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	<title>Arquivos Depressão - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos Depressão - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>O Sol, a Lua e a Depressão</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-sol-a-lua-e-a-depressao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Cristina Lunardi Munaretti]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 28 Mar 2026 15:15:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[Depressão]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este ensaio propõe, à luz da psicologia analítica e da alquimia, uma reflexão sobre os princípios solar e lunar em relação à psique feminina e masculina. No nível individual, a depressão pode ser compreendida simbolicamente como movimento de descida e possibilidade de coniunctio entre consciente e inconsciente. No nível coletivo, a regeneração da Terra pode ser pensada a partir de um reflexo do equilíbrio da psique individual, que surge a partir do símbolo – resultado da tensão criativa e da união dos opostos.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-sol-a-lua-e-a-depressao/">O Sol, a Lua e a Depressão</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo: </strong>Este ensaio propõe, à luz da psicologia analítica e da alquimia, uma reflexão sobre os princípios solar e lunar em relação à psique feminina e masculina. No nível individual, a depressão pode ser compreendida simbolicamente como movimento de descida e possibilidade de coniunctio entre consciente e inconsciente. No nível coletivo, a regeneração da Terra pode ser pensada a partir de um reflexo do equilíbrio da psique individual, que surge a partir do símbolo – resultado da tensão criativa e da união dos opostos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Este ensaio foi inicialmente escrito em outubro de 2025, quando ainda não sabíamos qual seria o tema do congresso do Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa (IJEP) de 2026; coincidentemente &#8211; ou não &#8211; este texto conversa com a proposta do congresso que é “<strong><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/xi-congresso-junguiano-alquimia-e-ecologia" type="link" id="https://www.institutojunguiano.com.br/xi-congresso-junguiano-alquimia-e-ecologia">Ecologia alquímica &#8211; transmutar a Consciência para Regenerar a Terra</a></strong>”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-um-tanto-comum-as-pessoas-se-queixarem-da-falta-de-sol" style="font-size:18px">É um tanto comum as pessoas se queixarem da falta de sol.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Moro na região Sul do Brasil e no inverno de 2025 tivemos muitos dias sem sol.  Quando a primavera se aproxima por aqui o que mais escuto em meu consultório é “<strong><em>Que bom que o sol voltou!</em></strong>” ou qualquer outra expressão que remeta a isso. Nunca tive até hoje sequer um cliente que chegasse e me dissesse: “<em><strong>Preciso de lua!</strong></em>” ou “<strong><em>Estou sentindo falta da lua</em></strong>”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O sol, com toda sua luz e calor, enquanto símbolo, pode representar o yang, o <strong>masculino</strong>, a ação; a lua, com seu brilho noturno, por sua vez, pode representar o yin, o <strong>feminino</strong>, o receptivo. No LIVRO DOS SÍMBOLOS (2012, p.22) temos a seguinte descrição referente ao sol:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para os olhos dos adoradores do sol ao longo dos milênios, os raios solares parecem transferir propriedades mágicas de fertilidade, criatividade, profecia, cura e até (para os alquimistas) uma potencialidade viva para a completude que reside em cada indivíduo.</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E com relação à lua:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">(&#8230;) a lua preside à concepção, gestação e nascimento, aos ciclos agrícolas da semeadura e da colheita, a toda a transformação do ser. É a dona da humidade; dos líquidos da vida incluindo a seiva, a saliva, o sémen, o sangue menstrual, o néctar e os venenos de plantas e animais. Rege os vapores húmidos que promovem o apodrecimento, a humidade que cai como chuva ou orvalho, o fluxo e refluxo de todas as massas de água; o resultado favorável ou desfavorável de toda navegação. (O LIVRO DOS SÍMBOLOS, 2012, p.26)</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-estas-definicoes-nos-mostram-que-os-dois-astros-apresentam-qualidades-complementares-e-nao-e-possivel-viver-sem-nenhum-deles-embora-o-pequeno-satelite-terrestre-tenha-suas-funcoes-e-propriedades-minimizadas-e-desvalorizadas-por-alguns-ou-muitos-individuos" style="font-size:18px">Estas definições nos mostram que os dois astros apresentam qualidades complementares, e não é possível viver sem nenhum deles, embora o pequeno satélite terrestre tenha suas funções e propriedades minimizadas e desvalorizadas por alguns – ou muitos &#8211; indivíduos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O sol é a luz que ilumina, mas que também ofusca o que está nas sombras. Excesso de luz solar pode cegar não somente os olhos físicos, mas também a psique, pode queimar a pele, tornar a terra infértil. A alternância entre luz solar e seu reflexo em meio à escuridão através da luz lunar, é uma das coisas que faz a vida existir da maneira como a conhecemos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-como-pensar-a-psique-em-termos-de-solar-e-lunar-carl-gustav-jung-fala-sobre-as-consciencias-feminina-e-masculina-relacionando-as-ao-sol-e-a-lua-da-seguinte-forma" style="font-size:18px">Mas como pensar a psique em termos de solar e lunar? Carl Gustav Jung fala sobre as consciências feminina e masculina, relacionando-as ao sol e à lua da seguinte forma:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Declarações feitas por homens a respeito da psicologia feminina por princípio, são sempre prejudicadas pelo fato de que sempre se verifica a mais forte projeção da feminilidade inconsciente justamente onde mais necessário se faz o julgamento crítico, isto é, aí onde o homem está envolvido emocionalmente. Luna, tal qual a alquimia a descreve por meio de metáforas, é primeiramente uma imagem especular da feminilidade inconsciente do homem; entretanto, ela é o princípio da psique feminina, no mesmo sentido em que o Sol o é da psique masculina. Essa caracterização salta aos olhos principalmente na concepção astrológica do Sol e da Lua, para nem se falar da pressuposição mitológica, que é eterna. Não podemos certamente imaginar a alquimia sem a influência dessa sua irmã mais velha, a astrologia. Na avaliação psicológica das luminárias, é preciso considerar as declarações desses três domínios. Então, se Luna caracteriza a psique feminina do mesmo modo que o Sol a masculina, nesse caso o Sol como consciência seria unicamente um assunto masculino, o que evidentemente não é possível, pois a mulher também possui consciência. Como até agora na parte apresentada identificamos o Sol como consciência e a Luna como o inconsciente, seríamos agora forçados a concluir que a mulher não pode ter consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O erro da nossa formulação consiste primeiro em termos colocada a Lua simplesmente em lugar do inconsciente, quando isso vale sobretudo para o inconsciente do homem; segundo, em termos deixado de considerar que a Lua não é apenas sombria, quando ela é também um corpo que fornece luz ou, em outras palavras, que ela também pode representar a consciência. Este último é então o caso das mulheres: a consciência da mulher em certo sentido tem mais caráter de Lua do que de Sol. Sua “luz” é a luz mais suave da Lua, que antes une do que distingue. Ela não faz, à maneira da luz forte e deslumbrante do Sol, com que os objetos deste mundo, os quais não devem ser confundidos entre si, apareçam naquela forma inexoravelmente distinta e separada, mas reúne muito mais o que está perto e o que está longe em uma aparência enganadora, transforma por suas artes mágicas o pequeno no grande e o elevado no baixo, dilui as cores em um azulado crepuscular e reúne a paisagem noturna em uma unidade jamais suspeita. (JUNG, 2012, §216-7)</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-a-psique-feminina-c-g-jung-2012-223-ainda-nos-diz" style="font-size:18px">Sobre a psique feminina, C. G. Jung (2012, §223) ainda nos diz:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O Sol, que personifica o inconsciente feminino, não é o Sol diurno, mas algo correspondente ao Sol niger. (&#8230;) O sol inconsciente da mulher, ainda que escuro não é ἀνθραϰώδης (preto como carvão), como se diz da Lua, mas é antes como que um eclipse solar permanente, que raríssimas vezes é total. A consciência feminina normalmente está provida tanto de escuridão como de luz, de modo a não poder ser inteiramente clara, como também seu inconsciente não pode ser completamente escuro. Entretanto, onde as fases lunares forem suprimidas por causa de uma influência solar demasiada forte, aí tanto assume a consciência feminina um caráter solar geralmente claro, como também, em oposição, o inconsciente se torna cada vez mais preto – niger nigrus nigro – e esses dois estados se tornam com o tempo insuportáveis para ambas as partes.</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-cabe-assim-ressaltar-que-homens-e-mulheres-possuem-tanto-aspectos-solares-quanto-lunares-em-sua-psique-ainda-que-entendidos-em-termos-estruturais-de-forma-diferenciada" style="font-size:18px">Cabe assim, ressaltar que homens e mulheres possuem tanto aspectos solares quanto lunares em sua psique, ainda que entendidos em termos estruturais de forma diferenciada.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Sobre isto a alquimia tem muita coisa para dizer, que será de tanto maior interesse para nós, por sabermos que a Lua é símbolo muito apreciado por certos aspectos do inconsciente – isso, contudo, vale apenas para o homem. Para a mulher a Lua corresponde à consciência, e o Sol ao inconsciente. Isto está relacionado com o tipo sexual oposto no inconsciente (anima para o homem, animus para a mulher!). (JUNG, 2012, §154)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Pode-se dizer que vivemos em uma sociedade que preza pelo valores solares e nega, negligencia ou reprime o inconsciente lunar no homem ou a consciência lunar na mulher, é excluir uma parte de quem somos. Não podemos esquecer que “no homem é a Anima lunar, na mulher é o Animus solar” (JUNG, 2012, §219).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-negar-uma-parte-de-nossa-psique-pode-nos-mutilar-e-trazer-serias-consequencias-tanto-a-nivel-individual-quanto-coletivo" style="font-size:18px">Negar uma parte de nossa psique pode nos mutilar e trazer sérias consequências tanto a nível individual quanto coletivo.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nossa vida civilizada exige uma atividade concentrada e dirigida da consciência, acarretando, deste modo, o risco de um considerável distanciamento do inconsciente. Quanto mais capazes formos de nos afastar do inconsciente por um funcionamento dirigido, tanto maior é a possibilidade de surgir uma forte contraposição, a qual, quando irrompe, pode ter consequências desagradáveis. (JUNG, 2013a, §139)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Como uma das consequências dessa repressão ou negação de aspectos da psique podemos ter aquilo que hoje a sociedade conhece como o diagnóstico patológico de depressão, que pode ser entendido como uma tentativa da totalidade psíquica (Self) de reconectar o indivíduo que vive afastado do que sua alma deseja e precisa. Muitos desses indivíduos aprenderam a valorizar apenas a sua consciência, e até certo momento da vida isto se faz necessário &#8211; construir, crescer, adquirir bens&#8230;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-partir-de-certo-momento-no-entanto-isto-pode-passar-a-perder-o-sentido-e-se-a-pessoa-nao-se-permitir-escutar-o-chamado-de-sua-alma-este-pode-se-impor-atraves-de-sintomas-fisicos-ou-psiquicos-dentre-os-quais-aquilo-que-foi-convencionado-chamar-de-depressao" style="font-size:18px">A partir de certo momento, no entanto, isto pode passar a perder o sentido. E se a pessoa não se permitir escutar o chamado de sua alma, este pode se impor, através de sintomas físicos ou psíquicos, dentre os quais aquilo que foi convencionado chamar de depressão.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Dentre os sintomas para Transtorno Depressivo Maior, de acordo com o DSM-5-TR (ASSOCIAÇÃO PSIQUIÁTRICA AMERICANA, 2023, p.183) um dos seguintes sintomas deve estar necessariamente presente: humor deprimido ou anedonia – sendo este último o termo técnico para falta de interesse ou prazer.<a href="#_ftn1" id="_ftnref1">[1]</a></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A unilateralidade é uma característica inevitável, porque necessária, do processo dirigido, pois direção implica unilateralidade. A unilateralidade é, ao mesmo tempo, uma vantagem e um inconveniente, mesmo quando parece não haver um inconveniente exteriormente reconhecível, existe, contudo, sempre uma contraposição igualmente pronunciada no inconsciente, a não ser que se trata absolutamente de um caso ideal em que todas as componentes psíquicas tendem, sem exceção, para uma só e mesma direção. É um caso cuja possibilidade não pode ser negada em teoria, mas na prática raramente acontecerá. A contraposição é inócua, enquanto não contiver um valor energético maior. Mas se a tensão dos opostos aumenta, em consequência de uma unilateralidade demasiado grande, a tendência oposta irrompe na consciência, e isto quase sempre precisamente no momento em que é mais importante manter uma direção consciente. (JUNG, 2013a, §138)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Indivíduos com sintomas depressivos podem ter, por exemplo, insônia ou hipersonia, este último seria o aumento da necessidade de sono. Nas duas situações podemos pensar simbolicamente que esta é uma tentativa de levar a pessoa ao inconsciente; seja diretamente através do aumento do sono levando o indivíduo ao mundo onírico; seja indiretamente, através da insônia, que muitas vezes faz com que o sujeito fique ruminando pensamentos &#8211; nesta situação não esperamos encontrar o indivíduo achando saídas alegres e entusiastas para suas questões, mas sim pensamentos de autocrítica, desvalor, culpa. Em casos mais graves pode haver pensamentos de morte, o que pode representar o retorno ao inconsciente. &nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-etimologicamente-a-palavra-depressao-vem-do-latim-deprimere-que-significa-pressionar-para-baixo" style="font-size:18px">Etimologicamente a palavra depressão vem do latim <em>deprimere</em>, que significa “pressionar para baixo”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O prefixo “de” pode ter o significado de separação/negação ou de movimento descendente. E realmente, os sintomas relativos a este quadro são caracterizados por uma descida, a necessidade de uma descida – a <em>katábasis</em>. C. G. Jung nos diz que a “depressão é sempre uma condição introvertida” (JUNG, 2013b, §63). E é assim, muitas vezes, quando estamos no fundo, mergulhados em nós mesmos, que surge o criativo. Se estamos sempre felizes, sem pressão nenhuma, mudar para quê? A tensão, em doses moderadas, nos move. Suportar a tensão, a angústia, é que pode fazer expressões criativas da alma surgirem. </p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Estou mais do que convencido de que o caminho da vida só continua onde está o fluxo natural. Mas nenhuma energia é produzida onde não houver tensão entre os contrários; por isso, é preciso encontrar o oposto na atitude consciente. (&#8230;) Visto do ponto de vista unilateral da atitude consciente, a sombra é uma parte inferior da personalidade.&nbsp; Por isso, é reprimida, devido a uma intensa resistência. Mas o que é reprimido tem que se tornar consciente para que se produza a tensão entre os contrários, sem o que a continuação do movimento é impossível. (&#8230;) É no oposto que se acende a chama da vida. (JUNG, 2014, §78)</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-depressao-nos-leva-para-aqueles-lugares-da-psique-que-nao-queremos-ou-tememos-enquanto-ego-olhar-ela-faz-com-que-visitemos-nossos-proprios-demonios-para-que-quem-sabe-se-tornem-daimons-guias-espirituais" style="font-size:18px">A depressão nos leva para aqueles lugares da psique que não queremos ou tememos &#8211; enquanto ego &#8211; olhar. Ela faz com que visitemos nossos próprios demônios, para que, quem sabe, se tornem daimons &#8211; guias espirituais.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">As antigas civilizações há muito tempo já cultuavam todo tipo de deuses: a sociedade egípcia &#8211;  berço da alquimia – dispunha de representações tanto do sol quanto da lua como deuses; para eles, por exemplo, o deus sol era Rá; e a deusa lua, Ísis.  Para os romanos, o sol era representado pelo Sol Invictus; para os gregos, Hélio ou Apolo; para os japoneses, Amaterasu; Sunna para os nórdicos. Já a lua, era, por exemplo, Diana para os romanos; Selene, Ártemis e Hécate para os gregos. Nichols (2007, p.308) nos lembra que Ártemis, deusa da lua, é prima e companheira de Hécate, a negra feiticeira das encruzilhadas; e enfrentá-la significava a morte espiritual ou pressagiava um renascimento, talvez os dois. A lua era vista em seu lado positivo e também negativo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nos dias atuais, podemos dizer que os deuses são cultuados de forma diferente. Embora diariamente seja noticiada a previsão do tempo nas mais variadas mídias acerca de que se teremos dias inundados com luz solar ou não, a lua ganha destaque apenas em situações pontuais, por exemplo quando ocorrem eclipses &#8211; ou seja, quando há uma relação dela com o astro rei.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-eclipses-solares-ocorrem-quando-a-lua-se-interpoe-entre-o-sol-e-a-terra-ocultando-parcial-ou-totalmente-a-luz-solar-e-uma-noite-subita-em-pleno-dia" style="font-size:18px">Eclipses solares ocorrem quando a lua se interpõe entre o sol e a Terra, ocultando parcial ou totalmente a luz solar. É uma noite súbita em pleno dia.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Simbolicamente podemos pensar, no homem, como a consciência solar estar sendo obscurecida pelo próprio inconsciente; ou a mulher dominada por seu animus (o sol niger), ou ainda os instintos emergindo suspendendo a clareza racional do ego (a consciência sendo eclipsada pelo inconsciente).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ja-os-eclipses-lunares-ocorrem-quando-a-lua-e-ocultada-total-ou-parcialmente-pela-sombra-da-terra-ou-seja-a-terra-fica-interposta-entre-o-sol-e-a-lua-ocasionando-sombra-nessa-ultima" style="font-size:18px">Já os eclipses lunares ocorrem quando a lua é ocultada total ou parcialmente pela sombra da Terra; ou seja, a Terra fica interposta entre o sol e a lua, ocasionando sombra nessa última.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No eclipse lunar total temos a conhecida lua de sangue, pelo aspecto vermelho que a lua toma. Simbolicamente, neste momento, a lua mergulha na sombra da Terra, há um apagamento temporário da luz solar refletida, uma descida mais profunda ao inconsciente. O tom avermelhado que a lua toma nesse momento nos lembra a fase alquímica da rubedo, um tempo de iniciação e transmutação, um tempo glorioso, mas que logo se esvanece. É nestas ocasiões que podemos ver uma relação mais direta entre estes dois corpos celestes, a alquimicamente chamada <em>coniunctio</em>.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A <em>conjunctio</em> ocorre no mundo inferior, acontece no escuro, quando já não existe luz alguma brilhando. Quando estamos completamente inconscientes, quando a consciência nos abandona, então algo nasce ou é gerado; na mais profunda depressão, na mais profunda desolação, nasce a nova personalidade. Quando nos sentimos esgotados esse é o momento em que ocorre a <em>conjunctio</em>, a coincidência dos opostos. (VON FRANZ, 1980, p. 141)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Von Franz (1980 p.141), ainda lembra que “<em>a coniunctio não ocorre na lua cheia, mas na lua nova, o que significa que ocorre durante a noite mais escura, quando nem mesmo a lua brilha, e nessa noite profundamente escura é que o sol e a lua se unem</em>”.  A lua nova é (ou quase é) invisível, e o que não aparece aos olhos pode estar germinando no escuro. Sendo assim, podemos pensar que a depressão não necessariamente deva ser vista como algo negativo uma vez que pode trazer à consciência elementos até então desconhecidos.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim, a menos que haja uma psicose latente, as depressões devem ser encorajadas e as pessoas, aconselhadas a entrar nelas e a ser deprimidas – sem tentar escapar através da televisão ou das <em>Seleções</em> – e, se as depressões dizem que a vida nada significa e que nada vale a pena, deve-se aceitar isso e perguntar o que fazer. O que há a fazer é ouvir, mergulhar cada vez mais fundo até se atingir o nível da energia psicológica onde alguma ideia criativa pode surgir; de repente, no fundo, aparecerá um impulso de vida e de criatividade que havia sido ignorado. (VON FRANZ, 1980, p. 87)</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-isso-nao-significa-romantizar-quadros-graves-ou-desconsiderar-a-necessidade-de-cuidado-medico-e-psicoterapico-quando-indicados-mas-reconhecer-que-o-sintoma-tambem-carrega-uma-mensagem-simbolica" style="font-size:18px">Isso não significa romantizar quadros graves ou desconsiderar a necessidade de cuidado médico e psicoterápico quando indicados, mas reconhecer que o sintoma também carrega uma mensagem simbólica.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É necessário que haja um equilíbrio entre o solar e o lunar. Como o símbolo do taijitu (símbolo da filosofia taoísta que representa a dualidade do Yin e do Yang, onde uma divisão curva dentro de um círculo apresenta cores opostas – preto e branco – que se complementam. Dentro da parte escura (velho Yin) há um pequeno círculo branco (jovem Yang), e dentro da parte clara (velho Yang) há um pequeno círculo preto (jovem Yin)) somos feminino e masculino, somos luz e sombra, somos sol e lua.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A função transcendente não se desenvolve sem meta, mas conduz à revelação do essencial no homem. No início não passa de um processo natural. Há casos em que ela se desenvolve sem que tomemos consciência, sem a nossa contribuição, e pode até impor-se à força, contrariando a resistência do indivíduo. O sentido e a meta do processo são a realização da personalidade originária, presente no germe embrionário, em todos os seus aspectos. É o estabelecimento e o desabrochar da totalidade originária, potencial. (JUNG, 2014, §186)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Enquanto vivermos reféns de uma consciência, negando a existência da força do inconsciente, viveremos na incompletude. “A função psicológica e transcendente resulta da união dos conteúdos conscientes e inconscientes”. (JUNG, 2013a, §131)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-depressao-enquanto-simbolo-nos-forca-a-olhar-para-o-outro-lado-para-o-lado-sem-luz-escuro-de-onde-pode-surgir-uma-nova-luz-e-um-terceiro-elemento-criativo" style="font-size:18px">A depressão, enquanto símbolo, nos força a olhar para o outro lado, para o lado sem luz, escuro, de onde pode surgir uma nova luz e um terceiro elemento criativo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Von Franz</strong> (1980, p.127) exemplifica usando a imagem de Jonas no ventre da baleia, indicando que a “<em>viagem marítima noturna – psicologicamente, um estado de conflito e depressão em que a pessoa é forçada a prestar atenção ao inconsciente – equivale à pedra filosofal</em>”. É nesse mergulho forçado nas profundezas que se inicia o lento processo de consolidação de um novo eixo interior. “<em>Se a pessoa experimentou por tempo suficientemente longo esses grandes altos e baixos acarretados pelo encontro com o inconsciente, forma-se então, lentamente, um núcleo inabalável</em>” (VON FRANZ, 1980, p.233)</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se a pessoa tocou o fundo do inferno, nada existe mais embaixo, e aí é onde começa a rocha sólida. (&#8230;) Se chegou até aí sem quebrar, então é pouco provável que isso venha a ocorrer, pois algo coagulou dentro da pessoa e tornou-se sólido; e apoiada nisso, de acordo com o objetivo do trabalho, ela pode retirar-se para a casa interior da sabedoria, que está edificada sobre uma rocha que é inabalável – o texto fala até em eternidade.&#8221; (VON FRANZ, 1980, p. 233-4)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Como dizem Lafourcade e Sabina (2025)<a href="#_ftn2" id="_ftnref2">[2]</a> na letra da música <em>Maria La Curandera</em>, <em>“Y recuerda siempre que tú eres la medicina”</em> (em livre tradução: lembre-se sempre que você é o remédio), é preciso recordar que a cura não está fora, a cura está na união do externo com o interno.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Não existe regeneração da Terra sem regeneração da psique. A devastação externa reflete uma desertificação interna. Quando o inconsciente é negligenciado, a natureza (em seus aspectos interiores e exteriores) também adoece.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-crise-ecologica-pode-ser-vista-como-expressao-coletiva-de-uma-hipervalorizacao-do-solar-e-de-um-empobrecimento-lunar" style="font-size:18px">A crise ecológica pode ser vista como expressão coletiva de uma hipervalorização do solar e de um empobrecimento lunar.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Transmutar a consciência para regenerar a Terra pode começar pela coragem de atravessar nossas noites escuras interiores, nossas depressões. Talvez a verdadeira ecologia alquímica possa começar quando conseguirmos aprender a honrar e respeitar o significado tanto o sol quanto a lua que habitam em nós. Quando a unilateralidade cede lugar à tensão criativa dos opostos, algo novo pode nascer, não apenas na psique individual, mas também no modo como habitamos o mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/cristina-lunardi-munaretti/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/cristina-lunardi-munaretti/">Cristina Lunardi Munaretti – Analista em Formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">José Luiz Balestrini Junior – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:16px"><strong>REFERÊNCIAS</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">ASSOCIAÇÃO PSIQUIÁTRICA AMERICANA. <em>Manual Diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5-TR.</em> 5.ed. texto revisado. Porto Alegre:&nbsp; Artmed, 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>Mysterium Coniunctionis: pesquisas sobre a separação e a composição dos opostos alquímicos na alquimia</em> (OC 14/1). 6.ed. Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>______A natureza da psique</em>(OC 8/2). 10.ed. Petrópolis: Vozes, b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______<em>A vida simbólica: escritos diversos</em> (OC18/1) 7.ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______<em>Psicologia do inconsciente</em>(OC 7/1). 24.ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">LAFOURCADE, Natalia; SABINA, María. <em>María La Curandera</em>. Disponível em: <a href="https://www.letras.mus.br/natalia-lafourcade/maria-la-curandera/">https://www.letras.mus.br/natalia-lafourcade/maria-la-curandera/</a> Acesso em: 19 out 2025. </p>



<p class="wp-block-paragraph">NICHOLS,  Sallie. <em>Jung e o tarô: uma jornada arquetípica.</em> São Paulo: Cultrix, 2007.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O LIVRO DOS SÍMBOLOS – Reflexões Sobre Imagens Arquetípicas. Eslováquia: Taschen, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">VON FRANZ, Marie-Louise. <em>Alquimia – Introdução ao Simbolismo e à Psicologia.</em> São Paulo: Cultrix, 1980.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Imagem: autoria própria</em></p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px"><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a> Para o diagnóstico de <strong>Transtorno Depressivo Maior</strong>, de acordo com o DSM-5-TR, cinco ou mais dos seguintes sintomas devem estar presentes por pelo menos duas semanas e representam uma mudança no funcionamento anterior; sendo que os itens (1) e/ou (2) necessariamente devem estar presentes. (1) humor deprimido na maior parte do dia, quase todos os dias, conforme indicado por relato subjetivo ou por observação feita por outras pessoas; (2) acentuada diminuição do interesse ou prazer em todas as atividades na maior parte do dia quase todos os dias; (3) perda ou ganho significativo de peso sem estar fazendo dieta (5% do peso corporal em um mês), (4) insônia ou hipersonia quase todos os dias; (5) agitação ou retardo psicomotor quase todos os dias; (6) fadiga ou perda de energia quase todos os dias; (7) sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva ou inapropriada quase todos os dias; (8) capacidade diminuída para pensar ou se concentrar, ou indecisão, quase todos os dias; (9) pensamentos recorrentes de morte (não somente medo de morrer), ideação suicida recorrente, sem um plano específico, um plano específico de suicídio ou tentativa de suicídio. Os sintomas apresentados devem causar sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo. O episódio não é atribuível aos efeitos fisiológicos de uma substância ou condição médica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px;line-height:0.3"><a href="#_ftnref2" id="_ftn2">[2]</a> “Cúrate, mijita, el dolor con el calor del sol</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px;line-height:0.3">Y el frío de la luna</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px;line-height:0.3">Endulza la mañana con aroma de lavanda, romero, eucalipto</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px;line-height:0.3">Y que venga la calma</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px;line-height:0.3">Con el vaivén del mar que va y viene, deja que te agarre</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px;line-height:0.3">Con el vaivén del mar que va y viene, deja que te ame</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px;line-height:0.3">Cúrate, mijita, con el amor del más bonito, haga caso a la intuición</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px;line-height:0.3">Mira el mundo entero con el ojo aquel que lleva uste&#8217; en la frente</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px;line-height:0.3">Cúrate, mi niña, con amor del más bonito</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px;line-height:0.3">Y recuerda siempre que tú eres la medicina</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px;line-height:0.3">Cúrate, mi niña, con amor del más bonito</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px;line-height:0.3">Y recuerda siempre que tú eres la medicina</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px;line-height:0.3">Que se vuelvan polvo, que se vuelvan polvo todos los dolores</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px;line-height:0.3">Que los queme el fuego, que los queme el fuego y vengan nuevas flores.”</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Depressão e Redes Sociais: Impactos, relações e desafios</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/depressao-e-redes-sociais-impactos-relacoes-e-desafios/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Pollyana de Padua]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Feb 2026 13:00:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Depressão]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: As redes sociais ocupam um papel central na vida atual, moldando comportamentos, relações e a percepção de si. Embora favoreçam conexões e acesso a informação, também podem intensificar conflitos internos e contribuir para quadros depressivos. A partir dos conceitos junguianos como persona, sombra, complexos e energia psíquica, o texto discute como o uso das redes potencializa comparações, favorecendo a unilateralização da atitude consciente e influenciando simbolicamente na construção de uma nova identidade contemporânea. O artigo destaca que as redes sociais distorcem profundamente a construção da personalidade, ampliando a distância entre ego e conteúdos inconscientes. Por fim, o artigo é um convite ao processo de autoconhecimento como via criativa para o resgate do indivíduo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-redes-sociais-tornaram-se-parte-central-da-vida-contemporanea-influenciando-comportamentos-formas-de-interacoes-e-percepcoes-de-si-mesmo" style="font-size:19px">As redes sociais tornaram-se parte central da vida contemporânea, influenciando comportamentos, formas de interações e percepções de si mesmo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Embasado nessa perspectiva, apesar de benéfica para conexões, informações e aproximações humanas, o risco é significativo para o desenvolvimento ou o agravamento de quadros depressivos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A partir de conceitos como <strong>persona, sombra, complexo, energia psíquica </strong>e<strong> processo de individuação</strong>, podemos discutir como o uso das redes pode intensificar conflitos psíquicos, favorecer comparações e ativar complexos negativos. O artigo também analisa a função simbólica das redes sociais e sua influência na formação de uma nova identidade contemporânea.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-redes-sociais-tem-o-poder-de-transformar-radicalmente-o-modo-como-o-sujeito-constroi-e-apresenta-sua-identidade" style="font-size:19px">As redes sociais têm o poder de transformar radicalmente o modo como o sujeito constrói e apresenta sua identidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Esse ambiente intensifica tensões entre persona, determinada aqui como máscara social, e sombra, enquanto aspectos não admitidos de si. Em muitos casos, tais tensões podem favorecer dinâmicas internas que alimentam quadros depressivos, especialmente quando a energia psíquica se fixa em comparações, expectativas idealizadas e buscas compulsivas por validação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A <strong>depressão </strong>constitui uma categoria importante de transtorno psiquiátrico caracterizada como&nbsp; um transtorno do humor. Entretanto, ampliando na perspectiva junguiana, é compreendida como um fenômeno psíquico que pode emergir de influxos da energia psíquica e da dissociação entre consciência e inconsciente. Neste sentido, quando um indivíduo transita pelas redes sociais, encontra um espaço fértil para conflitos internos, intensificando o estado depressivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O conceito de <strong>persona</strong>, ou máscara social, bem elaborada por Jung, necessária para adaptação do ego, encontra-se nas redes sociais hiperestimulada: filtros, narrativas idealizadas e a autopromoção criam uma imagem que muitas vezes pouco corresponde à personalidade.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>Ao analisarmos a persona, dissolvemos a máscara e descobrimos que, aparentando ser individual, ela é no fundo coletiva; em outras palavras, a persona não passa de uma máscara da psique coletiva. No fundo, nada tem de real; ela representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade, acerca daquilo que “alguém parece ser: nome, título, ocupação, isto ou aquilo”. (JUNG, 2015, p.47, §246)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Quando o indivíduo se identifica excessivamente com essa <strong>persona digital</strong>, inicia-se uma série de riscos à própria pessoa: perda das emoções autênticas, fortalecimento da comparação com personagens idealizados, imersão em um mundo fantasioso &#8211; criando um abismo entre o self e o ego -. Tais elementos, promovem a unilateralização do ego, gerando uma discrepância dolorosa entre quem se mostra e quem verdadeiramente se é, esbarrando num campo minado e fértil para os estados depressivos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-outro-fenomeno-observavel-no-ambiente-das-redes-sociais-e-o-que-conhecemos-como-sombra" style="font-size:19px">Outro fenômeno observável no ambiente das redes sociais é o que conhecemos como sombra.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Como conteúdos rejeitados pela consciência, a sombra nas redes sociais surge por meio de projeções, manifestando sentimentos como inveja, inferioridade, arrogância, ataques de fúria, ativando complexos ligados ao fracasso, abandono, culpa e perfeccionismo.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>A parte inferior da personalidade. Soma de todos os elementos psíquicos pessoais e coletivos que, incompatíveis com a forma de vida conscientemente escolhida, não foram vividos e se unem ao inconsciente, formando uma personalidade parcial, relativamente autônoma, com tendências opostas às do consciente. A sombra se comporta de maneira compensatória em relação à consciência. Sua ação pode ser tanto positiva como negativa. (JUNG, 1986, p. 495)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sendo-assim-a-sombra-enquanto-caracteristicas-excluidas-do-processo-adaptativo-habita-o-que-denominamos-na-psicologia-junguiana-de-inconsciente-pessoal" style="font-size:19px">Sendo assim, a <strong>sombra</strong>, enquanto características excluídas do processo adaptativo habita o que denominamos na psicologia junguiana de inconsciente pessoal.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Nesta camada do inconsciente há outro fenômeno importante para nossa discussão, denominado complexo. Os complexos são formados por núcleos autônomos, inconscientes ou semi-inconscientes, nunca conscientes &#8211; o que perderiam a característica de complexos -, influenciando comportamentos e emoções.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>Como é que surge então um complexo autônomo? Por alguma razão uma região até agora inconsciente da psique é ativada; pela reanimação ela se desenvolve e se amplia mediante inclusão de associações afins. Naturalmente a energia necessária para este fim é retirada do consciente [&#8230;]. A intensidade de atividades e interesses conscientes diminui gradativamente, surgindo ou uma apatia [&#8230;] ou um desenvolvimento regressivo das funções conscientes, isto é, uma descida às suas condições infantis e arcaicas, algo como uma degenerescência. As parties inférieures des fonctions, como disse Janet, impõem-se: o instintivo sobre o ético, o ingênuo-infantil sobre o ponderado, o adulto e a inadaptação sobre a adaptação. [&#8230;] O complexo autônomo desenvolve-se usando a energia retirada do comando consciente da personalidade. (JUNG, 2013b, § 123)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A dependência da aprovação externa, reforçada pelo aumento das ‘’curtidas’’, pelas reações e devolutivas negativas e agressivas, intensifica a ação dos complexos e a perda de autonomia do ego. Aqui mora um monstro escondido no inconsciente, pronto para aparecer e fragilizar o ego, aumentar o sentimento de vazio, retrair a energia psíquica, alimentando os sintomas depressivos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sendo-assim-quando-esses-complexos-sao-ativados-exaustivamente-dentro-do-contexto-do-uso-excessivo-das-redes-sociais-a-energia-psiquica-disponivel-para-o-ego-pode-ser-drenada" style="font-size:19px">Sendo assim, quando esses complexos são ativados exaustivamente dentro do contexto do uso excessivo das redes sociais, a energia psíquica disponível para o ego pode ser drenada.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em outras palavras, caracteriza-se como transtorno depressivo: perda do interesse ou prazer, humor deprimido na maioria dos dias &#8211; quase todos os dias, no período de duas semanas -, alteração do apetite e do peso, insônia ou hipersonia, alterações cognitivas, fadiga ou perda de energia, sentimentos de inutilidade, evoluindo para pensamentos recorrentes de morte, ideação suicida sem plano ou com plano especifico para então cometer o suicídio (ASSOCIAÇÃO PSIQUIÁTRICA AMERICANA, 2014, p. 161).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Esse sofrimento tem um significado importantíssimo para o indivíduo, um convite agridoce à interiorizar-se. Este chamado se apresenta na própria etimologia da palavra, que surge a partir do verbo <em>deprimere</em>, significando &#8220;pressionar para baixo&#8221; ou &#8220;afundar&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Sendo assim, o indivíduo precisa se reorganizar, se reconhecer como um ser único e capaz, rico em possibilidades, reconhecer seus conteúdos sombrios projetados, rever os complexos que o constituem, e retomar o laço com o si-mesmo (Self).</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>Como a palavra sugere, numa depressão a pessoa é pressionada para baixo, comprimida, em geral porque uma parte da libido psicológica está embaixo e tem de ser resgatada; a verdadeira energia da vida caiu numa camada mais profunda da personalidade e só pode ser alcançada por meio de uma depressão. Assim, a menos que haja uma psicose latente, as depressões devem ser encorajadas e as pessoas, aconselhadas a entrar nelas e ser deprimidas [&#8230;], se as depressões dizem que a vida nada significa e que nada vale a pena, deve-se aceitar isso e perguntar o que fazer. O que há a fazer é ouvir, mergulhar cada vez mais fundo, até se atingir o nível da energia psicológica em que alguma ideia criativa pode surgir; de repente, no fundo, aparecerá um impulso de vida e de criatividade que havia sido ignorado. (FRANZ, 2022, p. 175)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-conclui-se-que-a-depressao-pode-ser-um-chamado-de-alerta-para-se-distanciar-do-virtual-reviver-o-real-o-toque-sentir-o-calor-do-sol" style="font-size:19px">Conclui-se que a depressão pode ser um chamado de alerta para se distanciar do virtual, reviver o real, o toque, sentir o calor do sol.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Uma resposta prática para iniciar o confronto com esta doença é praticar atividades físicas, promovendo a liberação de endorfinas, aumentando a dopamina &#8211; que participa dos circuitos de recompensa e motivação. Neste sentido, estimulando as atividades prazerosas e interações sociais, há o aumento de serotonina, associado a regulação do humor, sono, apetite e da sensação de bem estar. Longe de ser atitudes definitivas, elas são suporte para o ego que precisa ir de encontro com seus conteúdos inconscientes em prol do autoconhecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Por fim, não podemos esquecer que na perspectiva junguiana, o confronto com estes sentimentos de angústia e com este vazio precisa ser encarado também de uma forma criativa. Associar a visão da psiquiatria e da psicologia analítica é uma estratégia que pode iluminar este embate. Também é importante não perder de vista o problema do uso abusivo das redes sociais. Como tratamos, seu excesso evidência e corrobora para a impotência do ego diante da identificação com a persona, a projeção da sombra e a invasão de complexos. A depressão não vai desaparecer enquanto não embarcarmos no processo de individuação. É preciso coragem.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Depressão e Redes Sociais: Impactos, relações e desafios" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/uaJ9_lRSC4E?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/pollyana-guilhermino-de-padua/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/pollyana-guilhermino-de-padua/">Pollyana Guilhermino de Pádua &#8211; Membro Analista em Formação do IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi &#8211; Analista Didata e Fundadora do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph"><br>ASSOCIAÇÃO PSIQUIÁTRICA AMERICANA. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais : DSM-5. 5. ed. Porto Alegre : Artmed, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FRANZ, Marie-Louise von. <em>Alquimia </em>: uma introdução ao simbolismo e seu significado na psicologia de Carl G. Jung, 2. ed. São Paulo: Editora Cultrix, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>A natureza da psique</em>. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>O espírito na arte e na ciência.</em> 8. ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>O eu e o inconsciente. </em>27. ed. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>O homem e seus símbolos. </em>3. ed. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Memórias, Sonhos, Reflexões</em>&nbsp; 35. ed. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1986.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SADOCK, Benjamin J. <em>Compêndio de psiquiatria</em> : ciência do comportamento e psiquiatria clínica.&nbsp; 11. ed. Porto Alegre : Artmed, 2017.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:22px"><strong>Canais IJEP</strong>:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.instagram.com/ijep_jung/" type="link" id="https://www.instagram.com/ijep_jung/">Instagram</a></p>



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<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/congressosjunguianos" type="link" id="https://www.institutojunguiano.com.br/congressosjunguianos">Congressos Junguianos &#8211; Gravados &#8211; 30h/certificação</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Cursos e Pós-graduações &#8211; Psicologia Junguiana/ Arteterapia e expressões criativas / Psicossomática:</p>



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		<title>Análise Junguiana do Mito de Eros e Psique e sua Relevância Contemporânea: quando o amor imortaliza a alma e a alma amadurece o amor</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/analise-junguiana-do-mito-de-eros-e-psique-e-sua-relevancia-contemporanea-quando-o-amor-imortaliza-a-alma-e-a-alma-amadurece-o-amor/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 21 Aug 2025 00:31:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[Depressão]]></category>
		<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[eros e psique]]></category>
		<category><![CDATA[mitologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Neste ensaio, Waldemar Magaldi faz uma releitura junguiana do mito de Eros e Psique revelando um roteiro atual da individuação: provocada pelo excesso de beleza, irmãs Inveja e Discórdia e a transgressão de Psique — acender a lamparina e ver o invisível — inaugura a passagem da paixão idealizada ao amor consciente. Atravessando as quatro tarefas de Afrodite. O texto mostra como a alma aprende a discriminar, ordenar, suportar a perda e acolher o mistério, até que amor e alma se coamadureçam na coniunctio. Entre clínica e cultura, o artigo ilumina melancolia, depressão, vínculos e autonomia, oferecendo perguntas práticas para transformar crise em crescimento — quando o amor imortaliza a alma e a alma amadurece o amor.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">No início, Psique era uma jovem de rara beleza, porém sem uma persona funcional e com baixíssima autoestima. Faltava-lhe autoconhecimento, inclusive a consciência de que sua beleza provocava o distanciamento temeroso dos homens. Excesso de beleza ou de inteligência tende a dificultar vínculos. Era uma beleza vazia, assim como Eros, aqui como Cupido, filho de Afrodite, também carecia de uma persona saudável, vivendo para atender às demandas passionais da mãe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem não possui uma persona funcional, capaz de integrar as exigências da existência com a essência anímica e espiritual, permanece infantil ou desorganizado; quem se identifica rigidamente com uma única persona torna-se autômato. Em ambos os casos, deixa-se de servir à Alma. A persona precisa ser instrumento de adaptação e progressão da energia psíquica, a serviço do processo de individuação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-mim-a-melancolia-e-a-depressao-sao-frequentemente-confundidas-em-abordagens-psiquiatricas-e-psicologicas-diferenciar-seus-nucleos-pode-orientar-intervencoes-mais-precisas" style="font-size:18px">Para mim a melancolia e a depressão são frequentemente confundidas em abordagens psiquiátricas e psicológicas. Diferenciar seus núcleos pode orientar intervenções mais precisas.</h2>



<ul class="wp-block-list">
<li>Melancolia: caracteriza-se pela perda ou incapacidade de manter o objeto de amor. São indivíduos profundos, porém com dificuldade de estabelecer vínculos amorosos, vivendo um luto narcísico contínuo e com temor de entrega. São almas sem amor, Psiques sem seus Eros, Narcisos afogados nas mágoas de seus sentimentos. Necessitam amadurecer por meio de vínculos amorosos verdadeiros que possibilita o surgimento do ego estruturante, pois todo eu depende de um tu que está no outro.</li>



<li>Depressão: caracteriza-se pela incapacidade de aprofundamento em si mesmo. Há possibilidade de relações objetais amorosas e passionais, mas sem profundidade de Self. São amantes sem alma, Eros sem suas Psiques, Apolos ressecados no fogo solar de pensamentos aéreos e egóicos. Necessitam de profundidade e busca de sentido para imortalizar a alma, também por meio de vínculos de amor verdadeiro.</li>
</ul>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tanto-melancolicos-quanto-depressivos-podem-ser-curados-pelo-amor-maduro" style="font-size:19px">Tanto melancólicos quanto depressivos podem ser curados pelo amor maduro:</h2>



<ul class="wp-block-list">
<li>Melancólicos: ao entregarem sua alma às relações, exteriorizando e extrovertendo a energia psíquica.</li>



<li>Depressivos: ao voltarem o amor para si, interiorizando e introvertendo a energia psíquica.</li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph">O mito de Eros e Psique, narrado por Apuleio em &#8220;O Asno de Ouro&#8221;, é um dos contos mais ricos para a interpretação da psicologia analítica. Sob a ótica de C. G. Jung, o mito não é apenas uma história de amor, mas uma profunda alegoria do processo de desenvolvimento da psique humana em sua jornada rumo à totalidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-somos-uma-maquina-biologica-ou-apenas-uma-programacao-genetica-com-o-proposito-de-obter-rendimento-de-trabalho-constante-mas-so-conseguimos-atingir-o-ideal-a-necessidade-externa-se-tambem-estivermos-em-consonancia-com-nosso-mundo-interno-isto-e-em-harmonia-conosco-integrando-o-espirito-da-epoca-com-o-das-profundezas" style="font-size:17px">Não somos uma máquina biológica ou apenas uma programação genética com o propósito de obter rendimento de trabalho constante, mas só conseguimos atingir o ideal à necessidade externa se também estivermos em consonância com nosso mundo interno, isto é, em harmonia conosco, integrando o espírito da época com o das profundezas.</h2>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Psique:</strong>&nbsp;Representa a alma humana, o ego consciente em seu estado inicial. No começo do mito, Psique é ingênua, passiva e definida apenas por sua beleza exterior, uma qualidade que atrai a inveja dos deuses e a admiração dos mortais, mas que não constitui uma identidade autêntica. Sua jornada é a transição de um estado de inconsciência para uma consciência duramente conquistada.</li>
</ul>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Eros:</strong>&nbsp;Simboliza o princípio do amor e da relação, mas também o divino, o irracional e o inconsciente. Sua invisibilidade inicial para Psique significa que a relação dela com o amor (e com seu próprio lado masculino interior) é puramente inconsciente. Eros é a força que a arranca de sua vida comum e a inicia no doloroso, mas necessário, caminho da transformação psicológica.</li>



<li><strong>As irmãs de Psique:</strong> <strong>Inveja e Discórdia</strong>, forças fraternas sombrias que personificam a comparação, a suspeita e a intriga. São agentes do conflito que precipita a consciência. Operam como figuras-trickster que perturbam a ordem aparente, rompendo a bolha da idealização romântica, estimulando a à transgressão de acender a lamparina e contemplar Eros, quebrando o tabu do “não ver”. Sua ação corrosiva força o ego a escolher entre a passividade infantil e a responsabilidade consciente, gerando crise e, consequentemente, ativando o caminho para a função transcendente.</li>



<li><strong>A transgressão da regra de Eros:</strong> A lamparina acesa simboliza a luz da consciência; a gota de óleo que queima Eros, a ferida necessária que separa fusão infantil de relação consciente. A “traição” é paradoxalmente fidelidade à alma: sem o conflito e a queda, não há crescimento. As irmãs, ainda que venenosas, são catalisadoras do despertar de Psique.</li>



<li><strong>As Tarefas de Afrodite:</strong>&nbsp;As quatro tarefas impostas por Afrodite (a Grande Mãe em seu aspecto terrível e possessivo) são provas iniciáticas que forçam Psique a desenvolver qualidades e habilidades que lhe faltam. Cada tarefa corresponde a uma etapa do desenvolvimento da consciência.
<ol start="1" class="wp-block-list">
<li><strong>Separar as Sementes:</strong>&nbsp;Esta tarefa simboliza a necessidade de&nbsp;<strong>discernimento</strong>&nbsp;e&nbsp;<strong>diferenciação</strong>. Psique deve aprender a ordenar o caos de seus próprios pensamentos, sentimentos e conteúdos inconscientes. A ajuda das formigas representa a mobilização de forças instintivas e naturais para colocar ordem no caos interior.</li>



<li><strong>Obter a Lã de Ouro dos Carneiros do Sol:</strong>&nbsp;Os carneiros agressivos e solares representam uma energia masculina destrutiva e perigosa. A tarefa ensina que a confrontação direta com essa força é fatal. Psique deve usar a&nbsp;<strong>estratégia e a sutileza</strong>, coletando a lã presa nos arbustos ao entardecer. Simboliza a necessidade de abordar aspectos poderosos e perigosos do inconsciente (ou um animus negativo) com sabedoria, e não com força bruta.</li>



<li><strong>Coletar a Água da Fonte do Rio Estige:</strong>&nbsp;A água que flui de uma fonte inacessível entre picos representa as águas da vida e da morte, o conhecimento mais profundo e perigoso do inconsciente coletivo. A tarefa é impossível para o ego sozinho. A ajuda da águia de Zeus simboliza a&nbsp;<strong>função transcendente</strong>, uma perspectiva superior e espiritual que permite ao indivíduo acessar e conter percepções que de outra forma o destruiriam.</li>



<li><strong>Buscar a Caixa de Beleza de Perséfone no Submundo:</strong>&nbsp;Esta é a tarefa da&nbsp;<em>nekyia</em>, a descida ao mundo dos mortos. Simboliza a confrontação direta com a sombra, a morte e o núcleo mais profundo do inconsciente. Psique deve encarar o feminino ctônico (Perséfone) para obter uma &#8220;beleza&#8221; que não é superficial, mas que vem da experiência da profundidade e da escuridão. Sua falha ao abrir a caixa representa a última &#8220;morte&#8221; do ego, a rendição necessária antes da transformação final. Possibilitando, ao virar estátua, que Eros comece a agir, enfrentando sua mãe e a sociedade, para se tornar autônomo e maduro.</li>
</ol>
</li>
</ul>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-percurso-de-psique-e-uma-metafora-perfeita-para-o-nbsp-processo-de-individuacao-nbsp-junguiano-a-jornada-da-psique-para-realizar-sua-totalidade-inata-integrando-os-aspectos-conscientes-e-inconscientes-e-tornando-se-um-individuo-completo-e-unificado-o-self" style="font-size:17px">O percurso de Psique é uma metáfora perfeita para o&nbsp;<strong>processo de individuação</strong>&nbsp;junguiano – a jornada da psique para realizar sua totalidade inata, integrando os aspectos conscientes e inconscientes e tornando-se um indivíduo completo e unificado (o Self).</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O mito demonstra que a individuação não é um processo linear ou pacífico. Começa com uma ruptura (a perda de Eros), seguida por um período de sofrimento intenso e trabalho árduo (as tarefas) sempre visitado pelo desejo de morrer. É através do enfrentamento dos desafios, e não da sua evitação, que a consciência se expande.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Integração dos Opostos:</strong>&nbsp;O núcleo do processo é a&nbsp;<em>coniunctio oppositorum</em>, a união dos opostos.
<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Consciente e Inconsciente:</strong>&nbsp;A relação inicial de Psique com um Eros invisível representa uma união inconsciente, paradisíaca, mas infantil. O ato de acender a lamparina para ver Eros é o despertar da consciência. Esse ato, embora resulte em separação e dor, é fundamental. Não pode haver uma relação verdadeira ou individuação sem consciência. As tarefas subsequentes são o trabalho de reintegrar o inconsciente de uma forma consciente e madura.</li>



<li><strong>Masculino e Feminino:</strong>&nbsp;A união final e divinizada de Eros e Psique simboliza o &#8220;casamento sagrado&#8221; entre os princípios masculino e feminino dentro da psique. Desta união nasce uma nova consciência, simbolizada pela filha do casal, Voluptas (Prazer ou Alegria), que representa uma alegria que não é mais ingênua, mas fruto da integração e da totalidade.</li>
</ul>
</li>
</ul>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-conceitos-de-anima-o-feminino-interior-no-homem-e-animus-o-masculino-interior-na-mulher-sao-cruciais-para-entender-a-dinamica-do-casal" style="font-size:18px">Os conceitos de anima (o feminino interior no homem) e animus (o masculino interior na mulher) são cruciais para entender a dinâmica do casal.</h2>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>O Desenvolvimento do Animus de Psique:</strong>&nbsp;A jornada de Psique é um dos melhores exemplos literários do desenvolvimento do animus.
<ol start="1" class="wp-block-list">
<li>No início, seu animus é projetado em Eros, uma figura divina, desconhecida e puramente instintiva.</li>



<li>Através das tarefas, ela retira essa projeção e desenvolve suas próprias qualidades &#8220;masculinas&#8221; (animus): o logos (discernimento e ordem), a coragem, a estratégia e a percepção espiritual. Ela deixa de ser uma vítima passiva e se torna a heroína de sua própria história.</li>



<li>No final, sua relação com Eros não é mais de dependência, mas de mutualidade. Ela se encontra com ele como uma igual, tendo integrado seu próprio poder interior. O animus evolui de uma força possessiva para um mediador do significado e da criatividade.</li>
</ol>
</li>



<li><strong>A Transformação de Eros pela Anima:</strong>&nbsp;Embora o foco esteja em Psique, Eros também evolui. Ele passa de um &#8220;filho da mamãe&#8221; travesso e obediente a Afrodite (preso a um complexo materno negativo) a um amante que desafia a mãe e assume a responsabilidade por sua relação. Seu sofrimento (a ferida da queimadura e a separação) o força a amadurecer. Esse processo reflete a integração de sua própria anima, desenvolvendo a capacidade de relação consciente e de compromisso.</li>
</ul>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-mito-de-eros-e-psique-permanece-extremamente-relevante-para-os-desafios-psicologicos-da-atualidade" style="font-size:16px">O mito de Eros e Psique permanece extremamente relevante para os desafios psicológicos da atualidade.</h2>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Identidade e Relacionamentos:</strong>&nbsp;Em uma cultura que muitas vezes valoriza a perfeição superficial e o romance idealizado (o &#8220;Eros invisível&#8221;), o mito nos lembra que a verdadeira intimidade requer&nbsp;<strong>consciência, trabalho e a coragem de enfrentar o conflito</strong>. Ele mostra que os relacionamentos são frequentemente o cadinho no qual a individuação ocorre. A crise no relacionamento é o que força os parceiros a olharem para si mesmos e desenvolverem as partes não vividas de sua personalidade.</li>



<li><strong>Busca por Significado:</strong>&nbsp;A jornada de Psique é uma busca por significado que transcende a mera felicidade. O sofrimento dela não é patológico, mas&nbsp;<strong>teleológico</strong>&nbsp;– tem um propósito. Para o indivíduo contemporâneo, muitas vezes perdido em um sentimento de vazio ou falta de propósito, o mito oferece uma narrativa poderosa de que as crises, as depressões (&#8220;descida ao submundo&#8221;) e os desafios da vida não são falhas, mas etapas essenciais no caminho para uma vida mais plena e autêntica.</li>
</ul>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-mito-de-eros-e-psique-pode-ser-uma-ferramenta-terapeutica-valiosa-tanto-na-analise-pessoal-quanto-na-pratica-clinica" style="font-size:20px">O mito de Eros e Psique pode ser uma ferramenta terapêutica valiosa tanto na análise pessoal quanto na prática clínica.</h2>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Mapeamento do Processo Terapêutico:</strong>&nbsp;O terapeuta pode usar a estrutura do mito para ajudar o cliente a entender em que fase de seu próprio processo ele se encontra.
<ul class="wp-block-list">
<li>Um cliente que idealiza um parceiro, mas evita o conflito real, pode estar na fase do &#8220;Eros invisível&#8221;, e o trabalho terapêutico seria o de &#8220;acender a lamparina&#8221;.</li>



<li>Alguém enfrentando uma série de desafios esmagadores (carreira, família, saúde) pode ser ajudado a reenquadrar essa experiência como suas &#8220;tarefas de Afrodite&#8221;, dando sentido ao sofrimento e focando no desenvolvimento das habilidades necessárias para superá-los.</li>



<li>Um período de depressão profunda pode ser compreendido como a &#8220;descida ao submundo&#8221;, uma fase necessária de introspecção e confronto com a sombra antes de uma renovação psicológica.</li>
</ul>
</li>



<li><strong>Análise de Sonhos e Imaginação Ativa:</strong>&nbsp;As imagens do mito (a águia, os carneiros, as sementes, a caixa) são arquetípicas e podem aparecer em sonhos ou fantasias dos clientes. Conectar essas imagens pessoais ao contexto mais amplo do mito pode fornecer insights profundos sobre os conflitos e o potencial de crescimento do indivíduo.</li>



<li><strong>Autoanálise:</strong>&nbsp;Para a reflexão pessoal, o mito convida a perguntas como:
<ul class="wp-block-list">
<li>&#8220;Que &#8216;sementes&#8217; em minha vida precisam de diferenciação e ordem?&#8221;</li>



<li>&#8220;Qual é a minha &#8216;lã de ouro&#8217; – aquela energia poderosa que tento evitar, mas que preciso aprender a abordar com sabedoria?&#8221;</li>



<li>&#8220;Estou disposto(a) a fazer minha &#8216;descida ao submundo&#8217; para encontrar uma beleza e uma força mais autênticas?&#8221;</li>
</ul>
</li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph">Em suma, o mito de Eros e Psique oferece um mapa atemporal da alma, detalhando a jornada dolorosa, mas finalmente gratificante, da consciência ingênua à sabedoria integrada e à capacidade de amar de forma plena e consciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Amor e Alma amadurecendo na relação!</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi – Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Depressão: O Chamado Interior para a Transformação Pessoal &#8211; Uma Análise Simbólica</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/depressao-uma-analise-simbolica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Caroline Santos Costa]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 04 Aug 2025 12:53:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Depressão]]></category>
		<category><![CDATA[cgjung]]></category>
		<category><![CDATA[depressão]]></category>
		<category><![CDATA[IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[psicologiaanalitica]]></category>
		<category><![CDATA[PsicologiaJunguiana]]></category>
		<category><![CDATA[simbologia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=11006</guid>

					<description><![CDATA[<p>A depressão é uma experiência humana complexa, que vai além da tristeza ou da falta de ânimo. Muitas vezes, ela revela um sentimento de desconexão com a própria vida, com os outros e com aquilo que dá sentido à existência. Para a psicologia analítica, desenvolvida por Carl Gustav Jung, a depressão não é apenas um [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/depressao-uma-analise-simbolica/">Depressão: O Chamado Interior para a Transformação Pessoal &#8211; Uma Análise Simbólica</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4"><em>A depressão é uma experiência humana complexa, que vai além da tristeza ou da falta de ânimo. Muitas vezes, ela revela um sentimento de desconexão com a própria vida, com os outros e com aquilo que dá sentido à existência. Para a psicologia analítica, desenvolvida por Carl Gustav Jung, a depressão não é apenas um problema a ser eliminado, mas pode ser um sinal de que algo dentro de nós precisa de atenção e mudança. Em vez de ver os sintomas apenas como algo negativo, essa abordagem propõe que eles são mensagens do inconsciente — uma forma da psique expressar conflitos profundos e nos convidar a olhar para dentro. Este artigo busca refletir sobre a depressão a partir desse ponto de vista, mostrando como sonhos, imagens simbólicas e a criatividade podem ajudar no processo de autoconhecimento, cura e transformação pessoal.</em> &nbsp;&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-depressao-de-acordo-com-a-organizacao-pan-americana-de-saude-opas-e-um-transtorno-mental-comum-porem-grave-que-impacta-significativamente-a-vida-diaria" style="font-size:20px">A depressão, de acordo com a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), é um transtorno mental comum, porém grave, que impacta significativamente a vida diária.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Ela compromete a capacidade de trabalhar, estudar, dormir, alimentar-se e desfrutar da vida. Causada por uma complexa interação de fatores genéticos, biológicos, ambientais e psicológicos, a depressão afeta, atualmente, mais de 300 milhões de pessoas em todo o mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">É crucial distinguir a depressão das flutuações normais de humor e das reações emocionais transitórias aos desafios cotidianos. Quando a depressão se manifesta de forma moderada ou grave, especialmente por períodos prolongados, ela se configura como uma condição de saúde crítica, gerando sofrimento intenso e disfunções em diversas áreas da vida. Em situações extremas, pode levar ao suicídio.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Em uma sociedade que supervaloriza a especialização, o alto desempenho, a produtividade e a busca incessante pela alegria constante, observa-se um aumento no número de pessoas que se sentem desconectadas do seu propósito e do ritmo natural da alma. Essa desconexão pode desencadear sentimentos de vazio, tristeza, falta de energia e estagnação – sintomas que frequentemente se associam à depressão.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Segundo <strong>Jung</strong>, os <strong>sintomas </strong>emergem na vida dos indivíduos quando há uma dificuldade em reconhecer e integrar o outro lado do próprio ser, servindo, assim, como uma via para que aspectos não reconhecidos da alma encontrem expressão.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Em minha experiência clínica como analista junguiana, tenho acompanhado clientes que enfrentam episódios depressivos, guiando-os em seus processos de &#8220;descida aos infernos&#8221; da alma. Frequentemente, esses clientes buscam explicações para seus sintomas em causas exclusivamente biológicas, como desequilíbrios hormonais ou neurológicos, separando mente e corpo. No entanto, a constatação de que a medicação, por si só, não proporciona a cura desejada os impulsiona a procurar o auxílio da psicoterapia.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-trabalho-clinico-utiliza-os-principios-da-psicologia-junguiana-e-da-psicossomatica-que-buscam-compreender-os-sintomas-como-expressoes-simbolicas-do-self-sem-desconsiderar-a-importancia-da-intervencao-farmacologica-quando-necessaria" style="font-size:20px">O trabalho clínico, utiliza os princípios da psicologia junguiana e da psicossomática, que buscam compreender os sintomas como expressões simbólicas do Self, sem desconsiderar a importância da intervenção farmacológica quando necessária.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">O objetivo principal é aprofundar a compreensão dos sintomas que surgem durante os episódios depressivos, visando desvendar o significado da depressão e identificar o que precisa ser reconhecido e integrado nesse estado afetivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Na perspectiva da psicologia analítica, a compreensão da depressão ultrapassa a mera tristeza ou melancolia, indo além das disfunções bioquímicas. A depressão é vista como um profundo desequilíbrio psíquico, uma manifestação simbólica de conflitos internos e de conteúdos reprimidos que buscam expressão, além de uma desarmonia entre o consciente e o inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">A depressão não é apenas uma reação patológica, mas também uma consequência natural da necessidade de transformação da psique. Sentir-se deprimido, portanto, não deve ser interpretado automaticamente como um sinal de patologia, mas sim como um processo psíquico complexo que frequentemente se origina de conflitos inconscientes e da necessidade de integrar aspectos da personalidade que ainda não foram reconhecidos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Os quadros depressivos podem, assim, ser compreendidos como um estímulo para a busca de novos caminhos, um chamado ao caminho interior. No entanto, muitas pessoas relutam em dar esse passo, permanecendo presas ao passado gerando a sensação de estarem paralisadas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-rudolf-steiner-teorico-da-antroposofia-explica-que-a-vida-humana-e-marcada-por-ciclos-que-se-renovam-a-cada-sete-anos" style="font-size:20px"><strong>Rudolf Steiner</strong>, teórico da antroposofia, explica que a vida humana é marcada por ciclos que se renovam a cada sete anos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Cada ciclo é composto por um período de intensa atividade, seguido por um de esvaziamento, até que um novo ciclo se inicie. Durante essa fase de transição, aquilo que antes conferia significado à vida tende a perder sua força, o que pode desencadear sentimentos de angústia e vazio. Se aproveitarmos esse momento de maneira consciente, ele pode se transformar em um período de recolhimento valioso, ideal para refletir sobre a jornada percorrida, questionar nossos rumos, definir quem desejamos ser e identificar as áreas da vida que exigem maior atenção para promover nosso desenvolvimento. Dessa forma, somos naturalmente convidados, em intervalos regulares, a examinar nossa trajetória e realizar os ajustes necessários em direção ao nosso processo de individuação – ou seja, de nos tornarmos quem realmente somos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-contexto-a-angustia-e-o-vazio-existencial-longe-de-serem-meros-obstaculos-integram-o-percurso-e-se-mostram-essenciais-pois-proporcionam-oportunidades-de-revisao-e-redirecionamento" style="font-size:20px">Nesse contexto, a angústia e o vazio existencial, longe de serem meros obstáculos, integram o percurso e se mostram essenciais, pois proporcionam oportunidades de revisão e redirecionamento.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">No entanto, se, durante esse período de vazio, nos apegarmos excessivamente ao passado e resistirmos às mudanças, fechando-nos às novas possibilidades que a vida nos oferece, podemos comprometer o nosso crescimento. Essa resistência pode intensificar os sintomas de mal-estar, dificultando a nossa evolução pessoal e aumentando a probabilidade de desenvolver quadros depressivos patológicos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Embora a psicologia analítica não ofereça uma tipologia de depressão estruturada como os manuais diagnósticos, <strong>James Hollis</strong>, em <em><strong>Os pantanais da alma</strong></em>, sugere diferentes nuances da experiência depressiva, aprofundando nossa compreensão do fenômeno e de sua dinâmica inconsciente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-hollis-propoe-a-diferenciacao-entre-depressao-reativa-endogena-e-intrapsiquica-reconhecendo-que-um-individuo-pode-experimentar-ate-os-tres-tipos-simultaneamente" style="font-size:20px">Hollis propõe a diferenciação entre depressão reativa, endógena e intrapsíquica, reconhecendo que um indivíduo pode experimentar até os três tipos simultaneamente<a>.</a></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">A depressão reativa pode surgir como uma resposta normal a situações de perda ou desapontamento, envolvendo a regressão da libido. No entanto, o autor salienta que a incapacidade de elaborar o luto, seja ele real ou simbólico, resulta em um aprisionamento no passado por um longo período de tempo, perpetuando o sofrimento que se manifesta em sintomas depressivos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">A depressão endógena, cuja etiologia permanece em grande parte desconhecida, apresenta uma provável base biológica e fatores genéticos, frequentemente observada em histórico familiar. Pacientes com esse tipo de depressão relatam um estado de ânimo e humor deprimido persistente, que interfere significativamente em suas atividades diárias. Porém, o autor esclarece que, embora o tratamento farmacológico com <strong>inibidores seletivos da recaptação de serotonina</strong> (ISRS), como Prozac, Paxil e Zoloft, possa melhorar a qualidade de vida desses indivíduos, é importante considerar que o tratamento da base biológica não elimina as dificuldades inerentes à vida nem a possibilidade de ser acometido por outros tipos de depressão.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-depressao-intrapsiquica-por-sua-vez-pode-ser-comparada-a-um-poco-sem-fundo-que-exige-um-mergulho-profundo-para-ser-compreendido" style="font-size:20px">A depressão intrapsíquica, por sua vez, pode ser comparada a um poço sem fundo que exige um mergulho profundo para ser compreendido.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Conforme o autor, esse tipo de depressão resulta da repressão de emoções e características essenciais do indivíduo, consideradas inaceitáveis pelo padrão dominante da consciência, revelando a necessidade de integrar aspectos sombrios da personalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Vale salientar que a distinção entre depressão reativa, endógena e intrapsíquica, embora útil para a compreensão de diferentes nuances da experiência depressiva, não deve ser interpretada de forma rígida. A coexistência desses tipos em um mesmo indivíduo é frequente, demonstrando, mais uma vez, as limitações de uma categorização estritamente diagnóstica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-hollis-tambem-analisa-a-etimologia-da-palavra-depressao-que-significa-pressionar-para-baixo-questionando-o-que-e-sufocado-nos-episodios-depressivos" style="font-size:20px"><strong>Hollis</strong> também analisa a etimologia da palavra “depressão”, que significa “pressionar para baixo”, questionando o que é sufocado nos episódios depressivos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Ele argumenta que, na maioria das vezes, nesse quadro, a intencionalidade da vida é reprimida, negada e violada. A intensidade da depressão, portanto, relaciona-se diretamente à força vital reprimida, transformando a vida em um campo de batalha interna, no qual o indivíduo se vê envolvido. A depressão, nesse contexto, pode ser interpretada como um <strong>símbolo do processo de vida</strong>, <strong>um chamado à integração de conteúdos inconscientes</strong>, inerente ao processo de individuação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Para compreender a mensagem da depressão, é válido questionar: Qual o seu propósito? O que busca revelar? O que ainda me prende e não me deixa retornar ao fluxo natural da vida? O que é essencial para mim, e estou deixando de fazer?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-experiencia-depressiva-vista-como-um-chamado-para-a-integracao-de-conteudos-inconscientes-revela-a-necessidade-de-confrontar-a-sombra-integrar-aspectos-negados-da-personalidade-e-resgatar-a-vitalidade-perdida" style="font-size:20px">A experiência depressiva, vista como um chamado para a integração de conteúdos inconscientes, revela a necessidade de confrontar a sombra, integrar aspectos negados da personalidade e resgatar a vitalidade perdida.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">A dor da depressão, portanto, pode ser interpretada como um sinal de que algo essencial à identidade e à integridade psíquica precisa ser resgatado e integrado, um processo fundamental para a individuação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Portanto, é fundamental ter cautela quanto ao uso excessivo de medicamentos no tratamento da depressão. Embora possam proporcionar alívio temporário dos sintomas, esses fármacos, em certos casos, podem interferir na capacidade do indivíduo de acessar suas emoções e elaborar os aspectos psíquicos inconscientes que originam o conflito, o qual se manifesta psicossomaticamente na depressão. Em vez de tratar a raiz do problema, o uso indiscriminado de medicamentos pode mascarar suas causas, impedindo uma oportunidade de cura profunda.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-psicologia-analitica-compreende-a-psique-como-um-sistema-energetico-fechado-com-quantidade-de-energia-constante-a-mudanca-reside-no-direcionamento-dessa-energia-dentro-do-proprio-psiquismo" style="font-size:20px">A psicologia analítica compreende a <strong>psique</strong> como um sistema energético fechado, com quantidade de energia constante. A mudança reside no direcionamento dessa energia dentro do próprio psiquismo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4"><strong>As alterações no fluxo energético não são aleatórias, mas seguem uma estrutura arquetípica</strong>, <strong>compensando e preservando a integridade psíquica em direção ao desenvolvimento teleológico da personalidade.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">A vida nos proporciona uma quantidade suficiente de energia para nossa jornada, mas, ao percebermos uma diminuição dessa energia, é fundamental refletir sobre se as escolhas que estamos fazendo realmente ressoam com a nossa essência. Como destaca Hollis: “somente observando a nossa perda de energia podemos seguir esse caminho até o ponto de separação. A energia perdida é recuperável. Se optarmos por servir à alma, a energia voltará a nos servir”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-algumas-situacoes-a-libido-e-retirada-da-consciencia-porque-algum-conteudo-inconsciente-que-tende-a-emergir-a-atrai-trata-se-de-um-conteudo-inconsciente-que-demanda-atencao-consciente" style="font-size:20px">Em algumas situações, a libido é retirada da consciência porque algum conteúdo inconsciente, que tende a emergir, a atrai. Trata-se de um conteúdo inconsciente que demanda atenção consciente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">A progressão da libido promove adaptação, crescimento social e expansão, enquanto sua regressão ativa conteúdos internos, levando à introspecção, à melancolia e, possivelmente, à depressão. A depressão frequentemente surge em indivíduos que, por longos períodos, priorizaram o mundo externo em detrimento do interno. Nesse caso, os sintomas depressivos atuam como um mecanismo enantiodrômico e compensatório, impulsionando a contemplação da totalidade psíquica e o resgate da individuação pelo ego.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">A depressão, como toda doença, pode ser compreendida como uma expressão simbólica da psique, que busca compensar desequilíbrios da consciência. Esse processo envolve a integração de conteúdos reprimidos e a religação do ego ao Self, configurando-se como uma tentativa de autorregulação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Conforme explorado, a psicologia analítica enxerga a depressão como uma oportunidade para o crescimento, e não como um mero desastre. A abordagem enfatiza a importância do trabalho reflexivo, da análise do significado e dos aprendizados potenciais inerentes à experiência depressiva.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-setting-terapeutico-a-abordagem-da-depressao-sob-a-perspectiva-junguiana-enfatiza-a-importancia-de-um-mergulho-simbolico-no-universo-interno-do-paciente" style="font-size:20px">No setting terapêutico, a abordagem da depressão sob a perspectiva junguiana enfatiza a importância de um mergulho simbólico no universo interno do paciente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4"><strong>O terapeuta, como um guia, auxilia o indivíduo a explorar as imagens que emergem do inconsciente, desvendando os nós que aprisionam a alma</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">A ênfase recai sobre a importância crucial do mergulho simbólico, onde a análise dos sonhos e a prática da arteterapia emergem como faróis orientadores. Ao explorar os sonhos, desvendamos as imagens e os símbolos do inconsciente, que revelam os conflitos internos e as mensagens que a depressão busca comunicar. A arteterapia, por sua vez, oferece uma linguagem expressiva, permitindo que as emoções reprimidas encontrem uma forma de se manifestar e serem compreendidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Essa jornada, que demanda tempo e dedicação, não visa apenas o alívio dos sintomas, mas a transformação profunda. O objetivo central é auxiliar o cliente a ressignificar suas experiências, resgatando e integrando potencialidades reprimidas. Essa nova compreensão possibilita um redirecionamento de vida mais consciente, permitindo a descoberta de caminhos mais plenos de realização.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: &quot;Depressão: O Chamado Interior para a Transformação Pessoal – Uma Análise Simbólica&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/YbA45L7CDzY?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/caroline/">Caroline Costa &#8211; Membro Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/"><strong>Waldemar Magaldi &#8211; Membro Analista Didata</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">DAHLKE, R. <em>Depressão:</em> caminhos de superação da noite escura da alma. São Paulo: Cultrix, 2017.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HOLLIS, J<em>. A passagem do meio</em>: da miséria ao significado na meia-idade. São Paulo: Paulus, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______<em>. Os pantanais da alma</em>. 3.&nbsp;ed. São Paulo: Paulus, 2008.</p>



<p class="wp-block-paragraph">UTESCHER, Eliane. Os 9 setênios – antroposofia. <em>Biblioteca Virtual da Antroposofia</em>, 16 jul. 2020. Disponível em: &lt;http://www.antroposofy.com.br/forum/posts/?s=setenios&gt;. Acesso em: 2 jun. 2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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		<title>Por que estamos tão cansados? Uma apologia à celebração</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/por-que-estamos-tao-cansados-uma-apologia-a-celebracao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Nov 2022 18:08:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
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		<category><![CDATA[contágio psíquico]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O despertador toca. Em um ritmo e em uma altura que adrenalina e cortisol invadem seu corpo como um tiro. Simultaneamente a isso, aquele outro em você, ansioso e preocupado com o trabalho, sim, aquele que te fez dormir tarde da noite fazendo você repassar suas tarefas e agendas já voltou a te contaminar com [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>O despertador toca. Em um ritmo e em uma altura que adrenalina e cortisol invadem seu corpo como um tiro. Simultaneamente a isso, aquele outro em você, <strong>ansioso e preocupado</strong> com o trabalho, sim, aquele que te fez dormir tarde da noite fazendo você repassar suas tarefas e agendas já voltou a te contaminar com suas intempéries. <strong>Talvez ele nunca tenha dormido, só sentou em sua cadeira e esperou ansiosamente o &#8220;eu&#8221; acordar para retomar tudo de novo.</strong></em> </p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Desperto, os sonhos já se vão em segundos. </strong>Quiçá, dê tempo de pensar “eu sonhei com algo”. Mas seu coração já está de tal maneira acelerado devido ao outro em você, demandando de toda atenção que os sonhos voltam para o mundo dos sonhos. Outro tiro e num piscar de olhos, você já está no trabalho. Pergunta-se “eu fechei a porta?”; “eu tomei banho?”. “Acho que sim, meus cabelos estão molhados!”. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Tudo tornou-se tão automático que não somente os sonhos, mas cuidar de si também é levado para o inconsciente com o intuito de automatizar banalidades, deixando o foco e a atenção somente para o que importa. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-o-que-importa-ora-aquele-outro-em-voce-sabe-de-tudo-o-que-importa" style="font-size:21px"><strong>E o que importa?</strong> Ora, aquele outro em você sabe de tudo o que importa.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para ele o que importa é sua <strong>performance</strong>. Ele é o seu treinador – <em><strong>o coaching</strong></em>. Ele quer números cada vez melhores. Afinal, o que podemos fazer a não ser melhorar cada vez mais? E o melhor disso tudo é que ser melhor não tem limites.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O seu treinador acredita piamente em você. Ele te transformará, talvez, no melhor do seu setor, o mais rápido em galgar cargos e <em>status</em>, o melhor na academia pegando cada vez mais pesos, o melhor no sexo, a ponto de se esperar a frase provinda do outro: “<em>foi o melhor sexo da minha vida”. </em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Mesmo que o outro diga isso de forma iludida por ter se envolvido no momento ou de forma mentirosa para acalentar você. Se isso tudo acontecer, o treinador em ti vai se orgulhar por um segundo ou menos. E depois, exigirá de ti ainda mais. Afinal, se você alcançou a meta, agora ela já é passado! &#8220;Precisamos de novas metas!”, diz ele. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste momento você percebe que o treinamento vai continuar e que as metas são ilusões criadas por ele para te convencer a continuar. Afinal, ele é um exímio desenvolver pessoal, sabe de todas as táticas e estratégias para você não fugir da <strong>performance</strong>. Mas, não há fim. É um abismo no qual os olhos não conseguem ver o chão. Todo aquele empreendimento para ser o melhor, é um vazio sem fim.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-isso-faz-seu-corpo-estremecer" style="font-size:20px">Isso faz seu corpo estremecer.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Momento de grande oportunidade para a sua Alma, contaminada pelas Erínias, acender o seu corpo com mais adrenalina, cortisol, ativando sua amídala fazendo o medo e a vertigem te possuírem. Não é mais uma simples contaminação. </p>



<p class="wp-block-paragraph">É uma possessão da Alma de forma sombria para criar em você atitudes. Ela sente que precisa te interditar para você reconhecer outra dinâmica além da do treinador. Poderíamos nos perguntar: “mas por que sombria?”. Ora, se ela viesse acolher e acalentar, muito provavelmente você continuaria nessa dinâmica da <strong>performance</strong>. O ser humano precisa da crise e da tensão para se transformar. Mas muitas vezes é em vão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Graças aos treinadores que habitam cada um de nós e suas demandas por <strong>performance</strong>, a Ciência já desenvolveu remédios que aplacam as demandas da Alma de forma mais ou menos eficiente. A Alma pode vir de diversas formas. Hoje denominamos, popularmente, suas empreitadas como: &#8220;síndrome do impostor”; “burnout”; “disfunção sexual”; “ejaculação precoce”; “enxaqueca”; “infarto”, “<a href="https://blog.sudamar.com.br/psicossomatica-e-o-stress/">TAG – transtorno de ansiedade generalizada</a>”, entre outros. Não à toa Byung Chul Han diagnostica a contemporaneidade como a sociedade do cansaço.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-apesar-de-querermos-desviar-os-olhos-do-abismo-nietzsche-estava-certo-ele-esta-olhando-para-voce-desde-sempre" style="font-size:18px">Apesar de querermos desviar os olhos do abismo, <strong>Nietzsche estava certo: ele está olhando para você desde sempre</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>O abismo é vazio, é a falta que cada um de nós encontra ao percorrer a estrada da <strong>performance</strong>. </em></p>



<p class="wp-block-paragraph">O abismo é um olhar para si de forma explícita, que evidencia que o caminho da <strong>performance</strong> tornou-lhe uma pessoa insatisfeita e insaciável (e alguns até se vangloriam por ser uma pessoa insaciável). Afinal, você quer satisfazer seu chefe, quer satisfazer seu status, quer satisfazer seu parceiro(a) sexual, mesmo que para isso, ao ver o outro insatisfeito com sua <strong>performance</strong> você precise dar satisfações e justificativas alheias. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Nessa dinâmica unilateral de satisfazer o outro ou de dar satisfações justificadas, é impossível satisfazer a si mesmo e o si-mesmo. O abismo te possui e te paralisa neste instante e para sempre. Esta é outra oportunidade de reconhecer sua incompletude e sua imperfeição.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Temos hoje inúmeras ideias do quão o ser humano é um ser em falta e oco, um ser que carece. A Alquimia e a maioria das mitologias concebem o ser humano como cindido, dividido há muito tempo entre masculino e feminino, mas que anteriormente, ainda em indiferenciação, estavam em uma fusão. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-fisica-atomica-e-o-ser-humano"> A física atômica e o ser humano</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Já na Ciência, a física atômica afirma que cada molécula do nosso corpo (e do universo) é em grande parte vazia. Por exemplo, em um átomo de hidrogênio (o mais comum), a distância entre o núcleo e o elétron é de um décimo bilionésimo de um metro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para ilustrar, se o núcleo fosse uma bola de tênis, seu elétron estaria a uma distância de 2.042,9 metros, isto é, dois quilômetros. O que existe, então, entre eles? Em síntese, a energia da força de atração e repulsão e nada além.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para <strong>Edgar Morin</strong>, visando sua <strong>teoria da complexidade</strong>, o ser humano é também um sistema aberto, isto é, precisamos realizar trocas com o meio ambiente de diversas formas possíveis. Biologicamente falando, o vazio dos pulmões, do estômago, entre outros, nos permite continuar a manter a vida biológica. </p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Vilém Flusser</strong>, na teoria da Comunicação, aponta que a comunicação surgiu por simples necessidade do outro (que também são forças de atração e repulsão).<strong> C. G. Jung </strong>afirma que é instintivo queremos preencher nossos vazios: alguns deles parecem até ser fáceis de se reconhecer, como as imagens psíquicas da fome e da sede.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-o-vazio-que-o-treinador-e-a-performance-escondiam-talvez-demore-um-pouco-mais-para-ser-percebido" style="font-size:22px"><strong>Mas o vazio que o treinador e a performance escondiam, talvez demore um pouco mais para ser percebido.</strong> </h2>



<p class="wp-block-paragraph">Diante do abismo, não à toa muitas vezes nos perguntamos de forma simbólica “eu tenho fome de quê?”; “eu gosto de matar minha sede com o quê?”. E quando não paramos para refletir e confrontar este vazio, desviamos os olhos dele e acabamos por cair ainda mais nos vícios, nas obsessões e compulsões. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Alguns tornar-se-ão ainda mais discípulos do treinador, afinal o treinador ainda está cheio de promessas. Já, outros, se decepcionarão com ele e encontrarão fugas, como o vício nas substâncias químicas e nas redes sociais (telas digitais) para não ter que conviver com o abismo. Na mitologia, podemos lembrar das Danaides enchendo seu vaso insaciável.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Lembro-me de um dia estar com dois amigos bebendo cervejas. Um deles quis sair para fumar. O outro perguntou: “para que você fuma?”. O fumante respondeu: “para ter prazer!”. O perguntante questionou novamente: “mas você não está tendo prazer aqui, bebendo e rindo conosco? Você precisa ainda mais de prazer?”. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-isso-me-atravessou-como-uma-flecha"><strong>Isso me atravessou como uma flecha.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Isso me atravessou como uma flecha. Na minha imaginação e nas minhas projeções, senti ali que o rapaz havia tido um dia o encontro com o treinador e havia encarado o abismo da insatisfação. E não percebera que seu vício por prazer para aplacar sua insatisfação iria tirá-lo da comemoração conosco. Evidentemente, esse lampejo e esse diagnóstico não foi para o rapaz, mas para o autor desse artigo. Afinal, escrevemos o que somos. </p>



<p class="wp-block-paragraph">A partir desse dia pensei o quanto a <strong>performance</strong> acaba por deteriorar a celebração. Conversando isso com uma amiga mestra em educação física, ela me disse: <strong>as Olimpíadas na sua gênese eram sumariamente uma grande celebração, depois a performance capilarizou cada passo da corrida, cada vara do salto, cada movimento da ginástica.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Ocorreu o mesmo com o trabalho, com a família, com o amor e o sexo. No fundo, parece que as Olimpíadas hoje aprimoram e premiam os indivíduos que possuem os transtornos obsessivos compulsivos por tornarem-se cada vez mais especializados nas respectivas modalidades. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-perfomance-x-celebracao">Perfomance x Celebração</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nesta reflexão de hoje, vislumbro a <strong>performance</strong> como uma <em><a href="https://blog.sudamar.com.br/o-complexo-oppositorum-da-natureza-da-psique/">complexio oppositorum</a></em> da celebração. À primeira visa o resultado futuro; a segunda, o prazer do presente. A primeira tende ao racionalismo matemático e estatístico, a segunda às emoções. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Primeiro Kronos; depois Kairós. <strong>A primeira é <a href="https://blog.sudamar.com.br/a-mentira-que-falta-a-verdade-a-tensao-criativa-entre-hermes-e-apolo/">Apolo</a> – o deus da perfeição. E ele, quando não cultuado, lança sua flecha mortífera no coração dos homens jovens. </strong>Não à toa ele além de ser uma divindade solar é também a divindade das maldições e da morte súbita. A segunda é Dioniso, a pulsão de vida, do êxtase e do álcool (espiritual), que quando acompanhado de Pã, pode causar o furor nas massas. Podemos depreender uma relação entre as maldições de Apolo, o álcool de <a href="https://blog.sudamar.com.br/o-coringa-ou-a-hannya-dionisiaca/">Dioniso</a> e aquilo que mencionamos acima sobre o escape do indivíduo quando se vê unilateralizado na <strong>performance</strong>. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando o indivíduo continua a seguir a <strong>performance</strong> de forma unilateral ele encontra a flecha sombria de Apolo; quando o indivíduo busca o entorpecimento das substâncias químicas, ele encontra Dioniso sombrio. Portanto, aqui, a unilateralização leva para o aspecto sombrio dessa&nbsp;<em>complexio oppositorum.&nbsp;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">A crítica aqui não aponta para o abandono da <strong>perfomance</strong>, e sim para o reavivamento da celebração/comemoração. <strong>C. Jung</strong> sabia disso em Eranos, momento em que grandes autores reuniam-se para comemorar –<em> comer e orar </em>– ou, como Waldemar Magaldi aponta <em>co-memorar</em>. A <strong>performance</strong> possuiu tanto nossa sociedade que acabamos por esquecer até de celebrar as pequenas coisas e momentos do cotidiano. Seja o banho após a labuta, a lasanha compartilhada pela família, ou até mesmo a cerveja entre amigos &#8211; que, por vezes, vamos somente para nos embriagar sem sequer realizar <strong>trocas verdadeiras</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-celebrar-comemorar-nao-esta-somente-ligada-a-alegria-mas-a-tristeza-tambem" style="font-size:18px"><strong>Celebrar/comemorar</strong> não está somente ligada à alegria, mas à tristeza também.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Viver o presente com suas alegrias e tristezas é que dá movimento à vida – é o que nos faz viver. Viver tal movimento é também, portanto, <strong>celebrar</strong> a tristeza quando ela se apresenta. Sim! <strong>É possível comemorar a tristeza, pois, uma hora ou outra, ela se inverte <em>in excessu affectus– </em>enantiodromicamente.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Celebre!</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Leonardo Torres</p>



<p class="wp-block-paragraph">Membro didata: Waldemar Magaldi</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. Obras Completas. Petrópolis: Vozes. </p>



<p class="wp-block-paragraph">HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. 2. ed. ampliada. Petrópolis: Vozes, 2017.</p>



<p class="wp-block-paragraph">TORRES, Leonardo. Contágio psíquico: a loucura das massas e suas reverberações na mídia. São Paulo: Eleva Cultural, 2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Depressão puerperal</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/depressao-puerperal/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ivone Ferreira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 28 Jul 2022 12:20:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Depressão]]></category>
		<category><![CDATA[Maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[Não Categorizado]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[depressão puerperal]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[psicossomática]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Como entender que um momento de tanta felicidade após o nascimento de um bebê, geralmente comemorado por toda a família e considerado normal e tão comum ao ciclo vital de qualquer ser humano se transforme em um momento depressivo? Estranhamente a mãe se sente triste, angustiada, insegura, sensível demais e, muitas vezes, chorando desesperadamente. O [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Como entender que um momento de tanta felicidade após o nascimento de um bebê, geralmente comemorado por toda a família e considerado normal e tão comum ao ciclo vital de qualquer ser humano se transforme em um momento depressivo? Estranhamente a mãe se sente triste, angustiada, insegura, sensível demais e, muitas vezes, chorando desesperadamente. O que estaria acontecendo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desde o nascimento de uma menina sabe-se que esta passara por três estágios críticos de vida: adolescência, a gravidez e o climatério. Provavelmente, nem todas as mulheres vivenciarão uma gravidez, mas a gestação e o puerpério são períodos da vida da mulher que  precisam ser vistos com especial atenção, pois envolvem inúmeras alterações físicas, hormonais, psíquicas e sociais, que podem refletir na saúde dessas mulheres. Essas alterações podem resultar em estados temporários de desequilíbrio e em significativas alterações na identidade da mulher devido as grandes expectativas quanto ao papel social esperado (Azevedo, Arrais, 2006). </p>



<p class="wp-block-paragraph">Desde a infância as meninas treinam o papel de mãe. Qual a menina que nunca foi presenteada com uma boneca? E hoje em dia as bonecas estão sendo comercializadas das mais diferentes formas, assim como os demais brinquedos que imitam o cotidiano de uma dona de casa: pratinhos de comida, fogõezinhos, miniaturas de casas, entre outros. Será que a partir disso estamos ditando normas para essas meninas? Quais seriam a influência de todos esses brinquedos na vida dessas crianças? Quais os modelos que estamos apresentando? Qual seria a menina/mamãe que não vai cuidar da sua boneca? Quais as normas a serem seguidas?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há no papel de mãe ideal a crença de que esta deve ser capaz de qualquer sacrifício, entre eles, ser amável, tranquila, compreensiva, terna, equilibrada, acolhedora, feminina em tempo integral. Há um padrão arquetípico envolvido na temática, mas elegemos a imagem da mãe ideal, um modelo de mãe perfeita, uma imagem romanceada da maternidade construída ao longo dos últimos séculos que está alicerçada sob um rígido padrão incapaz de admitir qualquer vestígio de sentimentos ambivalentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, na realidade observamos que após o nascimento do bebê, essa mãe experimenta sentimentos contraditórios e irreconciliáveis com a imagem idealizada de maternidade ditada pelos padrões coletivos. A partir dai, instaura-se um conflito entre o papel ideal e o vivido; aparece o sofrimento, a dor psíquica que pode configurar uma base para a depressão pós-parto.&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muitas considerações devem ser apresentadas para entendermos o sofrimento das novas mamães em nossa sociedade. As crenças sobre a maternidade são passadas de mãe para filha como se fossem tradicionais e naturais e, por assim serem, geralmente são consideradas incontestáveis e difíceis de vivenciar de outra forma. Mas será que essa mãe que conhecemos tem sua propensão natural ao sacrifício? Seu amor universal é automático pelos filhos? E sua completa satisfação está nas tarefas da maternidade? Sempre foi assim?</p>



<p class="wp-block-paragraph">No século XVII, por volta de 1762, quem cuidava dos filhos eram as ama-de-leite e a maternagem não era exercida pela mãe; nessa época Rousseau criticava essas mães que não exerciam sua maternagem e enviavam seus filhos para as ama-de-leite. Criticou esse comportamento e recomendou que os filhos deveriam ser amamentados e criados pelas próprias mães, recriminando quem fizesse o contrário, pois essas estariam preferindo cuidar de seus interesses pessoais e não de seus filhos. A partir desse momento,&nbsp; iniciou-se a &#8220;ordem &#8220;do amor materno, isto é, a condenação a ser mãe e a ser boa mãe. Não havendo alternativa para a mulher: a vocação é natural, instintiva e obrigatória. (Azevedo, Arrais, 2006).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Culturalmente, as representações sociais da maternidade só admitem o mito de mãe perfeita. Se pensarmos sobre isso, veremos que esta concepção assume proporções insustentáveis, segundo as quais acredita-se que a maternidade é inata a mulher e parte do ciclo evolutivo desta. Como quem gera é a mulher, acredita-se que ocorra, automaticamente, o desenvolvimento de grande amor por este ser gerido e ela seria a melhor pessoa para cuidar desse pequeno.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diante de todas essas considerações, observamos que há dados de literatura sobre o tema que tendem a confirmar que a mãe deve ter um amor incondicional e inato, que a mãe ideal seria aquela que estaria disposta a largar tudo para vivenciar essa responsabilidade sobre o bem-estar psicológico e emocional da família. Com essas crenças, confrontamos o conflito que surge na experiencia dessas mães que sentem-se insatisfeitas, infelizes, tristes, impotentes. Cobranças e comparações são inevitáveis e as novas mamães não conseguem compreender porque não estão vivendo esse papel com alegria, como a sua amiga que está feliz ao amamentar; não entendem como conseguem enfrentar as noites mal dormidas, ser mãe 24h por dia,&nbsp; e não ter de volta a própria vida. Elas sentem-se feias, desajustadas e incapazes de cuidar desse ser que agora depende totalmente de sua dedicação. A maioria sente que não tem disponibilidade interna para cuidar do bebe, amamentar, acalentar, aconchegar, tranquilizar. Sentem-se uma má mãe, uma&nbsp; mãe desnaturada, e sofrem por isso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os sentimentos observados vão desde uma pequena sensação de tristeza até um completo desespero, culminando com quadros depressivos e atitudes até então desconhecidas pela própria mãe. Ela entende que suas atitudes são inadequadas e estão fora do padrão conhecido para aquela situação, como, por exemplo, &nbsp;o desespero ao ver o bebe chorando e&nbsp; a vontade de fugir dali ao invés de ouvi-lo e tentar acalma-lo, ou a vontade de &#8220;jogar o bebe pela janela&#8221; quando esse não reage conforme o esperado depois de ser atendido em suas necessidades básicas. Um simples comportamento do bebe, contrário a expectativa da mãe, gera ansiedade, podendo causar um transtorno inaceitável e assustador para ela mesma: ela se sente insegura, sem paciência com o pequeno, desesperada e sem atitude, não sabe o que fazer, impotente. Nesses momentos essa tomada de consciência pode ser assustadora e provocar um choque para a auto-imagem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No confronto com a realidade de ser mãe, a nova mãe que acaba de deixar de ser filha, entra em contato com a memória de sua própria maternagem. Somos tomados pelo complexo. Os complexos seriam representados por aquelas atitudes que não aceitamos e que nos tomam sem possibilidade de agir de forma contraria. Corresponde a energia psíquica, com vontade própria que supera nossa intenção consciente. Quando esse complexo esta ativado perdemos nossa liberdade de ação e somos tomados por pensamentos obsessivos, ou atitudes inapropriadas.&nbsp;&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-jung" style="font-size:23px">Segundo Jung:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"> A existência dos complexos põe seriamente em dúvida o postulado ingênuo da unidade da consciência que é identificada com a &#8220;psique&#8221;, e o da supremacia da vontade. Toda constelação de complexos implica um estado perturbado de consciência. Rompe-se a unidade da consciência e se dificultam mais ou menos as intenções da vontade, quando não se tornam de todo impossíveis. A própria memória, como vimos, é muitas vezes profundamente afetada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Daí se deduz que o complexo é um fator psíquico que, em termos de energia, possui um valor que supera, às vezes, o de nossas intenções conscientes; do contrário, tais rupturas da ordem consciente não seriam de todo possíveis. De fato, um complexo ativo nos coloca por algum tempo num estado de não-liberdade, de pensamentos obsessivos e ações compulsivas para os quais, sob certas circunstâncias, o conceito jurídico de imputabilidade limitada seria o único válido.  </p>
<cite>(2013, § 200)</cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">O complexo materno seria o representante da experiência de maternagem no inconsciente pessoal, e tem em seu núcleo a potencialidade arquetípica do feminino É um complexo fundamental para a estrutura psíquica, pois estrutura a capacidade do indivíduo de estabelecer ligações afetivas com os outros. E, segundo Jung, a mãe está ativamente presente na origem da perturbação, particularmente em neuroses infantis ou naquelas cuja etiologia recua até a primeira infância. Portanto, não podemos deixar de observar a importância da relação mãe- filha na experiência de toda mulher que se torna mãe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os dados de literatura sobre a depressão puerperal apontam que 20 a 40% das mães apresentam uma disfunção cognitiva no período pós-parto. Nesta perspectiva, essa experiência materna desse período deve ser levada a sério, estudada e ser compreendida para que se faça uma reflexão crítica do conhecimento oriundo do senso comum acerca da vivência da maternidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O estudo dessa depressão puerperal deve abordar desde a compreensão e a definição da intensidade dos sintomas humorais associados a essa fase e que podem variar desde a melancolia da maternidade (baby blues) até as psicoses puerperais, passando pela depressão pós-parto propriamente dita.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-melancolia-e-caracterizada-pela-tristeza-com-labilidade-transitoria-de-humor-sentimentos-de-melancolia-choro-frequentes-disforia-ansiedade-irritabilidade-e-dependencia" style="font-size:17px">A melancolia é caracterizada pela tristeza com labilidade transitória de humor, sentimentos de melancolia, choro frequentes, disforia, ansiedade, irritabilidade e dependência.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Atinge cerca de 50% das novas mamães e aparecem entre o terceiro e quarto dia após o parto e tem geralmente remissão espontânea. Estes sentimentos podem durar vários dias e tem sido atribuído à rápida mudança nos níveis hormonais, ao estresse do parto e a consciência da responsabilidade aumentada, que a maternidade traz consigo. Em casos raros cerca de 1 a 2 em cada 1000 nascimentos, aparece a psicose pós-parto; nesse caso, a mãe apresenta ansiedade severa, alucinações e delírios que necessitam tratamento intensivo e por vezes, até hospitalização, ocorrendo entre as duas primeiras semanas após o parto. (Coutinho, Saraiva, 2008).</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;O puerpério compreende o período até 6 meses após o parto. E a depressão puerperal estaria relacionada aqueles casos onde observa-se a persistência dos sentimentos de tristeza, insegurança, incapacidade de sentir prazer, cansaço, desesperança, etc. Esses sentimentos estão associados a fatores biológicos, obstétricos, sociais, psicológicos, que se inter-relacionam. Observa-se que a experiência da maternagem configura mudanças profundas na identidade da mulher e na posse de novos papeis, acarretando muitas vezes em conflitos que podem ser um fator de risco para a depressão. Essas mães tendem a perceber a própria experiencia de forma mais negativa do que aquelas sem depressão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Após o nascimento das crianças, a mãe terá que enfrentar vários desafios: a dificuldade na amamentação, muitas vezes dolorosa, a dificuldade em lidar com o choro da criança, a falta de suporte do parceiro, problemas de saúde do bebê, dificuldades econômicas, e hoje, especificamente algo próprio da modernidade, a falta de rede de apoio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Poucas mães mencionam a crise psíquica que acompanha o nascimento de um filho, o despertar de sentimentos enterrados há muito tempo a respeito da própria mãe, a mistura de poder e impotência. E, muitas mulheres vão para o parto imersas em fantasias entendendo que após o nascimento do bebê estarão conectadas com esse novo ser e, como se esse fosse um robô, poderão ligá-lo e desligá-lo quando quiserem. Tiraram fotos da barriga grávida, arrumaram o quarto do bebê, providenciaram um lindo enxoval (por muitos, feito nos Estados Unidos), chá de bebê, chá para revelar o sexo e muito mais. E assim vão para a maternidade. Tudo arrumado para o bebê que está para chegar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Após a experiência do parto, a realidade&#8230; O bebê, agora fora da barriga da mãe, começa a funcionar independentemente: respira, mama, chora, resmunga, faz caretas, mas está emocionalmente conectado a essa mãe. Concretamente houve uma separação física entre mãe e bebê, mas a fusão mãe-bebe não se desfez, porque tem outro sentido, agora é o emocional que se apresenta, pertence a outra ordem. Esse ser é totalmente dependente e não consegue sobreviver sem seus cuidados, e estão fundidos no mundo emocional. Ele vive como se fosse dele tudo o que a mãe sente e recorda, aquilo que a preocupa ou que rejeita (Gutman, 2014).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele reconhece todos os sentimentos maternos, e ela não consegue reconhecer seus mais profundos sentimentos, tudo aquilo que não reside na consciência, está relegado à sombra e ela não quer ter contato. Ou não consegue?</p>



<p class="wp-block-paragraph">A mãe se sente impotente. O recém-nascido está diante da mãe, totalmente indefeso, necessitando de seus cuidados. E ela diante desse bebê não sabe o que fazer, apesar de ter ouvido palestras e feito cursos sobre o assunto. O bebe chora muito, ela não consegue consola-lo, mesmo após ter sido atendido em todas as suas necessidades básicas, o que estaria acontecendo? Se esse bebe chora tanto, porque sua mãe chora tanto? Ela não consegue se conectar com esse bebe, não existe sintonia. Sente-se perdida, sem ação. O padrão imaginado não está correspondendo a realidade, falta uma conexão, isto é, &nbsp;as respostas existem dentro da mãe, mesmo que não sejam evidentes. Nossa ajuda deverá ser no sentido de buscar as respostas dentro dessa alma feminina, se ela realmente estiver disposta a encontrar a si mesma. (Gutman, 2014).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A gravidez tem a duração de nove meses e a natureza possibilita que, durante esse tempo, essa mãe se prepare para cuidar dessa nova criança que esta por vir. A preparação para o parto implica o verdadeiro encontro com um eu interior e o conhecimento das capacidades intrínsecas de cada nova mãe. Se essa mãe não se conectou durante esse tempo, o que acontecerá? Observa-se um comportamento infantilizado nas gestantes, que acreditam que todo o processo deve ser perfeito e sem problemas. Diante disso, esse bebê real não corresponde ao imaginado e sonhado. Esse bebê chora sem parar, suja as fraldas, é muito magro, ou é muito gordo, é muito comprido, ou é excessivamente inquieto, não permite que a mãe fique tranquila diante de visitas, queria o parto ‘normal, mas foi cesárea, ou seja tudo o que ela esperava não deu certo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E ainda aquele parto normal tão natural não aconteceu porque ela teve dores por horas e a analgesia só pode ter sido feita no momento certo. Mas e o parto sem dor?  Tudo era desconhecido. A fantasia de um parto normal, tornou-se uma ilusão, pois     acreditava-se que ‘normal implicava em um parto sem dor e rápido, sem complicações ou sem demora. Ela não tem consciência sobre o que é um trabalho de parto, está na ilusão de que teria algumas dores e pronto ali estava o bebê. Ou mesmo sente-se amedrontada pelo parto, sem saber qual seria a melhor decisão no seu caso. Essa é a fantasia atual sobre o parto, que revela o quão distante a mulher está de sua própria condição de parir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As dificuldades da mãe em relação ao bebê, revelam aspectos da sombra da própria mãe. Conectar-se a este novo ser é fundamental para vivenciar esse novo papel. Mas como? Os complexos começam a aparecer, os sentimentos sobre ser filha e ser mãe faz com que ocorram conflitos importantes: o modo como sua mãe exercia a maternagem implica que ela deverá fazer da mesma forma?? Sua experiência, positiva ou negativa, com sua própria mãe será significativamente importante para a vivência da maternagem. Seu papel de mãe está somente começando e ela se sente insegura (será que vai dar conta como a sua mãe ou fará melhor?). </p>



<p class="wp-block-paragraph">As suas certezas agora são dúvidas, suas teorias sobre a criação dos bebes e o que é ser boa mãe tornaram-se incógnitas no seu imaginário, tudo é obscuro, não existe uma receita pronta e até mesmo aquele padrão que deveria ser seguido não está dando certo. A mãe encontra-se tão preocupada que não consegue ter a atitude de ampliar seus sentidos e se conectar com esse bebe que está chorando, procurando assim pelo motivo de tal reclamação. Motivo esse que o simples acalento não foi suficiente para tranquiliza-lo. Seu sentimento de ter sido filha e ter tido uma mãe positiva, ( carinhosa, afetiva, calma, que supriu suas necessidades básicas nos momentos esperados), não estão sendo satisfatórios. O padrão conhecido não esta dando certo. Essa unilateralidade de atitudes cega seus olhos e ela não consegue perceber que pode haver outra forma de agir diante das necessidades desse bebe. Ampliar sua consciência para o que esta acontecendo é fundamental nesse momento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por outro lado, se sua experiencia como filha foi negativa, por ter tido uma mãe mais desprendida, mais independente, menos carinhosa, faz com que seja mais preocupada e muito exigente consigo mesmo, achando que o correto é estar ali grudada no bebe 24hs, sem tempo para nada, sem comer ou dormir ou ate cuidar de si mesma. E mesmo assim o bebe também não corresponde positivamente, chora por qualquer coisa, é inquieto, não dorme, enfim, um bebe com comportamentos os mais diversos sem padrões definidos, uma criança que chegou ao mundo para viver sem comportamentos determinados.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-existe-dificuldade-na-conexao-com-esse-bebe-ser-mae-eis-a-questao-como-fazer" style="font-size:19px">Existe dificuldade na conexão com esse bebê. Ser mãe, eis a questão. Como fazer?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Criar um bebê real é também reviver o bebê que fomos, a filha que vivenciamos e confrontar-nos com a nossa mãe interna. Quando essas mães não atendem às necessidades próprias, simplesmente a sombra aparece, na forma de doenças, sensações incomodas, choro, entre outras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse novo ser que chega ao mundo, requer uma sintonia profunda da mãe com seu interior e com o próprio bebê, esquecer os padrões aprendidos e os palpites externos, a mãe é convidada sair da unilateralidade e deixar-se levar pela sua intuição materna. Esses sintomas de humor deprimido, fraqueza, tristeza, energia reduzida dependem das autoridades que julgam. Há uma avaliadora interna que compara padrões e considera que havia mais prazer antes do que agora e que isto é ruim. Há outra que julga seus pensamentos diante dessa comparação. Há outra que olha seu bebe e fica feliz com sua presença. Não existe somente a comparações, há também a valoração negativa para o sofrimento, a fadiga, auto estima, autoconfiança reduzida, enquanto as tarefas de mãe apenas aumentaram levando a uma maior fatigabilidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com Gutman (2014), quando as mulheres assumem sua existência natural, isto é, sem controles, adquirem conhecimento, visão, inspiração, intuição e a própria vida vibra dentro e fora delas. O conhecimento e essa vivencia do feminino; de se sentir&nbsp; mulher sem padrões definidos, é o que possibilita perceber os sons dos ritmos internos e externos, e viver ao som destes para não perder o equilíbrio espiritual. Quando as mulheres se afastam de sua natureza, por estarem envolvidas com os padrões culturais ou intelectuais, perdem seus instintos e os ciclos vitais naturais ficam submetidos à cultura, ao ego, seja o próprio ou o dos demais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo <strong>Gutman</strong> (2014) , o parto e a amamentação são situações apropriadas para as mulheres se conectarem com os aspectos mais naturais e selvagens de seu ser essencial. A amamentação ainda facilita o aflorar desses sentimentos. Amamentar é se deixar levar pelo encantamento da vida, é estar livre para mimar, cantar, contar estórias, ouvir o bebe e sentir seu coração pulsando junto e em sintonia. Sem métodos, horários ou conselhos. É puramente sensação, uma experiencia mística, se permitirmos que isso aconteça. Isto somente é possível quando se compreende que existe um profundo vinculo com a mãe terra e que faz parte da psicologia feminina. A união com a natureza é própria do feminino e, quando esse aspecto não se manifesta na amamentação, as dificuldades são maiores e dificultam a vivencia da maternagem.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Ivone Ferreira</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/ivoneferreira/">Ivone Ferreira</a> &#8211;  médica, ginecologista, Analista em formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Atendimento:&nbsp;Rua Barão do Triunfo n. 427- conj. 1002</p>



<p class="wp-block-paragraph">Brooklin &#8211; SP &#8211;&nbsp; Fone (11) 5031 6203 &#8211; secretária Cristina&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="mailto:Contato@nucleoivoneferreira.com.br">Contato@nucleoivoneferreira.com.br</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">AZEVEDO, K.R.; ARRAIS, A.R. O mito da mãe exclusiva e seu impacto na depressão pós-parto. Psicologia: Reflexão e Crítica, Porto Alegre, v. 19, n.2, p.269-276,2006</p>



<p class="wp-block-paragraph">COUTINHO, M.P.L.; SARAIVA, E.R.A. Depressão pós-parto: considerações teóricas. Estudo e Pesquisas em Psicologia, Rio de Janeiro, ano 8, n.3, p. 759-773, 2008.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GUTMAN, l. A maternidade: e o encontro com a própria sombra, Rio de Janeiro, tradução: Luís Carlos Cabral. -7ª.ed.,2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. A natureza da psique. Tradução de Mateus Ramalho Rocha. &#8211; 10. ed. &#8211; Petrópolis: Vozes, 2013. </p>



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		<title>O tolo de ouro (ou “o homem que não enxergou ninguém”)</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-tolo-do-ouro-ou-o-homem-que-nao-enxergou-ninguem/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[José Luiz Balestrini Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Jun 2022 14:57:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ansiedade]]></category>
		<category><![CDATA[Depressão]]></category>
		<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Felicidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=4288</guid>

					<description><![CDATA[<p>O ouro é um dos símbolos mais marcantes que representam o si-mesmo, ou seja, a totalidade da psique. Partindo dessa afirmação, trago no presente texto uma ampliação simbólica de uma pequena história chinesa de autoria atribuída ao filósofo chinês Lao Tsé entitulada “O homem que não enxergou ninguém”. </p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Da janela digital do meu computador observo atentamente a busca inconsciente quase desesperada das pessoas por <strong>sentido</strong> e <strong>significado</strong> em suas vidas. Talvez, numa época em que a transparência exagerada não fosse algo tão presente no cotidiano do ser humano, fosse mais difícil perceber tal comportamento. Mas assim, com tudo exposto, publicado, compartilhado e reproduzido de maneira massificada na internet o tempo todo, a dificuldade é não ver. No entanto, <strong>paradoxalmente</strong>, o mais difícil é o que acaba acontecendo na prática: a maioria das pessoas passa de uma imagem para outra sem prestar a menor atenção no que elas representam em suas camadas mais profundas. A vitória é dos algoritmos, representantes fiéis da sociedade do consumo e da cultura de massas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; C. G. Jung encontrou no texto alquímico chinês chamado <em>O segredo da flor de ouro</em> a correspondência simbólica para os processos de transformações psíquicas que ele mesmo vivia em seu mundo interior; a partir daí, continuou ampliando e amplificando as imagens alquímicas encontradas nos mais variados tratados. O ouro, que já aparece inclusive no título desse texto chinês, é um dos <strong>símbolos</strong> mais marcantes que representam o <strong>si-mesmo</strong>, a totalidade e o resultado da transformação psicológica que leva à criação de consciência e ao <strong>processo de individuação</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Podemos entender o ouro como o germe do “s<em>er-um-só”, </em>é o <em>aurum philophosorum</em>, a semente que dará origem à totalidade e da qual nascerá a ave de <em>Hermes</em> que pode ser comparada a uma fênix, símbolo do constante ciclo de morte e renascimento que precisamos experienciar de maneira repetida durante nossa existência terrena. Essa ave é formada a partir dos vapores que surgem do elixir do <em>lápis philosophorum </em>que pode transformar tudo em ouro. O ouro é a meta de toda <strong><em>opus </em>alquímica</strong> (JUNG, 2011a). Ele carrega a ideia de perfeição; é como se a <strong>numinosidade arquetípica</strong> se manifestasse em sua luz celeste e divina. Em chinês o ouro é chamado de <em>Kin</em>, que etimologicamente indica algo que seria produto de uma gestação lenta, de uma transformação e do aperfeiçoamento de algo. Encontramos o mesmo princípio na <strong>alquimia</strong> ocidental: “A transmutação é uma redenção, é a transformação do homem, por meio de Deus, em Deus” (CHEVALIER; GHEERBRANT, 1990, p. 669).</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A partir da ideia do ouro como representante <strong>simbólico</strong> do <strong>si-mesmo</strong>, vamos dar atenção à uma pequena história chinesa de autoria atribuída ao filósofo Lao Tsé:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>O homem que não enxergou ninguém<a href="#_ftn1" id="_ftnref1"><sup><strong><sup>[1]</sup></strong></sup></a></em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Havia um homem no estado de Qi que desejava possuir ouro. Numa manhã ele se vestiu com sua melhor roupa e foi até o mercado local. Chegando na banca do comerciante de ouro, ele agarrou uma peça e correu como louco.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>O policial que o prendeu perguntou: “Porque você roubou o ouro na frente de tantas pessoas?”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Ele respondeu: “Quando eu peguei o ouro eu não enxerguei ninguém. Tudo o que eu vi foi o ouro”. </em>(YANG, 1957, p. 21)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Impressiona como um texto que data do século V a.C. ainda conte muito sobre o comportamento do ser humano contemporâneo, parece que aprendemos muito pouco durante esse tempo. Num breve exercício de ampliação, podemos brincar com a imagem dessa narrativa e encontrar correspondência com a vida da maioria das pessoas nos dias de hoje. A força <strong>arquetípica</strong> do ouro que, supostamente deveria ser encontrada de maneira simbólica no mundo interior, acaba projetada de maneira literal no mundo <strong>concreto</strong>. A peça de ouro que o personagem da história deseja possuir pode ser compreendida como a projeção do si-mesmo no mundo externo. Me parece que é exatamente esse o tipo de atitude que podemos observar em grande parte da população da sociedade contemporânea. Para além disso, nos dias de hoje, o ouro é transformado e confundido com as mais diversas conquistas que podem ser materiais ou até mesmo digitais. Podemos pensar em muitos exemplos, mas de uma maneira geral, mesmo os objetivos que podemos classificar como superficiais, têm por trás o desejo de <strong>poder</strong>, seja ele financeiro, econômico, social ou político.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Retomando a imagem da história, o homem, cego pelo desejo, não enxergou ninguém quando agarrou a peça de ouro. Aqui cabe a provocação: qual é ouro em nossas próprias vidas? O que temos como objetivo que nos cega fazendo com que não enxerguemos as pessoas à nossa volta? Será o dinheiro? O reconhecimento? Será o número de seguidores ou de visualizações nas redes sociais? Em qual &#8211; ou quais &#8211; objeto está projetado aquilo que só o verdadeiro autoconhecimento pode fazer surgir de maneira luminosa em nosso caminho? O ser humano se esconde atrás de valores ditados pela <strong>sociedade do consumo</strong>; encontra facilmente justificativas para as atitudes que o mantém longe do conflito ético e moral que precisa enfrentar para encontrar o verdadeiro caminho para o si-mesmo. “Esse é o meu ouro, tenho certeza!” diz a pessoa para esconder, na verdade, sua preguiça e seu medo de enfrentar o desconhecido e o sombrio que existem na sua própria psique. Quando desfazemos as <strong>projeções</strong>, somos obrigados a lidar com a realidade do mundo interior; só podemos fazer isso com disposição, prontidão e atitude para empreitar a <em>opus</em> de que tanto falaram os alquimistas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para a sociedade, nada é mais alienante e devastador do que esse comodismo e essa irresponsabilidade moral e, por outro lado, nada é mais provocante para a compreensão e a aproximação do que o abandono das projeções. Essa correção necessária requer autocrítica, uma vez que não se pode obrigar a alguém a entender suas projeções (JUNG, 2011b, p. § 577).</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Diferentes comportamentos ilustram essa busca literal por algo que deveria ser uma <strong>transformação</strong> simbólica e mostram o absurdo, o exagero, o descomedimento e o desespero do qual eu falava no início desse texto me referindo à transparência exagerada, patológica e muitas vezes falsa da vida digital e digitalizada. Algumas pessoas chegam ao ponto de pagar valores exorbitantes para literalmente comer o metal. Através de uma busca simples na internet, podemos encontrar as mais diferentes receitas que levam ouro em seu preparo; encontramos desde cobertura de sorvete decorada com fios de ouro até churrasco folheado com o metal. As informações são as mais diversas e confusas sobre se isso faz bem ou não ao organismo, a maioria das pesquisas mostra que, aparentemente, ingerir o metal não tem efeito fisiológico algum, nem para o bem, nem para o mal. Porém, o mais importante para a nossa <strong>análise</strong> <strong>psicológica</strong> do fenômeno é que isto serve como mais um exemplo da <strong>literalização</strong> inconsciente em busca do si-mesmo e da imortalidade que esse metal representa: o ouro, por ser um metal que não oxida, é símbolo da vida eterna; condição almejada, simbolicamente, pelos alquimistas taoistas. Para aqueles de menor poder aquisitivo, que não podem se alimentar de ouro, resta tentar a sorte em outras projeções: no trabalho incessante e compulsivo; na esperança de ganhar, de uma hora para outra, uma grande quantidade de dinheiro; na atitude de roubar o ouro literal de outros etc. Obviamente, esses comportamentos não são exclusivos daqueles que não possuem poder financeiro para ingerir ouro, na sociedade de hoje, parece que a maioria age da mesma maneira, procurando compulsivamente fora algo que poderia ser encontrado dentro. Na minha visão, um comportamento que pode ser visto como um dos maiores expoentes dessa projeção se revela no vício nas redes sociais, onde, paradoxalmente, as pessoas perseguem a imortalidade em imagens mortas dos outros e de si mesmas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O homem que busca o ouro fora de si torna-se um ladrão que rouba de si mesmo a possibilidade de transformação; a obtenção concreta do metal precioso não é o objetivo buscado pelos verdadeiros alquimistas porque, se a argila pode ser transmuta em ouro, então as duas coisas são uma só. Somos argila e ouro e através do processo alquímico que leva à <strong>transformação</strong> e à <strong>transmutação</strong> podemos transitar entre as duas condições. A matéria é ambivalente, portanto o próprio ouro é ambivalente, assim como <em>Hermes</em>:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hermes, o iniciado, o condutor de almas, o mensageiro divino e o deus do comércio, é também o deus dos ladrões, significando assim a ambivalência do ouro” (CHEVALIER; GHEERBRANT, 1990, p. 671).</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Hermes é o deus do comércio e dos ladrões! Na história de que tratamos parece que ele tomou o partido do comerciante, mas talvez estivesse agindo à serviço da totalidade mostrando, através do revés, que algo precisava se tornar consciente na vida do larápio. Podemos dizer que a negação da possibilidade da experiência simbólica explicita na cegueira desejosa e literal do homem enfureceu o deus que o leva ao aparente infortúnio. Ele apanha o <strong>ouro</strong>, cego pela possibilidade de supostamente encontrar o si-mesmo, mas como não leva em conta a coletividade &#8211; não enxerga ninguém &#8211; acaba preso. Ora, sabemos que a jornada do herói só é completa quando o elixir mágico, ou seja, o tesouro conquistado, é oferecido para a coletividade. Do contrário o aventureiro não é herói, é apenas mais um ser identificado com o monoteísmo da consciência. Para o <strong>processo de individuação</strong> acontecer é preciso que seja oferecido uma contrapartida para a <strong>coletividade</strong> e tudo isso caracteriza um movimento contínuo que precisa ser repetido sempre e de novo. Afinal, falamos aqui de um processo dinâmico que não alcança a estase enquanto estivermos aprisionados em nossa dimensão corpórea, até a morte será preciso lidar com a sombra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Para encerrar esse pequeno ensaio, retomo a provocação proposta anteriormente: será que aquilo que buscamos em nosso cotidiano é uma expressão verdadeira do <strong>mito</strong> do nosso <strong>significado</strong> individual, ou será que somos apenas tolos correndo atrás de algum ouro enquanto não enxergamos as pessoas à nossa volta?</p>



<p class="wp-block-paragraph">José Balestrini &#8211; Membro Analista do IJEP; Analista Didata em Formação do IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Analista Didata Responsável &#8211; Waldemar Magaldi</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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<p class="wp-block-paragraph">Imagem utilizada para fins educacionais segundo a licença: HBR, CC BY 3.0 &lt;https://creativecommons.org/licenses/by/3.0&gt;, via Wikimedia Commons; pode ser encontrada em: <a href="https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Chinesischer_Goldbarren.JPG">https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Chinesischer_Goldbarren.JPG</a></p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref1" id="_ftn1"><sup>[1]</sup></a> Essa é uma tradução livre do autor; o texto original em inglês pode ser encontrado no livro citado nas referências.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>O não reconhecimento do sofrimento psíquico</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-nao-reconhecimento-do-sofrimento-psiquico-2/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Tania Pulier Garrido]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 21 Mar 2022 11:40:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ansiedade]]></category>
		<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Burnout]]></category>
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		<category><![CDATA[Sofrimento]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Apesar de o debate sobre a importância da saúde mental ter aumentado nos últimos dois anos, com o confinamento provocado pela pandemia de Covid-19, o sofrimento psíquico continua sendo pouco reconhecido e legitimado não apenas no senso comum, mas também nos ambientes de trabalho e políticas públicas. O objetivo deste artigo é, mostrando vários ângulos [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Apesar de o debate sobre a importância da saúde mental ter aumentado nos últimos dois anos, com o confinamento provocado pela pandemia de Covid-19, o sofrimento psíquico continua sendo pouco reconhecido e legitimado não apenas no senso comum, mas também nos ambientes de trabalho e políticas públicas. O objetivo deste artigo é, mostrando vários ângulos deste não reconhecimento, dar relevo ao papel da psique na saúde integral, a partir da visão da Psicossomática que dialoga com a Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo o relatório mundial da Saúde de 2001 da Organização Mundial da Saúde, que trouxe como tema a saúde mental (cf. WHO, 2001), já no início do século XXI uma em cada quatro pessoas sofreria com alguma doença mental em determinada fase de sua vida, e até 2030 a depressão se tornaria a doença mais comum do mundo e a maior causa de perdas para a população em termos de saúde pública. Entre outras ações, o relatório pede programas de acompanhamento e cuidado nas comunidades, mais profissionais preparados, apoio à pesquisa e sensibilização da população quanto à importância do cuidado com a saúde mental.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não obstante, o novo Atlas da Saúde Mental da própria OMS, que reuniu dados de 171 países durante o ano de 2020, revelou que, apesar de ter havido um aumento de programas de promoção e prevenção na área da saúde mental (de 41% dos Estados-membros em 2014 para 52% em 2020), sua eficácia é questionável, por falta de investimentos humanos e financeiros. As metas propostas não foram alcançadas e há um déficit de financiamento, mesmo com a necessidade crescente dele devido à pandemia da Covid-19 (cf. Opas, 2021).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com a pandemia, de fato, vários alertas têm sido feitos a respeito dos abalos para a saúde mental gerados por toda a situação de insegurança sanitária, social e econômica, confinamento prolongado e perdas. No Brasil, o Ministério da Saúde (2021) alertou sobre o agravamento dos transtornos que já afetavam a população (mais de 18 milhões de brasileiros sofriam de ansiedade mesmo antes da pandemia e mais de um terço dos fatores de incapacitação de pessoas nas Américas devia-se a transtornos mentais). Retomou os termos “fadiga pandêmica” e “definhamento”, usados pela OMS para trazer relevância aos sintomas de cansaço, esgotamento físico e mental, falta de propósito, desesperança, desmotivação que antecedem a pandemia, mas foram agravados e muito por ela. Soma-se a isso o luto em grandes proporções de pessoas que sofreram várias perdas e sequer puderam vivenciar os rituais fúnebres como gostariam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Que o tema da saúde mental tem sido mais tratado é indiscutível. Isso significa, porém, que o sofrimento psíquico já seja reconhecido? Nas Olimpíadas de Tóquio (2021), assistimos com perplexidade à desistência da ginasta estadunidense Simone Biles de disputar a final de solo e outras provas, alegando questões de saúde mental diante da pressão. No início de 2022, foi a vez do brasileiro Gabriel Medina desistir da Liga Mundial de Surfe para cuidar da saúde mental. Se sobre os famosos as opiniões já se dividem, e há quem considere a decisão luxo ou frescura, jogada midiática ou covardia, para os simples mortais, então, os “veredictos” costumam ser mais duros, e continua-se a ouvir com frequência expressões como “isso é só psicológico” ou “é coisa da sua cabeça”.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Real, legítimo e com potencial transformador</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No texto “Da formação da personalidade”, da conferência intitulada “A voz do íntimo”, de 1934, Jung fala dos que têm a coragem de trilhar seu próprio caminho e assim desenvolver a personalidade, para além da coação e proteção do grupo, a partir da necessidade (por acontecimentos internos ou externos), da decisão moral e da escuta e confiança na voz do íntimo que os impele a emancipar-se das convenções sociais. Neste contexto, utiliza a expressão “Isso nada mais é do que psicologia”, da parte dos que se opõem com preconceitos a este caminho (JUNG, 2020, §302). É interessante a semelhança com o julgamento do senso comum, mesmo na atualidade, sobre o sofrimento psíquico, sobretudo quando compreendemos, a partir do olhar da Psicologia Analítica, que os sintomas são manifestação do inconsciente e mesmo chamado da alma que aponta na direção do processo de individuação, do tornar-se si mesmo, neste caso como oportunidade de rever o que pode estar unilateralizado e por isso levando ao adoecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A essas reflexões caberiam todas as expressões citadas por Jung no mesmo texto, que dizem respeito ao julgamento de quem ousa afastar-se da voz do grupo social para ouvir a voz do íntimo que designa a tomar outro rumo na vida: “tal coisa nem existe”; “se existir, será naturalmente algo ‘doentio’ e, além disso, sem finalidade”; “é ‘uma pretensão descabida pensar que uma coisa dessas tenha importância’”. Lembro-me de uma vizinha que precisou ser afastada do trabalho para tratar de uma depressão. Para melhorar e mesmo como primeiros sinais de melhora, ia tomar sol, mas evitava que os colegas soubessem, pois dizia: “Vir aqui é um esforço que faço para ficar bem, mas qualquer um que me visse assim julgaria minha licença como folga enganosa. Seria tão mais fácil ter quebrado a perna! De um gesso não se duvidaria.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Reconheço angústia semelhante nos relatos que leio no livro de Psicossomática que não por acaso tem o título “Isso é coisa da sua cabeça” (cf. O’SULLIVAN, 2016). Neles, as pessoas afetadas por sintomas ou transtornos graves sem causa orgânica passam de especialista em especialista, desejando que alguém descubra uma doença clínica para explicar seu sofrimento, pois a eles a origem psíquica parece uma humilhação que não legitima a sua dor. É como se lhes dissessem “Você inventou na imaginação o seu mal e pode pará-lo a qualquer momento”, o que não é bem assim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A psique é muito mais ampla do que a consciência que, quando inflada, acredita ter o controle de todas as coisas, bem na linha dos parâmetros sociais atuais, que nos apontam o ideal da pessoa independente, autodeterminada, influenciadora, conectada, com o corpo perfeito segundo padrões bem estabelecidos, a “saúde de ferro” e o “pensamento positivo que tudo alcança”. Parece que somos todos “desviados”; a maioria, porém, lutando quixotescamente para aproximar-se o máximo possível desse estabelecido e ignorar ou combater o seu oposto. Que atualidade têm os seguintes apontamentos de Jung feitos há quase um século!</p>



<p class="wp-block-paragraph">A gente quase se sente um mágico que por suas artes manipula o que é psíquico e lhe dá a forma caprichosa que deseja. Nega-se o que é incômodo, sublima-se o que é indesejável, afasta-se com explicações o que é angustiante, corrige-se o que se julga um erro; e tem-se por fim a impressão de ter colocado tudo na mais perfeita ordem. (JUNG, 2020, §302)</p>



<p class="wp-block-paragraph">É na base da negligência de tantos outros elementos que eles mais cedo ou mais tarde cobram a conta, seja por um infarto, uma falência, uma síndrome do pânico ou uma crise de ansiedade. Enquanto vemos os limites dos outros — mais porque projetamos, sem reconhecer os nossos, do que por não os ter —, nos indignamos com o que parece “bobagem”, “frescura” ou “moleza” e nossos conselhos vão nesta linha: “levante-se!”; “tenha força de vontade!”; “dê a volta por cima!”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando ocorrem conosco, sofremos e queremos ser compreendidos, mas muitas vezes nós mesmos continuamos a não nos compreender, uma vez que não acolhemos nossos outros lados e seguimos com a visão unilateral, achando que deveríamos estar na linha reta estabelecida e buscando de curandeiros a remédios mirabolantes ou entorpecentes para tentar a todo custo retomá-la. Julgamos os outros ou nós mesmos como se tudo dependesse apenas do “eu”. “Mas nisso tudo foi esquecido o mais importante: que o psíquico não se identifica nem de longe com a consciência [&#8230;]. A maior parte do psíquico consta de fatos inconscientes que [&#8230;] podem desabar sobre nós a qualquer momento”. (JUNG, 2020, §302)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O sintoma acontece exatamente como um sinal de alerta de que algo em nós entrou em cisão e oposição com o padrão dominante da consciência. Um complexo foi constelado, ou seja, uma imagem de forte carga afetiva que toma a vontade da pessoa quase como uma personalidade autônoma, em torno de um conteúdo que une uma imagem arquetípica (imagens formadas pelo inconsciente coletivo ao longo da vivência da humanidade, como mãe, pai, criança, bruxa, bem, mal etc.) a experiências pessoais cuja memória ativa emoções (Cf. JUNG, 2018, §198). Esse conflito chama à ampliação da consciência para um novo jeito de viver.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Chama, convida, mas também pode obrigar. Isso porque o adoecimento não é um evento pontual que surge de repente, mas um processo, que começa com algo que incomoda, uma tensão que podemos escolher ignorar. Podem ocorrer disfunções, como insônia, dor de cabeça, alergias; distúrbios, quando estes se tornam mais fortes e recorrentes; alterações, que começam a aparecer nos exames; até chegar à doença, manifestada mais no físico (uma destruição celular) ou no emocional, mas nunca num único nível. Geralmente, há um fator desencadeante, que se liga com a memória do coração, ou seja, com eventos de vida que se aglomeraram a partir de um princípio difícil de precisar, e que num dado momento eclode, sobretudo se as fases silenciosas foram ignoradas. E apenas neste sentido somos responsáveis — podemos dar ouvidos ou não aos vários chamados que nos são feitos pelos fatos de vida ou pelos primeiros sintomas ou incômodos; não no sentido de se tratar de “coisas da nossa cabeça” que da forma como criamos podemos eliminar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Percebe-se nessa leitura uma visão integral do humano, biopsicosocioespiritual. Como explica Jung (2018, §418), “há não só a possibilidade, mas até mesmo uma certa probabilidade de que a matéria e a psique sejam dois aspectos diferentes de uma só e mesma coisa”. Sendo assim, o sofrimento psíquico é tão legítimo como o físico, até porque estão ligados e nenhum acontece isoladamente, apenas com formas diferentes de manifestação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ele nos ensina que precisamos rever nossa imagem de mundo limitada e unilateralizada que reduz o real ao material, aos objetos percebidos pelos sentidos, como se o imaterial fosse irreal (até o pensamento o seria, dessa forma). Ora, “aquilo que age, que atua, é real.” (JUNG, 2018, §742) Se nos afeta, se produz efeito em nós, é real. Aliás, à própria realidade material, só temos acesso indiretamente, pelas imagens formadas em nossa consciência por processos complexos do sistema nervoso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Longe, portanto, de ser um mundo material, esta realidade é um mundo psíquico que só nos permite tirar conclusões indiretas e hipotéticas acerca da verdadeira natureza da matéria. Só o psíquico possui uma realidade imediata, que abrange todas as formas do psíquico, inclusive as ideias e os pensamentos ‘irreais’, que não se referem a nada de ‘exterior’. Podemos chamá-las de imaginação ou ilusão; isto não lhes tira nada de sua realidade. [&#8230;] A realidade do psíquico, isto é, a realidade psíquica, aquela única realidade que podemos experimentar diretamente, acha-se entre as essências desconhecidas do espírito e da matéria. (JUNG, 2018, §747)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Apenas com o reconhecimento da realidade, legitimidade e mesmo importância do sofrimento psíquico — o seu potencial criativo e transformador como chamado da alma — é que se poderá tratá-lo como é devido, com atenção, interesse, respeito e tempo, e com os investimentos humanos, profissionais e financeiros previstos nos projetos públicos, que geralmente ficam nos papéis. Se insistirmos, porém, em nossa miopia de enxergar apenas o material, talvez os números, já alarmantes, precisem ficar catastróficos para percebermos que algo real e sério está acontecendo quanto à saúde.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tania Pulier — Analista em formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Lilian Wurzba — Analista didata/IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências:</p>



<p class="wp-block-paragraph">BRASIL. Ministério da Saúde. Realidade imposta pela pandemia pode gerar transtornos mentais e agravar quadros existentes, 10 out. 2021. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2021-1/outubro/realidade-imposta-pela-pandemia-pode-gerar-transtornos-mentais-e-agravar-quadros-existentes. Acesso em: 17 fev. 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG.&nbsp;<em>A natureza da psique</em>. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_____.&nbsp;<em>O desenvolvimento da personalidade</em>. 14. ed. Petrópolis: Vozes, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O’SULLIVAN, Suzanne.&nbsp;<em>Isso é coisa da sua cabeça</em>: histórias verdadeiras sobre doenças imaginárias. Rio de Janeiro: Best Seller, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE (Opas). Relatório da OMS destaca déficit global de investimentos em saúde mental, 8 out. 2021. Disponível em: https://www.paho.org/pt/noticias/8-10-2021-relatorio-da-oms-destaca-deficit-global-investimentos-em-saude-mental. Acesso em: 17 fev. 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Saúde mental: nova concepção, nova esperança, 2001. Disponível em: https://www.who.int/whr/2001/en/whr01_po.pdf. Acesso em: 17 fev. 2022.</p>



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<h4 class="wp-block-heading" id="h-tania-pulier"><strong><em>Tania Pulier</em></strong></h4>
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		<item>
		<title>Reimaginando episódio depressivo &#8211; psicopatologia afeto e sistema de valores II</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/reimaginando-episodio-depressivo-psicopatologia-afeto-e-sistema-de-valores-ii/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ajax Salvador]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 12 Jun 2019 12:27:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Depressão]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
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		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
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		<category><![CDATA[Associação Junguiana]]></category>
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		<category><![CDATA[Congresso Junguiano]]></category>
		<category><![CDATA[depressão]]></category>
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		<category><![CDATA[Instituto Junguiano]]></category>
		<category><![CDATA[Jung na Prática]]></category>
		<category><![CDATA[Medicina Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Pós-graduação em Psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade junguiana]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=4975</guid>

					<description><![CDATA[<p>Poderia o transtorno depressivo ser reimaginado como a dominação unilateral de um conjunto de sistema de valores que, em cisão e reação de oposição e embate, produzem o que surge como sintomas? <br />
Através da narrativa Junguiana a noção de doença mental (psicopatologia) pode ser revista como o momento em que se configura a dominação unilateral de um padrão arquetípico que, em complexos, torna-se governo interior tirânico e com grande intensidade se coloca em oposição e embate contra manifestações diversas. Os complexos dominantes viveriam os elementos em cisão como inimigos a serem combatidos, o que constelaria todos os mecanismos automáticos de defesa e fariam com que estas manifestações surgissem como sintomas. <br />
Pode-se partir da descrição do episódio depressivo no X Código Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde (CID-10 OMS , 1993) em que este é apresentado como:<br />
"Em episódios depressivos típicos, (...) o indivíduo usual¬mente sofre de humor deprimido, perda de interesse e prazer e energia reduzida levando a uma fatigabilidade aumentada e atividade diminuída. Cansaço marcante após esforços apenas leves é comum (...)" (CID-10 OMS, 1993, p.117)</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/reimaginando-episodio-depressivo-psicopatologia-afeto-e-sistema-de-valores-ii/">Reimaginando episódio depressivo &#8211; psicopatologia afeto e sistema de valores II</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">​​​​​​​Poderia o transtorno depressivo ser reimaginado como a dominação unilateral de um conjunto de sistema de valores que, em&nbsp;cisão e reação de oposição e embate, produzem o que surge como sintomas?&nbsp;<br>Através da narrativa Junguiana a noção de doença mental (psicopatologia) pode ser revista como o momento em que se configura a dominação unilateral de um padrão arquetípico que, em complexos, torna-se governo interior tirânico e com grande intensidade se coloca em oposição e embate contra manifestações diversas. Os complexos dominantes viveriam os elementos em cisão como inimigos a serem combatidos, o que constelaria todos os mecanismos automáticos de defesa e fariam com que estas manifestações surgissem como sintomas.&nbsp;<br>Pode-se partir da descrição do episódio depressivo no X Código Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde (CID-10 OMS , 1993) em que este é apresentado como:<br>&#8220;Em episódios depressivos típicos, (&#8230;) o indivíduo usual¬mente sofre de humor deprimido, perda de interesse e prazer e energia reduzida levando a uma fatigabilidade aumentada e atividade diminuída. Cansaço marcante após esforços apenas leves é comum (&#8230;)&#8221; (CID-10 OMS, 1993, p.117)<br>Ao afirmar que se &#8220;sofre de humor deprimido perda de interesse e prazer e energia reduzida&#8221;, não está implícito um julgamento? Humor deprimido, perda de interesse e prazer e energia reduzida seriam necessariamente e sempre vividos com algo que produziria sofrimento? O Poeta Fernando Pessoa na poesia intitulada &#8220;Liberdade&#8221; fala:<br>&#8220;Ai que prazer<br>não cumprir um dever.<br>Ter um livro para ler<br>e não o fazer!<br>Ler é maçada,<br>estudar é nada. (&#8230;)<br>Livros são papéis pintados com tinta.<br>Estudar é uma coisa em que está indistinta<br>A distinção entre nada e coisa nenhuma. (&#8230;)&#8221;<br>(PESSOA, 1977, §195)<br>Neste poema falta de interesse em ler um livro, em cumprir um dever, não é descrito como sofrimento, mas como prazer e como liberdade. Ou seja, a vivência de sofrimento ou não, depende de uma interpretação do evento. O que é descrito como sintoma (perda de interesse) para ser vivido como sofrimento em uma determinada &#8220;situação de experiência&#8221; dependeria de uma interpretação. Haveria sempre um certo condicionamento psíquico que se interpõe ao imediatamente dado (JUNG, 1984, §195), pois o que apareceria na psique estaria sempre ligado a complexos. A teoria dos complexos permite ver a unidade da consciência como uma mera ilusão (JUNG, 1983, p.67) e cada complexo afetivo como uma imagem de determinada situação psíquica &#8220;dotada de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de autonomia. &#8221; (JUNG, 1984, §201). &#8220;Eles (os complexos) são grupos autônomos de associações, com tendência de movimento próprio, de viverem sua vida independentemente de nossa intenção. &#8221; (JUNG, 1983, p.67).<br>Os complexos, com importante grau de autonomia do complexo do eu e da consciência, realizariam julgamentos seguindo sequencias associativas que se constituíram a partir de padrões arquetípicos (estilos de consciência, fantasias dominantes, estilos imaginativos de discurso, formas de viver, pensar e sentir), efetivando-se assim valores coletivos, transpessoais, em valores vividos singular ou particularmente em cada um, de acordo com a intensidade que o valor afeta o sujeito. Quanto mais valor, mais afeto. Este circuito de afetos julga e interpreta o &#8220;imediatamente dado&#8221;- o que parece certeza sensível &#8211; faz com que este evento seja visto e vivido como tendo determinado significado e sentido para este vivente.<br>Assim, humor deprimido, perda de interesse e prazer e energia reduzida dependeriam de instâncias que julgam. Haveria uma perspectiva (complexo), que avalia, compara padrões (libido de parentesco ) e considera que havia mais prazer, energia antes do que agora e que isto é ruim. Não só há a comparação, como a valoração negativa para sofrimento e fadiga, enquanto que &#8220;atividade&#8221; aparece positivada &#8211; &#8220;levando a uma fatigabilidade aumentada e atividade diminuída&#8221;. Os outros sintomas, mais comuns, seguem a mesma lógica de avaliação (concentração e atenção reduzidas; autoestima e autoconfiança reduzidas; sono perturbado; apetite diminuído etc.).&nbsp;<br>Os valores estarem em oposição não impediriam a progressão da energia psíquica caso não estivessem desagregados, ou seja, quando ter e não ter interesse estão em composição as ações na vida seguem o fluxo de acordo com as demandas do contexto presente. Num processo de progressão , valores identificados positivamente não funcionariam separados dos valorizados negativamente &#8211; &#8220;o impulso e contra impulso, o Sim e o Não, chegam a uma ação e influências reciprocas regulares. &#8221; (JUNG, 2013, §61). No entanto, se os elementos se desagregam (ou tem ou não tem interesse) a cisão se instala e com isto o represamento da energia psíquica. Quanto mais tempo represada a energia psíquica, mais se eleva o valor das posições opostas; isto aumenta o conflito com tentativas de reprimir um dos lados. Quando um dos lados consegue suprimir o outro instala-se a dissociação (cisão). O lado dominante na consciência, embora possa ter aspecto de que está agindo por deliberação livre, estaria funcionando de forma reativa, assombrado pelos aspectos suprimidos. Por exemplo: não ter interesse deixa de acompanhar as ações interessadas e passa a funcionar como uma ameaça constante cada vez que a consciência se pergunta sobre o interesse em determinada ação. Quanto maior for a dominação imperativa de que o sujeito &#8220;tem de ter interesse&#8221; qualquer sinal de desinteresse seria rapidamente identificado como inimigo a ser combatido &#8211; isto seria valido para os demais sintomas. Uma vez constelada a ameaça a atitude preparatória e de expectativa seria automaticamente desencadeada . Com o tempo o vivente passa a ser levado a ficar cada vez mais atento aos traços de desinteresse do que ao que teria interesse. A regressão ativaria todas as associações ligadas aos traços de desinteresse incluindo as que a consciência não tem acesso (inconscientes) . Isto é descrito como a necessidade de adaptação ao &#8220;mundo psíquico interior&#8221; (JUNG, 2013, §66); mas mundo interior da própria imagem (no sentido usado na narrativa junguiana), não é algo exclusivamente individual ou de uma pessoa, pois a imagem é configurada por padrões coletivos transpessoais que por terem valor social marcaram as vivencias singulares.&nbsp;<br>Com esta configuração, eventos que fizessem surgir na psique humor deprimido, perda de interesse e prazer e energia reduzida tenderiam a ser mais facilmente interpretados como ameaças ou mesmo catástrofe. O sentido de ameaça, desespero, desamparo, catástrofe estaria constelado e os mecanismos de defesa diante da interpretação do evento seriam ativados.&nbsp;<br>Entretanto como a perspectiva que avalia &#8220;perda de interesse e prazer e energia reduzida&#8221; como necessariamente ruim ou desvalorizado não é exclusivamente pessoal, depende de valores coletivos, quanto mais forte numa cultura, sociedade ou contexto a norma ideal saudável for você tem que ter interesse e prazer, mais os sujeitos serão levados a acreditar que apenas assim terão uma vida bem-sucedida. Quanto mais se estiver sendo conduzido por critérios firmes e estáveis que interesse e prazer tem um único sentido e significado, que são necessariamente bons e, portanto, deve-se mantê-los estáveis ou ao menos não reduzi-los (só se deve aumentá-los); qualquer diminuição que acontecesse (que não for interpretada como circunstancial, efêmera e relativamente controlável) teria que instabilizar os valores que orientam a ação, ou localizar o acontecimento numa doença e preservar a forma de vida que assim valora.<br>A instalação do sintoma poderia estar diretamente relacionada com a intensidade com que determinados valores dominam, unilateralmente, uma sociedade, cultura, relações familiares, relações de trabalho etc. e com isto afetando o vivente . A doença, entretanto, depende do quanto o vivente está absorvido pelo meio (no caso normas ou valores sociais, coletivos), afinal &#8220;o que caracteriza a saúde é a possibilidade de ultrapassar a norma que define o normal momentâneo, a possibilidade de tolerar infrações à norma habitual e de instituir normas novas em situações novas. &#8221; (CANGUILHEM, 2000, p.160).<br>Retomando a teoria dos complexos que permite ver a unidade da consciência como uma mera ilusão pode-se reler que há um complexo bastante ativo no vivente em crise; este que ataca, critica, sistematicamente vai aos traços de lembranças do passado buscar ameaças do que deu &#8220;errado&#8221; e segue produzindo cenários de futuro onde também são identificados tudo o que poder dar &#8220;errado&#8221;. A este complexo não falta energia, prazer, animo, disposição, atenção, concentração ou memória. Ele alimenta-se sistematicamente dos elementos coletivos mais fortemente valorizados e impregnados nas relações familiares, sociais etc.<br>A descrição do episódio depressivo no CID X permite depreender quais os elementos normativos mais valorizados (coletivamente e nos sujeitos em crise) pois aparecem como os mais ameaçados pelos sintomas; estes são: prazer, energia, concentração, atenção, autoestima, autoconfiança, utilidade, não se sentir culpado, visões otimistas de futuro, ideias de auto-conservação, sono sem perturbações e um apetite estável.&nbsp;<br>Se &#8220;o doente é doente por só poder admitir uma norma. &#8221; (CANGUILHEM, 2000, p.149), quanto maior a cisão e a expectativa com exigência imperativa de ter que ter prazer, energia, concentração, atenção, autoestima, autoconfiança, utilidade etc, mais tudo que divergir destes elementos será vivido como ameaça desta forma de vida. Só seria tolerado o que ameaçasse estes valores quando relacionado à alguma circunstância temporária ou controlável. Não sendo o caso, só poderiam ser o resultado de uma doença, um &#8220;transtorno&#8221; ou seria necessário rever os valores saudáveis idealizados.&nbsp;<br>Contextualizando e Reimaginando a &#8220;depressão&#8221;, ela fala de uma forma de vida que valoriza e tenta manter sob controle o que coloca como ideal de saúde os elementos citados acima . Quanto mais absorvido por estes ideais como imperativos e menor a distância destas normas ideais o sujeito tiver, mais o complexo dominante em cisão entraria em embate. Cada vez que o sujeito sinta algo como desprazer, falta de energia etc. a cisão fará que isto seja vivido como ameaça aos valores e ideais &#8220;saudáveis&#8221; configurando-os como sintomas. Diante da ameaça todos os sistemas de defesa seriam automaticamente acionados intensificando o embate e com isto o que é descrito como episódio depressivo.<br>Através da OMS a psique configuraria o &#8220;episódio depressivo&#8221; no CID X para poder realizar o seu trabalho de patologizar. A psique cria patologia, para poder localizar &#8220;quais ideias, comportamentos, e fantasias estão errados (&#8230;) fantasia é a primeira realidade da psicopatologia&#8221; (HILLMAN, 2010, p.172). O natural tende a ser idealizado e é utilizado moralmente naquilo que desvie das leis gerais, padrões idealizados morais ou imorais. Pode-se entender o que é chamado saudável ou doente depende de normas que se sustentam em alguns conceitos que podem ser estéticos como harmonia ou equilíbrio ou conceitos morais como controle, regulação, contenção e mesmo políticos como ordem, hierarquia etc. Assim saúde ou doença seriam efeitos de determinações valorativas vividas, individual e coletivamente, como naturais, biológicas e literais. A psique trabalharia através das configurações dissoluções de vasos ou constelações onde alguns temas podem ser revistos.&nbsp;<br>A teoria da progressão e regressão da libido (energia psíquica) descrito na narrativa Junguiana (JUNG 2013, §60 a 76) pode fazer refletir que, se por um lado a cisão, dissociação e unilateralidade dominante em embate configuram o que surge como sintoma, a regressão da energia psíquica faria com que aumentasse o valor dos conteúdos excluídos no processo, ou seja, os elementos inconscientes adquiririam maior influência, ultrapassariam o limiar e exerçam maior força sobre a consciência.&nbsp;<br>Na clínica é frequente observar que os conteúdos sintomáticos como humor deprimido (tristeza), falta de interesse e prazer e energia reduzida passam a ter muito mais importância e valor que outros conteúdos. É como se algo no sujeito ficasse em prontidão constante esperando que um destes elementos aparecessem. Por vezes este complexo fica buscando traços destes elementos ameaçadores nos diversos contextos e mesmo quando não surgem, tem a impressão de que algo está errado; que será atacado por um evento destes ou mesmo que está acontecendo o ataque, mas não se conseguiu percebe-lo direito. Basta que um traço semelhante seja identificado numa conversa, num gesto, tom de voz ou olhar para que tudo se confirme. Os períodos em que os conteúdos sintomáticos não são reconhecidos perdem o valor; um período &#8220;melhor&#8221; não significa nada, porque em seguida voltou-se a sentir a mesma ameaça. Só conta ou só tem valor o período ameaçado.&nbsp;<br>Entretanto, se for possível ultrapassar julgamentos fundados no senso comum, em preconceitos ou aparências superficiais, pode-se vislumbrar nos conteúdos intensificados pelo processo de regressão não só restos incompatíveis e por isso rejeitados da vida cotidiana ou tendência condenáveis do homem animalesco, mas também &#8220;(&#8230;) os germes de novas possibilidade de vida (&#8230;) possibilidade de uma renovação existencial&#8221; (JUNG 2013, §63).&nbsp;<br>Há autores como Safatle (SAFATLE, 2009) que fazem uma crítica, baseada em mudanças sócio-históricas, indicando que a sociedade ocidental teria passando de uma sociedade repressiva para uma sociedade do consumo. Se até a primeira metade do século XX ainda havia muito valor no ideário do mundo capitalista do trabalho ligado à ética protestante levando ao ascetismo e a acumulação, o mundo do consumo conduziria a um imperativo que diz apenas um puro: &#8220;não ceda em seu desejo&#8221;, sem nenhum conteúdo normativo; ou seja, sem dizer como nem qual o objeto adequado. Os mecanismos de repressão ou refrear teriam sido substituídos pelos de cobrança de gratificação irrestrita. Se antes os sujeitos eram conduzidos a conter, reprimir ou administrar as formas de satisfação, passa-se a uma sociedade da insatisfação administrada onde, por mais e quanto mais se tenha ou troque, mais se fixa o permanente sentimento de insatisfação. Limitar, refrear, tomar distância, alienar perderam o lugar de valor. Instala-se, hegemonicamente, um estilo de consciência onde estes movimentos não devem ocupar lugar valorado ou fazer parte do horizonte ético de realização. Esta configuração sociocultural pode ajudar a compreender porque a mudança da predominância de sintomas de histéricos, que pressupunham instâncias repressoras, para os transtornos de ansiedade e de humor. Isto pode ser referendado pelo estudo epidemiológico dos transtornos mentais realizado entre 2005 e 2007 em São Paulo &#8211; Megacity &#8211; que aponta os transtornos de ansiedade com os de maior incidência (19,9%), seguido dos transtornos de humor (11%) e entre estes o transtorno depressivo maior (9,4%) e a Distimia (1,3%) (ANDRADE L H, 2012).<br>Tomando a categoria psicopatológica &#8220;episódio depressivo&#8221; como resistência a norma fundamentalista dominante unilateral na sociedade de consumo, ela pode atualizar os fracassos anteriores e transformá-los em germes de novas possibilidade de vida e renovação existencial. Assim, transformar o que aparece como sofrimento em valor de vida que resiste a dominação do padrão de cobrança imperativa de &#8220;não ceder em seu desejo&#8221;, de gratificação irrestrita, com seus correlatos &#8211; prazer, energia, concentração, atenção, autoestima, autoconfiança, utilidade, não se sentir culpado, visões otimistas de futuro, ideias de auto conservação, etc. E com esta leitura, poder viver outros estilos de consciência, fantasias dominantes, estilos imaginativos de discurso, formas de viver, pensar e sentir onde possa ter valor limitação, desprazer, redução de energia, sem que isto seja necessariamente vivido como ameaça ou catástrofe. Abrir possibilidades de outros sentidos e significados para estas vivencias. Poder valorizar não apenas autoconfiança, auto estima e ideias de auto conservação ligados a noção de individuo como substância de uma unidade autônoma, independente, autodeterminada; que deveria se guiar exclusivamente por padrões de unidade, identidade, espontaneidade e autenticidade expressiva, mas poder valorar positivamente confiança, estima e conservação de outros, muitos outros (externos e internos); poder ter lugar na vida para o inútil; a culpa poder falar da onipotência do complexo do ego e da sua identificação como poder tirânico com traços de uma supra humanidade demoníaca. A perda do prazer pode propor um corte numa máxima hedonista ou mesmo questionar o prazer que esta forma de vida tem em massacrar, com ataques, tudo que se coloca com limites, na experiência. Então a vida poderia se afirmar como tensão entre determinação e indeterminação, como devir, afinal &#8221; (&#8230;) a transformação é expressão de vida. &#8221; (JUNG 2013, §80).&nbsp;<br>Fernando Pessoa em uma de suas máximas afirma: &#8220;Ter opiniões definidas e certas, instintos, paixões e carácter fixo e conhecido &#8211; tudo isto monta ao horror de tornar a nossa alma um facto, (&#8230;) viver é um doce e fluido estado de desconhecimento das coisas e de si próprio. &#8221; (PESSOA,1996, p.208)<br>Referências<br>ANDRADE L H, WANG Y P, ANDREONI S, Silveira C M, ALEXANDRINO-SILVA C, et al. &#8220;Mental Disorders in Megacities: Findings from the São Paulo Megacity Mental Health Survey,.&#8221; PLoS ONE 14 de fevereiro de 2012. .<br>CANGUILHEM, Georges. O normal e o patológico. Rio de Janeiro: Forense, 2000.<br>CID-10 OMS . Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da Organização Mundial da Saúde. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.<br>HILLMAN, James. Re-vendo a psicologia. Petrópolis: Editora Vozes Ltda, 2010.<br>JUNG, Carl Gustav. A Natureza da Psique. Vols. VIII-2. Petrópolis: Vozes, 1984.<br>-. Energia Psíquica. Vol. 8/1. Petrópolis: Vozes, 2013.<br>-. Fundamentos de Psicologia Analítica. Vol. Vol. XVIII/1. Petrópolis: Vozes, 1983.<br>-. La psicologia de la transferencia. Buenos Aires: Editorial Paidos, 1978.<br>NICOLELIS, Miguel. Muito além do nosso eu. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.<br>PESSOA, Fernando. Livro do desassossego. Vol. I. Campinas: Unicamp, 1996.<br>-. Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar S A, 1977.<br>SAFATLE, Vladimir. &#8220;Um supereu para a sociedade de consumo: Sobre a instrumentalização de fantasmas como modo de socialização.&#8221; 2009. 19 de setembro de 2016. .</p>



<p class="wp-block-paragraph">SALVADOR, Ajax Perez. PSICOPATOLOGIA AFETO E SISTEMA DE VALORES.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa &#8211; IJEP. São Paulo, 17 de 10 de 2016.</p>
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		<title>Metafísica Heideggeriana e a Angústia</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/metafisica-heideggeriana-e-a-angustia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Simone Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 19 Mar 2019 20:00:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Depressão]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[angústia]]></category>
		<category><![CDATA[filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[heidegger]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=3659</guid>

					<description><![CDATA[<p>&#160;“O Nada e Seu Valor Metafísico”, na visão de M. Heidegger em sua obra “QUE É METAFÍSICA” Heidegger nesse livro ao buscar, na ciência, a compreensão do ente, depara-se com o nada: “A ciência nada quer saber do nada. Mas não é menos certo também que, justamente ali, onde ela procura expressar sua própria essência [...]</p>
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<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;“O Nada e Seu Valor Metafísico”, na visão de M. Heidegger em sua obra “<strong>QUE É METAFÍSICA”</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Heidegger nesse livro ao buscar, na ciência, a compreensão do ente, depara-se com o nada: “A ciência nada quer saber do nada. Mas não é menos certo também que, justamente ali, onde ela procura expressar sua própria essência ela recorre ao nada. Aquilo que ela rejeita, ela leva em consideração” (pág.25).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Heidegger passa então a questionar: “Que é o nada?”. Vemos aí que já existe a idéia do nada como ente, algo que é. É contraditório, ambíguo, pensar no nada como algo que “é” o que quer que seja ou não.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Seguindo-se o entendimento “o nada é a negação da totalidade do ente, o absolutamente não ente” (pág.26). A negação é ato de entendimento dentro da lógica, portanto o nada é mais originário que o não e a negação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sendo, nessa direção do pensamento, o nada a negação da totalidade do ente, precisamos primeiramente entender o que é essa totalidade do ente, se é que isso seja possível.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Heidegger então diz que nos momentos de tédio ou na alegria da existência de um ente querido, sentimos o ente em sua totalidade, ou seja, o revelar do ser-aí.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diante desse ente em sua totalidade temos justamente o ocultamento do nada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E o contrário? Quando nos deparamos com o nada? Heidegger diz que esse instante, raro, acontece por ocasião da angústia&#8230;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No entanto, não podemos confundir angústia com temor. O temor nós o sentimos em relação a algo exterior que nos torna medrosos, inseguros, confusos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A angústia não tem essa relação real disto ou daquilo. Ela nos coloca diante de um vazio.&nbsp;&nbsp;“A angústia diante de &#8230; é sempre angústia por&#8230; mas não por isto ou aquilo”(pág. 31).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ou seja, a angústia traz em si a própria manifestação do nada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Somente continua presente o puro ser-aí no estremecimento deste estar suspenso onde nada há em que apoiar-se” (pág.32).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse instante faz-se necessário uma reflexão sobre o filósofo: essas constatações acerca do nada e da angústia não me surpreenderiam se vindas de uma leitura de Jung, psicólogo familiarizado na sutil percepção do ente frente a esse nada que é a angústia. No entanto, quem nós vemos é um Heidegger sensível ao entendimento desse fato, comum, embora extremamente complexo, que a cada dia, em maior grau, surpreende-nos quando, em meio ao caos da modernidade, sentimo-nos sem chão, suspensos, sem identificação com o vazio circundante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Seguindo-se a resposta da questão percebemos que o nada que se revela na angústia, não nos é revelado como ente ou como objeto. Ele é apenas manifesto através da angústia: “Na angústia deparamos com o nada juntamente com o ente em sua totalidade” (pág.33). Vemos que o nada se revela com o e no ente, porém como algo que foge em sua totalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O nada se caracteriza pela rejeição, é a nadificação do ente em sua totalidade, não é, no entanto, a sua destruição ou a sua negação. É simplesmente a “estranheza com o absolutamente outro em face do nada” (pág. 34).</p>



<p class="wp-block-paragraph">É a alteridade do ente frente ao nada, que se conduz primeiro do ser-aí diante do ente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Ser-aí quer dizer: estar suspenso dentro do nada” (pág. 35).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O ser-aí suspenso dentro do nada possibilita a relação com o ente, conosco mesmos, livres, em nossa totalidade. É a nossa transcendência em nosso ente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“O nada é a possibilitação da revelação do ente enquanto tal para o ser-aí humano” (pág. 35).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há um dito popular que diz que: “é preciso descer ao fundo do poço para ascender à luz”. É somente através desse estado de angústia, desse vazio circundante, que nos deparamos com nossa essência, caso contrário viveremos na superfície do ser-aí.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A angústia está sempre presente, nos a velamos através do ser-aí, raras vezes nos entregamos a este nadificar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“O estar suspenso do ser-aí dentro do nada originado pela angústia escondida é o ultrapassar do ente em sua totalidade: a transcendência” (pág. 39).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Heidegger faz esses questionamentos acerca do nada para apresentar-nos a própria metafísica: “ta meta physika” =&nbsp;&nbsp;“além”&nbsp;&nbsp;do ente enquanto tal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Metafísica é o perguntar além do ente para recuperá-lo, enquanto tal e em sua totalidade, para a compreensão” (pág. 39).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na metafísica temos de um lado as questões metafísicas e de outro o ser-aí que a interroga. Estão inter-relacionados, numa interdependência constante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;“Em que medida perpassa e compreende a questão do nada a totalidade da metafísica?” (pág. 40).</p>



<p class="wp-block-paragraph">No decorrer da história essas questões acerca do ente e do nada se equiparam, para questionar um obrigatoriamente nos deparamos com o outro, são equivalentes no questionamento metafísico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ou se nega o questionamento acerca do nada “do nada nada vem” (pág. 40), ou se coloca o nada em total oposição ao ente, como sua negação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A questão do ser é intrínseca a metafísica, e a questão do nada compreende a totalidade da metafísica, isso enquanto nos força a enfrentar o problema da origem da negação; “nos coloca fundamentalmente diante da decisão sobre a legitimidade com que a lógica impera na metafísica” (pág.42).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A ciência não pode mais ignorar o nada, uma vez que somente no instante de confronto do ser-aí com o nada é que se transcende e se percebe enquanto ente em sua totalidade. Ou seja, para se chegar a um (ente), é imprescindível não ignorar o outro (nada), já que este possibilita a compreensão daquele.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O nada, portanto, é uma questão que permeia a totalidade da metafísica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A metafísica é o acontecimento essencial no âmbito do ser-aí. Ela é o próprio ser-aí” (pág.43).</p>



<p class="wp-block-paragraph">No parágrafo da pág. 44 uma comparação me parece exemplificar essa questão da transcendência do ente: os yogues, os iniciados, nos ensinam que através da meditação atingimos nosso Eu Superior, para tanto se faz necessário um silenciar dos sentidos, do pensamento, do eu inferior, seguindo-se um mergulho no vazio, ou seja, no nada, só então nosso Eu Superior se nos revela em sua plenitude.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Concluindo; na suspensão do ser-aí na vivência nadificante do nada é que o ente em sua totalidade nos faz plenos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enfim, todo processo terapêutico positivo passa por um estágio de reconhecimento, seguindo-se um estágio de angústia que, se bem elaborado, não permitindo a fuga, mas o confrontamento com o nada, o paciente torna-se consciente de si; compreende-se como um ente em sua totalidade. Vemos ser a angústia um fator positivo e totalmente contrário à depressão, ansiedade, neurose e outros tantos sintomas que no linguajar comum se confundem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se, através destes questionamentos, Heidegger trouxe grande benefício à filosofia e consequentemente a metafísica, demonstrando o grande valor do nada dentro desta ciência, muito, também, trouxe a psicologia junguiana demonstrando que esse “monstro assustador” que é a angústia, e que cedo ou tarde se nos avizinha, é fator necessário de crescimento, de evolução enfim.</p>



<p class="has-text-align-right wp-block-paragraph"><strong>Autora: Ercília Simone Dálvio Magaldi</strong></p>
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