. São Paulo: Paulus, 2010.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BONAVENTURE, L. Psicologia e vida mística: contribuição para uma psicologia cristã.&nbsp; Editora Vozes, 1975.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. Freud e a psicanálise.&nbsp; Editora Vozes Limitada, 2011a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. A natureza da psique.&nbsp; Editora Vozes Limitada, 2011b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. Tipos psicológicos. Tipos psicológicos, p. 1-633, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. Símbolos da transformação vol. 5.&nbsp; Editora Vozes Limitada, 2018.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-rich is-provider-incorporar-manipulador wp-block-embed-incorporar-manipulador wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="A Sociedade da Gula" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/boPETvcEpTM?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h4 class="wp-block-heading" id="h-jose-balestrini-04-03-2022"><strong><em>José Balestrini &#8211; 04/03/2022</em></strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">Acesse nosso site: <a href="https://www.ijep.com.br/">IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Conheça nossos Congressos Junguianos: <a href="https://ijep.pages.net.br/congressos-carl-jung-ijep">Congressos IJEP (pages.net.br)</a></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Adeus ano velho, feliz ano novo</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/adeus-ano-velho-feliz-ano-novo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Tania Pulier Garrido]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 10 Dec 2021 12:35:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ansiedade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=4520</guid>

					<description><![CDATA[<p>No artigo "Adeus ano velho, feliz ano novo", que convido você a ler no site do Ijep, apresento alguns elementos da Psicologia Analítica que podem jogar luz sobre o espírito da virada, contribuindo para fazermos um bom balanço de 2021 e entrar no processo de transformação para viver melhor o 2022.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://www.ijep.com.br/img/artigos/artigo_90.png" alt="Adeus ano velho, feliz ano novo Psicologia Analítica"/></figure>



<p class="wp-block-paragraph">A virada de ano costuma se aproximar recheada de expectativas, anseios por mudanças e transformações. É tempo de fazer o balanço do ano que se passou e traçar planos e metas, com sonhos e esperanças em relação ao próximo período.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os últimos dois anos foram tempos difíceis para toda a humanidade, com a pandemia da Covid-19. Quantas perdas vivenciadas! Luto pelo falecimento de pessoas conhecidas, familiares ou amigos, e mesmo num senso coletivo diante do número tão gigantesco de mortos. Alguns perderam também a saúde e ainda estão enfrentando sequelas dessa doença ou de outras cujo tratamento foi abandonado. Sofremos perdas financeiras, alguns de emprego, e várias famílias ficaram mesmo sem moradia no Brasil.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tudo isso veio no contexto econômico de inflação galopante e altas taxas de desemprego, em um cenário político com vários escândalos, opções que podem ser consideradas genocidas porque decorreram em milhares de mortos evitáveis. O povo olha para as investigações em diversos âmbitos ora com certa esperança, ora com o costumeiro descrédito de não darem em nada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste contexto e apesar dele, o espírito da virada ainda vem forte, levando-nos a fazer um balanço do que foi vivido no ano que termina e a olhar o devir com expectativas. Mesmo sendo necessário adaptar planos de festas e viagens, os desejos para 2022 surgem espontaneamente na imaginação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E é sobre o espírito de “Adeus ano velho, feliz ano novo” que este artigo vai discorrer, à luz de elementos que a Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung nos oferece e que nos ajudam na reflexão.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Adeus ano velho</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Velho e novo formam um par de opostos, sendo, assim, ligados, como dois polos de um mesmo traçado — a visão junguiana sempre olha para as oposições que compõem a totalidade psíquica. O velho comporta sementes do novo, e o novo traz as marcas do velho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dizer “adeus ano velho”, portanto, não é simplesmente virar a página, como se apagasse a bagagem que se traz, as trilhas percorridas. Por outro lado, não é porque o ano virou no calendário que nós nos tornamos diferentes, encerramos processos, completamos ciclos, mudamos. Há uma disposição e um caminho para que as transformações aconteçam, que começam por soltar os apegos ao anterior.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse movimento insinua a passagem do tempo, expressa na palavra “ano”. O balanço recai exatamente sobre o que foi vivido, como se aproveitou ou não o tempo que já não voltará. Às vezes gostaríamos de parar esse tempo, mas perdemos mais tempo nessa resistência, tentando reter alguns momentos e indo contra o fluxo natural da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A vida natural é o solo em que se nutre a alma. Quem não consegue acompanhar essa vida, permanece enrijecido e parado em pleno ar. É por isso que muitas pessoas se petrificam na idade madura, olham para trás e se agarram ao passado, com um medo secreto da morte no coração. [&#8230;] A recusa em aceitar a plenitude da vida equivale a não aceitar o seu fim. (JUNG, 2018a, §800)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Gastamos tempo nos agarrando ao já vivido, a momentos e pessoas que se foram, com isso perdendo o aqui agora, o momento presente, que se tornará nova perda, atrás da qual passaremos a correr, buscando viver o que não foi vivido. Essa resistência ocorre sobretudo com a passagem do tempo e as mortes que ela supõe. Talvez no balanço do ano possamos nos dar conta desse movimento e fazer as pazes com a vida, com o seu fluxo, para viver mais e melhor o que nos cabe viver, o presente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para isso, porém, é preciso reconhecer um outro apego, ligado ao anterior, com relação à imagem social e aos papéis dela decorrentes. Jung chama a isso de&nbsp;<em>personas</em>, que têm a função exatamente de adaptação aos diversos ambientes sociais em que vivemos e não representam a essência do que somos, de nossa individualidade, apesar de sua escolha poder trazer algo de essencial. A palavra&nbsp;<em>persona</em>&nbsp;remete às máscaras usadas pelos atores do teatro antigo. “Como seu nome revela, ela é uma simples máscara da psique coletiva, máscara que&nbsp;<em>aparenta uma individualidade</em>, [&#8230;] quando, na realidade, não passa de um papel”. (JUNG, 2018b, §245)</p>



<p class="wp-block-paragraph">O romance “O cavaleiro que ficou preso na armadura” mostra exatamente quando um desses papéis se cola em nós — geralmente um mesmo, de forma unilateral, como a pessoa que é sempre a mãezona, sempre a ajudadora, sempre o chefe —, nos desconectando totalmente do profundo de nós mesmos, nos fazendo viver uma ilusão que incapacita também para relações autênticas com os demais. O cavaleiro “pensava ser bondoso, gentil e amoroso” (FISHER, 2001, p. 3) e esforçou-se tanto “para ser o cavaleiro número um de todo o reino”, que acabou se apaixonando por sua armadura — e fechar-se nela ainda por cima era um bom subterfúgio para escapar das conversas que não queria ter com a esposa ou os lamentos que não queria ouvir do filho — e passando a não retirá-la em momento algum. Quando tentou fazer, já não conseguia, e precisou de um longo e duro caminho de redescoberta dos próprios sentimentos e medos, de contato com aspectos dos quais não gostava tanto e que havia escondido atrás da armadura, perdendo a consciência de sua existência e, com isso, desconectando-se da própria verdade. Não foi fácil ao cavaleiro reconhecer o quanto se perdeu no processo, e menos ainda o quanto feriu os demais achando fazer o melhor para eles — “Não consigo enxergar muito bem com essa viseira na minha frente. [&#8230;] É por isso que você tem de ficar pedindo desculpas às pessoas depois de machucá-las.” (FISHER, 2001, p. 16). O caminho percorrido para se libertar da armadura passou por aprender a receber ajuda; a reconhecer e aceitar os limites; a perceber nuances de um outro lado que fazem parte de si e não são tão boas, generosas e amorosas como o único que ele via; perceber as barreiras de proteção levantadas em torno de si; assumir e encarar os próprios medos; ouvir o silêncio, nele encontrando o “eu verdadeiro” e, a partir daí, descobrir realmente as pessoas, com suas verdades e sentimentos, e a realidade à sua volta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Claro que esta é a trajetória de toda uma vida ou de boa parte dela, e não apenas de um balanço de final de ano. Jung chama de processo de individuação o caminho de tornar-se quem se é, no qual se encontra a própria individualidade, o arranjo único dos elementos universais que constituem o ser humano (cf. 2018b, §267). Cada balanço, porém, é uma oportunidade de ampliar a consciência, e ver em que aspectos e valores estamos nos prendendo de forma unilateral, talvez porque foram conquistados a duras penas. Perceber que não nos constituem, que fizeram parte em um momento, tiveram sua função, reconhecer sua passagem nos faz ao mesmo tempo ver-nos pequenos e grandes, limitados e ligados a um essencial maior que nós.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É quando me torno consciente disso que me sinto ao mesmo tempo limitado e eterno. Tomando consciência do que minha combinação pessoal comporta de unicidade, isto é, de limitação, abre-se para mim a possibilidade de conscientizar também o infinito. (JUNG, 2016, p. 388)</p>



<p class="wp-block-paragraph">E aqui cabe a entrega de todo o vivido e de nosso hoje, de quem somos e como estamos agora, ao que é maior que nós, ao Self, a imagem de Deus em nós. Dizer “adeus ano velho” é, recolhendo tudo, entregá-lo “a-Deus”, ao maior que nos transcende, e entregar-se com confiança ao processo de transformação. Esta é a questão fundamental, critério da vida, segundo Jung: “Você se refere ou não ao infinito?” (2016, p. 387). Só nos referindo podemos fazer a virada para o novo que quer vir, pois somente aí não nos prendemos “a futilidades e a coisas que não são fundamentais”, e abrimos de fato a possibilidade para uma virada de ano, de vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quanto mais o homem acentua uma falsa posse, menos pode sentir o essencial e tanto mais insatisfatória lhe parecerá a vida. [&#8230;] Se compreendermos e sentirmos que já nesta vida estamos relacionados com o infinito, os desejos e atitudes se modificam. Finalmente, só valemos pelo essencial e se não acedemos a ele a vida foi desperdiçada. Em nossas relações com os outros é também decisivo saber se o infinito se exprime ou não. (JUNG, 2016, p. 388)</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Feliz ano novo</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">O processo anterior, de balanço e desapego, confiança e soltura, abre a possibilidade para a abertura ao novo do qual, por ser novidade, sequer podemos falar muito. É um ano novo, um novo tempo, uma nova etapa, na qual entramos com um desejo: que seja feliz!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na Psicologia Analítica, em que sentido nos seria dado falar desse “feliz”? Curioso que nos Índices Gerais das Obras Completas de Jung, no qual estão os principais termos usados em sua obra, esse adjetivo não aparece, e há apenas uma ocorrência para o substantivo “felicidade”, no sentido de glória eterna (cf. 2011, p. 334), apesar de o termo estar também em “Psicoterapia e visão de mundo”, texto presente em&nbsp;<em>A prática da psicoterapia</em>. Neste, Jung diz justamente que “o objetivo mais nobre da psicoterapia não é colocar o paciente num estado impossível de felicidade”, mas sim contribuir para que possa suportar o sofrimento adquirindo “firmeza e paciência filosóficas” (2020, §185). Autorrealização, por sua vez, remete ao termo individuação, com mais de cem ocorrências nas Obras Completas (2011, p. 178; 396).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já nessa matemática aparece uma sutil dica para nós, que queremos ser felizes e vivemos em uma cultura que tanto ressalta a felicidade com suas características de prazer, bem-estar, conforto, reconhecimento,&nbsp;<em>status</em>&nbsp;e ausência de dor e sofrimento. Aquele que tanto conheceu o profundo do humano aponta para o processo de individuação como plenitude de vida, caminho que responde aos anseios humanos mais profundos, ao chamado da alma. Não é um caminho fácil ou que busca apenas prazer e autossatisfação, mas de abertura, ampliação de consciência, integração de aspectos que não costumamos querer ver de nós mesmos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Poder-se-ia perguntar aqui por que é tão desejável que um homem se individue. Eu acrescentaria que não só é desejável como também é absolutamente necessário que o seja. Caso contrário, sua fusão com os outros o levaria a situações e ações que o poriam em desarmonia consigo mesmo. Dos estados de mistura inconsciente e de indiferenciação brotam compulsões e ações que se opõem àquilo que se é realmente. Dessa forma, o homem não pode sentir-se unido consigo mesmo, nem poderá aceitar uma responsabilidade. Sentir-se-á numa condição degradada, carente de liberdade e de ética. A desunião consigo mesmo é a condição neurótica por excelência, que se torna insuportável para o indivíduo e da qual ele quer livrar-se. Mas esta liberdade só ocorre quando ele se torna capaz de agir em conformidade com o ser que ele é. (JUNG, 2018b, §373)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por que as metas que traçamos para um novo ano geralmente não passam de janeiro? Exatamente porque partimos de uma imagem ideal de nós, geralmente ainda bem ligada às máscaras e armaduras, e em direção aos valores coletivos, e não contamos com tudo o que somos — luz e trevas, bons e maus, dispostos e indispostos — nem com situações adversas que podem atravessar o caminho. A sociedade aponta para um ideal de pessoa bem-sucedida, forte, saudável, com o corpo perfeito, feliz e animada sempre, autodeterminada, e este se torna o polo de referência e atração das nossas expectativas. No primeiro dia de preguiça, sono ou cólica; no primeiro deslize (“pé na jaca”) com massas e doces; nas primeiras travas por timidez ou fraqueza; no primeiro ataque de impaciência ou agressividade; enfim, na primeira manifestação do outro lado, seja ela qual for, ficamos tristes, desanimamos, desacreditamos, ou, talvez pior, nos investimos com mais força ainda tentando “pensar positivo”, sem parar nem dar um tempo para olhar e escutar o sintoma ou manifestação desagradável e sua mensagem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se algo podemos dizer na linha do “feliz ano novo” é que ele vai na direção contrária dessa unilateralização, passando pela abertura a tomar consciência e assumir esses outros lados de nós. Por aí se descobre a “arte de viver”, “a mais sublime e a mais bela de todas as artes” (JUNG, 2018a, §789). Incrivelmente, portanto, só poderá ser feliz no sentido de pleno se não se buscar apenas a felicidade, mas caminhar muito mais na direção da autorrealização, o abraço da totalidade — meta, nunca ponto de chegada —, que pouco tem de gostoso, pois leva muitas vezes a se sentir não só como que “chafurdando na lama”, mas a&nbsp;<em>própria</em>&nbsp;lama. Nela se aproxima da singularidade e unicidade do que se é. Todos somos pequenos e frágeis, mas o arranjo dessas pequenezes e fragilidades costuradas pelos dons formam o que eu sou, a minha vulnerabilidade, a minha nota. Nota que me une a outras numa sinfonia, na comunhão só possível aos despojados de suas nobres armaduras, ligados entre si pelos laços de verdade a partir do singular, na tecitura de um infinito maior que cada elemento e conectando-os ao todo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O espírito da virada costuma nos fazer desejar uma vida melhor não só para nós, mas para todos, e um mundo melhor. Na trilha acima fica a dica, já deixada por Jung há cinquenta anos: “não há possibilidade de cura ou de melhoria do mundo que não comece pelo próprio indivíduo.” (2018b, §373) Você está disposto a esse novo começo? Feliz ano novo!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tania Pulier — analista em formação/IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Lilian Wurzba — analista didata/IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências:</p>



<p class="wp-block-paragraph">FISHER, Robert.&nbsp;<em>O cavaleiro preso na armadura</em>: uma fábula para quem busca a Trilha da Verdade. Rio de Janeiro: Nova Era, 2001.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<em>A natureza da psique</em>. Petrópolis: Vozes, 2018a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">___.&nbsp;<em>A prática da psicoterapia</em>. Petrópolis: Vozes, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">­­­___.&nbsp;<em>Índices gerais</em>: onomástico e analítico. Petrópolis: Vozes, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">___.&nbsp;<em>Memórias, sonhos e reflexões</em>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">___.&nbsp;<em>O eu e o inconsciente</em>. Petrópolis: Vozes, 2018b.</p>



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<iframe title="Adeus ano velho, feliz ano novo" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/vL2OCWTjg1k?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h4 class="wp-block-heading" id="h-tania-pulier-10-12-2021"><strong><em>Tania Pulier &#8211; 10/12/2021</em></strong></h4>
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		<title>Descomplicando o TDAH: uma leitura junguiana</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/descomplicando-o-tdah-uma-leitura-junguiana/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Elaine Cristina Bedin]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 30 Jun 2021 18:37:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Ansiedade]]></category>
		<category><![CDATA[Diagnóstico Psicológico]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[TDAH]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=6209</guid>

					<description><![CDATA[<p>Este artigo nos leva a uma reflexão sobre o sujeito TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade,) não apenas como o resultado de um conjunto de sintomas, genética e diagnóstico, mas um ser humano individual e único, um indivíduo integral, corpo e mente. </p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">A construção desse artigo surgiu por meio de estudos e evidências empíricas na clínica com crianças, adolescentes e  jovens com dificuldades de aprendizagem e em busca de soluções para seus questionamentos sobre o aprender e sobre si mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">     Existem várias maneiras de se pensar  em sujeitos com dificuldades de aprendizagem e em TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade) não podia ser diferente, assim como a forma de se pensar a própria psicologia. Depende muito de como o psicoterapeuta atua e se vê diante do objeto de estudo. Como cita Fernandez, &#8220;Historiar-se é quase sinônimo de aprender, pois, sem esse sujeito ativo e autor que significa o mundo, significando nele, a aprendizagem irá converter-se na memória das máquinas, ou seja, em uma tentativa de cópia.” (FERNANDEZ, 2001, p. 68)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Jung amplia este conceito ao afirmar que o objeto de estudo, o outro, a forma como vemos o mundo sofre a influência direta do observador, de sua história e de seus complexos, se dá através desta perspectiva que iremos observar e olhar para o TDAH, uma vez que se trata de um conceito relativamente novo, que não foi explorado por Jung.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Jung, ao contrário de muitos colegas da época que observavam os sintomas e diagnosticavam, o importante era analisar o sujeito como um ser humano individual e único. Frente a necessidade da totalidade e não apenas de uma pessoa com alguns sintomas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Segundo a Associação Brasileira de Déficit de Atenção e Hiperatividade (ABDA) “TDAH&nbsp;ou Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade&nbsp; é um transtorno neurobiológico, de causas genéticas, que aparece na infância e frequentemente acompanha o indivíduo por toda a sua vida. Ele se caracteriza por sintomas de desatenção, inquietude e impulsividade.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Pesquisas internacionais revelam que o TDAH está presente em torno de 5 a 10% da população em idade escolar, até alguns anos atrás, acreditava-se que o TDAH era um transtorno que afetava somente as crianças e que na fase adulta este simplesmente sumia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Através de estudos minuciosos (Barkley 2011, p. 11) sabe-se que, “até dois terços das crianças que têm TDAH na infância&nbsp; permanecerão com o transtorno ainda na fase adulta, isso significa que 4 a 5% de todos os adultos têm TDAH, mais de 11 milhões de adultos somente nos Estados Unidos”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;As pesquisas&nbsp; também indicam que a incidência é maior entre o sexo masculino, numa proporção de nove para um caso do sexo feminino. A maior dificuldade que ocorre é em não ser feito um&nbsp; diagnóstico precoce, isso facilitaria o tratamento e a compreensão acerca destes indivíduos, isso evitaria o sofrimento de crianças, jovens e, até mesmo, pessoas que chegam à fase adulta sem direcionamento. Atualmente, o TDAH está entre os transtornos mais estudados, mentais e emocionais, levando o indivíduo a sérias consequências, principalmente o que concerne à saúde mental, bem estar e qualidade de vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;Como citado acima, o&nbsp; diagnóstico precoce é muito importante e, para a realização do mesmo,&nbsp; deve-se procurar uma equipe multidisciplinar. Quanto mais informações obtidas, maiores as chances de&nbsp; um estudo clínico detalhado e uma avaliação precisa envolvendo: avaliação com pais ou responsáveis, avaliação com a escola, aplicação de escalas padronizadas para TDAH e, em alguns casos, os profissionais solicitam exames de imagens.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Do ponto de vista junguiano não nos preocupamos muito com o diagnóstico em si, não que ele não seja importante, mas Jung se preocupava que acima de qualquer diagnóstico está o indivíduo e a forma como ele vive o TDAH, por exemplo. Podemos observar empiricamente que os indivíduos com e sem diagnóstico no geral o vivem com muito sofrimento, não pelo transtorno em si, mas pela dificuldade em experienciar o mundo de forma dita ¨normal¨, tão e simplesmente por entender, observar e vivenciar o mundo de maneira adversa se comparado a maioria dos outros indivíduos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O TDAH é caracterizado basicamente por sintomas de desatenção, hiperatividade e impulsividade. São responsáveis por prejuízos na vida escolar&nbsp; de muitos jovens, trazendo problemas de relacionamento social e ocupacional, além do impacto negativo em sua vida familiar e interpessoal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade deriva de uma alteração no&nbsp; funcionamento&nbsp; no sistema neurobiológico cerebral, ou seja, os neurotransmissores, que passam informação entre as células nervosas (neurônios). Estes localizam-se na região frontal orbital, que é responsável por controlar ou inibir comportamentos, pela capacidade de prestar atenção, memória, autocontrole, organização e planejamento, as funções executivas.&nbsp;&nbsp;Como diz o psicólogo Thomas Brown, elas representam o maestro de uma orquestra. Sem ele, todos os instrumentistas podem ser ótimos, mas o resultado final não será bom. Ele define as prioridades a cada momento, mudar o foco de um instrumento para outro! Vale ressaltar que, alterações nas funções executivas não pertencem apenas às crianças portadoras de TDAH, muitas crianças sem o transtorno também podem apresentar essa disfunção.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Podemos dividir o TDAH em três grupos:&nbsp;</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>Tipo Desatento</li>



<li>Tipo Hiperativo/ Impulsivo</li>



<li>Tipo composto: Déficit de atenção e Hiperatividade</li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Lembrando que ao nomearmos estamos nos referindo aquela criança como portador dos sintomas. A luz da psicologia junguiana, como podemos ver esses sintomas? Qual a história desse sujeito? O que ele carrega ?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Analisando este quadro observamos os comportamentos desse sujeito desde a tenra infância, como os sintomas se apresentam e qual a frequência dos mesmos. Ao que parece uma criança nasce TDAH, o TDAH não é transformado, nem adquirido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;A criança vem ao mundo com o inconsciente coletivo, são estes &nbsp;conteúdos (arquétipos e instintos) que fazem parte da história da humanidade. Os pais, familiares, cuidadores e educadores ocupam grande papel na etapa do desenvolvimento e criação da consciência junto ao inconsciente pessoal, a tarefa que lhes é incumbida é de participar, estimular e ao mesmo tempo,&nbsp; observar essa criança. A aceitação e o desempenho desse sujeito na escola e em outros grupos sociais depende de como ele se&nbsp; desenvolveu na tenra infância e da sua constituição subjetiva. Nas palavras do Jung:</p>



<p class="wp-block-paragraph">(&#8230;) como pode alguém educar, se ele mesmo não foi educado, como pode esclarecer, quando está no escuro no que diz respeito a si mesmo, e como purificará, se ainda é impuro? (Jung, 16/1, §169 )</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Autoconhecimento e adaptação ao mundo são dois pontos fundamentais para a teoria&nbsp; junguiana, através da constituição da sua própria personalidade é que você vê e observa o outro. E nesse contexto que Jung nos mostra pistas primordiais para promovermos a autoconstrução do sujeito, através do&nbsp; cultivo da&nbsp; sua alma, afinal nunca saberemos qual será nossa influência no outro, podem ser positivas ou negativas, para o bem e para o mal. A alma é muito mais que um estado mental e cognitivo, é algo que mobiliza esse corpo e mente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;“ Por alma, porém, entendo um complexo determinado e limitado de funções que &nbsp; &nbsp; poderíamos caracterizar melhor como ‘personalidade’”. ( Jung, 2020, § 752)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Aquele mesmo sujeito que mobiliza seu corpo e manifesta traços de desatenção, impulsividade e hiperatividade, é visto e analisado por outros sujeitos que apresentam diferentes comportamentos. Geralmente comportamentos ditos “normais”, os quais são aceitos e valorizados pela sociedade, principalmente na instituição escolar, que via de regras, gostam de rotular e enquadrar crianças para facilitar o processo educacional. Este sujeito que ao mesmo tempo tenta se integrar ao grupo escola (coletivo), também precisa&nbsp; se emancipar e olhar para si, valorizando suas singularidades, sua imagem pessoal, para além da herança genética. Como isso pode acontecer se nem ele se aceita? Se nem ele consegue se reconhecer como sujeito autor, identificar e integrar a este&nbsp; corpo esses sintomas?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Para Jung o conhecimento se dá através da experiência e, nesse caso, do TDAH, se faz necessário deixar claro que a experiência é &nbsp;proveniente do seu interior e, também, tem valor de realidade. E que através dessa realidade e dessas&nbsp; experiências pessoais, podemos atingir o autoconhecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Através de nossas percepções percebemos o mundo dentro e fora de nós, como lidamos com o objeto. Segundo Jung:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“ Chamo introversão o voltar-se para dentro da libido. Expressa uma relação negativa entre sujeito e objeto. O interesse não se dirige para o objeto, mas dele se retrai e vai para o sujeito. Quem possui uma atitude introvertida pensa, sente e age de modo a deixar transparecer claramente que o motivador é o sujeito, enquanto o objeto recebe valor secundário. A introversão pode ter um caráter mais intelectual ou mais sentimental, pode ser ainda caracterizada pela intuição ou pela sensação. A intuição é ativa quando o sujeito quer um isolamento em relação ao objeto, e passiva quando o sujeito não consegue reintegrar no objeto a libido que dele reflui. Se a atitude introvertida é habitual, podemos falar de tipo introvertido. ( Jung 6/1,2020,§ 864)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;“ Extroversão. É o voltar-se para fora da libido. Com este conceito designo uma relação manifesta do sujeito para com o objeto no sentido de um movimento positivo do interesse subjetivo pelo objeto. Todo aquele que se encontra num estado extrovertido pensa, sente e age em relação ao objeto, e isto de maneira direta e externamente perceptível, de modo a não pairar dúvida sobre sua atitude positiva com o objeto. Por isso a extroversão é de certa forma uma transferência do interesse do sujeito para o objeto. Se a extroversão for intelectual, o sujeito pensa no objeto; se for sentimental, ele sente no objeto. Fala-se de extroversão ativa quando ela é querida intencionalmente, e de extroversão passiva quando é forçada pelo objeto, isto é , quando o objeto atrai por própria conta o interesse do sujeito, eventualmente contra a vontade deste.” ( Jung 6/1,2020, § 797)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Através de experiência e observação clínica, tenho notado que, a maioria das crianças e jovens que chegam apresentam atitude introvertida concentrando-se sua libido em fatores subjetivos, dificultando ainda mais seu processo de adaptação frente às exigências da sociedade. O tipo introvertido é fortemente influenciado às suas necessidades interiores. Suas decisões e ações são condicionadas a fatores subjetivos, sendo pouco sociáveis, deixando de externalizar seus desejos e dificultando seu relacionamento com o mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Além da atitude introvertida, o sujeito é&nbsp; influenciado por um modo mais racional ou irracional de agir e se adaptar ao meio. Jung chamou de quatro funções da consciência : Pensamento e Sentimento ( racionais ), Intuição e Percepção ( Irracionais).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Intuição (vem de intueri= olhar para dentro) (&#8230;) É a função psicológica que transmite a percepção por via inconsciente. Tudo pode ser objeto dessa percepção, coisas internas ou externas e suas relações.(&#8230;) Na intuição, qualquer conteúdo se apresenta como um todo acabado sem que saibamos explicar ou descobrir como este conteúdo chegou a existir. É uma espécie de apreensão instintiva, não importando o conteúdo.” ( Jung, 2020,§ 865)</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Percepção (Sensação) &#8211; É a função psicológica que proporciona a percepção de um estímulo físico. Por isso é idêntica a percepção. (&#8230;) A sensação relaciona-se não apenas com os estímulos externos, mas também com os internos, isto é, com as transformações dos órgãos internos. Por isso é ela, em primeiro lugar, sensação dos sentidos, ou seja, percepção pelos órgãos dos sentidos e pelo &nbsp;“sentido de corpo”. Por um lado, é elemento da representação porque fornece a ela a imagem percebida do objeto externo e, por outro lado, é elemento do sentimento porque dá a este o caráter de afeto, através da percepção das transformações corporais…&#8221; ( JUNG, 2020, § 889)</p>



<p class="wp-block-paragraph">“ Pensamento &#8211; Considero pensamento uma das quatro funções psicológicas básicas. O pensamento é aquela função psicológica que, de acordo com suas próprias leis, faz a conexão ( conceitual) de conteúdos de representação a ele fornecidos. É uma atividade perceptiva e, como tal, deve ser distinguida em atividade de pensamento ativa e passiva. O pensamento ativo é uma agir de vontade, e o passivo é um acontecer.” ( Jung, 2020, § 873)</p>



<p class="wp-block-paragraph">“ Sentimento &#8211; (&#8230;) O sentimento é, em primeiro lugar, um processo que se realiza entre o eu e um dado conteúdo, um processo que atribui ao conteúdo um valor definido no sentido de aceitação ou rejeição ( prazer ou desprazer), mas também um processo que, abstraindo do conteúdo momentâneo da consciência ou de sensações momentâneas, pode aparecer como que isolado, como disposição de ânimo ( humor).(&#8230;) O sentimento é uma espécie de julgamento, mas que se distingue de julgamento intelectual, por não visar ao estabelecimento de relações conceituais, mas a aceitação ou rejeição subjetivas.” ( Jung, 202-, § 896).</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Às funções conscientes mais desenvolvidas Jung chama de Funções superiores e, as menos desenvolvidas, inconscientes, de inferiores.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Apesar das funções estarem presentes em todos os sujeitos, na maioria das vezes um ou outro tipo, pelas circunstâncias externas ou questões subjetivas, é predominante. E, essa observação se faz necessária quando você olha para esse sujeito&nbsp; TDAH. A partir dessa visão junguiana podemos transitar entre o individual e o coletivo, entre a luz e a sombra, funções superiores, inferiores e auxiliares,&nbsp; lembrando que para Jung trazer a luz, é trazer à consciência novos conteúdos, àqueles que nos incomodam e temos mais dificuldade em lidar. Fácil? Não, mas necessário.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Acredito que, nesse jogo e através dessa integração mente e corpo, o&nbsp; sujeito TDAH com suas próprias percepções possa vir a&nbsp; reconhecer em si mesmo características que o levem ao seu fortalecimento e&nbsp; buscar estratégias para entrar em contato com&nbsp; as suas próprias sombras, inquietação e desatenção. Afinal, mente e corpo não são duas substâncias separadas, são sim aspectos complementares de uma única e mesma realidade contínua.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Manter o equilíbrio e a conexão mente e corpo é um grande desafio, para o indivíduo que carrega os sintomas&nbsp; e para todos nós psicoterapeutas que tentamos adentrar em uma esfera de forças inconscientes e como cita Jung “ nos expomos aos poderes que ameaçam a consciência”. Atingir a especificidade de cada um, valorizando suas singularidades além dos muros da escola e de um sistema de ensino avassalador, para além da genética buscando restabelecer conexão com sua essência mais profunda.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Elaine Bedin, membro analista em formação pelo IJEP – SP</p>



<p class="wp-block-paragraph">E. Simone D. Magaldi, didata responsável</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">FERNÁNDEZ, Alícia. Os Idiomas do Aprendente, Porto Alegre: Artmed, 2001.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG,C.G., A Prática da psicoterapia, Petrópolis: Vozes, 2013</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Tipos Psicológicos. 7ª Ed. Petrópolis: Vozes, 2020</p>



<p class="wp-block-paragraph">BARKLEY, R. A. Vencendo o TDAH: Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Porto Alegre: Artmed 2011.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-wp-embed is-provider-associacao-brasileira-do-deficit-de-atencao wp-block-embed-associacao-brasileira-do-deficit-de-atencao"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<blockquote class="wp-embedded-content" data-secret="VFzato0gYh"><a href="https://tdah.org.br/sobre-tdah/o-que-e-tdah/">O que é TDAH</a></blockquote><iframe class="wp-embedded-content" sandbox="allow-scripts" security="restricted"  title="&#8220;O que é TDAH&#8221; &#8212; Associação Brasileira do Déficit de Atenção" src="https://tdah.org.br/sobre-tdah/o-que-e-tdah/embed/#?secret=Gy7w9Gguj4#?secret=VFzato0gYh" data-secret="VFzato0gYh" width="600" height="338" frameborder="0" marginwidth="0" marginheight="0" scrolling="no"></iframe>
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<figure class="wp-block-embed is-type-rich is-provider-incorporar-manipulador wp-block-embed-incorporar-manipulador wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="DESCOMPLICANDO O TDAH, UMA LEITURA JUNGUIANA" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/TuywxC-4xxQ?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h4 class="wp-block-heading" id="h-elaine-bedin-30-06-2021"><strong><em>ELAINE BEDIN &#8211; 30/06/2021</em></strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<item>
		<title>O Mundo VUCA – uma visão a partir da psicologia analítica</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-mundo-vuca-uma-visao-a-partir-da-psicologia-analitica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gilmara Alves]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 21 Aug 2020 14:44:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ansiedade]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=6177</guid>

					<description><![CDATA[<p>Este artigo tem como proposta trazer à reflexão como o profissional da atualidade se coloca no mundo. O mundo o trabalho é VUCA (volátil, incerto, complexo e ambíguo). Há uma grande preocupação em se adequar de modo propositivo e não deixar que oportunidades passem e se percam. Podemos pensar no mundo VUCA com um paralelo à nossa psique, no que tange à sua complexidade e vastidão, mas como responder às demandas de fora, sem se perder do ponto de vista interno, daquilo, que de verdade é o nosso propósito? </p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"> “Até você se tornar consciente, o inconsciente irá dirigir a sua vida e você vai chamá-lo de destino.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Carl Gustav Jung)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vocês já ouviram falar do mundo VUCA<a href="https://www.ijep.com.br/artigos/show/o-mundo-vuca-uma-visao-a-partir-da-psicologia-analitica#_edn1"><sup>[i]</sup></a>? Este termo surgiu na década de 90, no exército americano, para traduzir cenários instáveis e complexos dos campos de guerra, cenários estes que exigiam métodos e ferramentas apropriadas para um ambiente desafiador e agressivo. O universo corporativo adotou o termo, por assim dizer, para explicar as mudanças rápidas e desenfreadas que a dinâmica do mundo globalizado impõe, por meio do avanço da tecnologia e da enxurrada de informações. Vale destacar que o acrônimo VUCA&nbsp;é uma abreviação de quatro palavras em inglês e que algumas empresas e consultorias já se referem ao termo como VICA, para uma adequação&nbsp;à&nbsp;língua portuguesa. Este acrônimo significa:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>V (<em>volatility</em>; volátil) – relacionado à dinâmica e a velocidade em que as mudanças acontecem;</li>



<li>U (<em>uncertainty</em>; incerto) &#8211; não se tem mais certezas, há muitas variáveis e acontecimentos, gerando dúvidas e inseguranças sobre o futuro;</li>



<li>C (<em>complexity</em>; complexo) – trata-se aqui da complexidade dos ambientes, o que interfere nas tomadas de decisão. Os impactos são enormes e imprevisíveis;</li>



<li>A (<em>ambiguity</em>; ambíguo) &#8211; há diversas visões sobre um mesmo ponto, ao mesmo tempo. Não há clareza sobre o que os acontecimentos efetivamente significam, com equívocos de relação causa-efeito.</li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph">Textos e artigos que tratam deste tema, apresentam estratégias para lidar com este cenário, definindo novas atitudes e competências, que se baseiam em se reinventar e sobreviver para encarar um ambiente de caos. O dito antídoto para o mundo VUCA é o seguinte: para a vulnerabilidade a clareza; para a incerteza, a visão; para a complexidade, o entendimento; para a ambiguidade, a agilidade. Interessante notar que, quando se fala nos antídotos, em nenhum momento há um pensamento que remeta o indivíduo ao seu mundo interno, para algum tipo de reflexão e de análise mais profunda. As respostas que são solicitadas remetem apenas a camadas mais superficiais da personalidade do indivíduo&nbsp;– o ego e a persona. Um mundo que acontece no aqui e agora, com tanta rapidez e intensidade, não deixa espaço para que as pessoas reflitam. Elas apenas respondem às demandas, levando o indivíduo cada vez mais para fora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sendo esse o cenário em que as corporações atuam, os profissionais estão submetidos a uma pressão cada vez mais exagerada por responder de forma exata e propicia a este turbilhão de questões, sendo considerado o melhor, aquele que tem as melhores respostas, os mais ágeis, sem equívocos e&nbsp;que não podem perder nada. Será? O mais importante, por vezes, se perde neste furacão de acontecimentos e de cobranças.&nbsp;&nbsp;E,&nbsp;o&nbsp;que se perde&nbsp;é o sentido, o significado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Do ponto de vista da psicologia analítica, arrisco dizer que a psique e o mundo VUCA se assemelham, dada sua complexidade, variedade e impossibilidade de contenção e controle. Para Jung, a psique se constitui de duas dimensões&nbsp;– a consciente e a inconsciente, sendo que a psique consciente se forma a partir do inconsciente. Logo, são duas instâncias complementares, partes de um todo, que precisam estar em constante comunicação na busca de equilíbrio e integração, que traz para o funcionamento psíquico a sensação de integridade e totalidade. Sempre que há uma polarização na dinâmica consciente, cria-se uma oportunidade, por meio de sonhos, sintomas e doenças,&nbsp;&nbsp;para que o indivíduo busque o equilíbrio. Jung afirma:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Na medida do alcance de nossa experiência atual, podemos dizer que os processos inconscientes se acham numa relação compensatória em relação&nbsp;à&nbsp;consciência. Uso de propósito a expressão &#8220;compensatória&#8221; e não a palavra &#8220;oposta&#8221;, porque consciente e inconsciente não se acham necessariamente em oposição, mas se complementam mutuamente, para formar uma totalidade: o si-mesmo (Selbst). De acordo com esta definição, o si-mesmo é uma instância que engloba o eu consciente. Abarca não só a psique consciente, como a inconsciente, sendo portanto, por assim dizer, uma personalidade que também somos”&nbsp;(JUNG, 2015,&nbsp;§&nbsp;274)&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">No caso desta corrida desenfreada por um “lugar&nbsp;– de destaque &#8211; ao sol” este desequilíbrio, ou unilateralização da consciência, ocorre quando há uma identificação do indivíduo com a psique coletiva. Estas são as soluções de ordem e controle do ego, do “tem que”, na busca de respostas de forma insana às demandas do mundo externo com seus recursos de organização, analise, filtro e contenção.&nbsp;É paradoxal, pois ao mesmo tempo que o ego tem o papel de proteger a consciência, sem se dar conta, está a deixando mais suscetível&nbsp;à&nbsp;invasão de complexos e conteúdos inconscientes, uma vez que a consciência não dá conta de conter o inconsciente. Não dá para “diminuir” a psique coletiva inconsciente para caber na consciência. É como se apenas um meio de gestão social pudesse conter o planeta, com todas as suas peculiaridades e diferenças.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O perigo deste tipo de resposta é que, com o ego neste pseudo “controle”, o indivíduo tem uma sensação de que está tudo certo, uma vez que está sendo capaz de responder a tudo que lhe é apresentado no mundo externo. Mesmo com sintomas e doenças, dando sinais de que o aparelho está falhando, dada a desconexão com seu mundo interno, ele não percebe ou não entende estes sinais.&nbsp; E ainda sai com uma chancela importante, sendo reconhecido por dar conta de tantas e tão variadas coisas, complexas e desafiadoras. Mas o preço a longo prazo é muito caro. Por estas repostas que são vazias, condicionadas por uma irreflexão e pouco condizentes com seu verdadeiro propósito, o indivíduo julga se conhecer, e se pauta nas respostas do coletivo sobre quem é, e como deve ser uma pessoa de sucesso e de prestigio.&nbsp;E, assim, dissemina esta forma superficial de autoconhecimento como única e verdadeira. Daí o mundo corporativo ter suas receitas prontas de sucesso e seu pouco espaço para acatar erros e dúvidas, que são compreendidos como fracasso e como risco para uma carreia brilhante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É&nbsp;fato que há mudanças e que algumas empresas já perceberam que esta realidade não mais é aplicável para a nova geração de profissionais que chegam ao mundo do trabalho. Mas as necessidades de alcançar um lugar de destaque e o entendimento que este lugar só é&nbsp;possível de se ter para alguns poucos afortunados que se destacam, ainda é um pensamento que rege a vida de muitos profissionais. Os ambientes são competitivos e as oportunidades são escassas. É por isso que as demandas do mundo VUCA, agregadas ao universo das corporações, afetam tão exaustivamente as pessoas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Falar em solução&nbsp;é muito pretensioso. O jogo está em andamento e não há um efetivo fim. É&nbsp;possível se pensar e sugerir caminhos alternativos a este coletivo insano. Uma alternativa é o verdadeiro caminho do autoconhecimento, onde o indivíduo se volte para dentro, busque sua verdadeira missão e propósito de vida. Para isso deverá dar um freio no que o mundo externo lhe pede, ou ao menos, da forma como este mundo lhe pede. Isso já é um grande passo. É&nbsp;impossível negar a vida, suas exigências e nossa necessidade de estarmos presente nelas, mas a forma de viver esta realidade, esta sim, deve nos pertencer.&nbsp; O autoconhecimento é um exercício difícil e de uma vida inteira, mas tão banalizado por este mundo&nbsp;<em>“</em><em>fast food</em><em>”</em>, onde identificamos quem somos apenas pelas respostas que damos, não por quanto de verdade figura&nbsp;internamente. Conforme Jung,&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O homem comum, que é predominantemente o homem da massa, em princípio não toma consciência de nada nem precisa fazê-lo, porque, na sua opinião, o único que pode realmente cometer faltas é&nbsp;o grande anônimo, convencionalmente conhecido como &#8220;Estado&#8221; ou &#8220;Sociedade&#8221;. Mas aquele que tem consciência de que algo depende de sua pessoa ou pelo menos deveria depender, sente-se responsável por sua própria constituição psíquica, e tanto mais fortemente, quanto mais claramente se dá conta de como deveria ser, para se tornar mais saudável, mais estável e mais eficiente. (JUNG, 1991, §&nbsp;410)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com este citação concluo este artigo, deixando aqui uma provocação: de pensarmos que, ao mesmo tempo que não podemos estar alheio ao mundo, manter-se no mundo tão identificados com este homem comum, enquanto profissionais de massa, respondendo mecânica e autonomamente as demandas desta sociedade, estaremos nos afastando de nosso propósito e também de nossa auto responsabilidade por nosso assim chamado destino, bem como das possibilidades de real crescimento e de apropriação de quem realmente somos. Estaremos à deriva, em um mundo irreflexivo onde não se sabe, com tamanha velocidade de mudanças, para onde vamos!</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Gilmara Marques</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Analista Junguiana em formação pelo IJEP.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Contatos: 11. 99201-0118 –&nbsp;gmf.alves@terra.com.br</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<em>A natureza da psique</em>. 3ª ed. Vol. VII/2, Petrópolis: Vozes, 1991.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<em>O eu e o Inconsciente</em>. 27ª ed. Vol. VIII/2, Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br/artigos/show/o-mundo-vuca-uma-visao-a-partir-da-psicologia-analitica#_ednref1"><sup>[i]</sup></a>&nbsp;<a href="https://www.youtube.com/watch?v=ZuEF76Xs_Mw">https://www.youtube.com/watch?v=ZuEF76Xs_Mw</a></p>



<h4 class="wp-block-heading" id="h-gilmara-marques-21-08-2020"><strong><em>Gilmara Marques &#8211; 21/08/2020</em></strong></h4>



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		<title>Ansiedade na relação mãe e filha: o mito de Deméter e Coré-Perséfone</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/ansiedade-na-relacao-mae-e-filha-o-mito-de-demeter-e-core-persefone/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Monica Martinez]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 21 Aug 2020 12:23:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ansiedade]]></category>
		<category><![CDATA[Complexo Materno]]></category>
		<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Numinoso]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[ansiedade]]></category>
		<category><![CDATA[complexo de mãe]]></category>
		<category><![CDATA[Maternidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Certa vez eu estava no vestiário da academia de ginástica depois da aula. Uma mãe, de cerca de uns 45 anos, compartilhava com as amigas uma grande dor. A filha havia passado no vestibular da maior universidade pública brasileira. Na hora de fazer a matrícula, ela havia dito para a mãe-torista: “Mãe, eu te amo, [...]</p>
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<p class="wp-block-paragraph">Certa vez eu estava no vestiário da academia de ginástica depois da aula. Uma mãe, de cerca de uns 45 anos, compartilhava com as amigas uma grande dor. A filha havia passado no vestibular da maior universidade pública brasileira. Na hora de fazer a matrícula, ela havia dito para a mãe-torista: “Mãe, eu te amo, mas daqui em frente eu vou sozinha”. E saltou do carro. Lá foi a mocinha de 18 anos, lépida e faceira, tomando as rédeas de seu destino.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Lembro de ter tido presença de espírito de congratular a mãe estarrecida. “Parabéns, você fez um grande trabalho como mãe. O contrário – se sua filha estivesse colada em você – é que seria um problema”. Talvez tenha suavizado um pouco a dor, não sei dizer. A gente nunca sabe. Tempos depois, ao pensar no fato, me veio de estalo o mito de Deméter e Perséfone, que simboliza bem a ansiedade da separação de mães e filhas.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A raiz do que sabemos deste mito pode ser encontrada no hino à Demeter, atribuído a Homero, que teria vivido no século VII a.C.&nbsp;(HOMERO, 2009). A narrativa começa no Monte Olimpo. Como sintetiza bem Junito Brandão, Deméter era a “deusa maternal da Terra”&nbsp;(BRANDÃO, 2014, p. 165). A sociedade grega era patriarcal e escravagista. Neste contexto, o regente do Olimpo, Zeus, era casado com a ciumenta Hera, mas teve tantos casos extraconjugais que as diversas genealogias gregas não dão conta de organizar. Um deles foi com sua irmã, Deméter, que teve com ele sua única filha, Core – que quer dizer jovem ou virgem.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Deméter literalmente blindou a filha numa eterna primavera, longe de homens e problemas. Se Hera personifica o arquétipo da esposa, Deméter é o da mãe. Certo dia, a jovem estava colhendo flores quando se aproximou de um abismo para colher um narciso. O que Core não sabia é que sua beleza havia despertado o interesse de um tio, Hades, o senhor do submundo. A jovem foi, por assim dizer, tragada para o seio da terra.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sua mãe ficou desconsolada. Que mãe não ficaria? Por nove dias e noites, segundo o relato de Homero, vagou em vão ansiando por recuperar a filha. A deusa Hécate se apiedou e foi ter com ela, dizendo que nada havia visto. Já o deus solar Hélio, que tudo vê, relatou quem tinha sido responsável pelo rapto.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; As queixas de Deméter não moveram uma pena. Desconsolada, decidiu não voltar ao Olimpo, mas também deixou de cuidar da Terra. Como uma anciã, Doso, foi parar em Elêusis, cidade que fica a uns 20 km de Atenas. Lá foi acolhida por uma poderosa família local. Mas uma deusa não perde a majestade e tempos depois o casal percebeu que não se tratava de uma mortal comum (o fato de a terem pego tentando “imortalizar” o filho caçula no fogo fez com que ficassem com a pulga atrás da orelha). Deméter acaba pedindo que lhe construam um belo templo, no qual os gregos realizavam anualmente um festival que celebrava os mistérios eleusinos – um ritual de iniciação que celebrava o mito da mãe e filha.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sem sua deusa, a terra fica devastada O clamor dos seres humanos e dos deuses amolece Zeus, que negocia com o irmão e pede a Hermes – o mensageiro dos mundos – que fosse ao submundo resgatar Perséfone. Notem que a jovem esposa do deus Hades agora recebe um novo nome, que personifica sua nova persona ou máscara social.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Hades aceita o trato, mas não é bobo. Dá uma romã para a jovem esposa comer antes de partir. Há a tradição de que aquele que comer algo nos mundos subterrâneos não poderá mais sair dele.&nbsp; Hades&nbsp;não diz isto à esposa, claro, mas gosto de pensar que Perséfone sabia muito bem o que aconteceria se provasse daquela fruta, símbolo da fertilidade.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;O resultado é que todos têm de ceder um pouco, isto é, suas personas tem de se ajustar à nova realidade. Deméter fica com a filha por nove meses. Hades fica com a esposa por três meses. &nbsp;Contudo, gosto de pensar que Perséfone fica consigo mesmo por 12 meses do ano. Para mim, foi ela quem mais ganhou com a história, pois que a jornada permitiu à jovem perder a inocência da inconsciência em troca da descoberta sobre si mesma.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Meses depois, estava eu no consultório atendendo uma analisanda grávida. Uma das dores da jovem era como ensinaria a filha a se relacionar com os homens. Internamente, eu sorri. O novo papel social que a gestante estava sendo convidada a assumir estava devidamente ativando arquétipos ligados a maternagem. Salve Deméter! Mas a ansiedade a estava levando longe demais. Naquele dia, eu a conduzi gentilmente de volta ao tempo presente e à consciência do seu corpo que se arredondava com suavidade. Por meio da conversa das tramas de tricôs e da vida.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Monica Martinez</strong>, analista em formação do IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">BRANDÃO, J. DE S.&nbsp;<strong>Dicionário Mítico-Etimológico</strong>. Rio de Janeiro: Vozes, 2014.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">HOMERO.&nbsp;<strong>Hino homérico II: a Demeter</strong>. São Paulo: Odysseus, 2009.&nbsp;</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Monica Martinez&nbsp;</em></strong></h4>
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